ESPAÇO SOCIALISTA
Edição eletrônica no. 8
espacosocialista@hotmail.com
ÍNDICE:
Questões
colocadas pela Guerra contra o Iraque
Qual é a relação entre a guerra
contra o Iraque e a crise econômica de superprodução?
Não à guerra pelo petróleo -
Por Virginia Marconi – Avanti! (Paris)
O inconsciente dos
jovens revolucionários
O governo neoliberal de lula e o dilema da esquerda do PTPor um novo partido?Crise de direção ou de identidade? -Por José Luis Portiolli/ABC
Poesia: A Grade
QUESTÕES COLOCADAS PELA GUERRA CONTRA O IRAQUE
Logo após os atentados de 11 de setembro a burguesia
norte-americana teve a grande chance de legitimar uma liderança capaz de dar
impulso a um novo ciclo de expansão a sua combalida economia. Utilizando sua
enorme capacidade de mídia (CNN, NBC e demais redes associadas), começaram a propagandear
a sagrada luta contra o terrorismo, formulando a tese do ”ataque preventivo”
como a única forma de “salvar a democracia mundial”. Desse modo, levaram a
guerra ao Afeganistão (que ainda não terminou) garantindo seus interesses
econômicos e legitimando-os, com a desculpa de combater a base do terrorismo.
Essa iniciativa garantiu uma importante posição estratégica, além da construção
de preciosos oleodutos e gasodutos. Como isso não era suficiente para por fim à
crise econômica, criou-se à idéia de “eixo do mal” e a próxima vítima foi o
Iraque.
Guerra
de Bush ou Guerra do Capital?
As
mobilizações mundiais questionaram os argumentos do império e, sofrendo o risco do sentimento
anti-imperialista atrapalharem seus negócios, setores da própria burguesia
americana e seus sócios, com todo seu arsenal de mídia espalhado pelo mundo,
rotularam esse conflito do capitalismo como uma Guerra de BUSH em uma medida
extrema. A culpa seria dele, um presidente eleito de forma duvidosa, um homem
ganancioso e até desequilibrado, um novo Hitler.
Mas, a questão central é: Por que um indivíduo como esse, em tese tão incapaz e
atrapalhado, além de desumano, ocupa hoje o primeiro lugar na escala do poder
político mundial? Como isso pode ocorrer? George W. Bush representa os
interesses específicos de dois ramos da economia norte-americana: as companhias
de petróleo e a indústria bélica. Portanto, sua eleição representou, no plano
político, o que já estava ocorrendo no econômico, a ascensão destes dois ramos
da economia sobre os demais.
Por que esses dois setores econômicos passaram a
estabelecer sua dominância e como?
Essa questão nos remete à situação atual do desenvolvimento do sistema do
capital.
O sistema como um todo vive uma crise crônica de
superprodução de capitais e mercadorias que não encontram meios de tornarem-se
lucrativos, independente de haver milhões de seres humanos precisando de
alimentos, roupas e uma infinidade de outros produtos, pois estão
marginalizados das esferas do consumo.
O capital chegou ao limite de sua contradição
fundamental: entre capital e trabalho assalariado. O capital continua desenvolvendo e utilizando-se de
novas tecnologias num ritmo alucinante, o que permite uma economia gigantesca
do trabalho vivo e, portanto, de despesas com mão-de-obra. Por outro, isso tem
uma conseqüência cada vez mais dramática: a redução dos que podem consumir
mesmo as mercadorias imprescindíveis à vida.
Assim, a única maneira do capitalismo continuar seu
ciclo de produção e reprodução baseado lucro é apostar cada vez mais na
produção de mercadorias que atendam às necessidades de luxo e ostentação de um
setor pequeno que detém a riqueza e pode consumir, fazendo-o no maior ritmo
possível, comprando de tudo, mesmo que não sejam produtos e serviços necessários
a uma vida humana. Aliás, o capitalismo se provou muito capaz de gerar
necessidades artificiais. ( ver artigo ao lado )
É o caso do transporte individual que, desde o início
do século passado, se tornou o modelo de transporte de massas mundial desenvolvido
a partir dos EUA.
Não importa, para o capital, que esse modelo de
transporte já tenha tornado se tornado inviável de vários pontos de vista como:
a poluição, o trânsito, o desperdício de trabalho, matérias primas e energia na
produção de tantos carros. Isso, quando seria muito mais racional, do ponto de
vista humano e da natureza, o investimento no transporte coletivo de boa
qualidade e acessível a todos. O que realmente importa para o capital é que a
indústria automobilística gera muito
lucro e note-se: é particularmente dependente do abastecimento de petróleo.
Na mesma linha de raciocínio poderiam ser citadas uma
séries de produtos derivadas do petróleo que tem tido seu consumo exacerbado a
partir das necessidades de lucro: plásticos, borracha artificial, nylon,
etc.Nesse caso, a produção desses materiais em escala cada vez maior traz um
outro problema: o do acúmulo do lixo não degradável.
Mas a tendência destrutiva do capital se expressa
ainda mais no desenvolvimento extremamente perigoso de um outro tipo de
indústria que produz mercadorias cada vez mais necessárias à permanência do
domínio do capital em sua forma imperialista sobre a humanidade. Trata-se da
indústria armamentista.
Pela própria condição a que chegou a degeneração do
capitalismo mundial, os três principais ramos de negócios mundiais são: o
petróleo, as armas e as drogas. Os EUA estão na liderança dos três e não
poderia ser diferente, pois representam a fatia mais concentrada do capital e a
maior praça financeira do mundo ( Wall Street ), onde o capital financeiro
especulativo vive, se nutre e se reproduz a partir da especulação sobre esses
negócios. Basta ver o aumento das cotações das bolsas mundiais, particularmente
a de Nova Yorque, quando da entrada e avanço das tropas anglo-americanas e
também as baixas no momento de maiores dificuldades na Guerra, quando essas
mesmas tropas enfrentavam maior resistência.
Portanto, não acreditamos que essa Guerra possa ser entendida em sua
profundidade como uma Guerra de Bush, como vem sendo alardeado pela imprensa
(Revista Veja) e até mesmo por setores da esquerda (PC do B, PSTU, etc). Ao
contrário, é preciso entender essa Guerra como uma Guerra do Capital
Imperialista contra os povos oprimidos e os trabalhadores, que atende às
necessidades do desenvolvimento próprio do sistema capitalista de concentração
e racionalização de capitais com vistas a um aumento das taxas de lucro que
possam recompor um novo período de crescimento da economia norte-americana e,
por essa via, da economia mundial.
Que seja George Bush o representante político desses interesses, isso só
demonstra que o capital, enquanto sistema, se utiliza de pessoas ou grupos
políticos e econômicos para a defesa de seus interesses, descartando-os quando
não mais necessários, muito mais do que o inverso. Tanto é assim que o discurso
e a prática de George Bush não teriam o mesmo apoio interno nos anos 50, quando
a economia norte-americana estava vivendo seu período de maior crescimento, o
boom econômico do pós-Guerra, baseado na indústria de bens de consumo de massa,
quando necessitava manter uma ordem de convivência com os trabalhadores, com os
outros países imperialistas e com a URSS. Ao contrário, dadas às necessidades
atuais do modo de produção do capital com seu epicentro na economia norte-americana
e desta na indústria petrolífera e armamentista, mesmo que George Bush morresse
amanhã, outro iria ocupar o seu lugar dando continuidade (com uma ou outra
pequena mudança) ao seu plano geral. Isto porque a dominação, a Guerra e a nova
colonização não são coisas tiradas da cabeça do Bush. São necessidades
objetivas do capitalismo para sua sobrevivência enquanto sistema.
Essa questão é muito importante para o desenvolvimento da luta e da consciência
da classe trabalhadora pois, por trás da afirmação de que esta é a Guerra de
Bush, está a idéia de que seria possível acabar com o impulso da Guerra
trocando de presidente ou de partido no poder, substituindo esse “modelo de
império” por um outro de relação harmônica entre as nações, sem acabar com o capitalismo.
Essa idéia é veiculada aberta ou dissimuladamente, como se o sistema
capitalista não tivesse uma lógica objetiva, que está acima das vontades
pessoais ou de grupos e que, ao contrário, justamente impõe a eles os limites e
os imperativos de sua atuação uma vez que mesmo seus interesses específicos ou
de grupo têm que estar de acordo com a expansão do sistema como um todo.
Portanto, a idéia de que esta é a Guerra de Bush
desarma a luta dos trabalhadores e da juventude contra a Guerra, pois fica na
superficialidade do problema, quando justamente do que se trata é de questionar
até a raiz e de afirmarmos que, enquanto a relação capitalista, que hoje
submete todas as relações sociais, não for destruída e substituída por uma
relação de produção social humana, diretamente socialista, continuará havendo
guerras cada vez mais destrutivas, ameaçando mesmo existência da espécie
humana.
Como fica a ONU depois da ação unilateral dos EUA e Inglaterra?
A mesma crise mundial do capital aguça a competição e o enfrentamento entre os próprios países imperialistas pelo controle do petróleo do Iraque e da hegemonia mundial. Com isso, a ONU demonstra o que realmente é: uma fachada que esconde um punhado de grupos econômicos e chefes de estados ricos e exploradores, que se unem na manutenção do regime do capital contra qualquer movimento ameaçador, mas que competem entre si pelo domínio do mercado mundial e que não hesitam em passar por cima de suas próprias resoluções quando não mais os beneficiam.
Não podemos ter qualquer ilusão na ONU quanto ao seu papel nesta guerra. Está nítido que a ONU não podia mais segurar as ferozes disputas entre o conjunto de interesses contraditórios dentro desta instituição, na fase imperialista do capital globalizado, pois não há condições de contemplar a todos. Alguém teria que dar o sinal de ruptura e isso coube naturalmente à parcela mais concentrada que, como sabemos, é representada pelos EUA juntamente com a Inglaterra, que busca se re-localizar como aliada dos EUA por fora e contra a Comunidade Européia.
Essa passagem por cima da ONU indica uma nova realidade da disputa interimperialista, em que não existe nenhuma potência militar capaz de fazer frente aos interesses norte-americanos e a diplomacia não representa mais o papel principal. Também torna necessário que os EUA tentem redefinir as funções da ONU para que, a partir de agora, ela sirva como legitimadora de sua política de expansão econômica. Essa manobra atualiza o papel da ONU dentro de uma nova co-relação de forças imperialistas (como viabilizadora de ajuda humanitária, etc), mas significa também a inegável perda de força de uma instituição que possuía uma grande importância, pois atuava como disciplinadora das posições imperialistas, para o bem-estar do sistema como um todo e, acima de tudo cumpria um papel ideológico e prático, como anteparo contra qualquer possibilidade de inimigo que pudesse ameaçar a estabilidade e o bom funcionamento do capitalismo no mundo. Assim, foi através da ONU, por exemplo, que os EUA, em 1991, promoveram a Guerra do Golfo pois, naquele momento, todos os países tinham interesses em que as tropas de Sadam se retirassem do Kwait, já que todos se beneficiavam com a venda do petróleo realizada por este país abaixo do preço fixado pela OPEP.
Hoje, quando se trata de decidir com quem ficará a 2ª
maior reserva de petróleo do mundo, uma situação em que esse combustível em
breve entrará em esgotamento, e no marco de uma profunda crise econômica, a
questão toma um outro significado. Quem puder mais, chora menos.
A contradição é que os outros países, quando disputam frente aos EUA, não
possuem nem um aparato econômico, muito menos militar, fortes o suficiente para
questionar suas ações. No fundo todos dependem da boa saúde da economia
americana pois, com a mundialização do capital, as economias, os investimentos,
os lucros – e também os prejuízos - estão interligados é o carro chefe do
sistema são os Estados Unidos.
Caso houvesse uma contestação prática do domínio
norte-americano, além dos perigos de uma guerra de conseqüências destruidoras
sem limite, teríamos também a possibilidade de que se rompessem os elos de
dominação e que, então, entrasse em cena o movimento dos trabalhadores. Por
tudo isso, os países que compõem a ONU estão tendo que assistir, impotentes, à ofensiva
anglo-americana, torcendo para que não consigam completar seu objetivo e que
sejam obrigados a negociar com França, Rússia, Alemanha e China mesmo que seja
uma pequena parte do que for conquistado. Por isso, toda a choradeira de que a
ONU tome parte na “reconstrução do Iraque” (leia-se exploração do petróleo do
Iraque)
Ao mesmo tempo, o descrédito total
da ONU também é um problema para a manutenção do controle sobre os
trabalhadores e povos do mundo. Caiu a máscara da dominação e agora qualquer um
percebe que os interesses econômicos são os únicos que movem as ações dos EUA e
dos outros países. Isso torna-se muito perigoso pois legitima, daqui por
diante, os movimentos, inclusive armados, que venham a se desenvolver contra os
EUA.
Parece que, ao invés de um mundo mais estável, com a Guerra teremos uma
situação de maior descontrole e polarização com muito mais focos de crise de
dominação do sistema.
Quais as perspectivas a partir dessa Guerra?
Quando os EUA e Inglaterra iniciaram
a Guerra o discurso era de que seria uma guerra rápida, cirúrgica, indolor e
quase sem baixas do lado anglo-americano. De fato, os primeiros dias foram
marcados por uma combinação de intensos bombardeios com a rápida ofensiva em
direção a Bagdá.
Surpresas, as forças aliadas
enfrentaram as primeiras e heróicas resistências provocando baixas e
sobressaltos que entusiasmaram todo o mundo árabe, contando até com
alistamentos voluntários, e chegaram a fazer o estado americano duplicar seu
efetivo militar e intensificar os bombardeios, já que contavam com enorme superioridade bélica, promovendo uma política
de terra arrasada, para só então entrar em Bagdá.
Apesar do controle sobre o território iraquiano, a
resistência provavelmente não vai parar, mesmo com a vitória dos invasores, já
que Sadam e seu clã sunita eram a única força capaz de conter o avanço da
influência xiita que tanto incomodavam os EUA desde a revolução iraniana,
motivando o governo norte-americano a apoiar Sadam na guerra Irã e Iraque com
armas e assistência técnica.
Certamente continuará havendo combates durante muito
tempo e, sem Sadam e seu clã, haverá a necessidade de tropas americanas durante
um prolongado período para impedir que a maioria da população que é xiita
torne-se um problema para seus interesses.
Outro aspecto será as conseqüências na região árabe.
Com a presença direta dos EUA e Inglaterra na região, haverá maior
possibilidade de levantes em outros pontos contra a intervenção direta.
Com a dominação do Iraque, a ofensiva capitalista e
imperialista continuará, mas agora desacreditada e questionada no mundo e mesmo
internamente nos EUA.
A pergunta que fica é: até quando os EUA/Inglaterra, desprovidos do aval da ONU
e numa situação em que esta instituição foi profanada e enfraquecida, poderão
administrar e manter tantos focos de crise, descontentamentos e instabilidade?
Os desafios colocados para o
Movimento contra a Guerra
Nessa questão entra o fator fundamental que ao mesmo
tempo vem marcar uma das novas tendências deste novo momento da luta de classes
que é o internacionalismo. Os protestos mundiais contra a Guerra ocorreram
simultaneamente em todo o mundo rivalizando no dia-a-dia com as notícias sobre
os ataques ao Iraque. Milhões e milhões de trabalhadores, jovens, pessoas da
classe média e dos meios artísticos se posicionaram frontalmente contra a
guerra ao Iraque e a sanha imperialista dos EUA.
O seu caráter notadamente pacifista colocou limites
ao movimento, impedindo que se construíssem ondas de greves e boicotes. Apesar
desse limite, o saldo positivo é que em muitos países, onde tradicionalmente
havia uma grande influência dos “Estates”, hoje o que se percebe é um ódio cada
vez mais declarado, ou seja a formação de um grande sentimento
anti-imperialista. Isso é muito importante, principalmente se recordarmos que,
há 14 anos, quando a Queda do Muro de Berlim e dos Estados do Leste Europeu
foi apresentada como a “morte do
socialismo” os Estados Unidos se apresentaram como a potência líder de um
suposto processo democrático que iria conduzir o mundo até o reino da liberdade
e da prosperidade. Agora a névoa se desfez e esse Estado aparece tal como é: o
principal impulsionador da dominação, da Guerra e da rapina. Tudo isso está
levando a um descontentamento cada vez maior que já incide no interior do
próprio Estados Unidos. Diante disso, também temos visto a “democracia” com que
o governo trata as mobilizações que ousam discordar e contestar seus
interesses. Já foram milhares de presos e muitas violações de direitos básicos
dos cidadãos, como a prisão sem qualquer acusação ou mandado, as escutas, as
revistas, etc. Isso só mostra que os interesses econômicos do capitalismo,
particularmente da indústria petrolífera e armamentista são essenciais para a
preservação da posição dos EUA como potência dominante. Por isso, já aparecem
declarações que a Síria e o Iram são os próximos alvos pois estariam fornecendo
armas ao Iraque, escondendo Sadam ou produzindo armas de destruição em massa, o
motivo não importa...
Para barrar essa ofensiva capitalista e imperialista, somente um processo mundial de lutas dos trabalhadores que interfira na produção e circulação dos capitais, que coloque em cheque a questão do poder na sociedade, de quem decide as coisas. Propondo um rechaço intransigente à ALCA, ao pagamento da dívida externa e às reformas impostas pelo atual governo Lula. Nesse caminho é que devem avançar as próximas mobilizações mundiais.
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QUAL
É A RELAÇÃO ENTRE A GUERRA CONTRA O IRAQUE E A CRISE ECONÔMICA DE
SUPERPRODUÇÃO?
Reflexões a partir das categorias desenvolvidas por
István Mészaros
Professor Emeritus da Universidade de Sussex, na Inglaterra, István Mészaros
ostenta uma vasta produção teórica. Para
além do capital é
o seu mais importante trabalho e sintetiza mais de duas décadas de pesquisa.
Neste livro o capitalismo e seus mecanismos de controle e auto-expansão sofrem
uma das mais severas e profundas críticas.
Este artigo é uma tentativa de “popularizar” parte da obra de Mészaros A Taxa de Utilização Decrescente e o Estado capitalista: Administração da Crise e Auto-Reprodução Destrutiva do Capital e, a partir das categorias desenvolvidas pelo autor, contribuir com o debate sobre a atual escalada militar norte americana.
Realizar uma reflexão sobre a ofensiva militar contra o Iraque e suas determinações é uma das tarefas mais importantes na atual conjuntura. Os EUA e o capitalismo de forma geral necessitam da guerra para “consumir” os artefatos bélicos produzidos pela sua indústria, movimentar uma rede produtiva e de serviços e, desta forma, combater a tendência à estagnação do consumo e, conseqüentemente, a não-realização da mais valia e do lucro. Para nos auxiliar neste debate vamos recorrer à construção teórica de Meszáros, pois ela fornece importantes pistas para aqueles que pretendem compreender o real na sua criticidade.
O capital encontra formas distintas para remediar a
crise de superprodução. Não se trata da repetição do antigo mecanismo, onde
crises agudas eram seguidas de períodos recessivos, demissões em massa,
contração da produção, fusões, quebras... Mészaros traz novas hipóteses.
Vejamos:
QUEDA
TENDENCIAL DA TAXA DE USO DAS MERCADORIAS
A mercadoria, portadora do valor de troca e do valor
de uso, é a forma típica da produção da riqueza no modo capitalista de
produção. A questão é que a produção capitalista busca depreciar cada vez mais
o valor de uso para que a mercadoria possa se realizar de forma independente do
uso social.
Uma mercadoria só circula se houver no mercado um
comprador que necessite das qualidades nela contidas. Precisa ter utilidade específica, um valor de uso. Este valor são
as propriedades físicas, a forma, durabilidade, aplicação e outras
características do produto. Na troca, estas características concretas são
desconsideradas em nome do valor de troca, tempo médio de trabalho abstrato
socialmente necessário para se realizar tal produto.
Mészaros contribui com a análise demonstrando que a
superprodução e a redução da massa de consumidores coloca a necessidade de
depreciar o valor de uso das mercadorias, garantindo o consumo de
obsolescências e mercadorias que não
dependem do consumo das massas. A vida útil da mercadoria é diminuída para que
essas tenham que ser repostas,
acelerando assim a circulação sem aumentar a quantidade de consumidores.
A crise de superprodução obedece à seguinte lógica: a
quantidade de produtos lançada no mercado
deprecia o valor (lembrando que valor é a quantidade de trabalho
socialmente necessário para produzir a mercadoria). Com isso o capital
investido não consegue um nível de remuneração desejado. A contradição entre a
relação de produção (trabalho assalariado versus capital) e o desenvolvimento
das forças produtivas manifesta-se invariavelmente. As novas técnicas/processos
levam a uma maior produtividade e a mesma quantidade de mercadorias é produzida
em menor tempo e com uma quantidade menor de força de trabalho.
O capital para se expandir, independentemente das
reais necessidades, impõe o consumo de bens que já surgem obsoletos. Os bens
que deveriam ser duráveis têm o seu tempo de vida diminuído ao extremo para que
novos possam ser consumidos e assim, o
tamanho do mercado permanecer o mesmo, garantindo lucratividade ao capital
independente das reais necessidades.
A guerra assume um duplo papel: de um lado consumo da produção
destrutiva e por outro acesso em condições privilegiadas a mercados e matérias
primas, principalmente as que geram energia, como é o caso do petróleo. É
evidente que as guerras e intervenções dos EUA no Oriente Médio são motivadas
por necessidades político-econômicas. Vale lembrar que as reservas de petróleo
estão previstas para durar, no máximo, mais cinqüenta anos.
Para o capital não importa se vai se reproduzir de
forma ampliada através do consumo de bens essenciais para a vida humana ou
através do consumo de bombas ou máquinas de guerra. Na verdade, todos os
governos, principalmente os imperialistas, estão orientados pela lógica da
expansão do capital, isto significa dizer que estes senhores farão o que for
necessário para garantir a realização da mercadoria esteja ela em que forma
estiver.
PRODUÇÃO DESTRUTIVA
A indústria bélica e sua produção possuem uma enorme
vantagem em relação às demais. Não necessita estar subordinada de forma direta
ao consumo de massa, cada vez mais excluída do mercado pelo desemprego ou pelo
crescimento relativo e absoluto da miséria, produtos da alienação do trabalho
em todas as suas dimensões.
O autor deixa claro que a produção capitalista
depende inteiramente da ampliação do círculo de consumo, sem o qual não pode
garantir a reprodução do capital e, ao mesmo instante, demonstra que o falso
consumo leva para adiante as grandes erupções, o que não significa dizer que o
capital conseguiu uma organização que o livre de crises. A diferença na
presente análise é que estas crises tornam-se crônicas, estendem-se e torna a
falência do sistema uma agonia para a humanidade.
A utilização da produção militar teve papel
importante na 1ª Guerra Mundial, generalizando-se após a 2ª Guerra. A ofensiva
militar norte americana no início da década de 90 alcança proporções
extremadas. Neste momento o capital é impelido a construir uma guerra após a
outra com o objetivo de realizar a sua expansão. Aqui entra a questão da
superprodução americana que se manifesta no déficit comercial e tem no
endividamento público uma fonte de contenção de crises mais agudas. Sem as
guerras, construídas por necessidades da economia capitalista, não seria
possível sustentar as crescentes tensões geradas pela auto-expansão
abstrata do capital.
O complexo industrial permite ao capital conciliação
entre consumo e destruição na medida que suplanta a necessidade real de
consumo. Mészaros esclarece que este fato não significa o desenvolvimento
harmônico do sistema, mas na verdade prolonga e aprofunda sua crise estrutural.
Em nome da segurança nacional, o governo e o congresso aumentaram em 15% as verbas
destinadas para as forças armadas e toda uma série de investimentos em
armamentos e segurança estão sendo realizados às custas do dinheiro público.
Temos que destacar a função de patrocinador direto do Estado ao prover as
multinacionais com fundos para a renovação de instalações.
Só não vê quem não quer! A guerra criada contra o
Iraque em nome da segurança mundial está diretamente ligada à necessidade dos
EUA em conter a sua crise econômica. Os indicadores são claros: recessão
prolongada, pelo menos desde março de 2001; desemprego crescente, perda de
massa salarial; quebra de grandes empresas; escândalos financeiros e
contábeis...O ataque ao Iraque era uma questão de tempo. Nenhuma capitulação do
ditador Sadan, por mais profunda, iria impedir a vontade e necessidade de fazer
a guerra. Bush está a serviço do capital e de suas formas mais parasitárias e
gosta disso! Existe uma sintonia fina entre o governo e o Estado americano com
o capital financeiro e com a indústria bélica que fazem parte do complexo de
forças e instituições que ditam as regras no cenário mundial.
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Recebemos este texto de uma ativista da
França com um relato e análise das manifestações contra a Guerra na Europa
alguns dias antes da invasão dos EUA/Inglaterra ao Iraque. Apesar de estar
ultrapassado em alguns fatos, a análise e as questões de fundo colocadas
permanecem atuais e por isso resolvemos publicá-lo para enriquecer essa
discussão tão necessária.
“Não à guerra pelo
petróleo” Virginia Marconi – Paris
Em 15 de março, um mês depois das maiores
mobilizações contra a guerra em todo o mundo, milhares voltaram a sair às ruas
em Paris, Madri, Londres, Milão e outras grandes e pequenas cidades na Europa e
em todo o mundo para dizer “Não queremos esta guerra”. Mas, desta vez
houve uma diferença em relação às anteriores. Uma sensação de impotência e de
crispação era visível nos rostos dos que marcharam. Já ninguém tinha ilusões
sobre o futuro: a guerra estava por começar.
Provavelmente, quando vocês estiverem lendo este
artigo, já milhares de prisioneiros políticos e massas oprimidas iraquianos em
cujo nome e proteção Bush diz que lança esta guerra, estarão sob o domínio do
exército de ocupação americano-britânico-espanhol, regidos por um governo
títere que garantirá a “estabilidade” do país e a livre exploração do petróleo
iraquiano, e as “armas de destruição em massa” iraquianas –se é que existem-, terão silenciosamente seguido o caminho dos
arsenais das potências invasoras, ou via o mercado negro de armas operado pelos
muito educados e prolixos membros da burguesia imperialista, ou dos movimentos
islâmicos que os Estados Unidos dizem combater.
Este movimento que nasceu contra a guerra do
Afeganistão, que fez retroceder Berlusconi (primeiro ministro da Itália), e que
começou a cortar estradas e impedir a navegação de navios de guerra, já está
planejando suas futuras ações, vigílias e marchas. Mas junto a ele se começa a
ver o movimento europeu flexionar seus músculos adormecidos durante décadas. Há
sindicatos italianos que disseram que declararão greve no dia em que se inicie
a guerra. Os ferroviários britânicos já tentaram deter os trens com armamentos
para seu exército e prometem ações similares com o início das ações. “A greve é
o veto do movimento operário” cantavam algumas colunas em Paris neste fim de
semana. Começou a se falar de uma greve generalizada a nível europeu no dia que
começarem as hostilidades. Todavia está por ver-se o que ocorrerá, mas o
simples fato de que as organizações sindicais comecem a colocar a greve como
arma contra a guerra já está dando a pauta de que está começando a haver uma
mudança na mentalidade das pessoas.
AS ESPECIFICIDADES NACIONAIS
Uma das primeiras coisas que salta a vista na Europa,
se alguém começa a observar o movimento antiguerra, é a maneira diferente como
se desenvolveu em cada país. Na Itália, Espanha e Grã-Bretanha, onde as pessoas
saem à rua para opor-se à política de seus governos, as manifestações tem sido especialmente multitudinárias.
Na Itália, onde o movimento sindical organizado e em
especial a CGIL (Confederação Geral dos Trabalhadores da Itália) teve um papel
preponderante na organização das marchas, o movimento tem características
diferentes das do resto da Europa, e é o único que conseguiu fazer retroceder
seu governo de sua posição de apoio a guerra.
Na Grã-Bretanha, a resistência à guerra e contra a
decisão do governo de Tony Blair de colocar-se incondicionalmente do lado de
Bush tem sido organizada pelos comitês locais e regionais constituídos pela
esquerda, fundamentalmente o SWP (Partido Socialista dos Trabalhadores) na
Inglaterra e o SSP (Partido Socialista Escocês) na Escócia, as igrejas
protestantes, em especial os quakeros, diversas organizações não governamentais
e intelectuais. Si bem que os intelectuais tenham sido instrumentais para a
difusão da oposição em palestras e debates, o verdadeiro trabalho o realizaram
e seguem realizando os comitês locais, formados por membros dos sindicatos,
alunos das universidades e habitantes em geral. Estes comitês tem tido especial
empenho em estabelecer relações com as comunidades mulçumanas locais. Nas
mobilizações já não é estranho ver a coluna da comunidade mulçumana, encabeçada
muitas vezes por mulheres com véu, ou inclusive com burkas portando braceletes
e vinchas verdes do movimento de libertação da Palestina.
A EXCEPCIONALIDADE FRANCESA
Na França, se bem que o movimento contra a guerra teve uma mobilização muito importante em 15 de fevereiro –500.000, segundo os organizadores- ele não é tão massivo como na Itália, Grã-Bretanha ou Espanha.
As razões para isto são principalmente duas:
primeiro, a debilidade do movimento antiglobalização, que é em muitos outros
lugares a base do movimento antiguerra; e segundo a posição do governo francês
de oposição ao imperialismo de Bush obcecado com a guerra. O seguidismo, tanto
das direções da esquerda reformista francesa – PS, PC e Verdes-, como também dos partidos revolucionários à política
de Chirac fez com que o movimento francês
contra a guerra, cuja base são os comitês contra a guerra organizados e
compostos por militantes de esquerda, centrasse toda sua política na
reivindicação de que a França utilizasse seu poder de veto no Conselho de
Segurança da ONU. As conseqüências desta política reformista estão às vistas se
alguém compara a quantidade de pessoas que se mobilizou contra a guerra na
França e no resto da Europa. A direção do movimento antiguerra não só fez as
pessoas acreditarem que não é necessário mobilizar-se porque afinal de contas
ali está Chirac que vai frear os ianques, mas que além de tudo, a questão da
guerra é coisa dos diplomatas e dos organismos internacionais. Agora, quando é
cada vez mais evidente que Bush via lançar a guerra com ou sem o aval da ONU, o
movimento se encontra desarmado. Por outro lado, esta posição não deixa claro que
não há diferenças fundamentais entre Bush e Chirac. Ambos estão por
desmilitarizar o Iraque e por seguir mantendo o embargo que está matando
milhares de iraquianos. Nesse sentido há que recordar que o inspirador da
famosa resolução 1441 na qual se baseiam Bush e Blair para exigir que a ONU
mande tropas ao Iraque foi precisamente Chirac. Ainda mais, Chirac acaba de
declarar que autorizar os vôos de reconhecimento americanos sobre o território
iraquiano. Por não dizer nada de seu papel como defensor dos interesses da
Total-Fina-Elf, a empresa petrolífera francesa que vai perder seus contratos
sob o governo títere que os EUA imporão, visto que o governo de Bush já começou
a licitar os poços de petróleo do Iraque, dando preferência às companhias
americanas. E a isto devemos agregar que neste aperta e afrouxa
interimperialista se está jogando também o futuro papel da Comunidade Européia
em relação aos Estados Unidos.
O FUTURO DO MOVIMENTO CONTRA A GUERRA.
O movimento contra a guerra a nível mundial está dividido em duas alas, Uma ala reformista –na qual se encontram, por exemplo, os membros do partido trabalhista britânico que se opõem a Blair e seu apoio incondicional à política dos EUA- que não se propõe impedir a guerra e sim fazer que faça com o aval da ONU, quer dizer, guardando o cínico decoro do direito internacional tradicional burguês. Para eles, a ONU não é um “antro de ladrões” na qual as potências imperialistas têm o direito a utilizar o veto para defender seus interesses e dos seus aliados ocasionais –como faz os EUA cada vez que o Conselho de Segurança passa uma resolução a favor dos palestinos e contra o Estado de Israel. Eles ocultam que a verdadeira face da ONU é o de ganhar a opinião pública internacional legitimando as guerras que convém ao imperialismo ianque e seus aliados. O movimento antiguerra dirigido por esta gente vai a um beco sem saída. Que vamos fazer quando, como já se verá, Bush, Blair e Aznar declarem a guerra unilateralmente?
A outra ala, a ala revolucionária será a que terá que tomar seriamente em suas mãos não só a luta contra a guerra, mas também a de impedir a realização dos projetos de protetorado militar que os EUA têm para o Iraque. Mais que nunca, é necessário impedir esta loucura da “guerra preventiva” que ameaça a transformar-se em guerra contra todo povo que tente desafiar o poderio dos Estados Unidos. Não só o futuro do movimento contra a guerra, mas também o futuro da humanidade depende da mobilização independente das massas a nível mundial contra esta guerra e as que em sua loucura o imperialismo americano, como expressão deste sistema capitalista em crise, ameaça lançar-nos.
O jornal Espaço Socialista se propõe a ser uma ferramenta para romper com a alienação que predomina na militância de esquerda. Assim sempre esteve aberto para a publicação de textos polêmicos, que contribuam com o debate, independentemente dos autores serem ou não militantes desse coletivo.
No
jornal passado foi publicado o texto do companheiro Carlos Welligton sob o
título “O inconsciente equívoco dos jovens comunistas,
anarquistas,feministas...”, o qual trazia à discussão a relação dos
militantes (principalmente a juventude) com a questão da sexualidade. Tema
bastante polêmico, teve o mérito de despertar reflexões, acordos e
divergências. O debate está aberto e deve prosseguir.
Como parte do debate estamos publicamos o presente texto,
do companheiro Alex, que polemiza com o texto da edição anterior e dessa forma
esperamos contribuir com a formação da práxis na militância revolucionária, tão
carente na esquerda, ou seja, uma prática dotada de sentido e compreensão da
realidade como uma totalidade.
O INCONSCIENTE DOS JOVENS REVOLUCIONÁRIOS
Alex Ribeiro Oliveira - Estudante de Ciências Sociais - FSA
"Mas tempo virá em que sejamos o que agora não somos"
Don Quixote de La Mancha (M. Cervantes)
Se a questão é poligamia, é bom que se diga: Nunca a humanidade foi tão poligâmica quanto na modernidade!
É bem verdade que toda sociedade burguesa tem como valor normativo à família monogâmica e seus “valores”, pela própria necessidade ideológica da sua própria asseveração de organização social; porém, nunca se traiu tanto nas relações humanas (dentre elas, a relação a dois) como na sociedade burguesa. Numa sociedade onde os homens se tornam coisas e as coisas aparecem com estima humano, onde toda relação humana é mercantilizada ao nível de venda na praça das trocas, numa sociedade onde “tudo que é sólido, desmancha no ar /.../ tudo que é sagrado é profanado”; propugnar a poligamia, é fazer de pilar e referencial do horizonte a confirmação da própria sociedade burguesa, afirmar e radicalizar ao extremo as contradições que assolam a individualidade fragmentada e desumanizada do homem contemporâneo e sua perda de caráter, como já ficava claro em as Ilusões Perdidas onde Balzac apreendia as mazelas sociais de seu tempo, onde o protagonista, Luciano de Rubempré configurava uma grande mobilidade de caráter. Algo que já se confirma claramente no século XIX, isto porque, “a individualidade ou processo de individuação, considerados na sua efetividade de sínteses máximas das formas de sociabilidade contém em si o efeito substantivo de todas as formas e meios que pautam – estruturam e movem – o emaranhado da existência social, ou seja, a individualidade é síntese máxima da produção social, em outros termos - a sociabilidade se realiza e se confirma na individualidade – e pela qualidade desta pode ser avaliada”.
Mas em que nível esta a qualidade da individualidade humana na época mais devastadora do capital sobre a individualidade do ser social?
Como negar que o próprio estranhamento do homem em relação ao homem na sociabilidade do mundo do capital não gera e constitui em nossa individualidade, o tratar o outro ser socialmente configurado – tal como o eu – como objeto; como meio para realização de meus desejos, ambições, vontades egoístas – mesmo que inconscientes – simples instrumento para alcançar meus objetivos teleologicamente determinados? Essa deformação das relações humanas, onde o homem alienado usa o outro como objeto para alcançar determinados fins se esboça em todos os níveis das relações humanas, seja nas relações de “amizade”, na relação sexual, nas relações familiares etc.
A poligamia tornou-se o dever-ser do homem moderno. Qual amigo nunca fez apologia a traição para um outro que desejou trair? E ele não trairia se isso é socialmente aceito? È preciso ter um caráter socrático para manter a suas convicções contra tudo e contra todos!
A argumentação que propugna a poligamia como modo de vida e realização tomando como alicerce a dedicação e ampliação das relações humanas a um maior número de pessoas e o aumento do convívio social é inviável pela própria ilogicidade da postulação, tão-somente por uma questão de tempo e espaço. Não se pode dedicar atenção merecida de afetividade a um número de pessoas em demasia como o mesmo nível de qualidade que cada individualidade merece, tampouco fazer tabula rasa das potencialidades da individualidade de cada um.
Para demonstrar o oceano de distância que nos separa de uma época da humanidade onde o humanismo e a perspectiva de futuro fazia parte do horizonte dos homens, tomemos como exemplo um trecho clássico do humanismo renascentista na obra de Thomas More - A Utopia, onde o autor atrasa em um ano o envio de seu livro para a publicação porque tinha algumas “coisas muito complicadas” a fazer, em carta a seu amigo escreve: “Quase sinto vergonha, caríssimo Pedro Giles, por vos enviar este livro sobre a República Utopiana com o atraso de um ano, quando o esperáveis em um mês e meio”, então nos dá o motivo do atraso: “para me dedicar à realização deste pequeno trabalho, os meus outros cuidados e preocupações roubavam-me todo o tempo livre. E como consagro diariamente o meu tempo a assuntos de leis – quer advogando, ouvindo, arbitrando disputas, ou exercendo o papel de juiz, e tendo para isso que longamente refletir as sentenças e conselhos – ou andando de um lado para o outro a visitar amigos ou a tratar de assuntos particulares, em resumo, passando o dia fora com os outros e o pouco que dele me resta, em casa, com os meus, tempo algum me sobra, no fim do dia, para mim próprio, isto é, para meu livro. Quando chego a casa, tenho ainda de fazer companhia a minha mulher, tagarelar com os meus filhos e falar com os criados. Considero estas coisas como parte dos meus afazeres, pois têm necessariamente que ser feitas, para que um homem não se torne um estranho em sua própria casa”. Ou seja, um dos maiores clássicos da humanidade era simplesmente secundário porque esta obra humana, foi laborada por um homem de seu tempo que estava muito mais preocupado em dar atenção a vida, em outros termos, em cuidar das individualidades que o circundava.
A atenção afetiva que cada
individualidade merece demanda atenção, sensibilidade e uma série de qualidades
das quais estamos desprovidos, frutos das mazelas de nossos tempos. Pois desde
já tomemos o timão da reflexão sobre mundo dos homens em toda sua dimensão
pois, “a teoria só é capaz de tomar as massas com a condição de que argumente e
demonstre ad hominem,
e demonstra-se ad hominem logo que se torna radical. Ser radical é tomar
as coisas pela raiz. E a raiz para o homem, é o próprio homem”.
Só tomando o homem como o núcleo de nossas reflexões na sua historicidade é que
podemos pensar o homem, suas pujanças e mazelas sociais; ou seja, as
relações humanas no qual hoje a monogamia é a maior expressão de lealdade e
amor entre indivíduos só pode ser pensada historicamente, reconhecendo seu
papel histórico na sociedade de classes e reconhecendo seu papel hoje. Se tivermos nós consciência de
toda essa problemática que envolve as relações humanas, se nós tivermos domínio
sobre nossas próprias vidas, formas de relacionamento humano, o entendimento e
a diferenciação histórica sobre o papel do patriarcado e a monogamia na
sociedade de classes. Por que nós não podemos ter o domínio sobre essas
relações humanas para podermos desenvolver nossas individualidades?
Se nós podemos dominar
nossa individualidade podemos controlar nossas próprias formas de pensar e
agir, tornando ao menos entre nós, as relações humanas em propriamente humanas.
Nesse
sentido, a monogamia – sob uma concepção humanista de lealdade de indivíduos
que buscam o dedicar-se ao outro – é uma concepção puramente
humanista e sincera de amor e
sexualidade entre indivíduos. Vejam que eu não trato isso como uma questão
moral burguesa, e sim como uma concepção aberta de relação entre indivíduos, o
que se contrapõem totalmente contra a lógica burguesa vulgarizada de relação
formal e jurídica entre indivíduos. Monogamia hoje, significa humanismo. Mas
porque?
O mundo burguês está em
constante contradição, contradição que gera outras contradições continuas, e
hoje as formas monogâmicas e patriarcais de vida estão entrando em contradição
consigo mesmas, isto porque, hoje vivemos a sociedade do individuo egoísta -
mônada isolada que se autoperpetua, forma de sociabilidade que entra em
contradição com os valores morais de família, mesmo patriarcais e monogâmicos.
A chamada “liberdade” no mundo burguês vulgarizou-se a tal ponto, que vivemos
num tempo de negação da razão, do individuo solto a si mesmo, sem referencia
social e entregue ao “seu eu interior”, de modo que o mesmo entra em
contradição com as concepções de valores sociais morais da própria burguesia.
A monogamia está em contradição consigo mesma reproduzindo tal como os
homens, as contradições da modernidade, mantém-se hoje como uma relação
meramente jurídica e normativa, em contraposição a liberdade do individuo
egoísta que pode “fazer o que quiser”, mesmo ir contra a monogamia. Geralmente diz-se que é monogâmico
moralmente e na realidade se faz o contrário, este é o mundo contraditório,
fragmentado, e decomposto do capital; o que permite que o indivíduo faça as
maiores orgias e moralmente apresente-se como pai de família burguês e
respeitável. Assim a monogamia consciente, é
contraposição a vulgarização perversa da sociedade burguesa, de indivíduos
totalmente contraditórios, neuróticos, fragmentados e que se automutilam por
ficarem no meio de campo do paradoxo moral x real.
O que os jovens podem fazer
é contraporem-se a ideologia burguesa, terem relações abertas entre si,
tratarem dos assuntos que se referem a todas as esferas da vida humana sem
condicionantes hipócritas, moralistas etc, e assentarem sua reflexões no
humanismo, na própria lógica do trabalho, isto quer dizer, na emancipação
social humana.
Nesse sentido, o
inconsciente dos jovens revolucionários no que versa sobre a questão da
monogamia é a negação do reconhecimento da posição do individuo na história, o
caráter social do individuo que é o espelho das relações sociais existentes em
sua época. Contra esse lapso, é necessário tal como Édipo afirmar: “Quero dizer
esta palavras claramente / alheio aos vão relatos, preso à realidade / Hei de
seguir, inda que só, o rumo certo / o indício mais sutil será suficiente”.
O GOVERNO NEOLIBERAL DE LULA E O DILEMA DA ESQUERDA DO PT
Não passa um dia sem que um grande jornal ou revista publique um ensaio desse ou daquele colunista, falando da responsabilidade, seriedade e sobriedade na condução da política econômica por Palocci e companhia.
Não é para menos. O governo de Lula vem seguindo e aplicando a risca o modelo neoliberal que FHC aplicava até então. Na verdade, tem sido muito mais eficiente, pois em 4 meses de governo conseguiu articular a reforma da Previdência que FHC ficou 8 anos e não conseguiu. E ainda vem a reforma tributária e a trabalhista.
Para onde olhamos vemos as mesmas medidas sendo tomadas. O governo Lula tem pressa em mandar para o congresso os projetos de reforma p>
O tal chamado déficit da Previdência provocado pelo funcionalismo não passa de uma gigantesca mentira que o PT e o governo desse partido, seguiram repetindo como papagaios.
Se hoje falta dinheiro para pagar as aposentadorias daqueles que estão aposentados ou que irão se aposentar é porque os governos anteriores desviaram o dinheiro para beneficiar a burguesia! Através do financiamento de obras faraônicas na época da ditadura militar, empréstimos camaradas às empresas falidas - que não devolveram o dinheiro, mas seus donos estão aí livrinhos e riquinhos da Silva passeando pelo mundo a fora -, pagamento dos juros extorsivos das dívidas internas e externas. Além disso, sucessivos governos não repassaram à previdência as contribuições descontadas da folha de pagamento do funcionalismo (como é o caso da prefeitura petista de Santo André que tem descontado mensalmente do salário dos trabalhadores sem que o próprio instituto de previdência tenha sido criado).
Mas, ao invés de lutar e propor medidas que reponha o dinheiro que foi “surrupiado” dos trabalhadores - descontado todo mês, religiosamente, do nosso salário (como a estatização das empresas que devem à Previdência, como o não pagamento da dívida externa e interna), o governo de Lula e do PT tomou um outro caminho. Tem sido exemplar na aplicação da política neoliberal.
A questão não é aritmética, de quanto é o rombo - como diz fastidiosamente o governo petista - mas sim política. Para onde foi nosso dinheiro? Por que nós, trabalhadores, teremos de pagar novamente?
GOVERNO LULA: UM GOVERNO NEOLIBERAL
Para milhões e milhões de brasileiros, a eleição de Lula significou uma esperança de uma vida melhor. Melhores salários, menos violência, melhores serviços públicos, mais terra. Havia a esperança por mudanças.
Ainda que não compartilhamos desse sentimento - por entender que o sistema capitalista não proporciona oportunidades de reformas que melhorem o nível de vida da maioria como ocorreu, por exemplo, nas décadas de 50 e 60 - nós compreendemos perfeitamente a expectativa gerada pela eleição de Lula.
O povo estava farto de tantos governos de homens vindos da grande burguesia.
Lula, pela sua origem e pelo papel que desempenhou na década de 80, aparecia como uma alternativa que poderia dar certo, que faria as coisas para o “povo”. A imagem do PT, a começar pelo próprio nome, parecia dar base real a esse sentimento. Infelizmente essa esperança foi traída pelo PT e por Lula.
Nós - que não apoiamos, não chamamos o voto em Lula e nem em outro candidato, que estamos acompanhando a política do PT de perto, enfrentando esse partido nas regiões onde é governo - temos visto o quanto esse partido é patronal como os outros (PMDB ou PSDB). Reprime, persegue e demite trabalhadores. O fato de se chamar PT não mais significa que esse partido seja dos trabalhadores. Pelo contrário, sua direção seu programa e ação estão voltados para administrar de maneira racional o capitalismo em crise, para propor medidas que possam ajudar o
capitalismo brasileiro na tentativa de humanizá-lo.
Não podemos mais analisar o PT e, conseqüentemente, o governo pelo passado de Lula e do partido. Temos que levar em conta o presente e o futuro. Aqueles que seguem afirmando que o governo de Lula é um governo de frente popular, que é um governo em disputa, ou que é possível empurrar o governo para esquerda, estão perdendo o contato com a realidade e se embriagando com suas construções teóricas para justificar uma posição de capitulação ou de centrismo e comodidade frente ao movimento.
Por exemplo, a caracterização de Frente popular para o governo do PT é totalmente descabida. Ela baseia-se no esquema de que um partido operário (sic) que chega ao poder, via eleições, só pode ser um governo de Frente Popular.
Esse esquema é totalmente furado pois desconsidera que:
style='margin-left:12.0pt;text-align:justify;text-indent:14.2pt;mso-list:l0 level1 lfo1;
tab-stops:list 12.0pt'>· O PT não é mais um partido operário, apesar de contar com apoio na classe trabalhadora e nos setores sindicalizados;
style='margin-left:12.0pt;text-align:justify;text-indent:14.2pt;mso-list:l0 level1 lfo1;
tab-stops:list 12.0pt'>· Desde a queda do muro de Berlim há um giro e incorporação dos partidos sociais-democratas ao sistema, onde deixam de lutar por reformas mínimas para administrar o capitalismo em crise;
style='margin-left:12.0pt;text-align:justify;text-indent:14.2pt;mso-list:l0 level1 lfo1;
tab-stops:list 12.0pt'>· A grande burguesia faz parte do governo e não a sua sombra, como foi nos casos da França e Chile.
Para nós, o governo de Lula nada mais é do que um governo neoliberal como o de FHC.
O fato do PT ter uma base operária, de Lula ser querido, de posar para fotos, de se aproximar do povo e de beijar as criancinhas nas ruas não muda o caráter do seu governo. Pelo contrário, só aumenta o desafio para os revolucionários que precisam conseguir romper a camisa de força que o PT e a CUT vão impor ao movimento para controlá-lo, a fim de que o governo possa implementar sua política de ajustes.
OS DILEMAS DA ESQUERDA DO PT
Não é de hoje que um setor, conhecido como esquerda do PT, vive um “aparente” dilema. Dizemos “aparente” porque esse setor, de uma maneira ou de outra, sempre manteve-se dentro do PT, apesar das barbaridades cometidas pelo partido nas administrações estaduais e municipais, nesses anos todos.
Baseados na caracterização de que o PT era um partido operário e que tinha uma base a ser disputada, esses setores defendiam a construção de seus agrupamentos via PT. Além disso, graças ao peso eleitoral do partido, muitos desses grupos puderam eleger deputados, senadores e até prefeitos de grandes cidades com Belém
e Porto Alegre. Na prática, não estão preocupados com o conjunto dos trabalhadores, mas primordialmente com a consolidação de seus interesses, a construção de seus grupos e a eleição de seus candidatos.
Neste sentido, é importante registrar que a dita “esquerda do PT” difere apenas na forma, mas no conteúdo é igual ao setor dirigente do partido. Analisando as diversas administrações petistas nos Estados e Municípios, há diferença substancial, entre o governo do Acre e a prefeitura de Porto Alegre? Entre a prefeitura de Belém (Força Socialista), de São Paulo (Articulação) e do governo de Mato Grosso do Sul (Articulação)? Concretamente, não há grandes diferenças políticas.
Em todo lugar que o PT governa existe algumas medidas centrais para impor sua política, como a ilusória participação popular através do orçamento participativo ou outro mecanismo burocrático qualquer (conselho dirigido por Tarso Genro).
Em qual governo petista o corte de gastos não começou pela demissão de pessoal ou pela redução salarial? Em qual de suas administrações não há serviços terceirizados enriquecendo empresários e super explorando os trabalhadores? (os burocratas petistas defendem a Lei de Responsabilidade Fiscal deixada por FHC).
Sobre o seu autoritarismo velado: Qual administração petista não persegue, calunia, discrimina e exclui aqueles que discordam dos rumos de sua política (mesmo aqueles que trabalharam para elegê-la)? Qual desses governos não usam a força repressiva do estado (porrada de polícia mesmo) contra aqueles que lutam por uma vida mais digna?
Fazem tudo isso e muito mais, como no II Encontro Americano pela Humanidade e contra o Neoliberalismo realizado em Belém (dez/1999). Mesmo havendo vários coletivos revolucionários e diversos agrupamentos políticos da esquerda mundial, a corrente Força Socialista não economizou sua política burocrática e acabou impedindo que o encontro resultasse em mais uma luta contra o Neoliberalismo (ver matéria sobre o encontro no Espaço Socialista n° 01 abril/2000).
No entanto, dada a magnitude do curso tomado pelo partido, esses agrupamentos começam a criar polêmicas contra determinadas medidas do governo, pois suas bases políticas são formadas por setores que estão na mira, os servidores públicos federais. O caso da recusa da Senadora Heloísa Helena de votar em José Sarney para presidência do Senado e as declarações de Baba (PA) e de Lindenberg (RJ) contra a política econômica têm causado grandes polêmicas no interior do PT e na imprensa burguesa em geral, a ponto da direção do partido cogitar a expulsão desses setores.
Mas os confrontos decisivos estão por vir, se é que de fato virão. O PT vai propor as reformas da previdência e tributária e a autonomia do Banco Central (coisa que nem FHC tentou), só aí este setor será realmente posto a prova. Para que houvesse coerência entre discurso e prática esses deputados deveriam votar contra o governo e a favor dos trabalhadores. Deveriam colocar seus mandatos a serviço da luta de classes com o objetivo de defender e organizar os que vivem do seu próprio trabalho, mesmo custando a expulsão do PT.
Devemos derrotar o governo nas votações da reforma da previdência e trabalhista. Assim aqueles que votarem a favor do governo, ainda que centralizado pelo partido, estarão traindo a classe trabalhadora.
Apesar do caráter do PT, sabemos perfeitamente que existem ativistas e lutadores honestos que acreditam nesse partido, mas esta crença não pode ser religiosa a ponto de cegar. É necessário ter em mente que os direitos da classe são inegociáveis.
Todos devemos lutar para manter e ampliar esses direitos contra a burguesia e seu governo de plantão (seja qual partido for). Não podemos abaixar a cabeça pra governo nenhum, nem para este que apesar de ter estado ao lado da classe trabalhadora no passado, hoje aplica políticas contrárias aos nossos interesses. Se centralizar por uma política que vai contra a classe é uma traição.
Esse é o dilema colocado: vão votar contra o governo e a favor da classe? Vão estar à frente das lutas contra o governo, colocando seus mandatos a serviço da luta da classe? Ou vão se centralizar pelo partido e pela direção? Essas perguntas precisam de respostas.
Nós do Espaço Socialista, os companheiros de vários grupos e do Comitê Nacional de Luta Direta estamos na luta contra o governo Lula e sua política neoliberal.
Chamamos a todos os ativistas a se engajarem na luta contra a participação do Brasil na ALCA, contra as reformas da Previdência e Trabalhista propostas inicialmente por FHC e agora por Lula, iniciando debates e mobilizações por uma previdência gerida e controlada por aqueles que realmente produzem a riqueza social desse país (nós, trabalhadores). Chega de deixarmos os parasitas do congresso e lacaios da burguesia meterem a mão no nosso dinheiro! Juntos vamos derrotar o governo e aqueles que o apóiam
A crise que a esquerda mundial
atravessa não é só produto da realidade objetiva ou do domínio do capitalismo
no mundo. Há uma crise importantíssima na quase totalidade das organizações de
esquerda que diz respeito à necessidade de construção da organização
revolucionária, mas também como deve ser a sua forma e o seu funcionamento.
Mais
um debate de suma importância para os revolucionários.
Publicamos
dois textos: o primeiro, que é do coletivo, que trata de responder aos
“diversos” chamados pela construção de um novo partido. O outro é do
companheiro Zé Luís e é publicado como contribuição ao necessário debate e tem
como título: “Crise de direção ou crise de identidade?”
POR UM NOVO PARTIDO?
Caracterizando que existe a possibilidade de ruptura no PT, o PSTU apressou-se em lançar a consigna “por um novo partido”. Essa proposta também é defendida por outros setores de esquerda. Cada qual faz o seu chamado, querendo ocupar o espaço deixado pelo PT e pela chamada esquerda desse partido. Mas, o que temos de concreto até agora é que nenhuma dessas propostas “emplacou”.
Este elemento tem muita importância, pois está em jogo a construção de uma alternativa que primeiro possa romper o isolamento a que os revolucionários foram submetidos (entre outros motivos, pelos erros do passado) e depois para oferecer uma ferramenta aos trabalhadores que permita apresentar uma alternativa de ruptura com o capitalismo.
Burocratismo, direções vitalícias, rupturas e expulsões por diferenças táticas, despolitização dos militantes, falta de espaço para as discussões políticas e teóricas. Esses são apenas alguns dos problemas que os militantes enfrentam nos partidos de esquerda, inclusive a dita esquerda revolucionária e que até agora não têm respostas, pois são vícios quase incorrigíveis
Este chamado de construção de um novo partido, nos moldes do já existentes, para nós há dois problemas: 1) se trata de uma manobra que abortará qualquer processo mais amplo de reorganização política, caso haja uma ruptura no PT e; 2) Não é uma proposta que se propõe a discutir concepção de partido (democracia interna, funcionamento, formação política e teórica, etc).
A própria dinâmica de construção do PSTU, imposta por sua direção, demonstrou que a construção de um novo partido deve-se levar em conta necessidades do desenvolvimento de umanova forma de partido/organização política.
Para aqueles que não sabem, a formação do PSTU foi um processo de construção a partir de pequenas rupturas com o PT. Com a expulsão da Convergência Socialista e de outros grupos criou-se a necessidade de construir um novo marco organizativo. Foi evidentemente um processo muito rico e que inclusive demonstrou a possibilidade de uma reorganização dos revolucionários. No entanto, a política implementada pela direção da CS, hoje direção do PSTU, acabou com esse processo, enterrou a possibilidade da unificação dos revolucionários.
De maneira burocrática, todos aqueles que discordavam de aspectos de sua política foram colocados para fora do partido. Através de expulsões e da desmoralização dos militantes o processo de confluência de diversas correntes, de origens distintas, foi abortado. O sectarismo e o aparatismo foram tomando conta do partido e somente aqueles que tinham a mesma posição política da direção tinham vez, como em todos os outros partidos. O resultado é que a absoluta maioria dos grupos que se juntaram para construir o PSTU saíram ou forame expulsos.
Isso por que a direção do PSTU tinha um enorme desejo: criar um partido dócil para poder incorporar a esquerda do PT.
Assim, caso nasça esse “novo” partido, sem que discuta seriamente e profundamente o tipo de partido que é necessário, poderá fazer com surja, na verdade, um novo aparato, com militantes despolitizados e sem vida orgânica. Talvez com alguma presença parlamentar, mas sem espaço para discussão, elaboração e intervenção consciente na luta de classes.
Não precisamos mais disso. Basta de aparatos burocráticos sem vínculos reais com a realidade, com a luta dos trabalhadores.
UMA NOVA REALIDADE EXIGE UMA NOVA ORGANIZAÇÃO DOS REVOLUCIONÁRIOS!
Os revolucionários devem se organizar para poder influenciar e ajudar a classe operária a tomar o poder. Assim não acreditamos que possa haver só uma organização ou partido revolucionário. Pela presente história da esquerda revolucionária, suas peculiaridades e seus vícios não nos permite prever que uma só organização será responsável por conduzir a revolução no país.
No entanto, devemos combater a dispersão dos revolucionários em pequenas seitas sem poder de influência sobre a classe operária e seus aliados. É dever de cada grupo e de cada revolucionário procurar romper com o espírito sectário e excludente do passado.
Nesse sentido devemos operar uma revolução em matéria de organização. A construção dessa organização, revolucionária sem dúvida nenhuma, passa primeiro por estar inserida nas lutas da classe trabalhadora. Depois por ser uma organização o mais horizontal possível, onde o militante tenha realmente voz e poder sem uma direção que mande e uma base que obedeça, relação que só reproduz a forma burguesa de divisão do trabalho. Um organização em que as diferenças sejam tratadas não como crime, mas sim, compreendidas como parte do processo de compreensão da luta de classe.
Neste sentido, não concordamos que a criação de um novo partido seja, em si, a solução para os nossos problemas atuais como defendem alguns companheiros a partir da caracterização de que existe a possibilidade de ruptura no PT com a expulsão dos “radicais”. Trata-se de fazer um profundo balanço das concepções de partido que predominam na esquerda e, a partir desse balanço, discuta que tipo de “novo partido” seja necessário. Assim a questão central não é se tem que ter ou não novo partido, mas que tipo de partido é necessário.
Precisamos aprender com nossa história. Não podemos repetir os mesmos erros, pois já fizemos essa experiência e não ajudou em nada a classe trabalhadora.
A esmagadora maioria das rupturas operadas na esquerda foi puro capricho de dirigentes intolerantes e de organizações sectárias.
Temos que construir uma organização que seja marcada pela coerência com seus princípios, mas também pela tolerância na discussão interna, pelo respeito à posição dos companheiros por menos representativa que ela seja, pela camaradagem e solidariedade entre aqueles que, apesar de terem divergências, são, acima de tudo, revolucionários, até que a luta de classes prove o contrário. Podemos realmente construir uma organização assim.
A construção de um novo partido deve ser fruto de uma proposta endereçada a todos os revolucionários e não somente àqueles que têm deputados entre seus quadros, pois isso não é um processo de construção, mas sim um oportunismo espúrio.
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CRISE DE DIREÇÃO OU DE IDENTIDADE?
José Luis Portiolli/ABC
Neste artigo não irei tratar dos tradicionais partidos comunista, social-democrata e nem do PT - maior partido reformista da atualidade – pois esse debate já ocorreu com profundidade. Focalizarei a chamada “esquerda revolucionária”, que vai do centro a ultra-esquerda, cujos expoentes no Brasil são representados pelo PSTU, Causa Operária e outras organizações menores.
Na eleição passada, esta crise tornou-se mais visível. Um partido limitou-se à campanha contra ALCA, o outro mostrou de forma pouco convincente temas como a redução da jornada de trabalho e salário mínimo de R$1500,00 (Dieese) dando a impressão, para a maioria da população despolitizada, de algo oportunista e demagógico.
Não denunciaram o jogo eleitoral e não deram uma palavra sobre socialismo. Se comportaram como sublegenda de aluguel do PT. Contribuíram para criar ilusões à classe trabalhadora de que é possível melhorar sua condição de vida atingindo o poder dentro do capitalismo.
O capital bombardeia diariamente - através dos meios de comunicação, literatura, indústria cultural - a consciência do trabalhador dizendo que o socialismo morreu, que a classe operária está em extinção, que a globalização é inevitável e que depois do capital “só o dilúvio”. Logo o desemprego, a miséria, a destruição dos serviços públicos e as privatizações são problemas naturais como o ar, a água e a terra.
O que responde essa “esquerda revolucionária”? Alguns se fecham em seitas e publicam jornais que parecem teses de mestrado e cujos dirigentes se tornam “iluminados”, outros caem na fascinação e imediatismos, isto é, incluem temas estranhos a um partido cujo propósito é o socialismo, coisas do tipo “liberação das drogas, minorias sexuais irão deflagrar a revolução, a participação dos ET’s na revolução mundial”, etc.
Transformam a política em “carnavalização”, substituindo o marxismo pelo “politicamente correto” - modismo surgido no meio acadêmico norte-americano baseado mais no individualismo do que em transformações sociais.
O trabalhador procura a política para defender-se dos ataques da burguesia e não para perder tempo cultuando “iluminados” e discutindo a futilidade do “politicamente correto”.
A história demonstra que a classe operária luta independente de existir ou não esquerda.
Por que a esquerda permanece estagnada? Por que o pouco que cresce, esfacela-se em minúsculos organismos rivais? (vide exemplo do MAS na Argentina).
Um dos pontos que identifico é a composição social de suas direções que majoritariamente vêm do meio universitário, oriundas principalmente da pequena burguesia e até da burguesa, cuja característica de classe é o seu excessivo apego a cargos, títulos, etc.
À crise de identidade soma-se a crise de direção. Estas direções têm um papel, inicialmente progressivo, como na época da ditadura, quando a repressão foi mais intensa nas fábricas do que nas universidades.
Atualmente estas direções são o maior obstáculo ao crescimento de uma organização revolucionária. Passam a se eternizar na direção e confundem suas aspirações de classe ou de indivíduo com as da classe trabalhadora.
Qualquer crítica ou tendência que leve a questioná-los passa a ser hostilizada pelos mesmos, levando a expulsões e rupturas dentro da organização, como nos partidos stalinistas ditos “comunistas”, que tanto criticam.
O objetivo deste artigo é iniciar debates sobre o porquê da crise da esquerda não ter sido superada. A proposta é que os companheiros contribuam para enriquecer este tema, sendo contra ou a favor e também incluam novos dados.
O marxismo é uma ciência. Uma ferramenta para a evolução humana e não um dogma o qual o fundamentalista se apega cegamente, pois a época dos “guias geniais, comandantes supremos e grandes timoneiros” foi sepultada em 1989.
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POESIA
A Grade
(Valquimar Reis
Fernandes)
A grade não
me agrada
Agrade ou
não estou preso
Estou
preso, não sou preso
O Sol lá
fora e eu solo
Aqui dentro
de fora é frio
Aqui sou um
animal
Sem terra não posso vegetar
A grade só
me agrada aberta
A grade é
minha porta
A grade é
minha janela
A grade é
meu horizonte
A grade é meu sol
A grade é
minha lua
É minha
válvula de escape
A grade é
como um sonho ruim
Do meu
pensamento saio por aí...
O concreto
é duro
A grade é
sinistra e traiçoeira
A grade é
aos outros não a mim
A grade
àqueles não a nós.
Cadeia Pública de
Sorocaba, 2 de dezembro de 1999.
(Valquimar
Reis Fernandes esteve preso na Cadeia Pública de Sorocaba junto com outros
militantes do MST. Eram eles: Valquimar Reis Fernandes, Rosalino Bispo de
Oliveira, Edmar Pereira dos Santos, Elvis Vieira Ferreira Lima, Benedito Ismael
Alves Cardoso, Odair Moisés da Rosa).