Espaço Socialista
Publicação Marxista Revolucionária de
Debates.
Ano VI – Nº 17– Maio de 2006.
INDICE
01 - Por que a esquerda não se une?..................................................................
01
02 – Para Combater a fome e o Desemprego ...................................................
05
03 –
Democracia (ditadura) burguesa e ditadura (democracia) do
proletariado
...............................................................................................
09
04 – A farsa do Estado democrático de
direito no Capitalismo ...................... 13
05 – Os povos na rua e a crise global do
Capital .............................................
15
06 – O Cosmonauta e a farsa espetacular
da mídia ..............................................
19
POR QUE A ESQUERDA NÃO SE UNE?
Alexandre Ferraz
Rafael Guedes,
diretor-executivo da Fitch Ratings
no Brasil, urna das mais importantes agências de risco do mundo, afirmou que
vitórias eventuais de Luiz Inácio Lula da Silva ou de Geraldo Alckmin não
representam mudança na política econômica. “Tanto faz” um ou outro, resumiu. (Uol News, 12/04/2006).
Quais conclusões podemos tirar deste pequeno trecho de
entrevista de um alto executivo financeiro?
A principal é
obvia: Ganhe Lula ou Alckmin, o projeto político-econômico imperialista da
burguesia brasileira será mantido. A segunda conclusão é de que em 2007, novos
ataques virão: Reformas Sindical e Trabalhista, “terceira
onda” da Reforma da Previdência, a retomada da reforma universitária, aumento
da taxa de juros, desemprego, etc.
É urgente o
máximo de esforços para a unificação da esquerda a fim de apresentar aos
trabalhadores uma alternativa unitária, pelo menos nos pontos em que todos
dizem ter acordo, como: unificação das lutas, programa mínimo anticapitalista, um calendário de lutas e uma Frente nas
Eleições. São pré-requisitos óbvios para que os explorados e oprimidos possam
bancar uma resistência eficaz e, possivelmente, uma reviravolta na situação.
Sem um bloco unitário da vanguarda e das massas, até mesmo movimentos
explosivos tendem a se dispersar. Essa é a principal lição das rebeliões
sociais ocorridas nos últimos anos na América Latina.
Mais um
elemento importante é que esses ataques não são projetos de governo, mas uma
necessidade concreta do capital em responder às suas necessidades. A tentativa
do imperialismo francês em impor a “lei do primeiro emprego” (ver matéria nesse
jornal), o ataque do governo Bush aos imigrantes nos EUA, as reformas da
previdência na Itália, Áustria, etc, sinaliza que as reformas também devem
acontecer nos países imperialistas e que realmente trata-se de um projeto do
capital mundial, ou seja, muito além de um ato do funcionário do capital de
plantão.
Ante esse
panorama nos parece evidente que a unidade entre os socialistas deveria ser
óbvia, mas não é. Infelizmente, essa questão tem demonstrado o limite das
correntes tradicionais da esquerda. Todas as organizações defendem formalmente
a bandeira da unidade, mas na prática o que vemos é
bem diferente. O fato de encararem a sua construção e as disputas pelos
aparatos eleitorais ou sindicais como fins em si mesmos, cria uma contradição
entre os interesses dessas organizações e os do movimento de conjunto,
impedindo a unidade tão necessária.
AMBIÇÕES ELEITORAIS DO PSOL MINAM FRENTE CLASSISTA E SOCIALISTA NAS
ELEIÇÕES
De um lado
temos o PSOL com a candidata Heloisa Helena à presidência, embriagados com os
6% das intenções de voto. Este partido teria a maior responsabilidade de
impulsionar uma Frente Classista e Socialista nas Lutas e nas Eleições.
Do ponto de
vista do movimento, teríamos um avanço na consciência, unidade e organização de
um setor da classe e da vanguarda visando os enfrentamentos de agora (campanhas
salariais, etc) e de 2007, o que significaria sem dúvida um salto de qualidade.
Mas o PSOL
priorizou as negociações com partidos burgueses como o PDT PSB, PV que
naufragaram devido à verticalização
que obriga uma política única de alianças em todo o país.
Apesar de
inúmeros chamados do PSTU e outras organizações, o PSOL se negou a apresentar,
uma proposta democrática para a formação dessa Frente. Ao contrário, agiu de
forma unilateral em todas as definições da campanha, como o programa e a
escolha dos candidatos. A gota d’água, que parece complicar de vez a Frente,
foi a escolha unilateral pelo PSOL do candidato a
vice-presidente, César Benjamin.
O PSOL defende um programa nacional-desenvolvimentista, restrito aos marcos do
capitalismo e da democracia burguesa. Para a estratégia do PSOL, uma
frente com o PSTU e demais agrupamentos socialistas revolucionários
significaria um perfil mais radical de campanha, o que poderia levar a uma
diminuição dos votos e prejudicar sua própria construção.
Se esse curso
não for revertido, o PSOL se tornará o principal responsável pela não
existência de uma Frente Classista e Socialista nestas Eleições de 2006.
É lamentável
que um partido que desperta simpatia em setores da
vanguarda esteja impregnado por essa adaptação à lógica dos resultados
eleitorais, mesmo depois de tudo o que aconteceu na trajetória do PT.
Uma
participação socialista nas eleições nunca deveria significar adaptação à
lógica da democracia burguesa, de eleger mais candidatos às custas do
rebaixamento do programa e das alianças. Ao contrário, participar das eleições
só tem sentido se servir para impulsionar as lutas, denunciar que as eleições
burguesas não vão resolver os problemas dos trabalhadores e apresentar um
programa socialista.
Outro fato que
demonstra que o PSOL continua preso à “cultura petista” é que sua direção
resolveu alterar, mesmo contra protestos dos grupos de oposição e de base, o
caráter de seu Congresso que deveria ser realizado no primeiro semestre de 2006
e que iria discutir Programa e Concepção do Partido.
Agora haverá uma Conferência, onde serão discutidos apenas os eixos da campanha
eleitoral e as alianças. As discussões de concepção de partido e de programa
sequer serão feitas.
É verdade que,
quando houve o lançamento do PSOL, o PSTU chamou sua militância e ativistas
próximos a não assinarem as listas para a legalização do PSOL, uma atitude
claramente sectária. Independente das divergências, tratava-se
de um partido de trabalhadores e de esquerda lutando para se legalizar, contra
as exigências de um estado burguês. Era uma questão democrática que o PSTU
levou para o lado do revanchismo. Mas isso não justifica que a direção do PSOL
queira usar desse fato para incitar sua militância contra uma Frente com o
PSTU. Os interesses particulares das organizações não podem se sobrepor ao
interesse geral do movimento.
O Espaço
Socialista defendeu desde o início que se estabelecessem os acordos para uma
Frente Classista e Socialista na Lutas e nas Eleições, pois essa política
expressa a necessidade da classe e a vontade da base das principais
organizações e dos ativistas em geral.
No entanto, uma
Frente capaz de representar e impulsionar a unificação dos trabalhadores nas
lutas e nas eleições teria que ser construída a partir de uma metodologia
diferente, oposta à das frentes burguesas ou burocráticas.
Ao invés de
prevalecerem os acordos de cúpulas deveria haver uma Plenária Nacional
Classista e Socialista aberta a todos os ativistas do movimento, organizados ou
não em partidos, ESSA seria a forma democrática de discutir e deliberar sobre
os principais aspectos da Frente como caráter, programa, calendário de lutas,
candidaturas, etc.
Uma Frente
Classista e Socialista poderia impulsionar um processo de organização junto à
classe, abrindo-se à participação de trabalhadores e ativistas, através de
Comitês da Frente.
POLÍTICA LIMITADA DO PSTU TAMBÉM DIFICULTA UNIDADE NAS LUTAS
No terreno das
lutas concretas e da reorganização sindical, tampouco a situação de
fragmentação é diferente. Prevalece a disputa de projetos particulares sem que
haja uma proposta de unidade mínima.
Vimos acima que
o PSIU apareceu como um dos maiores defensores da Frente Classista e Socialista
nas Lutas e nas Eleições, propondo inclusive uma Convenção para deliberar o
programa e as candidaturas da Frente.
No entanto,
quando passamos para o terreno das lutas e da reorganização sindical,
estudantil e popular, a preocupação do PSTU com a unidade revela-se bastante
parcial, pois até agora recusa-se a qualquer proposta
de um fórum maior, que busque uma unidade mínima entre a CONLUTAS, Assembléia
Popular e demais grupos ativistas. Sem essa unidade mínima dos vários setores,
todos ficamos enfraquecidos para levar adiante as campanhas salariais, a luta
contra o desemprego, pelo salário mínimo do DIEESE, pelo não pagamento das
dívidas externa e interna, etc.
A pré-condição
colocada pelo PSTIJ às demais organizações e aos sindicatos para que haja a
unidade tem sido a ruptura com a CUT e o ingresso na CONLUTAS... Mas essa
pré-condição não pode ser colocada no caso de uma unidade mínima no terreno das
lutas! Temos então uma política limitada, correta no
aspecto das eleições, auto-proclamatória no terreno
das lutas sindicais e dos movimentos sociais.
Salientamos
esse problema não porque sejamos contra a construção da CONLUTAS, pelo
contrário, Nos dias 5, 6, e 7 de maio estaremos em
Sumaré participando do CONAT, pois é um mérito que a CONLUTAS tenha se
consolidado como o pólo mais dinâmico de alternativa à CUT.
No entanto, não
podemos negar o fato de que a construção da CONLUTAS ainda abarca um setor
minoritário de trabalhadores e lutadores. A maioria dos sindicatos ainda está
filiada à CUT; alguns já se desfiliaram, mas tampouco
já entraram na CONLUTAS.
Nesse
sentido, é de fundamental importância - até para ganhar a confiança dos setores
que ainda não integram a CONLUTAS - que esta tenha uma política de unidade
maior entre os lutadores que não se renderam a cooptação governista e aos
ditames do capital, sem impor a condição sectária e artificial de que já tenham
rompido com a CUT e estejam na CONLUTAS.
Temos que
entender que o processo de ruptura com o PT e a CUT e de recomposição/reorganização
do movimento dos trabalhadores possui um ritmo lento e desigual pelo fato de
ainda não ter ocorrido um ascenso
como nos anos 70 e 80. Não levar esse poderoso fator objetivo em conta provoca
atitudes autoproclamatórias e sectárias, fazendo com
que os trabalhadores permaneçam sem uma referência maior, capaz de organizar,
pelo menos, a resistência aos ataques do capital.
Todas as
iniciativas de reorganização devem ser apoiadas, mas ao mesmo tempo é preciso
humildade, pois nenhum setor teve ainda sua política provada e confirmada na
luta de classes a ponto de poder afirmar que já tem todas as respostas certas.
A política de unidade, em base à democracia dos trabalhadores é central nessa
etapa em que estamos, se queremos nos preservar e crescer enquanto esquerda
socialista.
O governo deve
antecipar partes da Reforma Trabalhista já, para este ano. Nós vamos ficar
olhando e fazendo apenas campanha eleitoral? Como vão ficar as campanhas
salariais de setembro? E a nova rodada de Reformas pretendidas pelo capital em
2007? Vamos deixar para começar a denúncia e a mobilização em cima da hora?
DEFENDACONOSCO UMA PLENARIA UNITÁRIA, CLASSISTA E SOCIALISTA
A necessária
unidade ainda é um instrumento a ser construído pelos lutadores, tanto pelas
dificuldades naturais do movimento quanto pela indisposição das principais
correntes da esquerda brasileira em impulsionar esse processo.
Nós do Espaço
Socialista chamamos a todos os ativistas a lutarem em todos os Fóruns do
movimento, especialmente no CONAT, (05, 06 e 07 de maio) para que seja aprovada uma Plenária ou Encontro Nacional Unitário, Classista e
Socialista no máximo para o início do 2º semestre. Essa Plenária ou
Encontro seria uma forma concreta e democrática de aprovar um Programa Mínimo
Socialista e um Calendário Unificado de Lutas pelos interesses imediatos e
gerais da classe trabalhadora. Podem ser realizadas discussões preparatórias
nos sindicatos associações, DCEs,
Grêmios, etc.
A Crise
Estrutural do capital mundial, manifestada a partir dos anos 70, questiona
totalmente a atuação sindical meramente reformista e reivindicatória, pois o
sistema já não pode mais conceder reformas substantivas aos trabalhadores,
necessitando, ao contrário, retirar as conquistas existentes até mesmo nos
países centrais do sistema.
Tal necessidade
hoje é ainda maior devido à profunda crise de alternativas socialistas vigente
na consciência e nas ações da classe trabalhadora após a queda dos regimes do
Leste Europeu equivocadamente chamados de socialismo, o que trouxe a falsa
idéia de que o socialismo morreu e que o capital globalizado é o único
horizonte possível.
Nessa
perspectiva, a luta a ser travada pela vanguarda consiste em fazer com que os
trabalhadores avancem das lutas defensivas mínimas, toleradas pela legalidade
do capital, às lutas históricas pela superação do capitalismo e pela construção
do socialismo. Sem essa perspectiva estratégica de longo alcance, a atuação
está fadada ao fracasso e condenada a repetir a degeneração e a traição
perpetrada pelos setores que hoje constituem a direção do PT e da CUT.
Ainda que
pensamos que, estrategicamente, a revolução brasileira necessitará de um amplo
processo de unificação orgânica (fusões, etc) de diversos setores da esquerda,
a nossa proposta é de unidade em base a acordos mínimos, ou seja, a construção
de um programa que responda aos ataques do capital.
A luta de
classes é um processo dinâmico em que uma classe avança se a outra não
resistir, e com a posição e a postura das correntes de esquerda essa unidade
não vai passar de retórica e discurso em palanques. Sob pena dessas correntes serem responsabilizadas pelos trabalhadores, precisamos dar
passos concretos nesse longo caminho que é construir essa plenária, e o CONAT é
uma dessas oportunidades raras de fazer o chamado a todos os lutadores do país
à unidade. Seria um bom começo para a CONLUTAS.
COLOCAR NO HORIZONTE A LUTA PELO SOCIALISMO!
Como sugestão
para o debate, apresentamos uma proposta de Programa Mínimo a ser aprovado por
essa Plenária Classista e Socialista e apresentado aos trabalhadores.
• Combater as
reformas sindical e trabalhista, apresentando nesse momento
um Programa que represente uma saída para a situação do conjunto dos
trabalhadores — inclusive os que já não possuem direitos nem vínculos
formais e os que estão desempregados;
• Fim da
informalidade: carteira assinada para todos; redução da jornada de trabalho sem
redução dos salários (por exemplo: para 36 h semanais ou menos), até dividir o
trabalho entre todos.
•
Salário mínimo do DIEESE; Campanha unificada de reposição das perdas salariais;
•
Não pagamento das Dívidas Externa e Interna e aplicação desse dinheiro num
Plano de Obras e Serviços Públicos decididos pelos trabalhadores, gerando
empregos e melhorando a saúde e educação públicas;
•
Estatização, sob controle dos trabalhadores, de todo o sistema financeiro, com
redução drástica das taxas de juros; Reestatização,
sem indenização, de todas as empresas privatizadas, sob gestão dos trabalhadores
e a imediata readmissão de todos os que foram demitidos;
•
Reforma agrária radical sob o controle dos trabalhadores; Que o agro-negócio
seja transformado em propriedade coletiva sob gestão dos trabalhadores;
•
Reforma urbana com a desapropriação de todas as áreas ociosas e grandes
propriedades para a construção de moradias para os trabalhadores sem-teto;
•
Universidade Pública e Gratuita para os trabalhadores; Por um governo dos
trabalhadores subordinado aos seus organismos de base;
• Transformação
dos meios de produção da riqueza social em propriedade coletiva e sob o
controle e a gestão dos trabalhadores! Por uma sociedade socialista!
Para combater a fome e o desemprego
Ítalo de Aquino
O jogo de 2006
Uma velha
contradição ganhou nos últimos tempos uma dimensão gigantesca: a fome, a
miséria, o desemprego, a barbárie do capitalismo cresceu e ao mesmo tempo as
velhas e novas direções estão cada vez mais conservadoras.
Antes da queda
do Muro de Berlim um discurso radical encobria as manobras de capitulação e
burocratização das direções majoritárias e minoritárias do movimento social.
Após 1989 houve uma parte que se converteu outra se aproximou das inúmeras
variantes da ideologia burguesa. Isso fica evidente ao observarmos que há uma
timidez por parte dessas direções em defender um programa de reivindicações
históricas que no passado eram permanentes e hoje foram abandonadas.
Jogaram fora a elaboração socialista e aderiram às novas
terminologias oriundas do meio acadêmico, buscam uma legitimação por meio do
discurso universitário para galgar novo status sócio-econômico
traficando posições políticas e ideológicas no interior das lutas do
proletariado. Um exemplo se encontra justamente nas formulações que tentam
desqualificar o trabalho, como produtor de riqueza e fonte de exploração do
capitalismo, e da divisão da sociedade em duas classes, burguesia e
proletariado.
Para Marx e Engels todos aqueles que possuem os meios de produção
compõem a burguesia e por sua vez todos aqueles que são obrigados a vender sua
força de trabalho para poder sobreviver compõem o proletariado. Nesse caso é
indiferente se a pessoa possui registro em carteira, se trabalha no mercado
informal ou se está desempregada, continua sendo um proletário.
O reformismo,
ideologia da maioria dos dirigentes sindicais no Brasil, prega ser possível
melhorar a vida dos trabalhadores, apenas dos que estão na ativa, por meio de
pequenas e graduais conquistas econômicas. Limitam sua mobilização àqueles que
possuem trabalho formal e portanto dividem o
proletariado, acabando com a possibilidade de unificação política e
organizativa de suas lutas. O combate pela unificação dos trabalhadores com
carteira assinada, informais ou desempregados foi
colocado de lado. Isso reforça o domínio burguês, pois fragmenta o proletariado
enquanto classe social com objetivos históricos que se chocam com os interesses
da burguesia. Somente atuando em conjunto poderemos ser vitoriosos. Porém a
unidade não se constrói como a somatória das organizações, seu marco é o da
mobilização unitária em torno a reivindicações que penetrem as consciências e
estimulem a luta.
A ascensão do
PT à máquina do Estado foi consentida pelos donos do poder, logo não abalou os
alicerces da dominação imperialista no Brasil. Em todos os sentidos e em todas
as áreas sua política é uma extensão do governo anterior de Fernando Henrique
Cardoso, trata-se do terceiro mandato do Plano Real. Sua administração busca
por todos os lados encobrir o capitalismo e seus meios de exploração e controle
social sobre os trabalhadores.
Não podemos
acusar a administração Lula de covarde ou vacilante, o que implicaria dizer que
em algum momento houve da parte da direção petista uma sincera vontade de
resolver o problema da fome. Isso nunca existiu, pois seu programa nesse
aspecto nunca passou de mera tática eleitoral. A experiência de governos
reformistas e social-democratas espalhada pelo mundo ao longo do século XX
comprova que eles são parte dos dispositivos burgueses de embromação do povo
com promessas faraônicas premeditadamente falsas e
irreais.
Pulsa uma
sensação inconsciente entre as massas de que o governo Lula deve ser derrotado,
em face da insatisfação com o agravamento de suas condições de vida. Por outro
lado, os setores reformistas, centristas e oportunistas do movimento popular,
sindical e estudantil tentam canalizar essa insatisfação para uma revanche
eleitoral. Os impasses vividos pelas vítimas do capitalismo não encontrarão
solução nos marcos da institucionalidade burguesa,
muito menos por meio de sucessões eleitorais. A cada biênio realizam-se
eleições e novamente em 2006 a vanguarda debaterá o que fazer. Acreditamos que
independente do calendário eleitoral necessitamos construir mobilizações
unitárias.
A construção
de uma frente de esquerda e classista em uma eleição deve apresentar um
programa de perfil socialista, levar suas propostas de luta para os organismos
de defesa dos trabalhadores e estudantes, como sindicatos, centros acadêmicos,
associações de bairro e fazer avançar a consciência socialista de que o
capitalismo e a burguesia nada nos têm a oferecer, organizando a todos como
militantes. Diante dos ataques, presentes e futuros, compete à vanguarda do movimento popular, estudantil e sindical transpor os
obstáculos à unidade, pois sem um instrumento de unificação coletiva das massas
restaria apenas a disputa eleitoral.
Ferir a Burguesia
A fome e a
miséria cresceram exponencialmente nos últimos anos, tanto no Brasil como no
resto do planeta. Nunca, porém, as safras agrícolas foram tão abundantes. A
expansão da fome ocorre paralela e simultaneamente à expansão das relações
capitalistas de produção em que a produção social coletiva é apropriada por uma
minoria. Lula elegeu-se propagandeando uma campanha
de combate à fome, tomou posse prometendo garantir, até o final de seu mandato,
ao menos três refeições diárias para cada cidadão. Ao encerrar seu mandato a
fome ao invés de diminuir, aumentou. Lula e seu governo títere do FMI e Banco
Mundial seguem alimentando a voracidade especulativa dos agiotas financeiros
nacionais e internacionais em detrimento da saúde e bem estar dos
trabalhadores. A estratégia de combate à fome desse governo, em colaboração com
o imperialismo, visa domesticar e amortecer a consciência do proletariado.
Apesar do
mercado capitalista ser regido pela anarquia, os efeitos e conseqüências das
medidas adotadas por seus dirigentes são conhecidas e previsíveis. Mesmo
cientes disso, a burguesia, seus prepostos e sua máquina de propaganda, com
hipocrisia e cinismo, pretendem transmitir confiança na política econômica
através de seus órgãos informativos.
A reversão
dessa situação depende exclusivamente de uma retomada ofensiva do proletariado
comprimindo a burguesia e seu governo para impor um programa autêntico de
combate à fome e ao desemprego. Para além da concessão de cesta básica e
auxílio assistencialista, como o Bolsa Família, propomos uma luta política.
A luta de
classes é o único meio para a superação dos dilemas que
vivemos. Essa é a divisa que delimita fronteiras.
Nela devemos defender as aspirações históricas e programáticas do proletariado.
Estreita é a margem da luta corporativa e economicista. Por isso a tarefa de
agitação e propaganda deve partir dos problemas centrais do proletariado.
Estatizar o Sistema Financeiro
Os bancos hoje
centralizam as atividades agrícola, comercial e industrial do capitalismo
brasileiro. Isso significa que nenhuma medida de política econômica saneadora
da catástrofe social que o capitalismo gera pode ser implementada sem que o
Estado assuma para si as operações financeiras e bancárias do dia-a-dia. Por
isso, a primeira ação de um programa que vise de fato acabar com a fome deve
ser a estatização dos bancos. Isso não pode ser confundido com a apropriação
indevida dos bens privados. A associação entre estatização e apropriação
indébita do patrimônio pessoal é falsa e faz parte das campanhas da imprensa
burguesa de defesa do baronato financeiro, que a suborna para enganar os
trabalhadores. A estatização do sistema financeiro, em si, não se apropriaria
de um centavo dos correntistas e investidores, mas permitiria um rápido redirecionamento de recursos para ações atenuantes do
pesadelo diário que se tornou a vida de uma enorme
quantidade de deserdados e párias sociais. A
estatização dos bancos em nada altera as relações de propriedade, exceto para
seus antigos proprietários, isso deve ser reforçado, pois a imprensa burguesa
gera um pavor na classe média, que possui pequenos recursos em investimentos e
que pelo seu modo de vida e consciência é refém da burguesia.
Demagogos e
reformistas tentam a todo o tempo enquadrar o debate sobre política econômica
nos estreitos limites dos conceitos ideológicos da economia burguesa. No Brasil
do governo Lula a discussão está concentrada em taxas de juros, inflação, déficit
fiscal e superávit primário. Através de uma linguagem empolada e de uma pretensa sofisticação tecnocrática, baseada na utilização de
termos técnicos e expressões em inglês, a economia burguesa monta um
ardil para dilapidar o tesouro público. É isso o que ocorre com o problema do
déficit fiscal e dívida interna. O comitê gestor da burguesia, o Estado,
arrecada menos do que gasta, gerando uma diferença denominada de déficit
fiscal. Na seqüência, para arrecadar recursos financeiros, o Estado emite
papéis resgatáveis, com juros e correção monetária e em alguns casos atrelados
ao valor do câmbio (do dólar), que são comprados pelos especuladores, gerando
dessa forma uma dívida interna. Esse mecanismo se auto-reproduz em
moto-perpétuo alimentando uma ciranda financeira.
Dentre os
efeitos imediatos da estatização do sistema financeiro podemos apontar a
centralização e o controle sobre todas as operações bancárias. Isso
inviabilizaria a sonegação de tributos e coibiria definitivamente a lavagem do
dinheiro associado às ações criminosas de suborno de funcionários do aparato
estatal, bem como do dinheiro oriundo da prostituição, tráfico de armas e
drogas. Para a indústria e o comércio, hoje submissos aos
bancos, a estatização impulsionaria a retomada da produção e distribuição
de mercadorias em direção à satisfação social e não à especulação financeira.
Os bancos passariam a ser apenas coadjuvantes da
produção e não os atuais parasitas da economia.
O governo Lula
assumiu em fóruns internacionais a defesa da Taxa Tobin
como tática planetária de combate à fome. A Taxa Tobin
seria um imposto mundial sobre rendimentos financeiros a serviço da erradicação
das seqüelas do capitalismo. Seus defensores propõem combater tais seqüelas com
o vírus do mercado financeiro (capital que gera capital). Trata-se de uma
proposta descabida. Por desconsiderar os mecanismos do mercado financeiro, seu
efeito acabará sendo o contrário do desejado. Quanto maior o volume de
rendimentos financeiros, maior o volume arrecadado em tributos. Isso só reforçaria
o caráter parasitário do capital, jogando uma massa crescente de trabalhadores
na miséria.
Reforma Agrária sob Controle dos Trabalhadores
Seria
impossível pensar uma política de combate à fome desconsiderando a questão
agrícola. Atualmente as lavouras de exportação vinculadas ao agronegócio estão subtraindo significativas porções de
terras, encarecendo os produtos da alimentação humana e animal e elevando o
preço da cesta básica de alimentos dos trabalhadores. A exportação de grãos e
carne somente poderia ocorrer desde que as necessidades de cada brasileiro
fossem supridas. O financiamento das dívidas interna e externa e a necessidade
de obtenção de dólares não podem ocorrer com base na fome do povo. Aliás,
devemos lembrar que o principal fator de oferta de bens agrícolas para
exportação é a baixa renda interna, pois os trabalhadores não possuem renda
para comprar sua alimentação básica. As crises econômicas e o desemprego
ampliam a oferta de grãos e carne para exportação, reduz-se o preço dos bens
agrícolas e com a fome do povo amplia-se o mercado exportador desses bens.
É necessária
uma reforma agrária sob controle dos trabalhadores que quebre a influência
burguesa sobre o campesinato e o pequeno produtor
rural transformando-os em sujeitos sociais de mudança revolucionária da
estrutura fundiária brasileira, que volte toda sua produção para o
abastecimento interno e destrua o latifúndio. Hoje as lavouras do agronegócio e exportação (soja, laranja, cana-de-açúcar,
café e algodão) estão espremendo as lavouras de subsistência (arroz, feijão,
batata, mandioca, milho, frutas, legumes, e hortaliças).
O atual
governo tem em vista consolidar o domínio do capital sobre o trabalho, seus
reacionários passos estão engordando os bolsos dos grandes monopólios internacionais,
do mercado financeiro e do agronegócio. Teme
desagradar seus verdadeiros donos – a burguesia – não lhes impondo nenhum tipo
de sacrifício. Os danos eventualmente suportados por qualquer setor da
burguesia são minúsculos se comparados com o cotidiano do proletariado. A fome não é um problema do Brasil, mas de
seu povo, é ele quem padece desse mal e, no entanto, é a classe trabalhadora a
quem se convoca para ajudar no combate à fome, isentando seus algozes. A mesa
da classe trabalhadora brasileira é diariamente sacrificada para a engorda dos
lucros capitalistas. Diante de eventuais tentativas de sabotagem e
racionamentos forjados, o instrumento do confisco e tabelamento de preços deve
ser acionado de imediato. Organizando um controle democrático da produção e
distribuição dos alimentos.
Redução da Jornada de Trabalho, Reestatização das Empresas Privatizadas, Reforço da Saúde Pública
O controle do
capital e da burguesia sobre os meios de produção produz uma massa crescente de
desempregados e de trabalhadores esgotados por longas e cansativas jornadas de
trabalho. Para amenizar essa situação devemos impulsionar uma luta conjunta
pela redução da jornada de trabalho sem redução do salário. Isso significaria
diminuir a quantidade de horas daqueles que trabalham para se oferecer emprego
àqueles que estão nas ruas.
Recentemente
foi lançado um movimento pela reestatização da
Companhia Vale do Rio Doce. Sugerimos que essa luta não se limite a uma única
empresa, propomos reestatizar todas as demais
empresas e bancos, sem indenização aos antigos proprietários. Pouco nos
interessa que as empresas estatais permaneçam como agentes do capital fazendo o
jogo da burguesia e alimentando seus lucros, elas devem ser colocadas sob
controle dos trabalhadores para garantir a recontratação de todos aqueles que
perderam seus empregos.
Uma das mais
cruéis conseqüências da fome e do desemprego é o surgimento de problemas de
saúde decorrentes de uma má alimentação, de condições insalubres de moradia e
do esgotamento nervoso das pessoas. Nessa situação o proletariado não encontra
atendimento hospitalar, assistência médica e não consegue comprar os remédios
necessários. Todo trabalhador desempregado ou não, com ou sem convênio médico
deve ter assegurado seu tratamento. Por isso não somente os bancos devem ser estatizados, os hospitais privados também. Além disso o Estado deve garantir o fornecimento de remédios
a todos os pacientes para isso devemos estatizar a
indústria químico-farmacêutica e quebrar as patentes dos medicamentos.
Avançar sobre as Consciências
Temendo chocar
a consciência reformista predominante entre a maioria dos ativistas sociais,
uma parcela da vanguarda recolheu suas bandeiras de luta mais radicais alegando
que a opinião pública seria um obstáculo à aplicação dessas propostas. Cabe
primeiro constatar que a vaga idéia de “opinião pública” é pouco precisa. A
rigor deveríamos, como fizeram os gregos, distinguir “conhecimento” de
“opinião” (episteme de doxa).
Os diversos veículos informativos da burguesia são instrumentos de manipulação
de idéias, conceitos e preconceitos favoráveis a ela. Os monopólios financiam
campanhas de formação de opinião e consenso, que mistificam e mentem sobre o
verdadeiro conteúdo das medidas de luta pela sobrevivência do proletariado, defendidas
e apresentadas por sua vanguarda.
Os meios de
comunicação inoculam mentiras à exaustão e mobilizam vastos contingentes,
quando assim o desejam, financiados por verbas de propaganda. Tais campanhas
chegam ao absurdo de fazer as pessoas reproduzirem juízos, transformando-as em
ventríloquos do capital, sem que tenham realizado uma,
prévia, reflexão.
Lembramos que
no Brasil 5 mil famílias controlam 45% da riqueza
enquanto 55 milhões (a título de ilustração a população da Inglaterra é de 54
milhões) de habitantes vivem com menos de um salário mínimo por mês. Seriam
negativas as repercussões de medidas, cujo efeito seria apenas minorar o
sofrimento das massas? Qual repercussão negativa haveria para os milhares de
brasileiros que padecem de fome, que mal sobrevivem com menos de um dólar por
dia e aos que vivem nas ruas? Somente uma sórdida campanha de mentiras poderia
gerar uma posição contrária entre os despossuídos de
tostões, diante de uma ação que lhes beneficiaria, pois significaria uma
mudança radical de política econômica. Qual a reação negativa de um pequeno e
médio investidor poderia ter, dado que seus recursos continuam garantidos,
desta vez pelo próprio Estado?
Marx e Engels explicaram que na economia
capitalista vigora uma divisão entre os que possuem e os despossuídos.
No curso da história não existe movimento inercial, ou se avança ou se recua.
Tenhamos claro que avançar significa adotar, sem receio, a direção ao
socialismo.
Democracia
(ditadura) burguesa e ditadura (democracia) do proletariado
Janus
Mazursky
Um dos
artifícios mais eficientes que colaboram para a manutenção da ordem
estabelecida é a inversão do ônus da prova da viabilidade das alternativas
disponíveis. Graças aos bons ofícios dessa inversão, a ordem estabelecida não
precisa provar sua viabilidade, uma vez que já está instalada e “funcionando”.
O ônus recai indevidamente sobre a alternativa antagônica, o projeto
socialista, na tentativa fraudulenta de confiná-lo eternamente a uma posição de
falsa inferioridade.
O socialismo
deve sim provar sua viabilidade por meio da instituição de novas mediações
organizativas que coloquem as funções materiais da produção a serviço dos
indivíduos sociais. Entretanto, ele deve se provar viável em relação aos seus
próprios termos de referência, ou seja, tendo em vista a necessidade premente
de organizar racionalmente a produção social com vistas ao atendimento das
necessidades humanas e à realização dos indivíduos.
Isso só pode
ser feito equacionando o tempo de trabalho socialmente necessário para atender
a essas necessidades (historicamente variáveis e crescentemente complexificadas) com base no parâmetro da capacidade
técnico-científica objetivamente disponível (também sempre em crescimento), na
mensuração dos recursos naturais e materiais utilizáveis e da sustentabilidade ambiental de tais atividades (em escala
necessariamente planetária); bem como tendo em vista o aspecto vital da
gratificação humana na atividade auto-reprodutiva.
Em outras palavras, trata-se de calcular o
quanto cada ser humano deve trabalhar para que todos recebam o necessário para
sua sobrevivência, de modo que cada um esteja objetivamente comprometido com
todos e vice-versa. É preciso também que as condições naturais e ambientais
suportem uma taxa de utilização dos recursos capaz de assegurar sua renovação
indefinida, de modo que o intercâmbio homem-natureza possa se repor
perpetuamente. Essa medida da quantidade de trabalho, por sua vez, deve ser
permanentemente ajustada para baixo pela meta de um desenvolvimento tecnológico
que reduza as horas de trabalho-necessário para a reprodução social. A redução
do tempo de trabalho social necessário permitirá a todos cada vez mais horas de
trabalho-criativo em atividades como ciência, arte, esporte, ócio, sexo, etc.
O próprio capitalismo
não atende sequer minimamente a nenhum desses critérios, e no
entanto arroga-se a posição de impor o ônus da prova ao seu antagonista.
Esse fenômeno caracteriza a época em que uma determinada ordem social já está
paralisada em seu desenvolvimento, não oferecendo mais nenhuma possibilidade
positiva para a humanidade, mas a alternativa organizativa que luta para se
desenvolver em seu interior ainda não possui forças para superá-la por inteiro,
sendo tolhida em seus movimentos pelas teias ideológicas da inércia histórica.
Aqui se
examina apenas um dos aspectos dessa teia inercial, que diz respeito ao
universo da política. A dimensão da política oferece um exemplo particularmente
ilustrativo dessa peculiar inversão. Para que a inversão seja possível, é
preciso que a esfera da política seja destacada artificialmente do conjunto das
relações sociais pelas quais os homens reproduzem sua existência. Uma vez
destacada unilateralmente, a política aparece como uma esfera autônoma, dotada
de legalidade própria supostamente independente e desvinculada dos demais
processos da reprodução social.
No mundo da política abstrata, é possível por exemplo criar um falso debate sobre “democracia”. Falso
porque nunca atinge a dimensão substantiva das relações concretas, limitando-se
aos aspectos formais. Estabelece-se uma escala de medida entre os regimes
políticos com base no critério de qual deles é “mais democrático”. E o que se
entende por “mais democrático” diz respeito apenas à quantidade de eleitores
habilitados a votar.
A democracia é considerada com justiça a
grande contribuição da burguesia revolucionária para a história da humanidade.
Não por acaso, durante o século XIX, século de luta pela democratização das
sociedades européias, a democracia tinha sobrenome. Era chamada de “democracia
burguesa”, e com razão. A democracia burguesa consistia na possibilidade de os
cidadãos elegerem os governantes, que antes eram hereditários. Entretanto,
esses cidadãos que elegiam os governantes não eram o conjunto da sociedade. A
democracia burguesa nasce restrita à própria burguesia, pois funcionava por
meio do voto censitário. Apenas os burgueses votavam, ou seja, apenas os
detentores de propriedade.
A luta pela universalização da democracia é
uma luta do século XX. Foi apenas então que a democracia burguesa se tornou
mais abrangente, por meio do sufrágio universal. O direito de votar, antes
exclusivo dos proprietários, foi estendido também aos trabalhadores, às
mulheres, aos analfabetos, aos jovens, etc. O critério de democracia passou a
ser não apenas a existência de governos eleitos, mas a vigência do sufrágio
universal. A prática do sufrágio universal estendeu-se da Europa para o mundo
em algumas décadas.
Entretanto, a democracia burguesa deixou de
ser burguesa por isso? O acesso à possibilidade de votar melhorou
substantivamente a vida dos trabalhadores, das mulheres, dos analfabetos, dos
jovens? Uma olhada mesmo que superficial na história do catastrófico século XX
mostraria que essas camadas sociais somente conseguiram algumas limitadas
melhorias por meios extra-eleitorais (extrademocráticos?):
greves, mobilizações de massa, ações diretas, revoluções, guerras civis, etc.; sendo obrigadas a deixar pelo caminho um rastro de sangue
e fieiras de mártires.
Sem sair ainda dessa esfera artificial da
política abstrata, é preciso considerar o fato de que, embora os trabalhadores,
mulheres, negros, analfabetos, etc., tivessem obtido com muita luta o direito
de votar (e alguns outros direitos), invariavelmente, continuaram a ser eleitos os mesmo governantes, ou seja, os burgueses.
Seria preciso adicionar então o seguinte questionamento: porque as pessoas das
camadas inferiores, ao adquirir o direito de votar, não votam em candidatos de
sua posição social? Supondo-se que isso fosse o suficiente para que melhorassem
suas vidas (ver-se-á que não é), a democracia burguesa teria assim
proporcionado o veículo adequado para a emancipação das massas.
Com base nessa suposição, estruturou-se o
discurso da “democracia como valor universal”. A vigência da democracia
burguesa passou a ser considerada o parâmetro decisivo para
avaliar os regimes políticos. Os regimes em que o povo elege seus
governantes são bons; aqueles em que não há eleições são ruins. O primarismo de um tal discurso revela a inutilidade do
debate fundado sobre a unilateralização das diversas
esferas de atividade humana. Tomado individualmente, nenhum aspecto da condição
humana (política, economia, cultura, moral) oferece a via exclusiva para a
emancipação social. Desconhecer a sua articulação dialética oferece sim o
caminho certo para a catástrofe. O simples fato de promover eleições não tornou
os países capitalistas melhores, assim como o simples fato de haver expropriado
a burguesia não transformou os países stalinistas em sociedades socialistas.
Promover eleições e
extinguir a propriedade privada dos meios de produção são medidas que
enfrentam unidimensionalmente partes determinadas do
problema, mas estão longe de ser a garantia para a emancipação humana. Tratam
de aspectos limitados e parciais de uma realidade muito mais complexa A
verdadeira garantia da emancipação está na democratização substantiva da vida
social, o que vai muito além da universalização formal da democracia burguesa
(e de passagem, também compreende a expropriação da burguesia).
Na esfera
substantiva de sua autoprodução, os homens não se
apresentam como eleitores abstratos, mas como membros de classes sociais. Há
proprietários de meios de produção (burgueses) e não-proprietários obrigados a
vender sua força de trabalho (proletários). As classes fundamentais da
sociedade capitalista são os eixos estruturadores das
alternativas em disputa, em torno dos quais giram as demais classes
(pequena-burguesia, campesinato, etc.).
O discurso que transforma indivíduos concretos,
ou seja, burgueses e proletários, em seres abstratos (cidadãos, eleitores)
dissolve artificialmente as diferenças entre eles e forja uma falsa igualdade.
No mundo capitalista, todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os
outros. Por mais que todos possam votar, somente alguns podem se eleger.
Somente alguns possuem o dinheiro para bancar campanhas eleitorais, ou
arrecadam o dinheiro em troca de favores a serem prestados quando estiverem no
governo. E sejam quais forem os eleitos, os pressupostos da ordem estabelecida
jamais são questionados. A propriedade privada permanece um dogma intocável. Os
bancos, os latifúndios, as megacorporações jamais
serão incomodados.
A democracia
burguesa concede formalmente a liberdade de expressão para que os socialistas
defendam o fim da propriedade privada. Entretanto, a massa dos eleitores
assimila essa idéia de forma brutalmente distorcida, como se se tratasse da expropriação de seus bens pessoais, e não
dos meios de produção social. E assim, os eleitores das camadas inferiores
seguem votando nos candidatos da burguesia, ainda que isso contrarie seus
próprios interesses de classe. Torna-se mesmo indiferente que os candidatos da
burguesia sejam egressos das camadas inferiores da população. O simples fato de
ter elegido um operário não melhorou a vida dos brasileiros. Tornou-os ainda
mais submissos aos bancos, aos interesses do latifúndio e das megacorporações.
Praticar
eleições sem que se possa optar de fato por alternativas sociais
substantivamente diferenciadas equivale a perpetuar a ditadura de uma classe
sobre as demais. Nada pode ser mais conveniente do que exercer uma ditadura por
meio da “democracia”. Basta retirar o seu sobrenome. Encolher as palavras, ensinou Orwell, é uma maneira de
encolher o pensamento e a liberdade. Ao invés do nome próprio da democracia
burguesa, o dicionário de novilíngua vigente registra
apenas “democracia”.
Esse é o
segredo da inversão mencionada no início deste texto: fazer com que a
democracia burguesa, com todas as suas brutais limitações, seja
fraudulentamente designada como se fosse a democracia enquanto tal. Desse modo,
a democracia concreta, que vai além do aspecto formal
e procura emancipar os homens em todas as suas dimensões vitais, dando-lhe o
controle total sobre o trabalho, as leis, a cultura, a moral, etc., fica
permanentemente inviabilizada. A democracia burguesa, ou seja, a ditadura da
burguesia, é o inverso da democracia real e um dos obstáculos para sua
realização.
Contra a ditadura de uma classe, há que se
contrapor a ausência de classes, o fim da separação
entre dirigentes e dirigidos, o autogoverno dos
produtores associados, a democracia direta por local de trabalho. É evidente
que isso não pode ser obtido sem enfrentar a resistência dos que são
beneficiados pela situação anterior. Para que essa resistência seja dissolvida,
é preciso que o movimento dos produtores associados se torne uma
força material, projetando em seu interior as relações que deverão reger a
sociedade futura a ser construída. Somente a práxis autotransformadora
pode ensejar a transformação geral.
Um dos
aspectos da transformação geral é a destruição do poder político como tal. Essa
destruição só pode ser feita por um antipoder transicional. Esse projeto tem um nome. Mas esse nome
também está interditado pela ideologia dominante: ditadura do proletariado. Não
importa a questão de conteúdo, ou seja, o fato de que essa ditadura é a única
forma de democracia verdadeira, porque toma em consideração não o homem
abstrato, o indivíduo-cidadão-eleitor, mas o homem concreto,
que produz e se autoproduz na sua atividade
material-espiritual cotidiana, o indivíduo social que não tem nenhuma de suas
dimensões de objetivação (política, econômica, cultural) fatalmente apartada de
si, mas as exerce por inteiro, coletiva e responsavelmente.
Importam
apenas as aparências: democracia = boa – ditadura = ruim. Mas o que é
democracia e o que é ditadura? Democracia de quem e para quem? Ditadura de quem
e sobre quem? É impossível responder a tais questões no universo da ordem
estabelecida. A multidimensionalidade das categorias
sociais é dissolvida numa linearidade abstrata e vazia, na qual não há camadas
nem rupturas, não há profundidade nem contradição. Todas as palavras dotadas de
conotação positiva são apanágio da ordem: democracia, liberdade, realismo,
responsabilidade, viabilidade, possibilidade; as palavras negativas são o
estigma dos contestadores: ditadura, revolução, anarquia, caos, luta de
classes.
Não há
palavrão mais feio do que esse, ditadura do
proletariado, um nome que parece ter sumido da boca de muitos dos que se
colocavam entre os contestadores. “Santa ingenuidade, Marx! Por que você foi
inventar essa tal de ‘ditadura do proletariado’”?, eles parecem dizer, envergonhados. Para desgosto do nosso
menino-prodígio, Marx, que não viveu na era do duplipensar,
cultivava o embaraçoso hábito chamar as coisas pelo seu nome. Como nunca nutriu
esperanças na democracia burguesa, não fazia do uso da palavra “democracia” um
fetiche (um “valor universal)”, mas lutava para que a democracia se construísse
na esfera da prática, para além do simples discurso. E essa construção somente
seria possível justamente através da ditadura do proletariado.
Homem de vasta
cultura clássica, Marx sabia que a ditadura era uma instituição típica da
democracia da Roma republicana, que investia seus generais e tribunos de
poderes absolutos em situações de emergência, sem que isso degenerasse em
tirania, pois esse poder era devolvido logo que cessasse a emergência. A
ditadura do proletariado só é necessária em face da necessidade emergencial de
quebrar a máquina do Estado burguês, como ficou evidenciado no exemplo pioneiro
da Comuna de Paris. Além de erudito, Marx também era bastante prático e a
partir da experiência da Comuna, à qual apoiou ativamente, desenvolveu o
conceito de ditadura do proletariado, descrevendo-o como um dos momentos do
processo da revolução, ponto alto da luta de classes.
Luta de
classes, revolução, ditadura do proletariado, tais conceitos são hoje tidos
como verdadeiros palavrões, mesmo entre setores que se dizem de “esquerda”. Os
conceitos perderam seu sentido e se transformaram no seu contrário. Quem fala
em luta de classes e denuncia a repressão burguesa por suas vítimas é acusado
de “provocar a luta de classes”, quem fala em revolução é acusado de utópico e
irresponsável, quem fala em ditadura do proletariado é acusado de
antidemocrático. Na era da “democracia (ditadura burguesa) como valor
universal”, a “ditadura (democracia) do proletariado” é tida como sinônimo de
terror stalinista.
Nesse diálogo
de surdos, em que não se pode chamar as coisas pelo seu nome, o ônus da prova
recai pois, de maneira invertida, sobre o projeto
socialista. É preciso recusar essa inversão e trabalhar com os conceitos em seu
verdadeiro significado. É preciso distinguir entre democracia formal e
democracia material, denunciando a farsa da democracia representativa. É
preciso lutar por uma democracia direta organizada por local de trabalho, por
escola, por bairro, por cidade, em assembléias e plebiscitos regulares e
abertos, que distribuam funções e mandatos revogáveis e instituam o controle
social efetivo e permanente sobre o produto do trabalho social, dissolvendo a
separação artificial e alienada entre economia e política.
É evidente que, aos olhos dos defensores da ordem estabelecida, da
classe dominante, essa democracia direta, real e concreta, aparecerá como caos,
anarquia, desordem, irresponsabilidade, violência, etc., pois será exercida
contra seus interesses particularistas. Ao enfrentar-se com os interesses de
classe, buscando a dissolução das classes, a democracia direta precisará
impor-se pela força. Receberá o nome de ditadura, como se isso fosse uma
acusação da qual se devesse ter vergonha. Pois que venha a ditadura do
proletariado!
No atual
momento histórico, tornou-se crucial retomar esse debate dentro da esquerda,
pois não é questão de somenos importância determinar qual o método que se
propõe como mediação para a transformação social. A demarcação que se impõe
está em separar duas alternativas: a via morta da ditadura burguesa com sua
“democracia” representativa ou formal; ou a via da democracia substantiva, real
e concreta, materializada na ditadura do proletariado.
A FARSA DO “ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO” NO
CAPITALISMO
Márcio Cardoso
Durante toda
a história republicana brasileira, a população, de tempos em tempos, se vê
envolta a denúncias de corrupção, desvios milionários de erário e crimes de
lesa-pátria; além de toda sorte de mau-caratismo no
trato com a coisa pública. Dependendo da conveniência o establishment
propõe a deposição dos mandantes por meio de grandes campanhas de
chamamento à população, como foi na época do “fora Collor”, no início da década
de 90.
Durante todo
este período, só uma parcela da população promoveu a verdadeira sangria do povo
para benefício de alguns: a elite cultural e econômica. Ora agia em proveito
próprio, ora agia em nome do grande capital internacional.
Nos últimos
20 anos esta política sofreu muito desgaste, principalmente, pelas desastrosas
gestões de Collor e dos dois mandatos de FHC em que se operou, como nunca se
viu, a maior transferência de renda para o mais ricos, principalmente, diante
dos programas de privatização
Cansado de
ver sempre os mesmos no poder, o povo, resolveu levar o Lula
e o PT ao poder central com uma grande expectativa de mudança, frente ao que o
Partido dos Trabalhadores pregou desde a sua fundação nos anos oitenta. Pois
bem, o PT chegou lá. O Brasil depois de
500 anos de história elegeu como mandatário do país uma pessoa que tem origem
operária.
No entanto,
nada mudou. Os problemas continuam. Alguns até se agravaram como, por exemplo,
o dinheiro destinado ao pagamento de juros da dívida externa que foi muito
maior do que nos governos anteriores em detrimento do bem-estar do povo.
A população
começa a fazer um questionamento óbvio: Este estado democrático de direito nos
serve? Os elementos apresentados abaixo nos levam a constatar que não.
A ordem
jurídica brasileira – embora pose como avançada, que tem a Constituição Federal
conhecida como a “Constituição Cidadã” – não dá espaço para que a ordem
social-político-econômica tenha qualquer mudança e em alguns casos pune aqueles
que tentam afrontar o sistema vigente. Vejamos, então, alguns aspectos nas
questões Jurídica, econômica e social.
Aspecto Jurídico
Com o fim da
ditadura militar o Brasil precisava de uma nova ordem jurídica compatível com o
momento político vigente. Eis que surge a Carta Maior de 1988 que confirmou
muitas conquistas e agregou outras, como o direito de greve.
No entanto,
com a dissolução da União Soviética e do crescente movimento de globalização
dos mercados logo se percebeu que a Constituição era um empecilho para o grande
capital, pois não permitia juro maior que 12% ao ano, a atuação de empresas
estrangeiras no país, não previa programa de privatização. Era extremamente
restrita. Além disso os direitos sociais como, por
exemplo, a aposentadoria eram tidos como inflexíveis.
Como havia a
necessidade de adaptar a ordem jurídica vigente frente às necessidades de
concentração do grande capital, tornou-se imperativo alterar a constituição ao
sabor da conveniência das elites nacional e internacional. A partir daí se
aprovam as “reformas” como a da Previdência (que restringe o direito de uma
aposentadoria digna), cria o programa de privatização e quebra de monopólio de
empresas estatais e as agências reguladoras (que tiram qualquer influência do
parlamento frente à regulamentação das atividades estatais, agora,
privatizadas), a flexibilização dos direitos trabalhistas (originando um grande
fenômeno de precarização das condições do trabalho,
conhecido por terceirização), entre outros.
Aspecto econômico
A essência
do capitalismo é a concentração de renda. Diante do exposto acima podemos
afirmar que nunca presenciamos uma transferência de renda para os ricos, de
forma tão voraz, como nos últimos 12 anos.
As
privatizações permitiram que o grande capital comprasse, por preços vis, quase
que a totalidade do patrimônio nacional em nome do “enxugamento da máquina e da
eficiência”. Empresas como a Vale do Rio Doce, do setor de siderurgia, foi
“vendida” por 3 bilhões de dólares. Este valor foi
inferior ao lucro líquido apresentado pelo último balanço da empresa. Não
podemos esquecer o papel importante que teve o BNDES no processo de
privatização, afinal, foi com recursos advindos da instituição (portanto,
dinheiro púbico) que financiaram a compra de patrimônio público.
A
flexibilização dos direitos trabalhistas é outro catalisador desta
transferência de riqueza para os ricos. Primeiro acabou-se com a estabilidade
decenal e em sua substituição criou-se a indenização
sobre o saldo do FGTS, sem levar em consideração a capacidade econômica da
empresa. Isso deu margem ao grande capital para demissões em massa criando uma
reserva de mercado de trabalho que garanta custo de mão-de-obra extremamente
barata e garanta os altos lucros dos grandes conglomerados econômicos.
Talvez, o
mais importante fator de espoliação dos trabalhadores para os ricos foi a montagem de um sistema tributário extremamente voraz com o
povo e muito condescendente com os mais ricos.
Numa
conjuntura dita democrática nunca se viu com tamanha pujança o poderio político
do grande capital no que diz respeito à concessão de incentivos fiscais de toda
ordem para atração principalmente de industrias automobilísticas. Um bom
exemplo disso é questão da Ford, conglomerado estadunidense, que há alguns anos
deixou de construir uma planta que, inicialmente, seria no Rio Grande do Sul –
por não ter recebido terreno de graça e vários anos de isenções fiscais – para
construiu na Bahia, onde além de conseguir todos os incentivos negados no sul,
conseguiu contratar operários ganhando 1/3 do salário
em relação de seus colegas do ABC paulista.
Por outro
lado, como já se adiantou, o sistema tributário não deu qualquer trégua para os
trabalhadores nos últimos 20 anos. Nesse período cresceu a carga tributária
sobre profissionais liberais e trabalhadores com carteira assinada, seja
através do congelamento da tabela do imposto de Renda por quase 10 anos (e
mesmo a sua correção recente fica aquém do que deveria ser) ou pela criação de
outros tributos como a CPMF criada na gestão FHC para “custear” a saúde, que
retira do titular da conta corrente 0,38% da movimentação bancária.
Não se pode
esquecer do PROER, talvez o maior mecanismo criminoso de espoliação popular,
criado para custear o sistema financeiro caso os bancos quebrassem em virtude
do recém implantado plano real. Por meio deste “programa” o povo brasileiro
perdeu mais de 20 bilhões de reais para evitar que os banqueiros quebrassem.
Quem não se
lembra também dos bancos Econômico e do Nacional? As famiglias Calmon de Sá e Magalhães Pinto não param de
rir da nossa cara mesmo após dez anos, pois embora seus bancos tenham quebrado,
estes pobrezinhos receberam os recursos do PROER para que financiassem a parte
podre de suas instituições tornando-as aptas para que outro banco pudesse
adquiri-lo. Em outras palavras: o povo ficou com o prejuízo e os ricos com o
lucro.
Aspecto Social
Como conseqüência
dos dois aspectos expostos acima a conclusão é uma só:
durante um regime democrático a população experimenta o empobrecimento, o
desemprego, a precarização do trabalho além do
sucateamento da educação e da saúde.
O
empobrecimento se dá por causa de todo o sistema de transferência de riquezas
que o Estado montou em prol do grande capital.
O desemprego
tem origem na abertura do mercado brasileiro aos produtos e empresas
estrangeiras e leva ao fechamento de quase toda a indústria doméstica. Ao mesmo
tempo cria uma reserva de mão-de-obra que ocasiona a queda do salário. Outra
conseqüência disso é a precarização do trabalho pela
interposição fraudulenta de mão-de-obra por meio das empresas terceirizadas, em
que os trabalhadores são rebaixados ao nível de escravos, pois quase não têm
direitos.
Na educação,
é comum um aluno terminar o ensino fundamental sem saber ler e escrever. Em São
Paulo os alunos são promovidos para a série seguinte sem qualquer avaliação. A
universidade pública perdeu o foco de desenvolver a ciência e tecnologia de uma
nação para apenas e tão somente formar quadros para o mercado corporativo.
Na saúde, os
hospitais se tornaram verdadeiros depósitos de pessoas. Pacientes ficam meses
para marcar a consulta, por mais simples que seja. É comum ver pacientes
atendidos nos corredores expostos a todo tipo de infecção. Agora é momento de
se perguntar: onde foi parar o dinheiro de CPMF?
Com uma
população jovem, desempregada, sem estudo e sem qualquer assistência por parte
do Estado é claro que os índices de violência tendem a explodir,
principalmente, nos grande centros urbanos. É raro ver nas periferias os jovens
passarem dos 25 anos, dada a total falta de expectativa na vida.
Conclusão
Como se
nota, por mais que o grande capital pregue, por meio da mídia, que estamos numa
égide do Estado Democrático de Direito isso não passa de uma farsa. Não passa
de um Estado Ditatorial do Capitalismo. É o grande capital que está no poder e
move toda a estrutura do Estado para explorar os trabalhadores e, principalmente,
perenizar esta situação. É interessante observar que a exploração não se dá
somente no chão
do local de trabalho.
Está mais do
que provado. O fato de ter alguém oriundo do movimento de massas não é garantia
de que haverá mudança. O exemplo está aí a mando dos que sempre nos exploram.
Não precisamos de salvadores da pátria para que haja mudanças. Precisamos é ter
a consciência de que NÓS é que de devemos ser as personagens da mudança.
Somente com
a consciência socialista e a luta dos trabalhadores unidos será possível
estabelecermos a justiça e um autêntico Estado Democrático de Direito.
OS POVOS NA
RUA E A CRISE GLOBAL DO CAPITAL
Janus
Mazursky
As últimas
semanas de março e o início de abril de 2006 assistiram a importantes processos
de mobilização popular em dois dos principais países capitalistas
desenvolvidos, a França e os Estados Unidos. Os estudantes e jovens franceses
lutaram contra a precarização das relações de
trabalho e conseguiram derrotar o governo; os imigrantes ilegais nos Estados
Unidos lutaram contra a lei que pretende lhes negar definitivamente o acesso
aos direitos. Essas mobilizações, juntamente com outras que transcorrem em
cenários mais restritos e menos cotados, são evidências de que o sistema global
do capital passa por problemas que exigem uma avaliação crítica profunda.
No momento em
que este texto é escrito, o resultado das lutas em curso permanece incerto,
podendo ainda retroceder ou avançar. O projeto de lei contra os direitos dos
jovens trabalhadores franceses foi derrotado, mas o movimento se deteve nessa
vitória defensiva. É importante compreender o que se passou até agora para ter
clareza das tarefas que a realidade da crise global do capital coloca para o
próximo período.
A luta dos jovens e
trabalhadores na França
Começando pelas mobilizações da juventude francesa. Como todos os
países da União Européia, a França tem sido colocada diante de um ataque
sistemático do grande capital contra as conquistas dos trabalhadores que se
materializam naquilo que foi chamado de “estado do bem-estar social” ou “modelo
social europeu”. As leis trabalhistas, o seguro-desemprego, a previdência, a
saúde, moradia e a educação públicas, foram conquistas
que o movimento dos trabalhadores conseguiu estender a importantes setores da população
num conjunto de países da Europa.
Mas isso foi
possível não porque os partidos social-democratas, como o PS francês, o SPD
alemão ou o Partido Trabalhista inglês tivessem encontrado uma fórmula
miraculosa de gestão social, uma “terceira via” entre o capitalismo liberal
extremado dos Estados Unidos e a “economia centralmente planificada” da URSS
defendida pelos Partidos Comunistas (stalinistas). Foi possível porque esses
países, que permaneceram capitalistas, viveram uma conjuntura de algumas décadas
de crescimento econômico quase ininterrupto, que se estendeu aproximadamente
entre 1945 e 1975, baseado em grande parte no consumo popular e no consumo de
Estado.
Dentro dessa
conjuntura, o capital possuía margens objetivas para oferecer concessões aos
trabalhadores, pois a sua lucratividade não se via ameaçada. O capital possuía
“gordura para queimar”, e lhe pareceu estrategicamente oportuno queimá-la
naquele momento para evitar a ameaça da revolução comunista que atraía as
massas esgotadas por meio século de guerras e catástrofes e seduzidas pelo
poderoso apelo da União Soviética, a grande vencedora da Segunda Guerra.
Ao mesmo
tempo, a internacionalização do capital prosseguia célere, com a
industrialização de países da periferia, cujos exemplos mais bem-sucedidos nos
anos 1970 foram o Brasil e a Coréia do Sul. O processo de globalização
prosseguiu nos anos 1980 e 90, construindo um mercado mundial de bens
industriais e de força de trabalho. As megacorporações
tornaram-se capazes de operar num circuito mundial, deslocando investimentos e
matérias-primas numa rede planetária de plantas industriais de montagem,
regulando o estoque de mão-de-obra e centralizando o desenho e o projeto nas
matrizes.
A globalização
da produção industrial determinou a globalização das finanças, que constitui um
fenômeno muito mais fácil de ser percebido. Tornou-se comum falar de
“globalização” como se se tratasse de um
acontecimento ligado meramente às bolsas de valores. Os índices das bolsas de
valores e cotações do mercado financeiro tornaram-se o principal recheio dos
noticiários, como se suas ondulações superficiais constituíssem a quintessência da realidade econômica. Ora, na verdade
acontece o contrário. Os mercados financeiros apenas distribuem a riqueza
produzida materialmente na indústria, onde a verdadeira globalização ocorre.
A força dessa
globalização impõe a precarização das relações de
trabalho em todos os mercados nacionais de mão-de-obra. O capital pode chantagear os governos com a ameaça de deslocar sua
produção para plantas além-mar, obrigando os Estados nacionais a adotar leis
que barateiem o custo do trabalho. No sistema capitalista o trabalho é tratado
como um custo de produção a ser reduzido, ao invés de ser encarado como
verdadeira fonte da riqueza social humana, e a pressão para reduzir o trabalho
acaba reduzindo as próprias fontes de lucratividade do capital. É essa
irracionalidade fundamental do sistema que precipita as crises e instabilidades
econômicas. A globalização plena do capital que ora vivemos é a globalização de
sua crise, a demonstração não de sua força, mas de sua fraqueza,
irracionalidade e instabilidade constitutiva.
A globalização
da produção industrial exerce uma pressão material bastante objetiva sobre os
Estados nacionais, mesmo os mais poderosos, como a França, para que reduzam o
custo da força de trabalho por meio de legislações que cortam direitos e
garantias dos trabalhadores. Esses direitos, do ponto de vista do capital,
aparecem como um salário indireto, que deve ser reduzido. Toda segurança e
estabilidade, eventualmente, concedidas ao trabalhador são um obstáculo à
mobilidade do capital. Ao Estado capitalista cabe pois
remover esse obstáculo, retirando esses direitos tão logo as demandas dos seus
patrões o chamam à obediência.
Foi o que
aconteceu recentemente na França, com o projeto de lei do CPE, o Contrato do
Primeiro Emprego. Esse contrato dá ao empregador o direito de demitir os
empregados de até 26 anos a qualquer momento e sem qualquer justificativa
dentro de um prazo de dois anos. Mais ou menos como já acontece no Brasil, onde
os estagiários podem trabalhar por até dois anos sem direitos, prazo além do
qual configura-se o vínculo empregatício regido pela CLT. A criação do CPE foi
vista como um passo em direção à extinção do contrato de trabalho permanente, a
forma jurídica que dá estabilidade ao trabalhador, semelhante à estabilidade de
que gozavam os servidores públicos no Brasil, um
“privilégio” estendido a um número cada vez menor de trabalhadores na França.
O mais curioso
é que o CPE foi apresentado à sociedade pelo seu criador, o primeiro-ministro
Dominique de Villepin, como uma maneira de diminuir o
desemprego. Uma lei que facilita as demissões é uma maneira de diminuir o
desemprego... bem-vindo à era do duplipensar!
“Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força”, dizia o Grande
Irmão de Orwell. “Demissão gera emprego”, diz Villepin, devidamente secundado por um exército de
economistas e batalhões de jornalistas. Os ideólogos do sistema atolam o senso
comum com toneladas de sofismas duplipensados desse
naipe, impedindo-o de enxergar as causas de sua miséria.
O sofisma
neoliberal de Villepin foi sua cartada pessoal na
disputa com o ministro do interior Nicolas Sarkozy
pela indicação do partido da situação para concorrer à sucessão do Presidente Jaques Chirac nas eleições de 2007. Sarkozy
saiu chamuscado quando sugeriu tratar os protestos dos jovens descendentes de
imigrantes (a quem chamou de “escória”) com “kärcher”,
como alguém que trata de uma infestação de insetos com dedetização.
Sarkozy teve que agüentar um mês de protestos e
milhares de carros incendiados, ficando claramente inferiorizado perante o
respeitável público. Villepin partiu para a ofensiva
com seu CPE, imaginando estar atacando o mesmo problema por um outro flanco,
como se tivesse encontrado uma solução mais sábia que a de seu rival para o
problema dos jovens. O tiro lhe saiu pela culatra.
Os dois
candidatos da direita saíram derrotados no confronto
com a resistência popular. Mas nem por isso a situação está fácil para a
esquerda parlamentar no terreno eleitoral. O PS francês também adotou o
programa neoliberal e reza pelo dogma de que “demissão gera emprego”. Foi em
seu governo que começou a precarização das relações
de trabalho. Ou seja, está igualmente desmoralizado. Assim como o PCF (Partido
Comunista Francês), que já foi o maior partido stalinista do ocidente e se
transformou numa cópia piorada do PS. Nas eleições de 2000, a esquerda
trotskista superou pela primeira vez o PCF em votos.
Mas essa esquerda
“trotskista” também está prisioneira de vacilações. Não apoiou os protestos dos
jovens da periferia em 2005 e não organizou as manifestações dos universitários
em 2006. Pior que isso, nas eleições de 2000, a organização trotskista LCR
chamou o voto útil em Chirac para derrotar o fascista Le
Pen. Ao invés de organizar as lutas populares, a esquerda “revolucionária” francesa reforça a
confiança das massas no regime e mantém-se dentro do jogo de um sistema que só
fez atacar os trabalhadores, como fez ao ingressar no euro
(que aumentou o desemprego e diminuiu os salários) e acaba de fazer no projeto
do CPE. Eis o resultado do “voto útil” para os trabalhadores, uma lição na qual
a esquerda brasileira deveria prestar atenção...
Não admira que
as manifestações de 2006 na França não esteja sendo liderada
pelos partidos, dado o seu descrédito. A maior parte das mobilizações ocorre
por fora dos partidos tradicionais, tanto assim que o governo não acha
interlocutores com quem negociar. Os sindicatos e organizações tradicionais do
movimento somente aderiram à mobilização tardiamente. Se isso revela uma
vitalidade bastante progressiva da parte do movimento popular, mostra por outro
lado a debilidade das organizações de esquerda, que se
mostram incapazes de empalmar com as mobilizações. As coordenações que se
formam espontaneamente são improvisadas e provisórias. As ruas representam a si
mesmas e deixaram o governo falando sozinho. Não há como cooptar o movimento
com concessões às suas lideranças.
Diante do
crescimento das mobilizações e da ameaça das greves gerais, o Presidente Chirac
retirou o projeto do CPE de tramitação, o que assinala uma importante vitória
do movimento popular.
O desafio para a esquerda
As
manifestações na França entusiasmaram a esquerda internacional e suscitaram
comparações com o multitudinário maio de 1968. Mas
antes que as comparações vão longe demais, é preciso colocar as coisas nos seus
lugares. Os jovens no lendário maio de 1968 eram revolucionários, não só em
política como também em comportamento. Queriam mudar o mundo e tomar o poder.
Os jovens de 2006 no máximo lutam para preservar seus empregos. É importante,
mas é limitado.
Falta a essa
esquerda do século XXI o senso de ousadia e criação que já manifestou em outras
oportunidades. Falta clareza na formulação de um projeto, firmeza para
perseguir esse projeto e capacidade de comunicar-se com a sociedade para
trazê-la ao debate sobre o projeto. Falta mesmo compreensão do mundo e do
processo que este atravessa; daí a dificuldade para reagir de maneira
conseqüente à globalização. O primeiro passo para essa resposta seria o
entrelaçamento em nível mundial das lutas em curso, de modo que as conquistas
de uns repercutissem a favor de outros.
Parece não
haver ainda nem sequer as condições mais mínimas para uma articulação das lutas
comuns em nível global, pois falta até mesmo o passo elementar de reconhecer em
primeiro lugar que se trata de lutas comuns. As conexões entre os processos não
são percebidas materialmente como laços concretos, apenas como coincidências e
analogias fortuitas. Mas será mera coincidência o fato de que no mesmo momento
em que os jovens franceses protestam, os imigrantes ilegais façam o mesmo nos Estados Unidos?
Os “sem-papéis” contra Bush
O governo Bush
propôs ao Congresso uma lei que regulamenta a situação dos imigrantes ilegais,
criando uma figura jurídica semelhante à dos “gastarbeiter” (trabalhadores convidados) que existe na Alemanha e em
outros países da União Européia. A lei autoriza os estrangeiros com vistos de
trabalho a permanecer no país e pretende expulsar os “sem-papéis”. Os
“trabalhadores convidados”, ou imigrantes ilegais anistiados no caso dos EUA,
adquirem direitos parciais de moradia e de trabalho no país, mas somente com a
condição de não poderem aspirar à permanência definitiva, tornando-lhes
perpetuamente vedado o acesso à situação plena de cidadãos. A lei de Bush
anistiará trabalhadores com mais de cinco anos de residência no país, excluindo
os demais, e vedando aos anistiados a condição de cidadãos estadunidenses. Os “gastarbeiter” de Bush serão para
sempre trabalhadores precários e descartáveis, jamais podendo ser assimilados à
população “nativa”.
Por meio dessa
medida, o capital estadunidense reconhece que necessita da mão-de-obra barata e
abundante dos mexicanos e imigrantes de outras nacionalidades, dispostos a
fazer qualquer serviço, tolerar qualquer jornada e contentar-se com qualquer
remuneração. Necessita de frentistas, babás, garçons, taxistas, balconistas,
etc., para manter o giro de uma gigantesca economia de serviços baseada em
trabalho ultraprecário. Mas reconhece que não
pretende mais conceder a esses trabalhadores a condição de cidadãos da “terra
das oportunidades”. Cai de vez a mentira de que “todos podem chegar lá”, basta
“trabalhar duro”. O máximo a que os imigrantes podem chegar é à condição de
proletários perpétuos, sub-raça e subclasse segregada do restante dos
privilegiados membros “nativos” de uma sociedade
individualista, xenófoba, preconceituosa.
A destruição
da máscara da “terra das oportunidades” é um golpe violento demais na
auto-imagem ideológica que os estadunidenses cultivam, pois toda sua história
foi baseada nessa mentira. Por isso, o projeto de Bush enfrenta importantes
resistências mesmo em seu próprio partido. A dose de pragmatismo é elevada
demais para quem já tolera o inverso, a absurda fantasia da guerra no Iraque.
Mas independentemente da conjuntura, o mito da “terra das oportunidades” é uma
ilusão cara demais ao imaginário coletivo estadunidense. Removê-la é como remover
o chão de sob os pés do povo daquele país.
Os Estados
Unidos fazem da prosperidade de seu país a “prova” de que o capitalismo
“funciona”, de que é possível ter “sucesso” buscando metas individualmente, de
que o mercado recompensa os “melhores”, de que tudo o
que importa são os “resultados”, puramente materiais e quantitativos.
Convenientemente, esquecem que a prosperidade de alguns só pode ser obtida por
meio da miséria de muitos. E há muitos miseráveis nos próprios Estados Unidos.
É preciso fazer com que se acredite que a culpa da situação pessoal de
“sucesso” ou miséria é conseqüência unicamente do talento, capacidade, esforço
ou mesmo sorte individuais, de um lado, ou de seu inverso, a preguiça, a
mediocridade, o azar do outro. A espécie humana está dividida em “vencedores” e
“perdedores”. E para ser um “vencedor”, é preciso aceitar as regras do jogo.
Ser um
vencedor não significa ser um estadunidense nato. Teoricamente, qualquer um
pode vencer e “fazer a América” (sic). Um imigrante pode conseguir o ambicionado
“green card”, o visto de permanência e um número do
seguro social, se mostrar que pode ser um “membro produtivo da sociedade”. Pelo
menos era isso que dizia o anúncio estampado na vitrine reluzente do “sonho
americano” (sic). A propaganda é a alma do negócio. Sem essa esperança de um
dia “chegar lá”, a sociedade capitalista perderia todos os traços de coesão que
mantém sua anarquia estrutural em níveis controláveis e a impedem de
desintegrar-se completamente.
Nos últimos
tempos, a definição de “membro produtivo da sociedade” passou a incluir
imigrantes de qualquer nacionalidade dispostos a servir nas guerras de Bush,
pois o “green card” estava sendo concedido a
estrangeiros que cumprissem serviço militar na guerra do Iraque. Não haverá porém guerras suficientes para recrutar todos os aspirantes
à cidadania estadunidense que hoje trabalham no país. Mesmo Bush sabe disso e
tal é a razão de sua proposta de lei. O problema é que faltou combinar com o
adversário. Os imigrantes ilegais começaram a se mobilizar e se manifestar em
massa contra o projeto de lei. Multidões que se contam por milhões marcharam em
todas as grandes cidades estadunidenses. Os imigrantes não aceitam que a
promessa lhes seja negada.
Por um lado,
os “sem-papéis” estadunidenses estão se batendo por uma ilusão, pois o “sonho
americano” (sic) sempre foi uma mentira. Nunca houve nem a possibilidade
material nem a intenção social de assimilá-los todos a membros plenos da
sociedade equiparáveis aos nativos. Por outro lado, essa ilusão tem uma
consistência material nada desprezível, pois o direito à cidadania inclui o
direito a ter uma residência própria, matricular os filhos na escola do bairro, servir-se dos hospitais públicos, etc.
Como todos os
trabalhadores, os “sem-papéis” estadunidenses tem
reivindicações materiais importantes a fazer, para as quais o direito de
cidadania é apenas revestimento ideológico. Nada mais justo que o façam, pois é
o seu trabalho que move a economia e a sobrevivência da sociedade. A mais-valia
por eles gerada é o verdadeiro combustível do sistema. Por trás de uma
reivindicação simbólica de cidadania, está a luta de classes pela divisão do
produto do trabalho social. Por trás da iniciativa de Bush está a necessidade
do capital de precarizar ainda mais as relações de
trabalho para seguir lucrando.
Diante disso,
é importante apoiar e defender as reivindicações dos “sem-papéis”
estadunidenses. Que lhes seja garantido o direito de cidadania, o direito de
trabalhar e construir suas vidas. Os “sem-papéis” são parte da classe
trabalhadora mundial. Uma vitória sua será uma vitória de todos, em direção à
maior de todas as vitórias, a derrocada do capitalismo e a construção do
socialismo.
Nos Estados
Unidos, na França, no Brasil, no mundo inteiro, traços comuns de uma realidade
em movimento acelerado a exigir respostas. Em alguns lugares, os povos já estão
nas ruas. Em outros, ainda não começaram a se mover.
Por trás de
tudo isso, faz-se ouvir o eco ancestral de um apelo imorredouro: “trabalhadores
de todo o mundo, uni-vos!”
O COSMONAUTA E A FARSA ESPETACULAR DA MÍDIA
Carlos Wellington
“Eu não tenho dinheiro pra pagar as minhas contas
Mas os branquelos estão na Lua!
Ontem à
noite um rato mordeu a minha sobrinha
Mas os branquelos estão na Lua!
O cara
subiu meu aluguel na semana passada
Mas os branquelos estão na Lua!
Eu não
consigo pagar as minhas contas do médico
Mas os branquelos estão na Lua!”
(Gil Scott- Heron, poeta, cantor e
militante dos Panteras Negras em 1970)
Numa
sociedade de 50 milhões de sub-miseráveis, pessoas que
estão abaixo do nível de pobreza, quais os interesses estariam implicados em se
ter um “representante” (risos) no espaço? Num país em que sua população negra e
101 em nível de qualidade de vida e que a população branca pobre de uma década
e meia pra cá tem chafurdado em sub-empregos que antes eram destinados só para a população negra (isso devido ao desemprego
estrutural do sistema capitalista neoliberal), qual o sentido em se gastar
milhões de dólares para se ter um cosmonauta de nacionalidade brasileira no
espaço? E por que a mídia burguesa iria nos
bombardear tanto com um acontecimento que não se relaciona com as nossas vidas
de nenhuma maneira real? Algo que não interfere de nenhuma forma em nossa
miséria econômica! Pelo contrário, só faz intensificar o distanciamento de nós
mesmos com todas as misérias que o capitalismo brasileiro nos coloca em nossa
vida cotidiana. Misérias no âmbito material, espiritual, intelectual,
subjetivo, cultural, estético, moral.
E
preciso responder a esse bombardeio midiático que se
faz sobre um acontecimento que de fato não deveria nos dizer respeito. O que
nos recorda Guy Debord em
seu livro “A sociedade do espetáculo”, que diz: “o espetáculo é o discurso
ininterrupto que a ordem presente faz sobre si própria, o seu monólogo elogioso. É o auto-retrato do poder na época da sua gestão
totalitária das condições de existência. A aparência fetichista de pura
objetividade nas relações espetaculares esconde o seu caráter de relações entre
homens e entre classes.” E com isso entendemos o
imenso interesse por parte dos veículos da imprensa burguesa por uma intensa
cobertura da ida do cosmonauta Marcos César Pontes para o espaço.
Para
irmos mais adiante no entendimento de como se fundamenta esse
espetáculo midiático da alienação, voltemos a Guy Debord, que nos coloca que “a
alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da
sua própria atividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele
contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes
da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio
desejo. A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece
nisto, os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhes
apresenta.”
A
sociedade do espetáculo é, sobretudo, a sociedade do falso, do inautêntico, da manipulação, da mentira, ela é um discurso
que mente para si mesmo. E foi o que vimos, por exemplo, no reacionário jornal
“Folha de São Paulo”, que estampou a seguinte manchete no dia seguinte ao da
decolagem do foguete russo Soyuz com sua tripulação
internacional: “Nave do brasileiro já está em órbita”. A nós cabe perguntar:
‘‘como assim, nave do brasileiro”? O ufanismo acrítico
galopante dessa manchete não resiste a um segundo de raciocínio: nave do
brasileiro? Que nave do brasileiro? O brasileiro produz tecnologia espacial?
Sequer o país dele produz tecnologia espacial? Não é preciso sequer questionar
o por quê de se produzir tal coisa, a nave espacial. Basta lembrar que a nave é
russa! Como também a tecnologia! O brasileiro só pegou carona na viagem!
A
postura abjeta da mídia impede que se veja o verdadeiro quadro histórico e
político em que está situado o “programa espacial brasileiro”. Num determinado
momento, a burguesia brasileira chegou a cogitar desenvolver no país um
programa espacial próprio, com tecnologia nacional. O programa tinha como seu
eixo a tentativa de dominar a tecnologia do lançamento de satélites, o que
teria um impacto importante na indústria local de telecomunicações.
Entretanto,
esse projeto foi abortado com a destruição da base de Alcântara, no Maranhão,
arrasada por uma explosão em agosto de 2003, quando do lançamento do VLS-1
(Veículo Lançador de Satélites) desenvolvido com tecnologia brasileira. Até
hoje, as causas do acidente permanecem sem um esclarecimento convincente. Há
quem acredite em simples acidente ou falha humana. Poucos têm a coragem de
denunciar a conspiração e a sabotagem para enterrar a possibilidade de um salto
tecnológico em um país periférico, por menor que seja este salto.
Basta
lembrar que os Estados Unidos pleiteavam usar nossa base em Alcântara, com seu
baixo custo de lançamento, para seus próprios lançadores de satélites; e ligar
os fatos. Está em jogo não só o bloqueio ao desenvolvimento tecnológico
autônomo do Brasil, mas a imposição da ingerência imperialista estadunidense
sobre o conjunto dos países periféricos, por meio da instalação de bases
militares em todo o mundo. Os Estados Unidos precisam assegurar sua supremacia
tecnológica incontestável, e para isso sabotam o programa espacial brasileiro;
precisam assegurar o monopólio da tecnologia nuclear e por isso ameaçam invadir
o Irã; precisam assegurar o fácil acesso às reservas de água doce e
biodiversidade da Amazônia, por isso cercam a região de bases militares. Isso
explica o incidente de Alcântara.
A imprensa brasileira, submissa aos interesses estadunidenses,
jamais faria esse tipo de crítica. Preferem criticar o programa espacial
brasileiro por ter se associado aos russos. Como faltou ao capacho governo Lula
a verba para corresponder aos compromissos assumidos pelo capacho FHC perante a
construção da Estação Espacial Internacional, que incluiria a ida de um
astronauta brasileiro ao espaço de carona com a NASA, este teve que metamorfosear-se em cosmonauta e viajar com os russos.
É
muito mais fácil exercer a liberdade de crítica em relação à Rússia, já que não
há patrocínios daquele país na mídia nacional no montante do que há da parte
estadunidense. Muitos esquecem que a Rússia, país arrasado por duas guerras
mundiais imperialistas, pela invasão nazista e pela criminosa direção de
Stalin, foi capaz de colocar-se à frente dos Estados Unidos na corrida
espacial, com o lançamento do Sputnik em 1957 e o pioneiro vôo aeroespacial de Iuri Gagárin em 1961.
É
do cosmonauta russo a monumental frase: “a terra é azul!”. Isso não significa
que teria valido à pena para o povo russo passar pelo pesadelo stalinista
apenas para ter esse triunfo. Significa que o gigantesco salto tecnológico da
Rússia, de império semi-feudal em 1917 para potência
nuclear e aeroespacial em 1957, com todos os calamitosos percalços citados
acima, só foi possível devido à tremenda vitória da expropriação da burguesia
na Revolução e pela construção de uma economia planificada.
Bem
ou mal, a Rússia soviética tinha um projeto de nação (e como socialistas, somos
extremamente críticos ao projeto ali desenvolvido, sem deixar de enxergar suas
conquistas). O Brasil abdicou do seu há muito tempo. Quando a comunidade
científica nacional critica a viagem de Marcos Pontes e os gastos inúteis que
acarretou em face dos resultados pífios das experiências realizadas; ela o faz
não porque esteja interessada em pesquisas que efetivamente melhorem a vida dos
trabalhadores, mas porque se encastelou na defesa corporativa de seus
mesquinhos interesses de casta burocrática. Quando se trata de defender uma
gestão paritária da universidade entre professores,
estudantes e trabalhadores, no interesse do conjunto da sociedade, nossa comunidade
acadêmica se cala.
Estes
seriam enfim os elementos de uma abordagem minimamente crítica do episódio do
cosmonauta brasileiro e da relevância do programa espacial brasileiro para o
povo deste país. Tais elementos críticos estão completamente ausentes da
cobertura da grande mídia. No interesse de festejar o “feito” para a campanha à
reeleição de Lula, ou seja lá qual for o interesse,
esconde-se a verdade de que todo esse acontecimento não passa de uma ridícula
pantomima.
Essa
verdade incômoda nos restituiria, porém, à nossa realidade de país miserável.
No interesse da dominação, é preciso encobri-la com o artifício espetacular da
viagem espacial. É preciso a mentira do “pouco pão e muito circo” pra iludir os
milhões de desempregados, sub-empregados e explorados,
é preciso que estejamos todos unidos em comum com o cosmonauta Marcos César
Pontes. E preciso que entremos todos em órbita. Pois, como observou ainda Guy Debord, o espetáculo
apresenta-se ao mesmo tempo como a própria sociedade, como uma parte da
sociedade, como instrumento de unificação. Enquanto parte da sociedade, ele é expressamente
o setor que concentra todo o olhar e toda a consciência. Pelo próprio fato
desse setor (os burgueses) ser separado, ele é o lugar do olhar iludido e da
falsa consciência; e a unificação que realiza não é outra coisa senão uma
linguagem oficial da separação generalizada. O espetáculo em geral, como
inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo. O espetáculo que
inverte o real é efetivamente produzido.
“A
cidade de Bauru, assim como todo o povo brasileiro, devem se sentir muito orgulhosos”,
foram as palavras de um jornalista da rede globo de
televisão. Dizeres acompanhados por toda a mídia burguesa. Queriam à todo custo nos passar uma falsa e inautêntica
sensação... a de que poderíamos dizer a nós mesmos: “Todos
somos Marcos Pontes!” Se todos nós, os oprimidos do Brasil, somos o cosmonauta
Marcos Pontes, significa que não resta nada mais pra sermos! Não resta nada
mais a fazer senão “acompanharmos” (risos) pela mídia espetacular burguesa
nosso representante no espaço. O cosmonauta brasileiro realiza vicariamente o
desejo de todos os brasileiros. A subjetividade do trabalhador explorado,
oprimido, desempregado, é dissolvida na identidade inerte do espectador que
vibra com as conquistas do personagem espetacular Marcos Pontes. Pois se a luta
de classes não existe, se não estamos constantemente sofrendo a pressão da
economia capitalista neoliberal e a opressão da classe burguesa, pode ser que
não tenhamos realmente algo para fazer, não tenhamos mais nada a realizar,
senão sermos o cosmonauta Marcos Pontes ou outro cosmonauta brasileiro
qualquer.