Espaço Socialista
Publicação Marxista Revolucionária de
Debates.
Ano VII – Nº 21– Julho/Agosto
de 2007.
http://www.espacosocialista.kit.net
PARA
ENFRENTAR OS ATAQUES DO GOVERNO: UNIDADE E ORGANIZAÇÃO DE BASE
INDICE
01 – Construir um projeto alternativo contra o PAC e
as reformas ................... 01
02 – ABC realiza plenária de base contra
as reformas ........................................ 04
03 – A violência no Estado Capitalista ...................................................................
06
04 – Jogos do PAN: Corrupção e repressão .....................................................
07
05 – A quem serve o discurso da redução
da maioridade penal? ........................ 08
06 – Lei de Greve joga movimento
sindical na ilegalidade ..................................
09
07 – Governo prepara privatização do
Banco do Brasil ......................................
11
08 – Professores de SP iniciam retomada
das lutas ..............................................
13
09 – Professores do RJ: Luta unificada
barra promoção automática ................ 15
10 – Ciência a Serviço do Racismo ....................................................................
16
11 – A Comunicação na luta de Classes: O
caso Chávez e a RCTV ...................
18
Leia também o ENCARTE DA JUVENTUDE:
Construir um
projeto alternativo contra o PAC e as reformas
Os seis
primeiros meses do segundo mandato de Lula confirmam as previsões gerais de que
esse mandato será de grandes ataques contra os trabalhadores, particularmente
contra o funcionalismo público e as categorias mais organizadas.
O PAC,
o Supersimples, as Reformas e o ataque ao direito de greve são expressões
políticas e jurídicas de um processo de precarização
das condições de trabalho e de arrocho dos salários, que já vem ocorrendo
dentro dos locais de trabalho e na sociedade e que com o amparo da lei se
pretende que seja generalizado e aprofundado. Os únicos ganhadores serão as
grandes transnacionais, os bancos e o agro-negócio, ou seja
o capital e o imperialismo. Ao contrário do discurso do governo e dos
empresários, se eles conseguirem implementar essas medidas, não haverá geração
de empregos e sim a precarização dos existentes.
Mas dois novos acontecimentos vêm colocar obstáculos ao governo Lula: a retomada das lutas dos trabalhadores e estudantes e um novo ciclo de denúncias de corrupção envolvendo desde juízes, o presidente do Senado, Renan Calheiros, até o compadre de Lula, e Vavá, seu irmão.
O que está por trás das Operações da Polícia Federal
Por trás dessa crise política está a disputa
pelas verbas do PAC e pelos ganhos com as Reformas. Essa disputa envolve desde
os setores da burguesia representados pelo PSDB e DEM, passando por aqueles
representados pelo PMDB e envolvendo também a burocracia de
estado e sindical, representada pelo PT.
Essa
disputa também tem sua expressão ideológica nos diferentes modos com que cada
setor pretende levar a cabo as chamadas reformas estruturais. O PSDB e o DEM
querem um processo mais direto e com cortes na própria burocracia de estado, no
sentido de diminuir rapidamente os gastos públicos, privatizar o que for
possível, diminuir os impostos e assim aumentar seus lucros. Já a burocracia e
os setores da burguesia representados pelo PT e PMDB pretendem implementar as
mesmas reformas, mas querem fazê-lo de forma que suas posições e seus
rendimentos sejam preservados. Pela intensidade dos ataques previstos, por sua
relação com a CUT, Força Sindical e MST e por seu aprendizado nos anos em que
esteve à frente dos movimentos sabem que precisam trilhar um caminho mais
mediado e negociado, para evitar um ascenso
das lutas apoiando-se para isso no papel de contenção da CUT e da Força
Sindical. Ou seja, apesar de haver acordo geral entre todos eles na intenção de
fazer as Reformas, há divergências de interesses entre os principais setores da
burguesia e da burocracia. Depois da crise do mensalão,
estamos agora assistindo ao segundo capítulo dessa disputa que seria risível se
não envolvesse o dinheiro dos trabalhadores.
A ânsia
dos setores representados pelo PSDB e DEM pelo aumento de sua fatia nos lucros
do PAC e das Reformas é tão grande que os leva em alguns momentos a priorizar
seus interesses específicos em detrimento do que seriam os interesses da
burguesia de conjunto (avançar logo na votação das Reformas), mas isso apenas
dentro de certos limites.
O
acordo maior no sentido de realizar as Reformas que se expressou no pacto de
governabilidade entre PT e PSDB firmado logo após a posse de Lula e Serra ainda
é o predominante. Assim, não devemos ter qualquer ilusão no prosseguimento das
investigações da Polícia Federal. A intenção não é dar xeque-mate no
presidente, mas apenas pressioná-lo para barganhar mais e melhor. Lula permanece blindado como na crise do mensalão,
mesmo que agora até seu compadre e seu irmão estejam envolvidos.
Por
isso, como vimos das outras vezes, se a questão das denúncias permanecerem
restritas ao Congresso Nacional, acabarão em nada. A criação de CPI’s como
propõe o PSOL não é uma saída real, pois mesmo que descubra algo, não
conseguirá ir a fundo nas investigações a ponto de desmontar qualquer esquema,
como ficou demonstrado na crise do mensalão. Pois
nesse campo prevalecem as negociatas entre os partidos para que as apurações
não passem dos limites e depois se negociem pequenas punições para que tudo
fique como antes.
Somente
uma ampla e profunda investigação feita pelas organizações dos trabalhadores
que sejam independentes e não-governistas (sindicatos, organizações estudantis,
etc) poderá decifrar todos os esquemas e garantir que os responsáveis sejam
punidos com a prisão e o confisco de seus bens.
O Ressurgimento das Lutas
Se de
um lado temos a manifestação da podridão das instituições burguesas, do outro
temos o surgimento de algo novo: pela primeira vez desde que Lula foi eleito,
os trabalhadores dão os primeiros sinais de reação e luta unitária contra o
governo. As greves e mobilizações do funcionalismo público e demais setores
organizados da classe trabalhadora, assim como as greves e ocupações nas
universidades promovidas pela juventude marcaram a conjuntura política atual.
As mobilizações do dia 17 de abril e do dia 23 de maio e várias outras lutas
foram a expressão mais clara desse processo. E isso
está acontecendo apesar do papel de contenção e peleguismo
da CUT e da Força Sindical.
A
iniciativa ainda é do governo, dos patrões e de seus aliados, mas estamos em um
processo que só começou e nesse momento tende a se fortalecer.
A
combinação entre o início das mobilizações e essa disputa mais de fundo entre
os setores da burguesia e da burocracia já estão provocando algum atraso no
ritmo dos ataques previstos. No entanto sabemos que somente o aumento das
lutas, sua unificação e radicalização poderão provocar uma crise política no
governo capaz de fazê-lo recuar de seus planos ou até mesmo impor uma derrota
maior ao governo e seu projeto.
O peleguismo da CUT e a experiência dos trabalhadores
Primeiro
queremos chamar a atenção sobre o papel nefasto da CUT e Força Sindical, pois
em outros tempos por motivos muito menores teriam chamado mobilizações e hoje
se calam a medida em que subordinaram os interesses gerais dos trabalhadores
aos interesses de sua manutenção como burocracia atrelada ao estado burguês e
aos interesses dos patrões. A negociata em torno da Reforma Sindical e do
dinheiro do Imposto Sindical já realizada e que deve ser baixada como medida
provisória nas próximas semanas é o que realmente interessa. Sua estratégia é a
fusão entre o sindicalismo e a estrutura de estado em que sua ascensão possa
ser contínua até os altos escalões do estado.
O
silencio da CUT e da Força Sindical diante da declaração de Lula de que as
greves dos servidores públicos são férias é a demonstração cabal de seu total peleguismo.
Essa
nova realidade abre a possibilidade de avançar no processo de ruptura dos
trabalhadores e dos sindicatos com a CUT e na construção de uma nova ferramenta
de luta que seja superior à CONLUTAS e à INTERSINDICAL
e sirva de referência muito maior de aglutinação para as entidades de
luta.
Assim é
totalmente descabida qualquer exigência de que a CUT rompa com o governo Lula,
como feita pelos companheiros
do PSTU nas manifestações do dia 23. Pois já está bem claro para todos, e nem a
própria CUT esconde, que defende o projeto burguês do governo Lula e que o
considera como um governo seu.
O papel
de uma organização revolucionária não é contribuir para o aumento da confusão,
mas para o esclarecimento da situação. Exigências são corretas para desmascarar
as direções burocráticas quando sua posição é dúbia. Esse não é de modo algum a
postura da CUT perante o governo Lula na realidade atual.
Do que
se trata é de desmascarar a inconsistência de seu projeto pelego e chamar os
sindicatos e os trabalhadores a romperem com a CUT e a não sustentarem nem mais
um dia essa casta de parasitas.
A realidade exige uma Nova Central Unificada entre Conlutas, Intersindical e demais movimentos e sindicatos
que rompam com a CUT!
As
lutas aprofundam à experiência dos trabalhadores dos serviços públicos e das
categorias mais organizadas contra o governo Lula, as Reformas e também contra
a CUT. Isso se expressou no fato de que as mobilizações do dia 23 de junho, ao
contrário do que a CUT queria, foram manifestações contra o governo Lula e em
sua maioria por fora do controle da CUT. A CONLUTAS foi sem dúvida a vanguarda em chamar e dirigir essas lutas que também
envolveram outros setores da classe trabalhadora e dos explorados como Movimento
dos Sem Terra, Movimento dos Atingidos por Barragens, etc.
Apesar
de não ter revertido a correlação de forças ao nosso
favor, esse primeiro ciclo de lutas tem que servir para tirarmos a conclusão de
que é necessário impulsionar, apoiar e unificar as lutas em curso e, em segundo
lugar, que é preciso construir uma unidade mais orgânica daqueles que estão
contra o governo e contra as reformas. Pensamos que, em um momento histórico
que não há nenhuma força de esquerda que consiga mobilizar o conjunto do
proletariado, a unidade na luta é praticamente uma condição para a vitória dos
trabalhadores.
Assim,
ganha importância o chamado feito pela CONLUTAS a todos os sindicatos sérios e
combativos que ainda estão filiados a CUT, particularmente aos companheiros da
Intersindical a que rompam com a CUT e estabeleçam as discussões no sentido da
formação de uma única Central que unifique a CONLUTAS, a INTERSINDICAL e todos os setores de
luta que ainda existem nos demais movimentos sociais como no MST. Independente
dos limites que tal iniciativa venha ter, estaríamos
efetivamente numa situação muito mais avançada do que nos encontramos.
Evidentemente que se abriria todo um debate sobre o programa, projeto, atuação
e forma de organização dessa nova central, o que seria extremamente rico além
de se constituir definitivamente como um novo ponto de referência para milhões
de trabalhadores em todo o país. Com a palavra estão os companheiros da
INTERSINDICAL.
Enquanto
isso ainda não se concretiza, temos que apontar os novos passos do movimento.
Nesse sentido o calendário de manifestações apontado pela CONLUTAS ainda é
insuficiente pois prevê duas manifestações: uma no Rio
de Janeiro, por ocasião do PAN e outra em Brasília em outubro, mês em que
termina o Fórum Nacional da Previdência e o governo deve enviar o projeto de
Reforma da Previdência para o Congresso. É preciso ao retomar o 2º semestre
discutir e preparar novas manifestações e campanhas no período até outubro de
modo que a Marcha à Brasília seja uma confluência de todos os processos de luta
deste ano.
Assim,
será preciso uma data de mobilizações em agosto e a preparação da Marcha a
Brasília. Tal marcha não pode ficar restrita a si mesma, mas ser respaldada por
um conjunto de manifestações nos diversos pontos do país, combinando com
greves, paralisações, panfletagens, e outras ações que interfiram na produção e
circulação do capital.
Superar as Lacunas do Processo de Reorganização do Movimento!
Desde o
início deste ano vimos alertando para a necessidade de superar duas lacunas
importantes para o avanço do movimento contra o PAC e as Reformas, sem que no entanto as principais correntes e partidos atentem para
essa necessidade.São elas:
1) Realizar Plenárias Regionais de Base contra o
PAC e as Reformas.
Desde
que se iniciou o movimento de unidade na luta contra o PAC e as Reformas, a
partir do Encontro de 25/03 em São Paulo, apesar da falas de todos os
participantes terem frisado a importância de se levar a
luta contra as reformas para a base, não há uma orientação concreta de como
isso poderia ser feito. O Espaço Socialista propôs no mesmo Encontro e em
momentos posteriores que sejam realizadas Plenárias Regionais de Base contra as
Reformas (ver matéria da Plenária do ABC). Essa é uma forma concreta de se
juntar milhões de ativistas em todo o país e levar para a base das categorias e
dos demais setores sociais a campanha contra as Reformas.
2) Apresentar um Programa Socialista Alternativo
às Reformas do capital
Outra
defasagem que precisa ser corrigida é a ausência até agora de um Projeto
Alternativo ao PAC e às Reformas, um Programa Mínimo que possa ser abraçado e
defendido pelo conjunto das forças políticas e dos trabalhadores como uma
alternativa real para combater a precarização, o
desemprego, a degradação dos serviços públicos, a agiotagem, a corrupção, a
degradação ambiental. Precisamos dessa proposta alternativa para disputar a
consciência dos milhões de trabalhadores dizendo que não somos obrigados a
aceitar as Reformas e que existe outra saída que significa levar em contra os
interesses dos trabalhadores e da maioria da sociedade e não os interesses do
capital.
Essa
alternativa deve ser agitada e propagandeada não
apenas para os setores diretamente atingidos pelas Reformas, mas para o
conjunto dos trabalhadores no sentido de apresentar um outro projeto de país e
de sociedade, um projeto socialista dos trabalhadores.
Temos
que ligar as bandeiras de luta concretas com as propostas que rompam com os
interesses do capital e apontem para a necessidade de que sejam os
trabalhadores a decidirem os rumos do país.
Assim,
colocamos abaixo nossas propostas para um Programa
Mínimo Socialista dos Trabalhadores:
- Não pagamento da dívida pública, interna e
externa. No primeiro mandato de Lula foram pagos R$ 331 bilhões, que não foram
suficientes sequer para pagar os juros, que eram de R$ 590 bilhões. Assim, a
dívida cresceu ainda mais e hoje atinge 1 trilhão e
300 bilhões de reais. Só neste ano, estão previstos mais R$ 165,9 bilhões para
pagamento de juros. Na prática, essa dívida já foi paga. Defendemos que desse
dinheiro seja investido num programa de obras e serviços públicos sob controle
dos
trabalhadores, para
gerar empregos e melhorar as condições imediatas de saúde, educação, moradia, transporte,
cultura e lazer;
- Redução da jornada de trabalho para 30 horas
semanais, sem redução do salário;
- Carteira de trabalho e direitos trabalhistas
para todos, em todos os ramos da economia, da cidade e do campo. Fim das
terceirizações e do trabalho precário;
- Salário mínimo do DIEESE (R$ 1.564,52) para
todos os trabalhadores;
- Reestatização das
empresas privatizadas, sob controle dos trabalhadores, com reintegração dos
demitidos;
- Estatização do sistema financeiro sob controle
dos trabalhadores;
- Reforma agrária sob controle dos trabalhadores.
Fim do latifúndio. Por uma agricultura coletiva, orgânica e
ecológica voltada para as necessidades da classe trabalhadora;
- Por um governo socialista dos trabalhadores
baseado em suas organizações de luta;
- Por
uma sociedade socialista.
ABC realiza plenária de base contra as
reformas
A partir da
proposta do Espaço Socialista e apesar da resistência inicial de algumas
correntes, terminou havendo acordo no sentido de se convocar no ABC uma
plenária contra as reformas e o governo Lula. Esta Plenária realizou-se em 3 de
junho. Assinaram a lista mais de 130 pessoas, representando 27 organizações
políticas e entidades do movimento social, estavam presentes praticamente todas
as forças de oposição ao governo Lula que atuam na região.
A importância
dessa plenária está no fato de que a região é um dos “berços” da CUT e do PT, e
que os trabalhadores da região ainda têm ilusões em Lula e nos dirigentes
sindicais cutistas, se bem que estão cada vez mais
desgastados em fábricas importantes como a VW.
Outra questão
é que a realização de plenárias nas regiões é um caminho para dar seqüência às
resoluções do Encontro Nacional do dia 25 de março, organizando a luta pela
base e envolvendo o maior número possível de trabalhadores e
ativistas. Se essa experiência se realizasse pelo país afora, certamente
poderíamos reunir milhares de trabalhadores, discutindo medidas e ações
concretas contra as reformas. Essa tarefa cabe à
CONLUTAS e à INTERSINDICAL, como correntes nacionais que devem impulsionar sua
realização e organizar os trabalhadores, pela base, contra o governo, as
reformas e sua política econômica.
A realização dessa plenária, com tamanha diversidade de posições
políticas, só pode ser explicada pela pressão objetiva que existe entre
os trabalhadores e os ativistas pela unidade da esquerda, representando um
sentimento de que: ou lutamos juntos ou corremos o risco de sermos todos
derrotados. Sem dúvida que a sua realização foi uma vitória importante, ainda
que tenhamos que seguir construindo essa unidade.
Em relação às
decisões do encontro, também acreditamos que foram positivas, pois tendo como
base o acordo político e o consenso entre as correntes, os eixos aprovados
refletem que o peso político da plenária era de esquerda e de oposição ao
governo Lula e aos prefeitos da região, que também dão sustentação à
governabilidade.
Os principais
eixos aprovados e que servirão de base para a elaboração do panfleto são os
seguintes: contra as reformas, vinculando a denúncia destas no papel do
capitalismo; oposição ao governo Lula; denúncia do papel do PT e da CUT, que se
colocaram contra as lutas e a favor do governo e dos patrões; contra a criminalização dos movimentos sociais; contra a redução da
maioridade penal; apoio às lutas que estão em curso (professores e estudantes
das universidades paulistas, CSN, Ibama, etc.); e também apresentando
reivindicações das mulheres, da juventude e dos trabalhadores/as
negr@s.
Esses eixos
políticos, ao nosso modo de ver, nos permite ir ao encontro dos trabalhadores e
disputarmos sua consciência para a luta contra as reformas.
Outra
resolução fundamental foi a construção de atividades
nas fábricas da região, nas escolas e faculdades, e nos centros das cidades de
São Bernardo e Santo André, com distribuição de material explicando para os
trabalhadores o verdadeiro conteúdo ideológico das medidas do governo.
QUANDO O
DEBATE PODE AJUDAR E QUANDO PODE ATRAPALHAR
Para nós do
Espaço Socialista, a luta pela unidade da esquerda ocupa um papel central na
nossa política, mas temos ciência das dificuldades de construí-la, tanto pelo
estágio ainda inicial do ressurgimento das lutas de massas, que imponha a
unidade sobre as organizações, como pela própria trajetória da esquerda, que
tem concentrado suas forças numa disputa pelo controle do movimento sem levar
em conta as necessidades da luta e dos trabalhadores.
Temos a plena
convicção de que a unidade não é fácil, mas também temos a plena convicção de
que ela é fundamental, e é por isso que jogamos todas as nossas forças para
essa construção e, como é natural, temos aberto mão de várias de nossas
propostas para viabilizar esta unidade.
Unidade não é
uma imposição do programa de uma organização sobre as demais, pelo contrário, é
a busca de um programa comum entre todos, ou seja, na
prática é um programa mínimo que unifica a todos e na qual todos têm que abrir
mão de alguma coisa. Não alegra a todos, mas também não entristece a todos.
Atitudes proclamatórias em nada contribuem.
Remarcamos a
vitória dessa plenária, até porque durante os debates não foram poucas as vezes em que a unidade esteve em risco porque algumas
organizações insistiam em querer impor suas posições até mesmo realizando
discussões que não cabiam naquele espaço, como o balanço da greve de professores
de SP, pois são discussões específicas, ou seja, já se colocam discussões que
de antemão sabem que não terá acordo. Por outro lado, também havia aqueles que
queriam condicionar sua presença ao fato da plenária adotar a sua formulação.
Situações como
essas são totalmente improdutivas, pois mesmo que se chegue ao absurdo (naquele
momento) de realizar a votação, a polêmica não acaba ali, pois é a realidade da
luta de classes que vai demonstrar para qual lado os fatos vão pender.
O debate entre
as organizações de esquerda é fundamental para a formação política e teórica
dos militantes, inclusive como forma de buscar sínteses teóricas e
programáticas. Mas esse debate deve ter uma finalidade, um objetivo, que é
ajudar os trabalhadores a desenvolverem a sua consciência e construírem um
projeto socialista. Sem esse objetivo, o debate torna-se estéril, acadêmico e
de interesse escolástico e é nessa situação que muitas vezes as polêmicas entre
as organizações de esquerda caem.
CONLUTAS E
INTERSINDICAL DEVEM IMPULSIONAR PLENÁRIAS DE BASE
A experiência
do ABC mostra que é possível construir um amplo movimento pela base para lutar
contra as reformas e contra o governo Lula. Já afirmamos que o encontro do dia
25 de março foi um marco importante nessa luta, mas ele não armou o conjunto
dos militantes para a construção de comitês, fóruns e plenárias de base que
pudessem reunir os trabalhadores que estão contra as reformas.
Em cidades em
que o peso da CUT (metalúrgicos do ABC, bancários, etc) e da Força Sindical
(metalúrgicos de SP, por exemplo) é muito forte, iniciativas
como essas podem romper o cerco a que os trabalhadores estão submetidos. É
perfeitamente possível que nas maiores cidades do país reúnam entre 15 ou 20
mil trabalhadores ao todo para discutir como organizar essa luta. Fortaleceria
ou não a luta contra as reformas e o governo Lula?
Então, cabe
tanto à CONLUTAS como à INTERSINDICAL, como
organizações presentes em quase todo o país, impulsionar esse processo, pois,
se perdermos essa oportunidade, a história cobrará um preço caro pela omissão.
A Violência no Estado Capitalista
Neuza
A. Peres – Professores - SP
“Nosso planeta está cheio. Não somente do ponto de
vista físico, como também social e político. Hoje são postos em movimento
enormes contingentes de seres humanos destituídos de meios de sobrevivência em
seus locais de origem. Já não há mais espaço social para os parias da
modernidade, os inadaptados, expulsos,
marginalizados, o lixo humano produzido pela sociedade de consumo”. (Zygmunt Bauman - Vidas Desperdiçadas)
A situação de violência que se manifesta nas sociedades, particularmente a brasileira, é o objeto de reflexão deste artigo. Não a violência urbana que aparece diariamente em manchetes nos meios de comunicação, mas a verdadeira violência que é o resultado da divisão de classes do sistema econômico capitalista.
No recorte acima, o autor classifica as pessoas fora do setor produtivo (formal e informal) como refugos do processo econômico. Essa massa de excluídos é constituída por trabalhadores que não possuem uma formação profissional e por isso não se caracterizam como mão-de-obra qualificada. Não acompanharam o desenvolvimento tecnológico dentro do processo de globalização da economia e mais, são o reflexo do fortalecimento das políticas de “Estado mínimo” dos governos neoliberais.
Até os anos setenta, o desemprego era um fenômeno que ocorria apenas em alguns setores da economia, ou em conjunturas específicas. Com as transformações do capitalismo, em decorrência de sucessivas crises e os desenvolvimentos tecnológicos que originaram a globalização da economia (e da pobreza), o desemprego deixou de ser circunstancial para ser permanente.
Dentro deste contexto, estão fora do setor produtivo: os operários de fábricas, descartados pela robotização da mão-de-obra; os trabalhadores do setor de serviços substituídos pelas máquinas; os que não se enquadram aos padrões físicos, diante da redução do limite de idade, considerado pelo sistema capitalista como tempo de vida ativa; os que não tiveram acesso a um ensino público de “qualidade”, resultado das políticas educacionais adotadas pelo Estado, em obediência aos desmandos do capitalismo imperialista.
As novas tecnologias não afetaram somente os operários dos grandes centros urbanos, mas também os trabalhadores no campo, provocando um êxodo rural em grande escala. O crescimento rápido das cidades resultou numa urbanização desordenada e acúmulo populacional em zonas de periferia. O difícil acesso aos morros e favelas transformaram esses locais em quartéis-generais de comandos do crime organizado. É neste cenário que se estabelece o índice maior de violência e criminalidade resultante da falta de perspectiva, emprego, qualidade de vida e ainda a pauperização crescente.
“Essa população fora da lei jamais será incorporada
ao sistema produtivo nem manterá qualquer tipo de relação estável. Também não
há mais espaço para onde fugir, nem para pensar no futuro. Essas pessoas não
têm futuro”. Diante
de uma realidade de fome e miséria, a vida deixa de ter valor. Assim, cada vez
mais, a luta pela sobrevivência diária é o objetivo único no cotidiano das
pessoas. Reflexo da crueldade que se estabelece na divisão de classes.
Nunca antes foram as máfias tão numerosas, influentes e bem armadas. O dinheiro que todo dia muda de mãos e que provém de fontes criminosas e ao mesmo tempo se destinam a fontes criminosas, nada mais é do que lavagem de dinheiro do crime organizado ou produto da corrupção na política. São esses escândalos de corrupção envolvendo políticos e o dinheiro público que demonstram a importância da violência para o Estado capitalista.
“O grande problema dos Estados é que destino dar a
esse ‘lixo’ –
que não pode mais ser enviado para as antigas fronteiras móveis do capitalismo
colonial. É ele que constitui o objeto das políticas de segurança, o aspecto
número um da atenção pública de todo o planeta”.
A posição do Estado de contensão da violência, investimento massivo em armamentos e na formação de um contingente humano reprodutor das normas “disciplinares” serve apenas para colocar trabalhador contra trabalhador. O controle da natalidade disfarçada em medida de prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis, nada mais é do que medida para evitar a superpopulação. Colocar o Exército nas ruas, reduzir a idade penal ou evitar o crescimento populacional não vai resolver um problema que é estrutural.
Este processo não é novo. Ao longo de toda a história da humanidade, qualquer que tenha sido o sistema econômico seja ele o escravista, feudal ou capitalista sempre que os trabalhadores tiveram consciência da exploração a que estavam submetidos, buscaram unidade entre si e mudaram a história, promovendo revoluções.
Desta forma, somente a luta dos explorados por saúde e educação públicas de qualidade, moradia, e emprego pode levar a adoção de um novo modelo de Estado que não se utiliza da violência para marginalizar a classe que vende a força de trabalho.
Jogos do
PAN: Corrupção e repressão
Ney Nunes – União Comunista - RJ
O Rio de
Janeiro vai sediar em julho os Jogos Panamericanos.
Esse evento que, em tese, deveria ser de celebração da vida e da paz, um
encontro dos povos americanos através do esporte, vai, na verdade, se
caracterizar como uma das maiores intervenções repressivas na cidade. A
principal preocupação dos organizadores é com a “segurança”, mas obviamente não
a segurança da maioria do povo carioca, e sim das autoridades, turistas e
atletas presentes. Os investimentos públicos nessa área somam perto de
quatrocentos milhões de reais, mobilizando uma força policial de 18 mil homens.
O
Pan-2007 vai ficar marcado também como uma das maiores negociatas, com um
orçamento, que pulou de oitocentos milhões para 3,2 bilhões
de reais, principalmente devido “a instalações e infra-estrutura do
evento superdimensionadas, não aproveitamento das
instalações já existentes e irregularidades em licitações”, segundo um
relatório do Tribunal de Contas da União (TCU).
Quando o
próprio TCU (órgão do aparato estatal que na maioria das vezes se presta a
encobrir as irregularidades cometidas pelos governantes) aprova por unanimidade
um relatório com esse conteúdo, fica evidente o quanto de corrupção e
desperdício de recursos públicos estão presentes na preparação desse Pan-2007.
Estão
unidos nessa farra com o dinheiro do povo, o Presidente Lula
(PT), o Governador Sérgio Cabral (PMDB) e o Prefeito Cesar
Maia (DEM). Assim, podemos ver que as diferenças entre esses políticos a
serviço da burguesia são pequenas diante da oportunidade de sangrar os cofres
públicos. Os empreiteiros e os empresários da indústria do turismo serão os
grandes beneficiados, além daquelas empresas que vão receber muito dinheiro
através de concessões de estádios e outras instalações pela Prefeitura carioca.
No
tocante a segurança, montou-se uma articulação que envolve todo o aparato
repressivo do Estado, começando pela ABIN (antigo SNI), polícias federal,
rodoviária, militar, Guarda Nacional e Guarda Municipal. Diante do quadro de
violência cotidiana que vive o Rio de Janeiro, onde a maioria do povo vive imprensada
entre o banditismo e a repressão policial indiscriminada, a opção dos
governantes foi sitiar a cidade, cercando áreas consideradas mais perigosas com
tropas de choque da Polícia Militar e da Guarda Nacional.
Desde
o final do ano passado os moradores vêm denunciando as conseqüências desse
cerco. Em ato público no Complexo do Alemão em outubro de 2006, eles informaram
que sofrem diariamente humilhações de todo tipo, como roubos, extorsão contra
comerciantes, invasão de casas, agressões e ameaças de morte. Sem falar nas
ditas “balas perdidas”, oriundas dos tiroteios que acontecem a qualquer hora do
dia ou da noite. Mas essas manifestações não foram suficientes para impedir a
escalada repressiva. Agora, com a proximidade do início do Pan, ela se intensificou.
Só na região do Complexo do Alemão e bairros do entorno, num período de dois
meses são mais de setenta baleados e trinta mortos. As escolas estão fechadas e
os alunos sem aula, serviços públicos interrompidos, falta água e energia, o
comércio funciona precariamente. Um estado de guerra, guerra contra o povo
pobre do Rio de Janeiro.
A quem serve o discurso da redução da
maioridade penal?
André Luis Bender (Estudante da Faculdade de Direito São Bernardo).
De tempos em tempos o debate sobre a “Redução da Maioridade Penal” volta à cena, quase sempre impulsionado pelas emissoras de televisão, porta-vozes da classe dominante, com o objetivo principal fazer com que as idéias dessa classe sejam aceitas como idéias de todos. Por essa razão é muito comum ver pessoas de baixa renda, que sofrem com todos os distúrbios e exclusões da favela, defenderem com firmeza a redução da maioridade penal e até, pasmem, a pena de morte. Não se dão conta que essas leis vão pegar apenas os seus filhos, e os filhos de seus amigos e vizinhos. Jovem branco, de classe média, paga propina ou presta pena alternativa. Jovem negro vai mofar no depósito.
O que está implícito no discurso dos que defendem a diminuição da maioridade penal é que aí está a solução para os problemas. Mas, qual é o problema disso?
Os dados revelam que é quase insignificante a participação de adolescentes na “nova onda de violência”. Vejamos: 1) Apenas 0,2% da população entre 12 e 18 anos havia cometido algum tipo de ato infracional, sendo que 73,8% destes eram crimes contra o patrimônio, e não contra a vida (Dados da Secretaria Especial de Direitos Humanos do governo federal, ano 2004). 2) No estado de São Paulo, menos de 4% das infrações foram cometidas por crianças ou adolescentes como autores, sendo que os adolescentes são responsáveis por apenas 1% dos homicídios praticados (dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, dados de 2003).
Os dados, ao contrário, mostram que as crianças e adolescentes são as maiores vítimas da violência. A população de 0 a 19 anos foi alvo de 110.320 homicídios entre 1980 e 2002 (dados de estudo publicado pela USP). Isso representa 13 homicídios por dia cometidos contra uma criança ou adolescente. E o pior, este número cresceu 316% neste período. Outros dados mostram que, no período de 1994 e 2004, o número de morte entre jovens de 15 e 24 anos aumentou 48,4%, enquanto o crescimento populacional foi de 16,5%. Um determinado tipo de jovem – da periferia, de baixa renda, e normalmente negro – está sendo exterminado.
Outro argumento utilizado é que sem medidas penais passaria a impressão de impunidade. Ora, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) já responsabiliza o jovem adolescente autor de ato infracional, pois prevê seis tipos de medidas sócio-educativas: advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semi-liberdade e internação. Claro que essas medidas deveriam ser aplicadas visando à proteção integral do jovem, mas, se formos investigar o que ocorre nas unidades que abrigam o jovem autor de ato infracional, vamos encontrar verdadeiros depósitos, sem qualquer possibilidade de “recuperar” tal jovem.
Se as autoridades quisessem de fato resolver o problema da violência teriam que começar cumprindo o art. 227 da Constituição Federal que diz: "É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão". Cumpra-se a lei, diria o “operador do direito”. Mas, a questão é que cumprir essa lei, coloca em xeque os “negócios” do Estado, que é fazer girar o capitalismo.
O governo atual está aumentando o superávit primário. O que isso significa? Significa que está gastando menos. Onde? Em áreas sociais, como saúde e educação. Tudo isso o estado está fazendo para dar aos empresários isenções de impostos e construir obras de seu interesse como portos, estradas, hidrelétricas. Simplificando: o Estado tira das verbas sociais para dar aos empresários.
Por isso somos radicalmente contra a redução da maioridade penal. E como resposta, exigimos que o Estado cumpra o artigo 227 da Constituição Federal. Para os menores em conflito com a Lei, que se cumpra o ECA. E para evitar que os jovens caminhem para a violência, que haja uma escola de tempo integral de qualidade, onde as crianças ocupem seu tempo de maneira saudável e criativa. Para isso é preciso também que os professores sejam valorizados com salários adequados e formação permanente.Que haja também uma redução da jornada de trabalho para 30 h, sem redução dos salários, gerando os empregos necessários.
Mas, nenhuma ilusão no estado capitalista. Para isso, precisamos de um movimento unitário entre professoras/es, trabalhadoras/es, e estudantes, no sentido de exigir mais e melhores empregos para todos, e de um projeto de escola e de sociedade que tire as crianças e jovens da rota do crime, que desenvolva todo seu potencial, e se concretize, enfim, num estado dos trabalhadores rumo ao socialismo. Até lá.
Lei de Greve joga movimento sindical na
ilegalidade
Márcio Cardoso (Bancários/SP)
No bojo
das reformas neoliberais, o governo Lula do PT (Partido dos Traidores) prepara
mais um duro golpe nos trabalhadores: jogar o exercício do direito
constitucional de greve na ilegalidade, prevendo suspensão, compensação dos
dias parados, e, pasmem, DEMISSÃO do trabalhador que participar do movimento. Começa
atacando o setor público, para depois estendê-lo para o restante dos
trabalhadores. Segue abaixo as principais linhas do Projeto de Lei (PL) 4497 de
2001. TODOS os servidores tanto estatutários quanto os celetistas
serão afetados pela medida.
O
Projeto de Lei determina que os servidores alocados em órgãos ou entidades
públicas responderão nos termos da presente proposição. Tal definição do que é
órgão ou entidade pública está no art. 2º, I do Projeto de Lei, que está com a
seguinte redação:
. Art. 2º. Para fins desta lei considera-se:
. I- Órgão ou entidade pública: órgão da Administração
direta ou indireta de qualquer dos Poderes
da união, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e suas
respectivas autarquias e fundações públicas.
Funcionários da
Administração direta são aqueles cujo regime jurídico é o do Estatuto dos
Funcionários das esferas Federal, Estadual e Municipal e estão alocados
notadamente nos Ministérios e Secretarias, Câmaras e Assembléias. Já os
funcionários da Administração Indireta são aqueles trabalhadores de fundações,
autarquias, empresas públicas e sociedades de economia mista. Sendo que estes
dois últimos são trabalhadores regidos pela CLT por que estão no mercado como
qualquer empresa. Tais trabalhadores encontramos nas
empresas como Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Petrobras.
Primeiro, cai a falácia de que o projeto só valeria para os estatutários, abrangendo
trabalhadores regidos pela CLT. Dessa forma, para a cassação do direito de
greve passar para a classe trabalhadora de conjunto é só uma questão de tempo,
pois suas bases já estão lançadas. E começa pela vanguarda do movimento.
Conceitos e regras burguesas para a Greve
O primeiro golpe dado
pelo governo foi na conceituação de greve. Segundo o Projeto de Lei, a greve é:suspensão coletiva, temporária e pacífica, total
ou parcial, da prestação de serviços públicos subordinados à Administração (art. 2º, IV).
Isso quer dizer que,
basta o patrão chamar a polícia para desfazer um piquete para que caia por
terra o caráter pacífico da grave e a considere abusiva, ensejando uma série de
sanções aos trabalhadores. É uma medida que inviabiliza o piquete e o enfrentamento
com o patrão, pois não se permitirá uma comissão de esclarecimento na porta dos
locais de trabalho.
O governo Lula chega ao
absurdo de fixar a exigência de presença de até 50% da categoria na assembléia
que deliberará a greve. Vai às favas a autonomia sindical. Se levado à risca o
Projeto de Lei, a greve sempre será abusiva. Um exemplo disso é a greve dos
bancários em 2004, que foi a mais representativa e significativa depois de 10
anos. As maiores assembléias tiveram 3000 trabalhadores. Isto representa apenas
3% da base de São Paulo, com mais de 100 mil bancários. Para a deflagração da
greve, nos moldes deste Projeto, seria necessário que o sindicato fizesse assembléias no Estádio do Morumbi, único lugar da cidade que
comporta mais de 50 mil pessoas, tamanha a insanidade do governo!
Outra manobra para
considerar o movimento de greve como abusivo é condicioná-lo à
previa comunicação ao patrão imediato, com antecedência mínima de 72 horas, ou
seja, 3 dias (art.4º)! Junto com isso ataca também os piquetes:
. §1º. É obrigatória a comunicação da
deflagração da greve das reivindicações dos servidores à Administração, por
parte da entidade sindical, ou da comissão de negociação a que se refere o art.
3º com antecedência mínima de 72 (setenta e duas) horas
antes do início da greve.
É bom ressaltar que,
historicamente, os trabalhadores sempre se pautaram pela negociação com o
patrão, respaldada pela base, para conseguir conquistas ou defender direitos,
sem a necessidade de um enfrentamento extremo como é a greve. Antes da greve,
os trabalhadores promovem intermináveis rodadas de negociação. Somente quando
os patrões se mostram irredutíveis é que os trabalhadores lançam mão do último
recurso para dobrar a patronal. Novamente temos como exemplo a categoria de
bancários, que na campanha salarial de 2006, após 6
rodadas de negociação, com duração de 3 meses e data base estourada, é que a
greve foi deflagrada. Tendo como resultado apenas 3,5% de reajuste, diante de
uma proposta inicial de 2% (a reivindicação da categoria era de 7%) .Assim, já se responde a seguinte pergunta: São
necessários 3 DIAS DE ANTECEDÊNCIA para avisar os
patrões sobre a deflagração da greve? Claro que não, pois é a condução natural
do processo infrutífero de negociação e de intransigência dos patrões.
As medidas antipiquetes buscam acabar com a alma do movimento
grevista. O piquete é utilizado para se evitar que o movimento seja minado
pelos trabalhadores que não queiram aderir ao movimento e colocam
em risco o interesse do coletivo. É através do piquete que se consegue adesão
massiva dos trabalhadores e se esclarece a população sobre os objetivos do
movimento. Mas as
maldades ainda não terminaram...
Para os trabalhadores os três P´s: Prisão,
Punição, e Porta da rua.
O Projeto de Lei 4497/01
institucionaliza a compensação dos dias parados para os trabalhadores que
exercerem o direito legítimo e constitucional de greve. Acaba com qualquer
possibilidade de adesão ao movimento, pois os trabalhadores saberão de antemão
que serão punidos com a reposição dos dias parados. Geralmente a reposição é
feita por meio de horas extraordinárias de trabalho, em que o indivíduo tem
direito ao acréscimo de, pelo menos, 50% da hora trabalhada. É a legalização da fraude da hora-extra,
conforme o art. 9º.
. Os dias de greve serão contados como de efetivo
exercício para todos os efeitos, desde que, após o encerramento da greve, sejam
repostas as horas não trabalhadas, de acordo com o cronograma estabelecido
conjuntamente pela Administração e entidade sindical, ou comissão de negociação
a que se refere o §2º do art. 3º.
E mais, constatado o
abuso do direito de greve (segundo as regras do patrão) o servidor ainda se
submeterá a uma suspensão de até 90 dias, que poderá ser convertida em multa de
até 30 % do salário. Dependendo do conseguido o reajuste virará pó, diante de
uma mordida dessa no bolso do trabalhador, por exercer um direito. É o primeiro “P” de Punição.
Os trabalhadores,
infringindo as normas patronais no presente Projeto de Lei, responderão
processo nas esferas administrativas, penal e civil pelos “prejuízos” causados
em função do movimento. Convém aqui fazer um debate: E quando houver a
radicalização do movimento por intransigência do patrão, que não tem nada a
perder com a referida lei? Ele não é obrigado a sequer analisar a proposta dos
trabalhadores ou repor a inflação. Por outro lado, dá carta branca para que o
patrão prenda o funcionário que optou por “furar” a greve nas repartições,
focando, inclusive, a pernoite no local de trabalho. Mas para isto pode-se
alegar que o patrão está exercendo o direito constitucional de propriedade, não
é, DEMocratas de plantão? Nestes casos, com a radicalização do
movimento, por culpa da intransigência da Administração, só restaria a prisão
do servidor num eventual enfrentamento com a polícia, mandada pelo patrão. É o
segundo “P” de prisão.
Agora, a pá-de-cal vem
com a determinação do Projeto de Lei que prevê a DEMISSÃO do trabalhador, assim
que constatado o abuso do direito de greve, sempre no juízo burguês, nos casos
em que haja “reincidência” no abuso. É tudo que os papagaios de “Uóchintom” sempre quiseram: Dar um pé-na-bunda
daqueles que exercem a cidadania, como determina o art. 11, II do projeto de
lei. É o terceiro “P” de porta-da-rua.
Breve reflexão sobre o projeto de lei.
A lei ataca o setor de
vanguarda do movimento operário brasileiro, servidores públicos e os
trabalhadores das empresas estatais como a PETROBRAS, Banco do Brasil e Caixa
Econômica Federal, que estão com os salários arrochados por conta do congelamento
de salários imposto por FHC nos anos 90, agravado pelas perdas acumuladas no
governo Lula. Tudo indica que a relação com a administração ficará ainda pior
por causa do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), que prevê reajuste ao
funcionalismo de 1,5% ao ano. Só para repor a perdas dos funcionários do Banco
do Brasil desde julho de 1994, os salários dos trabalhadores da estatal deveria
ser reajustado em mais de 130%, por exemplo.
Mesmo diante de um
quadro tenebroso, as esquerdas ainda não acordaram para o tamanho do ataque que
está por vir. Não há qualquer movimentação das entidades combativas. A CONLUTAS
(Coordenação Nacional de Lutas), cuja maior base de filiados está no setor público não
fez nenhuma campanha ostensiva tratando deste ataque ao direito de greve como
mais uma medida neoliberal. Embora tal medida faça parte das Reformas
neoliberais é necessário que se dê um tratamento diferenciado ao tema, pois se
com as poucas garantias já é difícil mobilizar, ficará impossível tal tarefa se
levarmos em consideração que o movimento ainda está em refluxo.
E necessário disputar a
consciência da população, por meio de esclarecimento, distribuição de
materiais. Promover debates e definir que o governo é inimigo dos
trabalhadores. Que o governo, papagaio dos EUA, inviabiliza a qualidade do
serviço público por meio do desvio de verbas para garantir o superávit
primário, impedindo a contratação de mais funcionários, a abertura de mais
escolas e a construção de hospitais. Nós, trabalhadores, somos vítimas e não
causadores dos problemas.
Reestruturação Banco do Brasil
Governo prepara privatização
Daniel
e Márcio – Bancários - SP
Em maio
de 2007, o governo baixou um plano de “reestruturação” do Banco
do Brasil com a finalidade de fechar postos de trabalho (redução de custos),
disponibilizando os poucos funcionários que restavam e que faziam o atendimento
às pessoas mais abastadas, o que resultará na expulsão da população que se utiliza das agências bancárias.
O fim
dos postos de trabalho se dá pelo corte de aproximadamente de 20 mil
funcionários, que tem como foco os funcionários localizados em áreas de suporte
do banco como as Gerências Regionais de Logística (GERELs), os Núcleos de Análise de Crédito (NUCACs)
e, principalmente, os Caixas Executivos (CAIEX) nas agências. São exatamente os
setores que fazem greve, vanguarda do movimento bancário, e que se enfrentam
cotidianamente com a direção do Banco na luta por melhores condições de
trabalho.
Nas grandes cidades será cortado a metade dos Caixas em cada dependência. Logo, o que já era ruim ficará ainda pior. Hoje já existe local que colocam estagiários para impedir o acesso dos clientes às agências sob a alegação de que não há Caixas. Na verdade, os poucos Caixas que existem estão sendo deslocados do atendimento para o processamento de envelopes de depósito ou simplesmente, deixando de ser Caixas para trabalhar no ATENDIMENTO AOS CLIENTES DE ALTA RENDA E GRANDES EMPRESAS, DEIXANDO DE FORA DO ATENDIMENTO À POPULAÇÃO. Os clientes e usuários excluídos das agências terão duas opções: se virarem no auto-atendimento ou ir para os correspondentes bancários (lotéricas, supermercados, etc.), onde já existem filas intermináveis.
Não nos enganemos quanto à ida dos funcionários provenientes das GERELs e NUCACs para as agências. Boa parte dos trabalhadores sairá com os PDVs (Plano de Demissão Voluntária) ou PAAs (Plano de Aposentadoria Antecipada). Trata-se de trabalhadores que ainda preservam direitos como anuênio e licença-prêmio, que os funcionários pós-98 não têm. Assim o banco acaba com o paradigma de isonomia, ou seja, igualdade de direitos entre funcionários novos e antigos, que é uma luta histórica dos funcionários admitidos pós-98.
Mas o prejuízo à população não fica somente nas filas intermináveis nas agências... O Banco avançará no processo de terceirização. Instituirá o PEE (Processamento de Envelopes Emborrachados), que consiste na centralização do processamento de envelopes de depósitos feitos nos terminais de auto-atendimento, e dos malotes de empresas. Esse processamento será feito por empresas terceirizadas, o que é proibido por lei. Os trabalhadores dessas empresas não são bancários e terão acessos a dados sigilosos, colocando em risco a segurança das transações. Por outro lado, estes mesmos trabalhadores terceirizados não têm os mesmos direitos dos trabalhadores bancários. Além disso, são superexplorados, têm os direitos mínimos desrespeitados, recebem os salários com atraso, não têm vale-transporte e recebem menos da metade do salário de um bancário, que já não é lá grande coisa.
Mais
um passo para a Privatização
O início de qualquer processo de privatização começa com os planos reestruturantes sob o pretexto de diminuir os custos operacionais e de pessoal, além de aumentar a produtividade. Foi assim com a Vale do Rio Doce, com a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), com o Banespa, etc. Os trabalhadores destas empresas sofrem até hoje com os efeitos nefastos da privatização. Muitos se suicidaram, ficaram com problemas psicológicos e psiquiátricos, não conseguiram mais lugar no mercado de trabalho, ou se subempregaram, ganhando um salário de fome.
O Banco
da Brasil também trilha o mesmo caminho. No início da década de 90, a empresa
tinha cerca de 170 mil funcionários, hoje há menos de 85 mil trabalhadores.
Este enxugamento se deve a pacotes semelhantes ao atual, que vêm desde a época
de FHC. O governo Lula avançou em direção à privatização do Banco do Brasil com
a abertura da venda de ações em poder da União. Reduziu-se a participação
governamental (e aumentou a participação privada) na composição acionária da
entidade, com claro reflexo no aprofundamento do seu direcionamento para o
mercado. Agora, Lula lança este plano de desemprego em massa e expulsão do
público das agências.
Quem fica no Banco também perde
Aqueles
que sobreviverem ao plano de reestruturação também sofrerão, pois a carga de
trabalho se multiplicará em progressão geométrica. O Banco institucionalizará o
assédio moral, não só para obrigar os funcionários a cumprir metas de vendas de
produtos, mas também a dar conta da carga de trabalho antes suportada por dois
ou três funcionários. Além disso o Banco
institucionalizou a jornada de 8 horas por meio da função de Assistente de
Negócios, que na verdade, é um trabalhador que executa funções de gerente, mas
ganha, proporcionalmente, menos que um CAIEX. É bom lembrar que a legislação
trabalhista prevê que a jornada do trabalhador bancário não seja superior a
seis horas, de acordo com art. 224 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT): “Art.
224. A duração normal do trabalho dos empregados em bancos, casas bancárias e
Caixa Econômica Federal será de 6 (seis) horas
contínuas nos dias úteis, com exceção dos sábados, perfazendo um total de 30
horas de trabalho por semana.”
Os
trabalhadores reagem, apesar do sindicato governista
Apesar dos sindicatos governistas, os trabalhadores
conseguiram importantes vitórias contra a política de desemprego e de arrocho
salarial implementada pelo governo neoliberal petista. Eis aqui as mais
importantes:
. Os
trabalhadores de Campinas fizeram passeatas pela cidade, ganharam apoio da
prefeitura local, por meio da emissão de moção de repúdio ao Banco do Brasil
por fechar a GEREL local. Outra vitória importante conseguida pelos valorosos
companheiros foi a pressão para que o sindicato
ingressasse com uma ação trabalhista que impediu o fechamento daquele local de
trabalho;
. É
parte do plano de reestruturação do Banco a desvinculação da responsabilidade
da empresa com a saúde do funcionalismo por meio do sucateamento da Caixa de
Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil (CASSI). O Banco colocou em
votação uma proposta de mudança estatutária na qual estava prevista a
co-participação em exames. O Funcionalismo NÃO aprovou a proposta. É bom
lembrar que os sindicatos da CUT faziam campanha pela aprovação;
. O
Tribunal de Contas da União (TCU) julgou ILEGAL a reestruturação do Banco. Com
isso, é possível acionar o Ministério Público do Trabalho para denúncias.
Governo
Lula: O maior estelionato eleitoral de todos os tempos
O PT explorou muito oportunamente nas eleições de
2006 o medo da população de
mais uma onda privatista que entregaria
ao mercado o que ainda restou de empresas estatais. Incutiu-se na população a
alegação terrorista de que se o PSDB ganhasse a PETROBRAS, a CEF e o Banco do
Brasil seriam privatizados pelo governo dos tucanos. Pois bem, diante do
exposto, vimos que o PT não passava de lobo em pele de cordeiro. Agora,
reeleito por mais 4 anos, o governo prepara o Banco do
Brasil para que seja privatizado, com prejuízos para toda a população.
Não somente o público será expulso das agências
como todo o direcionamento da empresa estará voltado para o segmento de alta
renda e a especulação financeira. O Banco deixará de ter qualquer papel no
desenvolvimento do país, no fomento da economia, no apoio às pequenas empresas,
no microcrédito, etc., para concentrar-se
exclusivamente no lucro, à custa da superexploração
de funcionários e terceirizados e da extorsão dos clientes. Além do fato de que
o lucro gerado pelo Banco não reverte em benefício para a sociedade, pois serve
tão somente para ajudar o governo Lula a pagar a dívida pública fraudulenta aos
especuladores. É o Banco deixando de ser do Brasil para ser de pouco$.
É necessário a união dos
trabalhadores com a população em defesa do patrimônio do povo. É
necessário que as oposições e setores combativos do movimento sindical se
organizem em levar à população uma cartilha sobre os efeitos do corte de
funcionários, principalmente nos grandes centros. Uma das ferramentas da luta
de bancários e clientes por melhor atendimento e melhores condições de trabalho
é a denúncia no Banco Central, através do telefone 0800 979 2345. Os clientes e
usuários podem denunciar a falta de caixas e a demora no atendimento, fazendo
com que o Banco seja prejudicado no ranking de atendimento das instituições
financeiras, mantido pelo BC.
Também é importante denunciar que o inimigo dos
trabalhadores e do povo é o governo do PT. Somente com a organização da
população é que se conseguirá derrotar a política do governo e do FMI.
Professore de SP iniciam
retomada das lutas
Podemos dizer que os professores
também fizeram parte do despertar das lutas, e não poderia ser diferente, pois
a categoria representa o maior setor dentro do funcionalismo estadual (180.000)
e amarga todas as conseqüências dos ataques deferidos contra aos trabalhadores:
baixos salários, péssimas condições de trabalho, jornada estafante, altos
índices de violência no local de trabalho, assédio moral, doenças do trabalho,
entre outros. É um setor importante para o governo tentar impor uma derrota a
todo o conjunto do funcionalismo no processo das Reformas e tentar mantê-lo em
silêncio e sem ação durante o pacto de governabilidade existente entre Lula e
Serra.
Desde a primeira assembléia deste
ano (25 de março) aprovamos o eixo da pauta – que resumia a extensa lista de
reivindicações acumuladas nos últimos anos “Em defesa da Escola Pública: fim da
Promoção Automática, 25 alunos por sala de aula e reajuste salarial” –
contrário ao eixo genérico apresentado pela diretoria majoritária do sindicato.
Mas já na
assembléia seguinte (17 de abril) o governo Serra, apressando-se em iniciar a
implementação da Reforma Previdenciária no estado, colocou em tramitação em
regime de urgência o PLC-30 que criaria a São Paulo Previdência (SP-PREV). O
PLC-30 representa mais um grande ataque ao funcionalismo estadual, pois de uma
só vez o governo cancela sua dívida histórica de R$ 160 bilhões com o Instituto
de Previdência do Estado de São Paulo (IPESP) proveniente da falta de
contribuição do governo para as aposentadorias. Ressalte-se que antes nossa
parcela de contribuição era de 6% e foi aumentada para 11% em 2004.
A proposta
do governo em criar essa autarquia (SP-PREV) tem justamente o objetivo de se
desobrigar da garantia da nossa aposentadoria e livrar-se de pagar a multa, o
que potencialmente leva a que tenhamos, mais cedo ou mais tarde, que aumentar
nossa contribuição. Em Manaus, onde já existe um regime semelhante, os
professores contribuem com 14% e na Bahia com 17%, quer dizer, não temos
aumento salarial, mas temos aumento no desconto em folha.
Para os professores não concursados (OFA’s), cerca de 80.000, a situação era ainda
pior. Ficariam de fora do novo regime e seriam jogados para o INSS.
Esse enorme ataque imediato
atravessou nossa campanha salarial e se tornou o centro dos esforços no sentido
de barrá-lo mesmo com a diretoria majoritária do sindicato e a Articulação
Sindical (corrente governista e que dirige a CUT) defendendo a criação dos regimes
próprios de Previdência separados do estado conforme manda as Reformas do
governo Lula.
O papel desmobilizador da Articulação e da CSC
Para o ato contra o SP-PREV, em
Frente à Assembléia Legislativa (ALESP), conseguimos paralisar várias escolas
no estado e as ruas foram tomadas por cerca de 15 a 20 mil professores.
Diante da pressão do movimento as
propostas de greve começaram a surgir, e obviamente havia motivos mais do que
suficientes para uma greve da categoria a partir desse dia, mas infelizmente essa
não foi a disposição da imensa maioria dos professores
ali presentes e dos que permaneceram nas escolas.
Essa situação se deve
principalmente ao trabalho desmobilizador cumprido
pela Articulação há vários anos e também dessa vez. Percorrendo as escolas,
percebemos o resultado nefasto desta política: professores não sentem firmeza
suficiente no sindicato e optam em parar, fazer grandes atos e passeatas, mas
não greve como apresentada insistentemente por outras correntes de oposição.
Essa grande manifestação que
parou a cidade provocou um impacto no governo Serra, que já estava de olho nos
valores que seriam perdidos (15 bilhões) para o INSS (federal) ao transferir os
professores OFA’s. Diante da mobilização e do pacto antilutas
de Serra e Marinho (ministro da Previdência de Lula), perceberam que deveriam
ir mais devagar. Assim, foram feitas algumas readequações no Projeto. A
principal afirmava que os OFA’s que estivessem com vínculo na data de
assinatura do Projeto permaneceriam na SP-PREV e aqueles que perdessem o
vínculo por mais de 90 dias – situação que ocorre sempre que o OFA não consegue
aulas no início do ano – passariam para o INSS.
Essas readequações no projeto tinham
a clara intenção de desmobilizar o movimento e aprovar a SP-PREV como um todo,
porém, foram alardeadas pela Articulação Sindical (PT) como uma vitória dos
professores e do funcionalismo público, como se não houvesse mais nada a fazer
a partir de então do que lutar por outros pontos da campanha salarial e
educacional. Ela utilizou o aparato sindical para sabotar ainda mais a luta,
enviou telegramas para as casas dos associados proclamando a vitória a fim de
evitar qualquer possibilidade de greve e contou com o trabalho do governo e da
mídia, no sentido de causar um sentimento de confusão, ao afirmarem que os
professores OFA’s seriam efetivados, o que é inconstitucional.
No dia 23 de maio, que foi
marcado por um conjunto de manifestações contra o governo Lula e as Reformas em
todo o país, estivemos com os estudantes que ocuparam a reitoria da USP e
setores do MST numa grande manifestação que culminou em frente a ALESP, onde o
Projeto estava para ser votado. A repressão não permitiu nossa entrada, com o
aval da maioria dos deputados governistas e obviamente os petistas.
Ao final do processo, o governo
conseguiu aprovar o PLC-30, mexendo de novo o Projeto:
a) Incorporou na SPPREV o
conjunto dos OFA’s atualmente vinculados, mesmo que vierem a perder o vínculo
futuramente b) criou a paridade no Conselho Gestor da SPREV c) introduziu um parágrafo
no qual se responsabiliza pela manutenção do instituto, caso haja falência. d)
introduziu ainda uma cláusula confusa que afirma que nenhum OFA poderá ser
demitido ao final do ano sem justa causa. Ora, sabemos que, para o governo o
professor OFA é demitido por não haverem aulas e para o estado isso é uma justa
causa.
As readequações ao Projeto ainda
podem ser perdidas, pois entram em conflito com a legislação federal, que não
permite a efetivação de nenhum funcionário público a não ser por mudança na
legislação, portanto, a única forma de efetivação de todos os OFA’s com pelo
menos cinco anos de magistério é a luta pela aprovação no Congresso Nacional de
uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional) como ocorreu
alguns anos atrás, e que tornou estáveis os contratados pela Lei 500 com
mais de 10 anos de trabalho. Essa deve ser uma das prioridades da nossa luta
daqui por diante.
A
Oposição Alternativa precisa ir para a base da categoria
Do
ponto de vista do Projeto como um todo não conseguimos
impedir sua aprovação e, nesse sentido fomos derrotados, mas a nossa luta
conseguiu reduzir seus impactos. Quanto a nossa data base e campanha salarial
podemos afirmar que nenhum avanço tivemos. Mais uma
vez a direção majoritária do sindicato sabotou a luta pela possibilidade, no
mínimo, da reposição das perdas salariais.
A campanha educacional com matérias pagas na mídia, carta aberta à
população, intensificação de visita às escolas tão solicitada pela categoria
jamais foi implementada. Muito pelo contrário, o primeiro semestre está sendo encerrado com um duro ataque, do governo e da mídia, ao trabalho
pedagógico dos professores e ao direito dos alunos da periferia de realizarem
avaliações escritas, forma utilizada no ENEM e nos vestibulares.
Se tivéssemos uma direção de luta no sindicato
certamente teríamos resultados melhores. Nesse sentido acreditamos que a Oposição Alternativa
deva assumir, cada vez mais, uma postura independente diante da direção
majoritária e buscar a unidade com os setores mais combativos da nossa
categoria e do funcionalismo público. Não podemos nos calar sobre o
significado, para a categoria e para o movimento, de termos o maior sindicato
da América Latina, apoiando o PAC e atrelado à CUT, uma central sindical que está disposta a
contribuir para implementar todas as Reformas do governo Lula, custe o que
custar.
Agora, ao término desse semestre, fica a perspectiva de que possamos retomar o movimento no segundo semestre pois nenhum dos problemas estruturais foi resolvido. Para isso cabe a nós um grande trabalho de percorrer as escolas, chamar reuniões, preparar materiais explicativos e de chamado à continuação da luta.
Um bom exemplo para todos nós é a luta dos professores do Rio de Janeiro que envolvendo pais e alunos, conseguiu provocar todo um debate na sociedade e impedir a extensão da Progressão Automática. A nossa tarefa deve ser a de chamar à mobilização, realizar o trabalho de base e a denúncia da direção do sindicato para preparar as condições da retomada das mobilizações no 2º semestre e talvez uma greve efetiva da categoria que possa impor um revés aos planos de Serra e Lula.
Professores
do RJ
Luta
unificada barra promoção automática
Leandro – União Comunista – RJ
Nas últimas
semanas, a partir da mobilização dos professores e funcionários, assim como de
pais e alunos da rede municipal de ensino do município do Rio de Janeiro,
conseguiu-se impedir mais um ataque do prefeito César Maia à educação
pública. No dia 23 de maio uma mobilização
rompeu com um longo período de ausência de reação por parte destes
profissionais ao reunir pelo menos cinco mil pessoas diante da sede da
prefeitura do Rio, mesmo debaixo de chuva. No dia 5 de
junho, os mesmos, reunidos em frente à Câmara Municipal, pressionaram os
vereadores a votar um projeto que torna inválida a resolução 946 da secretaria
municipal de educação, que entre outras medidas estabelece a aprovação
automática na rede de ensino e a adição do segundo e terceiro ciclos, o que
estenderia o sistema de ciclos para todo o ensino fundamental.
Este conflito
começa no ano 2000, início do segundo mandato do atual prefeito. A proposta de
implementação da progressão continuada, sem uma discussão que sem dúvida se
fazia necessária previamente, foi alvo de resistência por apenas uma pequena
parcela da categoria; muitos foram convencidos pelas promessas de soluções
fácies para a questão do fracasso escolar. Antes dos tempos neoliberais, a
progressão continuada era vista como uma das ferramentas pedagógicas que
serviam para superar o fracasso escolar no Brasil. Mas o fundamental na verdade
seria a mudança estrutural no sistema público de ensino, com uma política de
valorização profissional, democracia nas escolas e financiamento da educação.
Advindos os tempos neoliberais construiu-se um discurso de que o problema
central do fracasso escolar resumia-se ao uso de metodologias antiquadas e
atrasadas.
O sistema de
ciclos foi implementado de cima para baixo, levando muitos professores pelo
“canto da sereia”. Qual foi o resultado? A imposição do Prefeito é a pá de cal
de uma tragédia que desde 2000 já estava se desenhando e é aí que começa a
política de aprovação automática. A partir deste momento começa, com a
imposição de não se ultrapassar um índice máximo de reprovação, a produção de
estatísticas que acobertam a real situação da educação. Professores são
constrangidos e obrigados a aprovar levas de alunos sem as míninas
condições; os pré-requisitos necessários para a implementação dos ciclos nunca
foram realizados e nem mesmo colocados em pauta pelo governo.
Em quase dez
anos, o número de alunos subiu 76.275 e a quantidade de profissionais
reduziu-se em 1.545. Assim, hoje a relação professor/aluno
é de um para 46 alunos. Desde o começo da gestão de César Maia o tempo
destinado ao planejamento foi reduzido pela metade e há uma significativa
carência de profissionais em todas os setores das escolas, e a falta de
professores é escondida pela dupla regência a
hora-extra.
Acabaram as
funções de serviço de orientação educacional, assim como supervisores e coordenadores
de área. As concessões de licença médica são cada vez mais dificultadas e
praticamente proibidas para os professores que fazem dupla regência. O governo,
que tem na lei orgânica a responsabilidade de aplicar 35% do orçamento em
educação não aplica sequer os 10% constitucionais. Em 2007 ainda reduziu a
carga horária de Língua Portuguesa da 5ª e 6ª séries e de matemática para 7ª e
8ª séries de seis tempos para quatro tempos (aulas). É importante lembrar
também que o governo que somente com a construção do estádio João Havelange gastou 320 milhões, enquanto gastou 145 milhões
com a educação nos anos de 2004 e 2005.
A destruição
do ensino público é um atroz ataque àqueles que têm somente esta alternativa
para a aquisição da cultura e do conhecimento, como é o caso dos filhos da
classe trabalhadora.
A vitória que
profissionais da educação pais e alunos tiveram ao fazer com que a Câmara
derrubasse a resolução da aprovação automática é parcial. O prefeito ainda
pretende recorrer judicialmente contra a decisão da Câmara, ou seja, o
enfretamento terá seqüência. Em segundo lugar, a permanência do atual sistema
de avaliação do aluno mantendo a reprovação não significa alguma melhora na
educação pública, embora tenham evitado mais um ataque do governo. Talvez a
maior conquista tenha sido a possibilidade de reorganizar a luta da categoria e
de construir uma pauta que envolva também pais e alunos.
Ciência a Serviço do Racismo
Eduardo Rosa – Coletivo de Resgate Afro Rosas Negra
Depois de seqüestrar mais de seis milhões de homens e mulheres de seus países de origem, em África, para escravizá-los a sociedade mundial, em específico a brasileira tenta se livrar da possibilidade de um eventual acerto de contas.
Durante 350 anos, no Brasil, africanos e seus descendentes foram escravizados e obrigados a construir a riqueza desse imenso país, de características continentais. São mais de três séculos de torturas, estupros e os mais variados tipos de humilhações.
Teorias “cientificas” foram desenvolvidas ao redor do mundo para provar a superioridade do “homem branco” europeu em relação aos homens não “brancos”, principalmente africanos e seus descendentes.
Em Maio de 1888, quando assinada a “Lei Áurea”, que pôs fim à escravidão legal, não foi garantida a indenização financeira pelos 350 anos de trabalho. O trabalho assalariado, distribuído entre imigrantes europeus, foi negado aos negros e negras livres, que passaram a ser os primeiros desempregados, sem tetos, sem terras e sem identidades. Fomos finalmente libertados, mas para morrer de fome, frio ou exterminados pelos poderes repressivos constituídos à época.
Como o número de negros nos centros urbanos era muito alto foi necessário encontrar meios não apenas de nos retirar dos grandes centros, mas de acabar com qualquer possibilidade de luta por reparações ou por um simples emprego assalariado. No entanto, a repressão não foi suficiente. O chicote e a tortura não tiraram do nosso povo o sonho de liberdade. Foi necessária uma política sistemática de desqualificação da população negra. No início, foi trabalhoso convencer os negros, da época, de que tendo construído as riquezas do país e impulsionado a economia européia, não poderiam ser preguiçosos e desqualificados para o trabalho assalariado.
Dessa situação nasceram os diversos mitos: O de que o negro é preguiçoso, de que no Brasil não existe racismo, de que somos todos iguais, o de que discriminação no Brasil é contra o pobre e não contra o preto, etc. E para dar seqüência à política de exclusão do povo negro e minar sistematicamente nossa resistência, se construiu mais um: o de democracia racial, que afirma sermos todos iguais com oportunidades iguais, ou seja, “ninguém é deixado de lado pelo fato de ser preto, são os pretos que não são suficientemente esforçados”. Concomitante a isso se construiu a “teoria do embranquecimento”, que afirma sermos todos iguais, entretanto, “quanto mais claro melhor”. Essas duas políticas são demasiadas cruéis e puderam criar as condições necessárias para que a burguesia nos mantivesse fora dos mais variados seguimentos da sociedade.
Num breve giro podemos observar que a sociedade mundial é “sócia majoritária” do Brasil tanto no processo de escravidão de homens e mulheres africanos, quanto na segregação em escala mundial. Os Estados Unidos exterminou milhares de negros para não lhes “conceder” direitos civis mínimos, além de fornecer-lhes, direta ou indiretamente, armas para o auto-extermínio. A Inglaterra enquanto “pressionava” o Brasil, último país a pôr fim a escravidão legal, promovia guerras fratricidas e a partilha da África, além de manter Mandela na prisão por quase 30 anos. A Bélgica promoveu a destruição em Ruanda com a guerra entre Hutus e Tutsi, etc. No entanto, esses fatos não podem servir para retirar da burguesia brasileira a sua responsabilidade.
Agora a inovação ao ataque, contra os negros brasileiros, conta novamente com o apoio da Biologia. Utilizada anteriormente para tentar provar a “superioridade branca” e para tentar afirmar que a única raça existente é a “raça humana”, tenta utilizar, neste momento, os estudos do genoma humano para tentar mostrar que os negros brasileiros têm mais genes europeus do que africanos. O que está por trás dessa discussão é a tentativa de livrar a sociedade brasileira de possíveis reparações, ações afirmativas, e da adoção de cotas proporcionais de inclusão para negros, em todos os seguimentos sociais.
Num estudo realizado pelo geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, a pedido da BBC-Brasil (Inglesa!!), foi traçado o perfil genético de nove famosos negros brasileiros através da análise de seu DNA, como parte do projeto Raízes Afro-brasileiras. A pesquisa mostrou, por exemplo, que o Neguinho da Beija-Flor, sambista carioca, é geneticamente mais europeu do que africano. De acordo com essa análise, 67,1% dos genes de Luiz Antônio Feliciano Marcondes, o Neguinho, têm origem na Europa e apenas 31,5%, na África.
Outro exemplo é o da ginasta Daiane dos Santos. Segundo o estudo a atleta gaúcha tem 39,7% de ancestralidade africana, 40,8% européia e 19,6% ameríndia. Dos nove indivíduos analisados, foi Daiane quem apresentou as proporções mais equilibradas entre os três principais grupos que deram origem à população brasileira.
O estudo afirma que o brasileiro é um dos povos mais miscigenados do mundo. Mas, o que é indiscutivelmente “puro”, no Brasil, é o racismo que exclui social, política e economicamente metade da população brasileira, a metade negra. Isso sim desmascara o “modelo democracia racial”.
Diversas conclusões podem ser tiradas desta iniciativa da BBC, com amplo apoio da rede Globo “fiel escudeira” na luta contra as políticas de ações afirmativas. Mas uma conclusão não pode deixar de ser feita: a Ciência só poderá cumprir totalmente o seu papel quando estiver a serviço da vida e for controlada por quem realmente trabalha e produz riqueza.
Infelizmente não nos surpreendemos com determinadas pesquisas, pois esta miscigenação defendida de forma tão “romantizada” pela burguesia racista brasileira é a mesma que teve seu início, nada romântico, com o estupro de mulheres negras, escravizadas e indefesas. O objetivo desse tipo de pesquisa, além de “romantizar” a miscigenação é o de tentar adiar o “acerto de contas”. Temos a convicção de que retardarão, mas não evitarão, é uma questão de tempo!
A Comunicação na luta de Classes: O caso
Chávez e a RCTV
Daniel – Bancários SP
Tivemos oportunidade de discutir recentemente o projeto
político do Presidente venezuelano Hugo Chávez no que
diz respeito à sua alegada pretensão de apresentar o “socialismo do século
XXI”, em artigo publicado na edição nº 19 de nosso jornal. Indicamos então que
o socialismo somente pode ser construído por obra dos próprios trabalhadores, a
partir de suas próprias organizações de luta, convertidas em instrumentos
políticos independentes e armadas de seu próprio programa e ideologia; em
completa ruptura com a institucionalidade burguesa e a forma Estado. O socialismo não será jamais uma dádiva
benevolente concedida por um governante burguês como Chávez
e suas limitadíssimas medidas “socialistas”, por mais que tais ações
representem de fato algum avanço material e despertem o ódio
da burguesia venezuelana e mundial.
A última das novidades “revolucionárias” de Chávez a provocar estardalhaço foi a não renovação da
concessão da emissora RCTV, uma das redes de TV privadas que se opõem
ferozmente à sua política. A concessão da RCTV, renovada pela última vez em 27
de maio de 1987, acabara de completar 20 anos, de modo que cabia ao Estado
verificar a conveniência de renová-la ou não, conforme a legislação em vigor no
país, a qual é anterior ao próprio Chávez e
permaneceu intocada mesmo depois da nova Constituição bolivariana
de 1999.
Imediatamente, porém, a mídia burguesa em todo o mundo
passou a esbravejar furiosamente contra o “ditador” venezuelano, acusando-o de
atacar a “liberdade de expressão”. TVs, jornais e revistas entoaram em uníssono
o mesmo coro. Esse impressionante exemplo de solidariedade de classe
manifestado pelas empresas de mídia (inclusive as do Brasil) diante do
“perigoso” precedente aberto por Chávez demonstra o
quanto o alegado compromisso desses “veículos de informação” com a verdade dos
fatos não passa de uma grotesca farsa a servir de pretexto para encobrir a mais
escancarada parcialidade política e ideológica.
O discurso montado para atacar a decisão de Chávez não resiste à crítica mais elementar. O fato de que Chávez tenha sido democraticamente eleito, reeleito,
submetido a referendo e plebiscito é completamente ignorado quando o acusam de “ditador”.
O fato de que todas as redes de TV privadas tenham trabalhado ativamente em
favor do golpe de 2002 contra o presidente eleito não impede que continuem
sendo tratadas como “democráticos” baluartes da “liberdade”. O fato de que Chávez tenha agido na estrita obediência à lei de seu país
(aliás, muito semelhante à do Brasil, como veremos), que faculta ao governante
a condição de negar a renovação de uma concessão de utilização de um bem
público, também é cinicamente desconsiderado.
Todos os fatos são distorcidos para que se possa
apresentar a versão fantasiosa de que um “ditador” intransigente restringiu
arbitrariamente a “liberdade” dos cidadãos de seu país ao impor repentinamente
uma “censura” brutal e maciça sobre os meios de comunicação que são a garantia
da “democracia”. Ora, apesar de ser a mais antiga emissora do país, com 53 anos
de atividade, a RCTV não era a única nem a maior, pois perdia para a Venevisión e a Globovisión, as
quais continuaram funcionando normalmente e fazendo oposição ao presidente.
Assim como continuam funcionando normalmente os jornais e demais veículos anti-chavistas. Ou seja, a medida de Chávez
nem sequer alterou qualitativamente o sistema de comunicação de massas do país,
que continua nas mãos de empresas privadas (que detém 90% da audiência) e
continua a propagar a ideologia burguesa e a política das classes dominantes.
Apenas alterou-se quantitativamente o quadro ao tirar de cena a mais
irresponsável das redes privadas.
O nível criminoso de desonestidade desta emissora pode
ser aferido a partir do exemplo do tratamento dado aos conflitos que precederam
o golpe contra Chávez em 2002. A RCTV editou as
imagens dos confrontos entre manifestantes nas ruas de Caracas de modo a dar a
entender que os partidários do presidente eram os responsáveis por tiros
disparados aleatoriamente contra uma multidão de seus opositores, quando se
tratava exatamente do contrário. A mentira foi exposta no documentário “A
revolução não será televisionada” (Kim Bartley e Donnacha O'Briain, 2003), obra de
dois jovens irlandeses que filmavam uma reportagem sobre Chávez
e tiveram a oportunidade extraordinária de registrar o golpe e a subseqüente
reação popular massiva que o derrotou.
O documentário exibe ainda os militares, políticos,
empresários, donos de TVs e jornalistas congratulando-se pelo sucesso aparente
de seu golpe, em diálogos escandalosos que mostram o quão longe vai o ardor
“democrático” dessa burguesia venezuelana com a qual a mídia mundial tão
prontamente se solidariza. O fato de que Chávez, por
sua vez, não tenha tomado nenhuma atitude política contra os golpistas, mas
somente agora, cinco anos depois, tenha agido por um ato puramente
administrativo, revela a infinita disposição do líder bolivariano
para a conciliação de classes, numa via que pode até trazer melhorias limitadas
para o povo venezuelano, mas jamais o levará para o socialismo, pois não rompe
com a dominação burguesa.
Os pilares do capitalismo na Venezuela não foram
alterados por essa decisão administrativa, pois os demais meios de comunicação
continuam funcionando normalmente, ou seja, a serviço do capital. Todo o
barulho que se fez em torno da decisão chavista visa
apenas reforçar aos olhos do público o quanto os meios de comunicação querem
ser considerados intocáveis e mostra o quanto zelam pela manutenção de seu
poder quase absoluto sobre o imaginário coletivo contemporâneo. O título do
documentário citado é bastante feliz neste aspecto, pois demonstra o fato
elementar de que, na atual sociedade do espetáculo, qualquer revolução
necessariamente se fará contra a televisão, que por sua vez se recusará a
mostrá-la.
Os meios de comunicação (não apenas a televisão, mas
também rádio, cinema, jornais, internet, etc.) não
são ferramentas tecnológicas politicamente neutras. No contexto das relações
sociais capitalistas, as técnicas de comunicação não são
meios de informação, mas de ocultação da realidade. Seu papel é exibir o
nada, o vazio, a nulidade, a vulgaridade e a venalidade das relações fetichizadas da sociedade burguesa. Ao mesmo tempo em que
exibe o nada, a mídia oculta o real: a miséria em que
vive a imensa maioria da humanidade, prisioneira da violência, da exploração,
da degradação ambiental, da doença, da ignorância, da neurose, etc., que
necessariamente acompanham o capitalismo.
A mídia produz incessantemente o esquecimento do passado
e a negação do futuro em nome de um presente bárbaro perpetuado. Além de negar
o real, negando-se a mostrá-lo, a mídia precisa substituí-lo pelo irreal,
criando o seu próprio mundo imaginário, através do bombardeio maciço e
ininterrupto dos valores burgueses. Os espectadores são expostos ao massacre
ideológico 24 horas por dia, 365 dias por ano, em todos os canais. Nos empurram
goela abaixo o individualismo, a competitividade, o utilitarismo, o
pragmatismo, o imediatismo, a fragmentação, a uniformidade, a fugacidade, a
incultura, o anti-intelectualismo, o misticismo, o
medo, a rejeição ao diferente, o chauvinismo, o otimismo panglossiano,
o escapismo infantilizante, o consumismo, o luxo imoral
e irresponsável, o culto às celebridades, o padrão de beleza eurocêntrico, etc.
O resultado desse processo industrial de imbecilização coletiva é o aviltamento das consciências, a anestesia da sensibilidade, a mutilação da subjetividade e o rebaixamento do ser humano a uma condição de pass