Espaço Socialista
Publicação Revolucionária Marxista de Debates
Ano V – Nº 18 – Agosto de 2006.
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ÍNDICE:
As eleições, as polêmicas e a unidade dos revolucionários ..................... 01
Lutar é preciso, votar não é preciso
.......................................................... 05
Garotinho
no Bonde da Helena ................................................................
09
Defesa
do Voto Crítico na Frente de Esquerda ........................................
10
Mobilizar
e Lutar pelo Poder Socialista dos Trabalhadores .....................
16
Congresso
Nacional dos Trabalhadores – CONAT (Balanço) .................
20
Trabalhadores
na Varig, Bank Boston e Volks:
tc "Trabalhadores na Varig, Bank
Boston e Volks\:"Vítimas da
“Reestruturação
Produtiva” ......................................................................
24
Fim dos Processos contra os trabalhadores Sem-Terra ............................ 25
Contra os Ataques de Israel ......................................................................
26
As eleições,
as polêmicas e a unidade dos revolucionários
As eleições, tanto no Brasil como na
América Latina, tem sido o principal instrumento que o imperialismo utiliza
para conter as lutas e revoltas dos povos do continente assim como para
legitimar, através do voto, todos os seus planos de exploração, como as
reformas previdenciária, universitária, sindical, trabalhista, etc.. Provou-se que por vias eleitorais (reação democrática)
tem-se obtido mais sucesso do que a utilização de golpes de Estado. Claro que
essas eleições nem sempre são limpas. Esse foi o caso do México, onde as
fraudes, amplamente comprovadas, garantiram a eleição do candidato mais
alinhado ao imperialismo americano. Por essa via, as burguesias na América
Latina têm conseguido frear o ímpeto revolucionário dos trabalhadores na
Argentina, Equador, Peru e Bolívia, só para citar exemplos dentro do continente
americano.
Não podemos e nem temos como fugir
dessa realidade, pois se ela tem tanta importância para a dominação da
burguesia, nós, como revolucionários, temos que encontrar formas de destruir
essa forma de dominação. A superação das ilusões que os trabalhadores nutrem
nas instituições da burguesia combinada com o desenvolvimento de suas lutas e
seus organismos independentes, é parte fundamental do desenvolvimento de uma
consciência socialista e do fortalecimento de um projeto socialista de massas.
A questão que se coloca é a de como lidar com essa problemática.
UM DEBATE NO MOVIMENTO E DO MOVIMENTO
Como a maioria das organizações de
esquerda, no último período o Espaço Socialista também fez o debate sobre que
posição tomar frente ao processo eleitoral. Uma organização
que atue no movimento, se o refletir minimamente, é influenciada pelos
debates que os ativistas e militantes realizam. No caso eleitoral, com certeza,
toda a esquerda debateu em torno de pelo menos duas possibilidades: apoiar
(criticamente ou não) a frente PSTU-PSOL-PCB, ou votar
nulo. O debate que realizamos também esteve marcado por essas posições.
Cada organização tem o seu espaço de
decisão. Na esquerda tradicional as decisões são tomadas pelo órgão dirigente
em um processo que, em muitos casos, retira dos militantes de base o poder de
decisão. Após essa decisão, todos os militantes estão obrigados a “falar uma só
linguagem e atuar como um só homem”. Acaba a discussão. Essa é uma
interpretação do chamado centralismo democrático.
Há algum tempo temos travado uma
polêmica com vários setores da esquerda sobre a concepção e regime de
organização revolucionária. Entendemos que o funcionamento da maioria das organizações/partidos de esquerda tem fortes traços de
burocratização, oriundos de uma interpretação equivocada da “concepção
leninista de partido”.
O nosso funcionamento tem como ponto
central a diretriz de que é o conjunto da militância
que deve tomar as decisões políticas da organização e o debate deve ocorrer sob
a máxima liberdade de discussão para todos os militantes. Nos debates que
realizamos, em qualquer período, todos os militantes podem defender as suas
posições (por escrito ou não), e a decisão, como já dissemos, cabe ao conjunto
dos militantes. Após os debates votam-se as posições, e a que tem o maior
número de votos é a posição da organização.
AS POLÊMICAS, A MINORIA E A REALIDADE
Realizada a votação resta uma
questão: e a posição da(s) minoria(s)? Da forma como foi apresentada – após a
votação – por exemplo, a posição do PSTU é de que a tese da(s) minoria(s) é suprimida, como se não
existisse. A minoria deve calar-se e submeter-se, encerrando-se o debate e
muitas vezes sequer o balanço é realizado. É como se não existisse mais posição
diferente.
Há fatos fundamentais da luta de
classes em que a minoria está com a razão. Podemos citar como exemplo o apoio
do PSTU a LULA no 2º turno de 2002. Queira ou não, essa posição avalizou um
projeto neoliberal capitaneado pelo PT, com conseqüências danosas que todos já
sabemos. Foi uma discussão que se resolveu na prática. E a minoria – que estava
certa –, teve espaço para apresentar o seu balanço? Neste debate foi a realidade que se encarregou de demonstrar com quem estava
a razão.
Demos esse exemplo porque queremos
abrir um debate com o conjunto da esquerda sobre o “centralismo democrático” e
queremos fazer esse debate na prática.
A posição do Espaço Socialista nas
eleições é voto nulo, mas também temos companheiros que defenderam a posição de
voto crítico na frente de esquerda e, em que pese a
votação realizada, pensamos que essa questão deve ser resolvida com a
intervenção concreta na realidade. O debate não acaba e nem a posição
“minoritária” é suprimida. É preciso considerar também o fato de que, mais que
um debate da nossa organização, a discussão sobre tática eleitoral pertence ao
movimento em que os ativistas e militantes estão, e é no conjunto do movimento
que o debate está se realizando, e não apenas internamente à organização.
Nesse jornal, estamos apresentando
ao conjunto dos militantes e organizações do movimento social o debate que
realizamos, com a publicação de um texto refletindo a posição “minoritária”,
contribuindo com as reflexões que, em tempos de crise da esquerda, todos estão
fazendo.
Não apresentamos nada de inovador. A
história dos marxistas do fim do século XIX e início do século XX é a nossa
fonte. Lênin nos ajuda: “... É
rigorosamente certo que não existe entre os marxistas
completa unanimidade. Esta falta de unanimidade não revela a debilidade,
e sim a força dos socialdemocratas
russos (...) As divergências de opinião no interior dos partidos políticos ou
entre eles – escreve Lênin em julho de
1905 – se solucionam em geral, não
somente com as polêmicas, mas também com o desenvolvimento da própria vida
política. Em particular, as divergências a propósito da tática de um partido,
podem liquidar-se de fato pela adesão dos defensores de teses errôneas à
linha correta, já que o próprio curso
dos acontecimentos retira às ditas teses sua base”{1}
As posições em um debate político
são parte do resultado que ele produz, refletindo a vivacidade e a participação
do conjunto da organização nesses debates. A ausência ou a supressão de
posições diferentes pode refletir a falta de democracia ou mesmo seguidismo, características estranhas a uma organização
marxista revolucionária.
Os debates sempre apresentam, ainda
que de forma oculta, uma luta para provar a “sua verdade” e a história dos
debates na esquerda, em especial, está cheia de “verdades”. Qualquer debate que
se realiza com o pressuposto da verdade torna-se falso; mais ainda: torna-se antimarxista, principalmente porque nega a dialética. A
questão central é como fazer com que o real ou a realidade possa interferir nas
discussões, retirando de cena os dogmas (o que é a “verdade” senão dogmas?).
Partindo desse método, o objetivo
dos debates que realizamos – internamente e externamente – desloca-se do
“apresentar a verdade” para o diálogo com a realidade concreta porque “o concreto é concreto porque é a síntese de
múltiplas determinações e, por isso, é a unidade do diverso. Aparece no
pensamento como processo de síntese, como resultado, e não como ponto de
partida, embora seja o verdadeiro ponto de partida, e, portanto, também, o
ponto de partida da intuição e da representação...”{2}
Mais uma vez, afirmamos que não se
trata de “invenção” da nossa organização, mas de aplicar as categorias do
marxismo à nossa prática militante, de forma que as discussões sempre tenham
como objetivo encontrar a síntese. Eis a lição de Engels:
“Negar, em dialética, não consiste pura e
simplesmente em dizer não, em declarar que uma coisa não existe, ou em
destruí-la por capricho (...) Além disso, em dialética, o caráter da negação
obedece, em primeiro lugar, à natureza geral do processo, e, em segundo lugar,
à sua natureza específica. Não se trata apenas de negar, mas de anular
novamente a negação. Assim, a primeira negação será de tal natureza que torne
possível ou permita que seja novamente possível a segunda negação. De que modo?
Isso dependerá do caráter especial do caso concreto”{3}
O CENTRALISMO DEMOCRÁTICO
O “guia” da esquerda sobre concepção
de partido é o livro Que fazer? de
Lênin, apresentado como o conceito de partido leninista. Se é
certo que apresenta uma série de conceitos fundamentais para o marxismo (como
propaganda, agitação, importância do partido e várias de suas características
estruturais), também é verdade que apresenta essas categorias adaptadas às
condições do “terreno concreto da
situação da Rússia de hoje..” (Que Fazer?, p. 105). Assim, a organização
profissional de conspiradores, de militantes clandestinos, com limitações na
democracia interna, na forma concreta apresentada na obra, não tinha como
objetivo assentar um padrão, um modelo de partido, mas preservar a vida dos
militantes e construir um partido eficaz em sua intervenção na realidade Russa
de então. Seu centralismo, aparentemente excessivo, era uma forma concreta de
responder à realidade, em que o trabalho artesanal colocava em risco a luta
revolucionária.
Lênin, citado por Pierre Broué, reforça a idéia de que o Que fazer? visava responder à realidade
russa: “O erro fundamental dos que hoje
polemizam contra Que Fazer?, reside na absoluta dissociação que estabelecem
entre este trabalho e o contexto determinado dentro do qual atuava nosso
partido, um contexto superado faz tempo. Que Fazer? não é senão um resumo da
tática e da política de organização do grupo Iskra
entre 1901 e 1902. Nada mais que um resumo.{4} O próprio Lênin, no último
relatório ao IV Congresso da Internacional Comunista, alertou os restantes
partidos para não adotarem acriticamente as fórmulas bolcheviques: Em 1921, no III Congresso, votamos uma
resolução sobre a estrutura orgânica dos partidos comunistas, assim como os
métodos e o conteúdo do seu trabalho. O texto é excelente, mas (…) está
impregnado do espírito russo. (…) Esta resolução é russa em demasia; traduz a
experiência da Rússia.
É evidente que não questionamos a
importância dessa monumental obra, apenas questionamos o dogmatismo com que se
faz a leitura dela. Em um regime totalitário ela retoma toda a sua atualidade
formal.
Umas das “marcas” do chamado
centralismo democrático é a proibição da minoria continuar a defender suas
posições, seja por se manterem organizados internamente enquanto tal, ou
publicarem suas posições na imprensa da organização. Uma proibição que encontra
respaldo só na “stalinização” dos partidos
comunistas.
Trotsky nos socorre: O Comintern
proibiu as frações, alegando que esta proibição policial coincide com a
tradição bolchevique. É difícil imaginar pior
calúnia à história bolchevique. É certo que o Décimo
Congresso do Partido, em março de 1921, proibiu as frações por resolução
especial. O fato mesmo de que fosse necessário aprovar semelhante resolução demonstra
que em todo o período anterior – vale dizer, os dezessete anos em que o
bolchevismo surgiu, cresceu, se fortaleceu e conquistou o poder – as frações
formavam parte legítima da vida partidária, o que se refletia na prática{5} Mais
adiante vincula o fim do direito das frações ao desenvolvimento do burocratismo: ... Mas
os acontecimentos posteriores deixam absolutamente claro que a proibição das
frações significou o fim do período heróico da história bolchevique
e abriu o caminho para sua degeneração burocrática.
Tomando o cuidado de não fazer
citações fora do contexto que o autor escreve, nos parece que um texto de
Trotsky para os trotskistas americanos a respeito da proposta de editar uma
revista aberta, também reflete essa tradição de debates públicos impulsionados
pelo partido: “Não fecharemos nossos
olhos frente às dificuldades. Nossa época nos coloca problemas colossais em
todos os terrenos da criatividade humana. Não existem soluções pré-fabricadas.
O marxismo é a análise do processo histórico vivo A análise livre supõe, a
priori, que existam divergências em relação às próprias bases fundamentais do
marxismo. Nossa revista repudiará o espírito fatal do dogmatismo. Em suas
páginas se enfrentarão os diversos matizes do pensamento revolucionário. O fórum
do debate público ocupará um lugar destacado nela. O Conselho editorial se
esforçará para fazer o balanço oportuno de cada polêmica”.{6}
A luta política interna no
bolchevismo é uma constante. O próprio Lênin, em minoria no partido bolchevique, desprende uma luta feroz para ganhar a base do
partido: É o que, por exemplo, havia ocorrido alguns meses antes na continuação da
revolução de fevereiro, após a chegada de Lênin, quando este polemiza aberta e
publicamente contra a posição da maioria da direção bolchevique,
de apoio crítico ao governo provisório burguês (artigos, discursos públicos e
as teses prévias à Conferência de Abril de 1917).{7}
A publicização
das posições internas não é uma questão de ocasião, mas parte de um conjunto de
reflexões que temos feito sobre concepção de organização. Essa questão já
estava explicita no nosso perfil: Nos
propomos a construir uma organização em que seja perfeitamente possível e
louvável conviver com as diferenças dentro de um campo revolucionário comum.
Pensamos que uma organização política deve ter plena liberdade de discussão
sobre todo e qualquer tema, com debates públicos e liberdade para qualquer
setor, tendência ou agrupamento publicar suas divergências no jornal da
organização ou mesmo em seus próprios órgãos de imprensa (salvo em situações
que esse debate literalmente impeça a aplicação da política discutida, como o
debate público anterior a uma ocupação de fábrica ou a uma insurreição, que
abriria para a burguesia e o Estado as intenções da organização).{8}
Aproveitamos e fazemos um convite a
toda esquerda revolucionária para aprofundarmos esse debate e resgatarmos a
tradição e o método dos revolucionários, que tantas falsificações sofreram
pelos inimigos do proletariado mundial.
{1}
Broue, Pierre. El partido bolchevique.Rússia,1951. In: www.elmundoalreves.org
{2}
MARX, Karl. Contribuição para a crítica da economia política.
{3} ENGELS, Frederich. Anti-Durhing.
{4} idem.
{5}
TROTSKY, Leon. Las fracciones
y la Cuarta Internacional. In:
CEIP (www.ceip.org.ar).
{6} TROTSKY,
{7}
VENTURINI, Juan Carlos. “O mito do centralismo democrático”. In: Cadernos de
Debates Espaço Socialista.
{8}
Perfil programático do Espaço Socialista.
Lutar é preciso, votar não
é preciso!
Posição da Organização
Os militantes do Espaço Socialista
se estruturam como organização política devido ao entendimento comum de que é
necessário colocar em prática um programa socialista para a classe
trabalhadora. Nos marcos históricos determinados pelo estágio de crise
estrutural do capital não há mais possibilidade de alcançar melhorias na
condição de vida dos trabalhadores por meio de reformas parciais do
capitalismo. A tendência do sistema aponta, ao contrário, para o aprofundamento
da barbárie, com o ataque aos direitos, o desmonte dos serviços sociais, a
violação da soberania dos povos, a pilhagem das riquezas naturais, etc. Essas
são as condições destrutivas das quais o capitalismo extrai sua sobrevida
deletéria.
Diante disso, é necessário organizar
a resistência dos trabalhadores. Entretanto, o estágio de consciência do
proletariado é de profundo atraso e prostração. A referência do socialismo
praticamente desapareceu do horizonte político e ideológico da classe. A
política revolucionária foi desmoralizada por não saber oferecer respostas
consistentes para a queda do muro de Berlim, para o advento da “globalização”,
o “fim da História”, etc. A política reformista se diluiu em administração do
capitalismo e por fim em vanguarda do regresso neoliberal, implantando as
chamadas “reformas de mercado”.
Enquanto o proletariado não retoma
sua ofensiva histórica pelo socialismo, campeia a brutalidade da vida e da
ideologia capitalista. Vigora o individualismo, a competitividade, a
desumanidade, a fragmentação, o estranhamento, a fugacidade e a artificialidade
das relações, nas quais o homem não se coloca como sujeito, pois o sujeito de
fato é o capital, por meio da forma mercadoria.
O único meio de romper as cadeias da
alienação capitalista é a organização dos trabalhadores em torno de um projeto
socialista. Entretanto, devido ao atraso de consciência, os trabalhadores não
se mobilizam sequer para as lutas mínimas de resistência. O movimento vive um
estado de refluxo e paralisia. A tarefa dos socialistas é precisamente
desenvolver a consciência da necessidade de se organizar para a luta.
OS ORGANISMOS DE LUTA E A CONSCIÊNCIA
SOCIALISTA
A luta contra o capitalismo é a
condição para o desenvolvimento da consciência de classe, e ao mesmo tempo, a
consciência socialista é a condição para o avanço da luta contra o capitalismo.
A mediação entre as duas faces desse processo dialético é dada pela intervenção
das organizações políticas da classe trabalhadora. Cabe a essas organizações
políticas intervir nas esferas de enfrentamento econômico, político e
ideológico de modo a criar e multiplicar as frentes e organismos de luta da
classe.
Chamamos de organismos de luta os
sindicatos, comissões de fábrica, organizações no local de trabalho, os centros
acadêmicos, as associações de moradores, frentes de ocupação de terras,
ocupações urbanas, conselhos populares, fóruns do movimento social, dos
movimentos de negros, mulheres, homossexuais, juventude, espaços culturais e
artísticos, coletivos e articulações de ativistas dedicados a lutas
específicas, etc. É dentro dos organismos de luta que se dá a
batalha para desenvolver a consciência socialista.
É preciso que os organismos da
classe trabalhadora estejam estruturados de acordo com as práticas e princípios
próprios da tradição do movimento socialista, pautados pela mais ampla
democracia interna, pelo controle dos ativistas sobre os dirigentes, pelo
critério de mandatos revogáveis, pela tomada de decisão em fóruns de base, pelo
esforço de educação coletiva dos ativistas, etc. Tais princípios são a única
garantia de que a luta possa ser conduzida a bom termo, ou seja, de que possa
encaminhar para a destruição do capitalismo e a construção do socialismo.
Existe porém
no momento uma grande distância entre as lutas específicas em curso nos
organismos atualmente existentes e a monumental tarefa histórica da
transformação socialista. Para superar o lapso abissal entre o grau de
mobilização e consciência da classe atualmente vigente e o grau requerido para
a tarefa socialista, é preciso lançar mão de reivindicações transicionais
que apontem soluções concretas para os problemas materiais específicos da
classe trabalhadora.
É a partir do enfrentamento em torno
das questões concretas que o conjunto da classe adquire o entendimento da
totalidade da luta contra a burguesia e da necessidade do socialismo. É por
isso que um programa socialista não pode ser um conjunto de abstrações, uma
declaração de intenções, um plano utópico da sociedade ideal; mas tem que
partir das condições materiais historicamente dadas para propor as mediações de
sua transformação radical.
O Espaço Socialista apresenta num
artigo à parte uma lista de pontos de programa como parte de nossa contribuição
para o debate sobre as alternativas da classe trabalhadora no Brasil. Propomos
esses eixos de programa como reivindicações concretas capazes de oferecer
soluções para os problemas objetivos e imediatos da classe, mas também capazes
de oferecer a base para um projeto de transformação socialista.
Um programa socialista é uma
exigência colocada de forma urgente e imperativa pela atual etapa histórica. A
forma como esse programa deve ser levado aos organismos da classe varia de
acordo com a conjuntura. A luta política não é travada no cenário desejado
pelos socialistas, mas ao contrário, num terreno dominado pelas instituições e
pela ideologia da burguesia.
A classe dominante dispõe de
poderosos mecanismos para reciclar sua hegemonia. Um desses mecanismos são as
eleições, pilares da democracia burguesa. No Brasil, vota-se a cada dois anos,
seja para eleições gerais, seja municipais. A cada dois anos a sociedade é
convidada a escolher quais serão as gangues encarregadas de administrar a
rapinagem do Estado burguês e a exploração do proletariado. Uma
gigantesca e caríssima máquina de propaganda é mobilizada para convencer
os eleitores de que sua vida pode melhorar se votarem no candidato certo. O
gesto de votar é apresentado como culminação da cidadania. A política é tida
como sinônimo de eleição.
ELEIÇÕES = ARMADILHA
As eleições são uma armadilha
perigosíssima para os socialistas. De um lado, elas apresentam uma oportunidade
inestimável, pois fazem com que o conjunto da população passe a se interessar
pela discussão política e se torne minimamente acessível à propaganda do
socialismo. De outro lado, as eleições oferecem também um risco gravíssimo,
pois uma participação inconsistente dos socialistas nas eleições pode servir
apenas para referendar o mecanismo da democracia burguesa, legitimando a
perniciosa idéia de que um candidato, qualquer que seja ele, pode ser a solução
para os problemas, e com isso reforçar a passividade em que se sustenta o
domínio do capital.
É preciso enfrentar a armadilha com
serenidade. Não há como deixar de fazer uma opção e deixar de correr riscos.
Não há como sair completamente ileso do processo. A opção diante das eleições
nunca é a melhor, mas sempre a menos pior, justamente porque se trata de
eleições, ou seja, de uma farsa manipulatória e
estéril. Enquanto esse mecanismo existir, será um obstáculo à democracia
operária e ao avanço do socialismo, um obstáculo que somente será superado num
longo processo, dentro do qual haverá inevitáveis erros e acertos. É preciso
aprender com esses erros e acertos em nome do objetivo fundamental que deve ser
sempre a construção do socialismo.
O que se impõe aos socialistas é
avaliar, pois, em cada eleição, de que maneira devem se posicionar. É preciso
optar por defender ou não alguma candidatura. Essa opção deve ser feita com
base nos mesmos critérios que orientam a práxis socialista em qualquer tempo.
As eleições são primordialmente um instrumento da democracia burguesa. Os
socialistas não podem ser reféns desse mecanismo. Devem trabalhar para
desenvolver a consciência e a prática socialista nos organismos do proletariado
independentemente daquilo que aponta o calendário político da burguesia.
Entretanto, os trabalhadores seguem
o calendário político da burguesia, e é preciso ter algo a dizer a respeito das
eleições. É preciso apontar uma direção: votar ou não votar; e em seguida, em
quem votar, se for o caso. Defender um programa socialista significa colocar-se
contra toda a ordem estabelecida, mas há situações em que isso pode ser feito a
partir do interior da própria ordem. As instituições burguesas, como o
parlamento, não são completamente inúteis para os socialistas, apenas
parcialmente, pois conservam um traço residual de utilidade. A tribuna do
parlamento também pode servir para denunciar o próprio parlamento e o conjunto
da democracia burguesa.
A disputa por espaços na institucionalidade do Estado burguês não é uma tática
descartável para a transformação socialista, é apenas secundária. Reiteramos
que o socialismo somente pode ser construído por meio da atuação dos organismos
de luta da classe, nunca por meio de decreto presidencial ou maioria
parlamentar. A via parlamentar deve ser apenas um mecanismo auxiliar para a
luta que se desenvolve prioritariamente através dos métodos próprios do
proletariado: greves, ocupações, ações diretas.
O que acontece
porém quando se vive um estado de refluxo do movimento, em que não há
grandes lutas em curso, em que os organismos estão esvaziados, em que a classe
está desmobilizada, desarticulada e desprovida de referências? É legítimo nesse
caso buscar distinguir uma candidatura mais progressista? Em que circunstâncias
é lícito aos socialistas apontar a direção da via parlamentar aos
trabalhadores? Tais perguntas somente podem ser respondidas com base em
parâmetros retirados da experiência histórica.
A experiência diz que os socialistas
devem apoiar alguma candidatura nas eleições caso se manifeste alguma das três
condições seguintes:
-
Que esteja em pauta um programa socialista.
-
Que o programa esteja respaldado por um processo democrático de discussão com
as parcelas mobilizadas da classe trabalhadora.
-
Que esteja preservada a independência de classe, ou seja, a ausência de
qualquer participação da burguesia, seja com seu dinheiro ou com o apoio de
suas figuras públicas.
Nas eleições de 2006 no Brasil não
há nenhuma candidatura que respeite esses três critérios.
As
duas candidaturas principais, Lula e Alckmin, expressam apenas diferenças
secundárias quanto ao ritmo considerado adequado pela burguesia para aprofundar
a implantação do projeto neoliberal no Brasil. Lula é necessário para a
burguesia enquanto for preciso controlar as principais estruturas do movimento
social, como CUT, UNE e MST, para impedir que os setores mais organizados
desencadeiem qualquer luta significativa contra o projeto neoliberal. Já
Alckmin se torna uma opção viável para a burguesia a partir do momento em que
se julgar que o movimento de trabalhadores está completamente desmoralizado e
incapaz de reagir ao aprofundamento do projeto neoliberal.
Trata-se de diferenças que se
referem apenas ao método de abordagem a ser empregado para atacar as condições
de vida da população, pois o conteúdo do ataque será o mesmo. De uma forma ou
de outra a burguesia vence as eleições e o grande capital global segue
determinando os rumos do país. Será preciso uma forte organização do movimento
de massas para resistir aos ataques que se preparam no próximo período. Com
eleições ou sem eleições o único modo de derrotar o programa neoliberal do
imperialismo, seja ele executado por tucanos ou petistas,
é por meio de uma mobilização massiva.
A preparação dessas mobilizações
deveria ser o foco da esquerda socialista organizada. Infelizmente, os setores
da esquerda que se articularam numa frente eleitoral estão colocando as
necessidades de suas organizações acima das necessidades da classe. PSOL, PSTU
e PCB construíram uma frente em torno da candidatura de Heloísa Helena, a qual
não respeita minimamente nenhum dos três critérios acima colocados para
justificar o apoio dos socialistas.
A “FRENTE” DE ESQUERDA
Essa frente não está armada de um
programa socialista, mas sim reformista e rebaixado. Não foi construída nos
fóruns do movimento e sim nos acordos de cúpula entre as lideranças
partidárias. Não está isenta de contaminação com o dinheiro e o apoio de
setores “éticos” da burguesia. A frente de esquerda
não funciona como um instrumento para potencializar as lutas a serem travadas,
mas pelo contrário, reforça a passividade inerente ao ato de escolher um
candidato.
É possível argumentar que a frente
eleitoral PSOL/PSTU/PCB, assim como fenômenos do tipo
da CONLUTAS e da ANPE, expressam de alguma maneira o atual estágio de
reorganização do movimento de massas no Brasil, de modo que, mesmo com todas as
suas distorções, é preciso endossar todo o esforço que contribuir para oferecer
uma alternativa aos trabalhadores. Entretanto, existem distorções e distorções.
Há distorções que são secundárias e podem ser desconsideradas, pois nenhum
processo é puro e isento de imperfeições. E há distorções que põem a perder o
conjunto da iniciativa.
A frente de
esquerda constituiu-se de maneira tão distorcida que não contribui para levar
adiante o programa socialista. Chamar o voto na frente de esquerda seria
capitular às suas limitações. Deixar de votar na frente de esquerda não
significa deixar de participar do processo de reorganização em curso. Significa
apenas participar com um programa e um conjunto de princípios autenticamente
socialistas. Os setores que conformaram a frente de esquerda renunciaram a esse
programa e a esses princípios em nome de uma aventura eleitoral. Não somos
obrigados a errar com eles e nos comprometer com as ilusões mesquinhas do circo
eleitoral. Nosso compromisso é com a classe e com suas lutas. Antes, durante e
depois das eleições, estaremos a postos nas trincheiras com nosso programa.
O VOTO NA FRENTE É UM INSTRUMENTO DE UNIDADE?
Há setores da militância que
defendem de maneira apaixonada o voto na frente como se se
tratasse de uma condição sine qua
non para a construção da unidade da esquerda, com a
mesma postura e ênfase de quem defende irracionalmente uma fé religiosa ou uma
camisa futebolística. Nossa defesa da posição de não votar em nenhum candidato
decorre, ao contrário, de uma tentativa de desenvolver uma militância
científica, respaldada no conhecimento da história, da teoria e da prática
marxistas. Entendemos que a unidade da esquerda deve se dar primordialmente nos
seus organismos de luta. Essa é a unidade que é crucial para o movimento, não a
unidade eleitoral.
Colocar a unidade para a luta na
dependência da unidade eleitoral significa inverter os sinais do processo. A
unidade em torno de qualquer processo eleitoral deve se dar, de acordo com os
critérios socialistas, antes de tudo nos processos de luta. Não é esse o
histórico de construção da atual frente. Pelo contrário, a dificuldade para os
acertos eleitorais foi um obstáculo para a construção de uma unidade orgânica
em fóruns como a CONLUTAS, a ANPE, a intersindical, etc. A atual frente
funciona como uma maneira de perpetuar o eleitoralismo
do PSOL e o aparatismo do PSTU, em simbiose um com o
outro.
A atual frente não tem uma nesga da
mesma representatividade que tinha as candidaturas ligadas ao processo de
reorganização em torno do PT/CUT na década de 1980,
em que havia fortes movimentos de luta. Isso não significa que os atuais
setores que compõem a frente não possam evoluir para posições socialistas
conseqüentes. Isso depende de que abandonem os seus vícios eleitoralistas
e aparatistas, o que só acontecerá se houver a
pressão de um forte movimento de luta o qual ainda não se mostrou capaz de
eclodir.
Não fazemos uma defesa sectária do
boicote às eleições como determinadas organizações que colocam o ataque à
frente como prioridade de sua política, e que imaginam que a classe
trabalhadora esteja pronta para tomar o poder. Não estamos ainda sequer no
início dos processos de luta que podem levar os trabalhadores ao poder.
Justamente por isso a ênfase deve estar num programa de enfrentamento contra o
sistema do capital.
Oferecemos nessas eleições uma
proposta de luta ao invés de uma proposta de voto. Defendemos que os
trabalhadores e sua vanguarda se coloquem como sujeitos de fato da História, e
isso significa colocar em prática os métodos e os instrumentos próprios da
esquerda socialista, que são os métodos da ação direta e do coletivo
organizado. Não estamos declarando guerra à frente de esquerda, às organizações
que a compõem e à vanguarda que se organiza em torno dela. Estamos declarando
guerra à postura limitada e insuficiente da maioria da esquerda, que durante as
últimas décadas desarmou o proletariado para a luta. Estamos declarando guerra
à passividade, às ilusões, ao conformismo.
Declaramos guerra ao sistema com a
proposta de
VOTO NULO!
Garotinho no Bonde da
Helena
Ítalo de Aquino
A declaração de apoio de Anthony
Garotinho (PMDB) a Heloisa Helena (HH) candidata à presidência da República
pela Frente de Esquerda (PSOL/PSTU/PCB) desnuda o
caráter burguês dessa frente eleitoreira. Aqueles que acreditam em Papai Noel
poderão fazer como o fez HH ao declarar que adesão dele não implica concessão.
Garotinho – ex-secretário de
Segurança Pública do Rio de Janeiro, ex-governador do Estado e atual cônjuge da
governadora Rosinha Matheus – é um político
populista, demagógico e
burguês encarniçado. Fracassou na sua tentativa de comprar o PMDB
para sair candidato à presidência. Logo em seguida disse ser perseguido pela
Polícia Federal por atos de corrupção e promoveu uma greve de fome para
sensibilizar a opinião pública.
Os trabalhadores do Rio de Janeiro,
por eles governados, morrem por falta de assistência médica. Como irá se
posicionar HH e o candidato ao governo estadual pela Frente, Milton Temer? Quem
declara voto torce pela vitória. Os candidatos da Frente irão por humildade
esconder as atrocidades cometidas por anos de administração corrupta e
contrária aos interesses dos trabalhadores? Qual será a relação dos candidatos
da Frente com o funcionalismo público estadual? Organizar a luta ou pedir
paciência com o governo do novo cabo eleitoral de HH?
Até agora a Frente não possui um
programa. Os pontos que apresentou para discussão foram tão atraentes para
políticos burgueses que Garotinho já declarou voto. Pedro Simon (PMDB-RS) não
esconde sua simpatia, e por esse país continental quantos não seriam os
coronéis políticos locais que não estarão nos próximos dias declarando voto em
HH?
A candidatura HH cresce nas
pesquisas não porque as lutas estejam aflorando, mas porque a burguesia esta
aderindo eleitoralmente à Frente. A história se repete como comédia. Lula fez o
mesmo, para se eleger aceitou humildemente qualquer apoio. O candidato Temer declarou à imprensa que
“Todo voto é bem-vindo”.
A contradição é clara. Ou Frente de
Esquerda se declara pela derrubada do atual governo do Rio de Janeiro ou aceita
colaborar, por omissão, com ele. Se não for a favor dos trabalhadores é contra.
Se for contra os socialistas e revolucionários estão por derrubá-lo. Os
revolucionários socialistas têm claro que é necessário destruí-lo, mas como
fica a questão se a Frente de Esquerda possui como aliado político aquele que
foi o inimigo número um do proletariado fluminense? Não se deve ir contra os
interesses da classe trabalhadora que é destruir o Estado burguês e seus
representantes. Ou o casal Garotinho abandonou sua classe social?
A burguesia nunca põe seus pés em
feiras livres ou no chão da fábrica, não se mistura com o povo. Nem por isso
deixa de mandar. A burguesia nunca pôs os pés no interior de um sindicato de
trabalhadores, no entanto, cooptou seus dirigentes para
políticas reformistas. Alguém acredita que para mandar na Frente de
Esquerda será necessário que haja incorporação física de um burguês?
Desnecessário! A
classe dominante possui funcionários graduados capazes de realizar o
serviço de orientar os rumos da Frente. Qual foi o patrão que se incorporou ao
comitê de campanha do Lula, ou subiu no palanque para
discursar? No entanto, quem mandou na campanha e quem manda hoje no governo?
A Frente excluiu o socialismo de sua
denominação para angariar simpatia entre a burguesia. Essa é a realidade que
começou a ficar clara. A adesão de Carlos Lessa – aquele que saiu do BNDES
chorando porque o governo não defendia a burguesia nacional e não adotava uma
política desenvolvimentista – significa que a política econômica da Frente deve
ser a de fortalecer os Gerdau, os Ermírio de Moraes, os Diniz. O que eles
defendem é que a mais-valia fique no país. Para ser coerente e justificar a
denominação de esquerda a frente deveria defender o fim da exploração do
trabalho seja pela burguesia imperialista seja pela nacional.
As propostas de Heloisa Helena não
são lights, pois é uma candidatura burguesa
travestida de maquiagem popular, cogitá-la como socialista é heresia. A ala
esquerda da Frente de Esquerda reconhece que a independência de classe
inexiste. Em artigo divulgado no sítio do PSTU seu dirigente nacional afirmou
que: “Como todos sabem, o PSTU defendia uma frente classista, e este caráter
acabou por não ser aceito por PSOL e PCB.” (Eduardo Almeida. “O debate
programático na frente: uma polêmica necessária”). O caráter de classe da
Frente não está
ameaçado de corrosão, pois nunca existiu
confirmou o dirigente do PSTU em seu documento.
A candidatura de HH e a Frente de
Esquerda representam uma tentativa de reordenamento
de forças reformistas e centristas, que pelo andar da carruagem estão indo à
direita ao invés de ir à esquerda. Neste momento crucial da vida política
nacional, diante da recusa de HH em repudiar a declaração de apoio de
Garotinho, só resta aos setores revolucionários e socialistas que compõem a
Frente de Esquerda romper e construir Comitês Socialistas pelo Voto Nulo.
Propomos a luta pelo poder socialista dos trabalhadores a partir de uma
plataforma de ação que rompa com o imperialismo e satisfaça as reivindicações
dos trabalhadores.
Defesa do Voto Crítico
na Frente de Esquerda
Posição de Minoria:
Alexandre, Cláudio, Flávia, Massaru, Neide, Severo.
A política, como qualquer trajetória
de longo alcance, quase nunca é um caminho reto; está sujeita a mediações e
contornos muitas vezes não desejáveis, mas necessários para se atingir os
objetivos almejados. Justamente por isso, deve estar solidamente subordinada a
um “norte”, para que não se perca de vista os objetivos estratégicos. Nessa ótica, qualquer tentativa impaciente de
se atingir os objetivos de forma simplista e retilínea quando a realidade não o
permite, pode levar, independente das boas intenções, ao não enfretamento dos
verdadeiros combates.
Os marxistas não pretendem inventar
uma realidade ou um caminho salvador e milagroso para a situação atual. Quem
faz isso são os religiosos. Para o marxismo, é a realidade atual que está
“grávida” das possibilidades futuras, porém, ao mesmo tempo carrega em si os
traços do passado, que teimam em agarrar-se ao corpo dos vivos, como bem
salientou Marx.
Trata-se, em primeiro lugar, de
entender as contradições da realidade, as principais tendências que apontam um
sentido progressivo para a luta de classes e aquelas que, por outro lado,
tendem a freá-lo ou fazê-lo retroceder.
Após essa análise rigorosa, o que
não é fácil, é preciso definir o tipo de atuação que melhor pode impulsionar as
tendências progressivas e combater as regressivas.
Por isso, uma das características
marcantes do marxismo é aliar uma grande dose de otimismo e aposta na resolução
positiva das contradições sociais pela ação humana a um profundo senso de
realismo que, em alguns autores como Lênin, chega a ser cruel. Em Lênin não há
qualquer concessão ao utopismo ou às boas intenções
que não condizem com a realidade.
Dito isso, passemos à polêmica com
os principais argumentos dos companheiros que defendem a tática do Voto Nulo e
à defesa da tática do Voto Crítico na Frente de Esquerda.
O nível de desgaste atual
da democracia burguesa
já
nos permite chamar o Voto Nulo?
Concordamos que há de fato um
desgaste da democracia burguesa, devido à sua incapacidade de resolver os
problemas sociais e ao seu alto nível de corrupção. Mas a questão é: o NÍVEL de
desgaste atual da democracia burguesa já está tão profundo a ponto de autorizar
os revolucionários a não mais lançar candidatos nas
eleições burguesas e chamar o Voto Nulo? Quais são os indícios concretos desse
desgaste tão profundo? O desânimo? A pouca vontade de votar? Mas as pesquisas
indicam um percentual de apenas 8% de votos nulos e brancos. Ou seja, queiramos
ou não, a imensa maioria dos trabalhadores ainda vai votar!
Nessa situação, é obrigação dos
revolucionários disputar seu voto com a burguesia para tentar influenciar a
consciência dos trabalhadores. Caso contrário, significa deixar que a burguesia
utilize sozinha toda sua influência através da pior espécie de política ou, o
que seria ainda pior, permitir que os setores mais direitistas cresçam,
propondo a volta ao passado.
Mas os defensores do Voto Nulo
possuem um outro imbróglio difícil de resolver na situação atual: o que
apresentar de CONCRETO HOJE aos trabalhadores em alternativa às eleições
burguesas? Sim, porque para ser levado a sério pelos trabalhadores normais, não
se pode simplesmente negar algo. É preciso dizer o que fazer então. Mas esse “o
que fazer” não pode ser mostrado apenas com frases e palavras de ordem. Deve
possuir alguma viabilidade prática, caso contrário se cai no descrédito ou no
imobilismo. Nesse momento, por mais que se levante a proposta de se menosprezar
as eleições e impulsionar as lutas diretas – principal mote dos defensores do
voto nulo - na atual conjuntura essa proposta de alternativa cai no vazio.
Dizer isso não significa ser contra
a denúncia de que essas eleições são burguesas, nem ser contra priorizar as
lutas. É preciso dizer sempre em alto e bom tom que a eleição é uma das armas
fundamentais da burguesia para disfarçar sua dominação sobre os trabalhadores e
que só através das lutas poderemos combater a exploração e mudar a sociedade.
Essa denúncia é fundamental, e geralmente tem sido esquecida pela maioria da
esquerda, que está acomodada com a institucionalidade.
Porém, isso não pode nos fazer cair no outro extremo que é o de negar a
importância da disputa eleitoral no Brasil na situação atual. A propaganda e a
agitação política de idéias são fundamentais, mas por si só não resolvem o
desafio prático do que fazer nestas eleições. Para que possam surtir efeito,
tanto a agitação quanto a propaganda devem estar casadas com uma tática que
lhes dê sustentação.
No estágio atual, de poucas lutas
defensivas e fragmentadas, embora importantes, não há organismos de duplo poder
(conselhos, assembléias de bairro, etc) que permitam colocar em termos
concretos a tarefa de ocupar o lugar do poder burguês. Essa é a realidade, e
isso não vai mudar mesmo que gritemos a palavra de ordem: “_Voto Nulo e por um
poder dos trabalhadores” um milhão de vezes! Tampouco neste momento vão existir
lutas decisivas só porque nós estejamos dizendo que elas são necessárias. As
direções são fundamentais, mas não têm a capacidade mágica de criar as mobilizações
de massa.
Enquanto não existirem as condições
para a tomada do poder e se apresentarem nas eleições candidaturas dos
trabalhadores com propostas de ruptura, mesmo que limitadas, é nosso dever
disputar a consciência das massas e dos ativistas com a burguesia e com as
direções burocráticas do movimento a partir dessas candidaturas, e não com a
proposta de voto nulo.
ANÁLISE POLÍTICA DO SETOR QUE VOTA NA
FRENTE E DO SETOR QUE VOTA NULO
Nessas eleições temos Lula (PT) e
Alckmin (PSDB), ambos com o mesmo projeto de aprofundar as Reformas Sindical,
Trabalhista e a 3ª etapa da Reforma da Previdência. A disputa é só para ver que
setor vai comandar e se servir do estado.
É nesse marco que surge a Frente de
Esquerda, que, por mais problemas que apresente, até agora não possui
integrantes da burguesia em seu interior, nem recebe doações de empresários.
Na
direção da Frente estão representados principalmente os setores que romperam
com o PT e que propõem atacar os problemas sociais com um conjunto de políticas
reformistas de caráter antiliberal. Há também setores revolucionários como o
PSTU.
Mas é na base da Frente de Esquerda
que se encontra o setor mais amplo da vanguarda ativista que enfrentou nos
últimos anos a Reforma da Previdência, a Reforma Sindical e Trabalhista, o
pagamento dos juros das Dívidas Externa e Interna, e esteve na luta pela
realização de uma reforma agrária. Este é também o setor principal que estará
envolvido nas lutas contra as reformas de 2007.
Em que pese todos os problemas
existentes na candidatura da Frente, ela irá de fato provocar alguma
polarização em relação ao rumo que o país irá seguir no próximo período. O
projeto da Frente de Esquerda aponta num sentido que vai CONTRA o Projeto de
Lula e Alckmin, que é de subordinação total ao FMI e à lógica de mercado. Por
isso, nesse momento, qualquer potencial de massas em torno de uma mudança dos
rumos atuais da política no Brasil deverá se expressar através voto na Frente.
A Frente de Esquerda materializa a
única alternativa REAL neste momento eleitoral que os trabalhadores enxergam,
não apenas para expressar seu descontentamento com a atual situação, mas também
para começar a discutir a possibilidade de uma saída, para não precisemos
sempre aceitar a lógica do mercado e nos submetermos à globalização
capitalista.
Não será o questionamento radical e anticapitalista que gostaríamos que fosse, mas é muito mais
progressivo somar-se a esse processo e intervir aí, justamente para travar um
diálogo crítico com os trabalhadores e ativistas que pretendem votar na
candidatura Heloisa Helena. A partir daí, expressaremos nossa visão de quais
devem ser de fato as melhores propostas que a Frente deveria levantar,
apresentando assim, nosso programa para uma ampla discussão com as pessoas que
pretendem alguma mudança pela via da intervenção coletiva, mesmo que ainda
considerem importante votar.
Agora, comparemos a proposta de voto
crítico na Frente de Esquerda com a proposta de Voto Nulo. Até então, as
pesquisas apontam cerca de 8 % para as intenções de votos nulos e brancos. Mas
a questão não é só numérica. O principal é: qual o conteúdo político deste
setor? Ao nosso ver, está representado principalmente o setor da sociedade que
não acredita na política – não apenas na política burguesa, o
que seria correto - mas que não acredita sequer na política dos
trabalhadores, na política revolucionária, e inclusive está descrente das
saídas coletivas.
A massa das pessoas predispostas ao
voto nulo tampouco está inclinada a ir às lutas. Se olharmos melhor, veremos
que nos últimos enfrentamentos, como greves, passeatas, etc, simplesmente não
participaram ou mesmo furaram, pois não enxergam
qualquer possibilidade de mudança na sociedade pela via coletiva. Em sua
maioria, estão envolvidos em projetos individuais.
Há
ainda um outro setor pior que, diante da falência da política burguesa, propõe
a volta da ditadura militar e um maior endurecimento da repressão diante dos
problemas sociais e dos movimentos dos trabalhadores.
Pode até haver nesse meio, pessoas
desacreditadas nas eleições e com um perfil de esquerda. Mas nesse momento,
trata-se de uma extrema minoria, praticamente sem expressão política.
Apenas alguns setores extremamente
isolados da vanguarda enxergam no voto nulo uma forma de denúncia do sistema e
ao mesmo tempo de impulso às mobilizações. Trata-se, porém, de correntes
(embora nem todas) que não compreendem a importância de se levar em conta o
nível de consciência para se realizar o diálogo com a classe trabalhadora.
OS LIMITES DO PROGRAMA DA FRENTE
JUSTIFICAM O VOTO NULO?
Divida Externa e Interna
Defendemos a proposta do movimento Jubileu Sul contra a
dívida: suspender o pagamento da dívida externa e realizar uma auditoria. Em
relação à dívida interna, defendemos auditoria, conforme prevista na
Constituição de 1988, e a discriminação de seu perfil, para identificar os
especuladores e as grandes empresas – para os quais defendemos suspender o
pagamento.
Controle sobre áreas
estratégicas
Grupos estrangeiros
utilizam áreas estratégicas para remeter grandes lucros para suas matrizes. Estas
áreas – como petróleo, telecomunicações, energia e siderurgia – devem estar sob
controle do povo brasileiro.
Por novas instituições
realmente democráticas que signifiquem um novo poder sob controle direto dos
trabalhadores e do povo
A necessidade de democratizar radicalmente o poder,
alterando seu conteúdo de classe, deverá ser repetida exaustivamente como
condição preliminar para a aplicação de um programa de emergência, capaz de
tirar o país da crise e resolver os problemas da maioria do povo.
Queremos que os eleitores possam revogar o mandato dos que forem eleitos e não
cumprirem suas promessas. Defendemos a prisão e o confisco de bens dos
corruptos e corruptores. Queremos a alteração radical da representação popular
e de seus mandatos, através do financiamento público exclusivo de campanha, da
democratização dos horários para a propaganda eleitoral nos meios de
comunicação, da revogabilidade dos mandatos, e do fim da cláusula de barreira
que dificulta a representação dos partidos ou candidatos sem poder econômico.
Essas medidas têm que atacar radicalmente a corrupção,
instituindo também o fim dos foros privilegiados, dos sigilos bancário e
fiscal, e definindo os salários dos parlamentares e governantes através de
plebiscito, vinculando-os com o salário mínimo.
Com o propósito de conquistar a verdadeira soberania
popular no Brasil, a Frente de Esquerda anuncia que, no governo da companheira
Heloísa Helena, o povo brasileiro será chamado, através de uma intensa jornada
de mobilizações, a decidir e dar a última palavra sobre: as relações com o
imperialismo (FMI, ALCA, etc.); as dívidas externa e interna e a necessidade de
uma verdadeira independência nacional; a reforma agrária e urbana e um novo
estatuto sobre a propriedade da terra; o valor do salário mínimo e as
prioridades orçamentárias; os parâmetros para a preservação da ecologia; etc.
É Necessária uma Nova
Abolição para acabar com a Moderna Escravatura
Uma política radical para enfrentar a superexploração
no Brasil, motor do desemprego crônico e da precarização
do trabalho, é uma das diretrizes do programa da Frente de Esquerda. Queremos
um plano de obras públicas para absorver o desemprego, ao lado da redução da
jornada de trabalho sem redução salarial. Queremos dobrar o salário mínimo de
imediato. Por uma reforma agrária ampla e controlada pelos trabalhadores do
campo.
Defendemos a revogação das reformas neoliberais, a
começar pela reforma da Previdência. Não à reforma trabalhista e sindical do
governo e do FMI. Não à reforma universitária privatizante
do governo. Queremos a revogação imediata das privatizações das empresas
estatais, a começar pela Vale do Rio Doce. Anulação das privatizações parciais
da Petrobrás e dos leilões das reservas de petróleo. Pela retirada imediata das
negociações da Alca. Pela retirada imediata das
tropas brasileiras do Haiti. Todo apoio à nacionalização do gás na Bolívia.
Em defesa da mulher trabalhadora, defendemos a criação de
creches e pré-escolas para crianças de zero a seis anos. Lutamos contra toda
forma de discriminação racial e sexual. Além disso, defendemos a tributação
severa das grandes fortunas, dos lucros dos bancos e das grandes empresas. O
controle público dos trabalhadores e dos consumidores sobre a produção de bens
essenciais é uma necessidade para que a distribuição de renda de fato ocorra,
acabando com a enorme desigualdade que envergonha nosso país.
(trechos
extraídos do Manifesto da Frente de Esquerda em acordo entre PSOL, PSTU e PCB)
Qual o problema desse programa? É
acreditar em uma reforma antiliberal do Estado e da economia burguesa.
Os companheiros
pró Voto Nulo argumentam, então, que por não se tratar de um programa
socialista e revolucionário, não podemos
apoiá-lo.
Mas só apoiaremos uma candidatura se
a mesma tiver um programa revolucionário? Quem criou essa “regra”? Se fosse
assim, não participaríamos das manifestações sindicais e políticas mínimas por
reajuste salarial, pela retirada das tropas imperialistas da Palestina e do
Líbano, pelo direito de existência dos partidos de esquerda, ou ainda das luta
por políticas públicas de cotas raciais, afinal, todas são lutas reformistas e
nenhuma delas pressupõe o fim do capitalismo.
O problema não é esse. O erro é a
participação limitada e acrítica que a maioria da
esquerda infelizmente realiza. Uma participação revolucionária não exclui de
seu programa a luta pelas reformas, mas as integra em um programa de transição
que pode até partir de reformas, mas vai para além do capitalismo. Se a direção
da Frente tem uma atuação capituladora, mostremos nós à base da Frente onde estão os problemas e
qual seria a intervenção mais correta.
Por exemplo, o programa da Frente
não se propõe a ir contra o capital de conjunto, mas apenas contra o “capital
financeiro”. Não fala de um poder dos trabalhadores, mas de reformas na
democracia burguesa. Não propõe o não pagamento da dívida externa e sim sua
suspensão, com auditoria para saber se deve ser ou não paga.
A partir da crise estrutural em que
o capital ingressou a partir dos anos 70, não é mais possível um projeto
reformista sustentável.
Mas se é verdade que hoje o capital
não pode mais conceder reformas radicais sem ameaçar sua existência, então até
mesmo as reformas propostas no Programa da Frente para serem aplicadas de forma
conseqüente exigirão o rompimento da lógica capitalista que rege a política e a
economia, desencadeando um processo revolucionário e socialista. Caso
contrário, nem mesmo essas reformas progressivas poderão ser implementadas.
A burguesia não vai simplesmente
ficar olhando seu sistema entrar em crise ou ser questionado. A reação virá e
não será pacífica como já demonstraram as experiências no Chile, na Espanha e
em outros países. É nessa tecla que temos que bater!
No entanto, os defensores do Voto
Nulo pecam ao desconsiderar que a partir desse programa reformista, mas QUE
ESTÁ EM DISCUSSÃO NA MASSA, temos condições muito mais amplas para realizar o
debate entre reforma e revolução do que se não existisse a Frente de Esquerda.
Temos que encarar esse debate
através de uma perspectiva positiva de que, sim, é possível adotar esse
conjunto de propostas que a frente apresenta, mas que primeiramente isso não se
fará apenas elegendo candidatos e através do Congresso Nacional e da Justiça
burguesas, mas acima de tudo através de um processo nacional de lutas de massas
que imponha essas medidas, e em segundo lugar, para que possam
de fato serem aplicadas e sustentadas será preciso adotar um Programa de
medidas mais avançadas como:
-
estatização do sistema financeiro sob controle dos trabalhadores;
-
reestatização das empresas privatizadas e sua
colocação sob Comitês dos trabalhadores;
-
monopólio do comércio exterior;
-
expropriação das grandes fábricas, bancos e agronegócios
sob controle dos trabalhadores;
-
um poder dos trabalhadores apoiado em organismos de base que reflitam a
organização dessas lutas;
-
apoio às lutas dos povos bolivianos, venezuelanos, palestinos, povos que estão
enfrentando o imperialismo, e conclamação à ruptura geral com o capital e sua
unificação em uma federação socialista.
POR FIM, O PROCESSO DE FORMAÇÃO DA FRENTE
DE ESQUERDA
É evidente que o processo de
constituição da Frente de Esquerda passou longe do que seria desejável e
necessário para o desenvolvimento de um bloco forte e coeso da classe
trabalhadora, que pudesse desde já realizar o enfrentamento não apenas nas
eleições, mas acima de tudo como preparação à resistência colocada para o
próximo ano.
De nossa parte, assim como outras
correntes, propusemos a realização de uma Plenária ou Encontro Nacional de ativistas
para deliberar em conjunto tanto o Programa quanto as candidaturas da Frente.
Mas é sabido que o PSOL recusou essa metodologia e impôs suas concepções.
O PSTU, que antes adotava uma
postura sectária perante o PSOL – o que inclusive o levou ao absurdo de sequer
assinar as listas de legalização desse partido –, por fim acabou se
incorporando à Frente em condições bem abaixo do que pretendia e do que seria
melhor para o movimento. O programa apresentado pelo PSTU e a vice-candidatura
de Zé Maria seriam bem melhores para reforçar o caráter classista e socialista
da Frente.
No entanto, resta saber se o PSTU,
caso fosse maioria, aceitaria as condições de uma Plenária aberta de ativistas
ou iria se impor da mesma forma que fez o PSOL. Na Conlutas, por exemplo, onde o PSTU é maioria, o método de
imposições (ver artigo sobre o CONAT) e atropelo das correntes de oposição não
é muito diferente do método usado pelo PSOL na definição da Frente.
Todo esse balanço deve ser feito de
forma crítica junto à vanguarda e aos ativistas dos movimentos sociais. Mas não deve nos fazer esquecer que há um
inimigo muito maior a ser combatido que é a burguesia e seus candidatos, que
essas eleições são, na verdade, a preparação para os ataques do próximo período
e que diante disso a unidade, por mais problemas que se tenha, é fundamental e
deve ser impulsionada, o que não nos exime de
continuar essa discussão de forma dura, mas partindo do apoio crítico à Frente
e não votando nulo. Não colocamos um sinal de igual entre as candidaturas de
Alckmin, Lula e Heloísa Helena, apesar dos problemas que esta tem.
Ao nosso ver, a proposta de Voto
Crítico na Frente possibilitaria ao Espaço Socialista impulsionar esse processo
político mais progressivo que o do Voto Nulo, atingindo com nossas propostas um
setor de trabalhadores e ativistas muito maior e mais
disposto a se mobilizar. No segundo turno, a partir de que estivessem apenas
Lula e Alckmin aí estaríamos chamando o Voto Nulo, já que os dois projetos são
a continuação do que aí está.
SOBRE O APOIO DE GAROTINHO A HELOÍSA
HELENA
Para nós, esse apoio só pode ser
compreendido por um lado, pelas limitações da campanha de Heloisa Helena que
até agora tem sido light, sem apresentar publicamente
sequer as propostas acordadas no manifesto da Frente, e por outro, pela
tentativa de Garotinho de ganhar simpatia junto ao eleitorado de Heloísa
Helena, no momento em que atingia 10% nas pesquisas.
Diante do apoio declarado de um
político da burguesia, a posição da candidata teria que ser de recusa e de
denúncia que os interesses de Garotinho são opostos aos dos trabalhadores e aos
da Frente. Não foi isso o que fez Heloísa Helena, que preferiu agradecer
“humildemente qualquer apoio”, embora diga que não fará qualquer concessão
(“concessão zero”) no programa e Babá afirme que não será aberto espaço nos
palanques. Acontece que Garotinho não é qualquer apoio.
A incorporação de Garotinho ou
qualquer outro político burguês à Frente seria inaceitável e obrigaria a todo
setor classista a romper com a Frente.
Apesar das declarações de que o
apoio verbal de Garotinho não significa nem concessões, nem sua incorporação na
Frente, a aceitação deste tipo de apoio representa mais um dos vários problemas
que ameaçam corroer o caráter de classe e de independência da Frente de
Esquerda. Os setores que compõem a Frente de Esquerda e todos os ativistas
devem exigir que não seja aceito nem esse, nem qualquer outro apoio de políticos
burgueses ou governistas.
Outra exigência fundamental seria
que Heloísa Helena represente de fato o programa acordado pela Frente de
Esquerda, ao invés de defender propostas ainda mais limitadas como tem feito
até agora.
Mobilizar e Lutar Pelo
Poder Socialista dos Trabalhadores
A plataforma de luta e ação, apresentada
abaixo, expressa a posição geral de nosso coletivo independente da
tática eleitoral: Voto Nulo (posição oficial da organização)
ou Voto Crítico na Frente de Esquerda (posição
minoritária).
Estamos chamados a um novo desafio:
promover neste ano uma campanha pelo voto nulo com perfil socialista. Rumar
para a construção de um poder socialista dos trabalhadores. No contexto da
disputa eleitoral impulsionaremos comitês socialistas pelo voto nulo.
A Propaganda e luta ideológica serão
atividades centrais. O reformismo (idéia de que amenizando os aspectos
negativos do capitalismo, em colaboração com a burguesia, melhora-se a vida)
pressiona o ativismo social no sentido de cooptá-lo para saídas políticas nos
marcos do capitalismo. Nós, pelo contrário, denunciamos que a colaboração de classes
somente beneficia a burguesia. Afirmamos a luta e a organização do proletariado
como única garantia de prosseguirmos vivendo. Ao mesmo tempo denunciamos que no
capitalismo qualquer conquista é temporária, pois a burguesia, por ser a classe
dominante, retira com a mão esquerda o que concedeu com a mão direita. Apenas o
poder socialista dos trabalhadores permite abrir novos horizontes ao
proletariado. A defesa do socialismo em abstrato, fora do cotidiano das massas,
é ineficiente. Para contrapor esse elemento apresentamos a luta pelo socialismo
a partir de uma plataforma de ação com reivindicações concretas e específicas
que possam despertar disposição de reação entre os trabalhadores. Em nosso
material ao invés de iniciarmos a
propaganda do socialismo e o combate ao capitalismo com um discurso ideológico
de esgotamento econômico do sistema e críticas à democracia burguesa
apresentaremos uma plataforma de luta e ação. Sob cada um de seus pontos
podemos e devemos propor a organização de uma luta.
RUPTURA COM O IMPERIALISMO
Desconhecemos as dívidas interna e
externa. Ambas favorecem o enriquecimento daqueles que já possuem muito
dinheiro. Lembramos que no Brasil 5 mil famílias controlam 45% da riqueza
enquanto 55 milhões (a título de ilustração a população da Inglaterra é de 54
milhões) de habitantes vivem com menos de um salário mínimo por mês. Toda nossa
riqueza deve ser utilizada para a melhoria das nossas vidas. Repudiamos as
ações militares do imperialismo, seja o estadunidense, europeu os japonês. Denunciamos o Organização
das Nações Unidas (ONU) com um instrumento de legitimação da pilhagem dos povos
e de violação das soberanias nacionais. Fora as tropas
imperialistas, sob comando do Brasil do governo Lula, no Haiti. Fora as tropas do Iraque. Pela soberania do povo palestino.
Contra as pretensões de invadir o Irã. Em defesa da soberania e dos interesses
dos trabalhadores de Cuba e da Coréia do Norte. Em defesa do povo palestino,
contra a ofensiva militar de Israel e dos EUA.
ANULAR AS PRIVATIZAÇÕES, PELA
REINTEGRAÇÃO DOS DEMITIDOS
Luta pela reestatização
das companhias privatizadas, sob controle dos trabalhadores e imediata
reintegração dos demitidos. Citamos como exemplo a mobilização pela anulação do
leilão de privatização da Companhia Vale do Rio Doce, mas também, que sejam
anulados os leilões da
Usiminas, da Companhia Siderúrgica Nacional, das concessões de
exploração de petróleo na costa brasileira, da rede ferroviária federal, das
partes do sistema de produção, distribuição e comércio de energia elétrica, de
toda a rede de telecomunicações, a começar pela Embratel, passando por pelas
companhias de telefonia móvel e fixa, pelo fim da cobrança de assinaturas nas
linha de telefonia fixa. Contra a quebra do monopólio postal da ECT. No caso do
Estado de São Paulo propomos a luta pela anulação da privatização do Banespa e
que ele seja colocado sob controle dos trabalhadores, sem indenização aos
antigos proprietários e pela reintegração de todos os demitidos. Mas não nos
limitamos somente ao Banespa defendemos a mesma política para o Ceagesp,
Fepasa, Eletropaulo-CPFL, Ceetp,
e Congás. Recentemente foi lançado um movimento pela reestatização da Companhia Vale do Rio Doce. Sugerimos que
essa luta não se limite a uma única empresa, propomos reestatizar
todas as demais empresas e bancos, sem indenização aos antigos proprietários.
Pouco nos interessa que as empresas estatais permaneçam como agentes do capital
fazendo o jogo da burguesia e alimentando seus lucros, elas devem ser colocadas
sob controle dos trabalhadores para garantir a recontratação de todos aqueles
que perderam seus empregos.
ESTATIZAR O SISTEMA FINACEIRO
Os bancos hoje centralizam as
atividades agrícola, comercial e industrial do capitalismo brasileiro. Isso
significa que nenhuma medida de política econômica saneadora da catástrofe
social que o capitalismo gera pode ser implementada sem que o Estado assuma
para si as operações financeiras e bancárias do dia-a-dia. Por isso, a primeira
ação de um programa socialista deve ser a estatização dos bancos. Isso não pode
ser confundido com a apropriação indevida dos bens privados. A associação entre
estatização e apropriação indébita do patrimônio pessoal é falsa e faz parte
das campanhas da imprensa burguesa de defesa do baronato financeiro, que a suborna
para enganar os trabalhadores. A estatização do sistema financeiro, em si, não
se apropriaria de um centavo dos correntistas e investidores, mas permitiria um
rápido redirecionamento de recursos para ações
atenuantes do pesadelo diário que se tornou a vida de
uma enorme quantidade de deserdados e parias sociais. A estatização dos bancos
em nada altera as relações de propriedade, exceto para seus antigos
proprietários, isso deve ser reforçado, pois a imprensa burguesa gera um pavor
na classe média, que possui pequenos recursos em investimentos e que pelo seu
modo de vida e consciência é refém da burguesia. A estatização do sistema
financeiro deve ser acompanhada da centralização do cambio e de controle sobre
o fluxo de capital. Abaixo a anarquia do mercado que diariamente altera as
cotações de moedas estrangeiras para favorecer os especuladores. Fim da
especulação financeira. Implementação imediata dos juros anuais de 12%.
REFORMA AGRÁRIA
É necessária uma reforma agrária sob
controle dos trabalhadores que quebre a influência burguesa sobre o campesinato e o pequeno produtor rural transformando-os em
sujeitos sociais de mudança revolucionária da estrutura fundiária brasileira,
que volte toda sua produção para o abastecimento interno e destrua o latifúndio.
Hoje as lavouras do agro-negócio e exportação (soja, laranja, cana-de-açúcar,
café e algodão) estão espremendo as lavouras de subsistência (arroz, feijão,
batata, mandioca, milho, frutas, legumes, e hortaliças). A burguesia visa
consolidar o domínio do capital sobre o trabalho, seus reacionários passos aumentam os lucros dos grandes monopólios
internacionais, do mercado financeiro e do agro-negócio. A mesa da classe
trabalhadora brasileira é diariamente sacrificada para a engorda dos lucros
capitalistas. Diante de eventuais tentativas de sabotagem e racionamentos
forjados, o instrumento do confisco e tabelamento de preços deve ser acionado
de imediato. Organizando um controle democrático da produção e distribuição dos
alimentos. Famélicos da terra saciai vossa fome.
Reforma agrária sob controle dos trabalhadores. Comercio exterior deve ser
monopólio estatal. Proibição da exportação de gêneros alimentícios, prioridade
absoluta ao mercado interno.
SALÁRIO E JORNADA DE TRABALHO
Redução da jornada de trabalho sem
prejuízo salarial, emprego para todos, reconhecimento formal de todos os que
trabalham, abaixo o trabalho informal, precário e
terceirizado. Reputamos como falso o argumento de que a abertura do
comércio aos domingos ampliou os postos de trabalho, na verdade escravizam os
trabalhadores. Reconhecemos o direto de todos ao descanso semanal remunerado e
ao convívio familiar. Por isso apoiamos a reivindicação dos comerciários de
fechar as lojas aos domingos. Fim da cobrança do imposto de renda sobre os salários.
Lutemos por um salário mínimo que de fato possa conferir uma condição de saúde,
alimentação, moradia e vestimenta dignos aos trabalhadores.
A pequena burguesia e seus intelectuais, cedem aos
argumentos da classe patronal e ficam apavorados com um a defesa do salário
mínimo do Dieese, equivalente hoje a R$ 1.500,00.
Lembramos que se o salário mínimo tivesse acompanhado a evolução do PIB
(Produto Interno Bruto) da economia brasileira, equivaleria hoje a quase R$
4.000,00.
SAÚDE PÚBLICA
Quanto ao setor de saúde o
reconhecemos com estratégico para a sobrevivência dos trabalhadores. Afirmar
que se vai elevar a dotação orçamentária é pura demagogia, pois isso pode de
fato ocorrer e o dinheiro ao invés de beneficiar os doentes, cair na mão dos corruptos. Por isso
propomos uma luta por estatizar a rede de hospitais
privados. Uma das mais cruéis conseqüências da fome e do desemprego é o
surgimento de problemas de saúde decorrentes de uma má alimentação, de
condições insalubres de moradia e do esgotamento nervoso das pessoas. Nessa
situação o proletariado não encontra atendimento hospitalar, assistência médica
e não consegue comprar os remédios necessários. Todo trabalhador desempregado
ou não, com ou sem convênio médico deve ter assegurado seu tratamento. O Estado
deve garantir o fornecimento de remédios a todos os pacientes, estatizando a indústria químico-farmacêutica e quebrando a
patente dos medicamentos. Defesa das pesquisas com células
tronco sob controle dos trabalhadores e não das corporações, contra os
preconceitos de ordem religiosa.
EDUCAÇÃO
Contra a reforma universitária, não
estamos por defender o atual modelo de ensino elitista e competitivo. Propomos
o fim do vestibular e a criação de um sistema único de ensino, nos níveis
básico (do infantil ao Ensino Médio) e no ensino superior, que seja estatal, gratuito, laico e de princípios emancipadores
e socialista. Verba pública somente para escolas públicas. Abaixo ao subsídios para o setor privado. Aplicação de 25% do PIB
para a educação. Nas escolas de Ensino Básico 25 alunos por sala nas séries
iniciais, 30 alunos nas salas de 5ª a 8ª séries e 35 no Ensino Médio. Salário
mínimo do Dieese por 20 horas/aula.
NEGROS
Contra a burguesia racista propomos
uma luta conjunta de negros, índios e brancos pobres e excluídos por cotas
raciais e sociais. Pela expropriação do latifúndio, terra para negros, índios e
brancos. Contra o ensino privado e o vestibular pelo acesso livre e gratuito a
todos em universidades públicas e gratuitas. Pela expropriação das escolas e
faculdades privadas. Para que nenhum negro, índio ou branco
pobre morra doente por falta de dinheiro defendemos o atendimento
público e gratuito a todos com distribuição dos remédios gratuitamente. Pela
estatização da rede hospitalar privada. Contra o desemprego, redução da jornada
de trabalho para negros, índios e brancos sem redução e diferenciação
salarial.. Somos solidários aos nossos irmãos de sangue de toda a América,
abaixo o imperialismo, contra a racista pena de morte nos EUA, liberdade para
Múmia Abu Jamal. Pelo Poder Socialista do Trabalhadores que destrua o regime burguês e os
preconceitos raciais.
JUVENTUDE
Que todos os jovens tenham o direito
de locomoção gratuita. Passe livre para jovens estudantes e
desempregados. Por educação sexual nas escolas. Distribuição
gratuita de contraceptivos e preservativos. Meia
entrada para jovens estudantes e desempregados.
MULHER
Abaixo a discriminação que o governo
Lula impôs à mulher trabalhadora doméstica, para todo e qualquer tipo de
trabalho, todas merecem os mesmos direitos dos demais
trabalhadores. Por férias, multa rescisória, fundo de garantia e salário mínimo
do Dieese. Pela descriminação do aborto, nenhuma
mulher deve morrer por estar em desespero e não poder ser atendida em
hospitais. Aborto público e gratuito para não morrer. Licença maternidade de 9
meses, tempo ideal de amamentação. Por creches e lavanderias públicas
ANULAÇÃO DA REFORMA DA PREVIDÊNCIA
Anulação da reforma da Previdência.
Por um sistema previdenciário estatal único, sob controle dos trabalhadores
aposentados. Que os fundos de pensão privados sejam estatizados
e todos os demais colocados sob controle dos trabalhadores ativos e inativos.
Valor mínimo das aposentadorias equivalente ao salário mínimo do Dieese.
ECOLOGIA
Luta pela soberania da Amazônia.
Abaixo o argumento de pulmão do mundo e reserva ambiental da humanidade. Ela é
patrimônio dos trabalhadores brasileiros e dela não abrimos mão. Pela expulsão
das inúmeras ONG’s (organizações não governamentais) que atuam como disfarce
dos interesses do imperialismo. Pela imediata revogação da Lei de Florestas.
Pelo controle do aquífero Guarani. Pelo controle
estatal de todos os recursos hídricos, minerais e florestais. Pela pesquisa de
nossa biodiversidade por universidade e pesquisadores brasileiros. Abaixo a lei
de patentes que pretende, na mão dos grandes capitalistas, privatizar o que é
de todos, a própria vida. Que os fabricantes de garrafas PET (garrafas
plásticas), pilhas e baterias sejam responsáveis pelo respectivo recolhimento,
caso contrário suas empresas serão estatizadas em
benefício do meio ambiente e da saúde humana.
ABAIXO O MONOPÓLIO DA COMUNICAÇÃO
Denunciamos como fraudes jurídicas e
políticas as concessões de rádio e TV no Brasil. Elas fazem parte de um jogo de
trocas de favores entre a burguesia e o gerente de plantão. Por isso lutamos
por anular todas as concessões. Defendemos uma ampla geral e irrestrita
democratização dos meios de comunicação (rádio/TV) e
fim do monopólio de uma dúzia de famílias que controlam o principal veículo de
informação das massas no Brasil. Por um modelo de TV digital com tecnologia
nacional e democrático. As rádios e TV’s sob controle da burguesia domesticam
as consciências, alienam os indivíduos na ilusão de que seria possível uma vida
digna em meio a uma sociedade consumista e competitiva. Ao contrário, sob
controle dos trabalhadores os canais de comunicação podem auxiliar a sociedade
a se emancipar da ignorância e promover uma elevação do nível cultural geral.
REFORMA POLÍTICA
Necessitamos alterar o sistema
representativo no país constituindo mecanismos de democracia direta e de
participação popular dentre elas: parlamento unicameral, abaixo o Senado, fim
das sanções do executivo, lei aprovada lei sancionada. Abaixo a distorção das
bancadas de deputados federais, por uma representação eqüitativa das
populações. Liberdade partidária a todas
as agremiações políticas de esquerda e representativas dos interesses dos
trabalhadores, abaixo a cláusula de barreira. Promoção do seqüestro de bens de
todos os envolvidos em caso de corrupção ativa ou passiva. Uma ampla reforma do
Judiciário, que possa extirpar de seu interior os focos de corrupção e
lentidão. Por um controle externo e transparência na administração dos
Tribunais. Fim da cobrança de custas aos trabalhadores.
MATEMÁTICA FINANCEIRA DOS TRABALHADORES
Fim dos impostos sobre bens e
serviços de primeira necessidade. Nenhum imposto sobre gêneros alimentícios.
Anulação de todas as dívidas da classe trabalhadora contraída com agiotas
financeiros. Isenção do pagamento de água, luz, gás e telefone para
desempregados. Passe livre para os que procuram emprego
REFORMA URBANA
Reforma urbana com a desapropriação
de todas as áreas ociosas e grandes propriedades para construção de moradias
para os trabalhadores. Pela expropriação dos latifúndios urbanos, as mansões e
bairros nobres da burguesia. Casa para todos.
Congresso Nacional dos
Trabalhadores – CONAT
O processo de reorganização da luta
dos trabalhadores, ainda restrita a setores da vanguarda, encontra pela frente
desafios colossais, tanto nas condições objetivas (reformas, ataques às
conquistas dos trabalhadores, fechamento de postos de trabalho, etc.) quanto
nas subjetivas (desgaste e desmoralização de ativistas, crise de alternativas
socialistas, integração direta ao aparelho de Estado da CUT e dos sindicatos
mais importantes do país, etc.).
Antes a economia nacional possuía
alguma autonomia frente ao mercado mundial. O modelo de desenvolvimento
capitalista no país era marcado pelo fordismo com uma
produção de bens voltada para o mercado interno. Havia um processo objetivo de
pressão do movimento sobre as direções sindicais que dificultava sua
capitulação aos planos econômicos e políticos da burguesia e do Estado burguês:
a consciência média do movimento era classista.
No início da década de 1980 vivia-se
o fim da ditadura militar. A massiva rejeição ao regime com poderosa campanha
por eleições diretas combinada com indícios de esgotamento do modelo econômico
deu origem a um amplo processo de organização dos trabalhadores nas fábricas
(Comissões de Fábricas), centenas de greves, manifestações, etc. PT e a CUT se
construíram nessa época.
A economia nacional perdeu os
vestígios de independência e está totalmente integrada aos grandes monopólios
do mercado mundial. Hoje, quando as margens de concessão do capital aos
trabalhadores se restringem a muito pouco, as direções burocráticas percebem
que a única forma de manter seus
privilégios é se integrar ao padrão do sindicalismo de colaboração com os
patrões que abandona as lutas dos trabalhadores. Da atual situação os
trabalhadores necessitam de novas ferramentas, tanto sindicais quanto
políticas, que superem esses problemas e apresentem novos desafios para as
lutas.
Esses elementos são centrais para
avaliar o processo de construção da CONLUTAS e em especial o CONAT, que foi
apresentado como o grande marco do movimento sindical no Brasil neste último
período.
A construção da CUT e agora da
CONLUTAS fazem parte de processos históricos diferentes. Portanto, os desafios
e as necessidades também são diferentes. Não compreender isso significa que, de
forma consciente ou por equívoco, vai se procurar repetir uma prática que já
ficou no passado, ou seja, uma tradição do “velho” movimento operário baseado
em sindicatos fordistas e partidos social-democratas
de massas. A tentativa de repetir processos sem considerar os momentos
históricos já foi ironizada por Marx: “Hegel observa em uma de suas obras que
todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo
ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira
vez como tragédia, a segunda como farsa”.{1}
DESAFIOS DO CONAT E DA CONLUTAS
Ante esse quadro histórico, pensamos que os principais desafios estão relacionados à construção de uma nova concepção sindical que vá além das lutas imediatas por salários ou direitos; com um funcionamento democrático e antiburocrático dos sindicatos (controle sobre a ação dos dirigentes, rotatividade, revogabilidade dos mandatos, etc.) e que organize um processo nacional de lutas contra o desemprego, reduç