Espaço Socialista

Publicação Revolucionária Marxista de Debates

Ano IV – Nº 11 – Junho 2004.

 

ÍNDICE

1. Imperialismo, Reformas e Luta de Classes

2. América Latina: Revoltas populares e Democracia Burguesa

3. Elementos Programáticos Contra a Democracia dos Ricos

4. Governo Lula: Todas as garantias ao capital; desemprego e miséria para os trabalhadores

5. Polêmica: Cadê o governo de Frente Popular?

6. O “Novo” Partido: Mais do Mesmo

7. Autêntica Metrópole

8. Poesias

 

 

Cresce a resistência,

mas falta a consciência socialista

 

 

IMPERIALISMO, REFORMAS E LUTA DE CLASSES

Nunca a discussão sobre o imperialismo foi tão necessária para entender o que ocorre hoje na situação político-econômica mundial. Foi-se o tempo das besteiras como "fim da história e da luta de classes". A globalização econômica, os movimentos anticapitalistas, guerra contra o Afeganistão e a invasão do Iraque são fenômenos que só podem ser entendidos se partimos de um ponto onde todas as forças populares dirigem-se contra: o domínio do capitalismo mundial pelas grandes potências lideradas pelos EUA.

Assim fica mais fácil entender porque que as reformas propostas pelo governo Lula são inócuas e procuram na verdade iludir o povo. Existe uma realidade econômica mundial que impede que o Brasil, por exemplo, venha ocupar um lugar como o da Alemanha ou França. Essa realidade baseia-se no domínio histórico das grandes potências dos fluxos de recursos e tecnologias que possibilitaria o desenvolvimento econômico das nações menos desenvolvidas. Há uma enorme polarização econômica entre a arquitetura estável do centro capitalista desenvolvido, ao redor de 20 nações que dominam a geografia variável de nações que buscam um melhor "status" econômico junto a esse centro estável, submetendo-se aos ditames das políticas antipovo do FMI.

Por geografia variável podemos mostrar que em diferentes estágios da história do século XX, alguns países subiram e depois desceram na gangorra dos países "queridinhos" pelos EUA e o FMI. Quem não se lembra da badalação feita em torno do México até 94, depois sobre a Argentina de Menem e Cavallo, o Peru de Fujimore, países que caíram no descrédito com as crises geradas pelas políticas aplicadas à risca como mandava o FMI na época?

Isso demonstra que o problema não é só de política econômica. Aliás, as políticas econômicas aplicadas só vêm a agravar a razão básica do subdesenvolvimento da América Latina: a drenagem de recursos financeiros para o centro desenvolvido. Por ano são extraídos da América Latina mais de 300 bilhões de dólares em juros, royalties e remessas de dinheiro pelas grandes empresas, a burguesia e a alta classe média.

 

ATUALIZANDO O CONCEITO DE IMPERIALISMO

Originalmente a categoria imperialismo baseava-se no fenômeno do fim da era da livre concorrência nos países centrais da Europa, EUA e Japão, da enorme rivalidade entre eles por novos mercados que resultava num forte movimento de exportação de capitais para assegurar o domínio de áreas estratégicas. Esse movimento das grandes potências desembocaria em possíveis enfrentamentos armados (como ocorreram na l e na II guerra mundial).

Porém na atualidade isso está mediado pelo poder assimétrico dos EUA, pela teia de interesses que perpassa todas as nações capitalistas. Isso faz com que as possibilidades de enfrentamentos sejam mediadas. É claro que há uma enorme rivalidade econômica entre as nações dominantes. Mas há um limite a isso. A invasão do Iraque foi um exemplo dessa nova situação. Tanto França como Alemanha tinham interesses no Iraque e foram contra a guerra. Os EUA foram lá e redefiniram as regras do jogo.

A agressividade tanto do ponto de vista econômico como militar e político tem sido uma das características marcantes do imperialismo na atualidade. Não só o imperialismo norte-americano, mas do imperialismo no geral. Temos assistido a uma enorme ingerência nos assuntos internos dos países, seja por parte dos organismos financeiros mundiais, seja por parte do departamento de estado norte-americano.

Essa agressividade econômica predomina hoje com várias roupagens. Nos anos 90 foi o neoliberalismo como resposta à derrubada ao muro de Berlim. Esse era o passaporte para a felicidade dos povos subdesenvolvidos que, aplicando o liberalismo nas suas economias, privatizando as empresas, abrindo os mercados, liberando as finanças e desregulamentando o mercado de trabalho, teriam crescimento econômico e distribuição de renda. Países como México, Argentina e Peru foram exemplares na aplicação desses planos. Não por acaso viveram os maiores descalabros sociais e econômicos, com  altíssimas  taxas  de desemprego e miséria. É  certo  que  as burguesias locais e a alta classe média ganharam    muito dinheiro, mas as custas da fome do povo!

            Esse caos econômico causado pelos planos de ajustes erodiu a autoridade política dos regimes, dos partidos tradicionais e de oposição. Como a burguesia nativa aceitou de maneira incondicional se submeter ao imperialismo, tanto fazia o governo de plantão, já que as políticas e seus aplica-dores estavam definidos desde então. É o caso do Brasil. Seja o governo FHC ou Lula a política é a mesminha: "superávit" primário alto para pagar os banqueiros, tirando dinheiro da educação, saúde e emprego, por mais que queiram mostrar o contrário.

Essa erosão que levou a derrubada de vários governos na América Latina tem a outra face que é o aumento do autoritarismo militar e policial contra o povo. Nunca mataram tantos lutadores e trabalhadores que ousaram enfrentar os governos. Isso iguala os governos atuais na América Latina aos militares.

No Brasil só no campo, durante o governo FHC e Lula já morreram mais de 2000 líderes. Podemos mesmo dizer que no Brasil já foi instaurada a pena de morte. Em São Paulo foram mortos pela polícia mais de 900 pessoas no ano passado. No Rio de Janeiro o número chega a casa dos 1200. E a violência, causada pelo desemprego, pela falta de políticas públicas, pelo tráfico de drogas que tem na ponta da pirâmide grandes empresários, políticos, juizes e banqueiros, mesmo com essa pena de morte não declarada oficial, não para de crescer.

Esse autoritarismo nacional é reflexo do autoritarismo militar do imperialismo. As invasões do Afeganistão e do  Iraque demonstram isso. As cenas de tortura de prisioneiros iraquianos, mostradas recentemente, são provas do que estamos dizendo. O imperialismo não respeita nem as instituições que ele mesmo criou como a ONU, que foi jogada numa grande crise após a decisão dos EUA de invadir o Iraque. Essa mesma ONU é incapaz de fazer valer qualquer medida contra o estado racista de Israel.

 

CRISE DO NEOLIBERALISMO OU DA IDEOLOGIA NEOLIBERAL?

Muito se diz sobre a crise do neoliberalismo. De fato podemos ver que vários governos têm se afastado da pecha de neoliberal. Porém a questão é mais profunda do que isso. O que está em questão não é a ideologia neoliberal, nem tão pouco uma política econômica. Hoje sejam governos de direita ou de esquerda, o receituário é o mesmo. Rigidez nos gastos públicos, fortalecimento da iniciativa privada, privatização econômica, eliminação dos direitos dos trabalhadores, aumento de impostos sobre os trabalhadores, pagamentos das dívidas externas e inter­nas. Tudo para gerar mais lucros para o capital financeiro. Isso faz notar que o domínio do capital financeiro é gigantesco.

E cai por terra a ideologia de privilegiar o capital "produtivo" versus o especulativo. Isso não passa de uma ideologia reacionária que buscar enganar os trabalhadores. Não há essa separação entre capital produtivo e especulativo. As políticas e os interesses são os mesmos.

E não há por causa dos constrangimentos dessa nova estrutura social e econômica, na qual a burguesia nacional se subordina aos interesses das burguesias metropolitanas saídas nacionalistas desenvolvimentistas. Assim não podemos esperar reformas que melhorem o nível de vida das massas como ocorreu nos países centrais no início do século XX. Podemos esperar sim a perda de direitos, se não lutarmos com todas as nossas forças.

O governo Lula articula já um enorme ataque aos trabalhadores ao planejar fazer a reforma trabalhista que visa tirar direitos da constituição e tornar o mercado de trabalho um dos mais precarizados do mundo.

 

CRESCE A LUTA INTERNACIONAL CONTRA O IMPERIALISMO

Os revolucionários sempre defenderam que a luta contra o capital tem que ser global ou não será vitoriosa. Até o fim do século passado, essa consigna parecia meio utópica. As lutas nacionais tinham um peso extraordinário e a ligação com outros países era escassa. No entanto a globalização econômica, a homogeneidade das políticas e reformas estruturais do capital e os novos meios de comunicação facilitaram a coordenação das lutas internacionais. O exemplo foi o movimento anticapitalista e a luta contra a guerra do Iraque.

Apesar da ofensiva do imperialismo, essas lutas sentaram formas de organização que serão muito importantes no futuro. Ainda mais que uma crise econômica se avizinha, colocando em vermelho vivo a necessidade dos trabalhadores de todo o mundo de enfrentaram o capital em escala global.

A instabilidade política causada pela guerra no Iraque e na Palestina elevou o preço do barril de petróleo, o que pode lançar o mundo inteiro numa recessão. Isto pode fazer os governos apertaram ainda mais a exploração sobre a classe trabalhadora.

Tudo isso exigirá de nós respostas e propostas a apresentar à classe para que superemos a crise de alternativas que marca a atualidade. É necessário reconstruir os organismos de luta da classe, tais como os sindicatos, superando os seus aspectos corporativos e estreitos, sua burocracia, dotando-os de uma real participação e controle dos trabalhadores sobre a direção.

É preciso reconstruir também a consciência de classe socialista. Temos que superar a confusão causada com o stalinismo. A classe deve lutar para ter o poder, derrubar a burguesia, o capital e o estado, criar um sistema auto-gestionário da riqueza para usufruto de todos, sem ter um chefe ou burocrata dizendo o que fazer ou não. Só assim poderemos assegurar a vitória sobre o capital.

 

 

América Latina:

Revoltas populares e Democracia Burguesa

 

AS CAUSAS GERAIS DAS REBELIÕES POPULARES NA AMÉRICA LATINA

 

O ponto de partida para analisar a conjuntura mundial ou local, deve ser a crise histórica do capital, uma crise de super­produção tanto de mercadorias quanto de capitais.

Essa constatação ganha importância decisiva, a medida em que, motivado pela necessidade de sobrevivência do capital, todo o projeto político e econômico do imperialismo e seus sócios, visa dar uma resposta a esse problema central da economia capitalista.

A mundialização do capital e da economia - que é o controle do mercado mundial por poucos grupos transnacionais - deu uma imensa liberdade de movimento ao capital no sentido de contornar a crise, jogando-a para frente e está representada por formas que ajudam o capital financeiro e o produtivo.

Nas últimas décadas a produção de bens na economia mundial está marcada pela implementação do desenvolvimento tecnológico (robotização, máquinas com maior precisão, etc) e de novas formas de organização e gerenciamento da produção (controle de qualidade, ilhas de produção, etc). Esses dois elementos foram a base para multiplicar a capacidade produtiva da economia capitalista, sobretudo nos países desenvolvidos.

Assim a economia mundial está marcada pela capacidade de produção superior à possibilidade de absorção dessas mercadorias pelo mercado. Em síntese, produz-se mais do que se pode vender e, dessa forma, instala-se a crise de superprodução capitalista. Assim o capital é obrigado a desenvolver novos mecanismos de absorção dessa mercadoria excedente, sejam a criação de blocos comerciais, guerras ou imposição de um modelo econômico, como é o caso do neoliberalismo.

É neste aspecto que se enquadra a implementação do neoliberalismo que tem em sua base a imposição de planos que criam um alto grau de espoliação e dependência das economias periféricas em relação às economias dos países desenvolvidos e, para viabilizar esse projeto econômico, a recolonização política dos países subdesenvolvidos (ALCA, por exemplo).

A análise desse processo leva a verificar que nos países sub-desenvolvidos há uma super exploração dos trabalhadores (queda nos salários, fim dos benefícios previdenciários, reformas trabalhistas, etc) e uma prática do Estado no sentido de garantir o financiamento público da crise capitalista, quando os Estados subdesenvolvidos destinam parte importante de seus orçamentos ao "serviço da dívida" ou "incentivo à produção" (isenção de IPI, por exemplo).

Essa política, ainda que favoreça diretamente o capital financeiro significa um apoio direto ao conjunto do capital, entendido como unidade entre setores financeiros e produtivos. Aqui cabe referência (que exploraremos em outra ocasião) a um setor da esquerda, inclusive a dita revolucionária, que faz uma separação mecânica entre o capital financeiro e capital produtivo (que se traduz na reivindicação de investimento no setor produtivo), o que induz os trabalhadores a pensarem que existe uma diferença substancial entre burgueses produtivos e financeiros. Ocorre que todo capitalista tem tendências rentistas, principalmente pelo fato de que o valor que circula no mercado financeiro tem origem na exploração da mais-valia dos trabalhadores.

Esse é um financiamento da crise do capital como um todo. Mas há ainda o financiamento da crise de diversos setores da produção, sendo que o Estado patrocina diversas atividades para favorecer determinados grupos econômicos, como é o caso das guerras que favorecem diretamente a indústria armamentista.

Na implementação desse modelo o Estado também se trans­forma para facilitar o financiamento da crise e legitimar, através das reformas nas legislações, a exploração dos trabalhadores que são os que pagam o preço da crise do capital.

É a maximização da politização do Estado a que o Manifesto Comunista se refere, ou seja, se em outro momento o Estado tinha uma política de "bem-estar-social" com benefícios como a aposentadoria, hoje se voltou totalmente para os novos objetivos do capital. Assim o Estado se apresenta como é: um instrumento político a serviço da burguesia e se estrutura conforme os interesses econômicos dessa classe dominante. A conversa fiada da burguesia de que o estado é algo independente e autônomo cai por terra quando verificamos que boa parte dos gastos pública está voltada para o pagamento das dívidas externa e interna. Os cortes no orçamento, a Lei de Responsabilidade Fiscal e outras medidas estão todas voltadas para o benefício dos donos do Estado.

Esse financiamento ocorre tanto nos países imperialistas quanto nos subdesenvolvidos. Nos países imperialistas os credores são os grandes grupos nacionais que têm créditos provenientes de "serviços prestados" (gastos militares, por exemplo) ao Estado. Já nos países subdesenvolvidos os credores são os grandes grupos do mercado financeiro mundial (bancos, Banco Mundial, BID, FMI, etc), com créditos oriundos da ciranda financeira.

Isso também explica todo o esforço de "investimento" e financiamento nas campanhas eleitorais quando se aplicam milhões de dólares com o objetivo de manter os eleitores sob controle político e financeiro.

 

As CAUSAS ESPECÍFICAS DAS REBELIÕES NA AMÉRICA LATINA

A análise apresentada anteriormente visa compreender como a política geral do capital se expressa na América Latina e quais as conseqüências da aplicação desses planos.

Assim como no mundo, as relações de classes são marcadas por uma forte ofensiva do capital sobre todos os trabalhadores e povos. Essa ofensiva ocorre em todas as frentes, como a econômica, a política e a militar. Em que pese a resistência dos trabalhadores com revoltas espetaculares, essa ofensiva global tem sido brutal para todos nós e é parte da busca do capital de superar sua crise.

Assim não podemos falar que se trata de uma ofensiva da burguesia dos EUA, mas do capital como uma totalidade, uma vez que, todas as empresas multinacionais (alemãs, suecas, francesas, etc) utilizam os mesmos planos e métodos.

A análise e caracterização desse movimento do capital devem ser feitas a partir de dois aspectos: as transformações do ponto de vista da economia e do Estado burguês e as influências nas condições de vida dos trabalhadores.

Sob a ótica dos interesses burgueses, todas as economias da América Latina vivem um grau de dependência sem precedentes em relação ás economias dos países desenvolvidos. Essa dependência tem como pilar o mercado financeiro com as sucessivas chantagens de fuga de capitais (são pagas as maiores taxas de juros do mundo para manter esses capitais), queda permanente dos preços de matéria prima, desindustrialização, concentração da economia do campo nas mãos do agronegócios (voltados exclusivamente às exportações), etc. Essas também são as causas da crise e estagnação porque passam os países da América latina.

As conseqüências para os trabalhadores são as mais nefastas. Como, na lógica do capital, os países pobres devem sustentar os trabalhadores da América Latina há muito tempo têm suportado todos os tipos de planos sendo cada um mais feroz que o outro. Podemos falar de congelamento e até mesmo redução de salários, fim de benefícios como a aposentadoria, cortes de investimentos em saúde,educação,etc.

A pobreza, o desemprego e a miséria aumentam em proporções alarmantes. Segundo dados da insuspeita OIT (Organização Internacional do Trabalho) no ano passado já havia 19 milhões de trabalhadores desempregados somente nos centros urbanos, outros 45 milhões vivem no mercado informal sem nenhum direito ou garantia trabalhista. Daqueles que estão empregados um em cada dois não recebem o suficiente para tirar a família da situação de pobreza. Os dados não param por ai, pois conforme a também insuspeita CEPAL, em 2002, havia 220 milhões de pessoas pobres, sendo que o índice daqueles que se encontram na indigência situa-se na casa dos 19% da população estimada em 800 milhões.

Para afastar qualquer desconfiança de que somos parciais em apontar esses dados, primeiro como conseqüência da política do capital e depois como a mola propulsora das rebeliões, vejamos a declaração de Augustín Munoz, diretor regional da OIT: o estudo confirma nossa preocupação pelo desempenho do modelo de desenvolvimento aplicado desde o início dos anos 90, que se caracterizou por deixar de lado os efeitos sociais das políticas econômicas". (Revista Época de 07/ 01/2004).

Há outro fenômeno que não pode ser esquecido como causa da pobreza que é o fechamento de postos de trabalho como produto da reestruturação produtiva. Em todos os países houve redução de postos de trabalho e também no Brasil. De acordo com dados da corretora americana AIliance Capital, no Brasil o fechamento de postos de trabalho no período de 1995 até 2002 significou 19,9% das vagas disponíveis naquele período. O grave nesse dado é que, mesmo que haja uma recuperação econômica e retomada da produção, os capitalistas não mais precisarão contratar.

 

NOVAS FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DO CAPITAL E A CRISE DO VELHO MOVIMENTO OPERÁRIO

A partir das condições de vida que o capitalismo mundializado impõe aos trabalhadores de todo o mundo, em especial aos do nosso continente, têm se produzido diversas lutas contra o neoliberalismo. Se outrora esse modelo econômico teve a simpatia e apoio dos trabalhadores (as privatizações contaram com o apoio e a ilusão dos trabalhadores), o que vemos na atualidade são diversas lutas de resistência aos sucessivos planos que são aplicados. Também têm ocorrido lutas que têm como reivindicação a ruptura com o FMI, como é o caso das 2 últimas greves gerais na República Dominicana.

Que várias lutas foram incorporadas ao cotidiano dos trabalhadores não cabe nenhuma discussão e é um fato indiscutível da realidade. As causas, tratamos anteriormente e agora queremos discutir como o movimento e suas organizações têm se comportado diante dessas crises.

Em primeiro lugar, vale destacar que o velho movimento operário (expresso nos modelos sindicais tradicionais) está em crise, não no sentido de estar acabando, mas sim de não conseguir mais responder aos problemas que a luta de classes tem colocado. O capitalismo mundializada inovou em sua forma de exploração (terceirização, reestruturação produtiva, etc) e aos trabalhadores também cabe inovar em seus métodos de lutas. Isto envolve questões como o limite das lutas por salário até a necessidade de uma organização internacional para coordenar as lutas contra os grandes oligopólios e monopólios.

Durante toda a segunda metade do século passado, o velho movimento operário teve nos grandes sindicatos (no período fordista, em vários países a classe trabalhadora era numerosa) e nos partidos parlamentares de esquerda (PC'S, Social Democracia, movimentos nacionalistas, etc) a sua base de sustentação, que via de regra, se guiava por uma estratégia de solução dos problemas nos marcos das fronteiras nacionais. Outro ele­mento que guiava esse período era a possibilidade do capital em fazer algumas concessões materiais aos trabalhadores em decorrência do período de "boom" econômico que as principais economias do planeta mantiveram até, pelo menos, o início da década de 70.

Essas condições econômicas alimentavam ideologicamente esse movimento operário, que nos países desenvolvidos buscavam uma solução na melhoria de vida através do aumento da capacidade de consumo, nos países pobres o nacional - desenvolvimentismo era o grande eixo programático desse movimento. Essas políticas se desenvolveram, em regra, a partir da orientação dos PC's e da Social Democracia nos países ricos e de correntes sindicais nacionalistas, que tinham grande peso no movimento sindical latino-americano.

A partir das novas formas desenvolvidas pelo capital, esse período de concessões ficou para trás e com ele essa forma de organização que não consegue responder aos novos desafios que a luta capital-trabalho colocou na ordem do dia, ou seja, para se contrapor ao capital também será preciso superar completamente a estratégia e os métodos de luta tradicionais. O poder não está mais nas mãos dos políticos, que são cada vez mais fantoches, mas sim nas reuniões dos executivos dos grandes grupos econômicos que podem decidir a sorte de um povo inteiro com suas decisões. Esse é o poder real. Assim, mesmo uma luta por salário pode envolver grupos transnacionais que têm seu centro de decisão em outro país.

O que explica o esvaziamento das antigas formas de organização e de luta de massas, e inclusive a crise das correntes políticas, é, antes de tudo, essas mudanças na realidade e a incapacidade do movimento tradicional de corresponder às novas exigências. Esta crise ganhou dimensões recentemente, mas ela já está presente há muito tempo.

Mesmo os momentos onde ocorreram processos de auto-organização dos trabalhadores, como os cordões industriais no Chile, as Coordenadoras argentinas, as assembléias populares na Bolívia, essa concepção de movimento se mostrou incapaz de avançar na luta contra a totalidade do capital.

Há outros fatores que contribuem para essa crise - que na verdade são conseqüências da exploração capitalista - como a desindustrialização de alguns países (a Argentina teve seu parque industrial reduzido drasticamente) e os reflexos da reestruturação produtiva (mineiros bolivianos reduzidos a 10% do que eram na década de 80). Esses dois exemplos representam uma parte das condições objetivas que fazem desenvolver essa crise do movimento operário. Na Argentina a principal base de sustentação da burocracia era o proletariado industrial ao passo que na Bolívia durante décadas a COB teve nos mineiros a sua base de sustentação.

A expressão política dessa crise é a completa adaptação dos velhos aparatos ao Estado burguês. Em alguns casos ocupando postos, como é o caso de vários dirigentes da CUT brasileira e em outros o apoio explícito a governos burgueses, tendo como melhor exemplo algumas centrais sindicais argentinas. Essa incorporação produz resultados lamentáveis, ou seja, alguns sindicatos incorporaram á sua pauta a luta pelo desenvolvimentismo capitalista, fazendo reproduzir velhas idéias burguesas.

 

ENTRE A CRISE DO VELHO E O SURGIMENTO DO NOVO, NOVAS EXPERIÊNCIAS.

Para o surgimento do novo o velho há que estar questionado. Esse processo não tem resultados imediatos, não basta a crise para que todas as condições de sua superação estejam dadas. Encarando-o como processo histórico atuam todas as contradições que fazem avançar e recuar essa luta até a sua consolidação. Também há que ser destacado que é o reflexo da situação da luta de classes.

No processo latino americano não podemos indicar a existência de nenhum movimento que tenha forças suficientes para se apresentar como alternativa.

No fim da década de 90, a partir das mobilizações de Seattle, se cogitou que poderia estar nascendo uma alternativa ao modelo tradicional de organização do movimento operário. A força desse movimento estava em seu caráter internacionalista que depois de décadas era retomado nas lutas dos trabalhadores do mundo.

Infelizmente esse movimento não avançou nesse sentido e em alguns casos até retrocedeu. O principal motivo para a estagnação foi o vacilo em relação a uma opção programática clara contra o capitalismo, ou seja, era necessário superara luta que tinha como foco somente o neoliberalismo. Esse processo também não está determinado, pois na Europa, principalmente na Inglaterra e Escócia, há um setor importante deste movimento que caminha rumo ao socialismo.

Recentemente na Argentina, durante o Argentinaço, surgiram e se desenvolveram novas formas de organização dos trabalhadores e explorados, entre os quais as assembléias de vizinhos que ganharam maior projeção por serem organismos que se espalharam por diversas regiões, reuniam milhares de pessoas e discutiam assuntos de interesse daquela localidade e do país (desde a religação de telefone e energia elétrica até os acordos com o FMI).

Era um movimento completamente independente dos velhos aparatos sindicais e políticos do país, mas por fatores que não cabem serem investigados aqui este movimento também não se consolidou e não conseguiu se apresentar como alternativa.

O que podemos constatar é que há várias experiências sendo construídas e gostadas no interior do movimento social e que certamente poderão oferecer elementos importantes para a construção de novas formas de organização dos explorados. Sob pena de não prosperarem, essa;

novas formas deverão responder aos desafios no sentido de rejeitarem o capitalismo como um sistema viável para a humanidade.

A luta pelo socialismo, com o poder sob controle real dos trabalhadores auto-organizados, é o norte para a construção de uma nova sociedade e tem que ser o elo de ligação entre todas esses novos modelos de organização que estão em construção. Trata-se de desenvolver formas cada vez mais amplas e em base à democracia direta: conselhos operários, órgãos de gestão de escolas, hospitais e principalmente romper com a lógica alienante da relação representantes e representados.

 

AS REBELIÕES E AS CRISES POLÍTICAS RUMARAM PARA UMA SAÍDA BURGUESA

A necessidade de combater as saídas negociadas ou canalizadas para a via institucional é fundamental, principalmente porque cabe aos revolucionários explicar que qualquer forma de poder da burguesia (parlamentarismo, presidencialismo, monarquia etc) não pode garantir o mínimo de democracia aos trabalhadores, pois seus interesses são opostos e atendem única e exclusivamente às necessidades da classe capitalista.

Nas graves crises políticas, como a vivida em vários países da América Latina, a burguesia tem duas opções: golpe de estado ou uma saída eleitoral, institucional ou constitucional. A escolha da saída leva em consideração o que pode ser mais prático e eficaz. Nas décadas de 60 e 70 o instrumento comumente utilizado foi o golpe de estado. Se do ponto de vista repressivo, de eliminar fisicamente milhares de lutadores essa saída foi extremamente eficaz, do ponto de vista político apresentou limite. Essas ações foram alimentando o ódio ao aparelho de estado que dava certeza que mais cedo ou mais tarde os governos militares cairiam. Foi exatamente o que ocorreu, caindo quase todos no início dos anos 80.

Nos últimos anos, principalmente a partir da década de 80, a burguesia e o imperialismo deixaram em segundo plano a intervenção militar e passaram a priorizar as saídas negociadas sendo que as instituições da democracia burguesa ocupavam o primeiro plano e dessa forma, com um discurso democrático, retiraram de cena o aparato repressivo do estado, preservando-o e colocando a culpa nos governantes de plantão. É o que demonstra a queda de Collor, dos presidentes argentinos, Fujimori no Peru e mais recentemente o presidente boliviano.

Mesmo que muitas vezes a burguesia seja derrotada isso não significa que ela não tenha planos e uma política para responder a cada crise que lhe ameaça o poder e o controle sobre a vida das pessoas. Nos últimos anos podemos apontar várias crises de proporções gigantescas que colocaram a burguesia e o imperialismo em dificuldades. No entanto, isso não significa que não levaram adiante fortes ataques tanto à situação econômica dos trabalhadores quanto ao seu nível de consciência.

No momento o que nos interessa analisar e buscar comprovar é a supremacia da política de reação democrática burguesa em resposta ao ascenso e revolta dos trabalhadores. Se em outras regiões (Kosovo, Afeganistão, Iraque, Palestina, etc) há um renovado uso dos meios militares, no continente americano o que tem prevalecido são as saídas a partir das propostas democráticas e institucionais, que têm nas eleições o seu principal trunfo.

Nos últimos anos, no Equador, na Argentina e na Bolívia ocorreram as principais rebeliões populares que colocaram abaixo os governos de plantão e estabeleceram crises poucas vezes vistas. Com um ascenso poderoso e rigoroso, os explorados estiveram as portas dos palácios e, no entanto, o que prevaleceu, mais uma vez, foi a saída eleitoral. Podemos discutir as causas e conseqüências dessa aposta mas o fato é que a consciência dos trabalhadores sucumbiu à proposta burguesa (apoiada pelas direções tradicionais do movimento operário). Nesse momento em que a burguesia e o imperialismo poderiam ter optado por golpes militares, não o fizeram porque, mais uma vez, a reação democrática mostrou sua força e capacidade de enganar os trabalhadores.

Para aqueles que argumentam que não houve golpe pela fragilidade do estado, basta lembrar que nesses países, em nenhum momento o aparato repressivo sofreu qualquer desgaste ou ruptura a ponto de fragilizá-lo e impedi-lo de cumprir as funções de controle e repressão àqueles que ousam questionar o sistema capitalista, ou seja, a crise política se limitou a um aspecto do poder do capital. O estado não foi questionado em sua totalidade, não esteve em perigo o conteúdo do poder capitalista mas apenas a forma que se expressava nos presidentes.

Queremos aclarar que não estamos dizendo que a política da burguesia e do imperialismo transformou os golpes e as ditaduras sangrentas em coisas do passado, pelo contrário, seguem e seguirão presentes como opção a ser utilizada assim que o seu poder estiver questionado de forma que as eleições não sejam mais suficientes para enganar os trabalhadores e explorados. Para isso basta verificar a presença militar americana e dos países imperialistas em várias partes do mundo.

Para tirar as lições necessárias, não podemos ocultar que a arma democrática tem demonstrado uma eficácia espetacular garantindo em alguns países, como o Brasil, reformas que as ditaduras mais sangrentas e violentas não conseguiram.

 

O BECO SEM SAÍDA DA DEMOCRACIA BURGUESA

O mais lamentável é que as crises políticas e rebeliões populares logo encontraram os seus limites, pois do ponto de vista da consciência não buscavam outra coisa senão melhorias de vida no marco do capitalismo. A busca por mudança ou transformação não incluía a revolução socialista como o objetivo final, mas apenas a derrubada daquele governo que era identificado como o responsável pela situação de miséria e pobreza que marca o nosso continente.

Os trabalhadores não conseguiram entender (e a esquerda tem muita culpa nisso) que a sua condição de vida só vai mudar se o capital, em todas as suas formas, for destruído e eliminado.   

Enquanto os trabalhadores não avançarem para a compreensão que a democracia dos ricos está limitada pelas relações de produção e do dinheiro, que subordinam toda a vida social sob o capitalismo, e que o poder econômico é o determinante, a burguesia encontrará espaço para aplicar a sua política, seja democrática ou ditatorial.

O objetivo dessas rebeliões, que visavam apenas a derrubada do governo, era também seu limite, pois trocaram os governos e a situação continuou a mesma, já que o problema central não está simplesmente na figura do presidente, mas nas mãos de que classe social está o poder e a serviço de que tipo de sociedade. Assim os trabalhadores explorados rebelados devem voltar suas armas para o poder econômico, de forma que questione a propriedade privada e a apropriação do produto do trabalho. Esses são os pilares do sistema capitalista e a partir do momento que os trabalhadores identifiquem neles os causadores de seus males haverá um avanço na consciência e, dessa forma, o que vai estar em cheque não é só o governo, mas o sistema capitalista como um todo, ou seja, o governo, o regime, o estado e o poder econômico.

Assim que os trabalhadores voltarem todas as suas energias para o controle social da produção significará também que haverá necessidade de constituir formas de controle da produção e distribuição coletiva e assim uma modificação substancial na sociedade, pois tanto o poder político como a produção estarão sob controle dos trabalhadores.

A vitória da burguesia pela reação democrática não se expressa apenas na realização de eleições mas também em garantir que as idéias dos trabalhadores e explorados são as mesmas da burguesia. Assim o assistencialismo e a falsa solidariedade (fome zero, por exemplo), a luta por direitos legais, reivindicações no campo da cidadania, a luta pela igualdade formal, etc, são a sustentação da reação democrática, pois não questionam o poder econômico e o estado capitalista, criando ilusões de que os problemas poderão ser solucionados "se as coisas correrem bem no futuro".

 

 

ELEMENTOS PROGRAMÁTICOS CONTRA A DEMOCRACIA DOS RICOS

 

Como já discutimos antes a democracia burguesa tem se mostrado como um instrumento importante para frear as lutas e enganar os trabalhadores. Nesse sentido consideramos essencial que o movimento dos trabalhadores, em especial os revolucionários, busquem construir um programa que seja capaz de apresentar aos demais setores do movimento social ma proposta coerente e que consiga unificar a luta por uma nova sociedade.

 

CONTRA AS IDEIAS BURGUESAS, IDEIAS SOCIALISTAS!

Os trabalhadores lutam todos os dias, seja por aumento de salários, contra o governo, por melhorias no bairro e outras tantas lutas. Apesar de importantes são lutas que se apresentam com um fim em si mesmo, que não tem qualquer objetivo de questionar a totalidade do sistema de dominação capitalista. Como não são direcionadas à causa dos males reais, que é o capital, têm demonstrado que não significam um perigo real ao capital, sendo facilmente desviadas e não conseguem solucionar os problemas dos trabalhadores.

Assim se o objetivo da luta é derrubar o governo quando este cai a luta chegou ao fim; se o objetivo é um aumento de salário e este é conquistado a luta também chegou ao fim. E o capital, a causa de todos esses males?

A tradição da esquerda no século passado foi concentrar a luta na estratégia pela tomada do poder de estado, com uma concepção praticamente golpista da revolução, esquecendo que nenhuma super estrutura se mantém se não houver uma sustentação pela consciência, pelo desenvolvimento do domínio das idéias do proletariado em substituição às idéias burguesas, ou seja, a hegemonia ideológica.

A concepção que o poder estava garantido só com a "tomada do palácio de inverno" trouxe graves conseqüências para a atuação dos revolucionários durante todo o século XX, fazendo com que se perdesse de vista que a revolução é um processo histórico que engloba  a necessidade de construir e impulsionar permanentemente a consciência, a ação e a organização revolucionária dos explorados, o desenvolvimento de uma cultura que crie condições necessárias para a nova sociedade, formas organizativas que expressem o exercício do poder pelo proletariado auto-organizado, que seja capaz de orientar o conjunto dos explorados e principalmente que os explorados queiram transformar a sociedade, que tenham consciência e que acreditem na possibilidade da construção do socialismo.

O processo latino americano coloca na ordem do dia a discussão do papel da subjetividade no processo revolucionário que se expressa no desenvolvimento e construção da consciência dos explorados enquanto classe e dessa forma possa se apresentar com um projeto alternativo ao capitalismo. Nesse sentido estamos com Lênin de que o desenvolvimento da consciência revolucionária dos trabalhadores é parte fundamental de qualquer revolução e o papel dos revolucionários é, junto com os trabalhadores, descobrir que é necessário ir além da derrubada do um governo, de um aumento de salário ou de uma eleição.

            Essa reflexão parte do principio de que não basta que as condições objetivas estejam maduras (já estão há muito tempo) para a revolução, significa também que é necessário, e de certa forma determinante, que os trabalhadores e explorados queiram fazer a revolução. Para nós as condições subjetivas não se resumem na construção de um ou mais partido revolucionários, mas que os trabalhadores, enquanto classe, tenham a plena consciência de que o capital é o seu verdadeiro inimigo portanto a subjetividade vai além da construção do partido revolucionário.

Todas as lutas perdem sentido se não estiverem conscientemente direcionadas para derrubada do capitalismo, que sejam capazes de construir, no cotidiano, forma efetivas de exercício de uma alternativa ao capitalismo e que possa apontar práticas que sejam capazes de modificar todos o aspectos da vida social.

Assim, ganha importância decisiva na atuação e intervenção na luta de classes o papel dos revolucionários de alertar os trabalhadores de que não bastar lutas imediatas. A denúncia dos governos, do parlamento burguês e seu sistema de representação do capitalismo, devem estar em lugar de destaque nessa intervenção.

Contra a democracia burguesa, a revolução é um ato democrático através do qual os trabalhadores explorados impõem a vontade da maioria sobre a classe burguesa, que apesar de minoritária detém o poder político como conseqüência do poder econômico. A revolução socialista deve estar dirigida à destruição de todas as formas de poder burguês, formas política e econômica, a destruição da propriedade privada.

A chamada representatividade da democracia burguesa é o reflexo da dominação de classe e da alienação das relações mercantis que são inerentes ao capitalismo. A superação das relações econômicas capitalistas precisa estar associada à superação da democracia burguesa e das idéias que a justificam e lhe dão legitimidade.

A luta ideológica e a propagação das idéias revolucionárias e socialistas precisam de homens e mulheres para se colocarem em movimento. Esses homens e mulheres nada mais são do que a classe trabalhadora consciente e dotada de idéias revolucionárias. Se formos capazes de ajudar os trabalhadores a se apropriarem das idéias socialistas, nenhuma força, por mais reacionária e violenta que seja, será capaz de deter o futuro da nova sociedade.

 

QUE A EMANCIPAÇÃO DOS TRABALHADORES SEJA OBRA DOS PRÓPRIOS TRABALHADORES!

            Essa frase, muito conhecida e presente em muitos materiais de esquerda, nunca foi apresentada com o seu significado mais radical, que é a urgência e necessidade de que os trabalhadores auto-organizados tomem o destino da sociedade em suas próprias mãos sem nenhuma forma de mediação, seja ela qual for. No atual processo revolucionário que passa a América Latina, como já dissemos, em pelo menos três países esteve colocada a discussão para o conjunto dos lutadores sobre a questão do poder. A maioria da esquerda colocou a palavra de ordem de "Todo poder às organizações dos trabalhadores" (COB na Bolívia, Centrais sindicais na Argentina e Equador, etc), sem levar em conta tanto o grau de atualidade dessa palavra de ordem quanto a sua validade em decorrência ao atual estágio das ditas organizações do movimento dos trabalhadores.

Nós nos opomos a essa formulação pela análise que fazemos do atual grau de degeneração da maioria dessas organizações ou mesmo pela crise do modelo tradicional que elas têm como referência, ou seja, sempre se limitaram às reivindicações no âmbito das questões econômicas mínimas ou no máximo contra o governo, esquecendo que o sistema capitalista é uma totalidade que envolve parlamento, governo, escolas e outras instituições e que, portanto, devemos construir um movimento que questione o capital como uma totalidade.

Neste modelo tradicional os trabalhadores nunca decidem de forma direta os rumos que o movimento deve seguir, não há qualquer forma de organização independente e a estrutura também acompanha modelos que privilegiam o personalismo em detrimento de formas coletivas e auto-organizadas do conjunto dos trabalhadores. Essa forma e concepção que acompanham essas entidades resultaram no fato de que a opção nos momentos de crise (podemos citar as recentes e outras do passado como a crise boliviana de 1985) foi por uma saída nos limites da democracia dos ricos, seja pela formação de alianças ou mesmo por um governo genuinamente burguês.

Também destacamos que defendemos que qualquer forma de poder dos trabalhadores e dos explorados só será forte o suficiente se romper com lógica superestrutural das revoluções do século XX, quando predominou (a exceção fica por conta de poucos meses da revolução russa) os modelos monolíticos e o poder nas mãos de um único partido. Esses modelos existiram em detrimento da construção de formas de poder exercidas diretamente pelo conjunto da classe trabalhadora e explorados. A auto-organização é a condição para prevalecer o dito do Manifesto Comunista de que a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.

 

RECHAÇAR QUALQUER TENTATIVA DE SAÍDA NOS LIMITES DA DEMOCRACIA BURGUESA!

Como já desenvolvemos no decorrer dos textos, a democracia burguesa tem no processo eleitoral sua base de sustentação e apresenta como modelo de democracia aquela em que são os ricos que decidem o que é bom e o que é ruim para os trabalhadores e que todos, no momento do voto, são iguais, sejam pobres ou ricos.

O discurso da cidadania é o coroamento da democracia dos ricos, pois este é o momento em que as pessoas atuam desprovidas do conteúdo de classe. No entanto não dizem que essa igualdade é formal, pois o que realmente define a igualdade, que é a condição econômica, não existe na sociedade capitalista.

A resposta a essa problemática é de fundamental importância para a construção de um programa revolucionário, pois a democracia burguesa em todas as suas formas, na prática, se colocou como um entrave à revolução socialista e, seja por ação das direções ou por influência das idéias burguesas, em vários casos se colocou como alternativa ao avanço do processo revolucionário. Como exemplo podemos citar a revolução portuguesa e a nicaragüense e mais recentemente Equador, Argentina e Bolívia. Esse método se mostrou extremamente eficiente para a burguesia e seus propósitos a ponto de significar a substituição de embriões de organização independente dos trabalhadores.

Dada a importância desse tema para a burguesia, os revolucionários precisam urgentemente incorporar na sua atuação cotidiana a denúncia de todas as formas da democracia burguesa. Essa é uma condição essencial para o avanço de qualquer processo revolucionário que objetive a construção de uma nova sociedade com base a democracia dos trabalhadores e explorados que, de forma auto-organizada, decida sobre todos os rumos a seguir.

 

DEMOCRACIA DIRETA!

Um dos maiores desafios que temos é demonstrar aos trabalhadores que democracia e capitalismo são incompatíveis. Primeiro porque não é possível haver democracia onde há propriedade privada, pois para defendê-la é necessário que haja toda uma organização policial e repressiva para defender os interesses individuais. Assim só há alguns direitos na medida em que estes não ameacem a propriedade dos capitalistas. Segundo porque o capitalismo só pode subsistir a partir de uma lógica da hegemonia das idéias e partidos burgueses. Assim a hegemonia e a propriedade privada estão um para o outro.

Como oposição à democracia burguesa, os trabalhadores precisam apresentar à sociedade o seu modelo de democracia, que é um modelo que se baseia em relações de produção e apropriação coletiva, onde tudo que é necessário para a sociedade é decidido pelo conjunto da classe trabalhadora desde as decisões sobre o quê, como e para quem produzir até se essa produção vai afetar a natureza ou as pessoas.

Assim, há necessidade de decisões que tratem desde problemas imediatos até problemas estratégicos.

Mas não é só sobre o que produzir que a democracia dos trabalhadores vai tratar. A democracia direta pressupõe uma educação permanente de todos os produtores sobre todos os aspectos da vida, procurando romper com a relação alienada entre representante e representado de forma que a sociedade esteja a serviço das necessidades do conjunto da população e não de uma classe.

Para isso é preciso que desde já se exercite essas formas de gestão do poder e para isso os atuais modelos de organização que existem precisam passar por uma revolução em que os trabalhadores decidam sobre todos os rumos da entidade. Esse desafio é fundamental para que os trabalhadores apareçam novamente como força social capaz de superar o capital.

 

 

 

Governo Lula:

Todas as garantias ao capital; desemprego e miséria para os trabalhadores

 

Todo o caminho percorrido pelo governo Lula, de sua posse até hoje, demonstra ser de total comprometimento com a criação de condições mais favoráveis à produção e acumulação de capital. Isso significa retirar direitos históricos dos trabalhadores, aumentar o desemprego e aprofundar a dependência do país aos agiotas internacionais, gerando as condições para uma crise maior nos próximos anos. Com o governo Lula, uma fração importante da burguesia que opera no Brasil (particularmente a burguesia ligada aos grupos econômicos europeus) tenta fazer com que o Estado e a economia brasileira ocupem uma posição líder na América Latina para conseguir com isso uma melhor correlação de forcas nas negociações junto a ALCA, a OMC, e em tratados bilaterais com Índia, China, Europa, etc. Também com a reativação do Mercosul e a criação do bloco dos 31 países na OMC.

Todo esse projeto está a serviço desse setor da burguesia a fim de aumentar seu espaço no mercado mundial, obviamente sem romper com o imperialismo norte-americano.

Para isso é necessário um profundo ataque às condições de trabalho e de vida dos trabalhadores brasileiros. Mas para cumprir essa tarefa nem Serra (apoiado por FHC) ou qualquer dos outros candidatos eram vistos como menos capazes pela burguesia.

Com Lula, esses interesses particulares da burguesia puderam ser habilmente apresentados como os interesses de toda população, inclusive dos trabalhadores. Prometendo iniciar no Brasil um novo ciclo de exportações, desenvolvimento e crescimento econômico, com geração de riqueza e a partir daí geração de emprego e uma melhor distribuição de renda -o mesmo lema da ditadura militar de primeiro fazer o bolo crescer para depois repartir - o governo tenta criar ilusões.

Lula e o PT tiveram que demonstrar seu total enquadramento aos interesses do mercado capitalista, aceitando a falsa premissa de que a segurança e a alta lucratividade do capital são as condições primeiras e imprescindíveis para o crescimento econômico e com isso gerar empregos, aumentar a arrecadação e fazer os investimentos nas áreas sociais, aumentar o salário mínimo, etc. Isso não passa de uma retórica ideológica. O que temos visto é justamente o contrário. O grande capital aumentou seus lucros como nunca e, no entanto, os trabalhadores só perderam. Mais abaixo analisamos as causas deste fracasso e o caráter superficial desta argumentação:

O objetivo do Programa Fome Zero foi criar uma cortina de fumaça para as verdadeiras causas e encobrires verdadeiros responsáveis pela fome e a miséria, criando, ao mesmo tempo, um ambiente de apoio e trégua dos movimentos sindical e sem-terra e uma grande expectativa do setor mais pauperizado para evitar explosões sociais como as ocorridas em outros países da América Latina. Assim foi criado todo um ambiente favorável para os ataques aos trabalhadores assalariados que a burguesia tanto cobrava do governo e que para isso lhe deu o apoio financeiro e da mídia em sua eleição.

O governo Lula não deixou qualquer sombra de dúvida sobre seu compromisso estrutural com o capital. Desde sua posse, Lula foi, de fato, um dos governos mais dinâmicos e favoráveis que a burguesia já teve no Brasil. Desde a Carta aos Brasileiros (ou ao mercado financeiro) em que Lula e o PT já se comprometiam a manter o superávit primário para garantir o pagamento dos mais de 100 bilhões anuais de juros ao FMI, até a transição, marcada pelo grande aumento de preços, considerado pelo governo, como um ajuste necessário; altíssima taxa de juros, mesmo significando recessão e aumento do desemprego; a Reforma da Previdência que aumentou a contribuição dos servidores públicos, a idade necessária para se aposentar, mas deixou de fora os juizes e políticos;

congelamento da Tabela do Imposto de Renda; Salário Mínimo de 260 reais e a Proposta absurda de parcelamento das dívidas da correção da URV com os aposentados em até 8 anos ainda com o desconto de 15%, pra que morram sem receber.

Como se não bastassem todas essas medidas que muito prejudicaram justamente os trabalhadores que o elegeram, Lula e o PT unidos com o que há de pior na política brasileira aprovaram ainda outras voltadas diretamente aos interesses das grandes corporações: lei de fusões e aquisições que permite a concentração de capitais e a formação de ainda maiores monopólios; lei de falências que permite as empresas com dificuldades falirem sem precisar pagar os direitos dos trabalhadores; liberação dos transgênicos sem qualquer garantia de que não são prejudiciais e deixando os pequenos produtores nas mãos da Monsanto e outras grandes produtoras de sementes. Agora o governo prepara o projeto de PPP (Parcerias Público-Privadas) que irá abrir para os investidores privados os setores estratégicos como construção e operação de hidrelétricas, portos, rodovias, estações de tratamento de água, etc, tudo isso com garantias de que haverá consumo pelo Estado e preços altamente lucrativos, quer dizer, risco zero para a burguesia.

Não importa para o governo que essa espécie de privatização vá elevar em muito as taxas a serem pagas em tarifas de energia, água, pedágio e prejudicar a qualidade dos serviços (quem não conhece o caso da Telefonica, campeã de reclamações junto ao PROCOM?).

Com o governo Lula o estado brasileiro toma a sua forma mais acabada dentro da etapa da mundialização. Vemos com maior nitidez o Estado se incumbindo de garantir todas as condições de financiamento, isenção de impostos, abastecimento de matérias primas, garantia de mercados e de lucros e lógico a imposição dos custos de tudo isto sobre os trabalhadores. Realmente o capital não poderia desfrutar de maiores garantias.

Mas ao mesmo tempo isso demonstra o quanto o capital tornou-se dependente da ajuda externa do Estado, o nível de sua crise estrutural, uma crise não mais do "modelo capitalista" vi­gente no Brasil (como querem as organizações reformistas), mas do capital como um todo.

Não há desaparecimento do estado tal como apregoado anos atrás por Roberto Campos e outros neoliberais de um lado e certos intelectuais da pseudo-esquerda por outro. O que há é uma remodelação do seu papel marcado por um maior intervencionismo e não menor, um intervencionismo totalmente voltado para a sustentação do sistema do capital e da submissão aos países centrais e cooptação/repressão aos movimentos sociais.

No entanto, em que pese todo esse dinamismo pró-capitalista do governo, a recuperação da economia - seu objetivo principal -tem sido extremamente lenta. Calcula-se que neste ano haja um crescimento econômico de 2,5%. Além disso, não há qualquer garantia de que esse crescimento pífio vá continuar.

No mundo, o que vemos e um processo de recessão que já começa novamente a se apresentar, puxado pelo aumento das taxas de juros nos EUA e China, que devem influenciar o mercado financeiro mundial. Além disso, há um crescimento do protecionismo dos países centrais que não aponta para um grande crescimento das exportações brasileiras.

Mas o que queremos destacar aqui é que, mesmo que ocorresse um crescimento econômico de 4 a 5% , isso não significaria qualquer garantia de melhoria nas condições do povo trabalhador, pois o avanço tecnológico e a concentração de unidades produtivas, por um lado, e a drenagem para fora da riqueza gerada (via pagamentos ao FMI) impede que haja investimentos, mesmo nos moldes capitalistas dentro do país, impedindo qualquer geração de empregos ou avanços na área social. Ou seja, o peixe vendido durante a campanha de que a saída para o Brasil seria desenvolver as exportações e por essa via manter a estabilidade e investir nas áreas sociais já está se mostrando uma grande enganação.

Não há qualquer possibilidade de que a situação dos trabalhadores possa melhorar tendo como pressuposto a aceitação dos princípios capitalistas e de submissão aos mercados financeiros e ao imperialismo.

Muitos cientistas e intelectuais já demonstraram que esse raciocínio próprio da burguesia - de que para amenizar (já não se propõe a resolver) os problemas sociais é necessário crescimento da economia e dos lucros - traz em si grandes contradições tanto pelo aumento da superprodução de mercadorias num mercado mundial em estagnação, como pelos problemas ambientais gerados com a depredação dos recursos naturais e a poluição. Talvez o exemplo mais cabal disso seja a situação da indústria de transporte baseada no modelo individual em que há extração abusiva de minérios, poluição do ar (gerando efeito estufa e chuva ácida) e um trânsito insuportável nas grandes cidades, sem falar na quantidade enorme de trabalho humano que poderia ser aplicada em tarefas mais úteis como uma rede de transporte coletivo de boa qualidade, barata e não poluidora.

Os problemas sociais não podem ser resolvidos pelo aumento da produção de mercadorias em si, mas sim por uma reorganização social de alto a baixo (como dizia Marx) em que se estabeleça um uso racional e igualitário das riquezas naturais e tendo como critério de produção as necessidades humanas. Mas isso o capital e seus defensores não podem admitir, pois seria admitir o fracasso de seu sistema e admitir que deve ser destruído e substituído por uma sociedade socialista.

 

 

 

Polêmica:

Cadê o governo de Frente Popular?

 

Nas últimas eleições o Espaço Socialista chamou o Voto Nulo e afirmou que o governo Lula seria um Governo Burguês no mais profundo sentido da palavra, polemizando assim com outras organizações que diziam tratar-se de um Governo de Frente Popular. Hoje, passado um terço do manda­to de Lula, há muitos fatos que nos convidam a voltar a essa polêmica.

Lembramos que a caracterização do governo Lula como um governo de Frente Popular, levantada por quase toda a esquerda serviu de justificativa para o voto critico à Lula no primeiro ou segundo turno, o que para nós significou uma imensa capitulação.

Partidos como PSTU, PCO e setores que hoje posam de radicais não denunciaram que a política aplicada nas gestões petistas das prefeituras e estados e o próprio programa do PT e de Lula já demonstravam que seu governo seria pró-capitalista e, portanto, contra os trabalhadores.

Como se não bastasse isso, grande parte das organizações da esquerda oficial continuou (algumas ainda continuam!) fazendo exigências ao governo de que rompesse com o FMI, não fosse ao Fórum Econômico de Davos, expulsasse os ministros capitalistas, se retirasse das negociações da ALCA, etc, mesmo que os fatos demonstrassem (a começar pela Carta aos Brasileiros) que Lula e o PT se comprometiam definitivamente com o FMI e a burguesia em geral.

O principal fato é que a esquerda não combateu, desde o início, o significado desta candidatura e deste governo, deixando os trabalhadores totalmente imersos em suas ilusões com Lula, o PT e seu programa. Pior, a esquerda oficial jogou ilusões de que o governo pudesse mudar seu rumo. E tudo isso em nome da idéia de que o PT era um partido operário e o governo Lula um governo de Frente Popular, portanto sensível às pressões populares.

Assim, essas organizações da esquerda tradicional chamaram os trabalhadores a exigir mudanças de rumo no governo, como se já não estivesse muito bem definido e como se não fosse um rume totalmente contra os trabalhadores, Uma postura lamentável em se tratando de organizações que dizem ser socialistas revolucionárias.

Ora, o PT, de Partido dos Trabalhadores só tem o nome. Seus setores dirigentes têm origem e vinculação com órgãos de gestão dos fundos de pensão estatais e privados, há muitos burgueses que estão no PT e sua base social hoje se compõe também de muitos burocratas parlamentares, gerenciadores de ONGS e líderes sindicais que por sua vez estão totalmente afastados dos trabalhadores e comprometidos com o aparelho de estado via verbas do FAT para requalificação profissional. Os trabalhadores não possuem mais qualquer influência nas decisões do partido para que possa ser considerado um partido operário. O PT já não guarda mais qualquer traço progressivo que tinha na década de 80 e isso não é de agora. Sua chegada a presidência apenas torna seu perfil mais cristalino.

Por isso esse governo não tem qualquer possibilidade de adotar medidas a favor dos trabalhadores que possam significar enfrentamentos importantes com a burguesia e sua ordem. Ao contrário é um governo que não tem hesitado e não irá hesitar em atacar os trabalhadores de todas as formas necessárias e possíveis para manter sua governabilidade e a confiança dos mercados (leia-se do capital).

O governo Lula é um dos mais problemáticos para os trabalhadores e não por suas propostas estarem confusas ou dúbias, pois não estão. O problema é que ao ter o apoio da burguesia e da grande mídia (apoio que não foi à toa) conseguiu vender a imagem de um governo representante dos trabalhadores e do povo, membro de um partido com um passado ligado aos movimentos sociais.

Mas o fator determinante e o mais problemático para os trabalhadores é que o governo montou toda uma rede de sustentação baseando-se no cooptação das Centrais sindicais (tanto Força sindical como CUT), dos sindicatos importantes e de milhares de ex-militantes que hoje se colocam definitivamente como sustentadores e aplicadores das políticas do governo.

Outro problema é que o governo está integrado também por muitas personalidades com trajetória no movimento sindical e popular, que aprenderam muito bem como manobrar o senso comum e a consciência atrasada de amplos setores dos trabalhadores.

Mas aos poucos as coisas vão se tornando mais visíveis e isso já se refletiu na queda da popularidade do governo, vista com preocupação por toda a grande mídia e impacto até nas Bolsas de Valores.

 

Reconstruir o movimento e a cultura socialista de massas!

Diante de um governo inimigo dos trabalhadores só deve caber uma postura: a luta contra suas medidas para que os trabalhadores desenvolvam a consciência, as formas de luta e humanização que possibilitem colocarem cheque não apenas o governo e seus planos, mas acabar com o capitalismo e a submissão ao imperialismo.

Entre os limites a que seguem presos os trabalhadores permanece a profunda crise de alternativas ao capitalismo que dificulta o desenvolvimento das lutas num movimento maior. As lutas concretas ficam presas em suas particularidades e são facilmente derrotadas ou cooptadas pelo sistema. Faz falta um projeto que consiga integrar e dar perspectiva e radicalidade ao conjunto das lutas.

Contribui a isso a postura da esquerda oficial, pois segue presa aos limites das lutas corporativas, da institucionalidade sindical e política e das eleições, como veremos mais uma vez neste ano.

Nós, os trabalhadores, precisamos desenvolver um outro caminho, no sentido de que nossas lutas possam convergir para a destruição do capitalismo. Isso tem que começar impulsionando uma ampla denúncia e luta contra as reformas previstas para o próximo período: Reformas Universitária, Sindical e Trabalhista, buscando fazer dessas lutas uma luta contra o sistema como um todo e não apenas por questões corporativas ou pontuais, o que será um caminho condenado a mais derrotas como a da reforma da Previdência.

Trata-se de sermos capazes de irmos além da denúncia superficial de que essas reformas pretendem tirar diretos dos trabalhadores. O que está em jogo é demonstrar a profunda ligação de todas essas reformas com as necessidades do capital. A necessidade dos trabalhadores e jovens é a de construirmos outro caminho, um outro projeto de sociedade.

Mais do que isso também está em pauta a necessidade de forjarmos novas formas de luta que atinjam diretamente o coração do sistema que é a geração de mais-valia. Formas de luta que possam tomar um caráter cada vez mais amplo e anticapitalista. As bandeiras de luta direta contra o desemprego, em defesa das ocupações pelo direito a moradia e pela terra, contra a violência policial e a repressão aos movimentos sociais devem fazer parte constante da atenção de todos os movimentos e organizações anticapitalistas.

Junto a tudo isso se trata de sermos capazes de aglutinar todos os grupos efetivamente comprometidos numa intensa campanha pelo Voto Nulo nas próximas eleições, denunciando os limites da democracia burguesa e do conceito de cidadania que em nome da igualdade formal dos direitos políticos, jurídicos e de pensamento, acobertam a desigualdade real e a concentração do poder econômico nas mãos do capital e de seus representantes, as grandes corporações.

A serviço dessas tarefas é mais do que urgente impulsionarmos o diálogo e a união dos grupos no sentido de criarmos redes cada vez mais sólidas de unificação das lutas diretas e discussões teóricas e políticas buscando a coordenação dos movimentos anticapitalistas. Nesse sentido ganha importância a construção do Fórum de Luta Anticapitalista constituído em São Paulo em novembro passado e que conta com a participação de cerca de 20 grupos e movimentos. Cabe a esse Fórum ser capaz por sua vez de se tornar um referencial cada vez mais amplo de aglutinação de todos os grupos, movimentos e indivíduos que rompam com as práticas das organizações e partidos burocráticos e limitados, entre eles as falsas propostas de Novos Partidos que já começam viciadas.

Juntamente ao processo de aglutinação dos coletivos é também preciso aumentar nossa influência estrutural nos locais de trabalho, moradia e estudo, construindo pólos de contra-poder ou duplo-poder estruturais onde a classe trabalhadora e a juventude possam desenvolver novas experiência de gestão de espaços e de seu próprio movimento. Outra tarefa - geralmente abandonada pela esquerda - é a formação socialista da vanguarda das lutas com o objetivo de nuclear e formar militantes capacitados e críticos, enfim trata-se de reconstruir um movimento e uma cultura socialista em todos os aspectos.

 

 

O “NOVO” PARTIDO: MAIS DO MESMO

 

Embora extremamente necessária para o avanço da luta anticapitalista, a discussão sobre a organização  da  classe trabalhadora apresenta-se polemica e difícil, principalmente quando os processos mediadores mostram-se incapazes de potencializar as diversas concepções de ação e provocam a dispersão entre os ativistas.

Entre 2003 e 2004 o debate se reinicia - capitaneado dessa vez pelos "radicais" expulsos do PT (Luciana Genro, Babá e Heloísa Helena) bem como um setor do movimento sindical - trazendo importantes indagações para os revolucionários sobre o que está por trás do surgimento desse novo partido e da identificação das contradições desse processo. Está colocado o debate sobre a concepção de partido e suas tarefas.

Ainda que a discussão se dê de forma equivocada, um setor pôde discutir questões como o centralismo democrático, publicamente debatido, e vários ativistas puderam discutir e pensar sobre qual o tipo de partido ou organização a classe necessita.

A necessidade de uma organização revolucionária que de fato possa responder a atual situação, apresentando uma alternativa política para o conjunto da classe trabalhadora, impulsionando sua mobilização, é real. No entanto, ao nosso ver, essa necessidade não é contemplada por esse movimento por um novo partido.

Primeiramente, percebemos que as discussões sobre o "novo partido" se submetem à lógica eleitoral, deixando nítida a intenção de apenas garantir legenda para a reeleição dos parlamentares.

A total ausência de debate estrutural sobre o programa do partido nos atos e debates que vêm sendo realizados em diversas cidades para lançar o projeto do partido, também é uma forte indicação do caráter desse movimento, no qual o militante pouco ou até mesmo em nada influenciará na construção e funcionamento do novo partido. As estruturas de cúpula e as tendências já estão definidas no "novo partido", assim como seu programa que pretende ser "o do PT dos anos 80".

A necessidade deste debate de fundo é ignorada - como se não tivéssemos passado por mudanças estruturais no mundo como a mundialização do capital e a queda do Muro de Berlim, fatos estes que abalaram as lutas dos trabalhadores - e deixa de lado o questionamento de todos os modelos dogmáticos que eram sistematicamente reproduzidos pela esquerda tradicional, desde as formas de luta contra o capitalismo e os caminhos para sua superação, até uma rediscussão do projeto socialista e de como chegar a ele, sem cometer os mesmos erros do passado, de que tipo deve ser de relação entre os militantes e a classe trabalhadora e qual deve ser a relação entre os próprios militantes e agrupamentos, por fim qual o tipo e caráter de organização necessária - e possível - para os dias de hoje.

Essas questões têm impacto direto nas formas de luta e de organização que os trabalhadores precisam para fazer frente aos novos desafios. Nenhuma dessas questões poderão ser respondidas de forma aprofundada nas discussões deste movimento, pois ainda trabalha com a idéia de que tem respostas prontas e que é preciso pressa, pois as eleições estão próximas.

Na realidade, seu surgimento demonstra ser a relocalização de um setor desiludido com o PT, mas que demonstrou o claro desejo de permanecer no partido. Enfim, o novo partido é uma recomposição de um setor do movimento que não busca mudar nada de fato.

Antes dessa proposta de novo partido outras já haviam surgido. Mas também apresentaram essa debilidade de serem processos superestruturais, sem ter classe trabalhadora como parte. Justamente por isso fracassaram e trouxeram também uma grande desconfiança e desgaste à militância que apostou suas energias nesses processos. Um exemplo disso foi a chamada Frente Revolucionária que deu origem ao PSTU após excluir grupos que discordavam com a formação de um partido naquele momento. No caso do PSTU, antes mesmo de sua formação e ainda mais depois, se desenvolveu um processo de separações, expulsões e divisões que continua até hoje, de modo que quase nenhum grupo que tenha participado de sua formação ainda permaneça, a não ser o núcleo dirigente da ex-Convergência Socialista - a corrente majoritária que, no entanto também sofreu divisões posteriores. Ou seja, a fragmentação não foi resolvida, mas se aprofundou e levou muitos militantes a perderem qualquer interesse em militar ou se organizar, além de educar os novos militantes com essa política divisionista.

No caso da formação do PT surgido nos anos 70, houve um processo real, de massa. Ocorreu uma verdadeira expressão de luta, mas foi canalizada. Havia uma conjuntura propícia à construção do Partido dos Trabalhadores, que naqueles anos cumpriu um papel importante para a luta dos trabalhadores no enfrentamento à ditadura militar. Depois, com o processo da redemocratização burguesa, foi totalmente cooptado para as estruturas do estado e do mercado (parlamento, sindicatos e fundos de pensões) transformando-se em seu contrário, o monstro que vemos hoje.

Hoje contamos com o retrocesso da luta em todos os setores do movimento da classe. A busca por uma alternativa permanece sem solução. Sendo assim com uma ruptura superestrutural os injustamente chamados radicais foram expulsos do PT e na tentativa de relocalização no espaço institucional promove-se a construção de um "novo partido". Por não ter sustentação alguma na realidade, sabemos que tal política terá vida curta.

Outro grave problema na dinâmica do "novo partido" é a postura diante de outras organizações. O PSTU, por exemplo, foi sumariamente excluído do processo de construção proposto. Uma proposta de construção de algo novo que se inicia pelos velhos métodos excludentes demonstra, mais uma vez, que tudo já está definido de cima para baixo, como qualquer outro partido degenerado.

Hoje a nossa maior necessidade não é a de um novo partido. Como trabalhadores precisamos da unidade dos movimentos e grupos para resistirmos às Reformas Universitária, Sindical, Trabalhista, ao desemprego, na luta pela terra, pela moradia. Estas questões concretas necessitam de uma resposta da esquerda no sentido de rompermos com a lógica capitalista que é muito mais do que 'simples discussões sobre um novo partido preocupado com as disputas eleitorais.

Resistências concretas se dão no dia-a-dia com grupos e organizações de trabalhadores cuja estratégia abandona a institucionalidade e aposta na luta direta extra-parlamentar. Isso, de certa maneira, concretiza a tentativa de unificação dos revolucionários e anticapitalistas, pois essa é uma importante bandeira de luta da classe.

Um movimento que pretenda ser o motor do novo deve trazer dentro de si elementos que sirvam de base para não cometer velhos erros e elimine os vícios do passado. Isso começa com a percepção primária de que é impossível conseguir qualquer avanço na consciência partindo da institucionalidade.

Por exemplo, na luta contra o desemprego a legalidade torna-se um limite claro que devemos questionar, pois sem bloqueios de ruas, ocupações de fábricas, a drástica redução da jornada de trabalho jamais abriremos caminho para a emancipação dos trabalhadores. A organização dos grupos de luta direta em comitês é uma necessidade e ao mesmo tempo oposição ao movimento do "novo partido", como forma de luta e  organização  da  classe trabalhadora.

Com o desgaste do governo Lula, no desenvolver dos processos de luta que passem por fora da institucionalidade e até pela inevitável decepção com o movimento do "novo partido", a necessidade de unidade entre as organizações, grupos e movimentos anticapitalistas aumentará tanto pela luta conjunta quanto pela importância de realizar discussões teóricas, políticas.Algo novo deve partir dos próprios processos de luta dotando a classe trabalhadora de armas capazes de responder aos desafios que a institucionalidade não responde mais, pelo contrário, a afasta dessas armas.

Necessariamente algo novo deverá romper com a hierarquia entre os que pensam e os que fazem e carregam o peso da responsabilidade militante. Essa relação deve ser completamente substituída eliminando qualquer postura de "chefe" entre companheiros experientes e formados com os mais novos, reproduzindo a divisão hierárquica do trabalho, encontrada em qualquer esquina do capitalismo. Isso implica diretamente na construção das organizações revolucionárias e sua relação com a classe trabalhadora, pois busca romper com a alienação representantes e representados.

Constatada a impossibilidade de uma transformação via sistema eleitoral, dentro da legalidade burguesa, com todos os compromissos decorrentes dessa opção. Notada a lacuna do movimento que nem mesmo serve como alavanca de questionamento do cotidiano do capital, concluímos que essas e outras questões constituem-se em enigmas insolúveis para a democracia burguesa e as organizações legais que se propõem a reformá-la. Um movimento por um partido socialista e democrático que opte pela via eleitoral aceita automaticamente o limite de não questionar na prática o livre desenvolvimento do capital e, conseqüentemente, ser mais do mesmo.

 

 

 

AUTENTICA METRÓPOLE

Thonni Brandão (Ciências Sociais - PUC)

 

Espaço urbano, agitação, barulho, imaginário social... E onde está "o barulho que pensa" do poeta francês Victor Hugo? Ou melhor, onde está o homem que pensa o barulho? As coisas sempre se apresentam com uma determinada aparência, e cabe a nós aproximarmo-nos da sua essência, ter um olhar crítico, radical, que busque a raiz dos acontecimentos, que ultrapasse o simulacro do palco ao camarim onde os atores tiram suas vestimentas, onde os personagens são caracterizados ao início e descaracterizados ao fim, onde as representações são feitas e desfeitas e, só então, podemos entender o processo da produção da peça teatral. Alguma coisa sempre há atrás do palco, e cabe a nós entender o que é.

Em termos de atualidade e passado recente musical (referindo-me à implantação da rádio e ao surgimento dos grupos musicais modernos), o que me interessa, ao ouvir um som de uma banda, não é o quanto ela é famosa ou o quanto ela não é. Do mesmo modo, eu não me oporia sistematicamente e infantilmente a uma banda só pelo fato de existirem pessoas que, literalmente, a cultuam. Mas qual seria o critério para apreciar um trabalho artístico? Como a partir da superfície chegar à raiz?

Penso eu, o cerne da questão está exatamente na idolatria e na contra-idolatria, que no fundo são a mesma coisa. Como em tudo, há uma espécie de fetichismo da mercadoria na música: esquece-se que quem faz música são pessoas de carne e osso e sonhos e frustrações; substituem-se pessoas vivas por totens, sejam eles afirmativos ou negativos, sejam eles heróis ou vilões. Faz-se uso de um silogismo simplista que associa mecanicamente o produto acabado, a banda totemizada   ou anatematizada, a um conceito hermético unitário: bom ou ruim, anjo ou demônio, Deus ou o Diabo. Há um diletantismo maniqueísta, um emburrecimento socialmente aceito e incentivado, seja massificado ou de nicho intelectualóide: quer-se absolutizar um momento, estancar quadros de um filme e julgar a parte descolada do todo; um categorial analítico mecanicista e ultradiscrepante em detrimento da totalidade dialética do ser.

A banda Legião Urbana é um exemplo caseiro desse fenômeno. De meados da década de 80 ao início da de 90, a banda se tornou ultra-popular e, como estamos falando de sistema capitalista,      foi totalmente massificada, transformando-se em mais um produto na prateleira. Atualmente o fenômeno é diametralmente inverso, mas é apenas o outro lado da mesma moeda: são amaldiçoados por terem outrora sido cultuados. A questão que se coloca é "Como abstrair-se desse fenômeno?", "Como não ser apenas mais um produto acabado?", e a triste resposta, porém realista, é que não há jeito, não há alternativa prévia dada, há que se construir a alternativa. Nós fazemos parte disso, quer queiramos, quer não. Em todo caso, quase sempre há certo grau de manobra, na maioria das situações a criatividade humana arranja alternativas para romper com a estatificação do mundo. Essa é a única resposta possível, pelo menos a mim até o presente momento, para explicar a composição de uma letra tão genial como a da canção "Metrópole", uma fábula cheia de ironia sobre a burocracia urbana e o "individualismo" dos nossos dias (umbiguismo ou umbigocentrismo), escrita pelo vocalista Renato Russo, poeta controverso que não é mocinho nem bandido, que não pode ser rotulado, carimbado ou diagnosticado: é apenas uma pessoa inteligente, para o bem e para o mal; o juízo de valor "vem depois"; é pensado, é construído, é formulado, não está posto a priori na essência das pessoas, que, inclusive, não são exatamente as mesmas: são pouco ou muito diferentes a cada segundo.

O sensível é que os aparatos ideológicos do Estado capitalista, notadamente a grande mídia e as indústrias de cultura de massa, não conseguem impor-se 100% através da alienação ideológica, e há margem para o embrião contra-hegemônico fundado na crítica e autenticidade humana legítimas. Em outras  palavras, o processo cognitivo de subjetivação do objetivo e de objetivação do subjetivo, isto é, a ação humana de "interiorização" de uma realidade "exterior", da simbolização e associação/desassociação formando categoriais, conceitos, arquétipos, signos, culminando na "exteriorização" dos concretos de pensamento pelo sujeito humano para a transformação de uma realidade, se feito com relativa dignidade anárquica (sem coação externa) tende a demonstrar uma manifestação autêntica, verossímil, de  uma  realidade  social contextualizada, com maior ou menor grau de refinamento; e essa expressão original consegue ter algum  espaço,  a despeito de toda idolatria, consumismo, alienação...  Ela conquista espaço, não mendiga, e isso porque consegue se impor perante a totemização por ser comprovada no cotidiano do homem médio e, fundamentalmente, na realidade concreta de quem tem consciência crítica e tenta não enganar-se a si próprio.

Esse percurso onto-cognitivo, que é o modo como se forma toda consciência humana, explica também o processo de composição musical: as influências sonoras captadas são trabalhadas no cérebro, organizadas ao bel-prazer do sujeito humano em sua psique, e transformadas em ondas sonoras pelo restante do corpo num processo correlato e simultâneo (quando a composição é informatizada o computador executa o que o sujeito humano criou). Convém ressaltar que nesse processo o sujeito humano é um todo complexo, indissociável, sendo que a separação corpo/ mente é apenas e tão somente analítica, dialeticamente holística.

Assumindo essa ótica torna-se pueril entender a inspiração como algo "espiritual", "divino", "extra-matéria", assim como parece absurda a idéia de propriedade privada intelectual, já que, no fundo, tudo é trabalho humano, socializado/trabalhado   indefinidamente, produzido   socialmente   e historicamente pelo homem em meio a distintos/semelhantes espaços e tempos terrestres. Essa é a concepção de trabalho que compactuo: intelecto/corporal, emotivo/racional, cérebro/mente, teoria/ prática, consciência/sentidos, particular/universal; tudo entendido dialeticamente como duas partes antagônicas indissociáveis e em conflito de um todo complexo que provoca o movimento, a transformação com causas e conseqüências relativamente previstas, a revolução permanente consciente (e isso se aplica a toda atuação do homem, o único ser capaz de maior consciência de seus atos sobre a matéria, e, inclusive, sobre ele próprio).

"Tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor", como afirma a máxima budista na voz do poeta em uma outra canção; por conseguinte, não contornemos a realidade dos fatos: é doloroso, porém sensato, constatar que o tipo de homem que prosperou, que conseguiu sobreviver às mais diversas intempéries da evolução humana, chegou ao cume em que vivemos pela dominação e divisão sexual e social do trabalho.

Primeiro, através da caça e da pesca efetuada, grosso modo, pelos homens, os caçadores, tendo, a mulher, na maioria das vezes, o papel de criação dos filhos (em geral, homem: trabalho extra-tribal, mulher: trabalho intra-tribal) depois domesticando (escravizando) os animais e, com o fim do nomadismo e o paulatino, porém discreto, incremento da divisão do trabalho  desenvolvendo  a agricultura (comunismo primitivo); com o aperfeiçoamento da especialização (ultra-divisão social do trabalho)  escravizando (domesticando) outros homens, legalizando-se e justificando-se a exploração com a criação do Estado e do Direito, até os dias atuais em que poucos dominam ideologicamente de forma sutil a consciência de outros (a maioria) e as usam para o proveito da sua consciência inconscientemente irracional, arcaica, ultrapassada.

Compreende-se, deste modo, analiticamente a parte aspectos morais "puros" e abstratos, que a humanidade parte da exploração para acabar com ela, parte do negativo (entendimento cognitivo de uma realidade) para o positivo (o dever-ser, a meta) sendo esse percurso a atuação de transformação.

Sofremos, historicamente, até desenvolvermos nossa consciência a um outro estágio mais avançado que pode perceber a ordem vigente como irracional, e, logo, lutamos para superá-la; passamos da tese à antítese e sintetizamos uma nova ordem com uma nova contradição em germe, obtemos bons-ruins e complexos resultados que apontam para o novo, chegando ao ponto limiar que estamos vivendo: a expectativa do momento de transformação para o fim da exploração, caso prospere a nova consciência embrionária, a do sujeito que trans-forma a matéria, a do trabalhador intelecto-braçal no sentido mais amplo possível, finalizando o período de alienação do homem         e inaugurando tempos de novos desafios, certamente mais humanizados. Se isso não ocorrer, ou melhor, se não tivermos maturidade para conseguirmos dar o próximo passo, andaremos de marcha ré à um ainda maior  grau  de barbárie. Caso ocorresse esse trágico retorno, vive­ríamos uma realidade que a nossa cons­ciência já tinha superado há tempos.

À parte, momentaneamente, o enfoque, mais antropológico da responsabilidade 'revolucionária histórica, reflitamos filosoficamente: nesse sentido ontológico, o que realmente importa é como o homem compreende o mundo, como forma sua consciência acerca do universo, como ele o sente, como interpreta racional-emocionalmente e como age sobre ele.

E isso não é nada mais do que um materialismo-histórico-dialético inconsciente-consciente pulsante e em movimento, trabalhados por homens arteiros que conseguem ser livres pelo menos em alguns momentos, por humanos que efetivamente percebem   as transformações da realidade objetiva e que não são escravos das idéias.

Na contramão da autenticidade e na direção do fechar de olhos apático que apenas favorece a ordem irracional estabelecida, apenas reproduz-se, em termos nietzscheanos, de forma limitadamente reativa, o totemismo, a alienação, a reificação, a mistificação, em suma, o flutuar-se sobre tudo ignorando a realidade dialética do mundo, tendo-se, portanto, uma visão ofuscada do todo sem discernimento das partes que o compõem e as relações que exercem entre si; semioticamente falando, absorvem o significante sem qualquer significado, tornando os signos insignificantes, compondo passivamente uma sofrível existência inerte e esquizofrênica.

Grande parte da intelectualidade é muito pior do que a massa amorfa, porque os últimos podem ser desculpados por não saberem da sua condição alheia à realidade, por não terem oportunidade de conhecer o pensamento crítico historicamente acumulado; mas os primeiros vivem na ilusão de que não fazem parte disso, de que conseguiram superar esses fenômenos. Enganam-se a si próprios inconscientemente e pensam-se conscientes; tornam-se, deste modo, os seres mais acrílicos e alienados que existem, uma barreira para uma revolução social progressista, a pedra retrógrada no sapato do pensamento autônomo, dinâmico e autêntico.

O nicho intelectualóide abas­tecido pela segmentação do mercado, ao lado da população em geral que subordina-se, reconhece-se e tem sua identidade criada de forma ativa pela indústria de cultura de massa amorfizante,  estruturados e sustentados pela burocratização a nível agora perceptivelmente irracional e conservador, são fenômenos típicos do coração geográfico do capitalismo tardio, constituem a autêntica metrópole-colônia capitalista em processo de degeneração.

 

 

Metrópole

Renato Russo

 

É sangue mesmo, não é merthiolate

E todos querem ver e comentar a novidade

É tão emocionante um acidente de verdade

Estão todos satisfeitos com o sucesso do desastre...

(Vai passar na televisão, vai passar na televisão...)

{O show da dor alheia da sociedade do espetáculo.

Ratinho, Leão e toda a fauna e flora televisiva

policialesca podem ser resumidas nesses versos.

Sofrimento é também mercadoria, e dá lucro}

Por gentileza, aguarde um momento

Sem carteirinha não tem atendimento

Carteira de trabalho assinada sim senhor

Olha o tumulto, façam fila por favor...

(Todos com a documentação, todos com a

documentação...)

Quem não tem senha, não tem lugar marcado Eu sinto muito, mas já passa do horário Entendo o seu problema, mas não posso resolver É contra o regulamento, está bem aqui, podem ver! (Ordem são ordens, ordens são ordens...)

A regulação burocrática estatutária que tornou-se irracional: se apresenta como organização eficaz, mas, a despeito de um passado eficiente, na realidade contemporânea é um entrave para a sociedade. Estatifica as regras de convivência, produz procedimentos viciados em contínuo descompasso com a realidade objetiva, joga ao lixo tempo de vida e poda o senso crítico e a criatividade. É um parafuso girando em falso

Em todo caso, já temos sua ficha

Só falta o recibo comprovando residência

Pra limpar todo esse sangue, chamei a faxineira

E agora eu já vou indo senão perco a novela!

(E eu não quero ficar na mão, eu não quero ficar na

mão...)

Os valores particularistas são, constantemente, colocados em detrimento do todo. A consciência de mundo assentada na fragmentação do universal em particulares estanques, sem interconexão entre as partes, produz indivíduos sectários e intransigentes que têm dificuldade para enxergar além do umbigo .É o despotismo do específico em detrimento do geral (e a tirania inversa não é menos pior). Na estrutura hierarquizada e piramidal, os de cima se eximem de responsabilidade e os de baixo são responsabilizados pelos males do mundo, e, conseqüentemente, a faxineira tem de limpar o sangue: toda a pesada estrutura ineficaz recai sobre suas costas. Alheios ao mundo, alienados, invertem os valores: a mercadoria novela é mais valorizada do que o homem; a humanidade, a criadora, é vista como inferior ao produto do seu trabalho, a criatura]

 

 

 

POESIAS

A FARRA DA ALCATEIA

ZK de Oliveira (Estudante FSA)

 

Os americanos lá do norte

Estão querendo um belo trato

Nós entramos com o lote

Assim eles ficam mais fortes

Dizem que é uma grande idéia

Nós entrarmos no barato

Da farra da Alcatéia

Dizem que nós temos know-hall

Para sermos seus parceiros

E que somos bonzinhos e tal

Mas eles é que não tem moral

De propor essa epopéia

Pois só vejo carniceiros

Nessa farra da Alcatéia

 

O que quer esse torrão?

Pensam que somos o Iraque,

Ou o Afeganistão?

Isso não é trato, é prisão!

Não entramos nessa geléia

Não aceitamos esse ataque

Da farra da Alcatéia

 

Vamos jogar areia

No prato do burguês

Que tem sua mesa cheia

E vem roubar a alheia

Esta é panacéia

Pra acabar de uma vez

Com a farra da Alcatéia

 

Vamos fazer boicote

Ao Governo e ao patrão

Enquanto não dão o bote

Mudaremos nossa sorte

Decidindo em assembléia

Juntos, vamos dizer não

A farra da Alcatéia

 

Vamos fazer direito

Nossa lição de casa

Elevar nosso conceito

Pois isso não é direito

Ficar só na platéia

Enquanto nos arrasa

A farra da Alcatéia

 

 

 

 

Para um Direito Gozador

Luciane M. Scaramel (estudante da FDSBC)

 

Eis que começou a brincadeira... Gincanas Legais do Palhaço Gozador.

Que em sua realidade, faz de suas verdades

Um cativante manual de "alegria".

Riam platéia...

Deixem de choramingar

Olhem como sou brincalhão!

Meu Sistema de diversão é perfeito

É PURO!

Tem a mamãe, Sra. Norma Fundamental,

o papai, Sr. Hierarquia Fundamental,

E ainda toda a parentada Fundamentalista.

E vocês, não querem se familiarizar?

(como se tivessem chance de escapar de meu folguedo)

 

Vocês serão sempre bem vindos.

Mas existe uma condição

Que o palhacinho impõe:

-Dou a liberdade para vocês fazerem

 

o que quiserem...

Desde que não contrarie as regrinhas do meu sistema divertido!

Tudo bem garotada!?

Legal! Agora podemos começar...

Meus ajudantes, juristas e advogados, irão explicar e ajudar vocês nessa zombaria

e depois de tanta masturbação teórica,

não se importem com eles gozando um pouco nas vossas caras.

Faz parte do gracejo!

Como são brincalhões!

 

É assim mesmo...

Vamos ver agora o

Circo pegar fogo

Minha parte preferida!

Ninguém aqui é mais divertido que o palhacinho.

Entenderam!?

 

Portanto pode parando seu revoludonariozinho com esse motim

Está atrapalhando o andamento do Ato Legal de brincar...

Bobinho!

Pensa que vai conseguir vencer a gincana?

E ainda levar como prêmio

A morte do Palhaço Gozador?

Patético!