Espaço Socialista

Publicação Revolucionária Marxista de Debates

Ano V – Nº 16 – Março de 2006.

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ÍNDICE

1. No Haiti Lula é Operário Padrão do Imperialismo

2. O Oriente Médio em Chamas

3. A Educação é Determinada Pelas Relações Econômicas

4. Notas – Bancários e Futebol

5. Poesia

 

 

 

 

 

NO HAITI LULA É OPERÁRIO PADRÃO DO IMPERIALISMO

 

 

HISTÓRICO

A burguesia brasileira sempre oprimiu a população negra. Por quase 400 anos impôs a escravidão e por mais de 100 anos segrega e discrimina o proletariado negro. Não bastasse esse histórico, desde 2004, sob a batuta do governo Lula, oprime a nação haitiana composta por 95% de afrodescendentes.

Há pouco mais de 200 anos o Haiti era uma colônia francesa produtora de açúcar que explorava a mão-de-obra escrava. Almas humanas em corpos negros no final do século XVIII iniciam sua luta contra a escravidão. Ao perceberem que uma vez livres necessitavam de uma forma de sobrevivência avançam sobre as terras dos antigos proprietários. Para conquistarem terra notaram que era necessário obter o poder político, romper com a antiga metrópole e promover sua independência. A vitória foi conquistada em 1804. O exemplo dos jacobinos negros amedrontou as elites escravocratas da América, em particular do Brasil e dos Estados Unidos.

O Haiti foi isolado e desde então passou a sofrer todo tipo de sanção para que fosse inviabilizado como nação soberana. Até hoje paga o preço de sua audácia revolucionária. Sua miséria nos dias atuais atinge níveis alarmantes: a fome é crônica, 80% vivem abaixo da linha de pobreza, 66% de desempregados, quase metade da população é analfabeta e a expectativa de vida é de 52 anos.

O ex-padre Jean-Bertrand Aristide nos anos 80 alinhou-se com a Teologia da Libertação, corrente política no interior da igreja católica, que mesclou cristianismo e marxismo em defesa dos pobres e oprimidos. Possuindo um grande prestígio entre os deserdados do capital obteve pelo voto em 1991 a cadeira de presidente da república prometendo realizar reformas sociais. Ocupou o cargo por apenas sete meses, em setembro do mesmo ano foi deposto por um golpe. Instalou-se, então, uma ditadura militar.

A crise econômica e social cresceu no país, a população em massa começou a ingressar clandestinamente nos EUA em busca de trabalho. Essa foi uma das justificativas para que os EUA promovessem um novo golpe no Haiti destituindo o governo golpista e reconduzindo Aristide na esperança de que pudesse conter a crise. Neste momento Aristide, como inúmeros outros esquerdistas, após a queda do muro de Berlim, já havia se convertido em profeta da nova era do capitalismo, aderiu ao discurso do imperialismo de fim da história, de que as utopias deixaram de existir e de que o socialismo morreu, assumindo a ideologia burguesa. No ano seguinte elegeu seu sucessor René Preval que governou até 2000 sem resolver nenhuma demanda popular. Em 2000 Aristide retorna ao poder, também pelo voto. O início de seu segundo mandato foi conturbado com a oposição contestando sua eleição, desconhecendo seu governo ao eleger um presidente paralelo.

A lealdade de Aristide às agências multilaterais do imperialismo - FMI, Banco Mundial, OEA - se por um lado o segurou no poder até fevereiro de 2004 conduziu o país ao abismo. Ele privatizou o que havia de serviço social e econômico a encargo do Estado, promoveu demissões e eliminou tarifas de importação, uma importante fonte de receitas.

 

O GOLPE

O governo não conseguiu conter a profunda crise que corroia as instituições do Estado e trazia muita insegurança para as elites burguesas. Os Estados Unidos horrorizados com a possibilidade de queda do presidente por meio de uma insurgência que lhes escapasse do controle e conduzisse o Haiti para um processo revolucionário de caráter socialista. Iniciaram uma conspiração por meio do Instituto Republicano Internacional (IRI) - uma das milhares de ONG's que, financiadas pela burguesia, apresentam-se como dignas defensoras da democracia, dos direitos humanos, sociais e ambientais. Prometendo ajudar o Haiti, estabilizar o regime e consolidar a democracia, o IRI, recrutou opositores atuando em duas frentes: na primeira infiltrou seus simpatizantes na estrutura do Estado para de seu interior organizar a sabotagem ao mandato de Aristide; na segunda criou, em 2003, um agrupamento paramilitar que financiou e treinou na vizinha República Dominicana.

Capitaneados por Prosper Avril e Guy Philippe mercenários membros da Frente Nacional Haitiana marcharam, em fevereiro de 2004, sobre a capital Porto Príncipe. Na versão das agências noticiosas do imperialismo, Aristide, diante do avanço das tropas rebeldes, assinou sua renúncia em 29 de fevereiro. Seu advogado de defesa nas cortes internacionais alega que seu cliente foi coagido a assinar sua renúncia e na seqüência seqüestrado por soldados estadunidenses que o conduziram para a República Centro Africana e posteriormente para a África do Sul.

 

O CARÁTER DA MINUSTAH

Para conter uma possível explosão social e legitimar a deposição de um presidente eleito constitucionalmente, organizou-se uma força de "paz" denominada - Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) - sob comando militar do Brasil.

O governo burguês de Lula, mesmo antes de assumir, deixou claro seu alinhamento com a política econômica e social do imperialismo. Nada, porém, permitiria antever que sua submissão chegasse a ponto de enviar tropas militares para reprimir a revolta das massas diante do caos que o capital impõe aos que têm e não têm trabalho. O precedente de repressão militar internacional por parte da burguesia brasileira ocorreu em 1965 sob o governo do marechal Castelo Branco que enviou soldados à Republica Dominicana para conter a mobilização em defesa do retorno de Juan Bosh à presidência, após um golpe de estado desferido em 1962, interrompendo no sétimo mês um governo eleito pelos dominicanos.

Lula assumiu a mais reacionária reivindicação da burguesia brasileira a de obter um assento no Conselho de segurança da ONU na expectativa de conquistar uma moeda de troca para permutar votos e favores. Se o atual governo fosse de fato uma frente popular, como pensa a esquerda reformista e centrista, jamais teria assumido a tarefa de oprimir o proletariado haitiano. É risível e cômico que uma nação como Brasil, oprimida e refém do imperialismo, envie tropas a uma nação também oprimida e refém do imperialismo. Ao invés de resistir ao jugo e submissão de séculos, estabelecendo laços de solidariedade e cooperação, o governo Lula ao enviar soldados para o Haiti assumiu um papel de força militar imperialista violando o direito dos povos à autodeterminação.

Colin Powell, secretário de Estado dos EUA, em viagem ao Brasil declarou: "Gostaria de expressar meu agradecimento ao governo brasileiro pelo papel de liderança dentro das Nações Unidas, ao colocar à disposição tropas no Haiti. É uma missão desafiadora, e o Brasil esteve à altura do desafio" (Folha de S. Paulo 06/10/04).

O caráter da Minustah dirigida pelo Brasil, a mando dos EUA, é um só - contra-revolucionário. Seu objetivo é conter a reação das massas à miséria reinante e mostrar aos cubanos o que pode acontecer em breve na ilha socialista da América Latina.

Alguns setores da pseudo-esquerda, dentro e fora do PT, tentam isentá-lo da responsabilidade sobre as ações governamentais. No caso da invasão do Haiti isso não é possível. O Partido dos Trabalhadores, também, alinhou-se com a ofensiva imperialista ao propor a formação de uma frente partidária para eleger um novo presidente no Haiti, como informou o jornal Brasil de Fato na sua edição de 02/12/04: "O presidente e secretário de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores (PT), José Genuíno e Paulo Ferreira, estão participando de encontros regulares com políticos do Haiti para articular a criação de uma agremiação, dita de esquerda, no país. O objetivo é montar uma sigla - cujo nome temporário é Movimento pela Fusão - que tenha chances de vencer as eleições presidenciais, marcadas para 2005". O mesmo jornal noticiou que Ferreira havia viajado para lá e estaria preparando a vinda de políticos haitianos para cá.

A dita força de paz da ONU sob comando do Brasil de Lula organizou assassinatos e segue reprimindo de modo brutal a resistência popular contra as tropas imperialistas. Cité Soleil (cidade sol em tradução literal), bairro proletário de Porto Príncipe, conta com 250 mil moradores, é uma fortaleza na luta contra a invasão militar estrangeira. Vive diariamente um cenário de guerra. Luciano Carvalho ex-combatente no Haiti confirmou: "(...) que a troca de tiros com grupos armados se tornou rotina" (Folha de S. Paulo 12/10/04). Todos os envolvidos nessa luta contra o povo haitiano desqualificam a resistência afirmando que Cité Soleil seria um "condomínio fechado por bandidos armados" e que estaria "sob controle de gangues e traficantes armados". Utilizam os argumentos de combate ao narcotráfico e ao terrorismo para conter a luta contra as tropas da ONU.

Na madrugada de 6 de julho de 2005 cerca de 350 soldados da Minustah invadiram o bairro assassinando 23 pessoas, mas que pode ter resultado em 80 mortos. "O objetivo da operação era assassinar Emmanuel Wilmer líder do grupo Lavalas, que apoia Jean-Bertrand Aristide" (Brasil de Fato, 21/07/05). A covardia da ação foi denunciada por jornalistas do Projeto de Informação do Haiti: "(...) pessoas foram mortas em suas casas, nas ruas e em seus locais de trabalho, mesmo estando desarmadas" (Brasil de Fato 21/07/05). Na semana seguinte, dias 13 e 14 de julho, Lula visitou a França e nada falou sobre o massacre.

Passados pouco mais de três meses o cinismo petista atingiu seu cume. Marco Aurélio Garcia assessor internacional de Lula declarou que a ação das forças de paz: "Foi uma intervenção respeitosa aos direitos humanos e com número mínimo de baixas" (Folha de S. Paulo 15/10/05).

Os fatos desmentem a visão do assessor especial de Lula. O jornal Folha de S. Paulo publicou em 29/01/06 depoimentos de soldados que retornaram do país invadido que afirmaram: "Na verdade, não há dia em que as tropas da ONU não matem um haitiano em troca de tiros". O referido assessor disse que a administração dada pelas tropas criava: "(...) um novo paradigma de tratamento desse tipo de questão" (Folha de S. Paulo 15/10/05). O modo petista de intervir não parece ser tão digno, pois os relataram e mostraram com fotos que cadáveres: "Estão jogados pelas ruas transformadas em lixões a céu aberto de Porto Príncipe. (...) Cães aparecem disputando a carniça" (Folha de S. Paulo 29/01/06).

O ano de 2006 iniciou com uma grave crise no comando militar da Minustah que resultou na morte do general Urano Bacellar em 09/Jan, que teria cometido suicídio, de acordo com órgãos oficiais. Na verdade o problema relacionava-se com o aprofundamento da repressão aos focos de oposição à ocupação militar: "A hesitação das forças da ONU em efetuar missões repressivas em favelas como Cité Soleil é uma das principais críticas de núcleos políticos haitianos conservadores, incluindo o empresariado de extrema direita, que pressionavam o general brasileiro, dias antes de seu suicídio, a intervir com mais rigor" (O Estado de S. Paulo 28/01/06). O recado estava dado, com a morte do general Bacellar eliminava-se uma opinião contrária a ampliar os massacres.

O novo general comandante, José Elito Carvalho Siqueira, logo após ter sido empossado declarou ao jornal O Estado de S. Paulo em 07/02/06 que: "Cité Soleil não pode continuar como está". O mesmo jornal na mesma data noticiou que: "suas tropas vão entrar em Cité Soleil, em cooperação com a polícia Internacional da ONU e com a Polícia Nacional do Haiti, para expulsar as gangues e bandidos da área".

 

A FRAUDE ELEITORAL

Desde a ação golpista governa o país um preposto dos EUA, o primeiro ministro Gerard Latourte, fiel seguidor da política neoliberal. Seguindo as lições dos EUA no Iraque, as forças de ocupação convocaram eleições para a escolha de presidente, deputados e senadores. O cenário desfavorável aos candidatos mais alinhados com os EUA impuseram o adiamento das eleições por quatro vezes.

Temerosos de que mais um adiamento pudesse aumentar as mobilizações diárias o Conselho Eleitoral Provisório (CEP) marcou a data das eleições para 7 de fevereiro. Ilegítimas, pois um país sob intervenção militar, com sua soberania violada e impedido de se autodeterminar não pode realizar eleições livres. Dentre os 33 candidatos dois se sobressaiam, René Preval, ex-presidente da República, identificado com Aristide e Leslie Manigat e candidato dos EUA.  Contando com amplo apoio popular Preval despontou como possível vitorioso. Sob comando do CEP foi montado um esquema de desorganização das eleições para eventualmente justificar sua anulação para barrar a vitória de Preval. "Nas cabines, onde a norma previa um leitor de cada vez, dezenas pegavam as cédulas ao mesmo tempo e votavam na frente de todos sem sigilo nenhum" (Folha de S. Paulo 16/02/06). Cédulas corriam livremente de mão em mão, pilhas de votos em Preval foram encontrados em um lixão o que detonou uma forte mobilização contra o resultado eleitoral.

A reação das forças de "paz" sob comando militar do Brasil de Lula foi imediata: "Os soldados da Missão das Nações Unidas para a estabilização do Haiti (Minustah), que ocupa o país desde junho de 2004, atiraram contra os manifestantes, alegando conter ações criminosas" (Brasil de Fato 16/02/06).

As mobilizações não cessaram e diante do fracasso da  tentativa de forçar um segundo turno entre Preval e Manigat,  o jeito foi alterar a legislação do país para garantir a vitória de Preval, dada à pressão das massas.

Representantes do governo Lula sugeriram "(...) reavaliar os votos em branco (...) Com a nova fórmula, Preval subiu de 48,7% para 51,15% assegurando, portanto, a maioria simples necessária para a vitória" (Folha de S. Paulo 17/02/06). Em um país onde o voto não é obrigatório o percentual de nulos e brancos é praticamente zero. Toda a população desconfiou quando se divulgou a existência de muitos votos nessa condição. O mecanismo da fraude gorou e as forças de ocupação reconheceram a vitória de Preval.

Como de praxe nessas ocasiões inúmeros países enviam observadores, o Brasi,l como interventor, não poderia ficar de fora, muito menos o PT. Estiveram acompanhando o processo eleitoral os parlamentares: Roberto Saturnino (PT-RJ), Fernando Gabeira (PT-RJ), Maninha (PSOL-DF), Chicão Brígido (PMDB-AC) e Zico Bronzeado (PT-AC).

Resta saber se a delegação brasileira referenda os acontecimentos ou os contesta, que torne pública suas posições. Babá deputado pelo PSOL fluminense apresentou um projeto de decreto legislativo que revoga a autorização que o congresso concedeu para o envio de tropas brasileiras ao Haiti. Esse pode ser um ponto de apoio para que todos aqueles que se reivindicam do internacionalismo proletário assumam como tarefa prioritária a defesa da autodeterminação do Haiti.

 

EXPULSAR O IMPERIALISMO

Dada a ausência de uma frente de resistência revolucionária e socialista ao golpe, Preval catalisou eleitoralmente a rejeição das massas à ocupação imperialista. Elas acreditam que ele possa dispensar os serviços da Minustah e resgatar a soberania do país. No entanto por se tratar de um opositor burguês ao golpe deve aceitar servilmente a manutenção das tropas no Haiti, pois concordou participar de um processo eleitoral viciado sob comando da OEA e não se pronunciou abertamente pela retirada dos soldados.

            Programas eleitorais de centro-esquerda quando vitoriosos em eleição são abandonados logo no início de governo. No interior do sistema capitalista não há saída. A convulsão social em curso no Haiti carece de uma direção revolucionária, o que acaba ampliando o caos social no país. As massas não se orientam de forma espontânea em direção ao socialismo.

Faz-se necessário forjar uma organização revolucionário capaz de conduzir o quadro de crise revolucionária a um desfecho triunfante, começando por expulsar as tropas imperialistas que oprimem o povo.  Mesmo caminhando em direção ao socialismo, os haitianos não resolverão seus problemas sozinhos. Somente em um contexto de cooperação internacional, de um Caribe socialista, de uma América socialista, conseguiremos equacionar a miséria cotidiana do capitalismo.

 

 

 

ORIENTE MÉDIO EM CHAMAS

A recente vitória eleitoral do grupo Hamas na Palestina representa um avanço num sentido limitadíssimo: constitui uma excelente piada de humor macabro. Mostra ao imperialismo estadunidense e ao governo israelense que seus planos podem sair pela culatra. É um formidável golpe moral nos inimigos do povo palestino, mas dificilmente terá efeitos práticos em favor da resolução dos problemas desse povo.

A Autoridade Nacional Palestina (ANP), para cujo governo o Hamas se habilitou, não é um Estado de fato, pois não possui sequer autonomia financeira. Nem mesmo arrecada impostos. É sustentada financeiramente por Israel, pelos Estados Unidos e pela União Européia. Desde o começo, a ANP foi criada para servir como forma de desmobilizar a resistência palestina nos territórios ocupados, inclusive pela cooptação de seus líderes. Nesse último aspecto, um eloqüente exemplo do seu sucesso é oferecido pela figura de um Ahmed Korei, ex-primeiro ministro da ANP pelo partido Fatah, empresário do ramo de cimento que fornece material para o muro da vergonha que Israel está construindo.

Com lideranças desse tipo, os palestinos não precisam de inimigo. Precisam sim de um Estado de fato, que não será construído enquanto a ANP for financiada pelo imperialismo, o que, aliás, deve deixar de acontecer caso o Hamas, agora no governo, mantenha seu programa de rejeitar os acordos de Oslo (pelos quais Israel e a OLP reconheceram o direito mútuo à existência), que foram a base legal para a criação da própria ANP. Que o Hamas não reconheça a existência do Estado de Israel pode não ser muito realista, mas com certeza é coerentemente simétrico em relação à postura desse mesmo Estado de Israel, que de sua parte não reconhece o direito ao Estado Palestino.

Ou melhor, reconhece, desde que esse Estado não tenha direito a nenhuma terra fértil e nenhuma fonte de água, pois estes preciosos recursos são de uso privativo das colônias expansionistas fundamentalistas judaicas protegidas pelo muro de Sharon, Korei & Cia. Ou seja, Israel está disposto a reconhecer apenas um Estado palestino que tenha a função prisional de organizar eficazmente a morte de milhões de palestinos por inanição. Qualquer semelhança com os campos de concentração não será mera coincidência.

Se nos territórios ocupados de Gaza e da Cisjordânia os palestinos devem se contentar apenas com a areia do deserto, sorte não muito melhor desfrutam seus compatriotas e correligionários que habitam no próprio território de Israel, onde formam uma massa lumpenizada de sub-cidadãos. Em Israel a cidadania política e o direito à propriedade da terra são conferidos com base num critério étnico-confessional: está garantida a todos os judeus e vedada aos árabes por cláusula pétrea da Constituição; mais ou menos como no Reich nazista ou no Apartheid sul-africano.

 

O EXTREMISMO

As leis de segregação racial e as práticas de estrangulamento econômico aplicadas com sanguinária truculência militar tornam o terrorismo das organizações palestinas extremistas uma inevitabilidade. O fato de que esse terrorismo seja materialmente explicável não o torna mais efetivo do ponto de vista da prática e muito menos o torna moralmente justificável. O sacrifício dos homens-bombas da Jihad Islâmica, braço armado do Hamas, não constitui um contrapeso efetivo à repressão militar israelense nos territórios ocupados: não serve para expulsar o inimigo. Mas constitui uma espécie distorcida de contrapeso moral que justifica aos olhos dos israelenses não-fundamentalistas (os fundamentalistas não precisam de justificação moral para sua versão da solução final, já que de seu ponto de vista a terra lhes pertence por mandato divino inscrito na Torá) essa mesma repressão. Distorcida porque embora algumas de suas organizações recorram ao terrorismo, os palestinos como um todo, permanecem na condição de vítimas.

Na situação de hoje a utopia de uma Palestina laica e democrática em que possam conviver árabes e judeus em iguais condições de acesso a bens fundamentais como terra e água parece ser um delírio distante, na medida em que as massas israelenses e palestinas permanecem prisioneiras da retórica apocalíptica de grupos políticos de ideologia religiosa fundamentalista capazes de aceitar qualquer coisa, menos a coexistência pacífica com o outro lado.

Uma vez que na concepção de ação política do Hamas não consta o conceito de ação organizada das massas e sim o do sacrifício de vanguardas terroristas, as chances de que o conflito seja encaminhado positivamente diminuem de maneira drástica, independentemente de seu governo ser reconhecido ou não pela "comunidade internacional" (EUA e Israel) e de seus dirigentes capitularem ou não ao sub-Estado burguês da ANP. Do outro lado, as chances de que Israel renuncie ao terrorismo de Estado, sob pressão da parcela de sua população que deseja viver em paz, são também remotas, visto que esse setor está tão mal organizado e mal representado politicamente quanto às massas palestinas.

Na falta de soluções viáveis, segue-se em busca do absurdo. O Hamas já sinalizou com a possibilidade de romper o isolamento da ANP baseando sua gestão no apoio financeiro de outros Estados cuja doutrina estratégica esteja baseada nos mesmos princípios de sua ideologia religiosa fundamentalista, ou seja, o Irã dos aiatolás radioativos. O "eixo do mal" que a propaganda estadunidense tenta forjar a todo custo para justificar sua "guerra ao terror" pode assim ganhar feições materiais concretas (e caricatas) e deixar de ser a ficção que assusta os caipiras que votam em Bush. Uma eventual aliança entre o Hamas e o Irã do presidente Ahmadinejad pode oferecer a oportunidade para o banho de sangue pelo qual os falcões estadunidenses e as SS israelenses tanto anseiam.

A escalada de hostilidade entre os povos de religião muçulmana contra a política imperialista teve mais um capítulo no acirramento das tensões entre o Irã e os Estados Unidos por conta do programa nuclear daquele país. É bastante curioso que ninguém se choque com a clamorosa assimetria no tratamento dado à questão nuclear que envolve países periféricos como o Irã de um lado e potências como os Estados Unidos e Israel de outro. Os Estados Unidos podem ter milhares de ogivas nucleares, e Israel centenas, sem que por isso as agências das Nações Unidas insistam em inspecionar as instalações de tais países.

Inexplicavelmente, o desarmamento dos Estados Unidos está excluído de qualquer cogitação. E não só o dos Estados Unidos, mas o da Rússia, da França, da Inglaterra, da China, potências que ameaçam o mundo do alto de seus arsenais nucleares. Por que um país pode ter milhares de armas de destruição em massa, sejam nucleares ou químicas, bacteriológicas, etc., impunemente? Que espécie de mandato divino lhes outorgou esse direito de ameaçar a existência do conjunto da humanidade? Por que o Deus estadunidense é melhor que o iraniano?

A explicação não é teológica, mas histórica e política. O assim chamado "choque de civilizações" é um péssimo eufemismo para luta de classes. A religião e a ideologia são como sempre disfarces para as contradições materiais. A divisão internacional do trabalho no sistema do capital global determina papéis bastante precisos para cada país na sustentação de sua problemática funcionalidade. A uns países cabe fornecer petróleo, a outros cabe fabricar armas ao custo de bilhões de dólares, para estocá-las ou eventualmente usar algumas no mister de roubar o petróleo dos primeiros. O Deus cristão e o Alá muçulmano aparentemente têm muito pouco a ver com as exigências da acumulação do capital, mas prestam-se de maneira excelente ao imperativo de valorizar as ações da Halliburton & CIA, bem como a inflar a votação do candidato dos aiatolás.

 

CONFLITO DE CIVILIZAÇÕES?

Tratar o conflito dos países árabes e de religião muçulmana com o imperialismo estadunidense como "conflito de civilizações" equivale a acreditar que as Cruzadas medievais foram travadas com o único e exclusivo objetivo de arrebatar a Terra Santa aos infiéis. Num como noutro caso, há que se verificar as causas materiais subjacentes, ou seja, os interesses prevalecentes na sociedade de classes em cada conjuntura. A possível diferença está em que, na época das Cruzadas medievais, os bárbaros eram os invasores cristãos. A riquíssima e sofisticada Bagdá medieval onde hoje o soldados de Bush urinam sobre o Alcorão fazia as capitais européias como Londres, Paris e Roma da época parecerem verdadeiros esgotos. Durante a Idade Média, os reinos árabes, como o de Córdoba na Espanha, eram muito mais civilizados e cultos que qualquer potentado cristão. Praticavam inclusive a tolerância para com cristãos e judeus em seus territórios, inclusive na mesma Palestina que hoje está sendo ignominiosamente recortada por um muro.

A transformação dos árabes e muçulmanos em geral no estereótipo do fanático e no espantalho do terrorista é uma criação do século XX. Se o Islã fosse desde sempre fundamentalista como tem sido apresentado hoje, uma obra como "As mil e uma noites" jamais teria se tornado o patrimônio da cultura árabe que é, com sua moralidade sexual bastante flexível, para se dizer o mínimo. O fundamentalismo islâmico, como fenômeno político, tem poucas décadas de vida. As primeiras revoluções pela modernização dos países muçulmanos, como a da Turquia, na década de 1920, tiveram ideologia laica, burguesa liberal e republicana, ou seja, não apelavam para a religião para mobilizar o povo. No pós-guerra, fortaleceu-se o nacionalismo árabe, parte do movimento global dos países não-alinhados, que de alguma forma tentavam escapar à rígida polarização imposta pela Guerra Fria e estabelecer um campo alternativo. As superpotências não lhes deram essa chance.

Golpes de estado depuseram as lideranças nacionalistas. De Mossadegh em 1953 no Irã a Allende em 1973 no Chile, e alhures, os líderes nacionalistas, burgueses liberais, republicanos, reformistas e socialistas tombaram todos como peças de dominó, conforme esboçavam a ousadia imperdoável de aplicar medidas minimamente soberanas como a nacionalização das riquezas minerais. O resultado do esfacelamento das lideranças burguesas liberais, democráticas, laicas, nacionalistas, populares e socialistas, no universo dos países muçulmanos, foi o fortalecimento das organizações religiosas.

Assim, coube a Komeini derrubar em 1979 o governo  títere e corrupto que Estados Unidos impuseram ao Irã em 1953, em nome de uma certa "revolução islâmica". A derrota do imperialismo naquele país entusiasmou setores da esquerda internacional, mas estes logo tiveram que se haver com a desconcertante prática do regime dos aiatolás de perseguir e exterminar os socialistas naquele país com o mesmo afinco empregado pelo governo anterior do xá. O sucesso relativo dessa revolução islâmica em devolver a autonomia ao Irã, ao custo do sacrifício de qualquer liberdade democrática ou modernidade cultural, entusiasmou amplos setores das massas árabes. Da Argélia às Filipinas, movimentos políticos inspirados no regime dos aiatolás declararam guerra santa ao ocidente e aos governos títeres que colaboram com o grande satã.

No entanto, mesmo dentro do fundamentalismo, é preciso estabelecer distinções. Há governos fundamentalistas que colaboram com o ocidente, como o da subserviente Arábia Saudita, ou o dos talebãs no Afeganistão, na época da ocupação soviética.  Hoje, os talebãs acobertam Osama bin Laden, inimigo dos Estados Unidos, que no entanto pertence à aristocracia saudita! Traçar uma linha que separa os muçulmanos entre fundamentalistas e moderados, e colocar uns na frente antiocidental e outros na frente colaboracionista/pró-imperialista é uma simplificação falsificadora que não explica a situação.

As palavras "ocidente" e "oriente", por sua vez, são designações meramente geográficas, que somente por meio de um certo abuso conceitual se pode tomar como metáfora para recortar realidades político-sociais. Há atraso, ignorância e barbárie, como também há riqueza, tanto no ocidente como no oriente geográficos.

Os muçulmanos não estão se enfrentando com o Ocidente porque são bárbaros, violentos, ignorantes, autoritários, patriarcais, machistas e antidemocráticos. Também há no Ocidente cristão, "civilizado e democrático", milhões de bárbaros, violentos, ignorantes, autoritários, patriarcais, machistas e antidemocráticos. Se não os houvesse, Bush não teria sido reeleito. Ou da mesma forma, não se teria elegido o partido de direita que governa a Dinamarca, cujo veículo de comunicação, o Jyllands-Posten, publicou as malfadadas e sacrílegas imagens de Maomé.

Muçulmanos não são "monstros por natureza", nem sua religião é mais primitiva, ou seus valores atrasados, etc. O sinal da explicação está invertido. Eles se tornam manifestantes agressivos dispostos a queimar embaixadas e se sacrificar como homens-bomba porque o próprio Ocidente lhes subtraiu as chances de serem outra coisa. Tais chances foram cortadas no momento em que as promessas da modernização capitalista mostraram não ser outra coisa além de petrodólares para os xeques e miséria para as massas. Os canais pelos quais as massas árabes poderiam organizar democraticamente suas demandas e assumir os governos de seus próprios países foram destruídos pelo próprio "ocidente democrático", pois a importação de petróleo sempre foi prioritária em relação à exportação de democracia. Quando se permite que os árabes votem, votam no Hamas.

O fato de os muçulmanos estarem se levantando para votar no Hamas, explodir carros-bombas no Iraque ou queimar embaixadas ocidentais mundo afora não tem a ver com o caráter específico da religião islâmica, mas com o papel que essa religião passou a ocupar nessas sociedades dilaceradas pela miséria material, como foco organizador da identidade e da resistência. No ocidente, ninguém se incomodaria com charges sobre Cristo (não a ponto de mobilizações de massa destruírem embaixadas), porque a religião cristã não é mais o fato central da vida da maioria das pessoas. Substituiu-a a religião do dinheiro. Há alguns séculos, Voltaire já dizia que a humanidade seria livre quando se enforcasse o último rei nas tripas do último padre.

Entretanto, as lutas da burguesia contra os reis e os padres libertaram tão somente o capital, que por sua vez acorrentou o proletariado. Antes mesmo que o iluminismo de Voltaire e seus companheiros estivessem mundialmente disseminado, o sistema do capital recobriu o mundo com a sombra de uma nova barbárie. A sobreposição da economia-mundo capitalista sobre sociedades atrasadas não poderia se dar senão debaixo de violentos conflitos. Como disse Hobsbawm, para três quartos da humanidade, a Idade Média acabou nas décadas de 1950 ou 60. Até então, as grandes massas da Ásia, África e interior da América Latina viviam cercadas por um mundo já capitalista, organizado em torno do eixo atlântico ocidental cristão, mas protegiam seus modos de vida tradicionais da dissolução trazida pelo Deus dinheiro. Daquela época em diante, a proteção não foi mais suficiente, desfazendo-se a referência da comunidade local, da família, da autoridade religiosa não-fundamentalista, etc.

Toda essa transformação deu-se no intervalo de uma geração. Na impossibilidade de voltar àquele estágio (e não se julga aqui que isso seja o ideal, pois ali já vigoravam o patriarcalismo, o machismo, etc.), e de responder à modernização por meios democráticos e sob controle social, as massas buscam refúgio num passado idealizado. Recorreram a uma versão brutalizada da religião, como faz uma parcela de brasileiros que "aceitam Jesus" por meio de igrejas neopentecostais fundamentalistas, ou os caipiras estadunidenses que tentam "se proteger" de coisas como o que acontece em Brokeback Mountain votando em puritanos de araque como Bush. Contra a complexidade da vida moderna, nada como a simplicidade maniqueísta da religião.

Nada mais enganoso. As massas miseráveis dos países muçulmanos não estariam convulsionadas num frenesi de violência cega e bárbara se os mesmos países que insultam sua crença religiosa não estivessem também ao mesmo tempo sustentando o sistema sociometabólico do capital global que as condena à sua situação miserável.

 

 

 

 

A EDUCAÇÃO É DETERMINADA PELAS RELAÇÕES ECONÔMICAS

São vários os mecanismos de reprodução da ideologia burguesa, mas nesse momento propomos uma reflexão sobre a educação, entendida como um dos pilares da reprodução dos valores morais e de legitimação da exploração do capital sobre o trabalho.

Como pressuposto metodológico partimos da crítica radical do capital e das relações sociais que representam o sistema capitalista, sob as quais se assenta o sistema de produção e reprodução da ideologia burguesa. Essa crítica, portanto, se estende à totalidade da sociedade burguesa como o Estado, as formas ideológicas e o tipo de homem forjado nesse sistema.

Assim, como Marx, pensamos que é a produção e a reprodução da vida material que determina as relações, sobretudo as ideológicas, na sociedade capitalista. Vejamos:

"Minha investigação desembocou no seguinte resultado: relações jurídicas, tais como formas de Estado, não podem ser compreendidas nem a partir de si mesmas, nem a partir do chamado desenvolvimento geral do espírito humano, mas, pelo contrário, elas se enraízam nas relações materiais de vida, cuja totalidade (...) dessas relações de produção formam a estrutura econômica da sociedade, a base real sob a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência".

A educação, como elemento central na formação social, que o Estado capitalista disponibiliza para a sociedade é determinada e obedece às necessidades da produção do capital de forma que a ordem é exatamente aquela exposta por Marx: primeiro as necessidades da produção, depois as formas ideológicas e outras, como a jurídica.

Para fugir às falsas polêmicas, inclusive com setores de esquerda, buscamos o esclarecimento de Engels a respeito das já velhas incompreensões sobre a visão de Marx:

"Segundo a concepção materialista da história, o fator que, em última instancia, determina a história é a produção e a reprodução da vida material. Nem Marx nem eu afirmamos, uma vez sequer, algo mais do que isso. Se alguém o modifica, afirmando que o fato econômico é o único fato determinante, converte aquela tese em uma frase vazia, abstrata e absurda. A situação econômica é a base, mas os diferentes fatores da superestrutura que se levanta sobre ela - as formas políticas da luta de classes e seus resultados, as constituições que, uma vez vencida a batalha, a classe dominante redige etc, as formas jurídicas, e inclusive os reflexos de todas essas lutas reais no cérebro dos que nela participam, as teorias políticas, filosóficas, as idéias religiosas e o desenvolvimento ulterior que as leva converter-se num sistema de dogmas - também exercem sua influência sobre o curso das lutas históricas e, em muitos casos, determinam a sua forma, como fator determinante"

Compreender essa questão metodológica é importante para encontrarmos na realidade os elementos que formam a totalidade das relações do capital, que inventa e reinventa formas para sobreviver, como as novas tecnologias ou sistemas de produção (toyotismo, fordismo, etc) e as formas ideológicas (pensamento e discurso) a serviço da legitimação dessas novas formas  de produção.

 As idéias têm uma grande importância nos sistemas (capitalistas, feudais, etc) de dominação pela sua capacidade de abstrair os problemas reais que a sociedade enfrenta e fazer com que essa mesma sociedade seja reflexo e reprodução das idéias da classe dominante, moldando o pensar e o agir dos homens. A forma e a intensidade que os dominados reproduzem as idéias de seus dominadores nada mais são do que a expressão da falsa consciência de sua existência ao aceitar todas as condições impostas pela burguesia.

A forma de a classe dominante fazer com que as idéias da sociedade sejam as suas idéias chamamos de ideologia, que consiste em ser um conjunto de significados e valores de interesse dessa classe para legitimar o poder.

Há nessa mesma sociedade um sistema de produção de riquezas que tem na exploração do trabalho o seu alicerce e que provoca profundas contradições e diferenciações, ou seja, poucos com muito e muitos com quase nada. Forma-se, portanto, uma totalidade em que a ideologia está a serviço de esconder as relações econômicas da sociedade burguesa.

É sobre essa totalidade que orientamos esse texto, de forma que as reflexões aqui propostas levem em consideração o papel da educação tanto na reprodução das idéias da classe dominante como também na formação técnica-profissional que atenda às necessidades do capital. Entendemos ser importante ter em conta essa unidade porque, para além das aparências, os aspectos econômico e ideológico fazem parte do mesmo ato, em que este último está a serviço de encobrir a verdadeira relação da sociedade capitalista que é a exploração daqueles que precisam vender sua força de trabalho.

O que nos parece importante destacar nas relações que se estabelecem no sistema de ensino vigente é que nem educador e nem educando são sujeitos, mas objetos dos interesses de uma sociedade dividida em classes sociais.

A educação não está dissociada dos demais processos da produção que envolve trabalho e capital. A alienação - processo em que o trabalhador está separado de todas as decisões que envolvem seu trabalho - aparece no distanciamento dos trabalhadores (educadores e educandos) tanto das decisões do conteúdo programático quanto do produto do seu próprio trabalho (aprendizagem dos educandos) que são formados para atender as necessidades que o capital impôs através do Estado.

Mesmo que o educador possa manejar algum conteúdo das disciplinas, nas questões centrais é obrigado a seguir as determinações do Estado, que já decidiu aquilo que realmente é importante e decisivo para ser ensinado e aprendido.

Assim, um trabalho que na aparência é livre, na essência revela elementos muito mais complicadores, pois em última análise o educador é uma correia de transmissão dos interesses do Estado.

Essa introdução é importante porque há reflexo no caráter das lutas que os trabalhadores devem travar. Avaliamos que as lutas desenvolvidas e impulsionadas pelos trabalhadores da educação (muitos sob a direção da chamada esquerda revolucionária) têm esbarrado em um caráter meramente econômico desprezando por completo a luta ideológica e a formação de uma consciência anticapitalista. As lutas imediatas devem estar ligadas a um horizonte em que questionemos não só o baixo salário, mas o sistema como um todo. Pensamos que isso será possível a partir do momento que começarmos a impulsionar processos de discussão e de luta que envolvam o conjunto dos trabalhadores.

 

EDUCAÇÃO E NOVAS FORMAS DE PRODUÇÃO

A crise estrutural do capital coloca para a burguesia a necessidade de impulsionar o desenvolvimento de novas formas tecnológicas e/ou gerenciais que permitam reduzir os custos de produção e garantir condições de competir no mercado capitalista. A capacidade de produção em confronto com o mercado existente (base da crise estrutural) acirra a disputa entre diversos setores do capital, o que os obriga a entrar em um ciclo de busca por produtividade, ou seja, menos homens e mais máquinas. Essa é a base das principais modificações na produção burguesa nas últimas décadas.

Em termos mais teóricos podemos dizer que a educação adquire maior ou menor importância conforme o nível de desenvolvimento das forças produtivas de uma sociedade, de forma que ela se torna uma necessidade prática para o sistema.

No Brasil, a partir da década de 90, o modelo Toyotista passou a ser a base de organização da produção capitalista em que as novas tecnologias e as formas de gerenciamento alteraram significativamente todas as relações internas da produção no país.

A indústria passou por modificações estruturais que resultaram no desemprego estrutural (fechamento de postos de trabalho), na composição de uma classe trabalhadora numérica e num nível de consciência bastante distinto das décadas passadas. A força de trabalho (mercadoria inerente à condição de trabalhador) precisava ter novas qualificações para relacionar-se com as máquinas de uma maneira distinta daquela do modelo fordista. Se no fordismo a divisão do trabalho submetia o trabalhador a tarefas repetitivas, no toyotismo o papel do trabalhador é operar máquinas que cumprem tarefas antes destinadas ao próprio trabalhador.

Em uma produção onde a divisão de tarefas é mais rígida (por isso linha de montagem) em que vários trabalhadores participam da produção de um mesmo produto a exigência é que o trabalhador tenha uma formação física e intelectual que propicie a execução de cada tarefa que lhe foi destinada. Ferramenteiro fazia serviço de ferramenteiro, mecânico fazia o serviço de mecânico, assim por diante. Para isso o sistema de ensino foi estruturado de maneira a atender essa necessidade, com formação voltada para a especialização.

Sob o toyotismo (modelo de produção com um grau mais elevado de desenvolvimento tecnológico) a especialização e a divisão rígida de tarefas não ocupa papel de destaque dentro da produção. O mesmo trabalhador participa em diversas etapas da produção - em vários casos um mesmo trabalhador opera 5 máquinas na chamada ilha de produção - sendo-lhe imposto uma condição que alia a redução da quantidade de trabalhadores com o funcionamento de máquinas com alta tecnologia.

São essas formas e modelos de produção que o sistema de educação busca satisfazer.

A educação no sistema capitalista se estrutura conforme essas necessidades do capital ou como, os educadores burgueses se referem, às necessidades do mercado. Se o "mercado" precisa de engenheiros para impulsionar a indústria de infraestrutura as escolas e as universidades formam engenheiros.Se o "mercado" precisa de técnico as escolas formam técnicos. Se "o mercado" precisa de médico cirurgião-plástico as universidades formam médicos cirurgiões-plásticos. Mas se as pessoas precisam de médicos sanitaristas, as universidades não formam médicos sanitaristas, pois não há lucro. O lucro é a referência para o sistema educacional burguês.

A orientação para essas necessidades não é só para o ato de produzir, mas para a totalidade das relações que cercam o mundo da produção capitalista.

O setor de serviços, o consumo e a circulação das mercadorias também recebem tratamento na organização do sistema educacional. Isso podemos verificar com a introdução do ensino de conhecimentos básicos de informática que servem para as operações simples dos bancos, setores de serviço, etc.

Outra questão importante é que essa política é mundial. A criação da UNESCO e as ingerências de outros organismos, como o Banco Mundial, demonstram que as políticas nacionais para a educação foram gestadas nos centros de decisões do capital.

 

A UNIVERSIDADE FORMA PARA O CAPITAL

Na sociedade capitalista a acumulação de riqueza e o desenvolvimento da ciência crescem na mesma proporção da miséria e da alienação da classe trabalhadora. É perfeitamente possível estabelecer essa relação, uma vez que a produção do conhecimento, está voltada para os interesses das indústrias e da grande burguesia. O desenvolvimento de novas máquinas volta-se para o desemprego de milhares de trabalhadores, os grandes avanços no campo da genética estão voltados para o lucro dos monopólios do capital que atua na saúde e para o setor da sociedade que tem mais dinheiro.

A apropriação do conhecimento se coloca como uma questão determinante. Primeiro porque nenhum conhecimento é produto só do esforço individual, mas parte do acumulo da "história dos homens". Segundo porque está na exploração do trabalho a origem dos recursos para as pesquisas que são financiadas pelo Estado com "recurso público".

A universidade brasileira sempre atendeu com muito zelo as necessidades do mercado, tanto nas linhas de pesquisas, como na própria estruturação dos cursos que passam a ter investimentos, não de acordo com a vontade ou necessidade da sociedade, mas conforme as exigências desse mercado. Primeiro são desenvolvidas novas tecnologias (para aumentar o lucro e a produtividade) e depois que essas tecnologias são implementadas no mundo da produção a universidade vai formar os profissionais para atender essa demanda.

A quantidade de profissionais formados também é determinada por uma outra lei de mercado: da oferta e da procura. Isso explica o surgimento do grande número de universidades voltadas para essas tecnologias na década de 90.

Um exemplo atual e muito claro é a recente Universidade Federal do ABC que inicia suas atividades com todos os cursos voltados para as demandas das empresas de alta tecnologia, enquanto que as necessidades da população pobre da região, como médicos, sanitaristas, professores de filosofia, ambientalistas, etc, não mereceram qualquer atenção ou investimento. Essa comprovação de que mesmo as universidades públicas são voltadas para os interesses espúrios do capital deu-se pelo fato de que tanto os cursos quanto a grade curricular foram discutidas com os empresários da região que apontaram seus interesses. Os estudantes das escolas públicas e os trabalhadores em geral sequer foram consultados. Assim o interesse da classe dominante é imposto como se fosse interesse de toda a sociedade da região.

A ausência de um nível mínimo de consciência de classe tem impedido que os trabalhadores se coloquem enquanto classe nesse processo e passem, contra a burguesia, a orientar as pesquisas a nosso favor. Essa luta poderia dar-se de diversas formas, como tornar público o resultado das pesquisas, orientá-las para as necessidades da população (como o combate às doenças), se recusar a desenvolver pesquisas nocivas à humanidade (como as tecnologias voltadas para a guerra e para destruição do meio ambiente) e até medidas contra os interesses destrutivos do capital. Mas, a luta mais importante, sem dúvida, é a de buscar formas que permitam diminuir a distância entre o trabalho manual e intelectual de forma que não se confrontem. Usamos o termo diminuir por não acreditarmos que os pilares do capital, como essa separação, possam ser totalmente destruídos sem que o capital também o seja.

Assim, não estranhamos que a Reforma Universitária proposta pelo governo aprofunde o caráter elitista e burguês da universidade, pois o papel de um governo burguês é atender aos interesses de sua classe.

Mas essa constatação coloca desafios imensos para toda a classe que vende sua força de trabalho. A luta contra a Reforma Universitária deve ser também a luta contra a educação burguesa, com alguns elementos que ajudem a construir as bases de uma escola/universidade voltada para os interesses da sociedade e não do lucro.

 

A EDUCAÇÃO POR SI SÓ NÃO TRANSFORMA A SOCIEDADE

No período do Iluminismo, expressão teórica da burguesia, a educação era considerada um elemento fundamental para a transformação do homem e de sua visão de mundo e os educadores (por coincidência os filósofos da burguesia), como proprietários do saber, exerciam uma influência sobre os educandos, moldando-os de acordo com a concepção de mundo burguês. O homem era visto como um ser racional, determinado pelo meio e por outros homens. Somente uma parte da sociedade reconhecidamente poderia exercer esse papel.

Marx, na terceira tese sobre Feuerbach, opõe a esse modelo teórico um outro que tem na ação prática dos homens a força motriz para as transformações. E se o homem é influenciado pelo meio este também é produto da ação dos homens, ou seja, completamente o oposto da idéia de seres passivos como evidencia a concepção burguesa de educação. A tese esclarece:

"A doutrina materialista sobre a alteração das circunstâncias e da educação esquece que as circunstâncias são alteradas pelos homens e que o próprio educador deve ser educado. Ela deve, por isso, separar a sociedade em duas partes - uma das quais é colocada acima da sociedade. A coincidência da modificação das circunstâncias com a atividade humana ou alteração de si próprio só pode ser apreendida e compreendida racionalmente como práxis revolucionária".

Assim, a primeira conseqüência é que o homem vive em um constante processo de transformar e ser transformado, o que não permite que os homens estabeleçam relações hierárquicas entre si, sem que isso signifique alguma forma de exploração e opressão.

Esse destaque é importante porque é comum ouvirmos que basta ter cultura, acesso à educação e ter conhecimento para adquirir consciência. Essa afirmação é tão falsa quanto perigosa e não podemos deixar de refutá-la. Se fosse verdadeira em países como a Rússia (em 1917) e Cuba (em 1959) os trabalhadores, em sua maioria analfabeta, não teriam se colocado como sujeitos desses processos revolucionários. Por outro lado, países como os EUA, com altas taxas de alfabetizados, teriam trabalhadores conscientes e militantes pela revolução e não apoiariam seus governos em guerras sangrentas contra trabalhadores de outros países.

A questão central da mudança da sociedade está relacionada com a ação prática  e consciente (aqui entendidas como práxis, ou seja, ação consciente sobre a realidade) da classe trabalhadora contra as formas econômicas e filosóficas da classe dominante, processo que repele qualquer tipo de divisão entre aqueles que "educam" e aqueles "que são educados". Dessa forma a luta dos socialistas e suas organizações deve desenvolver ações decisivas para afastar da consciência dos trabalhadores que a transformação dessa sociedade pode ocorrer pelas idéias, que basta "educar" alguém, que este "educa" outro e chegará um momento em que as coisas mudarão sozinhas porque todos foram educados.

 

TRANSFORMAR A LUTA DE EDUCAÇÃO PARA TODOS EM ANTICAPITALISTA

A convicção de que a educação sozinha não muda o homem não pode nos levar a conclusão de que a educação e o acesso ao conhecimento não são importantes, pelo contrário, são fundamentais para os trabalhadores conhecerem e realizarem a crítica da sociedade burguesa.

Com a educação o trabalhador pode desenvolver suas aptidões intelectuais e assim se apropriar do conhecimento produzido e, com a consciência desenvolvida, utilizá-lo em benefício de sua classe. É por isso que defendemos e lutamos pelo acesso dos trabalhadores à escola/universidade. O processo revolucionário colocará tarefas que deverão e poderão ser realizadas somente se os trabalhadores tiverem conhecimentos técnicos suficientes.  Por exemplo, durante a Revolução Russa, a população se deparou com problemas relacionados à energia elétrica,  transporte, etc. O conhecimento científico dos trabalhadores foi fundamental. Assim observamos para quê e para quem está direcionado esse conhecimento.

Na luta da burguesia contra o feudalismo a educação pública e laica era um elemento fundamental porque significava tirar do clero e da nobreza o monopólio do saber de forma que permitia à burguesia formar seus próprios quadros para o desenvolvimento de novas relações de produção, que estavam em pleno desenvolvimento, e também para administrar os negócios. É evidente que essa formação não se limitava a atender só às questões da produção, mas sobretudo para reproduzir as idéias burguesas. No Brasil, no início do século passado, a luta pelo ensino público e gratuito também foi liderada pela burguesia liberal que lutava pelo seu controle, que era sobretudo confessional.

O acesso ao conhecimento e a necessidade do desenvolvimento intelectual dos trabalhadores colocam, para nós, a tarefa de lutarmos para garantir que o Estado promova uma educação pública, gratuita e de qualidade em todos os níveis e para todos os trabalhadores, extinguindo a diferenciação que existe entre as diversas escolas e regiões.

Essa luta não é fácil. O atual estágio e compromisso do Estado para com o capitalismo não permitem sequer realizar tarefas que outrora foram reivindicações da burguesia. Entre manter o mercado financeiro e a educação para todos, a escolha é clara. Essa contradição, produto do esgotamento do capitalismo em permitir o acesso a direitos básicos, é uma característica do capitalismo no século XXI, em que sequer as necessidades básicas não podem ser supridas por esse sistema podre.

Claro que não estamos falando que ninguém terá acesso, mas que há uma seleção, cada vez mais rigorosa, em que um setor tem acesso aos melhores cursos e faculdades e o setor mais amplo da sociedade recebe uma educação básica. Este é o espírito da Reforma Universitária com o PROUNI em que as faculdades privadas são as maiores beneficiárias, principalmente levando em conta que o volume de dinheiro gasto com esse programa dá para dobrar o número de vagas nas universidades federais. Assim mais uma vez o lucro decide o destino do dinheiro público.

A luta pelo acesso à educação deve estar ligada à luta mais geral dos trabalhadores porque não basta entrar na universidade e se tornar refém da ideologia burguesa, é necessário que nossas reivindicações respondam à totalidade dos problemas que a universidade burguesa coloca para os trabalhadores.

 

O PAPEL DOS REVOLUCIONÁRIOS NA UNIVERSIDADE

Temos claro que a luta decisiva contra o capital ocorrerá no campo das relações de produção, ou seja, do controle dos meios de produção, mas isso, de forma alguma, quer dizer que a luta dos socialistas revolucionários se restringe à luta pela mudança das relações econômicas. A nossa luta é contra a totalidade do sistema do capital em que a consciência ocupa um papel, que podemos até dizer, essencial. O desenvolvimento da consciência socialista dos trabalhadores vai permitir que o setor majoritário da classe (portanto, mais além de seus partidos) tome as rédeas dessa nova sociedade rompendo com todas as formas de alienação e diferenciação entre os membros da sociedade e seus órgãos. Portanto, pensamos que desde já é preciso que os revolucionários coloquem no centro de suas intervenções formas de impulsionar a consciência de classe dos trabalhadores.

Essa conclusão tem importância porque significa uma reorientação da intervenção dos revolucionários nos espaços que não estão diretamente ligados à produção e circulação de mercadorias, em que a luta, pelo seu próprio caráter, tem limitações importantes.

Por ser o único espaço de formação profissional, na universidade estão milhões de trabalhadores que ficam ano após ano submetidos às idéias da burguesia. É uma contradição porque se de um lado podem se apropriar do conhecimento, por outro se submetem aos métodos de reprodução da ideologia burguesa.

Feito essa ressalva, queremos fazer um debate com os trabalhadores (militantes ou não) que estão na universidade para constituirmos uma frente de intervenção sobre a consciência burguesa predominante nas escolas e universidades.

A escola e a universidade também são espaços onde o "tempo livre" da classe trabalhadora é apropriado pela ideologia burguesa. Se durante a sua jornada de trabalho o trabalhador já está submetido a uma brutal exploração, no período que está na escola esse "tempo livre" também é apropriado de forma indireta, ou seja, as idéias da burguesia vão ser repassadas como se fossem as idéias universais e representassem todas as classes da sociedade.

Isso ocorre porque a universidade não é imparcial ou neutra, mas um espaço pensado e articulado pela burguesia para funcionar de acordo com os seus interesses, desenvolvendo a idéia de que neste espaço as pessoas ou são educadores ou são educandos (estudantes) e os interesses de classe não têm importância.

A concepção burguesa parte da necessidade do trabalhador perder sua condição de classe e se identificar como um cidadão ou, em um termo mais comum nos meios acadêmicos, um estudante.

Nessa condição, não podemos pensar o mundo a partir de uma visão de classe, pois a universidade e a escola retiram nossa identidade e nesses espaços passamos a nos relacionar com a ciência e com o conhecimento como um conjunto de idéias abstratas sem qualquer vínculo com a realidade.

É evidente que o estudante não é uma classe social, mas isso não quer dizer que enquanto indivíduo não seja membro de uma classe. A questão é se, enquanto estudantes, assumimos ou não essa condição, ou seja, se nossas posições políticas são ou não a partir de nossa classe, contrapondo à ideologia burguesa as posições políticas da classe trabalhadora.

Nesse sentido, os revolucionários têm papel decisivo porque pode e deve impulsionar o desenvolvimento da consciência de classe nas universidades  e escolas. Isso quer dizer que ocorrerá com freqüência choques com a ideologia burguesa ou mesmo com setores da burguesia que também freqüentam esse ambiente.

Os revolucionários vão à universidade e à escola para desenvolverem suas potencialidades intelectuais, mas não podem se limitar a isso, o que significa aceitar passivamente a ação da ideologia burguesa. Na nossa opinião as idéias do marxismo devem estar presentes nas escolas e  universidades e atividades como formação teórica e política, campanhas de apoio às lutas no país e no mundo, a luta contra a propriedade privada, criação de mecanismos que permitam construir outras relações humanas e, principalmente, contribuir para impulsionar a consciência socialista entre esses jovens trabalhadores.

 

NEM PRATICISMO NEM ACADEMICISMO

O movimento estudantil, por um lado, tem se caracterizado pelo praticismo, com militantes dedicados, mas com pouca ou nenhuma preocupação com as questões teóricas, por outro, pelo chamado academicismo que criticando o praticismo cai no outro extremo, apenas de desenvolver atividades teóricas sem nenhum vínculo com a realidade.

Pensamos que nem um nem outro servem para reconstruir uma nova forma militante. Se precisamos ter no centro de nossas preocupações a compreensão do mundo e dos problemas que ele apresenta também precisamos atuar nessa realidade para modificá-la. Na décima primeira tese sobre Feuerbach Marx já alertava que "Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo". Longe de rechaçar a teoria, Marx, a vincula com a atuação sobre a realidade de maneira que possa transformá-la de forma que teoria e prática se relacionem e se transformem dialeticamente.

Compreender essa relação obrigaria esses setores a mudarem suas posturas de modo que do pensamento passem a ação e que a ação deixe de ser mera atividade por estar amparada em uma interpretação da realidade. A atividade teórica por si só não é suficiente para que os explorados se coloquem enquanto sujeitos da revolução, pois seria meramente contemplativa da realidade.

Assim, o nosso esforço é combinar a atividade teórica com a atividade prática, constituindo o que Sánchez Vasquez chama de práxis, o que permite romper com os limites que a burguesia tenta impor aos trabalhadores e possibilita levar para esses espaços as posições históricas da classe trabalhadora.

 

 

ELEMENTOS PROGRAMÁTICOS

 

1) FORMAÇÃO ESCOLAR DURANTE A JORNADA DE TRABALHO

Com o desemprego e as novas tecnologias muitas empresas "obrigaram" os trabalhadores a voltarem para as escolas e faculdades. O próprio governo, através do FAT, liberou bilhões para as centrais sindicais e sindicatos organizarem cursos de formação e aperfeiçoamento, essa renovação na formação dos trabalhadores é utilizada pela própria patronal. Assim, pensamos que deve ser incorporado nas pautas de reivindicações que a formação, em qualquer nível, exigida pelas empresas deve ser realizada no horário de trabalho ou que as horas que o trabalhador gasta com esses cursos sejam abatidas da jornada de trabalho. Essa reivindicação é importante porque as condições de trabalho despojam os trabalhadores de suas forças físicas e intelectuais.

 

2) ESCOLA PÚBLICA, GRATUITA E DE QUALIDADE PARA TODOS OS TRABALHADORES

Como já dissemos anteriormente o capitalismo não precisa de uma formação ampla da mão- de-obra, pois as novas tecnologias exigem um número bem menor de força de trabalho. Por isso a cada ano a escola pública está cada vez mais sucateada, o que faz com que os trabalhadores e seus filhos não tenham condições de concorrer às poucas vagas nas universidades públicas. Mesmo na concorrência por emprego milhões são alijados por não terem uma formação escolar.

 

3) VAGAS DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS PARA ALUNOS DAS PÚBLICAS

A luta pela escola pública com qualidade está ligada diretamente ao acesso à universidade pública. O que tem ocorrido é que na hora do acesso às universidades públicas as vagas são preenchidas por setores da burguesia e classe média, pois são estes setores sociais que cursaram as melhores escolas e que eram privadas.

Enquanto não se conquistar a universalização do ensino público em todos os níveis, será inevitável a disputa pelas vagas existentes. Nesse meio tempo, e para enfrentar a dinâmica de precarização das escolas públicas e as redes privadas de ensino, defendemos que todas as vagas das universidades públicas sejam destinadas aos alunos provenientes das escolas públicas.

 

4) COTAS PROPORCIONAIS AOS AFRODESCENDENTES

É um fato que no Brasil a educação tem se constituído em mais um mecanismo de racismo mal disfarçado. Há apenas 1% de negros estudando na USP, mas os funcionários negros dessa universidade são a maioria. O capitalismo utiliza e reproduz o racismo em todas as esferas da sociedade, pois isso permite pagar salários mais baixos e aumentar a exploração de metade da população brasileira com o argumento de que são inferiores ou não possuem a qualificação exigida.

Por outro lado, é preciso uma aliança entre os jovens brancos e negros na luta para que as vagas das universidades públicas sejam para alunos das escolas públicas. Assim, enquanto não houver a igualdade racial de fato, as vagas existentes e as que vierem a ser conquistadas nas Universidades Públicas e nas Escolas Técnicas devem ser divididas proporcionalmente de acordo com população afrodescendente de cada região. Essa é a única forma de unir os trabalhadores negros e brancos numa luta conjunta por mudanças efetivas na educação e na sociedade.

ELEMENTOS PARA UMA EDUCAÇÃO SOCIALISTA

1) Ruptura com a divisão social do trabalho em manual e intelectual. A sociedade capitalista tem em sua essência a divisão entre os homens que possuem os meios de produção (proprietários das fábricas, bancos, etc) e os homens que vendem sua força de trabalho (trabalhadores em geral). Essa relação também se expressa na divisão entre aqueles que pensam ou administram e aqueles que executam, de forma que a relação que os trabalhadores mantêm com o trabalho é alienada, ou seja, separada da totalidade do processo de trabalho em que a uns cabe a decisão do que produzir, como e para quê e a outros cabe o papel de cumprir o que já está decidido. A divisão do trabalho manual e intelectual está intimamente relacionada com o surgimento da propriedade privada, pois a partir dessa relação cria-se condição para a justificar a divisão da produção e apropriação, por exemplo.

Dessa forma a educação em uma nova sociedade deve atacar essa divisão, criando condições para que se construa novas relações entre os "produtores livres" e o produto de seu trabalho. A educação socialista ao superar essa divisão social do trabalho imposta pela burguesia também  cria bases para uma nova forma de relacionamento entre os homens que não seja aquela determinada pela ideologia burguesa.

 

2) Sendo o trabalho a atividade essencial do homem, um sistema educacional socialista deve ter como preocupação imediata a relação entre educação e o trabalho. Ao mesmo tempo em que a escola deve voltar sua atenção e forças para formar novos homens/mulheres para uma nova sociedade também deve ter como meta o desenvolvimento de novas técnicas que livrem o homem do trabalho excessivo e penoso para que possa se dedicar a atividades humanizantes, como a arte.

A formação humanista é essencial para que os produtores associados livres possam fazer com que suas idéias sejam as idéias dominantes na sociedade e para que desapareçam para sempre de nossas práticas e de nosso imaginário a exploração do homem pelo homem, a idéia de que um homem é superior ao outro e de que um homem em condições físicas favoráveis possa viver às custas do trabalho alheio.

Uma sociedade que, lembrando Trotsky, "livre a vida de todos os males para que possamos desfrutá-la plenamente".

 

 

 

NOTAS

 

Bancários: Breve histórico da categoria nos anos de 2004/2005

Em 2004 a categoria bancária - sem reajustes significativos durante o governo neoliberal dos tucanos, agravado pelo congelamento salarial dos bancários do setor privado durante 9 anos e diante da inércia e desilusão em relação ao governo petista em aprofundar ainda mais as políticas neoliberais, agora implementadas pelos "petistas cor-de-rosa" - decidiu deflagrar greve.

O curioso, naquele ano, foi as diretorias sindicais ligadas à CNB-CUT, fazerem de tudo para que a greve não lograsse. A direção sindical indicou um índice de 11,5% de reajuste salarial com a aprovação dos banqueiros (contra as reivindicações de 18% da FES e 32% do MNOB) e ao mesmo tempo enalteceu as conquistas do "governo democrático e popular", que permitiam que os trabalhadores fizessem greve, como se isso dependesse de autorização governamental.

Os trabalhadores-bancários deixaram para trás os dirigentes sindicais e conduziram a greve do início ao fim, apesar do sindicato. Embora a CUT tivesse prometido uma série de suportes para que o movimento criasse força, sumiu. O máximo que a CUT fez, foi enviar um caminhão de som para promover passeatas pela cidade. O resto foi uma omissão criminosa. Chegou a faltar até adesivos para campanha.

Diante disso, a cúpula da CUT e seus sindicatos coligados ficaram extremamente "queimados" perante aos trabalhadores, estremecendo, desta forma, o poder dos feudos petistas sobre o aparato sindical e já começando a organização de oposições às atuais diretorias e principalmente contra o governo.

Diante da mobilização arrasadora dos trabalhadores e da pecha de governistas que ficou para as direções sindicais esses burocratas precisavam criar um mecanismo que impedisse outra rebelião além de evitar perder os aparatos para as oposições nos pleitos dos maiores sindicatos do país, notadamente São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre.

O mecanismo escolhido pela direção governista foi impedir que as oposições, já organizadas, participassem dos encontros e congressos nos níveis estadual e nacional - momentos em que se construiriam as diretrizes da campanha salarial de 2005 - através de manobras em assembléias, disponibilização de transporte para os aposentados (utilizados como massa de manobra), além de convocar dirigentes sindicais de todos os cantos.

Para evitar que perdessem os aparatos sindicais os burocratas usaram e abusaram da estrutura sindical, de todas as suas formas, para promover a chapa governista. Aqui em São Paulo, onde está o maior sindicato da América Latina, não foi diferente. Utilizaram a fraude para tentar manter a "boquinha", que foi denunciada na justiça e provocou a suspensão temporária do pleito. Apesar de todas as manobras a Chapa da Oposição obteve 36% dos votos, deixando claro o desejo de mudança da categoria e de retomar o sindicato para si.

Castrada a participação das oposições na construção das estratégias de campanha da categoria e no aparato sindical, ficou pronto o palco para a encenação das direções sindicais posarem de combativas. Empurram goela a baixo o rebaixado índice de 11,5% de reajuste para pleitearmos perante os banqueiros e o governo, que agradeceram. Ambos fizeram ceninhas de brigas que não passaram de teatrinho. Mal sabia a categoria que tanto os sindicatos quanto os patrões (entre eles o governo) já haviam fechado um acordo de 6% de reajuste, com a chancela da direção sindical pelega da CUT e cia.

Hoje a nossa categoria além de enfrentar os patrões tem que enfrentar as direções sindicais que, em princípio, deveriam estar a nosso favor. É exatamente por isso que a categoria sente a necessidade de construir uma alternativa que não passe pela burocracia sindical. Já existe uma discussão sobre a criação de uma associação dos bancários, mas esse projeto só dará certo se os trabalhadores-bancários forem personagens atuantes para conduzir a sua própria luta e unidade com outros explorados.

 

E OS PATRÕES...

Os patrões, e em especial os banqueiros, estão rindo a toa e agradecendo à política econômica do governo Lula. No mês de fevereiro foram divulgados os balanços das maiores empresas que atuam no país. Só a Petrobrás lucrou de mais de R$ 23 bilhões. Nessa esteira está os bancos que, sem causar surpresa para aqueles que acompanham os movimentos do capital mundial, registrou os maiores lucros de toda a história.

As (maiores do mundo) taxas de juros cobrados nos empréstimos e financiamentos, as taxas de serviços bancários (cobradas principalmente dos pequenos poupadores, que são trabalhadores), a redução de funcionários (em 85 eram 800 mil, hoje não passam de 400 mil)  formam o tripé de tanto lucro. Veja o lucro dos maiores bancos, em bilhões: Bradesco: R$ 5,514; Itaú: R$ 5,251; Banco do Brasil: R$ 4,154; Caixa Econômica Federal: R$ 2,07; Unibanco: R$ 1,838; Banespa Santander: R$ 1,643.

Ainda que não seja o tema desse artigo é importante ressaltar que não é só no setor financeiro que os lucros aumentaram. Todos os ramos da economia nacional tiveram lucros exorbitantes, sempre apoiados pelos sucessivos "incentivos" do governo Lula. Não somos daqueles que vêem uma separação mecanicista entre capital produtivo e capital especulativo, pois é da exploração do trabalho (e do domínio dos meios de produção) que os capitalistas se apropriam da riqueza. Seja capital especulativo ou "produtivo" (em qualquer forma) são inimigos dos trabalhadores.

 

 

 

Política no futebol?

Futebol e política não estão separados. Em um torneio com a dimensão da Copa do Mundo de Futebol muito menos. A melhor equipe sempre vence? Acredite se quiser... Em 1990, antes de completar o primeiro aniversário da queda do muro de Berlim, a Alemanha foi a campeã.  Era necessário criar um sentimento de unidade nacional.

Em 1994 a França sequer se classificou para a disputa. Em 1998 sediou a copa sagrou-se campeã batendo o Brasil por 3 a 0. Em 2002 foi eliminada da primeira fase sem marcar sequer um gol. Mera coincidência?

Neste ano o imperialismo, leia-se EUA, pressionou os dirigentes da copa, que se realizará na Alemanha, para que excluíssem o Irã, como retaliação por possuir um programa nuclear básico e não se submeter aos interesses ianques. A primeira ministra Ângela Merkel bateu o martelo e se recusou a atender às pressões políticas - a seleção iraniana terá sua participação garantida.

Durante a ditadura militar a esquerda festiva bradava: a seleção brasileira de futebol sofria ingerência dos militares e servia de instrumento de alienação das massas. Nunca, porém, houve uma utilização política tão descarada da seleção como no governo Lula. Logo que as tropas imperialistas do Brasil começaram sua ocupação no Haiti foi marcado um amistoso da seleção brasileira contra o time nacional daquele país. O jogo agendado às pressas, estava fora do calendário anual da seleção e foi desconsiderado pela FIFA. A partida aconteceu na capital Porto Príncipe a 18 de agosto de 2004 e foi vencida pela seleção canarinho por 6 a 0. Depois disso, ao invés de bola, os soldados brasileiros jogaram bala na indefesa população haitiana.

O Brasil é conhecido como detentor do melhor futebol do mundo. Possui inúmeros jogadores com origem na parcela mais explorada e oprimido do país - os negros. Vítimas de um passado escravocrata, excluídos da escola, do trabalho, condenados a morar nos bolsões de pobreza. Discriminados socialmente, encontram na arte da bola uma genuína manifestação de inteligência e beleza. São reféns dos cartolas que controlam o esporte em benefício do capitalismo.

A imprensa burguesa colaborando com essa situação e ciente de que a emissão de uma opinião política, por parte dos jogadores, poderia se multiplicar entre as massas de torcedores, criou uma imagem de indivíduos-jogadores alienados e ignorantes. Os amantes do futebol se espelham em seus ídolos.

Como parte disso, justamente em ano de copa do mundo, o conglomerado financeiro Santander-Banespa promove uma campanha com os Ronaldinho Fenômeno e Gaúcho, Robinho, Cafu, Roberto Carlos e Kaká. Visa estabelecer uma relação de empatia com o banco, ou seja, utiliza a imagem de jogadores brasileiros (quase todos negros) para atrair mais clientes e aumentar ainda mais seu lucro.

Compete à vanguarda esclarecer que a utilização da imagem de nossos jogadores não deve estar a serviço de interesses econômicos estrangeiros e à exploração da economia popular. Ao combate pela anulação da privatização da Companhia Vale do Rio Doce, devemos acrescentar a luta pela reestatização do Banespa, sob controle dos trabalhadores e sem nenhum centavo de indenização ao grupo espanhol.

 

 

 

POESIA

 

A Bomba - Carlos Drummond de Andrade

 

A Bomba

é uma flor de pânico apavorando os floricultores

A Bomba

é o produto quintessente de um laboratório falido

A Bomba

é miséria confederando milhões de misérias

(...) A Bomba

amanhã promete ser melhorzinha mas esquece (...)

(...) A Bomba

mente e sorri sem dente (...)

(...) A Bomba

vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados (...)

(...) A Bomba

furtou e corrompeu elementos da natureza e mais furtara e corrompera

(...) A Bomba

envenena as crianças antes que comecem a nascer (...)

A Bomba

continua a envenena-las no curso da vida

(...) A Bomba

arrota impostura e prosopopéia política (...)

(...) A Bomba

é podre (...)

(...) A Bomba

pediu ao Diabo que a batizasse  e a Deus que lhe validasse o    batismo

A Bomba

Declara-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade

(...) A Bomba

não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer (...)

A bomba

É o câncer

(...) A Bomba

está abusando da glória de ser bomba (...)

A Bomba

com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve

A Bomba

não destruirá a vida

O homem

(tenho esperança) liquidará a bomba.