Espaço Socialista
Publicação Revolucionária
Marxista de Debates
Ano
V – Nº 12 – Julho/Agosto 2004.
INDICE
1.
Apresentação
2. Cotas e outras políticas afirmativas: Potencialidades e
limites
3. A trágica história do negro
no Brasil e o porquê do sim às cotas
4. Direcionado à você que foge e se esconde...
5. Políticas afirmativas não
são esmolas. São Direitos!
6.
Poesia: Negro.
Cotas e racismo
APRESENTAÇÃO
É importante iniciar esta apresentação pela constatação de que a nossa classe - @ d@s oprimid@s e explorad@s - é multirracial e todos nós, negros, brancos, amarelos, etc, somos submetidos a mais cruel exploração e expropriação do que temos - a força de trabalho que gera a riqueza, mas é destinada a servir aos ricos.
Esse fato não omite que alguns setores dessa classe - mulheres, negr@s,
homossexuais -estão submetidos a uma exploração "diferenciada", mais
aguda (os menores salários, por exemplo) e, inclusive, sofrem discriminação de
alguns trabalhadores que, por influência da ideologia burguesa, reproduzem
cotidianamente um dos piores valores dessa sociedade burguesa.
Este número do Espaço Socialista está dedicado à discussão e ao debate sobre a questão racial, do ponto de vista de militantes revolucionários, independente da cor de suas peles. Não é uma edição especial, pois entendemos que essa discussão deve ser parte integrante da leitura e da discussão de todos aqueles que lutam por uma nova sociedade, portanto nos recusamos a tratá-la em apenas uma edição. Também entendemos que a discussão não deve estar limitada aos militantes negr@s, pois esse combate cabe a todos nós, trabalhadores, em especial aos revolucionários. O fim de toda e qualquer forma de racismo e preconceito é uma tarefa da revolução socialista e deverá ser objeto das primeiras medidas.
Destacamos que o nosso objetivo é elaborar um programa que responda às necessidades dos trabalhadores negros, que consiga apresentar um caminho para a superação do racismo e que possamos enfrentar e vencer todas as formas de exploração e opressão impostas pé capital. Ou seja, com essa discussão, queremos dar o ponta-pé para elaboração de um programa revolucionário que tenha a luta contra o racismo como uma das questões centrais.
Discordamos da prática de várias organizações que criam "secretarias ou departamento de negros” com especialistas sobre o tema e na prática, cumprem o papel de reforçar a idéia burguesa de que a questão racial é "problema dos companheiros negros", deixando o conjunto da militância distante e despreocupada das reflexões necessárias sobre a questão.
Nós, militantes do Espaço Socialista, assumimos a tarefa de incorporar à nossa militância cotidiana essa luta e isso tem significado tarefas práticas de denúncia e combate ao racismo além de reflexões teóricas sobre essa problemática, de forma que, possamos contribuir com a elaboração desse programa.
Os textos aqui apresentados não refletem necessariamente a posição do Espaço Socialista mas daqueles que os subscrevem e têm em comum o fato de serem as primeiras contribuições ao debate. Temos a certeza de que, mais do que marcar posição, objetivam apresentar alguns elementos para a síntese de elaboração de um programa revolucionário.
Também não acreditamos que cumpriremos a tarefa dessa elaboração sozinhos, pois há várias experiências que precisam se encontrar para construirmos uma reflexão comum. Por isso colocamos as páginas desse jornal à disposição daquel@s que queiram escrever - concordando ou discordando dos textos - sobre o tema (ou outros), contribuindo com o debate de maneira prática.
Cotas e outras políticas afirmativas: Potencialidades
e limites
Para iniciarmos a polêmica em torno das cotas e outras políticas afirmativas partiremos da necessidade de unificação da classe trabalhadora, caso contrário, corremos o risco de cairmos em extremos, que favoreçam a burguesia e nos levem à derrota.
Em primeiro lugar é necessário entender que o racismo é um problema social e histórico. Ele não existe porque os brancos são "naturalmente" opressores, muito menos porque os negros possuam qualquer "característica de inferioridade".
O racismo ocorre porque essa sociedade capitalista é marcada por inúmeras contradições, sendo a principal delas a divisão entre os que produzem a riqueza (que chamaremos de trabalho), e os que se aproveitam dessas riquezas (os quais chamaremos de capital). Essa contradição implica numa rígida hierarquização. No Brasil, conforme o capitalismo se estabelecia como sistema econômico, a desigualdade dessa hierarquia permitiu níveis cada vez mais intensos de exploração. Os negros, as mulheres e todos os trabalhadores (mesmo os de cor branca), foram forçados a se manterem na base da pirâmide social a custa de muita opressão, mas também de muita resistência.
Por causa de alguns processos sociais, dos quais a escravidão foi o pior deles, o trabalhador negro enfrenta até hoje maiores índices de exploração do que um trabalhador branco. Esses índices são ainda maiores no caso da mulher negra.
Como resultado desse processo de exploração, o Brasil tornou-se o país com maior concentração de renda do mundo. Usufruindo dessa posição encontram-se a burguesia e seus agentes, o Estado, a mídia, a Igreja, setores da classe média - todos de padrão branco europeu.
Essa realidade é ainda mais agravada pela situação de crise estrutural a que chegou o capitalismo. A crise se reflete no aumento do desemprego, da transferência de renda dos países pobres para os ricos e por uma degradação das condições de saúde e educação. Tal crise é tão profunda que não pode ser revertida por ciclos de crescimento econômico. A economia mundial atingiu níveis de saturação de mercadorias e capitais, combinada com um altíssimo desenvolvimento tecnológico, que não permite taxas de crescimento econômico como as que ocorreram no pós II Guerra Mundial até finais dos anos 60 e início dos anos 70. Mesmo nos países europeus, o chamado Estado de Bem Estar Social está sendo atacado e destruído gradativamente.
Nos países dominados toda o dinheiro arrecadado é utilizado para pagamento dos juros das dívidas externa e interna ou senão para incentivos fiscais às empresas. Não há mais possibilidade de criação de novos mercados, de modo que assistimos a disputa entre as grandes corporações globalizadas e potências pelos mercados existentes. Para que países como China e Estados Unidos cresçam, é necessário que muitos outros, se afundem na miséria. Este é o caso dos países da América Latina e da África. Acabou-se o período em que o capital podia oferecer margens de concessão efetivas, que resultassem numa melhoria de vida da classe trabalhadora, ainda que apenas de alguns países.
Hoje, vivemos a etapa da degeneração mais completa de um sistema que transformou a tudo em mercadoria, ao mesmo tempo em que priva o trabalhador de vender a única coisa que ele possui: sua força de trabalho. Essa situação é muito importante de ser entendida, pois tem conseqüências práticas no tipo de luta que os trabalhadores e explorados irão travar. Por exemplo, a política de cotas que foi aplicada por reivindicação dos negros nos EUA na década de 70 possui diferenças com a situação atual, pois o sistema podia, por um lado, conceder cotas e, por outro, construir mais universidades, o que permitiu aos negros uma inclusão real, ainda que limitada. A dominação e o racismo continuaram existindo, mas houve conquistas importantes dentro do sistema capitalista.
No Brasil o governo Lula é altamente comprometido com a lucratividade do capital, o que tem significado ataques a todos os direitos conquistados anteriormente pelos trabalhadores. Várias personalidades do governo têm se referido às cotas, principalmente na universidade, na tentativa de escamotear a questão da desigualdade social, reduzindo-a a um problema de políticas públicas e, ao mesmo tempo, deixando intacta toda a estrutura social que continua gerando e aprofundando a desigualdade e a exploração. Por outro lado pretende-se enfraquecer os setores do movimento que estão mais organizados. Por último, reduz uma questão que é de cunho social ao plano da luta meramente étnica. Tudo isso para não transformar esse sistema que necessita dessas desigualdades para sobreviver.
Será possível, sem que se rompa com os limites do sistema - como o Estado burguês e sua institucionalidade e como a propriedade dos meios de produção concentrada nas mãos das grandes corporações -implementar uma política afirmativa plenamente efetiva? Acreditamos que não. O sistema não reserva mais qualquer possibilidade de melhorias para a maioria da população.
Vários setores que hoje defendem as políticas afirmativas e levantam essas bandeiras, ao mesmo tempo se calam perante o sistema. Esse é o principal limite ao qual estão presos, pois pretendem lutar por uma inclusão racial num sistema que já não inclui mais ninguém. Quaisquer reivindicações de políticas afirmativas sérias só poderão ser conquistadas abalando-se os pilares de sustentação do sistema.
Isso significa que as demandas tão necessárias para se corrigir e se reparar a gravíssima situação de desigualdade entre negros e brancos devem ser combinadas com a luta pela ruptura com a lógica e a ordem capitalista, sem a qual nenhuma delas poderão ser atendidas. Se a bandeira das cotas não for colocada profundamente ligada com a luta pela destruição do sistema do capital e para que os explorados - brancos e negros - se unam para estabelecer uma forma de poder da classe trabalhadora voltado para enfrentar os grandes problemas sociais, qualquer política de cotas vai se restringir a uma luta de caráter puramente étnico, que a burguesia e o capitalismo terão condições de absorver, possivelmente realizando algumas pequenas concessões; mas, acima de tudo, utilizando-se dessa luta para continuar e aprofundar sua dominação sobre os trabalhadores e, inclusive, aumentar o racismo.
Por outro lado, temos na esquerda socialista mais tradicional uma completa omissão, ou uma recusa, em enfrentar a questão do racismo como um problema que afeta a classe trabalhadora em sua luta e na possibilidade de superar o capitalismo. Os problemas decorrentes dessa realidade são geralmente tratados como se não tivessem conseqüências para a união da classe trabalhadora, que é composta em pelo menos 50% de negros. Podemos afirmar que a inexistência de uma intensa luta para enfrentar a questão do racismo na classe trabalhadora tem sido um dos maiores obstáculos para conseguirmos sua união como um todo.
A burguesia tem se utilizado muito bem até agora dessa falha na esquerda, reproduzindo um discurso racista disfarçado de que o Brasil é uma mistura de povos e costumes que se relacionam em harmonia. Pura enganação! O racismo existe e é muito grande, serve aos interesses econômicos e sociais de reprodução e manutenção do capital e as taxas altíssimas de exploração, que são maiores sem dúvida entre os negros e negras.
Essa unidade tão necessária - e que não será facilmente alcançada, por todos os preconceitos e modelos que nos foram impostos no decorrer de séculos - é um desafio que temos que ser capazes de realizar na prática das lutas.
É necessário combinar as demandas sociais e de combate/reparação ao racismo com o enfrentamento à lógica e à ordem capitalista exploradora. Trata-se de uma política que consiga, ao mesmo tempo, preservar as necessidades da luta dos negros e alcançar a unificação dos trabalhadores negros e brancos contra o capitalismo e por uma nova ordem social na qual possa existir a igualdade de fato e não uma igualdade meramente formal.
Nesse sentido, a proposta de cotas deve estar inserida numa proposta mais geral de lutas do conjunto da classe trabalhadora por emprego, moradia, saúde, educação digna e de qualidade. Que essas questões imediatas sejam impostas mediante a luta direta da classe como um todo. Que os resultados obtidos possam ser estabelecidos a partir de cotas que reconheçam as desigualdades hoje existentes e, ao mesmo tempo, lutem para superá-las. É preciso uma aliança entre os trabalhadores negros e brancos - preservados seus direitos específicos - para que possamos enfrentar e vencer o capital e todas as formas de exploração e opressão da humanidade.
Assim, a reivindicação de que os empregos gerados ou conseguidos pela luta sejam divididos em cotas 45 ou 50 % por exemplo, deve vir combinada com a luta pela redução da jornada de trabalho sem redução salarial, de modo que todos os trabalhadores se beneficiem desta mudança, através da geração de milhões de empregos necessários. Nas universidades públicas as vagas - devem ser destinadas aos jovens que tenham cursado, pelo menos, o ensino médio na Escola Pública, sendo também destinados 45 ou 50% deste total aos jovens negros.
É evidente que tudo isso só poderá ser imposto mediante a luta contra os interesses capitalistas e, em última instância, levará a uma ruptura do próprio sistema, ao questionar qual a classe deve ter o poder na sociedade, se os trabalhadores (negros e brancos) ou a burguesia.
Por isso a tarefa da reconstrução de uma consciência socialista de massas (nos termos de Marx) é uma das mais urgentes e deve ser combinada com necessidades concretas. Nos momentos da luta de classes em que os embates se tornarem mais agudos a questão da transformação do sistema estará colocada e não nos prepararmos desde já, significa uma traição ou pura ingenuidade para com a nossa classe e impedirá que essa transformação ocorra profundamente.
Somente uma sociedade socialista no profundo sentido da palavra - de socializar mesmo os meios de produção sob o controle e a serviço dos trabalhadores e da humanidade - é que pode colocar um fim à exploração e à desigualdade social entre os seres humanos, inaugurando um novo período na história humana. Onde tudo seja decidido democraticamente, respeitando-se as diferenças de gênero e raça, como diferenças físicas e não sociais.
A trágica história do negro no Brasil e o porquê do
sim às cotas
Carlos Wellington- ABC
Vivemos em dois mundos: um mundo real, concreto e um mundo fictício, ilusório e ideológico. O primeiro mundo nem sempre nos é acessível. Isto se deve ao fato de que o mundo concreto das relações sociais é, em nossa percepção, mediado pelo mundo da consciência. A consciência, devido à divisão do trabalho, à força ideológica da classe dominante e à alienação em que vivemos, é geralmente falsa, ou seja, não corresponde a realidade concreta.
Desta forma, nos meios acadêmicos e da esquerda brasileira, constituíram ao longo do século XX um véu nebuloso de ideologias que os distanciaram da realidade do segundo maior contingente de pessoas negras do planeta. Revoluções foram pensadas por esses acadêmicos e por essa esquerda, mas suas políticas discriminaram e não alcançaram o contingente de pessoas que penavam e penam ainda hoje na rua da amargura desde 14 de maio de 1888.
Neste contexto de extrema exclusão surgiu o discurso liberal para dar, paradoxalmente, cobertura ideológica ao preconceito e a sua política discriminatória contra o negro. Propalou-se e disseminou-se de várias formas nos meios liberais, que o Brasil conseguiu construir ou desenvolver a maior democracia racial do mundo.
A esquerda contribui com essa ilusão incutida no imaginário popular quando passou todo o século XX dizendo que o preconceito no Brasil é de dinheiro e não da pele.
Esquerda e direita se uniram em volta de um discurso liberal. Este, por incrível que pareça, foi o suporte da política discriminatória, racista, violentamente preconceituosa e que caracteriza a sociedade brasileira. Ao dizer que o preconceito no Brasil é de bolso e não de cor joga-se sobre o segmento negro explorado e discriminado a culpa da sua situação atual no sistema de estratificação social e de classe. Diz-se que há iguais oportunidades para todos, portanto o negro não se encontra no cume da pirâmide social por que não quer e dissipa seu tempo no samba, no futebol e no álcool.
O que acontece, na realidade é coisa bem diferente. Os negros foram burlados no processo de formação da sociedade brasileira e jogados na periferia. Trazidos como escravos tiveram suas matrizes culturais africanas estranguladas pela escravidão e em grande parte eram mercadorias para um senhor. Daí a média de vida útil ser baixíssima, de apenas 07 anos. Tratado como coisa e subordinado ao direito da época, o negro não tinha possibilidades de ascender socialmente, a não ser como quilombola, quando quebrava os padrões de normalidade estabelecidos para formar comunidades próprias.
No entanto, esta posição é escamoteada através daquilo que Gilberto Freire chamou de "bom senhor" e que consiste em dizer que a escravidão no Brasil foi benigna. Os senhores patriarcas cristãos foram bondosos, tratando os escravos como se fossem filhos naturais. Nada mais falso. Isto nunca aconteceu. As taxas de mortalidade de escravos no Brasil eram elevadíssimas. Os viajantes que aqui estiveram eram quase unânimes em afirmar que a situação em que se encontravam os escravos negros no Brasil não era nada idílica e não coincidia com o mito do bom senhor.
Terminada a escravidão o negro foi atirado compulsoriamente às grandes cidades em formação procurando trabalho. O grupo migratório de estrangeiros, no entanto, já entrava maciçamente no sentido de excluí-lo do centro do sistema de produção que se construía. O negro sobrou nesse processo. O preconceito de cor, neste contexto, funcionava como elemento de barragem permanente. Estereótipos eram elaborados para justificar o não aproveitamento do negro, criando-se um complexo de idéias justificadoras capazes de tradicionalizar essa barragem. O migrante estrangeiro, por outro lado, vinha sendo como o povoador ideal, superior, capaz de injetar os valores do trabalho perseverante que o negro "não possuía".
O que interessava - através dessa teia de valores e julgamento negativos contra o negro e favoráveis ao branco - era que o negro não fosse alistado como trabalhador por ser negro, pois o ideal das classes dominantes era fazer do Brasil uma nação branca.
O negro foi, por isso, lançado à periferia do sistema, não apenas para ficar no subemprego, no desemprego, na criminalidade e na prostituição, mas também para ser dizimado biologicamente nos surtos de meningite, desidratação, tuberculose, raquitismo e outras doenças. Além de sua destruição violenta por grupos racistas/repressivos como o esquadrão da morte, cujas vítimas de sua ação criminosa eram esmagadoramente negras. Hoje a própria polícia cumpre esse papel. A chamada democracia racial é a ideologia que justifica o processo discriminatório contra o negro. Jogando-se nos seus próprios ombros a responsabilidade de sua miséria material. O discurso liberal e também da esquerda é um mecanismo que se justifica a existência do gueto invisível que barra a população negra colocando-a naqueles espaços sociais altamente limitados, inferiorizados e que esse sistema secular de opressão permite que seja por eles ocupados.
Composto este discurso criam-se condições para que o preconceito racial entre como um elemento seletor natural colocando a população negra em situação de inferioridade absoluta.
O discurso liberal da democracia racial tem raízes históricas e prende-se aos segmentos da pequena burguesia, bacharéis, profissionais liberais e outros setores ligados ou subordinados. Esse liberalismo escravista, que surgiu durante o escravismo, reforçou-se depois com a visão cientificista do século XIX, o evolucionismo linear, o social darwinismo, as teorias de inferioridade racial e, em decorrência, a tese científica de que o Brasil seria tanto mais civilizado quanto mais branqueado. Dessa posição equivocada não escapariam os melhores e mais críticos estudiosos da época, como Sílvio Romero e Euclides da Cunha. Daí se origina a forte tendência à naturalização no imaginário popular da população branca brasileira, da ausência do negro nos principais lugares que a sociedade burguesa oferece.
Esquerda e direita unidas, cada uma a sua maneira, em torno de discursos racistas "liberais" que visam afastar os negros de benefícios, mesmo miseráveis, que a sociedade burguesa oferece. Benefícios que até então, só têm estado acessíveis para a camada de brancos da sociedade.
Em função de tudo isso, sempre que há possibilidade real de aproximação dos negros, os brancos se espantam. Exemplo disso e de forte reação foi o que ocorreu contra a UERJ ao reservar 40% de suas vagas aos negros. Fatos registrados, em parte, pela imprensa brasileira. A UERJ colocou em prática o que muitos gostariam que permanecesse apenas nos discursos. No fim das contas, o que se registrou foi a ânsia de legitimação da situação privilegiada que os brancos ocupam dentro do capitalismo brasileiro.
Os argumentos contra a política de ação afirmativa praticada pela UERJ não foram jamais expressos de modo claro e direto. Tudo se deu sob o democrático pretexto de se discutir a eficiência dessa ação. No entanto, a própria inconsistência dos raciocínios desenvolvidos mostra o verdadeiro sentido das críticas: manter os negros nos mesmos lugares que sempre estiveram dentro dessa sociedade capitalista.
Repassemos os argumentos recorrentes. Afirma-se que uma escola pública de qualidade tornaria desnecessária a política de cotas. Porém, todos nós sabemos, ou deveríamos saber, que essa escola pública só será possível em longo prazo, e as cotas são destinadas a negros que vivem aqui e agora. Nesse cinismo de misturar políticas educacionais de longo prazo com medidas emergenciais encontramos o primeiro sinal de um desprezo velado pela condição de imensa exclusão dos negros brasileiros.
Fala-se também que as cotas ferem o inalienável estatuto do mérito. Mas onde começa o mérito? A verdadeira igualdade é tratar as pessoas a partir de suas histórias. No caso do vestibular da UERJ, a imprensa levantou casos de jovens brancos que se sentiram lesados pelo tratamento dado aos negros. A reclamação tem sentido apenas se vista por uma ótica egoísta. Um jovem branco consciente de sua responsabilidade social frente ao racismo pode prover o seu mérito, inclusive moral, disputando uma vaga dentro do espaço naturalmente reservado aos brancos, deixando os negros com sua longa história sujeita a perversidades, disputarem outro tanto entre si.
Outro argumento que chega ao cúmulo do cinismo, talvez inconsciente, diz que a política de cotas é prejudicial por gerar conflitos. A esquerda diz que a política de cotas é parte de uma estratégia da elite de dividir para dominar. Neste argumento notamos que já existe uma divisão: os brancos dentro e os negros fora da universidade. Ignora que os brancos ocupam uma situação bem menos pior do que os negros fora da universidade e na sociedade capitalista brasileira. Portanto, se os negros querem visibilidade social e melhores condições de vida e de estudo, e isso desperta o incomodo branco, então que venha a tão necessária desavença. O que está implícito nessa idéia do não conflito é que o negro só deveria se aproximar quando o branco permitisse. Permissão impossível de vir do lado branco da sociedade a julgar pelo ataque que ocorreu, numa modesta medida paliativa como a das cotas na universidade.
As pesquisas são incontáveis, e já foram feitas em todas as áreas possíveis e imagináveis. Mesmo que não houvesse pesquisa, qualquer brasileiro pode, com um simples golpe de vista, ver que não há negros nos melhores lugares da sociedade. Essa recusa patológica, em admitir as evidências concretas - que permitem o nó mental de sustentar que se é contra as cotas por motivos racionais (até de classe) - na verdade tem motivação nas profundas raízes raciais.
Uma questão lógica, qualquer postura intelectual ou moral que colabore para manter o negro afastado do branco é, por definição, absolutamente racista. A negação da realidade de extrema exclusão da população negra no capitalista brasileiro, calcado em uma discussão pseudo-intelectual sobre as cotas, encontra explicação na história do projeto de embranquecimento que a elite brasileira possui. Um branco desconte é um branco que desconhece que os negros não estão de corpo nos lugares de destaque da sociedade e que em função desse desconhecimento, se opõe à política que visaria "reparar" aquilo que é justo por si só.
Socialistas que defendem uma sociedade igualitária mas não lutam com a metade da população que está distante dos seus lugares de trabalho, estudo, cultura, política,lazer, etc não são socialistas, são reacionários e racistas involuntários.
Direcionado à você que foge
e se esconde...
Marcelo
Silva Oliveira - (E.E. Antonio Adib Chammas ABC/SP)
Este texto é direcionado a você ser humano que foge de sua realidade, não aceita o que realmente é, mas aceita a manipulação que o sistema impõe, traindo a sua história e mentindo para si mesmo. Foge para todos os lados, mas quando olha está sempre no mesmo lugar.
Vários motivos me fizeram escrever sobre esse assunto. Principalmente por me perguntar: Realmente sei quem sou?
Não fujo da minha realidade e procuro analisar o passado para lutar no presente e ter um futuro digno. Na minha trajetória não caio nas armadilhas do sistema e não acredito em nada que ele me passa. Tenho orgulho do meu povo e luto incansavelmente para que a verdade sobre o povo negro seja dita, porque a nossa história foi contada pêlos brancos e foi distorcida.
A história do povo negro nunca foi escrita, sempre foi contada de geração para geração. Já está mais do que na hora de nós, negros, contarmos e deixar escrita a nossa verdadeira história e que sempre foi de luta.
É irmão negro, nossos antepassados não escolheram vir para o Brasil. O colonizador não disse: homem negro, mulher negra construiremos juntos a América. Ao contrário, disse: Entre negro neste barco vou construir a América com teu sangue.
Fomos obrigados a trabalhar como mão-de-obra escrava, construímos riquezas (sem poder usa-las até hoje) e depois fomos taxados como inferiores, sem alma e sem cultura. Fomos abandonados sem terra e sem direitos, jogados à margem da sociedade, a maioria nas favelas, nas ruas, a sofrer com a violência policial, com o desemprego, com menores salários e totalmente relegados pela mídia.
Depois de tudo isso você ainda acha que a culpa é nossa? Que estamos nessa situação porque queremos? Ou por que ao longo da história fomos seqüestrados, explorados, manipulados, exterminados, tratados como inferiores e sem ter nenhuma oportunidade na vida?
È irmão, quando tudo de ruim acontece com a sua pessoa, você não entende e fica perguntando o porquê disso. Você olha para os lados e para frente, mas não encontra respostas e acaba ficando sem nenhuma perspectiva de vida. Você não encontra resposta, por que ela só virá se você olhar para o seu passado, analisar toda história do seu povo e a partir daí fazer algo por você e por ele, só assim sua vida irá melhorar.
Não adianta fugir da realidade, por mais que você fuja, as raízes do teu passado estarão no teu presente e seguirão o teu futuro.
Procure se valorizar ao invés de se esconder. O valor de ser negro tem que ser maior do que qualquer preconceito. Se você soubesse o valor que a nossa raça tem, você pediria para pintar a palma da mão e a sola do pé também.
É irmão, não estou querendo ser pessimista, mas se as suas atitudes e formas de pensamento continuarem como eram antes de você ler esse texto, sinceramente eu não vejo dias melhores para você. A vida irá sempre cobrar por você não ter reconhecido a luta do seu povo e não ter aceitado quem você é. Pense nisso!
Políticas afirmativas não
são esmolas. São Direitos!
Eduardo Rosa
Grupo de União, Consciência Negra e Combate
ao Racismo Rosas Negra.
Cotas para negros devem ser
proporcionais:
A discussão sobre cotas universitárias causou grande repercussão nacional. A forma como está sendo veiculada nos meios de comunicação gera grande confusão, pois mostra negros que são contra e negros que são favoráveis. Com isso tenta mostrar que os próprios negros não têm acordo entre si sobre este assunto. Na verdade a confusão começa com os próprios percentuais para as cotas que não levam em consideração a proporcionalidade de negros em cada localidade. O governo apresenta 10, 20 ou 25%, mas estes índices não refletem nossa realidade. Números divulgados pelo IBGE mostram que somos metade da população, portanto devemos ter metade das vagas nas universidades.
Quem ocupará as vagas?
Dados apresentados pelo governo garantem que 40% dos negros/afrodescendentes não concluem o ensino fundamental e que 60% não concluem o ensino médio. Sendo assim, quem continuará ocupando as vagas na universidade e o que tem sido feito com a escola pública para reverter essa situação?
De que forma será garantida a
permanência?
Se as cotas universitárias garantem o acesso do jovem negro que consegui concluir o ensino médio à universidade é preciso uma política que garanta a sua permanência e a conclusão do curso. Isso não está sendo discutido pêlos órgãos governamentais. Livros universitários, alimentação, transporte custam caro. De onde saíra o dinheiro, já que os cotistas não possuem recursos? Acreditamos que esse dinheiro deve sair dos cofres de quem ganhou até hoje com a exclusão, a classe dominante.
Como fica a situação do
negro/afrodescendente depois de formado?
Garantida a formação do negro/afrodescendente um novo desafio será enfrentado: Quem contratará seus serviços e a que preço? O movimento negro há anos vem denunciando que um trabalhador negro/ afrodescendente formado ganha até 40% menos que um trabalhador branco na mesma função. As cotas universitárias, em tese, resolvem o anseio do jovem afrodescendente de entrar na universidade e assim diminuir o abismo existente entre jovens negros e brancos, porém permanece a situação de desemprego e subemprego.
Como a maioria da juventude negra afrodescendente vive na periferia - e alguns até em situação de risco - será um grande feito conseguirem concluir os estudos, mas não basta a cota universitária é necessária também a imediata aplicação de cotas no mercado de trabalho tanto para absorção de mão-de-obra recém formada quanto para diminuir as desigualdades existentes.
Defendemos que a política de cotas deva ser aplicada, de imediato, nos governos municipais, estaduais e federal nos cargos concursados e comissionados, nas câmaras municipais tanto para vereadores quanto para funcionários, o mesmo acontecendo na assembléia legislativa, câmara dos deputados e senado federal.
Quando Lula assumiu o governo a imprensa noticiou que teria a sua disposição cerca de 300.000 cargos. Se a política de cotas tivesse sido aplicada cerca de 150.000 negros/ afrodescendentes estariam trabalhando. No entanto se observarmos o primeiro e segundo escalões tanto do governo Lula, quanto das prefeituras administradas pelo PT logo percebemos que a nossa luta não será fácil.
Defendemos também que as empresas devam ser obrigadas a adotar a política de cotas, mesmo que seja por decreto e com incentivo fiscal. Severas punições até o fechamento das empresas que descumprirem e não regularizarem a situação. Nenhuma empresa terá suas atividades iniciadas se não contemplarem a política de cotas.
Muitos afirmam que os "negros não estão preparados para as novas exigências do mercado", mas sabemos que para estes senhores de engenhos modernos não estamos preparados desde de 14 de maio de 1888. Essa exclusão não tem a ver com a falta de estudos, mas com a corda nossa pele.
As empresas devem arcar com o treinamento e aproveitamento dos negros/afrodescendentes. Por exemplo: uma empresa no ramo de telecomunicações exige ensino médio completo e noções de informática para contratar funcionário. Sabemos que para o aprendiz colocar tomadas e puxar fios não é necessária essa formação. Se há necessidade para a empresa manter seus programas de qualidade pode-se contratar um negro/afrodescendente e investir na sua formação garantindo-lhe o acesso e a permanência nos cursos para que se torne 100% apto tendo o direito de conquistar sua posição em programas de qualidade. Esse é apenas um exemplo de política afirmativa.
Não podemos pensar em políticas afirmativas sem exigir de volta da classe dominante o que nos foi tirado durante séculos. Isso é utopia dirão os racistas velados. Mas para nós é apenas o início da luta pela implantação de políticas que possam garantir o mínimo de dignidade para negros/afrodescendentes.
Reparações já e sem demagogia:
Segundo o EDUCAFRO, entidade que promove curso pré-vestibular para negros e carentes, circula hoje no mundo algo em torno de quatro milhões de dólares a título de indenização para os judeus pelo fato de terem sido confinados em campos de concentração, além deterem sido despojados de seus bens e condenados ao trabalho escravo. Os judeus receberão indenização por ter sido constituído crime contra a humanidade.
Por motivos semelhantes os japoneses e seus descendentes receberão do governo dos Estados Unidos algo em torno de U$ 20.000 por seis anos de confinamento e trabalho-escravo. Se levarmos em conta a situação nipo-americana e considerarmos os 350 anos de trabalho escravo mais os 116 anos de exclusão dos brasileiros afrodescendentes cada um teria o direto de receber aproximadamente U$ 600.000.
Capitalistas e socialistas concordam que os atos cometidos foram contra a humanidade por isso dignos de reparações. Qual a dificuldade de entenderem a necessidade de políticas afirmativas e reparações aos negros/afrodescendentes? Não nos aceitam como seres humanos ou não reconhecem a escravidão e a exclusão dos negros como crimes contra a humanidade?
Já se passaram 116 anos da abolição e até hoje não se fala em indenização pêlos 350 anos de trabalho escravo. Por tudo isso, afirmamos que as políticas afirmativas não são esmolas e sim direito negado a todos afrodescendentes brasileiros. O movimento negro, em todo o território brasileiro, deve organizar o povo negro e sair as ruas para fazer valer seus direitos.
NEGRO
Negros que escravizam
e vendem negros na África
não são meus irmãos
negros senhores na América
a serviço do capital
não são meus irmãos
negros opressores ,
em qualquer parte
do mundo
não são meus irmãos
Só os negros oprimidos
Escravizados
em luta por liberdade
são meus irmãos
Para estes tenho
um poema grande
como o Nilo.
SOLANO
TRINDADE extraída do
livro “CANTARES AO MEU POVO”, Editora FULGOR.