Espaço Socialista
Publicação
Marxista Revolucionária de Debates.
Ano V
– Nº 15– Setembro 2005.
ÍNDICE
1. A
Crise Política é Falta de Ética? Qual é a Ética do Congresso Nacional?
2. Para Enfrentar a Crise e o Capitalismo: Unidade da
Esquerda Socialista
3. Reparações sem demagogia e sem
hipocrisia!
4. A ausência de cor na luta de
classes!
A Crise Política é Falta de Ética? Qual é a Ética do
Congresso Nacional?
Partimos do pressuposto de que
nossa sociedade está dividida em classes que se enfrentam cotidianamente e que
o discurso imparcial anda de mãos dadas com a mentira. Essa delimitação é
necessária para pensarmos o atual cenário político brasileiro e refutar os
desvios em torno da “moralidade”, “ética” e “transparência” que impedem de
atacar o problema, fixando o debate apenas em torno da idéia de corrupção, como
se fosse possível um governo preso à lógica do capital ser “honesto” frente a
todas as classes em luta e como se a corrupção, para seus adeptos, fosse um fim
em si mesma e não o resultado de um conjunto de relações sociais próprias do
capitalismo.
A Formação do Capitalismo e o Estado
Durante todo o
período de acumulação de riquezas que tornou possível a revolução industrial e
a ascensão do capitalismo como forma de produção dominante, bem como a própria
construção do estado e suas instituições, não nos resta a menor ilusão quanto a
sua honestidade.
Os fatos não
deixam a menor dúvida quanto ao modo de ser do estado capitalista. Desde a expulsão dos camponeses ingleses e a leis
contra a vadiagem que enforcava qualquer pessoa encontrada nas cidades sem
trabalho, o lucro extraído dos braços negros e das riquezas da África, o
extermínio dos povos indígenas de todo o continente americano, a escravidão e a
pilhagem de toda a América Latina que ainda segue até o trabalho escravo nos
campos nazistas explorados por empresas como a SIEMENS.
Nesse período de construção
histórica do capitalismo e de ascensão da burguesia como classe dominante foi
necessário consolidar seu poder político em um estado com instituições e ter
como única tarefa manutenção de seu domínio de classe. O parlamento burguês
(congresso nacional, assembléia legislativas, câmaras de vereadores) para a
infelicidade dos românticos e o escárnio dos cínicos não tem como ser outra
coisa senão um balcão de negócios. É nesse balcão que a burguesia disputa entre
si seus interesses, cabendo ao executivo colocar em prática as decisões e ao
judiciário impor e julgar os limites da disputa, bem como manter a segurança da
ordem contra qualquer atentado ao santo sacramento da propriedade.
A corrupção se manifesta na
própria estrutura funcional do estado. A burguesia por ser a menor parte da
sociedade necessita de um instrumento construído à sua imagem e semelhança e
que ao mesmo tempo impeça as demais classes sociais de defender seus mais
elementares interesses. É impossível manter o controle do estado, dentro de uma
sociedade com interesses tão conflitantes sem corromper as demais classes e impedi-las de ter representantes
legítimos e controlados por seus representados. Dessa contradição nasce a
imprescindível necessidade da luta ideológica.
A burguesia precisa convencer todos de que existe uma sociedade
civil em que somos igualmente cidadãos e que temos os mesmos direitos e
deveres. Isso significa que qualquer morador desempregado da periferia de São
Paulo ou do agreste nordestino é tão capaz de direitos e deveres quanto o
empresário Antônio Ermírio de Morais. Pode até parecer bonito de dizer, mas é
preciso uma alta dose de ingenuidade ou de distância da realidade para
acreditar.
A existência da burguesia
enquanto classe dominante necessita tanto de preservar a propriedade privada
quanto da idéia de que o que é bom para a burguesia é bom para toda a
sociedade. O desemprego e arrocho salarial para os trabalhadores é a
modernização nas relações produtivas para a burguesia e seu estado. O que para
os trabalhadores é greve, ocupação de rua e resistência para a polícia,
enquanto instrumento de dominação, é perturbação da ordem e bagunça. E lá vem o
“imparcial” tribunal do trabalho julgar a legalidade do movimento.
Cada passo aceito e que se
prenda à estrutura do parlamento burguês significa abandonar a ética e a moral
como valor universal. Desde o processo eleitoral que limita os possíveis
candidatos, de acordo com a capacidade de gastos em campanha e as propostas
dentro da legalidade, até o exercício efetivo do mandato que distancia o eleito
(quando oriundo da classe trabalhadora) de sua base. O parlamentar usufrui
status semelhante à forma de ver e viver do modo de vida burguês.
As instituições do estado atual
constituem uma gigantesca máquina de formar burocratas muito mais preocupados
em garantir sua manutenção de vida do que em impulsionar as reivindicações de
sua classe de origem. Essa lógica de funcionamento explica as adaptações de
militantes formados em conjunturas de luta e que com o passar do tempo,
desempenhando mandatos parlamentares, acabam por defender propostas que nada
tem a ver com sua trajetória.
O pior é que não pára por aí,
muitos parlamentares trabalhadores eleitos em processos de luta, ao viver uma
conjuntura desfavorável, acabaram introduzindo dentro do movimento social e de
seus sindicatos a necessidade de garantir o mandato a qualquer custo. Toda e
qualquer atividade de seus militantes passa a girar em torno dos gabinetes. O
que era meio virou fim.
A
Saída da Burguesia Para a Crise
Retirando da crise seus dilemas
éticos e morais o que assistimos hoje é a disputa entre frações de
representantes diretos da burguesia com um setor da burocracia brasileira
(sindical, estatal, partidária) articulados em torno do PT pela hegemonia no
balcão de negócios e de todos os privilégios que possam ter aqueles que têm a
chave do cofre. Esses setores da burguesia vêem no desgaste do governo Lula a
possibilidade de assumir, nas próximas eleições, o controle direto da máquina
estatal.
Dentro dessa análise,
solucionar a crise, para a burguesia e seus órgãos de imprensa, significa
escolher o representante mais capaz para segurar as chaves do cofre do estado e
seguir pagando os juros da dívida interna e externa, manter as elevadas taxas
de lucros obtidas pelos bancos e promover o ciclo de reformas principalmente a
sindical e trabalhista, além de continuar impondo à parte do país que trabalha
os interesses do capital.
A burguesia aproveita esse
momento de disputa entre seus representantes para obrigar a discussão do eixo
principal da reforma política: a redução do número de partidos e o
financiamento estatal das campanhas de seus candidatos.
Em uma sociedade dividida em
classes tendo o estado construído a imagem e semelhança de uma delas e portanto
beneficiando-a, nada melhor, para quem tem o estado, como instrumento, impor às
demais classes uma legislação eleitoral que coloque fora da lei qualquer
partido “rebelde”, além do financiamento das campanhas eleitorais de seus
representantes através do financiamento estatal. O objetivo da burguesia é
“socializar” com todas as demais classes o custo de seus representantes arcado
hoje pelas doações de campanha.
Não se discute as fraudes pois
isso significaria rediscutir, por exemplo, a reforma previdenciária que foi
aprovada com a ajuda do chamado mensalão.
A reforma política não é
nenhuma garantia de transparência. Basta ver o exemplo da Itália que há muito
tempo conta com o financiamento público das campanhas e que mesmo assim se vê
volta e meia envolvida em escândalo com as diversas máfias.
Para nós trabalhadores a atual
crise política não passa de um sintoma da própria lógica de reprodução do
capital que não se envergonha em subornar parlamentares toda vez que necessita
aprovar projetos e leis que atacam frontalmente os interesses das demais
classes. Portanto, a crise atual não é a primeira nem será a última e qualquer
iniciativa de solução significa mudanças estruturais que vão além dos limites
da discussão sobre ética e moral na política.
Qual
a Saída?
São nas propostas de saída para
a crise que devemos levar em conta as lições amargas da adaptação do PT, da CUT
e de grande parcela da esquerda à
incorporação ao aparato de estado.
Assim, não podemos apresentar
saídas que novamente levem a ilusões de que reformas do governo e do parlamento
burguês ou antecipação de novas eleições possam resolver ou amenizar os
problemas de corrupção e de ataques aos trabalhadores.
Não concordamos com a proposta
do PSOL e outros setores da esquerda do PT que defendem a pressão sobre o
Congresso para a aprovação de um
Plebiscito Revogatório sobre a saída ou não de Lula e a antecipação das eleições
gerais por três motivos:
- Deixa nas mãos do Congresso Corrupto a decisão final;
- Leva os ativistas e a esquerda socialista a legitimar e
respaldar um Plebiscito em que a burguesia e o governo têm o controle da mídia
e do poder econômico para fazer propaganda massiva pela saída que melhor lhe convier.
- Caso sejam antecipadas, as novas eleições não resolvem
nada, pois os candidatos da burguesia têm muito mais chances de se eleger do
que os candidatos dos trabalhadores. Além disso, as eleições não mexem no poder
econômico que continua concentrado nas mãos dos empresários.
Basta ver o resultado dos
recentes processos de rebelião na Argentina,
Bolívia e Equador onde os trabalhadores chegaram a derrubar vários
governos, mas a burguesia conseguiu retomar o controle da situação com a arma
“democrática” das eleições burguesas e novamente foram eleitos os seus
representantes e o poder continuou em suas mãos.
Já a Proposta do PSTU que apresenta,
embora corretamente, o Fora Todos não vai a fundo nas propostas de mudanças
estruturais que um poder dos trabalhadores teria que implementar. Fica a
impressão que a solução passa apenas por uma mudança na superestrutura do
estado, quando a questão é bem mais profunda: qual classe social deve ter o
poder na sociedade, a burguesia ou os trabalhadores? Quais os pressupostos
mínimos de funcionamento desse novo poder, a partir da base, que dificultem sua
burocratização e corrupção? Como começar a construir esse poder, mesmo que
embrionário, a partir de agora, com o conjunto da classe nas lutas e
organizações que estão surgindo. Não
podemos acreditar que com a chegada do PSTU ao poder, dentro dessas mesmas condições, nossa situação se resolverá.
Para nós do Espaço Socialista a
saída para a crise, do ponto de vista da classe trabalhadora, só pode ser
encontrada através de mobilizações
massivas que imponham o Fora Lula e o Congresso Corrupto e quebre a ordem
burguesa colocando em seu lugar um Poder e um Governo dos Trabalhadores.
Um poder dos trabalhadores
teria que modificar todas as formas de relação entre os representantes e
representados, de forma que os representantes sofram as mesmas pressões e
influências econômicas e sociais que os trabalhadores sofrem; que seus mandatos
sejam rotativos e revogáveis a qualquer tempo como os trabalhadores têm seus
empregos, que recebam o salário de um trabalhador médio, se aposentem e tenham
aumentos pelas mesmas regras dos demais trabalhadores. E que só possam votar
nas eleições os que não vivem da exploração do trabalho alheio, etc.
Outro aspecto da luta dos
trabalhadores diz respeito às questões econômicas e sociais que devem fazer
parte das lutas como um Programa a ser imposto por esse novo poder: Romper com
a pagamento dos juros da dívida externa e interna e aplicar esse dinheiro (mais
de 100 bilhões de reais/ano) na melhoria e expansão dos serviços públicos como
saúde, educação, lazer; Promover uma redução da jornada de trabalho pelo menos
para 36 horas semanais, combatendo o desemprego. Obrigar todas as empresas a
registrar seus funcionários. Expropriar as empresas devedoras e as que não
cumprirem essas leis. Realizar uma Reforma Agrária de fato, acabando com o
latifúndio. Reverter as privatizações e colocar todas as estatais sob o
controle dos trabalhadores dessas empresas e em geral.
Essas são mudanças que estão
longe de ser atingidas com a reforma política proposta, pois desmascaram o
próprio caráter de classe do estado e portanto seu próprio modo de ser. Esses
passos significam a formação de nossas próprias formas de poder, sua formação
opõe-se frontalmente ao modo de ser do mundo atual e não uma conciliação com a
sua ordem de funcionamento. Mudanças dessa natureza necessitam ser
impulsionadas por um ciclo de mobilizações das classes trabalhadoras a mesma
que até o momento está amarrada pelas burocracias oficiais e a mídia burguesa.
É dever da esquerda socialista,
que ainda usa esse título, dar passos concretos no sentido de impulsionar as
manifestações e a construção das formas, mesmo que embrionárias, de organização
e poder da classe trabalhadora.
É preciso reconstruir tudo e de
um outro jeito, revolucionando a relação entre representantes e representados
também dentro da esquerda nos sindicatos, associações, D.A’s, DCE’s, Grêmios e
nos Partidos e agrupamentos para evitar
a repetição dos mesmos problemas no presente ou no futuro...
PARA ENFRENTAR A CRISE E O
CAPITALISMO: UNIDADE DA ESQUERDA SOCIALISTA
A maior contradição na crise política atual é a ausência de mobilizações massivas da classe trabalhadora e dos explorados, capazes de apontar saídas reais para os problemas que se colocam. Por que isso não está ocorrendo, quando estamos diante de um gigantesco esquema de corrupção e de ataques?
Sem simplificar o problema, podemos partir de duas causas principais: Por um lado, o fator objetivo com a relativa estabilidade e crescimento, ainda que pequeno, da economia que evitou situações explosivas como na Argentina e Bolívia. Por outro, o fator subjetivo com a falta de um referencial unitário dos trabalhadores, o qual depende e muito da política e da ação das correntes.
A desilusão da classe trabalhadora com o PT atinge seu ponto mais alto e nada mais pode reverter esse quadro. A ética na política, que já vinha sendo desgastada, foi desfigurada e não poderá mais ser reconstruída. A partir de agora, as conseqüências para bem ou para mal irão se avolumar rapidamente. Ou a esquerda socialista se apresenta como alternativa viável aos que vendem sua força de trabalho ou a direita vai se fortalecer seja pela via do ceticismo ou pelas falsas alternativas como PSDB/PFL.
À primeira vista a questão parece simples: construir novos referenciais orgânicos sindicais e políticos – nesse sentido já há alguns como o PSTU, o PSOL, a Conlutas e mais recentemente a Assembléia Popular. Ao nosso ver são passos muito importantes na tentativa de criar novos referenciais que sirvam, ao menos, para preservar uma camada de ativistas e militantes que se formou nos últimos anos e décadas, no sentido de impedir a dispersão total.
No entanto, é preciso também apontar seus limites a
fim de contribuir com a discussão sobre os rumos da esquerda no próximo
período, que será necessariamente de recomposição, reorganização e retomada dos
caminhos tradicionais abandonados por anos de adaptação, mas também de busca de
novos caminhos, pois a realidade se modificou.
O
primeiro problema é que nenhuma dessas iniciativas possui, sozinha, uma força
capaz de impactar e alterar a consciência e a ação de setores da classe. Todas
são ainda muito fracas e minoritárias em relação à crise de alternativas e à
confusão que reinam.
Portanto
seria natural que realizássemos todos os esforços para construir a unidade de
todos esses setores na luta por uma saída dos trabalhadores para a crise,
contra as Reformas Sindical e Trabalhista, o Pagamento dos Juros da Divida Externa
e Interna, pela Reforma Agrária, enfim, pelos pontos que todos esses setores
defendem nos seus materiais.
Porém
o que predomina é o contrário. É o caso do conflito entre as propostas da Conlutas
(impulsionada pelo PSTU) e da Assembléia Popular (chamada por setores da
esquerda do PT, pelo PSOL e outros grupos). Até agora o que vimos de cada um
desses setores políticos foi a tentativa isolada de construção de “seus
projetos”, sem a preocupação efetiva com a unidade da vanguarda e da classe
trabalhadora para lutar e dar uma saída própria à crise política ou para se
opor e barrar os planos e reformas que já estão colocadas para o próximo
período como a Reforma Sindical e Trabalhista.
Por um lado, setores da esquerda da CUT e do PSOL têm se recusado a romper com a CUT quando esta central já passou a conciliar com o governo e claramente cumpre o papel de frear os possíveis movimentos, alegando que os trabalhadores ainda não entendem essa discussão. Porém, tampouco têm feito essa discussão com a classe, continuando presos à estrutura sindical da CUT e à sua lógica.
Precisamos impulsionar a discussão com a classe trabalhadora de que a CUT não serve mais e que precisamos construir uma outra referência de luta sindical e política. Não podemos mais continuar reféns e ainda contribuindo financeiramente através dos sindicatos que a Esquerda da CUT dirige. Esta central pelega aplica as políticas de reforma trabalhista e sindical, apóia o governo e desmobiliza os trabalhadores, o que atrasa a construção de uma referência nova para as lutas dos trabalhadores.
Já o PSTU teve a importante iniciativa de propor a fundação de uma Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas) contra os ataques da patronal e do governo, particularmente na luta contra as reformas Sindical e Trabalhista. Surge também aqui a possibilidade de darmos grandes passos rumo às lutas e à reorganização independentes da classe.
No entanto, o potencial dessa iniciativa pode se perder ou ficar muito restrito se a construção e a atuação da Conlutas estiverem subordinadas às necessidades e diretrizes de construção do PSTU ao invés de expressar as necessidades da classe trabalhadora e de suas lutas. Corre o risco de tornar-se uma Central isolada e minoritária, sem qualquer potencial massivo de aglutinação da classe.
Outro ponto que demonstra uma grande falta de sensibilidade do PSTU à questão da unidade da classe é a negativa expressa de se envolver na organização e realização da Assembléia Nacional Popular e da Esquerda que terá como pauta a discussão das raízes da crise política e uma saída a partir das necessidades dos trabalhadores.
Ao invés de participar e dar uma batalha legítima para que os setores que ainda não romperam com a CUT o façam, o PSTU impõe a sua pré-condição para a unidade que é ... a entrada na Conlutas. Pré-condição esta que não deve existir para a organização de uma luta conjunta em defesa da unidade da classe contra os ataques do capital.
Ao nosso ver, a construção da Conlutas e da Assembléia Popular devem ser complementares e não opostas. Neste momento a Assembléia Popular possui um caráter mais unitário, apesar de mais limitado no tempo e nas tarefas. Sua principal função é de apontar uma resposta para a crise e um calendário unificado de lutas que possam colocar em ação a classe trabalhadora e os explorados.
A principal
contradição da Assembléia Popular está expressa em seu nome pois ainda não é a
expressão organizada e generalizada de um processo de base, como a Assembléia
Popular da Bolívia, por exemplo. Resume-se a uma Frente de Esquerda de uma
parcela da vanguarda militante. Assim a luta para que essa Assembléia seja de
fato popular deve ser permanente mesmo contra a vontade de algumas correntes. A
ausência do trabalho de base marcou a adaptação do PT e dos vários partidos e correntes ao sistema
representativo sindical e eleitoral e permanece resistindo em vários
setores.
Para nós do Espaço Socialista, o Encontro Nacional da Assembléia Popular deve realmente expressar as discussões ocorridas em sindicatos, bairros, escolas, faculdades, etc, de modo que os militantes e as correntes tenham retomado o dialogo direto com classe.
O Encontro Nacional da Assembléia Popular pode ser um marco unificador no sentido de juntar os setores da esquerda socialista para traçar linhas de discussão e ação conjunta. Além disso, se as correntes assumirem o compromisso de atuação e organização de base, esse marco orgânico poderá, com o desenvolvimento das lutas, crescer e se colocar como uma via de fato à crise de alternativa.
A construção da Conlutas pode ocorrer paralelamente a esse processo como uma alternativa sindical de aglutinação de sindicatos e movimentos populares mais permanente e mais orgânica, como de fato já o é. A partir daí, podem até evoluir e desaguar num projeto unificado ou não. Mas estará garantido o mínimo de unidade na prática e um marco unitário comum de discussão programática entre as correntes e de aglutinação de ativistas.
Ao se manter a negativa do PSTU de se somar à realização do Encontro Nacional da Assembléia Popular, perderemos muito em termos de uma unificação da classe e da vanguarda e se demonstrará que este partido está de fato muito aquém dos desafios, colocando sua construção bem acima das necessidades do movimento.
Defendemos que esta Assembléia seja realmente um marco de ampla e democrática discussão, que aprove um programa mínimo de saída para a crise a partir da perspectiva de classe e um calendário de mobilizações unitárias que sejam referência para a luta dos trabalhadores de conjunto.
Crise traz questionamento: Construir Um Novo
Projeto ou apenas juntar os cacos do velho?
A crise que estamos presenciando não é apenas uma crise política ou da ética na política, mas acima de tudo, expõe os mecanismos de funcionamento do parlamento de muitos anos atrás, hoje dentro de uma situação de crise estrutural do capital, em que as taxas de lucro e de crescimento econômico experimentam um lento crescimento, os mercados são duramente disputados e também se acirra a disputa pelo controle do dinheiro (mais-valia) que é apropriado e repassado pelo estado.
Assim, o que estamos assistindo é a disputa (mal disfarçada) entre diversos setores da burguesia e da burocracia de estado pelo controle do dinheiro público e pelo controle da máquina do estado, com o objetivo de usá-la em benefício do seu setor social.
Mas assim como a crise atual não é apenas uma crise política, a resposta da esquerda não pode ser também uma resposta limitada à esfera política, embora tenha nela o seu início.
Isso porque os problemas que os trabalhadores e estudantes enfrentam não podem ser resolvidos apenas com a mudança de um governo ou mesmo de deputados. É preciso uma mudança radical de toda a esfera de estado, uma verdadeira revolução política no sentido de que seja a classe trabalhadora a ter o poder político e ditar as leis e as diretrizes gerais do dinheiro público.
Mas também é preciso ir além e enfrentar a questão
do desemprego, dos baixos salários e da Reforma Agrária, o que exige mudanças
nas relações de propriedade e controle da própria sociedade. Ou seja, estamos
aqui dizendo que a saída para a crise atual só pode ocorrer pela via da ação
direta da classe trabalhadora e dos explorados em geral. A revolução política
deve ter como dizia Marx, uma alma social, avançando num sentido anticapitalista
e socialista.
É
preciso analisar as razões do esgotamento e falência do Projeto PT/CUT.
A falência total do PT e da CUT é a falência do projeto que propunha chegar ao comando do estado capitalista para com isso implementar um conjunto de reformas de caráter popular e trabalhista, sem romper com o capital.
A comprovação trágica dessa impossibilidade se inscreve na atual etapa de crise estrutural do capital, marcada pela dominância do capital financeiro sobre o capital produtivo, crescimento do desemprego estrutural e do endividamento do estado. Essa nova etapa – iniciada por volta dos anos 70 - implica numa inversão em relação às tendências do Pós-Guerra, período em que foi possível ao sistema conceder conquistas sociais aos movimentos e ao mesmo tempo se nutrir dessas conquistas, transformando-as em expansão de mercados e contenção e acomodação dos movimentos aos limites e tipos de atuação próprios da esfera do capital como a atuação sindical economicista e política reformista adaptada às instituições do estado burguês.
Os ensinamentos da Comuna de Paris foram abandonados pela maioria da esquerda. Segundo Marx, a maior lição da Comuna foi a de que a classe trabalhadora não pode se apossar da máquina de estado tal qual ela existe. Esse imenso aparato burocrático que é o estado não permite o funcionamento de um poder dos trabalhadores verdadeiramente democrático. Por isso os trabalhadores têm que quebrá-lo e substituí-lo por um outro tipo de poder, um poder baseado em organismos de base, democrático. É preciso romper e revolucionar todas as suas instituições como o Governo, o Congresso, a Justiça e até mesmo o Exército.
A realização tardia e efêmera do ciclo da social-democracia no Brasil se deu através da formação do PT e da CUT e das mínimas conquistas políticas e sociais obtidas através das lutas sindicais, da redemocratização e da Constituição de 1988.
Com a mundialização do capital, esse processo nem bem havia começado, foi abortado pela realidade e pelas tendências mundiais que se impuseram a partir das derrotas implementadas à classe trabalhadora pelo governo Collor, com a recessão e demissões de milhões de trabalhadores e depois com as derrotas impostas por FHC às greves dos Petroleiros em 1995.
A partir dos anos 90, o processo que já vinha ocorrendo nas empresas, de reestruturação produtiva, deu um salto e provocou a completa fragmentação e desarticulação dos movimentos sindicais e políticos dos trabalhadores. O desemprego em massa possibilitado por esses processos de produção foi o fator objetivo que deu a base de apoio para mais derrotas ainda.
As organizações políticas e sindicais e suas
lideranças foram de repente jogadas diante de uma nova situação que colocava na
prática a questão da estratégia: ruptura socialista com o impulso à organização
das luta diretas da classe trabalhadora ou adaptação total aos interesses e
ditames do capital, que passariam a ser negociados em termos de ritmos e de
redução de impactos e não do enfrentamento para barrar efetivamente os ataques.
Foi nesse momento que se impôs a situação objetiva
de incorporação social das direções e dos aparatos sindicais e políticos à
lógica do sistema, do Estado e de sua institucionalidade, pois todo um setor de
dirigentes sindicais e políticos já estava adaptado e nutrindo-se das benesses
do estado e dos sindicatos, que não nos esqueçamos são órgãos regulados pelo
estado e possuem uma série de vasos comunicantes com o mesmo.
Assim, entre a alternativa de enfrentamento ao sistema do capital e a de conciliação de classes prevaleceu a segunda opção, sempre apresentada como um mal necessário, resultado das políticas neoliberais e não do capitalismo, para que se pudesse passar a idéia de que o problema poderia ser resolvido a partir do momento em que se conquistasse o poder central, momento em que seria possível implementar um conjunto de políticas progressistas e populares em prol da classe trabalhadora, as chamadas “reformas radicais” (uma contradição no termo, pois toda reforma por definição não é radical, pois pretende reformar e não derrubar a ordem existente).
A chegada do PT ao governo em 2002 é o resultado escabroso da tentativa de se manter restrito aos limites do capital e da sua ordem. Nada mais, nada menos do que um governo de continuidade e aprofundamento de todos planos e medidas adotados por FHC, a serviço do FMI e do capital.
Um setor da esquerda materializado no PSOL, afirma que o problema da corrupção é centralmente uma questão moral, um problema de adaptação às regalias da institucionalidade. Isso é apenas a parte mais aparente da realidade e não explica como isso pôde acontecer e o que é pior não permite entender as formas de evitar que isso ocorra novamente, levando ou a uma nova confiança acrítica e simplista, como ocorreu com parcelas inteiras do movimento em sua relação com o PT ou à desilusão total e ao ceticismo, seu complemento necessário, após os resultados desastrosos de agora.
A ruptura com a Ordem do Capital está colocada no
centro dos desafios
Para nós os enormes problemas colocados para a esquerda não podem sequer ser entendidos, quanto mais enfrentados, sem uma compreensão a fundo da realidade econômica, política e social do capitalismo atual e da sua impossibilidade de permitir uma política de “reformas radicais”.
O processo na Venezuela em que o governo de Chávez conseguiu realizar um conjunto de reformas mínimas se apoiando num setor do estado (a base do exército) e sem romper com o capitalismo constitui ao nosso ver uma exceção na América Latina, que se deve ao fato de que a Venezuela é a quarta reserva de petróleo do mundo e na cotação acima de 60 dólares do barril. Isso gera um enorme superávit que permite pagar os juros ao FMI (com o qual a Venezuela não rompeu) e ainda distribuir uma parte do dinheiro para algumas importantes reformas sociais.
Mas isso não seria possível na Argentina ou no Brasil, assim como na maioria dos países, pois possuem suas receitas quase totalmente comprometidas com os juros das Dívidas Interna e Externa e sua economia totalmente privatizada, nas mãos das grandes corporações.
No sistema capitalista de hoje, até mesmo uma luta antiimperialista como o não pagamento da Dívida leva diretamente à ruptura com o sistema financeiro e com o mercado mundial e por conseqüência, ao boicote da burguesia e tentativas de golpe contra qualquer governo logo após ou mesmo antes de sua posse. A burguesia só respeita a democracia quando esta lhe favorece.
A ilusão de que os trabalhadores possam chegar ao poder pela via das eleições e realizar mudanças e sem romper com o capitalismo, não pode mais ser propagada sob pena de se levar a derrotas catastróficas e comprometer toda a estratégia de que a classe trabalhadora possa assumir o poder.
Portanto é preciso construir um novo projeto histórico da classe trabalhadora, uma perspectiva pautada nas lutas diretas da classe, uma perspectiva revolucionária, em que a classe se coloque efetivamente como agente consciente de suas lutas, um movimento extraparlamentar, nas palavras de Mészáros.
A disputa eleitoral deve ser sempre considerada com cuidado e apenas como uma tática, no sentido de apresentar o programa e as propostas das organizações revolucionárias e dos trabalhadores, em que se denuncie desde o primeiro momento a armadilha que elas são e que os trabalhadores só podem confiar em suas próprias forças.
É preciso ir demonstrando para os trabalhadores a partir de suas próprias lutas e dos acontecimentos políticos e econômicos que a resolução para os principais problemas sociais passa inevitavelmente pela ruptura revolucionária com o estado burguês e suas instituições, pela socialização das grandes propriedades e pela instauração de um poder de base dos trabalhadores produzindo e gerenciando a sociedade sobre uma nova lógica, socialista.
O capitalismo atual com seus ataques redobrados não permitirá que o ceticismo possa existir por muito tempo. A classe trabalhadora voltará à cena com suas mobilizações e seus métodos criativos e concretos de luta e de organização. Cabe à esquerda socialista ter pelo menos as bases de um projeto realmente inovador para ser apresentado e não a mera repetição de fórmulas ultrapassadas e falidas.
O jornal Espaço
Socialista está aberto a contribuições – polêmicas ou não – de militantes do
movimento social e de outras correntes com as quais atuamos em conjunto na luta
de classes. Nesse sentido, o texto que apresentamos a seguir é uma contribuição
do companheiro Macário, professor da rede estadual, e sua importância está no
fato de que trata de um elemento central da atual situação política do país que
é a necessidade de construir formas concretas de poder da classe trabalhadora.
A crise, a tarefa dos conselhos populares e
dos revolucionários
De acordo com a filosofia grega crise é o
desequilíbrio de uma estrutura cujo desdobramento contêm em si uma
transformação ainda não decidida. Analisada por esse prisma pode-se concluir
que a situação social, econômica e política brasileira encontra-se em crise
pois, se de um lado a economia apresenta-se saudável no que tange a
lucratividade do capital e a classe política que o representa e defende está
afogada na desmoralizante roubalheira, por outro a maioria da população
produtora da riqueza vive em deplorável opressão, pobreza e miséria.
Como potência e espremidos entre a exploração, a
acumulação capitalista nacional, transnacional e a corrupção encontram-se, in
germe, os conselhos populares e os grupos revolucionários. Em que pese – no
plano espontâneo prático – confrontar a ordem ao reivindicar o direito à
dignidade humana para os oprimidos, a dispersão pelo território brasileiro e
suas ações isoladas carecem do elemento unificador a altura do desafio de
transformá-los em força real, que encaminhe lutas incessantes capazes de
introjetar na subjetividade coletiva e pôr no horizonte dos trabalhadores, como
possibilidade concreta, o aniquilamento da putrefação politicista sobre a qual
fincam raízes a propriedade privada, o mercado, o Estado e a ladroagem
imanentes.
Como em todos os processos transformadores que
rasgaram fronteiras material-ideológicas, desanuviaram o passado, o presente,
postularam um futuro de liberdade, inscrevendo indivíduos, gupos, tendências e
partidos políticos nos anais da História, nossos conselhos e grupos
revolucionários têm de centrar esforços na árdua tarefa de entender como o
sistema capitalisa vem, com rapidez apavorante, degradando incontidamente todas
as dimensões societárias, pondo às claras e na ordem do dia a assustadora
indagação: em se mantendo a atual dinâmica socioeconômica, há futuro para a
humanidade?
A apreensão concreta e revolucionária desse dilema
por ser necessariamente obra coletiva não brotará de nenhuma inteligência ou
liderança pródiga, da mesma forma que não resultará de arremedos de ações
contestatórias isladas e/ou espontâneas, deliberadamente mediadas por
anacrônicas teorias de manuais taticistas viciados e falsificadores das reais
necessidades dos que trabalham ou vegetam à margem desta modalidade societária
produtora de riquezas e misérias em escalas nunca dantes vistas.
Nesse sentido o desafio que se impõe aos conselhos
populares e grupos revolucionários é o de se debruçar primeiramente sobre as
contradições que caracterizam a luta do trabalho contra a opressão perpetrada
pelo capitalismo, o que, diga-se de passagem, de forma manipulatória a
burguesia nacional e transnacional – mesmo enredada em autocontradições –
realizam com tamanha eficiência que apesar da desumana miséria que impõem às camadas
subalternas é no seu interior que elas geram e alimentam ideologicamente
indivíduos, grupos, tendências e partidos políticos, trasformando-os em
exércitos, defensores de seus restritos interesses de classe dominante.
Contrapor-se revolucionariamente a isto implica
diminuir o espaço, encetar formas de vivências, estreitar relações entre a
intelectualidade, a teroria e os movimentos revolucionárias, levando e unindo
letras e letrados aos milhões de pobres carentes de novos horizontes que se
procurado – via crítica radical – nos limites, vícios políticos herdados e
necessidades próprias, descobrir-se-á possibilidades inerentes às lutas
cotidianas pela mera existência individual e coletiva. Somente assim será
possível transformar nossas debilidades teórico-práticas em poderosa arma com a
qual desecadearemos atividade educativa persistente com vista a,
paulatinamente, minar as bases de sustenação da propriedade privada, do
mercado, do Estado e da corrupção instaurando, em seu lugar, arrimo do controle
social democrático sobre todas as dimensões que tornam o indíviduo e a
coletividade reais, objetivos e livres.
Para que nossa retórica não seja mera postulação
ideal, vazia e pretenciosa, tendo em vista a histórica universalização da
propriedade privada, do mercado, do Estado, da corrupção, suas inúmeras formas
de alienação e poder controlador-repressivo, é necessário ter em conta que os
esteios sociais propiciadores das conquistas técnico-científicas aplicadas a
produção da estontiante riqueza, amálgama da burguesia mundializada e afirmação
de seu poder, é a mesma que produz, na contraposição e em escala também
mundial, a escravidão do trabalho assalariado, a pobreza e a miséria de bilhões
de seres humanos, potencial negador do sistema capitalista.
Assim sendo, para além das inquestionáveis
diferenças, níveis de exploração e interesses singulares que caracteriza o
trabalho mundializado, o que o identifica, une enquanto oprimido e explorado,
são as condições inumanas de existências de seus agentes esteio da propriedade
privada, do poder material da burguesia que desliza sobre a esteira do mercado,
coaduna-se nos Estados nacionais para daí ser distendido como força política
expansiva, naturalmente controladora e repressora dos produtores da riqueza que
vergam sob a canga da negação de seus
direitos mais elementares.
Em face da histórica mundialização da força material
– acima referida – antípoda do capital, em qualquer parte do planeta onde o
trabalho entabular batalha com vistas a conquistar qualquer melhoria de vida
negada pela burguesia, esta em maior ou menor medida tem reflexo mundial
independente de seus agentes terem ou não consciência disso. Assim é porque não
se pode perder de vista que a questão do desemprego e da habitação popular –
para citar dois clássicos exemplos – são problemas mundiais{1}, da mesma forma
que o são as péssimas condições da saúde, sistema educacional e segurança
públicos, a precarização do trabalho, a fome, a problemática ambiental, a
corrupção etc. Todos sabemos que os enfrentamentos de classe dos conselhos
populares e grupos revolucionários têm como base e razão de ser esta
problemática.
A existência e o aprofundamento desta situação,
inclusive em países desenvolvidos, nos permite concluir: a fase capitalista em
que o desenvolvimento técnico-científico e o crescimento econômico implicava o
atendimento de necessidades básicas das camadas sociais subalternas esgotou-se,
da mesma maneira que reformas sociais são incompatíveis com a atual modalidade
de acumulação de lucro. Isso tem de ser exaustivamente debatido pelos conselhos
populares e oposicionista em geral haja vista o caráter revolucionário ruptório
inerente ao clamor dos milhões de pobres por alimentação, trabalho, salário,
moradia, creche, saúde, educação, segurança e transporte públicos etc. cujo
atendimento o sistema não mais comporta.
O exemplo claro do que estamos afirmando encontra-se
ao alcance de todos os brasileiros; trata-se administração do Partido dos
Trabalhadores (PT) que ancorado na chancela popular, agarrado à promessas de
reformas sociais na estrutura capitalista brasileira e suas relações
subordinadas ao imperialismo, uma vez no poder não só incorporou e aperfeiçoou
a exploração da burguesia residente e não residente, como também não pôs em
andamento qualquer reforma social de vulto abraçando, em contraposição, a
expansiva corrupção que perfaz as relações existentes entre as esferas públicas
e privadas, motivo do irreversível processo de decadência político-moral em que
se encontra, fortalecendo sobre maneira a posição política de partidos,
lideranças conservadoras e reacionárias.
Exemplos dessa natureza são inúmeros pela América
Latina e Central especificamente e com certa contundência os casos argentino,
boliviano e equatoriano, onde a movimentação social impõe constante troca de
presidentes da República mas que em nada tem alterado a situação de pobreza e
miséria em que se encontra a maioria da população daqueles países. Contra tudo
isso rema os trabalhadores venezuelanos que organizados em conselhos populares
(circulos bolivarianos) sustentam – contra a vontade e sob ameaça do
imperialismo norte-americano – o governo popular de Hugo Chaves que com
persistência e coragem volta sua administração para as camadas mais pobres.
O que diferencia a movimentação político-popular
venezuelana das demais do continente latino-americano que pouco ou nada tem
arrancado à burguesia de seus países é que sob o comando do presidente Chaves o
que se encontra em processo é a ruptura com a organização burguesa da
propriedade, do controle dos meios e bens de produção, da acumulação de lucros
e do Estado. Os investimentos públicos em alimentação, moradia, saúde,
educação, reforma agrária, no cooperativismo, na manutenção de empregos, no
processo de entrega de armas às organizações populares etc. fortalecem os laços
comunitários, rechaça o poder e o Estado burgueses ao tempo que resgata as
individualidades ao pôr em suas mãos e da coletividade o controle sobre a
construção, defesa e segurança de suas vidas.
Movimentação de massa com este conteúdo social põe
por terra o politicismo, o praxismo taticista manipuladores e alienantes, o
internacionalismo desprovido de base real, resgata, afirma a prática política
como instrumento e relação coletiva revolucionária, “meta política”, única
capaz de, paulatinamente, minar o arrimo sobre o qual finca-se a exploração de
classe ao tempo que abre horizontes humanos e pavimentam as estradas que levam
até eles.
É lícito ressaltar que a nossa referência ao processo
venezuelano – por razões óbvias – não sugere que o adotemos como modelo, em
primeiro lugar devido diferenças específicas e gerais que levaram o Coronel
Hugo Chaves à presidência daquele pequeno país e, em segundo, porque a
estrutura socioeconômica e a luta de classe possibilitaram que uma vez no comando
do Estado aquele líder desencadeasse as reformas sociais há décadas
reivindicadas pelos trabalhadores contra os interesses da classe dominante
interna e externa.
O amanhado econômico e os enfretamentos de classes no
Brasil das três últimas décadas parecem sugerir o contrário do processo
venezuelano. Tendo em vista que todos os partidos constitídos ou que se
constituíram no calor da luta pela “redemocratização” assumiram, direto ou
indiretamente, o poder de Estado e tudo que fizeram foi modernizar a exploração
do capital nacional sócio subordinado ao imperialismo e a ladroagem,
aprofundando, portanto, a miséria da esmagadora maioria da população, por isso
não há mais no que apostar ou esperar deles, as possibilidades se esgotaram, a
descrença nas suas práticas políticas generalizou-se e ninguém mais acredita
nos partidos, nas velhas lideranças e suas falsas alternativas.
Por conta destas decepções e inviabilidades é
imperante que os conselhos populares e os grupos revolucionários exijam de
partidos de oposição em processo ou já constituídos a elaboração de novos
projetos, centrem esforços na construção da unidade do trabalho em torno da
quebra da histórica organização da propriedade, do seu estatuto jurídico, do
redimensionamento da estrutura produtiva, reordenamento do mercado interno e
suas relações com o mercado externo. Para tanto há de se começar pelo combate
implacável à fome, cobrança sem trégua do direito a um sistema decente de
moradia saúde, educação, transporte e segurança públicos ao tempo que lutam por
desencadear movimentação de massa em defesa da reforma agrária, do trabalho
para os desempregados, redução da jornada, salário mínimo digno, carteira
assinada, seguridade social, multas sobre horas extras e trabalho nos feriados.
Daqui para frente no que se refere aos serviços
públicos a exigência é que estes sejam incondicionalmente expandidos e
melhorados independente de quem esteja no governo, somente assim será possível
um relacionamento dos conselhos populares e grupos revolucionários com partidos
políticos de esquerda que têm de, corajosamente, defender as reivindicações dos
trabalhadores, dizer claramente como se apropiar do montante de capital usado
para remunerar títulos da dívida pública interna e externa, como financiar a
reforma agrária sob controle das cooperativas de trabalhadores do campo, como
tratar os latifundiários e seus vultosos lucros, a acumulação escandalosa dos
setores produtivo, comercial, financeiro, educativo privado, religioso
nacionais e transnacionais que exploram e alienam nossa comunidade.
É o mínimo que os conselhos populares e os grupos
revolucionários devem exigir aos partidos e suas lideranças para que a batalha
política seja sinônimo de construção de um novo ordenamento societário voltado
para o atendimento das necessidades humanas contra as necessidades do capital.
Se trilhado este caminho a ação
político-coletiva transformar-se-á em destruidora do oportunismo reinante, de
sindicatos e lideranças pelegas, do paxismo, do politicismo, das organizações
não governamentais que sob a bandeira do assistencialismo financiado pelo
erário público em associação com o imperialismo, vêm ocupando incontidamente
nosso território, aliciando as camadas pobres, mitigando a luta de classe em
proveito do capitalismo.
Não é mais possível acreditar ou esperar que um
determinado partido ou segmento social chegue ao governo para depois iniciar a
ruptura com a exploração do capital sobre a sociedade. O contrário será o mais
correto e seguro; arrancar o poder de Estado do controle da burguesia nacional
e transnacional que organiza e administra a estrutura socioeconômica brasileira
tem de ser resultado de um processo de luta e conquistas de melhoria de vida
dos trabalhadores contra os interesses e acumulação burguesa.
O embate entre conselhos populares, grupos
revolucionários e partidos de esquerda por priorizar a luta em torno de
derterminadas reivindicações imediatas, descobrindo nestas os liames que as
ligam a mediaticidade, portanto à ruptura revolucionária, significa desencadear
um processo de remoção da democracia formal burguesa vigente, ao tempo que se
instaura a democracia substancial resolutiva.
Assim como os partidos e lideranças capitalista
usando de seus inúmeros instrumentos ideológicos manipulatórios afirmam e
defendem incondicionalmente a propriedade privada, o mercado, o Estado e
acumulação, os conselhos populares e grupos revolucionários têm de, no plano
teórico-prático, ser intransigentes na desorganização deste ordenamento. Isso
não prescinde da batalha também na institucionalidade desde que esta não seja
um fim, mas o meio de desorganizar o domínio do capital sobre os tabalhadores.
Não há dúvida que ante os laços que unem a acumulação
interna e externa, a batalha por desorganizar a propriedade, o sistema
produtivo e o Estado burgueses minando, dessa forma as bases de sustenação do
capital financeiro, dependendo de sua força por fazer valer os direitos mais
elementares dos trabalhadores contra o do capital, esta contém, em si, o
potencial desestabilizador da ordem capitalista mundializada e será tão
abrangente quanto mais forte for o embate de classes, principalmente se for em
um país da importância do Brasil.
Isso os conselhos populares, os grupos
revolucionários e partidos de esquerda têm de ter claro, caso contrário não
serão suficientemente organizados, ideologicamente preparados para responder à
altura a repressão estatal que certamente virá quando as demandas do trabalho
confrontar na prática e na teoria o sistema capitalista.
{1} Mészáros, I. em Para Além do Capital, São Paulo – Boitempo
Editorial e Edit. Da UNICAMP. Trad. de Paulo César Castanheira e Sérgio Lessa –
2002 p.225 afirma que “Somente no capitalismo da Europa Ocidental existem bem
mais do que vinte milhões de desempregados; há pelo menos mais de uns dezesseis
milhões em outros países de capitalismo avançado.” Com relação a necessidade de
moradia para os trabalhadores mundiais afirma a pesquisadora Anna Tibaijuka da
Organização das Nações Unidas (ONU): “A população mundial em condições
precárias é de quase um bilhão de pessoas. Segundo nossas estimativas, em 2001
eram 570 milhões na Ásia e região do Pacífico, 188 milhões na África, 128
milhões na América Latina e Caribe, 54 milhões em países desenvolvidos e 25
milhões em países em desenvolvimento.” O Estado de São Paulo 15/06/2004.
Antonio
Macário de Moura - Mestre em
Ciências Sociais
Para o Espaço Socialista a recomposição teórica é uma das
tarefas centrais dos revolucionários e o debate envolvendo o máximo de
companheiros é um dos pilares para esse processo e as questões que envolvem os
trabalhadores negros ocupa um lugar de destaque nessa recomposição. Assim,
dando seqüência ao debate sobre o tema, apresentamos dois textos de
companheiros da organização que pelo fato dessa discussão ainda estar em
aberto, necessariamente não representam a posição do conjunto dos militantes.
Aproveitamos para reafirmar que o jornal está aberto para aqueles que querem
participar do debate.
Reparações sem demagogia e sem
hipocrisia!
Marcelo – Estudante da Metodista
Somos
constantemente afetados pelo racismo cruel. Isto é fato. Vivemos em uma
sociedade hipócrita e principalmente demagoga que não se assume racista e
excludente e que finge, a todo o momento, existir uma democracia racial. Finge
não entender que a escravidão também foi um crime contra a humanidade. Não se
preocupa em assumir a responsabilidade e reparar todos aqueles que até hoje
sofrem com as conseqüências do processo de tortura, discriminação e descaso.
Não
precisamos demonstrar como se dá o racismo e como é disfarçado. Temos exemplos
na nossa vivência e somente nós negros para sentirmos e sofrermos com os seus
reflexos. Os não-negros podem até compreender e repugnar o racismo, mas não
sofrem na pele as suas conseqüências. Isto desencadeia vários fatores que fazem
com que as questões referentes à igualdade geral sejam ilusórias.
A
democracia racial que a elite prega, de fato, não existe. Ela serve
simplesmente para camuflar o racismo e jogar a responsabilidade do desempenho
para o próprio indivíduo negro.
Os
espaços que os negros têm foram delimitados pelos brancos. Foram-nos tirados
diversos direitos e vemos que uma classe (brancos) manda e outra classe
(negros) é obrigada a obedecer. Onde está a igualdade?
De
1888 a 2005 poucas coisas mudaram. A luta dos mais velhos apenas amenizou um
pouco o nosso sofrimento. Continuamos na miséria e abandonados por todo um
sistema que nos tirou dos braços de nossa mãe África, nos torturou, nos obrigou
a trabalhar como mão-de-obra escrava para gerar riquezas e depois fomos
relegados às margens da sociedade. Falar que a escravidão não foi um crime
contra a humanidade é demagogia e hipocrisia.
Casos de
humilhação e tortura como os campos de concentração de judeus e de
nipo-americanos foram considerados crimes contra a humanidade. Tanto os judeus
quanto os nipo-americanos foram reparados financeiramente por tudo que lhes
foram tirado.
Também
fomos seqüestrados, muitos foram mortos, tentaram tirar nossas raízes, cultura,
religião e sequer um pedido de desculpas foi feito.
Não
basta somente desculpas. A sociedade que enriqueceu às nossas custas deve
reparar todos os negros, afrodescendentes e indígenas que sofrem as
conseqüências do processo de escravidão. Foram os escravos negros e indígenas
os principais produtores de riquezas deste país. Não usufruíram os benefícios
dessas riquezas e ainda hoje, como descendentes, amargamos a triste realidade
de estarmos fora, em nossa maioria, do
processo produtivo.
Temos
todo o direito de cobrar reparação total. Por tudo o que nos foi tirado devemos
expropriar a burguesia, inclusive a européia, e tomar em nossas mãos, junto com
os demais trabalhadores, toda a riqueza produzida.
No
entanto, sabemos que nem governo e nem burguesia estão dispostos a reparar o
que fizeram e jamais irão aceitar que façamos.
É bom que
se diga que não almejamos ser a nova burguesia, pelo contrário, queremos que
ela deixe de existir, que todos tenham as mesmas condições para viver, ninguém
com mais e ninguém com menos. Todos iguais.
De fato,
alguma coisa deve ser feita. Devemos amenizar a discriminação, o sofrimento e a
miséria que impera nas comunidades negras, pobres e indígenas e lutarmos
unificadamente para erradicarmos essa violência que sustenta o sistema
capitalista.
Devemos
repensar a situação do negro no Brasil. Temos aos montes o descaso e o
preconceito com o nosso povo. Nas comunidades nos deparamos com o subemprego e
com o alto índice desemprego, falta de saneamento básico, de postos de saúde, de moradia digna, de
oportunidade para estudar e seguir os objetivos. Enfim sofrendo com o abandono
e com a violência também por parte do estado .
Muitos
irão dizer que a situação de todos está caótica, não é bem assim. O sistema
capitalista só visa o lucro e o ter não considera o ser e para alguns é mais
importante contar dólares do que contar vidas.
Nitidamente
a situação da população negra está, no mínimo, duas vezes mais caótica e
miserável. Para quem duvida é só visitar as comunidades pobres e observar
diariamente a rotina das pessoas.
Não queremos
assistencialismo. Queremos condições dignas para viver. Não queremos
subemprego. Queremos emprego e salário dignos. Não queremos cestas básicas.
Queremos decidir e escolher o que vai para nossa casa e para a nossa mesa.
Queremos
uma educação voltada para o indivíduo como transformador da realidade em que
vive e que resgate nossa cultura para que nossas crianças se sintam orgulhosas
de suas raízes.
Pensando
em tudo o que queremos podemos entender quais são as oportunidades que temos no
sistema capitalista. Nenhuma.
As reparações e indenizações devem ser pensadas e efetivadas como formas de inclusão social na busca da transição para uma sociedade justa, caso contrário, a sociedade amargará as conseqüências de sua própria demagogia, hipocrisia e ignorância.
A ausência de cor na
luta de classes!
O
movimento negro organizado, ao longo dos anos, aperfeiçoou muito sua forma de
atuação. Isoladamente formulou reivindicações, traçou formas de luta,
movimentou pessoas ou grupos, que com muita dificuldade, iniciaram o processo
de suprimir a invisibilidade da população negra nos mais diversos seguimentos
da sociedade.
Essa
invisibilidade que a elite branca racista conseguiu manter ao longo dos anos,
embasada no mito da democracia racial e reforçada pela teoria do
“embranquecimento”, infelizmente encontrou eco em todas as organizações
(sindicatos, federações, sociedade amigos de bairro, centrais sindicais ou
partidos políticos) que se pré-dispunham a promover a emancipação da classe
trabalhadora no país.
Esse isolamento
não se deu pela vontade dos próprios negros, mas pela falta de interesse das
entidades dos trabalhadores em ser parte nessa luta. Defendem que o problema no
Brasil não é, não foi e nunca será uma
questão de raça ou de cor da pele, e sim uma questão social. Afirmavam e
afirmam “que os negros não são
discriminados pela cor de sua pele e sim por serem pobres”. Reforçam
com esse discurso, seguido da inércia que o acompanha, o mito da democracia
racial.
Foi assim
nas mais diversas formas de luta contra a ditadura militar e também na
construção de organizações ditas “democráticas”
dos trabalhadores.
De maneira
isolada e com muita dificuldade, principalmente por sermos postergados nas
contratações no mercado formal de trabalho, começamos a cavar um espaço dentro
dos sindicatos que era restrito aos trabalhadores brancos.
Isso
também ocorreu dentro dos partidos políticos, inclusive os de direita, pois
muitos de nós acreditávamos, e muitos ainda acreditam, que quanto maior for
nossa participação nos partidos políticos e nos sindicatos – e aqui está a
armadilha, não importa se de esquerda ou de direita – mais chances teremos de
acabar com a miséria do povo negro porque “a
questão racial transpassa as questões de partido de esquerda ou de direita”.
Com esse
discurso evasivo e falso muitos oportunistas têm elegido e fortalecido ONG’s de
caráter duvidoso, além de fornecer estatísticas favoráveis à “dita direita” para que em suas
campanhas possam afirmar que estão “preocupados” com a situação de miséria que
vive o povo negro, como se não tivessem nada a ver com essa situação.
Contraditoriamente ao negar a luta do nosso povo, a “esquerda” empurrou
significativas “lideranças” do movimento negro para os braços da
“direita”.
A
participação dessas lideranças nas mais diversas formas de poder de estado ou
nos sindicatos, ONG’s, etc, criou,
inevitavelmente, o gosto pelo poder, ainda que limitado.
Com isso,
a luta passou a se dar cada vez mais nos gabinetes e nas superestruturas e cada
vez menos nos bairros, nas favelas e na
periferia e as pessoas mais interessadas na discussão começaram a aparecer
como coadjuvantes e não como sujeitos ativos na transformação
da sociedade.
Temos
alguns socialistas revolucionários mais radicalizados na “esquerda”, no entanto a maioria acredita que não se deve apoiar as
lutas especificas do negro porque a discriminação racial somente será superada
no socialismo . Apoiar essa luta é
dividir a classe trabalhadora além de estabelecer um racismo ainda maior no
seio da classe.
“A luta dos negros, deve ser uma luta de classes” com esse
pensamento, os marxistas, socialistas, revolucionários e dialéticos recusam-se
a enxergar e discutir, no mínimo, as diferenças existentes dentro da classe,
entre negros e brancos.
Os índices
podem demonstrar que nós negros amargamos mais o desemprego. Quando
trabalhamos, mesmo depois de formados em nível universitário, ganhamos até 40%
menos que os brancos. A pobreza que atinge, no Brasil, segundo dados oficiais,
53 milhões de pessoas nós negros detemos 67% dessa pobreza. Dos 22 milhões de
miseráveis nós negros detemos 70% dessa miséria. Na população universitária de
todo o país somos apenas 1,98% dos estudantes. Por falta de políticas públicas
de saúde uma criança negra tem apenas 30% de chances de concluir o primeiro ano
de vida. Embora nós negros sejamos acometidos menos por câncer, morremos em
maior número.
As
discussões sobre negros, mesmo na maioria das organizações revolucionárias,
ficam nos guetos e guichês de negros criados por essas organizações. São relegadas
a último plano e daí geralmente saem apenas manifestações de solidariedade,
etc.
Ainda
acreditam que nossa luta não contribui para a construção da luta de supressão
do capital e da construção de uma sociedade justa e igualitária sob controle
dos trabalhadores.
Até lutam
contra a reforma trabalhista, por aumento de salário, contra a reforma
sindical, mesmo sabendo o atual papel dos sindicatos, mas recusam-se a lutar
pelas cotas para negros. Consideram que se fossem alcançadas plenamente
estariam nos marcos do capital e não contribuiriam para a sua destruição, nem
para o avanço da consciência de classe.
Abraçaram
com unhas e dentes a luta contra a ditadura militar, que ao nosso ver foi uma
luta correta, para que se pudesse estabelecer os direitos democráticos (ainda
que nos moldes da burguesia), lutaram com a mesma garra pelo fora Collor.
Pergunto,
essas lutas serviram para o avanço da consciência de classe, para a destruição
do capital, ou reforçaram, na grande massa a crença na democracia burguesa? Não
reforçou essa luta, por acaso, o sentimento de que se um presidente não
responde as necessidades do povo é só aguardarmos mais 4 anos e votarmos em
outro? Que se ele for muito descarado podemos chamar os caras-pintadas e
tirá-lo de lá?
Nesse
sentido chamamos a todos os socialistas revolucionários que, pelo menos,
debatam essa realidade conosco.
O Espaço
Socialista já deu início ao processo de discussão e após mais de um ano de
discussão, ainda que não se tenha acordo em tudo, demonstram que é possível
construir a ponte de ligação entre revolucionários negros e brancos na luta
pela construção de uma sociedade justa e igualitária, mas lutando por essa
igualdade agora e não quando terminarmos de construir uma sociedade socialista,
mesmo porque não conseguiremos construir essa sociedade se não levarmos em
conta as diferenças existentes.
AS COTAS CONTINUAM SENDO UM DIREITO, NÃO UMA ESMOLA!
Mesmo que
uma parte do movimento negro enxergue na cota universitária a panacéia para a
população negra, acreditamos que além dessa discussão não ter atingido a
periferia, principal interessada, o percentual aceito, como certo, pela maioria
desse movimento de 10 a 20% das vagas está equivocado. Lembramos que mesmo
baixo já é um avanço, mas deve seguir o número de negros na nossa sociedade e
não se limitar apenas às universidades. Deve também atingir em cheio o mercado
de trabalho em todos os níveis.
Nas
universidades devemos defender que todas as vagas públicas sejam para os alunos
pobres vindos da rede pública e que proporcionalmente sejam reservadas vagas
para negros.
No mercado
de trabalho podemos defender que toda empresa, que for aberta, somente consiga
licença de funcionamento se garantir vagas para os negros proporcionalmente de
acordo com a região onde forem estabelecidas. Para as já estabelecidas
defendemos que seja determinado um prazo para adequarem-se às cotas
proporcionais, não superior a 12 meses,
e se não cumprirem o prazo serão multadas e até impedidas de funcionar
enquanto não houver a regularização.
Para os
concursos públicos defendemos a reserva
de cotas proporcionais, em todos os níveis, ou seja, de acordo com a proporção
de negros no município, no estado ou no
país.
INDENIZAÇÃO FINANCEIRA
Se as
cotas em universidades, no mercado de trabalho e nos demais seguimentos da
sociedade geram polêmica o problema é ainda maior quando defendermos uma
indenização financeira para os negros do Brasil.
Embora não
haja valor financeiro, no mundo, capaz de pagar as atrocidades cometidas contra
nosso povo, defendemos que haja reparação.
Após
trezentos e cinqüenta anos de trabalho escravo e cento e dezessete anos de
exclusão é justo que sejamos ressarcidos por esse trabalho.
Segundo o EDUCAFRO, entidade
que promove cursos pré-vestibulares para negros e carentes, circula no mundo
algo em torno de quatro bilhões de dólares a título de indenização para os
judeus, pelos seis anos de confinamento em campos de concentração construídos
pelos alemães, durante a segunda guerra mundial. A mesma fonte dá conta que
pelo mesmo motivo os americanos tiveram que indenizar os descendentes de
japonês nos Estados Unidos. Essas indenizações financeiras foram pagas porque a
sociedade mundial reconheceu que o que houve crime contra a humanidade.
Quando se
fala em indenização para negros a conversa muda e dizem que “divide a classe e
não contribui para o avanço da consciência.”
É verdade
que havia interesses do capital internacional nessas indenizações, mas podemos
deixar de reconhecer que o que foi feito com os negros no Brasil também
constitui crime contra a humanidade. Em relação à África, qual o prejuízo
político, financeiro e cultural para com os seqüestros de milhões de negros
pelo tráfico negreiro? Estima-se que somente no Brasil entraram seis milhões de
negros nesse processo.
Não temos
nenhuma ilusão de que as cotas resolvam a situação, dos negros em particular e
dos pobres em geral, mas se essa luta for encampada, ao menos pelos
socialistas, longe de dividir a classe unificará. Será necessário que todos
entendam essa discussão e a necessidade dessa luta para questionarmos o poder
da burguesia que não concederá nada de livre e espontânea vontade. Somente com
muita luta conseguiremos pequenos avanços. Resta saber se nessa luta
continuaremos seguindo isolados ou se contaremos com todos os socialistas
revolucionários nesse verdadeiro
exército de excluídos nessa luta transitória por direitos na busca de
uma sociedade verdadeiramente justa.
Eduardo Rosa é integrante da
Comunidade de Resgate Afro Rosas Negra – Mauá/SP.
A unidade da burguesia para manter a consciência e a
estrutura burguesa
Duda, Flávia e João Paulo – Estudantes da Direito SBC.
Podemos
até supor que a intenção tenha sido a de retirar a atenção da crise política
envolvendo PT e governo federal mas o episódio da ação da Polícia Federal na
Daslu (loja de roupas da burguesia e para a burguesia) conseguiu unificar e
mobilizar a classe burguesa contra a exposição do lixo por trás de todo o luxo
ofuscante.
Assistimos
os mais diversos tipos de demonstração de solidariedade classista quando da
prisão da dona da Daslu. O senador ACM comoveu-se a tal ponto que derramou
lágrimas e foi visitar a loja e sua dona no dia seguinte a sua soltura.
A FIESP que havia marcado uma reunião com o
ministro da justiça (M.T. Bastos) desmarcou-a assim que soube da ocupação da
Daslu pela polícia. Organizou um ato junto a OAB contra o “arbítrio” e o
“excesso” com que a polícia federal já vinha agindo na tentativa de juntar
provas de operações fraudulentas de empresas e escritórios de advocacia. Foi
feito um manifesto pela legalidade contra as mega-operações desenvolvidas pela
Polícia Federal.
As
razões que fizeram com que tais mobilizações ocorressem vão além da
interpretação jurídica da legalidade e
supostamente constitucionalidade das ações policiais. Elas estão ligadas
à defesa da própria classe burguesa, de seu estilo de vida e de sua posição
social enquanto classe dominante.
A
polícia contempla a manutenção da realidade, exerce o papel de garantidora da
“ordem” e mantém através da força, se necessário, a divisão das classes
sociais. Não foi intenção da polícia, quanto instituição, questionar a
burguesia muito menos por abaixo o seu poder. Apenas quis demonstrar, que em alguns momentos, está de olho nos
excessos que podem comprometer o financiamento do estado que as protege e que
sustenta o poder burguês.
E
com a classe que depende da venda da sua força de trabalho para sobreviver a
tolerância é a mesma? Claro que não. Nas favelas e nas periferias, desde que
seja para prender pobres, a policia pode fazer o que quiser, tem liberdade de
investigação e ação, diga-se de passagem, violenta ação.
Essa
inversão de valores além de ter o propósito de manter o pobre longe do rico
serve para sustentar a idéia de que todos são igualmente tratados desde que
cada um mantenha-se em sua classe social exercendo sua cidadania.
Um dos
fundamentos do liberalismo para justificar toda essa desigualdade é que todos
têm oportunidades iguais e ter muito dinheiro é símbolo do esforço pessoal, de
dons e capacidades individuais.
Essa é a
capacidade da burguesia que além de roubar do trabalhador a mais-valia ainda
tem a oportunidade de sonegar impostos.
A Daslu
tem mensalmente estrondosos faturamentos e a propósito quanto deve ganhar uma
trabalhadora que costura as famosas grifes encontradas na Daslu?
Essa
loja-empresa é um exemplo de que as oportunidades não são as mesmas entre
trabalhadores e burgueses e o que
ocorre é a exploração do homem pelo homem, ou seja, de uma classe sobre a
outra.
A
burguesia tenta estabelecer esses “pequenos desvios de valores” não
contabilizados como normais e diz que é impossível declarar tudo com a alta
carga tributária brasileira, mas insiste que é possível uma grande parcela dos
trabalhadores sobreviverem com o salário mínimo pagando tudo que lhe é imposto.
Essa também é mais uma demonstração de que a pretensão da burguesia é de que seja o trabalhador que
arque com o pagamento de impostos ao estado que a garante.
Mas ao ser
exposta a sujeira sobre a qual todo o luxo se estrutura, a classe burguesa reagiu em conjunto (empresários, políticos,
imprensa, etc) contra os supostos ataques a sua imoralidade e ainda se colocou
como vítima.
A dominação burguesa atinge tão profundamente
a consciência que até entre nós e parte da classe média, que também é excluída
pela burguesia, defendeu a Daslu.
Do ponto
de vista da nossa classe quando um burguês-patrão ataca uma greve ou um direito
conquistado, como foi aprovada a reforma da previdência e quer aprovar a
reforma trabalhista e quando usa a força policial para reprimir nossas
manifestações de revolta contra esse sistema burguês está atacando a classe
trabalhadora no conjunto. No entanto ainda estamos divididos e não conseguimos
nos mobilizar de conjunto contra todas essas ações.
Contra a
unidade da burguesia somente a unidade dos vendem a força de trabalho para
impor a consciência socialista e construir uma sociedade igualitária.