ESPAÇO SOCIALISTA

Edição eletrônica no. 09

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INDÍCE

A reforma da previdência e o capitalismo no Brasil

01

O governo do PT e a reforma da previdência

04

O combate do orgasmo contra o tédio e a monotonia

09

1o. de maio: Festa ou resistência

11

Poesia: Do diário do “CHE”

12

 

A REFORMA DA PREVIDÊNCIA E O CAPITALISMO NO BRASIL

 

Um tema que tem mobilizado opiniões no cenário político brasileiro é a reforma da Previdência. Primeiro, por  tocar num ponto central para qualquer Governo na atual etapa da globalização econômica, as famosas “reformas estruturais”, as quais visam pura e simplesmente retirar direitos dos trabalhadores e fazer com que governos e patrões tenham menos despesas e conseqüentemente mais dinheiro para pagar banqueiros ou maiores taxas de lucro. Segundo, pela reação do setor afetado, no caso o conjunto da classe trabalhadora em geral e, nesse momento, o funcionalismo em particular.

Mas qual o enfoque a ser abordado? Quais as reais razões de mais esse ataque, agora lançado por um governo, que muitos acreditam ser dos trabalhadores, se há uma enorme controvérsia sobre o chamado déficit da Previdência? É possível derrotar essa reforma? Com quais métodos de luta?

Nosso objetivo com este artigo é tentar buscar respostas não na superfície dos acontecimentos, mas na estrutura desse ataque e como a classe pode derrotá-lo.

 

O SIGNIFICADO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL

A Previdência é, sem dúvida nenhuma, um direito duramente conquistado pelos trabalhadores após anos e anos de árduo trabalho. Ela em tese deveria garantir que, ao parar de trabalhar, o trabalhador poderia se manter dignamente até o final da sua vida. No entanto não é isso o que acontece.Os baixos rendimentos dão a tônica nesse campo. Assim sendo a classe teria que lutar não somente contra a reforma, que visa piorar o que já é muito ruim, mas para transformar a Previdência num verdadeiro direito do trabalhador para que possamos viver dignamente após encerrar  a atividade produtiva.

A Previdência Social surgiu em uma época que o capitalismo se viu sob enorme ameaça da classe trabalhadora, entre a primeira e segunda guerra mundial. Os capitalistas, tendo sofrido com a quebra das Bolsas de 1929 e com as grandes lutas da classe trabalhadora, viram que não tinham capacidade de controlar o seu sistema. Recorreram então a uma política que eles sempre foram contra, a chamada intervenção do Estado na economia.

Desse modo o Estado passou a cumprir um papel mediador nas relações capital-trabalho arbitrando conflitos, de forma a manter o sistema capitalista funcionando. Assim foi instituída uma série de direitos e conquistas para os trabalhadores, dentre os quais a jornada de trabalho, a Previdência, salário mínimo, etc.

Os estudiosos referem-se a esse modo de funcionamento do sistema capitalista como o estado de bem-estar social fordista, quando o Estado era um agente fundamental na regulamentação das relações sociais. Assim os trabalhadores tinham uma série de direitos, desde que não se atrevessem a atacar o sistema capitalista, nem tentassem lutar pelo socialismo. Os patrões seguiriam tendo lucros, mas não poderiam, em tese, superexplorar os trabalhadores (jornadas de trabalho acima do permitido, salários abaixo do mínimo, trabalho infantil, etc) assim a paz social estava mantida.

Uma questão pouco abordada é o significado dos direitos dos trabalhadores dentro do estado capitalista. Se por um lado se trata de uma melhoria, de fato, do nível de vida e como tal deve ser ferozmente defendida, por outro há uma relação com a classe capitalista que muitos revolucionários se esquecem.

O sistema capitalista tem como objetivo central à geração do lucro. Não importa como, se vendendo armas ou drogas,  produzindo alimentos ou roupas. Assim não faz parte do objetivo da classe capitalista o bem-estar da classe trabalhadora. Procura apenas manter os trabalhadores próximos ao nível de subsistência, que é definido historicamente pela relação de forças entre as classes e pelo avanço da produtividade.

Um das questões levantadas pela classe capitalista na década de 30 era como poderiam manter o sistema funcionando, conter os avanços da luta da classe trabalhadora e assim preservar o seu sistema num clima de paz social e ainda lucrar com isso. Essa situação só seria possível se amplas camadas da população fossem incluídas no chamado mercado, ou seja, pudessem comprar e seguir comprando permanentemente até o fim de suas vidas.

Nascia a economia do mercado de massa. Paralelo às inovações tecnológicas e organizacionais, surgia à necessidade de dar vazão à quantidade de mercadoria produzida.

Por um lado a classe capitalista, ainda que resistente, concedia aos trabalhadores direitos, o que melhorava de maneira significativa sua condição de vida. Por outro lado, no entanto, conseguia com isso manter os trabalhadores fiéis ao sistema que lhes explorava, alienando-os via o consumo.

O financiamento da previdência era uma coisa benéfica à classe capitalista e ao governo. Baseada no desconto do salário no hollerit do trabalhador, o governo sacava enormes recursos que deveriam ser para garantir a pensão dos trabalhadores, além da parcela que cabia aos patrões e ao próprio governo depositarem.

No entanto o que aconteceu foi que o governo não depositou sua parcela (pelo contrário utilizou o que fora arrecadado para financiar obras faraônicas e corrupção) e os patrões além de não depositarem a deles meteram a mão no dinheiro que era dos trabalhadores (descontavam do trabalhador e não repassavam para o Governo). Isso era assim porque naquela época existia um enorme contingente de trabalhadores na ativa que pagavam a previdência e poucos que recebiam. O rombo foi aumentando aos poucos, e muita coisa mudou...

 

A GLOBALIZAÇÃO E A CRISE DA PREVIDÊNCIA

Esse quadro se modificou com a crise dos anos 70 e o advento da globalização. O sistema capitalista não conseguia mais dar vazão ao enorme volume de mercadorias que vinha produzindo baseado nas técnicas fordistas. Assim todo o sistema, baseado no consumo de massa ruiu. Desde de lá, a burguesia mundial começou a rever o funcionamento do seu sistema. Não valia a pena manter uma estrutura baseada no consumo de massa. Era necessário se diferenciar, era necessário avançar tecnologicamente. E mais do que tudo, era necessário acabar com o poder operário que potencialmente estava surgindo com as enormes fábricas fordistas.

Aí começou o chamado neoliberalismo. Uma resposta conjunta em várias frentes para reverter a crise do sistema em benefício da classe capitalista.

A abertura de mercado, a internacionalização da economia, o questionamento do papel do Estado como agente do desenvolvimento são as primeiras medidas visando criar uma nova lógica de funcionamento da economia capitalista. A partir daí as burguesias nacionais entraram num movimento frenético de readaptação, grandes empresas foram fechadas ou reestruturadas, setores foram aniquilados. E como conseqüência disso tudo veio o chamado desemprego estrutural. Menos trabalhadores registrados tornaram o financiamento da previdência mais difícil. E aconteceu o que todos sabemos, o governo e os patrões quebraram a previdência!!

Assim o ciclo se fechou. O capitalismo, ainda que tenha interesse no mercado de massas, não há mais uma preocupação com a manutenção dos níveis salariais para garantir o consumo. A alta produtividade do trabalho e a internacionalização da economia garantem ao capital o escoamento da produção, ainda que com crise.

 

A SAÍDA DADA PELA BURGUESIA: A PRIVATIZAÇÃO DA PREVIDÊNCIA

Apesar da crise uma coisa é certa: as pessoas continuam a viver, ainda que em condições precárias. E essa é uma das contradições do sistema capitalista. Por um lado o sistema busca incessantemente se auto-reproduzir e gerar lucros de maneira incessante, por outro ele não tem como objetivo gerar bem estar para todo mundo. Para o capitalismo os trabalhadores ou são consumidores ou são mão de obra. Se não se enquadrar numa dessas duas categorias está condenado.

Percebendo isso, a burguesia logo encontrou uma saída. por quer não criar nas pessoas o espírito de poupança, de modo a garantir uma aposentadoria segura? Assim nascia a previdência privada. Ou seja, além de pagarmos por toda a vida a Previdência Oficial, o governo e os patrões fizeram com que o sistema ficasse cada vez pior, deixando as pessoas cada vez mais aterrorizadas com o que viam, levando-as assim a migrarem em massa para o sistema privado de Previdência.

Esse foi um negócio da china para a burguesia financeira (não por acaso uma das maiores beneficiárias da globalização). Garantindo uma entrada de enorme soma mensal de dinheiro, sacada diretamente do salário dos trabalhadores e além disso em valores expressivamente maiores do que os pago à Previdência oficial, os grandes bancos e os chamados fundos de pensões passaram a dominar uma grande massa de capitais que estão na raiz das crises causadas por esses agentes no mercado financeiro e que tem atingido a economia mundial. São trilhões de dólares que buscam valorização financeira rápida e sem piedade.

Ou seja, se um governo não aceita as imposições desse capital especulativo, os agentes financeiros simplesmente abandonam o país causando crise colossais como as ocorridas na Rússia, Brasil e Sudeste Asiático. A irônica contradição disso é que essa crise atinge principalmente os trabalhadores, os financiadores primários desses capitais. Ou seja o feitiço volta-se contra o feiticeiro.

A burguesia brasileira está de olho nesse mercado. O Brasil em matéria de Previdência Privada está muito atrasado quando comparado com outros países. Estimasse o potencial de capital nesse negócio da ordem de 100 bilhões de dólares. Hoje esse capital não ultrapassa sequer 10% desse potencial.

Essa é a razão de toda a reforma. Toda a discussão em torno  da contribuição dos inativos, redução ou não do teto de aposentadoria não passa de uma enorme pressão para criar uma situação que leve os trabalhadores a fazerem planos de previdência privada. Essa é a sacada da burguesia. Sendo assim diminuem as pressões por direitos como aumento do valor das aposentadorias ou melhorias das condições de assistência, canalizam essas pressões para o longo prazo, pois muitos dos que iriam se aposentar hoje só  irão faze-lo agora, daqui a 10ou 20 anos. Ao prometerem mundos e fundos cria-se uma bomba relógio de efeito retardado. Porém quando chegar a hora de se aposentar a crise será a mesma da previdência atual. Mas o estrago já foi feito. Isso aconteceu no Chile e recentemente nos Estados Unidos.

 

QUAL A SAÍDA?

Dada a ofensiva do governo do PT e da burguesia, o movimento encontra-se desorientado. O fato do PT ter o apelo de ser um partido dos trabalhadores (só no nome, é claro), o enorme carisma de Lula e a submissão da direção da CUT ao governo, só tem tornado essa luta mais difícil. Muitos ativistas têm declarado a luta contra a reforma da previdência perdida. Ainda que compartilhamos da compreensão sobre a dificuldade que essa luta encontrará, somos da opinião que nada está decidido.

É necessário, no entanto, estabelecer uma forma mais abrangente de luta, que atinja o capital a fundo.

O fato de concentrar as lutas em passeatas e manifestações em Brasília, ainda que válido, tem alcance muito limitado. É preciso ir além.

Estabelecermos um programa que saia da defensiva, que saia do lugar comum da defesa pura e simples da previdência que está aí. Partir da denúncia de responsabilidade do governo e dos patrões pelo caos da previdência. Propor um programa de cobrança para os maiores devedores da previdência que são os grandes capitalistas e o governo. Estabelecer um programa de geração de emprego, atacando o capital financeiro e aos grandes grupos. Defender a estabilidade de emprego para todos trabalhadores  da iniciativa privada ou do setor público. Controle da previdência pelos trabalhadores e suas organizações, abertura e auditoria dos livros. Expropriação daqueles que devem e não pagam. Utilização do recurso para financiar as atividades econômicas que beneficiem a classe. Não podemos deixar os recursos da previdência nas mãos das raposas. Estas são algumas medidas para tomarmos a ofensiva. 

Outra questão importante é buscar a unificação dos setores de trabalhadores, tanto da iniciativa privada como do setor público, num só movimento. O governo, a burguesia e as direções da CUT e da Força sindical têm trabalhado sistematicamente no sentido de dividir a classe, jogando o setor privado contra o público e vice e versa. Precisamos buscar formas de defendermos os mesmos interesses. O ataque aos marajás tem que vir acompanhado de medidas que defendam o conjunto dos trabalhadores e que procure estender os direitos do setor público ao setor privado. Essa unidade é central para o êxito da luta contra a reforma.

 

   

 

O governo do PT e a Reforma da Previdência:

O DISCURSO DE HUMANIZAR O CAPITAL É PRÁTICA NEOLIBERAL

 

Quando, ainda em campanha eleitoral, Lula se comprometeu a manter os compromissos com o FMI, houve uma grande comemoração nos mercados financeiros. A burguesia e a grande mídia ficaram felizes, afinal essa era a última das grandes dúvidas que ainda restavam quanto ao “Novo PT”. Mas, na verdade, essa declaração foi apenas a expressão de uma mudança que já havia ocorrido pelo menos desde 1990, quando o PT aceitou o sistema capitalista como “o único viável”, com o seu mercado como principal regulador da atividade econômica e a democracia burguesa como sua correspondente política.

Com isso, ficou estabelecida a submissão e a integração à todas instituições. A participação nas eleições (um campo da burguesia por excelência) tornou-se o centro da atuação do partido. Era o abandono completo de qualquer prática no sentido da destruição do capital, das lutas pela revolução e pelo socialismo.

A partir daí a estratégia passava a ser a “humanização do capitalismo” – como propaganda para fora -, ou simplesmente, a administração da crise do capital como perspectiva mais realista, tomando emprestada a velha fórmula da política como “a arte do possível” – entendendo o “possível” como o que se enquadra no estreito limite imposto pela ordem do capital.  

Portanto, o fato do PT estar encaminhando a Reforma da Previdência nos mesmos moldes de FHC, inclusive com um nível maior de ataques aos trabalhadores, demonstra que não se pode esperar nenhuma medida de confronto efetivo com os interesses do capital, mesmo que isso seja revoltante para uns e decepcionante para outros. Lembramos que seus políticos e marqueteiros jogaram com as esperanças de milhões de trabalhadores que queriam mudanças e lhes deram a maior votação da história de um presidente.  

Na campanha eleitoral todos os candidatos venderam mais ou menos a mesma receita para sair da crise econômica: desenvolver as exportações, arrecadar dólares, pagar os juros aos investidores e com isso diminuir o risco Brasil, fazendo cair a cotação do dólar. Essa manobra tornaria os investimentos produtivos mais atrativos em relação ao mercado financeiro, retomando assim um novo “ciclo virtuoso” de crescimento econômico. Mas não responderam algumas perguntas: Como desenvolver as exportações se a economia mundial continua em um processo recessivo?  Como aumentar as exportações numa situação em que todos os mercados da Europa e EUA estão se fechando justamente para evitarem a concorrência? Não são os EUA que querem expandir seus mercados com a ALCA às custas da América Latina?     

Os agentes do FMI que são menos sonhadores - como todos os capitalistas - apresentaram exigências bem mais concretas: As Reformas da Previdência, Trabalhista e Tributária. Todas possuem um forte caráter de transferência da renda dos trabalhadores para o capital. Implementá-las é garantir que o Estado brasileiro tenha condições de continuar transferindo para os investidores e credores das dívidas externa e interna bilhões e bilhões de dólares relativos aos juros, além de dotar o capital de total liberdade de exploração e valorização, através da isenção de impostos, desregulamentação das leis trabalhistas e abertura de oportunidades aos investimentos financeiros, particularmente os fundos de pensão.  

A justificativa do PT, agora no governo, é a mesma de FHC: “não há alternativa”. Isso justamente porque o governo de Lula se mantém preso e comprometido totalmente com os interesses do capital.         

Acontece que o sistema do capital tal como se apresenta hoje, a partir de sua fase mais degenerativa - a mundialização ou globalização - é extremamente impositivo quanto às suas necessidades. Uma vez que sejam aceitos seus pressupostos, sua  lógica e as regras do jogo, não há praticamente nenhuma margem de manobra, nem se quer para a manutenção de conquistas obtidas pelos trabalhadores em décadas anteriores, quando o sistema do capital ainda tinha meios de se expandir gerando novos mercados.

Essa é a explicação de fundo para o fato de que o PT não tem se diferenciado nada em relação ao governo de FHC, ao contrário, coloca-se como o continuador da política econômica e das Reformas que FHC não foi capaz de realizar. Com esse enfoque mais geral, também conseguimos explicar a semelhança entre a Reforma da Previdência no Brasil e as Reformas na França, na Itália, Inglaterra e muitos outros países do mundo regido pela lógica do capital.

 

REFORMA APROFUNDA DRASTICAMENTE A LÓGICA NEOLIBERAL QUE COMEÇOU EM 1998

O projeto de Reforma da Previdência apresentado pelo governo segue as orientações do FMI e do Banco Mundial, que recomendam a substituição do modelo público de repartição por outro modelo, de capitalização financeira individual, já adotado em oito países da América Latina.

É importante dizer que esses projetos vinham sendo obstruídos, até antes da eleição de Lula, pela bancada do PT, a mesma que agora comanda seu trâmite, demonstrando o mesmo oportunismo dos outros partidos que, ao chegarem ao poder, adotam o mesmo rumo que criticaram quando eram oposição.

A Reforma da Previdência começou na verdade em 1998, já naquele momento pactuada com a CUT, na pessoa de Vicentinho e aprovada pelos parlamentares do PT no Congresso. A primeira mudança foi a  substituição do termo tempo de trabalho pelo tempo de contribuição. Na mudança de uma palavra estava resumida a mudança de concepção: modificação do sistema previdenciário que era de caráter solidário para o caráter meramente contributivo individual. 

Com o tempo de contribuição, não basta ter trabalhado a vida inteira e, ter contribuído para gerar a riqueza da sociedade.  É necessário ter contribuído diretamente para a Previdência. O direito à previdência foi transformado numa mercadoria, deixando de ser, uma responsabilidade da sociedade como um todo, um direito que deveria ser garantido pelo Estado, uma forma indireta de se redistribuir aos trabalhadores a mais-valia ou trabalho não-pago extraído pela burguesia.

Além dessa mudança substancial, foi extinta a aposentadoria proporcional e foi estabelecida a cobrança do pedágio, entre outras perdas para os trabalhadores.

O Estado foi então desincumbido da sua responsabilidade social, ao mesmo tempo em que as empresas foram conquistando mais isenções de impostos e jogando totalmente a responsabilidade da aposentadoria para o indivíduo. Se o trabalhador não tiver condições de trabalhar registrado ou de contribuir individualmente (o que é muito caro), problema dele.           

O projeto do governo prolonga o tempo de contribuição dos trabalhadores tanto do setor público quanto privado ao estabelecer idade mínima para se aposentar de 48 para 55 anos/ mulher e de 53 para 60 anos/homem. Além disso, estabelece a contribuição dos inativos de 11% sobre o valor que ultrapassar R$ 1058, diminui o valor da pensão para 70% e abre o espaço para a criação dos fundos de pensão privados, como complementação da aposentadoria. Em compensação, políticos, juízes, procuradores e outros tubarões da Previdência, que contribuem pouco e usufruem muito, continuarão com seus privilégios, o que também mostra que o PT incorporou de vez a idéia de que uns são mais iguais que os outros...  

 

GOVERNO E MÍDIA MENTEM EM SEUS ARGUMENTOS

 No texto oficial  da reforma, o governo diz que “pretende reduzir as despesas com esse sistema previdenciário velho, ineficiente, injusto e concentrador, para que já no Orçamento de 2004 possamos ampliar os investimentos nas áreas que garantam melhoria dos indicadores sociais e propiciem crescimento econômico e geração de emprego... Quem exige as mudanças são brasileiros comuns, que ainda não tiveram acesso a direitos básicos, como o de fazer três refeições por dia, ter moradia digna, ou saúde de qualidade”.

Esses foram os mesmos argumentos utilizados quando das privatizações. Mas antes de nos convencermos com os argumentos de justiça social do governo, vejamos o histórico dos problemas reais da Previdência que o governo e a mídia conhecem e escondem.

 

1) Desvio dos fundos para projetos governamentais e para a iniciativa privada

“O sistema previdenciário brasileiro existe formalmente desde 1923 e, nas primeiras décadas, havia muitos contribuintes e poucos aposentados, o que tornava a Previdência altamente superavitária. Porém, estes recursos não foram mantidos em um fundo para atender aos futuros aposentados, mas foram desviados para a construção de diversas obras, por sucessivos governos. Segundo a Profª Eli Lola Gurgel Andrade (em tese de doutorado no CEDEPLAR/UFMG, de abril de 1999) se todos os saldos positivos do sistema previdenciário no Brasil, tanto dos servidores públicos como dos trabalhadores do setor privado, nos anos de 1945 a 1980, não tivessem sido desviados, mas corretamente destinados a um sistema de capitalização a 6% ao ano (taxa da poupança), teríamos à época da publicação da tese um fundo de R$ 600 bilhões, que, atualizados pela própria autora representariam hoje R$ 1 TRILHÃO”.*

“E para onde foram esses recursos? Viabilizaram diversos projetos governamentais,  dentre os quais destacamos: Carteira Agrícola e Industrial do Banco do Brasil, principal agência de financiamento ao setor privado; Companhia Siderúrgica Nacional (CSN); Companhias Hidrelétricas do São Francisco (CHESF); Companhia Nacional de Álcalis (CNA); Fábrica Nacional de Motores (FNM); Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE);  construção de Brasília,  Ponte Rio Niterói,  Itaipu Binacional”.*

“Setores estatais como o do aço e da energia elétrica, fortemente financiados pela Previdência Social, viabilizaram a existência dos grandes empresários industriais no Brasil, que se beneficiaram de tarifas baixíssimas, materializando um subsídio de mais de US$ 30 bilhões, no período de 1979 a 1988 (Congresso Nacional, 1989, Comissão Mista Destinada ao Exame Analítico e Pericial dos Atos e Fatos Geradores do Endividamento Externo Brasileiro, pág 7)”.*

 

2) Pagamento dos Juros da Dívida Externa e Interna

Os juros e os encargos da dívida prevista na lei orçamentária de 2003 são da ordem de 93,644 bilhões de reais, soma superior aos 92,110 bilhões que foram destinados ao pagamento total dos benefícios do INSS em 2002, ou seja, a milhões de pessoas em todo o Brasil.

Com relação à Seguridade Social, apenas no ano de 2002 o Governo deixou de alocar 36 bilhões de reais para programas de saúde, assistência social e previdência, a título de "fabricar" saldo primário para honrar compromissos com credores e FMI.

“Nos últimos 8 anos, quase 30% dos tributos arrecadados, ou quase 10% do PIB (toda a riqueza produzida no país) foram transferidos dos mais pobres (que são os que mais pagam os impostos no Brasil) para os mais ricos - principalmente os banqueiros, grandes empresas e especuladores do mercado financeiro, que são os que recebem os juros da dívida. Apesar disto, a dívida não parou de crescer. Se considerarmos a Dívida Consolidada da União, que soma a dívida interna com a externa, ela atingiu em dezembro de 2002 a cifra de R$ 1 trilhão e 200 bilhões!” *.

A aprovação do PL-9, bem como a cobrança de contribuição previdenciária dos inativos faz parte das exigências constantes do acordo de 30 bilhões de dólares, assinado por FHC no fim de seu mandato. Esse acordo evitou a moratória da dívida pública e garantiu a continuidade dos vultosos pagamentos ao setor financeiro.

Em janeiro de 2003, a maior parte dos recursos foi destinada ao pagamento de juros, fato altamente festejado e elogiado pelo FMI e mercado financeiro,  os verdadeiros privilegiados.

 

3) Inadimplência dos Grandes Empresários 

Ao mesmo tempo em que encaminha ao Congresso o projeto de reforma previdenciária que aperta os bolsos dos servidores e, por tabela, também dos trabalhadores da iniciativa privada, cresce a inadimplência no pagamento de contribuições sociais das empresas.

Os créditos que o INSS tem a receber rondam os R$ 180 bilhões, o volume da dívida quase triplicou em cinco anos. Segundo o Ministério da Previdência Social, há R$ 79,2 bilhões de créditos em cobrança administrativa e outros R$ 99 bilhões - mais difíceis de cobrar-já inscritos na dívida ativa do INSS.  "É difícil dizer quanto da dívida é incobrável, mas há uma quantidade enorme de empresas que faliram e não deixaram nem vestígios nem bens", avalia o procurador-geral do INSS, João Aragonés Vianna.

 

4) Apesar de disso, Não Há Déficit na Previdência.

“Muitas estatísticas demonstram a existência de déficit porque não tomam o conjunto de receitas previstas na Constituição Federal para o financiamento da Seguridade Social”.

Exemplo disso pode ser o divulgado déficit de R$ 17 bi do Regime Geral de Previdência Social (que engloba os trabalhadores do setor privado) em 2002. Trata-se de mera falácia, facilmente desmontada com argumentos do próprio Governo, pois, dos R$ 17 bi, R$ 15 bi se referem à aposentadoria rural e renda mensal vitalícia, que beneficiam milhões de brasileiros que nunca contribuíram – ou não puderam comprovar contribuição”.

Segundo professor Marchese, um petista militante, o ministro da previdência Ricardo Berzoini, sabe que o INSS teve um lucro de 36 bilhões de reais em 2002, pois reconheceu estes dados num encontro no INSS. Acontece que este saldo positivo está comprometido com prioridades da área econômica. Este dinheiro será desviado da Previdência para pagar a dívida interna e externa.

Para honrar os compromissos com o FMI, o governo Lula irá desonrar mais um de seus compromissos, de implantar uma campanha de revalorização do funcionalismo público e dos trabalhadores em geral.

 

5) Privatização do sistema via fundos de pensão

Apesar do governo dizer que esta reforma é em nome de quem está ameaçado pela fome e desamparado, na verdade, o setor financeiro é que lucrará muito com essa fatia de mercado que afetará servidores públicos das três esferas de governo. Para isso, vem travando tendenciosa campanha na mídia para desmoralizar os servidores perante a opinião pública. Essa estratégia está explicitamente declarada na revista Fundos de Pensão de janeiro/2003, contendo uma espécie de roteiro para a aprovação do PL-9: “(...) a batalha decisiva dessa reforma será travada na opinião pública pois, só com o seu apoio o projeto poderá ter futuro no Congresso e no Judiciário (...) o conteúdo básico das múltiplas ações será a denúncia de privilégios, uma proposta de igualdade no sistema previdenciário”. *

É preciso desmascarar que o regime de capitalização permitirá rendimentos maiores e aumentará o nível de poupança. Experiências em outros países que partiram para o modelo de capitalização foram desastrosas: no Chile e Argentina, com a instalação de fundos privados de aposentadoria e pensão, aumentaram-se os gastos do Estado, enquanto o valor das aposentadorias caiu terrivelmente. Quando chegou a hora de desembolsar os benefícios, vários fundos privados quebraram, jogando o ônus para o Estado ou simplesmente se isentando da responsabilidade pelas aposentadorias dos seus “clientes”. 

A transformação para um modelo de capitalização privada significará a apropriação pelo sistema financeiro de recursos públicos, direcionando-os do circuito produtivo para a especulação financeira, além de representar e inviabilizar investimentos na seguridade social.

 

DIREITOS TRABALHISTAS SÃO CONQUISTAS E NÃO PRIVILÉGIOS. DEVEM SER ESTENDIDOS A TODOS OS TRABALHADORES

Outra mentira escandalosa, feita pela mídia e  assumida pelo governo do PT é que “os funcionários públicos são privilegiados”.

Se considerarmos a situação da grande maioria (85%) dos servidores públicos e se  compararmos seus direitos aos do setor privado, veremos que os “privilégios” atribuídos pela grande imprensa ao funcionalismo público não passam de mais uma falácia. Além da contribuição mais onerosa, o servidor público não tem  direitos como o FGTS, remuneração de horas extras, seguro desemprego, participação nos lucros da empresa, acordos coletivos etc.

Alguns direitos trabalhistas  - que ao mesmo tempo são condições mínimas para a prestação dos serviços públicos, como a estabilidade no emprego (que já não tem a mesma validade), férias, 13°, licença gestante - são direitos básicos que deveriam ser de todo trabalhador, mas que os governos pró-capitalistas anteriores atacaram e, o governo de Lula está atacando.

Por último, essa Reforma irá gerar mais desemprego, pois os trabalhadores da ativa irão demorar mais 7 anos – pelo menos – para se aposentar. Isso vai em direção oposta à geração de 10 milhões de empregos, pois nem sequer o nível de emprego atual será mantido.

 

QUAIS AS POSSIBILIDADES DE BARRARMOS A REFORMA DA PREVIDÊNCIA?

Como já dissemos a Reforma da Previdência é parte de um conjunto maior que inclui também as reformas Tributária e Trabalhista, para favorecer as empresas que operam no Brasil, já com vistas à implantação da ALCA. Os ataques não vão atingir apenas aos “privilegiados”, como afirmam.

A única chance de conseguirmos ser vitoriosos é colocarmos a luta contra a Reforma da Previdência como parte de uma luta de todos os trabalhadores contra o conjunto dos ataques do capital, saindo assim da armadilha da parcialidade, como tem sido até agora.

Devemos iniciar o desenvolvimento de um processo de denúncia, organização e mobilização dos servidores públicos junto a todas as outras categorias e  comunidades, no sentido de uma luta unificada contra os capitalistas e o governo. Cartas abertas, reuniões, passeatas e concentrações nos bairros proletários e em frente às fábricas, reuniões e ações com os alunos e seus pais, etc, são todas formas concretas de organização e mobilização que devem ser implementadas. Manifestações como a ida à Brasília, apesar de um primeiro passo, não são suficientes, pois o sistema consegue muito bem absorver esse tipo de manifestações sem que possa surtir efeito, pois continuam presas na esfera política, nem tocam no centro nevrálgico do capital: a produção e realização do lucro.

As direções do movimento (principalmente a CUT) têm utilizado deste artifício de organizar caravanas à Brasília quando aumenta o descontentamento, assim responde à cobrança dos ativistas quanto alguma mobilização e mantém o descontentamento e as ações no campo da burguesia que é a pressão sobre o parlamento.              

Devemos avançar num processo de lutas diretas que interfiram diretamente na produção e circulação do capital, culminando em uma Greve Geral por tempo indeterminado a fim de  barrar o conjunto das Reformas e a Implantação da ALCA. Esta deve ser a estratégia a ser perseguida o mais rápido possível.           

Não podemos esperar que essas iniciativas venham das direções da CUT e da Força Sindical, pois já deram mostras de que apóiam o governo de Lula e não farão nada para desestabilizar o governo e a ordem capitalista.

Somente nós, trabalhadores, poderemos  fazer frente a esse agravamento das condições de vida e da crise social geral, superando as ilusões neste governo, nas direções burocráticas, desenvolvendo formas próprias de luta e de organização. Nesta direção teremos que apostar todas nossas forças através dos muitos grupos anticapitalistas que têm surgido ou se reorganizado, acumulando experiências e forças para causarmos impacto no sistema à medida que sua crise desenvolva também a experiência dos trabalhadores com o governo Lula.

      

*Dados extraídos do artigo: Mentiras e Verdades sobre a “Reforma da Previdência,  Maria Lucia Fattorelli Carneiro, Auditora Fiscal da Receita Federal, Presidente da Delegacia Sindical do Unafisco em MG, Coordenadora do Fisco Fórum-MG e Coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida pela Campanha Jubileu Sul. Artigo completo no endereço:  http://www.unafiscobh.com.br

 

 

 

O combate do orgasmo contra o tédio e a monotonia

Carlos Wellingtom - Estudante FSA

 

O equivoco de um jovem rapaz de esquerda que, por culpa dos velhos intelectuais economicistas que não fazem a discussão sobre as relações amorosas, pensa que apego é amor.

"Vós pobres de espírito se apegam a uma pequena felicidade, espreitando com o rabo de olho a procura de uma outra pequena felicidade!"

"Existe um ponto além do qual não há retorno. Este é o ponto que devemos atingir”.

"As pessoas temem a liberdade e conservam cuidadosamente suas próprias correntes. Pela segurança..."

Essa terceira citação pode ser notada visivelmente no intelectual texto “O inconsciente dos jovens revolucionários” (Espaço Socialista nº 8) do meu companheiro Alex em defesa da monogamia.

As correntes que nos prendem são tão fortes, que chegamos ao ponto de  defendê-las "inteligentemente"! Isso confirma a afirmação do Wilhelm Reich, quando diz que "os homens de nossa época tem um medo desmedido justamente daquela vida que anelam vigorosamente, mas para a qual, no entanto, não estão emocionalmente preparados. A resignação sexual, à qual aderiu a maioria esmagadora dos homens, realmente significa embotamento, vacuidade da vida, aleijamento de toda atividade e iniciativa, ou a base dos excessos sadistas; No entanto, pelo outro lado também oferece uma calma relativa na vida. É como se a morte já fizesse parte da própria maneira de viver; vive-se para a morte! E essa morte em vida é preferida quando a estrutura psíquica não se encontra à altura de enfrentar as dificuldades e incertezas de uma vida realmente viva”.

Quando o companheiro Alex coloca que "a monogamia sob uma concepção humanista de lealdade de indivíduos que buscam o dedicar-se ao outro é  uma concepção puramente humanista e sincera de amor e sexualidade entre indivíduos" estando os jovens revolucionários, amorosa e sexualmente envolvidos entre eles mesmos!

Este jovem de esquerda está fazendo um serviço bem interessante pra uma das mais reacionárias instituições brasileiras: a TFP (Tradição, Família e Propriedade)!                                                                                                         

O medo da liberdade é realmente capaz de realizar tarefas impossíveis. A sociedade destrói os indivíduos e torna-os incapazes de amar realmente: O que se toma por amor é uma mistura de dependência infantil, desejo de segurança, de necessidade de dominação ou de submissão, de possessividade, etc. Quanto ao ciúme, esse componente que invade o amor, traduz uma atitude de propriedade em relação ao companheiro, que é rebaixado ao nível de objeto sobre o qual se pensa ter direitos. Em última analise, o ciúme reduz-se a uma reação de proprietário que tem medo que lhe arrebatem seu bem.

Diz o médico e psicanalista Flávio Gikovate: “Não há soluções prontas para os dilemas humanos e, dentro dos limites da biologia, devemos e podemos exercer nossa imaginação. Se formos fortes o suficiente para nos livrarmos das amarras impostas pela tradição estaremos prontos para buscar formas originais de viver, um privilégio que a nossa geração não deveria abrir mão”.

A revolucionária Alexandra Kolontai coloca uma coisa muito interessante, aliás, nada interessante! E vamos com a nossa testemunha: "Todos tivemos ocasião de observar um fato curioso que se repete continuamente: dois amantes, que mal tiveram tempo de conhecer-se em suas relações múltiplas, apressam-se a estabelecer seus direitos sobre as relações sexuais do outro e intervir no mais intimo e no mais sagrado de sua vida. Seres que ontem eram dois estranhos, hoje, unicamente porque unem sensações eróticas, apresssam-se a apossarsse da alma do outro, a instalar-se no seu interior como se estivesse em sua própria casa”.

A terrível solidão que as pessoas sentem - nas imensas cidades populosas tão inquietas e alienadoras - que por sinal não é suprimida pela companhia de amigos e companheiros (à exceção de raparigas frígidas tagarelas que têm a capacidade de terem "orgasmo" com conversas fiadas até à náusea... apesar de se aparentarem sexualmente libertárias com suas saínhas hippies apenas pra provocar os rapazes!) é que impulsiona jovem e até velhos intelectuais, a buscarem com avidez doentia, por sua ilusória alma gêmea.

Ao colocar em seu texto, dizeres românticos construídos em torno da projeção e da idealização sobre a imagem em vez da realidade "Não se pode dedicar atenção merecida de afetividade a um número de pessoas em demasia com o mesmo nível de qualidade que cada individualidade merece, tampouco fazer tabula rasa das potencialidades da individualidade de cada um”  põem uma delimitação geográfica ao amor (uma só pessoa para amar sexualmente!), como se já não bastassem as delimitações que o lixo do sistema burguês impõe!

Não existe nenhuma outra relação humana como as relações sexuais, na qual se manifeste com tanta intensidade o individualismo grosseiro que caracteriza nossa época.

Absurdamente se imagina que basta a pessoa, para escapar da solidão que a rodeia, exigir seus direitos sobre a outra pessoa.

Ap-ego significa medo de perder, insegurança ou simplesmente seguir a regra para manter o status familiar. Isso não é amor, porque não deixa espaço para o outro.

A vida é dinâmica e nos convida a entrar no seu ritmo: a criação de movimentos. Mesmo que o companheiro Alex não perceba, tudo é movimento. Querer defender monogamia é o fim da picada!

O ap-ego produz o medo e com o medo mais apego. Não devemos impor limites teóricos ao amor só por causa das nossas inseguranças, e por causa dos nossos sentimentos mesquinhos de propriedade sobre as pessoas com quem nos relacionamos "amorosamente". Impossível imaginar um universo inerte.

Vida é movimento. Simbiose quer dizer mútua dependência. Quer dizer também uma relação de dependência não resolvida. O que opera no coração do laço familiar burguês é o laço com a mãe. Ou seja, eu troco o meu ap-ego com a mamãe substituindo-o pelo ap-ego pela minha pessoa "amada". Isso é doentio. Sobre tudo mesquinho. Reich nos diz que "as exigências sexuais naturalmente levam a toda a espécie de relações com mundo, a um contato íntimo com ele, sendo as formas e os conteúdos os mais variados”. Se forem reprimidas, só lhes resta a possibilidade de se manifestarem no âmbito estreito da família burguesa.

A inibição sexual é à base do reforço familiar dos indivíduos, do mesmo modo que é à base da consciência individualista da personalidade. Deve considerar-se estritamente que os comportamentos metafísicos, individualistas, sentimentais em relação à família não passam das diversas faces do único e mesmo processo fundamental de negação da sexualidade, ao passo que o pensamento materialista, voltado para a realidade, não mística, adota uma atitude mais livre em relação à família, manifesta no mínimo, indiferença em relação à ideologia sexual burguesa.

Para os que leram o texto do companheiro Alex, "ficou claro" que, por falta de tempo, o mesmo não poderia compartilhar com outras pessoas, o coração da sua pessoa "amada". Como se essa pessoa "amada" não pudesse estudar numa outra faculdade senão a que ele estuda, e nos períodos de intervalos, entrada, saída, dias que não houvesse aula pra ela, não teria tempo pra se relacionar com outra pessoa também! (risos, risos e risos!) A respeito da simbiose do companheiro, que é também a patologia do conjunto de toda a esquerda com raras exceções, o Reich diz o seguinte: "Aquele que não superou o seu laço com a família e com a mãe, ou que,ao menos por lucidez, o afasta dos seus juízos, esse despreza a aplicação do método dialético ao domínio da formação da ideologia. Aquele que quiser rejeitar essas coisas como sendo 'freudismo' só prova o seu cretinismo científico. Deve argumentar-se e não tagarelar sem conhecimento do assunto. O economicista está longe da compreensão da sexualidade como um dos fatores determinantes pra manutenção do regime burguês. Que se derrube a fonte cultural capitalista, não com palavras de ordem mas com saber. Podemos cometer erros e depois os corrigirmos, mas ser limitado em matéria científica é reacionário”.

Novamente chamo a palavra do médico e psicanalista Flávio Gikovate para os jovens de esquerda e velhos intelectuais com suas inseguranças infantis: “Estamos acostumados a pensar que a peculiaridade da amizade seria a ausência de desejo sexual (...). Na medida em que estão se desfazendo os tabus milenares, temos visto o surgimento de amizades não-ascetas que, aos poucos se estabelece como algo original e viável. Afinal de contas, por que não trocarmos carícias eróticas com pessoas que nos agradam como companhia?”

O companheiro responderia a isto dizendo que relações afetivas, só com o máximo de disponibilidade possível, que podemos caracterizar como semelhante às relações doentias de mães para com seus “filhinhos” na família burguesa. Poderíamos contrapô-lo colocando que a inibição, como se sabe, não cresce em árvore, é necessário paciência, muita paciência, e também concentração, além de um genitor dedicado e abnegado e uma criancinha esforçada e atenta, para que se crie dentro de poucos anos um ser humano reprimido e de cu fechado (um normopata!).

Nos lembram todos os dias que a vida é feita de limitações e restrições (do qual à esquerda “revolucionária” – pasmem – também faz parte!!!!!!!), centenas de milhares de regrinhas estabelecidas “ninguém sabe” por quem... (já que também participamos das convenções!!?! )

 

           

                                               

 PRIMEIRO DE MAIO: FESTA OU RESISTÊNCIA?

Sandro e Marcelo

 

A comemoração do Primeiro de Maio que acontece em todo o mundo, originou-se em Chicago nos Estados Unidos em 1886, onde gigantescas manifestações de operários exigindo a redução da jornada de trabalho para 8 horas foram violentamente reprimidas, causando a morte por enforcamento de quatro de seus líderes.

As repercussões em forma de greves e repúdio espalharam-se por toda Europa, três anos depois, em Paris, o Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores decidiu que no Primeiro de Maio de cada ano os operários organizariam manifestações para reafirmar sua solidariedade e disposição de luta para impor limite à jornada de trabalho, já que era exigido dos operários até 16 horas de trabalho frente às máquinas.

No Brasil na mesma medida que crescia o número de indústrias – final do século XIX e primeiras décadas do XX -, aumentava também a exploração sobre os operários, que em 1906 no Rio de Janeiro realizaram o 1º Congresso Operário Brasileiro reunindo líderes de várias partes do país, decidindo o 1º de Maio de 1907 como marco inicial de uma grande campanha pela jornada de 8 horas. Em 1925 o então presidente Artur Bernardes para desviar o caráter  de luta, decretou o dia feriado nacional, era o primeiro sinal da força dos trabalhadores, o segundo foi quando Getúlio Vargas  não conseguindo enfrentar diretamente o movimento promoveu a consolidação das leis trabalhistas.

Essa vitória iria custar muito caro aos trabalhadores, pois junto à C.L.T veio o atrelamento sindical ao ministério e a justiça do trabalho. Essa manobra serviu também para corromper o movimento, gerando dentro de seu próprio seio um câncer, uma casta dirigente ferrenhamente apegada aos seus gabinetes e cargos, que não vacila em trair os trabalhadores para garantir seus miseráveis privilégios. Somado a isso temos os problemas acerca das mudanças no mundo do trabalho, nas suas formas de inserção na estrutura produtiva e das intensas crises geradas pelo constante desenvolvimento do capitalismo em todas as suas dimensões; fabril, industrial e de força de trabalho. A lógica do Capital seguiu seu curso, flexibilizando os processos produtivos, desqualificando inúmeros setores e colocando à margem um contingente que historicamente sente sua vida econômica, política e social em franca decadência.

Na última década presenciamos indignados várias aberrações, resultado dos avanços da tecnologia, da multipolarização econômica e da modernização dos aparatos ideológicos de dominação em massa, o capitalismo em sua atual fase, também chamada  de globalização, é um “processo/retrocesso” ímpar nas perdas das conquistas sociais adquiridas através de muito esforço e luta de trabalhadores do campo e da cidade.

O que queremos salientar é que não somos contra o progresso e a tecnologia, porém, todo esse avanço produtivo aconteceu dentro da ordem capitalista com face neoliberal, o que não podia ser diferente dado a atual fase do capital, desempregando e excluindo o proletariado dos quatro cantos do mundo, anulando também suas formas de organização,  flexibilizando as leis trabalhistas, reestruturando a produtividade e produzindo um crescente “inchaço” do setor terciário da economia, ou seja, o trabalhador foi obrigado a vender sua mão-de-obra  ao mercado informal fazendo bico, sujeitando-se a qualquer trabalho nos setores de comércio e serviços para não morrer de fome. 

Se no passado o movimento dos trabalhadores eliminou a precariedade das condições de trabalho, oferecendo autonomia e uma crescente conscientização à classe proletária, hoje ele ainda não consegue dar respostas aos novos desafios pois, está preso a lógica da legalidade burguesa e dominado pela burocracia sindical.

Atualmente as grandes manifestações que ocorreram na França e Áustria contra a reforma previdenciária, e na Alemanha contra a reforma trabalhista, não dependeram dos aparatos sindicais para acontecerem, mas foram impulsionadas pelas próprias necessidades dos trabalhadores em choque com os interesses do capital em sua atual fase de desenvolvimento, já que precisa aumentar a taxa de exploração sobre os trabalhadores a qualquer custo para se reproduzir e seguir garantindo sua taxa de lucro.

Neste último 1º de maio presenciamos a mais um teatro da traição, a C.U.T (Central Única dos Trabalhadores) e sua direção majoritária atuando agora, como base de sustentação do governo, fazendo de tudo para fugir do debate sobre a atual situação da classe, promovendo shows, agindo da mesma forma que a super pelega Força Sindical, que tem em seu currículo acordos e conchavos com os sindicatos patronais e partidos de direita que encabeçaram a flexibilização das leis trabalhistas e a precarização das condições sociais.

Que moral tem essas organizações e o que podemos esperar nas manifestações como no dia Primeiro de Maio, além de Fantoches, Brindes e Shows. A CUT que já não sabe o que vai definitivamente defender ou sabe mais não quer dizer aos trabalhadores que os representa muito mal. Enquanto seu governo impõe as reformas na Previdência, nas leis trabalhistas que podem ser tão reacionárias como as dos governos militares e de FHC...

Trabalhadores, este discurso não queremos e não suportamos mais, a “ótica do inevitável” somente exclui e escraviza a classe trabalhadora. Portanto, VAMOS DIZER NÃO AO DESEMPREGO, AS REFORMAS TRABALHISTA E PREVIDENCIÁRIA, IMPOSTAS PELO GOVERNO LULA, para que no próximo Primeiro de Maio nas residências, ruas e praças a consciência de classe prevaleça e abomine esse lock-out  realizado pela classe dominante.

 

 

 


DO DIÁRIO DE CHE

Sandro Cardoso dos Santos

 

Vejo agora, com clareza, o capitão bêbado
Bigodudo patrão da embarcação vizinha
Com gestos enriquecidos pelo vinho ruim.

 

Despedida entusiasmada dos marinheiros
Devotos de Baco.

 

Conhecemos também outros

Que defendem a sã coletividade humana

E desprezam o parasitismo que via no vagar da maioria das pessoas.

 

As medidas de repressão não superam os protestos contra a fome

inveterada.

E como eles mesmos chamam o "verme comunista"

Nada mais era que um natural desejo de algo melhor.

 

Veremos se algum dia, algum mineiro pega uma picareta com prazer

e vá envenenar seus pulmões com alegria consciente.

Dizem que lá, de onde vem a chama rubra que deslumbra hoje o

mundo, é assim.

É o que dizem. Eu não sei.

 

                                                          

 

 

 



Nietzsche

Kafka

Jim Morrison