ÍNDICE:
Europa em luta
O movimento antiglobalização: Sua
situação e nossas tarefas
Venezuela: O confronto se aprofunda
Argentina: O processo revolucionário
e os desafios para os socialistas
Brasil: O governo Lula e a luta dos
trabalhadores
O inconsciente equívoco dos jovens
comunistas, anarquistas, feministas....
Nova ordem mundial: guerra e
genocídios
Guerra contra o terror ou terror da
guerra?
Europa
EUROPA EM LUTADavid Karvala, (En lucha, Barcelona)
Um ativista equatoriano de esquerda escreveu, em um recente artigo, que a esquerda européia devia abster-se de fazer críticas ao movimento na América Latina, pois “terá que pensar muito para responder por que hoje seu continente apóia o crescimento do neofascismo internamente e em escala planetária”.
A imagem que a esquerda latino-americana tem da Europa é, evidentemente, a de um continente de multinacionais rapinantes, aliada incondicional de Bush, e que rapidamente gira à direita, quando não ao fascismo. Além disso, nega-se a anular a dívida dos países pobres e imigrantes morrem, a cada semana, tentando cruzar o Estreito de Gibraltar da África para o Estado espanhol.
Certamente, tudo isto é verdade, mas em parte .
Também é um continente onde há pessoas que dormem nas ruas, que os trabalhadores lutam cada vez mais contra os ataques do neoliberalismo. É o continente que tem visto as maiores mobilizações organizadas pelo movimento anticapitalista e algumas das maiores manifestações contra a guerra.
Partindo de uma visão de mundo baseada só no conflito entre países, isto é inexplicável. Porém reconhecendo o mundo que vivemos, e que cada país dentro deste mundo, está dividido em classes, logo se pode começar a explicar o enigma da Europa de hoje.
OS VELHOS IMPÉRIOS
Só podemos entender o presente se entendemos o passado. E a Europa tem um vasto passado. Ao ser o primeiro continente a desenvolver o capitalismo, colonizou o resto do mundo, e não o contrário. Ao ser o primeiro país industrial, a Grã-bretanha rapidamente superou os demais países com seu poder imperial.
Mas, todos os impérios chegam ao seu fim cedo ou tarde e a Grã-bretanha perdeu sua “grandeza” depois da II Guerra Mundial. Foi parte do preço pago ao seu aliado e rival EUA, que se converteu na grande superpotência ocidental, na competição militar com a URSS e seu bloco.
Outro produto da nova situação foi a reconstrução da Alemanha e do Japão, importante para os EUA em contrapeso à URSS. Ao reconstruir suas indústrias partindo praticamente do zero, e com a proibição de investimento em armamentos, estes países se beneficiaram muito com boom do pós-guerra.
Nesse contexto foi se desenvolvendo a União Européia (UE), um ente muito contraditório. No início como meio para evitar conflitos entre países europeus, sobretudo França e Alemanha, e especificamente para coordenar a produção de aço e carvão. Agora, após a guerra fria, a UE é um dos três blocos do capital mais importantes a nível internacional, que colabora e se enfrenta, de acordo com o momento, com os EUA e Japão.
Porém, ao contrário destes países, a Europa segue dividida entre suas distintas classes dirigentes, cada uma com seu próprio estado. Cada burguesia nacional é como uma família mafiosa, que tem seus conflitos internos, mas que se une para enfrentar-se com as outras famílias, como as famílias que brigam entre si, mas procuram se unir contra o mundo exterior. A União Européia não pode decidir se deve ser uma família mafiosa, ou várias famílias unidas em uma aliança instável e temporária.
A que menos sabe onde quer estar é a burguesia britânica: dividida entre os que se resignaram a sócios menores, da Alemanha e da França na EU, e os que querem jogar no papel “independente” (ou seja, ligados diretamente aos EUA) no cenário mundial.
Estas confusões multiplicam-se neste momento em que está programada a ampliação da UE com mais 10 países. Oito destes formavam parte do bloco do Leste. A unificação da Alemanha, após a queda do muro de Berlim, teve um efeito desastroso sobre a economia alemã, a mais forte da Europa. Veremos como a ampliação afetará a UE, visto que segue sem levantar a cabeça após vários anos de pouco ou nulo crescimento econômico.
Entrelaçado com o aspecto econômico está o militar: deve a UE, como importante poder capitalista, possuir forças armadas próprias, à altura do século XXI? Implicaria isto a desaparição dos diferentes Estados europeus? Se não se arma, como pode a UE defender seus interesses frente aos EUA, e a outros países nos quais investe?
Estes debates seguem sem solução, enquanto os dirigentes europeus tomam seus posicionamentos em relação à guerra que Bush planeja contra o Iraque.
O único ponto em que quase todos os dirigentes estão de acordo é em aplicar políticas neoliberais; ou seja, atacar as condições de vida dos trabalhadores europeus.
OS TRABALHADORES EUROPEUS NO PARAÍSO
A primeira coisa a ser destacada é que existe uma classe trabalhadora na Europa, e longe do mito de serem privilegiados, os trabalhadores europeus estão trabalhando cada vez mais, em condições cada vez piores.
Foi com a exploração destes trabalhadores que se criou a indústria capitalista no século XIX e XX, e que agora cria o lucro das multinacionais. No Estado espanhol, por exemplo, as empresas recebem hoje em dia, no item lucros, uma maior proporção do Produto Interno Bruto do que no final da ditadura franquista, e pagam menos por cada unidade de trabalho.
O Estado de bem-estar-social que se conseguiu, até certo ponto, na maioria dos países da Europa Ocidental durante o pós-guerra, está sendo atacado há anos. As políticas neoliberais aplicadas na América Latina começaram na Europa em 1979, com a subida ao poder de Margaret Thatcher na Grã-bretanha. Os cortes sociais, privatizações, “flexibilização trabalhista”, etc. há tempo são dogmas de fé na União Européia. No Estado espanhol, um terço dos que trabalham estão em condições precárias.
Durante os anos 90, o descontentamento começou a expressar-se, às vezes, em forma de grandes lutas, como a explosão de greves na França em 1995, porém mais tipicamente com a eleição de partidos social-democratas para governar.
Entretanto, salvo diferenças estéticas, estes governos seguiram as mesmas políticas neoliberais que seus antecessores. Inclusive quando, supostamente, levavam a cabo políticas progressistas. As 35 horas do governo Jospin na França, por exemplo, foram acompanhadas de uma flexibilização total das condições de trabalho, assim muitos trabalhadores estão em situações piores.
Isto explica o auge da extrema direita. Quando os partidos reformistas traem as suas bases, abrem a porta aos fascistas, que se apresentam como “os defensores dos europeus”, frente aos imigrantes. Os partidos tradicionais da direita, por sua vez, entram no leilão xenófobo para manter seus votos.
Com este quadro, é fácil deprimir-se, mas em absoluto daremos motivos para isso.
A RESISTÊNCIA DESDE BAIXO
O que toda pessoa de esquerda deve destacar na Europa de hoje, é a oposição que começa a estender-se pelo continente, de forma desigual, mas inegável.
As ondas de radicalização começaram bastante afastadas da classe trabalhadora nas fábricas, como no normal, e iniciaram bem concretamente com as mobilizações anticapitalistas que seguiram à batalha de Seattle, em novembro de 1999.
A primeira data importante na Europa foi com o encontro da cúpula do FMI e do Banco Mundial em Praga, em setembro de 2000, quando umas 20.000 pessoas, muitas delas jovens radicais que vieram de todo o continente, conseguiram bloquear a reunião. Em junho de 2001, houve uma importante e simbólica vitória em Barcelona com a decisão do Banco Mundial de não marcar presença na cidade frente aos protestos.
Na manifestação contra o G-8, em Gênova, um mês depois, a violência do Estado se impõe e a polícia assassina Carlo Giuliani, o que produziu comoção por todo o continente e no dia seguinte umas 300.000 pessoas protestaram pelas ruas de Gênova. Não foi a primeira morte de um ativista anticapitalista. Uns meses antes, três estudantes foram assassinados em protesto contra o Banco Mundial em Papua Nova Guiné.
Durante o primeiro semestre de 2002, a presidência rotativa da União Européia foi do Estado espanhol. Houve um crescimento incrível do movimento anticapitalista por todo o país. Em cidades pequenas, onde não existiam movimentos, ocorreram manifestações de centenas ou milhares de pessoas. A maior manifestação, até o momento, organizada pelo movimento anticapitalista, foi em Barcelona no dia 16 de março que contou com meio milhão de pessoas.
Este foi um grande passo, e vale a pena deter-se nele. Os manifestantes foram, em sua enorme maioria, trabalhadores da cidade e de seus arredores. Os que protestaram contra o neoliberalismo já não foram só os jovens radicais. Isto, por sua vez, produziu outra mudança significativa.
Em Praga, a única corrente da esquerda organizada presente foi a Socialismo Internacional (da qual o grupo En Lucha faz parte).
Com as diferentes e posteriores mobilizações, cada vez mais correntes da esquerda começaram a levar a sério o movimento anticapitalista.
Em Barcelona, até o Partido Socialista e as centrais sindicais majoritárias apoiaram, no mínimo verbalmente a manifestação, o que sem dúvida, contribuiu para sua magnitude.
Decididamente, já não se tratava de uma minoria radical.
O êxito destas mobilizações impulsionou uma série de lutas: Na Itália, uma manifestação sindical de 3 milhões de pessoas e uma greve geral. No Estado espanhol, três meses após a grande manifestação em Barcelona e coincidindo com a reunião final de cúpula da presidência espanhola e UE em Servilha, houve uma greve geral de 10 milhões de trabalhadores, defendendo o seguro desemp>
No campo eleitoral, também houve mudanças. A imprensa e os comentaristas falam do crescimento da extrema direita e pouca atenção dão ao crescimento significativo do voto na estrema esquerda (tampouco se detém nas centenas de milhares de pessoas que se manifestaram contra fascistas como Le Pen ou Haider).
Assim aconteceu na França, com as eleições presidenciais de abril, os candidatos declarados revolucionários somaram mais de 11% dos votos. A Aliança Socialista na Inglaterra e o Partido Socialista Escocês conseguiram apoio além das fileiras da esquerda radical.
Inclusive na Alemanha, a sobrevivência do Governo de Schröder, que ganhou as eleições legislativas por uma margem muito estreita, deveu-se a seu discurso contra a guerra na reta final da campanha.
E, falando em guerra, temos que saldar a manifestação em Londres, no dia 28 de setembro, com 400.000 pessoas: brancos, negros, ateus, cristãos, judeus, mulçumanos, trabalhadores, estudantes, aposentados...
Inclusive no país de Tony Blair, muitíssima gente se opõe à guerra, 65% segundo as pesquisas.
E AGORA O QUÊ FAZER?
Tudo isto coloca desafios para a esquerda revolucionária da Europa.
Podemos seguir como antes, com nossos debates internos, fazendo críticas agudas às limitações do movimento anticapitalista, ou antiglobalização como alguns preferem chamá-lo. Certamente, captaremos alguns indivíduos para a nossa causa, e poderemos ficar satisfeitos quando o movimento entrar em refluxo. Seria o maior equívoco possível.
Do mesmo modo, poderíamos dizer que tudo o que temos feito até agora é irrelevante, que deveríamos esquecer das idéias marxistas, e simplesmente ser parte do movimento. Seria melhor que a primeira opção, mas tampouco serviria.
Existem cada vez mais debates dentro do movimento e não basta dizer “estou de acordo”.
O que se apresenta é uma opção mais difícil, mas essencial: entrar plenamente e ser parte do movimento anticapitalista, ajudar criar o movimento onde ainda não existe. Por sua vez, e de forma inseparável, aplicar as idéias marxistas à nova situação e tentar fortalecer o pólo revolucionário dentro do movimento.
Isto significa ganhar aos jovens anticapitalistas para o entendimento da importância da classe trabalhadora e da luta sindical de base. Significa aprender a debater as idéias do reformismo dentro do movimento - seja dos dirigentes de Attac ou dos políticos social-democratas – sem nos isolarmos dos que ainda têm ilusões na possibilidade de reformar o sistema.
Neste marco, também está colocada a necessidade de superação das endêmicas divisões na esquerda radical. Este será um processo difícil, mas possível. Na medida em que as diferentes correntes consigam superar suas velhas ilusões no “socialismo desde cima”, na tentação de substituir a luta de massas por eles mesmos e ao mesmo tempo evitem cair nas novas ilusões pós-modernas que abundam dentro do movimento, certamente será possível a aproximação.
A próxima data, no momento em que escrevo, é o Fórum Social Europeu, de 06 a 10 de novembro, em Florença na Itália. Obviamente inspirado no Fórum Social Mundial de Porte Alegre, com aspectos específicos que refletem os avanços do movimento na Europa. Foi organizado em assembléias abertas de ativistas dos diferentes movimentos da Europa. Há esforços especiais para que participem representantes dos movimentos da Europa do Leste e do norte da África. Foi descarada a realização de um fórum especial de parlamentares; os que quiserem assistir terão que demonstrar seu acordo com a carta do Fórum, que exclui qualquer um que apóie medidas neoliberais ou a guerra (ou seja, os Ministros estão fora).
Será uma grande oportunidade para vertebrar o movimento europeu, tanto a nível geral como as lutas estudantis, as campanhas de apoio aos imigrantes, etc. Um dos objetivos centrais será o de estabelecer as bases de uma luta contra a guerra, a nível europeu.
Ainda não se pode saber com certeza, mas existe a possibilidade que seja outro passo importante do movimento, um elemento a mais na grande e nova organização internacional que estaremos criando entre todas e todos, desde baixo.
E para retrucar ao companheiro equatoriano, é claro que queremos responder ao crescimento do fascismo e à guerra – já estamos, como se vê, com enormes mobilizações, mas isto não é tudo. Queremos conseguir outro mundo, um mundo socialista.
Nesta tarefa, necessitamos cada vez mais intercâmbio de experiências e idéias entre as diferentes lutas nos diferentes continentes. Não vivemos em um primeiro, segundo ou terceiro mundo, e sim em um só, e a luta é uma só.
De Barcelona ao Brasil, uma luta e, no futuro, esperamos, uma vitória.
O MOVIMENTO ANTIGLOBALIZAÇÃO: SUA SITUAÇÃO E NOSSAS
TAREFAS Enrique (Novo
Curso- Espanha)
Recentemente
terminou o semestre que governo espanhol deteve a presidência da União
Européia. Durante estes seis meses, todas as reuniões de ministros da União
Européia foram contestadas por importantes manifestações de rua e jornadas de
debate. A manifestação de meio milhão de pessoas em Barcelona em 16 de março
(coincidindo com a Cúpula de Barcelona) e a Greve Geral de 20 de junho
(coincidindo com a Cúpula de Sevilha) foram só a ponta de um enorme iceberg. O
movimento antiglobalização alcançou uma dimensão massiva, de milhões de
pessoas, se estendeu por todas as cidades, teceu uma complexa rede de
assembléias e comissões,... E, no entanto, alguns meses depois, este movimento
vive na letargia e assim será provavelmente até a próxima cúpula ou evento dos
agentes do capitalismo global.
Agora, depois da frenética atividade dos últimos meses, é
uma boa oportunidade para que os que somos parte deste movimento, façamos um
sério balanço de sua força e debilidades. E sobretudo para que os que dentro
deste movimento lutamos por derrubar a atual ordem social, analisemos
cuidadosamente que erros e acertos cometemos e que passos devemos dar no
futuro.
Já assinalamos a amplitude e massividade deste movimento.
A resistência contra a globalização capitalista é descendente direta de outros
movimentos como o zapatismo, o ecologismo, os okupas,... mas além de abarcar a
todos eles, é muitíssimo mais amplo que a soma dos mesmos. O movimento não
nasceu com esta amplitude nem alcançou seus limites, quer dizer, está crescendo
e estendendo-se cada vez mais. É, como seu nome indica, um movimento, quer
dizer, um setor da população que não só rechaça ideologicamente o capitalismo
global senão que está disposto a mobilizar-se contra ele ou contra aspectos
parciais do mesmo. As formas que adota esta mobilização são muito variadas e
vão desde manifestações pacíficas até as conhecidas barricadas. Mas o que
queremos destacar é que não só pensam contra o capitalismo global, mas que
também estão dispostos a lutar e lutam contra o mesmo.
É um movimento tremendamente heterogêneo. Heterogêneo
socialmente quer dizer que abarca a quase todas as classes e capas sociais.
Heterogêneo culturalmente e sobretudo heterogêneo ideológica e politicamente.
Este último aspecto tem uma importância muito grande porque, em minha opinião,
vai determinar o desenvolvimento do movimento no futuro.
Existe uma série de traços de identidade comuns na
ideologia dos que conformamos este movimento: esses traços se condensam no
rechaço ao capitalismo neoliberal, quer dizer, a atual política dos estados
ricos, seus governos e as multinacionais que exploram economicamente as nações
e os povos de todo o mundo, saqueiam e esgotam os recursos naturais do planeta
e exercem para isso uma política repressiva e bélica com suas seqüelas de
mortes e sofrimento. Esta base ideológica comum não deve ocultar as
contradições ideológicas que se desenvolvem no seio do movimento.
Nem todo o movimento, nem sequer a sua maioria é
anticapitalista, quer dizer, rechaça a exploração da classe trabalhadora ou
dito de outra forma, o roubo por parte de uma minoria social do trabalho e do
suor da maioria. Para muitos componentes do movimento é “lógico” e até benéfico
que existam empresários e trabalhadores, ainda que isso produza “certo grau” de
desigualdade social. Esse setor do movimento defende um controle social da
exploração capitalista que a modere e a humanize. Opina, pois que “outro
capitalismo é possível” diferente desse neoliberal, mas, além disso, opina que
o único outro mundo possível será também capitalista. Nem todo o movimento, nem
sequer a maioria do mesmo é igualitário, quer dizer, defende uma igualdade
social, uma igualdade real de direitos para todas as pessoas, uma distribuição
igualitária da riqueza e dos bens sociais (educação, ócio, saúde,...). Para
amplíssimos setores deste movimento é normal que existam ricos e pobres, que os
imigrantes careçam de direitos sociais e políticos fundamentais, que a educação
não seja única senão que “quem possa pagá-la” possa ter acesso aos melhores
colégios ou universidades.
A amplíssima maioria do movimento, desta vez sim, é
“ecologista”, quer dizer, promove a defesa da natureza. Também consideram o
capitalismo neoliberal incompatível com esta defesa da natureza, mas não
consideram o mesmo do capitalismo, quer dizer, da ordem social na qual os
benefícios econômicos imediatos de uma minoria determinam o modo de viver da
maioria e a relação do homem com a natureza.
Outro sinal de identidade do movimento é seu rechaço da
burocracia sindical e política. Este ódio aos aparatos é sem dúvida filho da
queda do muro de Berlim e se estende a todo tipo de organizações políticas e
sindicais, deslegitima a democracia atual e reivindica, ainda que de forma
confusa, uma organização “horizontal”. Este é um elemento positivo e
relativamente novo deste movimento em relação aos anteriores movimentos contra
o sistema. A forma de organização, por exemplo, da guerrilha antiimperialista
na América Latina copiava o modelo vertical de um partido-exército com
centralismo democrático e disciplina militar (o mesmo ocorria em grande medida
com o movimento antifranquista do Estado espanhol), e nada tem que ver com o
assembleísmo típico do movimento antiglobalização.
Existe, ademais, um elemento central nesta série de
contradições que estamos assinalando: o movimento antiglobalização não é
conscientemente revolucionário, quer dizer, não está nem ao menos convencido do
inevitável de derrubar o capitalismo para alcançar os objetivos que defende.
Este é um elemento também novo herdado da queda do modelo soviético. Enquanto
que a maioria dos movimentos anticapitalistas dos anos 60-70 (volto a me
referir às guerrilhas latino-americanas) lutava por derrubar o capital e
implantar uma nova forma de organização social e política (o “socialismo real”
que para mim era também explorador e opressor), o movimento antiglobalização ou
não crê necessário derrubar o capital ou está convencido de que tal empenho é
impossível. Este aspecto concreto tem uma conclusão: em geral os integrantes da
antiglobalização desprezam a política, porém não só desprezam a política
praticada como a arte do engano pelas classes dominantes, senão a política em
geral: fogem da discussão de alternativas, negam-se a debater diferentes
programas políticos e definitivamente rechaçam construir uma ideologia própria
e definida.
O mesmo lema do movimento “outro mundo é possível”
encerra claramente todas estas contradições: não se sabe como é esse outro
mundo “possível”, quer dizer, não se tem nem sequer um esboço de um modelo
alternativo ao capitalismo ou os modelos que se propõem são uma reedição do
mundo atual ainda que aparentemente mais suaves e humanizados. Porém o
movimento mesmo não tenta definir esse outro mundo, teme que se o fizer se
produzam desengajamentos ou cisões em seu seio, considera em geral que elaborar
o programa desse outro mundo é uma perda de tempo e um enfrentamento estéril
total (como esse mundo não é mais que uma utopia que se fará realidade, desta
forma se cerra o ciclo da incoerência política).
Também a realidade organizativa do movimento é
conseqüência das contradições ideológicas que viemos assinalando. Este
movimento se mostra claramente como resposta às cúpulas do Banco Mundial e do
G-7, mas permanece letargizado e desorganizado ante muitos outros acontecimentos.
Durante a realização de ditas cúpulas, o movimento levanta em massivas
manifestações consignas contra a destruição do meio ambiente ou em defesa dos
direitos das pessoas, mas quando o Estado ou as classes dominantes realiza um
ataque concreto contra a natureza ou contra esses direitos sociais, muitas
vezes o movimento não está à altura das “contra cúpulas” e as classes
dominantes conseguem uma nova vitória.
Esta consciência contraditória, na qual se enfrentam
elementos positivos com falsas ilusões, está certamente em evolução e sobre ela
interatuam diferentes organizações políticas e aparatos ideológicos do sistema
e também os indivíduos e grupos que têm, por razões que sejam, uma consciência
mais conseqüentemente revolucionária, anticapitalista e antiestatista.
Temos que entender que a classe dominante não tem uma
política única para defender o atual status social, senão que pode ter várias.
Assim, não é a mesma a política de Bush e Reagan que a de Clinton e Carter e
sem falar em Kennedy, não é a mesma política de Aznar e a do PSOE (e menos
ainda se um é governo e outro oposição). Todas essas políticas têm um elemento
central comum, defender o status.
Para isso sempre se põem de acordo e suas disputas não
passam de verbais. No entanto com
respeito ao movimento antiglobalização, que é o que neste momento discutimos, é
evidente que existem setores burgueses que optam por sua simples e pura
eliminação (criminalização, repressão e até assassinato) e outros tentam sua
assimilação (Fórum social, integração dentro do Fórum das Culturas,
negociação,...). Ambas políticas cujo objetivo comum é desarmar o movimento
antiglobalização em seu enfrentamento contra o sistema, podem se combinar e de
fato o fazem, predominando uma ou outra segundo as conjunturas e fundamentalmente
a evolução dessa consciência contraditória que temos assinalado na
antiglobalização.
Gênova foi o expoente mais elevado dessa política de
eliminação, Barcelona e mais ainda Sevilha o foi da política de assimilação. Em
Gênova, a policia assassinou a Carlo Giuliani para amedrontar o movimento
antiglobalização, atacou militarmente seu acampamento, colocando nele coquetéis
molotov para criminalizá-lo como terrorista... essa é a política de Berlusconi
que disse que o 11 de setembro da Al Quaeda era o mesmo que a antiglobalização
só que com métodos diferentes. Em Barcelona em 2002, a delegada do governo do
PP pactuou tacitamente com os organizadores das manifestações e elogiou depois
seu comportamento; os aparatos sindicais defensores do sistema (CCOO e UGT)
somaram-se às manifestações para não se desprender. E finalmente em Sevilha,
estes mesmos aparatos fizeram coincidir a Greve Geral de 20 de junho com as
jornadas centrais da cúpula para recuperar o protagonismo perdido e reconduzir
o movimento.
A escala mundial, estas mesmas duas políticas da classe
dominante para derrotar o movimento antiglobalização também se mostram
claramente. Bush e a guerra total contra o eixo do mal encarnam uma destas duas
políticas, enquanto que o partidos social-democratas e comunistas reciclados
encarnam a segunda. Que outra explicação pode ter a presença de Clos, o
prefeito de Barcelona que encarcerou e deportou emigrantes no verão de 2001,
reprime e desaloja brutalmente aos Okupas e colaborou na organização da cúpula da
UE em Barcelona em 2002, no autoproclamado centro do mundo antiglobalizador, o
Fórum Social de Porto Alegre. Em minha opinião, em que pese a presença de
milhares de honestos lutadores anti-sistema de todo o mundo, o Fórum Social de
Porto Alegre é a imagem mais clara desta política de assimilação do movimento
antiglobalização com a defesa de que outro mundo possível será necessariamente
capitalista e que para fazê-lo possível a revolução não só é desnecessária
senão contraproducente.
Da mesma forma que as classes dominantes e as
organizações que defendem o sistema atuam sobre o movimento contra a
globalização, também o fazem outras organizações e indivíduos que justamente
poderíamos qualificar de revolucionários. Não nos estamos referindo a tal o
qual organização política autoproclamada como o partido da revolução mundial ao
velho estilo dos PC’s stalinistas ou inclusive muitas organizações trotskistas.
Nos referimos a um conjunto heterogêneo de pessoas e pequenos grupos das mais
diversas procedências e bagagem ideológica, mas que têm em comum o
convencimento de que o capitalismo (não só o neoliberal, senão qualquer forma
de exploração e roubo da mais valia) tem que ser derrubado para levantar outro
modelo de organização social necessariamente igualitário, democrático e
horizontal.
Em minha opinião, a tarefa de todos eles, consiste em
dotar de uma sólida orientação política anticapitalista e revolucionária o
movimento antiglobalização.
Não se trata em absoluta de “dirigi-lo” ou ganhar a
maioria política dentro do mesmo, como era antes da queda do muro o objetivo
dos partidos que se pretendiam revolucionários com respeito a todos os
movimentos anti-sistema. Segue havendo uma multitude de personagens e grupos
que permanentemente querem atribuir-se o papel de dirigentes da
antiglobalização e também muitas organizações que só atuam no seio do movimento
com a intenção de captar a seus membros mais ativos ou mais propensos a tal ou
qual tese. Estas pessoas e organizações não querem construir um movimento e sim
construir a si mesmos (ou construir um determinado prestígio pessoal quando se
trata de indivíduos sem organização), às custas do movimento e não colaboram em
nada na consolidação política desta corrente anti-sistema e sim fomentam o ódio
pela política em geral que assinalamos antes.
O trabalho dos revolucionários deve distanciar-se o mais
claramente possível de tais práticas. Em primeiro lugar porque os
revolucionários devem ser conscientes de sua própria debilidade, não só
numérica e organizativa, mas também ideológica. Os programas socialistas
clássicos entraram em crise no mesmo momento que entrou em crise o que todo o
mundo identificava como modelo socialista (em que pese que tal modelo não tinha
nada de socialista). Não se trata somente de uma crise do modelo socialista
soviético senão que é muito mais ampla, não existe um programa alternativo ao
do capital que seja abraçado como próprio por importantes grupos ou correntes
sociais. Tal programa há de se construir. Nesse marco, o trabalho dos
revolucionários é aportar sua experiência e formação, teórica e prática para
construir o programa conjuntamente com o movimento mesmo.
Para isso devemos partir dos elementos positivos ou mais
propriamente ditos revolucionários que existem na ideologia da base da
antiglobalização, essencialmente de dois: seu rechaço à ditadura do capital e
seu antiburocratismo. Trata-se de um trabalho essencialmente de propaganda,
quer dizer, de explicação paciente e de difusão de valores essencialmente
anticapitalistas.
Um primeiro passo é fazer esta mesma reflexão dentro do
movimento, colocar-lhe que é imprescindível uma ideologia própria e
alternativa, para que seja algo mais que uma série de explosões conjunturais e
possa de fato, fazer frente ao Sistema. Já têm surgido vozes dizendo que realizar
uma séria discussão política, separa a setores do movimento, que quanto mais
confusa seja a ideologia, mais ampla será o movimento. É preciso rebater esta
posição, uma coisa é ser aberto e democrático e outra coisa é ser confuso. Nós
pelejamos para que o movimento construa seu próprio programa político inclusive
mesmo que este programa comum não seja o nosso ou tenha elementos que não
concordamos.
Nos dirão também que tal discussão ideológica é estéril,
que o fundamental é a ação e quanto mais “direta” seja esta, mais duro
golpeamos ao capital. Isso é falso. Se o movimento houvesse empregado em
discutir o programa político só a metade de tempo que gastou em discutir
interminavelmente sobre manifestações violentas ou não ou sobre como fazer
frente à repressão policial, o movimento teria avançado muito mais e se
dividido muito menos; e tudo isso ademais porque o problema da violência é
também político e não prático.
Um
segundo elemento a ter muito em conta é o dos ritmos, temos que respeitar
escrupulosamente os ritmos de desenvolvimento do movimento mesmo e isso
significa justamente o oposto a desenvolver uma guerra política de minorias e
maiorias dentro do movimento. Significa aprender a ser minoria a não tratar de
impor votações ou fazer expurgos. Compreender que a heterogeneidade não é um
aspecto negativo e sim que pode ser positivo se se respeita o marco horizontal
comum.
Um terceiro elemento é buscar a relação com outros
movimentos e essencialmente o movimento operário. O movimento antiglobalização
é um movimento “popular” no sentido em que é policlassista ainda que sua
composição seja majoritariamente de jovens assalariados. Em seu seio, as
reivindicações colocadas pela contradição capital-trabalho assalariado estão
colocadas, mas de maneira secundária e isto é assim porque o movimento operário
em geral esteve, ao menos no ocidente desenvolvido (onde também tem se
desenvolvido o movimento antiglobalização) por longos anos em letargia e
submissão aos aparatos sindicais. Os revolucionários não podem permanecer
impassíveis diante disso, muito ao contrário, porque é imprescindível para a
consolidação política do movimento que este seja consciente que a contradição
objetiva entre capital e trabalho assalariado segue sendo a contradição
fundamental desta sociedade, que a luta de classes é o motor da história. Não
se trata só de que o movimento assuma reivindicações sindicais e sim de que
faça sua a defesa da emancipação dos trabalhadores, da desaparição da
exploração pelo salário. Isto significa também um trabalho dentro do movimento
operário que geralmente despreza aos jovens anti-sistema e guarda multitude de
hábitos verticalistas, e sem dúvida uma luta contra os aparatos sindicais. Mas
é um desafio imprescindível que devemos enfrentar.
Estes são a nosso juízo os elementos centrais para
iniciar este trabalho de construção programática que estamos propondo a um
amplo leque de indivíduos e grupos. É possível que no desenvolvimento dos
mesmos confluamos com muitos deles, a abertura de horizontes e a supressão de qualquer
vicio sectário ou autoproclamatório será então imprescindível. Esperamos que
assim seja.
Venezuela
O CONFRONTO SE APROFUNDA Stalin P. Borges (La Chispa, Venezuela)
Com o início do novo ano, muitos pensaram que poderia
baixar a tensão e o enfrentamento diário entre os opositores golpistas e o
governo bolivariano, mas não foi assim. Agora se está na mais forte tensão,
desde que em 2 de dezembro iniciou-se a paralisação/conspiração pro
imperialista e patronal. A marcha da oposição, que foi convocada para 3 de
janeiro com o nome da “a grande batalha”, pela intervenção da Policia
Metropolitana (PM) e setores civis fascistas que dispararam como se estivessem
em um combate corpo a corpo, produziu 2 mortos, 6 feridos a bala e muitos mais
feridos e asfixiados. No dia seguinte, a altas horas da noite, em pleno velório
dos 2 assassinados do dia anterior, a PM voltou a arremeter de forma
desapiedada, com disparos e bombas de gás lacrimogêneo contra os assistentes na
funerária. Estes atos desesperados e criminosos da oposição, mostram o estado
de perigosa violência a que se está chegando.
A maioria do
setor chavista e muitos não chavistas expressam uma profunda indignação pelos
crimes, os outros atos de violência, as filas e a escassez, da qual culpam à
oposição. São muitas as expressões de ódio contra os principais dirigentes da
oposição (Carlos Ortega da CTV, Carlos Fernández de Fedecámaras e de Juan
Fernández de Gente de Petróleo, assim como dos canais televisivos e de seus
donos). Manifesta-se o desejo de encontra-los na rua para mata-los. Desde que
se iniciou a paralisação/sabotagem, todos os dias ao final da tarde, Ortega e
os Fernández, eram os que davam uma coletiva de imprensa, onde davam “sua parte
de guerra”, coberta por toda a televisão privada, mas ontem, pela primeira vez,
outras e outros, foram o que saíram para cumprir esta missão. Isto pode ser uma
mostra de que se deram conta, de que estes personagens ganharam o repúdio da imensa
maioria da população, incluindo milhares de não chavistas.
Durante o dia
de ontem e hoje, os chavista mobilizaram-se como resposta à ofensiva da
oposição e ante a situação de impunidade que segue prevalecendo entre as
instituições do estado burguês bolivariano. Em meio à marcha que se fez com os
féretros dos mortos do dia 3, até o hotel onde está alojado César Gaviria e os
outros representantes da OEA, a consigna que mais se exigiu foi: Castigo aos
assassinos e aos golpistas! Chega de impunidade!.Durante os enterros, que foram
com assistência multitudinárias e se efetuaram em duas cidades limítrofes de
Caracas, também se fizeram essas exigências. A pressão é contra a Procuradoria
Geral da República (Isaías Rodríguez), a quem se solicita de imediato que
ordene a investigação e prisão contra os PMs e dos meios de comunicação,
responsáveis pela sabotagem e terrorismo. Hoje realizaram-se em frente às sedes
da Procuradoria e do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) duas grandes
concentrações. No TSJ se entrou com um recurso contra a posição e programação
dos meios televisivos. Em poucos dias, se não se cumpre algumas destas
exigências e talvez, si se cumpra, pode haver mais atos de violência e até com
mais mortos. Afirmo si se cumpra, porque a oposição, se há uma decisão
contrária pode reagir enfurecida e as massas chavistas também responderiam.
Agora o eixo da
oposição é o chamado à desobediência tributária. As televisões intoxicam com o
chamado a não pagar impostos. O governo afirma que será castigado quem se negar
a pagar. Todavia não se sabe o que vai acontecer com esta nova jogada da
oposição, por que recém começa. No dia de hoje se move com esta ofensiva e a de
realizar distintas marchas e concentrações, em alguma dessas se realizaram
missas pelos mortos, incluídos os de 3 de janeiro. Isso é com a intenção de
amenizar a pecha de assassinos que hoje carregam por estes últimos mortos.
Amanhã a tensão
se deslocará para o setor de educação. Ambos os lados estão se preparando, um
para seguir impedindo a força que as escolas, liceus e universidade sigam
parados. Para isso contam em muitos estados com as polícias dos governadores e
algumas prefeituras. . Os chavistas e muitos estudantes e representantes
lights, tem a intenção de comparecer a estes centros de estudos para que haja
aulas.
No setor
petroleiro se segue recuperando a produção. Há mais combustível no mercado, mas
em muitos estados segue havendo filas para o fornecimento de gasolina. Nisto
tem ajudado tanto que tenham voltado a funcionar algumas refinarias mas,
fundamentalmente a importação de gasolina. O comercio segue na mesma situação
explicada anteriormente. No setor manufatureiro abriram suas portas algumas
empresas que não haviam feito. Isto não é massivo hoje, mas há alguns indícios
que para o transcurso da semana pode vir a ser. Nesta semana vai começar haver
problemas, porque muitos gerentes de empresas estão chamando aos sindicatos
para informar-lhes que não vão seguir pagando seus trabalhadores da forma como
o vinha fazendo. Isto incomodou aos sindicatos classistas onde as empresas estavam paradas, mas que
pagavam os salários. Os sindicatos estão se reunindo para dar respostas a esta
baixa no salário que se pagavam, em meio do Lockout patronal.
Os
trabalhadores em alguns setores e o movimento popular em importantes cidades se
organizam vertiginosamente. Em alguns estados como em Pto. La Cruz,
constituiu-se, entre trabalhadores petroleiros e não petroleiros, brigadas
populares em defesa do petróleo. Formaram-se em varias cidades onde estão
depósitos de combustíveis, Cooperativas de Transportadores de combustíveis,
adquirindo as carretas (trailes) de parte das que tinha PDVSA e outras de
privadas que têm sido tomadas pelo governo para que se faça o transporte. No
petróleo é onde se tem desenvolvido mais a auto organização, as que se fazem
desde o controle da distribuição de gasolina, pela nomeação de novas gerências
e até pelo pessoal novo que ingressa e o pessoal que havia parado e agora quer
regressar.
No movimento
popular, em Caracas se tem estendido os “Blocos”, em algumas partes se chamam
em defesa da Justiça popular, em outras, em defesa da Constituição ou contra o
fascismo ou outro nome. Tomam distintas defesas ou lutas, mas se fazem chamar
blocos, porque começaram a se dar em um setor do oeste onde proliferam as
residências multifamiliares ou edifícios, aos que sempre se lhes tem chamado
blocos. (Os blocos de 23 de janeiro, os blocos de Pro pátria, de Catia, de
Caricuao, de Kennedy, de Sarría, etc.).
Hoje é que nós
recém regressamos do feriado de fim de ano. Nesses dias só estivemos pendentes,
com chamadas telefônicas do setor petroleiro, onde os companheiros responderam
de forma extraordinária. Os trabalhadores do setor manufatureiro e de
alimentos, que é onde estamos, hoje é também quando estão tratando de buscar
orientação. Esta noite ou amanhã é quando vamos nos reunir.
Argentina
O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO E OS DESAFIOS PARA OS SOCIALISTAS
Os fatos de 19 e 20 de dezembro de
2001 abriram uma situação política marcada por características inéditas. Entre
as mais significativas, encontramos o desenvolvimento de organizações populares
independentes do Estado, o descrédito ao conjunto das instituições da
“democracia” (partidos burgueses e seus líderes no Parlamento, na Justiça, no
governo nacional e nas províncias , etc.), um inicial, ainda que débil, questionamento de alguns pilares
do capitalismo argentino (como os bancos, especialmente os estrangeiros e
as grandes empresas públicas, privatizadas durante os anos 90) e também uma
crescente oposição ao pagamento da dívida externa.
Tudo isso, no marco de uma crise
econômica estrutural que questiona e demonstra as características brutais de
saque e espoliação capitalista-imperialista do país, de conseqüências sociais
históricas quanto aos índices de desemprego, de pobreza e de distribuição de
renda.
No momento político atual, a
principal debilidade dos trabalhadores e do povo é a falta de uma ferramenta
política independente, que possa credenciar-se no cenário para oferecer ao
conjunto da classe uma saída à crise do país a partir de uma perspectiva
claramente antiimperialista, anticapitalista e socialista. Da construção dessa
ferramenta política e do desenvolvimento dos embriões das organizações, independentes
e autodeterminadas, que hoje existem, porém de maneira limitada e dispersa,
depende em grande medida, o futuro do processo aberto na Argentina.
OS PROTAGONISTAS DO “ARGENTINAZO”
Nos limitaremos aqui a desenvolver alguns elementos
presentes no curso da luta de classes na Argentina, não tocaremos aqui de
maneira específica nas causas e resultados da crise econômica e muito por cima
nas divisões e problemas políticos no seio da classe dominante. Nos
concentraremos em mostrar alguns avanços, obstáculos, perigos e desafios que
concernem ao movimento e aos trabalhadores depois de dezembro de 2001.
Podemos dizer que após os anos 90,
uma larga década de derrotas, fragmentação e desmoralização (que, refletiu em
parte a nefasta herança da ditadura militar de 1976 a 1983) os sucessos de
dezembro de 2001 são, em certa medida, o início de um processo global de
reconstrução e reorganização da classe trabalhadora e dos setores populares, no
sentido da autodeterminação e independência. Este processo tem, ao nosso ver,
três grandes protagonistas:
As assembléias populares surgidas após 20 de dezembro, de
caráter barrial. São organizações locais surgidas de maneira espontânea, ainda
que, desde o primeiro momento as organizações políticas de esquerda tiveram
forte (e excessiva) participação. Desenvolveram-se com maior força na cidade de
Buenos Aires, ocorrendo mais de 130 assembléias com média de 100 a 500
participantes semanalmente, fora as reuniões de comissões específicas, tais
como as de imprensa e difusão, de estudo, de união com outras assembléias e
setores de trabalhadores em luta, etc. Na Grande Buenos Aires a extensão desse
fenômeno é menor e suas características são distintas, com menos debate
político e maior compromisso com atividades ligadas as demandas específicas.
No pico (fevereiro-março), existiu
uma instância de coordenação ou Assembléia das assembléias, que chegou a
ter de 3.000 a 4.000 participantes semanais em uma praça de Buenos Aires. Nessa
assembléia geral, todas as assembléias da capital e da grande Buenos Aires e as
poucas do interior do país, levavam suas propostas de ação e suas
reivindicações programáticas votadas em cada lugar. Ali surgiram vários
“panelaços” nacionais, de importante repercussão, com passeatas compostas por
dezenas de milhares vindos de vários pontos do país. Além do mais, votou-se um
programa comum com uma infinidade de pontos, inclusive com referência ao não
pagamento da dívida externa, a nacionalização dos bancos e dos fundos de
previdência privada, a renacionalização das empresas privatizadas e algumas
propostas políticas. Entre elas “fora todos” (fórmula algébrica cujo sentido
exato varia segundo aquele que a pronuncia e dependendo do contexto) e diversas
variantes de governo dos trabalhadores.
Neste momento as assembléias têm uma existência muito
reduzida, porém não vegetativa, uma vez que se mantêm como ponto de referência
da organização nos bairros. Isto é evidente, quando a polícia assassinou dois
piqueteiros durante uma manifestação, as assembléias “adormecidas”
revitalizaram-se imediatamente para organizar uma resposta massiva nas ruas
contra o governo de Duhalde, num golpe político que o obrigou a adiantar sua
saída do governo.
O movimento de desempregados, também chamado de piqueteiros.
Diferentemente das assembléias estas organizações não são produto direto do
argentinaço. Surgiram e desenvolveram-se em sua maioria durante a segunda
metade dos anos 90. Representam um processo orgânico de construção e
organização e refletem um fato social inédito na Argentina: a existência de um
exército permanente de milhões de pessoas desempregadas. Não são somente um
fenômeno social, mas também político na medida em que baseiam suas ações em
reivindicações concretas e urgentes (alimentos, postos de trabalho, subsídios,
etc.), quase todos esses movimentos excedem esse horizonte e apresentam algum
tipo de perspectiva política.
AS CORRENTES QUE ATUAM NESSE PROCESSO
Nesse terreno é possível diferenciar
várias correntes. O setor claramente conciliador e reformista é o bloco da
Federação Tierra y Vivienda (FTV, filiada a central operária CTA, estreitamente
ligada política e ideologicamente ao setor majoritário da CUT no Brasil, a
corrente Articulação) e a corrente classista e combativa (CCC, onde tem um peso
decisivo o Partido Comunista Revolucionário, maoista, e composições de direita,
parecidas com as do PC do B). Essas duas correntes atuam juntas no sentido de
chegar a algum tipo de pacto social e assim acalmar a situação na luta de
classes. Sua capacidade de mobilização é a maior de todos os movimentos
piqueteiros, assim como o uso descarado de práticas clientelistas típicas do
peronismo.
Na esquerda da FTV-CCC encontra-se o
bloco piqueteiro nacional, uma frente de diversas organizações. As maiores são
o Polo Operário (PO, dirigido pelo partido obreiro), o Movimento Territorial de
Liberação (MTL, com forte peso do Partido Comunista) e o Movimento Teresa
Rodrigues (MTR). Também integram a Frente de Trabalhadores Combativos (FTC,
aonde trabalham em comum ativistas independentes, militantes do MAS, FOS e
anarquistas) e outras organizações como CUBA, COBRE, etc, politicamente
populistas ou semi-castristas. O bloco defende uma política claramente
independente, opositora e combativa frente ao governo, ao Estado e à burguesia
e foi protagonista de várias ações que resultaram em enfrentamentos com as
forças repressivas.
A divisão entre as correntes
piqueteiras surgiram desde as assembléias nacionais piqueteiras, no calor na
luta contra o governo De la Rua. Na primeira assembléia em meados de 2001,
estabeleceu-se uma frente única muito precária entre a FTV, a CCC e o PO. Este
equilíbrio foi rompido em dois meses, na segunda assembléia quando a FTV e a
CCC tentaram impedir o acesso das organizações de esquerda, sobretudo o MTR.
Essa assembléia votou um plano de luta, um programa político similar ao das
assembléias populares e a convocatória a uma terceira assembléia. Esta última
foi sistematicamente boicotada pela FTV e a CCC, que não estiveram presentes na praça de Maio em dezembro de 2001.
Existem outras organizações de
desempregados que não aderem a nenhuma das grandes correntes, ainda que
realizem ações em comum. Do ponto de vista das ações, o setor piqueteiro é o
que, mais claramente, tem mantido uma presença contínua com mobilizações,
bloqueios de rodovias e pontes, etc. Politicamente o BPN tem sido o mais ativo,
com duas assembléias nacionais de trabalhadores, uma ocorrida em fevereiro e
outra em junho, contando com a participação de importantes delegações de
trabalhadores ocupados, comissões de fábrica, chapas sindicais, etc.
OS TRABALHADORES OCUPADOS
O setor mais atrasado quanto ao
processo de desenvolvimento organizativo é dos trabalhadores ocupados, no
entanto, estão ocorrendo várias experiências importantes que apontam para o
desenvolvimento de formas de autodeterminação contra a burocracia. É importante
assinalar que estas experiências são tanto por fora como por dentro das
organizações sindicais tradicionais. Neste último caso são sindicatos ou
sessões deles que, ao ter uma nova direção não burocrática, colaboram na
confluência de ações e experiências de outros setores.
Na
Patagônia (ao sul do país) vive uma rica experiência. Os mineiros de Rio
Turbio, no extremo sul do continente, não só têm impedido o fechamento da mina
de carvão, obrigando o Estado a reestatizar a empresa que havia sido
privatizada, mas também no Congresso do Carvão propuseram um plano econômico
para a bacia carbonífera, baseado na exploração da mina, com assessoramento
técnico de alto nível e apoio incondicional do conjunto da comunidade de 15 mil
habitantes. Esta luta está em pleno curso e representa, apesar da distância
geográfica, um grande exemplo de como os trabalhadores organizados podem
converterem-se em reais dirigentes do conjunto da população frente a deserção
da classe dominante. Os professores de Rio Negro, também na Patagônia, foram
protagonistas de uma das maiores lutas do ano, com 70 dias de duração, passeata
por toda a província, encontro com outros trabalhadores e o apoio do conjunto
da população, começando pelos pais de alunos que em assembléias conjuntas
levaram sua luta para a própria praça de Maio em Buenos Aires.
HÁ LUTAS
Também
é digna de orgulho a luta dos operários ceramistas de Zanón na província de
Neuquén. Com um sindicato recuperado das mãos da burocracia, estão lutando para
manter o controle operário da produção e são referência na região. O mesmo
ocorre com os operários da construção, também em Neuquén, que lutam para
derrubar a burocracia e recuperar o sindicato para a luta, como nos bons
tempos. Recentemente está recobrando importância os encontros de trabalhadores
das fábricas ocupadas sobre controle operário ou sobre cooperativas,
experiências cada vez mais freqüentes. Isto, ainda que gere uma discussão
apaixonada ao redor de qual perspectiva seguir (nacionalização, controle
operário, cooperativas, etc) de maneira geral, é parte de uma rica experiência
de setores da classe trabalhadora no sentido de orientar o trabalho e seu
produto de maneira autônoma.
O DESAFIO DA CONFLUÊNCIA E
A ALTERNATIVA POLÍTICA DOS TRABALHADORES
Apesar dessas expressões de
organização independente da classe trabalhadora e do povo serem profundamente
valiosas, não podemos perder de vista os limites e as necessidades que devemos
enfrentar. Sem dúvida a primeira necessidade é estender e massificar essas
experiências nos locais que não existem e ampliar suas influências nas formas
de organização da vanguarda. As assembléias populares, os movimentos de
desempregados e as experiências dos trabalhadores empregados são fenômenos que
sem dúvida chegaram para ficar, porém representam formas embrionárias do que
potencialmente podem vir a ser: organização de duplo poder em condições de
disputar o poder com Estado capitalista.
Nos locais em que estas experiências
se consolidaram os trabalhadores assumiram de fato e conscientemente
determinadas responsabilidades sobre a vida social, abandonadas ou não
garantidas pelo Estado burguês, desde a distribuição de alimentos e insumos
básicos até a organização da produção e a segurança. Em Rio Turbio há uma
formulação da perspectiva global de desenvolvimento da comunidade. Porém isso
ocorre de maneira isolada ou minoritária e não consegue projetar-se além da
localidade. Outro obstáculo é que muitas iniciativas que esses trabalhadores
realizam ficam dispersas e não conseguem confluir, coordenar ou unificar-se com
iniciativas similares provenientes de outros setores. Esta situação é agravada
pelo papel negativo que muitas organizações políticas da esquerda cumpre, que
ao invés de colocar os setores que dirigem a serviço dessa massificação e
confluência, preferem o posicionamento sectário e limitado em função de seus
interesses (algo que ocorre com o PTS em Zanón, em várias assembléias populares
com o MST e nos movimentos piqueteiros como o PO e outros).
Essas dificuldades se repetem em
torno de um dos problemas mais candentes do processo: a necessidade de que essa
ampla vanguarda surgida nos movimentos sociais se eleve ao plano político e
esteja a altura de apresentar ao conjunto da população uma alternativa política
frente à bancarrota do país.
Isto se faz mais urgente na medida
que, se essa alternativa não se desenvolve por parte dos trabalhadores, surgirá
um amplo terreno para opções burguesas recicladas ou neoreformistas, expressas
nas correntes de Elisa Carrió (deputada que rompeu com a UCR e formou o seu
próprio partido) e na política da Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA).
Esta última organizou no ano passado o Frenapo (Frente Nacional Contra a
Pobreza) com participação de banqueiros, industriais, produtores agrícolas,
supostamente neoliberais.
O que está em jogo é o processo
revolucionário argentino. Se não se conforma uma alternativa claramente
anticapitalista e antiimperialista, com absoluta independência ao conjunto do
setor patronal, todo o terreno ganho pode ser perdido ou conduzido a uma
derrota da classe trabalhadora e do povo.
Por isso, desde o MAS, todos os
esforços devem ser pertinazes no sentido de construir, desde baixo, desde os
movimentos sociais, com os ativistas, vizinhos e trabalhadores, um movimento
político amplo unitário dos trabalhadores, que tenha lugar para todas as
organizações sociais e políticas que estejam de acordo em levar adiante a
construção deste espaço, sobre as bases de poucas, mas claras definições:
Contra o imperialismo e o FMI, pelo não pagamento da dívida externa, contra os
bancos, as empresas privatizadas e os grandes capitalistas, por total
independência política dos trabalhadores aos patrões e seus partidos. Por uma
Argentina livre da opressão capitalista.
Acreditamos que exista tanto uma
enorme necessidade como um grande espaço para construir esta ferramenta que não
se opõe à construção individual das organizações que a integrem. Por outro
lado, o programa mínimo que propomos em pouco ou nada se diferencia do adotado
nas assembléias populares, dos movimentos piqueteiros, e dos partidos da
esquerda revolucionária, porém falta a confluência.
O amadurecimento político da ampla
camada de lutadores surgidos antes e depois do “argentinazo”, o progresso das
lutas operárias e populares e também o abandono da postura sectária das
organizações de esquerda revolucionárias levarão o processo de luta de classe
na Argentina a superar os perigos que o inimigo de classe representa e a
enfrentar os desafios para avançar a um plano superior na luta por uma
sociedade livre da opressão e da exploração.
O GOVERNO
LULA E A LUTA DOS TRABALHADORES
A eleição de Lula deve ser entendida
no marco das intensas lutas que estão ocorrendo na América Latina e no mundo e
da crise do modelo neoliberal no continente. No entanto, essa vitória também
deve ser explicada a partir da compreensão da situação presente do país e das
forças envolvidas na eleição. Assim, se combinaram dois movimentos: um a partir
da classe trabalhadora, dos setores médios e explorados que, cansados de FHC e
do fracasso de sua política econômica, optaram pelo que entenderam ser uma possibilidade
de mudança; outro a partir da necessidade de um setor da burguesia, ligado à
produção que, ainda que beneficiado pelas políticas macro-econômicas de FHC,
vinham defendendo a necessidade de ajustes, principalmente no que se refere à
política de juros e de câmbio, mudanças às quais Lula pareceu ser muito mais
favorável do que Serra. Ainda que todo o setor da burguesia tem como único
objetivo a perpetuação de seu poder, entre eles há diferenças ou interesses
específicos. Assim, o setor financeiro tem interesses próprios diferentes do
produtivo. Cada um exige do Estado políticas que permitam sempre aumentar seus
lucros. Nessa briga, quem pode mais, chora menos.
Os primeiros movimentos do governo Lula têm sido na direção
de governar para a burguesia, criando um ambiente favorável aos negócios e ao
capitalismo. Isso é assim porque a lógica do sistema é a da continuidade das
medidas de “reforma” no sistema capitalista, não para beneficiar os
trabalhadores mas sim, para beneficiar a burguesia. E aqueles que se propõem a
administrar o sistema têm que se submeter a essas normas de ferro. Ou seja,
será um governo que irá frustrar as expectativas das massas trabalhadoras.
A CRISE DA IDEOLOGIA
NEOLIBERAL E A SITUAÇÃO ECONÔMICA NA AMÉRICA LATINA
No início dos anos 90, com a queda do Muro de Berlim, os EUA,
junto com o FMI e o Banco Mundial, impuseram uma série de normas econômicas,
conhecidas como Consenso de Washington, onde expressavam a necessidade dos países
sub-desenvolvidos abrirem seus mercados nacionais às exportações, liberar as
finanças, privatizar os serviços e empresas
estatais, flexibilizar os direitos trabalhistas, para que
pudessem crescer economicamente.
Essas medidas foram aplicadas em
todo o continente. 10 anos depois, o resultado está aí. Sobre a Argentina não
precisamos nem falar, pois os noticiários mostram o estado de calamidade
econômica ao qual chegou aquele país. O Uruguai, a mesma coisa. Um país que foi
considerado até pouco tempo atrás como a “Suíça Latino americana”, hoje tem 20%
de sua população economicamente ativa desempregada. Bolívia, Peru e Paraguai
estão também em crise. A única exceção é o Chile, que tem uma parceria especial
com os EUA e usufrui dos benefícios do NAFTA. No entanto, os trabalhadores
daquele país não vivem em condições melhores do que seus irmãos latino
americanos.
Mas os trabalhadores têm se
levantado contra esse estado de coisas. Toda América Latina tem passado por
lutas contra essas medidas de fome e miséria. E por isso a ideologia neoliberal
entrou em crise. Dizemos ideologia e não as idéias econômicas neoliberais, pois
essas seguem aí, ainda que mascaradas, como parte da política dos novos
governantes que estão se elegendo em toda América Latina.
No Brasil vivemos a era FHC sob a
chamada estabilidade financeira, onde dizem que não havia inflação, que a moeda
manteve seu valor e que o poder de compra dos salários foi mantido e em alguns
casos aumentado. Mas essas medidas que resultaram na chamada estabilidade
financeira trouxeram custos sociais e econômicos imensos. A estabilidade foi
conseguida graças à privatização das empresas estatais, do aumento do
desemprego, do arrocho salarial. Mesmo assim, seguimos mergulhados na crise
econômica, onde o país apresenta uma das maiores concentrações de renda do
mundo, altíssimos índices de desemprego e de miséria e um baixo crescimento
econômico.
A burguesia e os meios de
comunicação seguem papagaiando a necessidade de “aprofundar as reformas” de
“flexibilizar as leis trabalhistas” de “diminuir a presença do Estado na
economia” de “manter a austeridade financeira” de “não indexar os salários”. E
afirmam que se tudo isso fosse feito,
entraríamos numa fase de crescimento econômico.
Ou seja, defendem a mesma receita
implementada na América Latina e que faliu todos os países da região. Defendem
a subordinação da economia aos interesses do capitalismo financeiro, de onde
eles tiram seus lucros, em detrimento de medidas que possam atenuar o
sofrimento da população trabalhadora. isso porque o capitalismo tem uma lógica
não de beneficiar a classe trabalhadora, mas sim gerar mais e mais lucros para
a burguesia.
O QUE REPRESENTOU A
ELEIÇÃO DE LULA
A eleição de Lula ocorreu no marco
dessa situação latino americana de instabilidade, de luta e de questionamentos
ao modelo neoliberal. Em que pese a boa campanha de marketing do PT, o
determinante para a eleição foi que o país está numa crise econômica e essa
crise tem sido paga pelos trabalhadores. Esses, apesar de não estarem
mobilizados como os trabalhadores na Argentina ou no Uruguai, identificaram no
PT o símbolo de uma possível mudança, ainda que dentro do regime, e votaram
majoritariamente em Lula na esperança de mudanças.
Nesse sentido, para os
trabalhadores, a eleição de Lula foi vista como uma vitória, pois eles
derrotaram o candidato do governo (Serra) e acreditaram que Lula representava a
mudança, ainda que sem saber ao certo em que sentido. Assim, é fácil entender a
enorme expectativa que cercou o início do seu governo, pois há uma enorme
esperança em Lula. Essa “vitória” tem marcos muito definidos e, ao que
tudo indica, se voltará contra os trabalhadores, uma vez que o governo Lula já
disse para o que veio e mostrou qual sua disposição de seguir a obra inacabada
de FHC.
Também não podemos esquecer que um
setor da burguesia, descontente com a política econômica de FHC, passou de mala
e cuia para a campanha do PT, pois enxergou nesse o melhor representante de
seus interesses. Com seu apoio, Lula foi quebrando as resistências em boa parte
do empresariado e conquistou importante apoio.
Lula se mostrou como o único que
poderia levar em frente as medidas necessárias de “reformas” que FHC não
conseguiu. Além do mais, a burguesia, ao notar a vitória inevitável de Lula,
passou a apoiá-lo ostensivamente. Isso tem razão de ser, pois não lhe
interessava vê-lo enfraquecido desde o início e deixá-lo à mercê das forças
populares, como está ocorrendo com Hugo Cháves na Venezuela. A ela interessava
um governo que pudesse conter o movimento de massas, manejar as situações
críticas, como as reivindicações por aumento de salário, terra, etc e dar
continuidade ao processo de reformas do capitalismo no Brasil, a fim de
proporcionar à burguesia nacional e internacional melhores condições de obterem
mais e mais riquezas, ainda que tenha que jogar sobre as costas dos
trabalhadores o ônus da crise econômica. Para isso era preciso reverter o clima
de pessimismo sobre o Brasil, não fazendo nada, que segundo eles, pudesse
afugentar os investimentos do país. E Lula tem correspondido a isso.
Assim, para a burguesia, a
eleição de Lula foi uma vitória real, pois foi eleito um governo que pode
dar prosseguimento às mudanças necessárias ao sistema e, ao ter muita presença
no movimento social, através da CUT, dos sindicatos e do PT, pode ser vendido
como moeda de troca, pois é o único a ter controle do movimento.
Essa vitória, da burguesia, sim é
real. Para os trabalhadores, eles se sentem vitoriosos por tê-lo elegido. É
uma ilusão da qual não compartilhamos. Mas para a burguesia foi uma vitória
desde muitos pontos de vista. É um governo que tem controle do movimento
social, com experiência de movimento e de saber como neutralizá-lo (vide as
prefeituras e os governos estaduais). É também um governo disposto a seguir as
reformas para o capitalismo, indo onde FHC não foi, como é o caso da Reforma da
Previdência.
O novo desenvolvimentismo do PT não é
uma ruptura com o modelo que privilegiou o capital financeiro até agora. O que
o novo governo põe em questão é como, dentro da sua proposta e da sua base de
apoio na burguesia, que entrou em choque com FHC pela política de juros, o
governo vai acomodar as enormes pressões do capital financeiro. A indicação do
ex-presidente do Boston Bank é mostra que o setor terá seu espaço garantido.
Todo o mercado financeiro aplaudiu de pé a indicação de Meirelles. O ministro
da Fazenda também goza de ampla simpatia no mercado, a ponto de um analista
afirmar que: “No mercado financeiro há quem pense que com cinco Palloccis
podemos salvar o mundo inteiro”. (O Estado de São Paulo, 24/11). O próprio
Palloci já declarou publicamente que tem “muitas coincidências “ com o atual
ministro Mallan, grande mestre das receitas do capital financeiro.
GOVERNO LULA NÃO É DE FRENTE POPULAR, MAS UM GOVERNO BURGUÊS
CLÁSSICO E DE CONTINUIDADE.
As
Frentes Populares têm como questão central a formação de governos com maioria
de esquerda, mas com participação de setores da burguesia. Têm como principal
elemento o fato de serem produtos de crises políticas, onde o proletariado e os
movimentos sociais impõem um recuo às burguesias que, para não perderem de vez
o controle do Estado, abrem mão do poder político em troca de que o novo
governo consiga por um freio às mobilizações. Na América latina, o melhor
exemplo é a eleição de Allende no Chile, no início da década de 70.
O
processo eleitoral brasileiro ocorreu dentro da normalidade. Não houve nenhum
processo de mobilizações que obrigasse a burguesia a ceder parte do poder. Foi uma
opção da burguesia, principalmente aquela ligada ao setor produtivo, que passou
a apoiar Lula. Não podemos esquecer que dentro da própria regra da democracia
burguesa está prevista a alternância de poder desde que... não se mude nada em
relação aos princípios fundamentais do capitalismo, a saber, a propriedade
privada dos meios de produção bem como a ordem do sistema.
Sendo
a eleição no país um processo que envolveu uma eficiente campanha de Marketing,
com recursos televisivos de altíssimo nível, aliada ao nome de Lula, sua
trajetória etc, não fica difícil entender por que ele foi eleito. Mas em nenhum
momento podemos afirmar que sua eleição é a eleição da Frente Popular.
Isso
não quer dizer que esse governo não tenha bases nos setores organizados nem tampouco
de que seja uma fortaleza invencível. E muito menos que a eleição de Lula é
fruto de uma crise do regime democrático burguês brasileiro. Muito pelo
contrário. A sua eleição não só é uma demonstração de que esse regime está
forte e consolidado, mas que também reforça a
ideologia da democracia burguesa como valor universal, que através do
voto é possível mudar, etc. etc.
Dessa
forma a eleição de Lula não é produto de lutas do movimento de massas que
botaram em crise a burguesia e seu regime e, como última saída, permitiu a
eleição de uma frente popular, mas sim
de um processo eleitoral controlado e dirigido pelo aparato da burguesia
dentro das pautas e regras estabelecidas pela própria burguesia. Lula foi uma opção
da burguesia, também porque conta com o apoio de setores organizados e isso
pode facilitar a aplicação dos planos políticos e econômicos.
O CARÁTER DE CLASSE DO PT
Outra
questão que não corrobora a tese da Frente Popular é o caráter de classe do PT.
O PT surgiu das lutas da classe trabalhadora do final da década de 70. Tinha um
programa, que mesmo não sendo socialista, respondia às aspirações e as
necessidades da classe trabalhadora naquele período. No entanto, o PT cresceu e
se adaptou ao aparato do Estado Brasileiro. Assim, passou a dirigir várias
prefeituras, a ter muitos cargos no parlamento, a ser governo em estados
importantes. Com isso se adaptou ao sistema capitalista.
Essa
adaptação ocorreu em todos os sentidos, desde a sua direção, programa e
estrutura. Não podemos dizer mais que o PT é um partido operário sequer pela
sua base, pois esse não tem mais um funcionamento como antigamente, onde as
bases podiam, de certa maneira, influenciar nos destinos do partido. Hoje se transformou
num grande aparato que gira ao redor de cargos parlamentares e de funcionários
burocráticos que nada têm haver com a classe operária ou seus interesses, ainda
que fossem reformistas.
A partir de 89, com a aceleração da
mundialização do capital e a crise da ideologia socialista causada pela
confusão entre a queda do stalinismo ( Muro de Berlim ) e a falsa idéia da
morte do socialismo, podemos afirmar que encerrou-se o período de reformas que
foi possível desde a Segunda Guerra Mundial. O capital não pode mais conceder
benefícios reais e duradouros. Sua linguagem passou a ser unicamente a
enganação e a repressão.
O reformismo social democrata, que
defendia a mudança social a partir de reformas e promoveu o estado de bem-estar
social na Europa após a Segunda Guerra, passou de malas e cuia para as teses e
programas do capitalismo financeiro. Todas as correntes reformistas caíram na
mera defesa da governabilidade e na frase pisada de que “não há alternativa ao
capitalismo”, que devemos apenas lutar para “humanizá-lo”, por uma
“globalização menos injusta”. Quando chegam ao poder passam rapidamente ao
discurso de que “não há outro jeito” e seguem o mesmo receituário dos seus
antecessores. Os governos Mitterrand (França), Filipe Gonzalez ( Espanha ) e
Tony Blair ( Inglaterra ) são a prova cabal disso, ainda que possa haver uma ou
outra medida de reforma.
Assim,
esses partidos passaram a responder outras demandas que não as da classe
trabalhadora. Passaram a se candidatar e se credenciar para gerir o capitalismo
em sua fase de crise crônica. Passaram a impor planos de austeridade que
resultaram no desemprego e na miséria de milhões de trabalhadores. Não se
tratava mais de simples traições da luta de classes, mas sim de que eles
passaram para um outro campo de classe.
O PT aproveitou essa
situação e procurou se consolidar enquanto um partido da ordem, completamente
institucionalizado, tendo como centro a crítica ao neoliberalismo, à
globalização e aos excessos do capitalismo selvagem. Passou a colocar como
saída um “capitalismo humanizado”. Na verdade se somou a outros setores, como a
igreja (com o papa pousando de “antiliberal”), outros aparatos políticos e
sindicais (social democracia, stalinistas puros e reciclados), inclusive
setores da burguesia, aqueles que foram prejudicados pela hegemonia
imperialista ou aqueles que só existem nos países pobres.
Mesmo
tendo no governo membros que são oriundos do movimento social, isso não é
suficiente para se caracterizar o novo governo de outra forma que não como um
governo da burguesia para a burguesia.
O PT e Lula romperam há muito a
barreira de classe. Lula não é mais nosso companheiro. É o governo da
burguesia. Lógico que essa mudança é uma derrota para os trabalhadores e a
burguesia usa muito bem essa mudança dizendo que o radicalismo era coisa de
quando o PT era jovem e que, quando seus dirigentes adquiriram a maturidade
ficaram responsáveis e estão prontos
para gerenciar seus negócios.
O alinhamento do PT às instituições da
democracia burguesa tem explicação na combinação de fatores objetivos e
subjetivos. Pelo lado objetivo, de pressões políticas econômicas da burguesia
através do parlamento, mídia e cargos no aparato estatal e pelo lado subjetivo,
do afastamento da realidade de como os trabalhadores vivem e de suas
necessidades, deixando-se influenciar pela ideologia burguesa de que só existe
o sistema capitalista e que o socialismo não é mais possível.
Não há como chamar o governo Lula/PT
senão pelo seu nome verdadeiro: Um governo burguês clássico, ou na pior das
hipóteses de burguês-reformista sem reformas...
E POR QUE DIZEMOS
CONTINUIDADE?
Primeiro por que, desde a campanha eleitoral, todos os
esforços de Lula foram no sentido de se mostrar “responsável” perante o
capital. Lula se preocupou em mostrar-se um estadista responsável, que não iria
quebrar os contratos (leia-se irá continuar pagando a dívida externa), nem
promover mudanças nas políticas econômicas adotadas até o momento. Após a
eleição apoiou o aumento das taxas de juros que geram mais desemprego e
recessão.
Segundo, por que a escolha dos ministros, principalmente os
ligados à área econômica, foi feita entre representantes do grande capital,
além da escolha do presidente do Banco Central que foi, nada mais nada menos,
que o presidente mundial do Banco de Boston. Esse senhor, legítimo
representante do capital financeiro, decidiu manter toda a antiga diretoria do
Banco Central. Isso sem contar os secretários, que tem sido escolhidos de
dentro do atual governo FHC.
Terceiro, o PT e Lula já têm se
pronunciado contra aumento de salários para os trabalhadores pois “isso gera
inflação”. Esse tipo de afirmação costumava sair da boca dos ministros de...
FHC. No entanto, quando foi para aumentar o salário dos deputados, votar a
manutenção da alíquota do imposto de renda em 27,5 %, o PT e Lula se
pronunciaram a favor e votaram a favor. Ou seja , igualzinho a FHC.
Essa continuidade tem uma
explicação. Nós, do Espaço Socialista, que chamamos a votar nulo nos dois
turnos das últimas eleições, acreditamos que, qualquer que fosse o governo
eleito, essas medidas seriam tomadas. Pois trata-se de uma pauta imposta pelo
estágio atual do capitalismo a todos os governantes, sejam eles de direita ou
de esquerda, em todo o mundo. Ou aplicam os planos econômicos do imperialismo,
seguindo os conceitos do Consenso de Washington ou caem fora, por bem ou por
mal. E no Brasil não será diferente. O PT se subordinou às ordens do
capitalismo para conseguir se eleger. Esse foi o preço que eles aceitaram
pagar. Agora estão sendo cobrados. E pretendem impulsionar já no primeiro ano
de mandato medidas que vão prejudicar justamente aqueles que os colocaram no
governo.
SOMOS OPOSIÇÃO A TODO E QUALQUER GOVERNO
BURGUÊS
Sem romper com esse ciclo de
dominação e exploração não há como enfrentar qualquer um dos graves problemas
que afetam hoje aos países da América Latina e do mundo inteiro. Ao se colocar
como gestor das contradições capitalistas, o PT já definiu de que lado está (do
lado do capital) e também quem serão seus inimigos: os movimentos que ousarem
interferir no direito de propriedade burguesa ou na ordem de reprodução do
capital - como os trabalhadores sem-teto da Ocupação Carlos Lamarca, que foram
desalojados de Guarulhos (SP) pela Tropa de Choque a mando do Prefeito Elói
Pietá (PT).
Por isso somos oposição ao
governo Lula e chamamos a não confiar nesse governo e em nenhum outro.
Temos que defender a total
independência das organizações de trabalhadores, dos explorados e dos
estudantes frente ao governo e denunciar os dirigentes que querem atrelar
os sindicatos e centrais sindicais ao
governo. Temos, acima de tudo, que impulsionar a auto-organização e
auto-atividade da classe trabalhadora e das massas exploradas, que não se submetam
ao estado a aos partidos, que ajam segundo seus interesses e não segundo os
interesses daqueles que se perpetuam no poder desde sempre. Só assim teremos
condições de enfrentar os ataques de qualquer governo, seja ele de direita ou
de esquerda.
CONSTRUIR UM PROGRAMA
ANTICAPITALISTA NAS LUTAS
A partir dessa situação, as questões
sociais relevantes só podem ser solucionadas com o enfrentamento à própria
lógica do capital (lucro) e isso só pode ser feito por um processo de lutas dos
trabalhadores que se proponha a apresentar uma alternativa própria ao
funcionamento da sociedade capitalista, uma alternativa socialista. Essa
alternativa deve ser construída desde já, a partir da luta pelas questões
concretas que nos afetam cotidianamente.
NEHUMA TRÉGUA E NÃO AO
PACTO SOCIAL. Desenvolver a Luta Direta!
Por isso caracterizamos que teremos
uma dura luta pela frente. Não podemos nos deixar iludir pelo charme ou pelo
marketing do PT e de Lula. Não podemos dar trégua alguma a um governo que se
propõe fazer a reforma da previdência e prejudicar os trabalhadores, a manter o
arrocho salarial e continuar pagando a dívida externa e interna. Temos que ser
contra qualquer proposta de pacto social e de negociação que sejam perniciosas
aos trabalhadores.
Como falar em trégua, sem aumento de
salários, se antes já aumentaram todos os preços? Como falar em pacto social se
os capitalistas já demitiram milhões, precarizaram o trabalho nesses últimos
anos e vão continuar sua ofensiva contra o emprego, mesmo que todos os direitos
sejam retirados da CLT? Se nesse e nos outros pactos, só nós é que sempre
perdemos? Como pode haver pacto social entre as classes, se a preservação do
domínio do capital – cujos representantes são os empresários - depende do
aumento da nossa exploração? Sem enfrentar a causa dos problemas sociais, que é
justamente a exploração capitalista, não há como resolver nenhum dos problemas
sociais.
A BALELA DO COMBATE A FOME E AO DESEMPREGO
Por mais que se fale em combater a
fome, tudo cai em jogadas de marketing e assistencialismo. A fome não será
eliminada, no máximo amenizada temporariamente, pois suas causas estruturais
não estão sendo atacadas. Ao contrário. As próximas medidas, já apontadas, vão
no sentido de aumentar a concentração de renda e a pobreza:
- A Reforma da Previdência - que pretende
dificultar ainda mais a aposentadoria, diminuir o teto de benefício dos
aposentados e estabelecer a contribuição dos inativos.
- a Reforma da CLT, que vem
para desregulamentar uma série de
direitos que ainda possuímos (como a multa de 40% sobre o FGTS, 13°, férias,
adicionais, etc)
- Reforma Tributária - que pretende
retirar impostos dos grandes grupos exportadores e aumentar os nossos.
O mesmo pode se dizer da promessa de
criar 10 milhões de empregos, através de um novo ciclo de crescimento brasileiro
puxado pelas exportações.
Diante da crise da super-produção
estabelecida, uma crise de excesso de mercadorias e capitais - não em relação
às necessidades humanas, mas relação a quem pode comprar, quando os mercados já
não se expandem mais para receber as mercadorias produzidas por tanta
tecnologia; diante do lento crescimento da economia mundial e do aumento do
protecionismo comercial adotado pelos países ricos, a promessa de crescimento
econômico e do aumento das exportações se mostram utópicas.
Se os EUA estão querendo impor a
ALCA para desaguarem aqui os seus produtos e capitais, se a própria FIESP já
fez um levantamento de que a ALCA irá trazer o fechamento de muitas empresas,
se o governo Lula já disse que não é contra a ALCA, mas vai “negociar” como imaginar que essa negociação diplomática
frente aos EUA possa ser vantajosa para o Brasil, dentro da atual relação de
mercado?
Por outro lado, o aumento da
tecnologia é incentivado e utilizado pelos grupos transnacionais para
economizar mão-de-obra, ou seja desempregar cada vez mais.
Sendo assim torna-se uma farsa a
promessa de gerar 10 milhões de empregos em 4 anos, assim como acabar com a
fome no país, obedecendo às regras do jogo capitalista.
REDUÇÃO DA JORNADA DE TRABALHO
Para acabar com desemprego,
impedindo as demissões e criando novos postos de trabalho, unindo empregados e
desempregados, é preciso desenvolvermos uma grande campanha por uma redução
radical da jornada de trabalho semanal em nível nacional, sem perda nos
salários, em que o trabalho seja dividido entre todos, segundo um plano e uma
organização definida pelos próprios trabalhadores. Essa é a única maneira de
fazer frente ao aumento da tecnologia, impedindo que continue sendo utilizada
para aumentar o lucro dos patrões e o nosso desemprego.
SALÁRIO MINÍMO DO DIEESE
Em relação aos salários, precisamos
retomar a bandeira de reposição das perdas salariais e de um salário mínimo
suficiente para a alimentação de uma família (mínimo do DIEESE). Não
podemos deixar que nosso poder de compra seja destruído em nome do falso
argumento – agora também utilizado pelos governos do PT – de que “reposição de
perdas salariais gera inflação” (e quem gerou a perda salarial?). Enquanto
continuamos com os salários congelados, a inflação vai aumentando do mesmo
jeito, revelando ser mais um truque dos empresários para iniciar o novo governo
já com os preços lá em cima e os salários lá embaixo, para agora vir falar de
pacto social...
NÃO PAGAMENTO DA DÍVIDA EXTERNA
Quanto à saúde e à educação, não há
como superar anos de abandono mantendo a submissão ao FMI. Precisamos retomar a
campanha pelo NÃO PAGAMENTO DA DÌVIDA EXTERNA E INTERNA. É preciso
romper com o FMI e com essa agiotagem da dívida, e aplicar os bilhões de
dólares dos juros anuais na melhoria dos serviços públicos. Essa é a única
forma de acabarmos com as “filas da morte” nos hospitais públicos e com a
aprovação automática sem nenhuma aprendizagem nas escolas públicas, construindo
mais e melhores hospitais, escolas, re-abrindo as salas de aula fechadas,
contratando mais professores, etc
REFORMA AGRÁRIA
Outra luta importante é por uma
Reforma Agrária radical e a única maneira de realizá-la é continuar com as
ocupações, como a experiência do movimento já provou. Também não se trata
somente do assentamento dos trabalhadores sem-terra, pois hoje com a grande
produção mecanizada, as condições de concorrência no mercado levam à quebra dos
pequenos produtores. Por outro lado, a existência de propriedades cada vez
maiores, sob a lógica capitalista, e em base à monocultura, são prejudiciais ao
solo e muitas estão utilizando-se dos transgênicos, sem nem mesmo saber as
consequências para o futuro.
Por tudo isso, é necessário colocar
como objetivo que as grandes propriedades e agro-indústrias – localizadas nas
melhores terras – sejam também transformadas em propriedade coletiva e colocada
sob gestão dos trabalhadores, única forma de rediscutir novos critérios de
produção que levem em conta as necessidades da população, o melhor aproveitamento
do solo e a segurança quanto às novas biotecnologias.
MORADIA PARA TODOS
Continuar com as Ocupações de Áreas
Urbanas é a única
forma de obter a desapropriação de áreas e a construção de moradias para os
trabalhadores sem-teto, pois quase todas as áreas urbanas já foram griladas por
especuladores e empresas que agora ganham bilhões com a valorização dos
terrenos ou construindo condomínios luxuosos e espaçosos para uma minoria
enquanto a maioria fica amontoada nas favelas, nas ruas, embaixo de pontes,
viadutos.
AMPLIAR A LUTA CONTRA O ALCA
Vinculada a essas questões deve
estar uma postura muito clara de levarmos uma luta continental contra o
ALCA, pois é o principal projeto de recolonização dos EUA para a América
Latina. Ao mesmo tempo, é uma bandeira que pode servir para desenvolver uma
resistência unificada continental. Com isso, podemos desenvolver os vínculos e
a unidade necessária para enfrentarmos juntos os desafios colocados para os
explorados deste continente e irmos construindo a resistência direta e global
ao capitalismo e ao imperialismo.
A LUTA CONTRA O CAPITAL É GLOBAL
Os problemas enfrentados por nós são
os mesmos dos trabalhadores dos outros países. Nas condições atuais, do capitalismo mundializado, é mais
necessário ainda que essas bandeiras e ações sejam levadas a cabo numa região
cada vez mais ampla e de forma coordenada, expandindo-se num processo
latino-americano e mundial de enfrentamento anticapitalista e
anti-imperialista.
Para isso, é necessário
desenvolvermos uma rede de movimentos e agrupamentos anticapitalistas e/ou
socialistas em nível de toda a América Latina e do mundo. Essa é uma tarefa
urgentíssima, para que possamos empreender ações unificadas e a construção
através do debate e da experiência de uma alternativa programática que possa se
constituir numa referência para todos os ativistas e movimentos que já
enfrentam a dominação do capital no seu cotidiano e que buscam um referencial
maior de organização e um objetivo estratégico.
UM OUTRO CAMINHO É POSSÍVEL: A LUTA
ANTI-CAPITALISTA E PELO SOCIALISMO
Retomar e atualizar a ofensiva
socialista, superando
o capitalismo que está nos levando à barbárie. Lutar até que os modernos meios
de produzir e distribuir a riqueza social (fábricas, terras, bancos,
hiper-mercados, etc) sejam expropriados pelos trabalhadores e transformados em
propriedade coletiva sob gestão direta de suas organizações de base,
planificando e re-orientando a produção
social para as necessidades humanas, eis aí o maior desafio de todos. Uma
sociedade socialista.
O INCONSCIENTE EQUÍVOCO DOS
JOVENS COMUNISTAS, ANARQUISTAS E FEMINISTAS...
Carlos
Wellington - estudante – ABC/SP
“É
certo que a mudança das mentalidades demora algumas
vezes
mais de 100 anos para se concretizar,
mas
isso não importa, desde que se abra um
espaço
definitivo para autonomia de homens e mulheres”
(Regina
Navarro Lins)
Algo
que os jovens comunistas, anarquistas e feministas desesperadamente não podem
encarar é o fato de que as sociedades auto-afirmativas produzem gerações de
pessoas auto-afirmativas. Essas sociedades auto-afirmativas são,
essencialmente, coordenadas por indivíduos auto-afirmativos.
Um sistema de vida agradável não pode ser proposto
revolucionariamente estando os jovens propositores "gozando" de uma
vida basicamente negativa. Se isso ocorre o modo de vida regressa sempre ao
negativismo, na forma mais violenta e mais bárbara da qual a revolução procurou fugir.
Muitos jovens comunistas e anarquistas encaram o capitalismo com
clareza, mas com os olhos blindados. E muitas coisas
que os jovens socialistas, comunistas, anarquistas e feministas sustentam
contra o capitalismo são verdadeiras.
No
entanto, existem duas verdades incontestáveis que tais jovens não assumem: a
liberdade pode e deve ser maior do que atualmente "desfrutam" e que
estão longe de conseguir tolerar, uma liberdade maior do que a que “desfrutam”.
O que se tornou uma tapeação é aceito como real pelos próprios jovens
"revolucionários" e "libertários". Em contraste com esta
constatação está o fato de que quando o assunto ("liberdade",
"personalidade", "felicidade", "gratificação",
"libertários (!)", "livre escolha (!)", etc...) é empregado
por esses jovens "revolucionários" tem um forte acento de ironia.
Na
verdade esses jovens comunistas, anarquistas, feministas estão condicionados a
espaços bem menores do que os “oferecidos” pelo capitalismo. Ou seja, poderiam
se descondicionar bem mais se pudessem tolerar um pouco mais de liberdade.
Parece
mesmo difícil pra esses jovens "revolucionários, tolerar a liberdade que
já existe! Infelizmente, o ligeiro verniz de liberdade no capitalismo liberal,
representa tudo quanto os próprios jovens “revolucionários" podem "desfrutar".
Imaginem então a situação das vastas massas!
Uma
liberdade maior que essa, exige dos jovens "revolucionários” maior senso
de responsabilidade pelos seus próprios destinos. E isso acaba por reduzir os
jovens "revolucionários" a verdadeiras ruínas nervosas. Então eles a
rejeita.
O
erro trágico que os jovens anarquistas, comunistas e feministas cometem por não
compreenderem o fato, naturalmente porque não podem fazê-lo, nos conduzirá a
uma sociedade também autoritária.Uma sociedade economicista e pior, muito pior
que isso: Com o mesmo modelo de família há muito já dilacerada. Uma
família baseada numa extensa violência psicológica de codinome monogamia. Uma
farsa que até reacionários burgueses falam
contra: "A monogamia é uma violência, ela é antinatural. Vê-se muito pouco
dela na natureza“ (Ciro Gomes, PPS).
Tal erro levará na práxis ao combate, com unhas e dentes por eles próprios,
à liberdade pela qual aparentemente anseiam!
A
marca registrada de revolucionários bl