ÍNDICE:

Europa em luta

O movimento antiglobalização: Sua situação e nossas tarefas

Venezuela: O confronto se aprofunda

Argentina: O processo revolucionário e os desafios para os socialistas

Brasil: O governo Lula e a luta dos trabalhadores

O inconsciente equívoco dos jovens comunistas, anarquistas, feministas....

Nova ordem mundial: guerra e genocídios

Guerra contra o terror ou terror da guerra?

 
 

Europa
EUROPA EM LUTA

David Karvala, (En lucha, Barcelona)

 


Um ativista equatoriano de esquerda escreveu, em um recente artigo, que a esquerda européia devia abster-se de fazer críticas ao movimento na América Latina, pois “terá que pensar muito para responder por que hoje seu continente apóia o crescimento do neofascismo internamente e em escala planetária”.

A imagem que a esquerda latino-americana tem da Europa é, evidentemente, a de um continente de multinacionais rapinantes, aliada incondicional de Bush, e que rapidamente gira à direita, quando não ao fascismo. Além disso, nega-se a anular a dívida dos países pobres e imigrantes morrem, a cada semana, tentando cruzar o Estreito de Gibraltar da África para o Estado espanhol.

Certamente, tudo isto é verdade, mas  em parte .

Também é um continente onde há pessoas que dormem nas ruas, que os trabalhadores lutam cada vez mais contra os ataques do neoliberalismo. É o continente que tem visto as maiores mobilizações organizadas pelo movimento anticapitalista e algumas das maiores manifestações contra a guerra.

Partindo de uma visão de mundo baseada só no conflito entre países, isto é inexplicável. Porém reconhecendo o mundo que vivemos, e que cada país dentro deste mundo, está dividido em classes, logo se pode começar a explicar o enigma da Europa de hoje.

OS VELHOS IMPÉRIOS

Só podemos entender o presente se entendemos o passado. E a Europa tem um vasto passado. Ao ser o primeiro continente a desenvolver o capitalismo, colonizou o resto do mundo, e não o contrário. Ao ser o primeiro país industrial, a Grã-bretanha rapidamente superou os demais países com seu poder imperial.

Mas, todos os impérios chegam ao seu fim cedo ou tarde e a Grã-bretanha perdeu sua “grandeza” depois da II Guerra Mundial. Foi parte do preço pago ao seu aliado e rival EUA, que se converteu na grande superpotência ocidental, na competição militar com a URSS e seu bloco.

Outro produto da nova situação foi a reconstrução da Alemanha e do Japão, importante para os EUA em contrapeso à URSS. Ao reconstruir suas indústrias partindo praticamente do zero, e com a proibição de investimento em armamentos, estes países se beneficiaram muito com boom do pós-guerra.

Nesse contexto foi se desenvolvendo a União Européia (UE), um ente muito contraditório. No início como meio para evitar conflitos entre países europeus, sobretudo França e Alemanha, e especificamente para coordenar a produção de aço e carvão. Agora, após a guerra fria, a UE é um dos três blocos do capital mais importantes a nível internacional, que colabora e se enfrenta, de acordo com o momento, com os EUA e Japão.

Porém, ao contrário destes países, a Europa segue dividida entre suas distintas  classes dirigentes, cada uma com seu próprio estado. Cada burguesia nacional é como uma família mafiosa, que tem seus conflitos internos, mas que se une para enfrentar-se com as outras famílias, como as famílias que brigam entre si, mas procuram  se unir contra o mundo exterior. A União Européia não pode decidir se deve ser uma família mafiosa, ou várias famílias unidas em uma aliança instável e temporária.

A que menos sabe onde quer estar é a burguesia britânica: dividida entre os que se resignaram a sócios menores, da Alemanha e da França na EU, e os que querem jogar no papel “independente” (ou seja, ligados diretamente aos EUA) no cenário mundial.

Estas confusões multiplicam-se neste momento em que está programada a ampliação da UE com mais 10 países. Oito destes formavam parte do bloco do Leste. A unificação da Alemanha, após a queda do muro de Berlim, teve um efeito desastroso sobre a economia alemã, a mais forte da Europa. Veremos como a ampliação afetará a UE, visto que segue sem levantar a cabeça após vários anos de pouco ou nulo crescimento econômico.

Entrelaçado com o aspecto econômico está o militar: deve a UE, como importante poder capitalista, possuir forças armadas próprias, à altura do século XXI? Implicaria isto a desaparição dos diferentes Estados europeus? Se não se arma, como pode a UE defender seus interesses frente aos EUA, e a outros países nos quais investe?

Estes debates seguem sem solução, enquanto os dirigentes europeus tomam seus posicionamentos em relação à guerra que Bush planeja contra o Iraque.

O único ponto em que quase todos os dirigentes estão de acordo é em aplicar políticas neoliberais; ou seja, atacar as condições de vida dos trabalhadores europeus.

 

OS TRABALHADORES EUROPEUS NO PARAÍSO

A primeira coisa a ser destacada é que existe uma classe trabalhadora na Europa, e longe do mito de serem privilegiados, os trabalhadores europeus estão trabalhando cada vez mais, em condições cada vez piores.

Foi com a exploração destes trabalhadores que se criou a indústria capitalista no século XIX e XX, e que agora cria o lucro das multinacionais. No Estado espanhol, por exemplo, as empresas recebem hoje em dia, no item lucros, uma maior proporção do Produto Interno Bruto do que no final da ditadura franquista, e pagam menos por cada unidade de trabalho.

O Estado de bem-estar-social que se conseguiu, até certo ponto, na maioria dos países da Europa Ocidental durante o pós-guerra, está sendo atacado há anos. As políticas neoliberais aplicadas na América Latina começaram na Europa em 1979, com a subida ao poder de Margaret Thatcher na Grã-bretanha. Os cortes sociais, privatizações, “flexibilização trabalhista”, etc. há tempo são dogmas de fé na União Européia. No Estado espanhol, um terço dos que trabalham estão em condições precárias.

Durante os anos 90, o descontentamento começou a expressar-se, às vezes, em forma de grandes lutas, como a explosão de greves na França em 1995, porém mais tipicamente com a eleição de partidos social-democratas para governar.

Entretanto, salvo diferenças estéticas, estes governos seguiram as mesmas políticas neoliberais que seus antecessores. Inclusive quando, supostamente, levavam a cabo políticas progressistas. As 35 horas do governo Jospin na França, por exemplo, foram acompanhadas de uma flexibilização total das condições de trabalho, assim muitos trabalhadores estão em situações piores.

Isto explica o auge da extrema direita. Quando os partidos reformistas traem as suas bases, abrem a porta aos fascistas, que se apresentam como “os defensores dos europeus”, frente aos imigrantes. Os partidos tradicionais da direita, por sua vez, entram no leilão xenófobo para manter seus votos.

Com este quadro, é fácil deprimir-se, mas em absoluto daremos motivos para isso.

 

A RESISTÊNCIA DESDE BAIXO

O que toda pessoa de esquerda deve destacar na Europa de hoje, é a oposição que começa a estender-se pelo continente, de forma desigual, mas inegável.

As ondas de radicalização começaram bastante afastadas da classe trabalhadora nas fábricas, como no normal, e iniciaram bem concretamente com as mobilizações anticapitalistas que seguiram à batalha de Seattle, em novembro de 1999.

A primeira data importante na Europa foi com o encontro da cúpula do FMI e do Banco Mundial em Praga, em setembro de 2000, quando umas 20.000 pessoas, muitas delas jovens radicais que vieram de todo o continente, conseguiram bloquear a reunião. Em junho de 2001, houve uma importante e simbólica vitória em Barcelona com a decisão do Banco Mundial de não marcar presença na cidade frente aos protestos.

Na manifestação contra o G-8, em Gênova, um mês depois, a violência do Estado se impõe e a polícia assassina Carlo Giuliani, o que produziu comoção por todo o continente e no dia seguinte umas 300.000 pessoas protestaram pelas ruas de Gênova. Não foi a primeira morte de um ativista anticapitalista. Uns meses antes, três estudantes foram assassinados em protesto contra o Banco Mundial em Papua Nova Guiné.

Durante o primeiro semestre de 2002, a presidência rotativa da União Européia foi do Estado espanhol. Houve um crescimento incrível do movimento anticapitalista por todo o país. Em cidades pequenas, onde não existiam movimentos, ocorreram manifestações de centenas ou milhares de pessoas. A maior manifestação, até o momento, organizada pelo movimento anticapitalista, foi em Barcelona no dia 16 de março que contou com meio milhão de pessoas.

Este foi um grande passo, e vale a pena deter-se nele. Os manifestantes foram, em sua enorme maioria, trabalhadores da cidade e de seus arredores. Os que protestaram contra o neoliberalismo já não foram só os jovens radicais. Isto, por sua vez, produziu outra mudança significativa.

Em Praga, a única corrente da esquerda organizada presente foi a Socialismo Internacional (da qual o grupo En Lucha faz parte).

Com as diferentes e posteriores mobilizações, cada vez mais correntes da esquerda começaram a levar a sério o movimento anticapitalista.

Em Barcelona, até o Partido Socialista e as centrais sindicais majoritárias apoiaram, no mínimo verbalmente a manifestação, o que sem dúvida, contribuiu para sua magnitude.

Decididamente, já não se tratava de uma minoria radical.

O êxito destas mobilizações impulsionou uma série de lutas: Na Itália, uma manifestação sindical de 3 milhões de pessoas e uma greve geral. No Estado espanhol, três meses após a grande manifestação em Barcelona e coincidindo com a reunião final de cúpula da presidência espanhola e UE em Servilha, houve uma greve geral de 10 milhões de trabalhadores, defendendo o seguro desemp> No campo eleitoral, também houve mudanças. A imprensa e os comentaristas falam do crescimento da extrema direita e pouca atenção dão ao crescimento significativo do voto na estrema esquerda (tampouco se detém nas centenas de milhares de pessoas que se manifestaram contra fascistas como Le Pen ou Haider).

Assim aconteceu na França, com as eleições presidenciais de abril, os candidatos declarados revolucionários somaram mais de 11% dos votos. A Aliança Socialista na Inglaterra e o Partido Socialista Escocês conseguiram apoio além das fileiras da esquerda radical.

Inclusive na Alemanha, a sobrevivência do Governo de Schröder, que ganhou as eleições legislativas por uma margem muito estreita, deveu-se a seu discurso contra a guerra na reta final da campanha.

E, falando em guerra, temos que saldar a manifestação em Londres, no dia 28 de setembro, com 400.000 pessoas: brancos, negros, ateus, cristãos, judeus, mulçumanos, trabalhadores, estudantes, aposentados...

Inclusive no país de Tony Blair, muitíssima gente se opõe à guerra, 65% segundo as pesquisas.

 

E AGORA O QUÊ FAZER?

Tudo isto coloca desafios para a esquerda revolucionária da Europa.

Podemos seguir como antes, com nossos debates internos, fazendo críticas agudas às limitações do movimento anticapitalista, ou antiglobalização como alguns preferem chamá-lo. Certamente, captaremos alguns indivíduos para a nossa causa, e poderemos ficar satisfeitos quando o movimento entrar em refluxo. Seria o maior equívoco possível.

Do mesmo modo, poderíamos dizer que tudo o que temos feito até agora é irrelevante, que deveríamos esquecer das idéias marxistas, e simplesmente ser parte do movimento.  Seria melhor que a primeira opção, mas tampouco serviria.

Existem cada vez mais debates dentro do movimento e não basta dizer “estou de acordo”.

O que se apresenta é uma opção mais difícil, mas essencial: entrar plenamente e ser parte do movimento anticapitalista, ajudar criar o movimento onde ainda não existe. Por sua vez, e de forma inseparável, aplicar as idéias marxistas à nova situação e tentar fortalecer o pólo revolucionário dentro do movimento.

Isto significa ganhar aos jovens anticapitalistas para o entendimento da importância da classe trabalhadora e da luta sindical de base. Significa aprender a debater as idéias do reformismo dentro do movimento - seja dos dirigentes de Attac ou dos políticos social-democratas – sem nos isolarmos dos que ainda têm ilusões na possibilidade de reformar o sistema.

Neste marco, também está colocada a necessidade de superação das endêmicas divisões na esquerda radical. Este será um processo difícil, mas possível. Na medida em que as diferentes correntes consigam superar suas velhas ilusões no “socialismo desde cima”, na tentação de substituir a luta de massas por eles mesmos e ao mesmo tempo evitem cair nas novas ilusões pós-modernas que abundam dentro do movimento, certamente será possível a aproximação.

A próxima data, no momento em que escrevo, é o Fórum Social Europeu, de 06 a 10 de novembro, em Florença na Itália. Obviamente inspirado no Fórum Social Mundial de Porte Alegre, com aspectos específicos que refletem os avanços do movimento na Europa. Foi organizado em assembléias abertas de ativistas dos diferentes movimentos da Europa. Há esforços especiais para que participem representantes dos movimentos da Europa do Leste e do norte da África. Foi descarada a realização de um fórum especial de parlamentares; os que quiserem assistir terão que demonstrar seu acordo com a carta do Fórum, que exclui qualquer um que apóie medidas neoliberais ou a guerra (ou seja, os Ministros estão fora).

Será uma grande oportunidade para vertebrar o movimento europeu, tanto a nível geral como as lutas estudantis, as campanhas de apoio aos imigrantes, etc. Um dos objetivos centrais será o de estabelecer as bases de uma luta contra a guerra, a nível europeu.

Ainda não se pode saber com certeza, mas existe a possibilidade que seja outro passo importante do movimento, um elemento a mais na grande e nova organização internacional que estaremos criando entre todas e todos, desde baixo.

E para retrucar ao companheiro equatoriano, é claro que queremos responder ao crescimento do fascismo e à guerra – já estamos, como se vê, com enormes mobilizações, mas isto não é tudo. Queremos conseguir outro mundo, um mundo socialista.

Nesta tarefa, necessitamos cada vez mais intercâmbio de experiências e idéias entre as diferentes lutas nos diferentes continentes. Não vivemos em um primeiro, segundo ou terceiro mundo, e sim em um só, e a luta é uma só.

De Barcelona ao Brasil, uma luta e, no futuro, esperamos, uma vitória.


 

 

O MOVIMENTO ANTIGLOBALIZAÇÃO: SUA SITUAÇÃO E NOSSAS TAREFAS Enrique (Novo Curso- Espanha)

 


Recentemente terminou o semestre que governo espanhol deteve a presidência da União Européia. Durante estes seis meses, todas as reuniões de ministros da União Européia foram contestadas por importantes manifestações de rua e jornadas de debate. A manifestação de meio milhão de pessoas em Barcelona em 16 de março (coincidindo com a Cúpula de Barcelona) e a Greve Geral de 20 de junho (coincidindo com a Cúpula de Sevilha) foram só a ponta de um enorme iceberg. O movimento antiglobalização alcançou uma dimensão massiva, de milhões de pessoas, se estendeu por todas as cidades, teceu uma complexa rede de assembléias e comissões,... E, no entanto, alguns meses depois, este movimento vive na letargia e assim será provavelmente até a próxima cúpula ou evento dos agentes do capitalismo global.

Agora, depois da frenética atividade dos últimos meses, é uma boa oportunidade para que os que somos parte deste movimento, façamos um sério balanço de sua força e debilidades. E sobretudo para que os que dentro deste movimento lutamos por derrubar a atual ordem social, analisemos cuidadosamente que erros e acertos cometemos e que passos devemos dar no futuro.

Já assinalamos a amplitude e massividade deste movimento. A resistência contra a globalização capitalista é descendente direta de outros movimentos como o zapatismo, o ecologismo, os okupas,... mas além de abarcar a todos eles, é muitíssimo mais amplo que a soma dos mesmos. O movimento não nasceu com esta amplitude nem alcançou seus limites, quer dizer, está crescendo e estendendo-se cada vez mais. É, como seu nome indica, um movimento, quer dizer, um setor da população que não só rechaça ideologicamente o capitalismo global senão que está disposto a mobilizar-se contra ele ou contra aspectos parciais do mesmo. As formas que adota esta mobilização são muito variadas e vão desde manifestações pacíficas até as conhecidas barricadas. Mas o que queremos destacar é que não só pensam contra o capitalismo global, mas que também estão dispostos a lutar e lutam contra o mesmo.

É um movimento tremendamente heterogêneo. Heterogêneo socialmente quer dizer que abarca a quase todas as classes e capas sociais. Heterogêneo culturalmente e sobretudo heterogêneo ideológica e politicamente. Este último aspecto tem uma importância muito grande porque, em minha opinião, vai determinar o desenvolvimento do movimento no futuro.

Existe uma série de traços de identidade comuns na ideologia dos que conformamos este movimento: esses traços se condensam no rechaço ao capitalismo neoliberal, quer dizer, a atual política dos estados ricos, seus governos e as multinacionais que exploram economicamente as nações e os povos de todo o mundo, saqueiam e esgotam os recursos naturais do planeta e exercem para isso uma política repressiva e bélica com suas seqüelas de mortes e sofrimento. Esta base ideológica comum não deve ocultar as contradições ideológicas que se desenvolvem no seio do movimento.

Nem todo o movimento, nem sequer a sua maioria é anticapitalista, quer dizer, rechaça a exploração da classe trabalhadora ou dito de outra forma, o roubo por parte de uma minoria social do trabalho e do suor da maioria. Para muitos componentes do movimento é “lógico” e até benéfico que existam empresários e trabalhadores, ainda que isso produza “certo grau” de desigualdade social. Esse setor do movimento defende um controle social da exploração capitalista que a modere e a humanize. Opina, pois que “outro capitalismo é possível” diferente desse neoliberal, mas, além disso, opina que o único outro mundo possível será também capitalista. Nem todo o movimento, nem sequer a maioria do mesmo é igualitário, quer dizer, defende uma igualdade social, uma igualdade real de direitos para todas as pessoas, uma distribuição igualitária da riqueza e dos bens sociais (educação, ócio, saúde,...). Para amplíssimos setores deste movimento é normal que existam ricos e pobres, que os imigrantes careçam de direitos sociais e políticos fundamentais, que a educação não seja única senão que “quem possa pagá-la” possa ter acesso aos melhores colégios ou universidades.

A amplíssima maioria do movimento, desta vez sim, é “ecologista”, quer dizer, promove a defesa da natureza. Também consideram o capitalismo neoliberal incompatível com esta defesa da natureza, mas não consideram o mesmo do capitalismo, quer dizer, da ordem social na qual os benefícios econômicos imediatos de uma minoria determinam o modo de viver da maioria e a relação do homem com a natureza.

Outro sinal de identidade do movimento é seu rechaço da burocracia sindical e política. Este ódio aos aparatos é sem dúvida filho da queda do muro de Berlim e se estende a todo tipo de organizações políticas e sindicais, deslegitima a democracia atual e reivindica, ainda que de forma confusa, uma organização “horizontal”. Este é um elemento positivo e relativamente novo deste movimento em relação aos anteriores movimentos contra o sistema. A forma de organização, por exemplo, da guerrilha antiimperialista na América Latina copiava o modelo vertical de um partido-exército com centralismo democrático e disciplina militar (o mesmo ocorria em grande medida com o movimento antifranquista do Estado espanhol), e nada tem que ver com o assembleísmo típico do movimento antiglobalização.

Existe, ademais, um elemento central nesta série de contradições que estamos assinalando: o movimento antiglobalização não é conscientemente revolucionário, quer dizer, não está nem ao menos convencido do inevitável de derrubar o capitalismo para alcançar os objetivos que defende. Este é um elemento também novo herdado da queda do modelo soviético. Enquanto que a maioria dos movimentos anticapitalistas dos anos 60-70 (volto a me referir às guerrilhas latino-americanas) lutava por derrubar o capital e implantar uma nova forma de organização social e política (o “socialismo real” que para mim era também explorador e opressor), o movimento antiglobalização ou não crê necessário derrubar o capital ou está convencido de que tal empenho é impossível. Este aspecto concreto tem uma conclusão: em geral os integrantes da antiglobalização desprezam a política, porém não só desprezam a política praticada como a arte do engano pelas classes dominantes, senão a política em geral: fogem da discussão de alternativas, negam-se a debater diferentes programas políticos e definitivamente rechaçam construir uma ideologia própria e definida.

O mesmo lema do movimento “outro mundo é possível” encerra claramente todas estas contradições: não se sabe como é esse outro mundo “possível”, quer dizer, não se tem nem sequer um esboço de um modelo alternativo ao capitalismo ou os modelos que se propõem são uma reedição do mundo atual ainda que aparentemente mais suaves e humanizados. Porém o movimento mesmo não tenta definir esse outro mundo, teme que se o fizer se produzam desengajamentos ou cisões em seu seio, considera em geral que elaborar o programa desse outro mundo é uma perda de tempo e um enfrentamento estéril total (como esse mundo não é mais que uma utopia que se fará realidade, desta forma se cerra o ciclo da incoerência política).

Também a realidade organizativa do movimento é conseqüência das contradições ideológicas que viemos assinalando. Este movimento se mostra claramente como resposta às cúpulas do Banco Mundial e do G-7, mas permanece letargizado e desorganizado ante muitos outros acontecimentos. Durante a realização de ditas cúpulas, o movimento levanta em massivas manifestações consignas contra a destruição do meio ambiente ou em defesa dos direitos das pessoas, mas quando o Estado ou as classes dominantes realiza um ataque concreto contra a natureza ou contra esses direitos sociais, muitas vezes o movimento não está à altura das “contra cúpulas” e as classes dominantes conseguem uma nova vitória.

Esta consciência contraditória, na qual se enfrentam elementos positivos com falsas ilusões, está certamente em evolução e sobre ela interatuam diferentes organizações políticas e aparatos ideológicos do sistema e também os indivíduos e grupos que têm, por razões que sejam, uma consciência mais conseqüentemente revolucionária, anticapitalista e antiestatista.

Temos que entender que a classe dominante não tem uma política única para defender o atual status social, senão que pode ter várias. Assim, não é a mesma a política de Bush e Reagan que a de Clinton e Carter e sem falar em Kennedy, não é a mesma política de Aznar e a do PSOE (e menos ainda se um é governo e outro oposição). Todas essas políticas têm um elemento central comum, defender o status.

Para isso sempre se põem de acordo e suas disputas não passam de  verbais. No entanto com respeito ao movimento antiglobalização, que é o que neste momento discutimos, é evidente que existem setores burgueses que optam por sua simples e pura eliminação (criminalização, repressão e até assassinato) e outros tentam sua assimilação (Fórum social, integração dentro do Fórum das Culturas, negociação,...). Ambas políticas cujo objetivo comum é desarmar o movimento antiglobalização em seu enfrentamento contra o sistema, podem se combinar e de fato o fazem, predominando uma ou outra segundo as conjunturas e fundamentalmente a evolução dessa consciência contraditória que temos assinalado na antiglobalização.

Gênova foi o expoente mais elevado dessa política de eliminação, Barcelona e mais ainda Sevilha o foi da política de assimilação. Em Gênova, a policia assassinou a Carlo Giuliani para amedrontar o movimento antiglobalização, atacou militarmente seu acampamento, colocando nele coquetéis molotov para criminalizá-lo como terrorista... essa é a política de Berlusconi que disse que o 11 de setembro da Al Quaeda era o mesmo que a antiglobalização só que com métodos diferentes. Em Barcelona em 2002, a delegada do governo do PP pactuou tacitamente com os organizadores das manifestações e elogiou depois seu comportamento; os aparatos sindicais defensores do sistema (CCOO e UGT) somaram-se às manifestações para não se desprender. E finalmente em Sevilha, estes mesmos aparatos fizeram coincidir a Greve Geral de 20 de junho com as jornadas centrais da cúpula para recuperar o protagonismo perdido e reconduzir o movimento.

A escala mundial, estas mesmas duas políticas da classe dominante para derrotar o movimento antiglobalização também se mostram claramente. Bush e a guerra total contra o eixo do mal encarnam uma destas duas políticas, enquanto que o partidos social-democratas e comunistas reciclados encarnam a segunda. Que outra explicação pode ter a presença de Clos, o prefeito de Barcelona que encarcerou e deportou emigrantes no verão de 2001, reprime e desaloja brutalmente aos Okupas e colaborou na organização da cúpula da UE em Barcelona em 2002, no autoproclamado centro do mundo antiglobalizador, o Fórum Social de Porto Alegre. Em minha opinião, em que pese a presença de milhares de honestos lutadores anti-sistema de todo o mundo, o Fórum Social de Porto Alegre é a imagem mais clara desta política de assimilação do movimento antiglobalização com a defesa de que outro mundo possível será necessariamente capitalista e que para fazê-lo possível a revolução não só é desnecessária senão contraproducente.

Da mesma forma que as classes dominantes e as organizações que defendem o sistema atuam sobre o movimento contra a globalização, também o fazem outras organizações e indivíduos que justamente poderíamos qualificar de revolucionários. Não nos estamos referindo a tal o qual organização política autoproclamada como o partido da revolução mundial ao velho estilo dos PC’s stalinistas ou inclusive muitas organizações trotskistas. Nos referimos a um conjunto heterogêneo de pessoas e pequenos grupos das mais diversas procedências e bagagem ideológica, mas que têm em comum o convencimento de que o capitalismo (não só o neoliberal, senão qualquer forma de exploração e roubo da mais valia) tem que ser derrubado para levantar outro modelo de organização social necessariamente igualitário, democrático e horizontal.

Em minha opinião, a tarefa de todos eles, consiste em dotar de uma sólida orientação política anticapitalista e revolucionária o movimento antiglobalização.

Não se trata em absoluta de “dirigi-lo” ou ganhar a maioria política dentro do mesmo, como era antes da queda do muro o objetivo dos partidos que se pretendiam revolucionários com respeito a todos os movimentos anti-sistema. Segue havendo uma multitude de personagens e grupos que permanentemente querem atribuir-se o papel de dirigentes da antiglobalização e também muitas organizações que só atuam no seio do movimento com a intenção de captar a seus membros mais ativos ou mais propensos a tal ou qual tese. Estas pessoas e organizações não querem construir um movimento e sim construir a si mesmos (ou construir um determinado prestígio pessoal quando se trata de indivíduos sem organização), às custas do movimento e não colaboram em nada na consolidação política desta corrente anti-sistema e sim fomentam o ódio pela política em geral que assinalamos antes.

O trabalho dos revolucionários deve distanciar-se o mais claramente possível de tais práticas. Em primeiro lugar porque os revolucionários devem ser conscientes de sua própria debilidade, não só numérica e organizativa, mas também ideológica. Os programas socialistas clássicos entraram em crise no mesmo momento que entrou em crise o que todo o mundo identificava como modelo socialista (em que pese que tal modelo não tinha nada de socialista). Não se trata somente de uma crise do modelo socialista soviético senão que é muito mais ampla, não existe um programa alternativo ao do capital que seja abraçado como próprio por importantes grupos ou correntes sociais. Tal programa há de se construir. Nesse marco, o trabalho dos revolucionários é aportar sua experiência e formação, teórica e prática para construir o programa conjuntamente com o movimento mesmo.

Para isso devemos partir dos elementos positivos ou mais propriamente ditos revolucionários que existem na ideologia da base da antiglobalização, essencialmente de dois: seu rechaço à ditadura do capital e seu antiburocratismo. Trata-se de um trabalho essencialmente de propaganda, quer dizer, de explicação paciente e de difusão de valores essencialmente anticapitalistas.

Um primeiro passo é fazer esta mesma reflexão dentro do movimento, colocar-lhe que é imprescindível uma ideologia própria e alternativa, para que seja algo mais que uma série de explosões conjunturais e possa de fato, fazer frente ao Sistema. Já têm surgido vozes dizendo que realizar uma séria discussão política, separa a setores do movimento, que quanto mais confusa seja a ideologia, mais ampla será o movimento. É preciso rebater esta posição, uma coisa é ser aberto e democrático e outra coisa é ser confuso. Nós pelejamos para que o movimento construa seu próprio programa político inclusive mesmo que este programa comum não seja o nosso ou tenha elementos que não concordamos.

Nos dirão também que tal discussão ideológica é estéril, que o fundamental é a ação e quanto mais “direta” seja esta, mais duro golpeamos ao capital. Isso é falso. Se o movimento houvesse empregado em discutir o programa político só a metade de tempo que gastou em discutir interminavelmente sobre manifestações violentas ou não ou sobre como fazer frente à repressão policial, o movimento teria avançado muito mais e se dividido muito menos; e tudo isso ademais porque o problema da violência é também político e não prático.

Um segundo elemento a ter muito em conta é o dos ritmos, temos que respeitar escrupulosamente os ritmos de desenvolvimento do movimento mesmo e isso significa justamente o oposto a desenvolver uma guerra política de minorias e maiorias dentro do movimento. Significa aprender a ser minoria a não tratar de impor votações ou fazer expurgos. Compreender que a heterogeneidade não é um aspecto negativo e sim que pode ser positivo se se respeita o marco horizontal comum.

Um terceiro elemento é buscar a relação com outros movimentos e essencialmente o movimento operário. O movimento antiglobalização é um movimento “popular” no sentido em que é policlassista ainda que sua composição seja majoritariamente de jovens assalariados. Em seu seio, as reivindicações colocadas pela contradição capital-trabalho assalariado estão colocadas, mas de maneira secundária e isto é assim porque o movimento operário em geral esteve, ao menos no ocidente desenvolvido (onde também tem se desenvolvido o movimento antiglobalização) por longos anos em letargia e submissão aos aparatos sindicais. Os revolucionários não podem permanecer impassíveis diante disso, muito ao contrário, porque é imprescindível para a consolidação política do movimento que este seja consciente que a contradição objetiva entre capital e trabalho assalariado segue sendo a contradição fundamental desta sociedade, que a luta de classes é o motor da história. Não se trata só de que o movimento assuma reivindicações sindicais e sim de que faça sua a defesa da emancipação dos trabalhadores, da desaparição da exploração pelo salário. Isto significa também um trabalho dentro do movimento operário que geralmente despreza aos jovens anti-sistema e guarda multitude de hábitos verticalistas, e sem dúvida uma luta contra os aparatos sindicais. Mas é um desafio imprescindível que devemos enfrentar.

Estes são a nosso juízo os elementos centrais para iniciar este trabalho de construção programática que estamos propondo a um amplo leque de indivíduos e grupos. É possível que no desenvolvimento dos mesmos confluamos com muitos deles, a abertura de horizontes e a supressão de qualquer vicio sectário ou autoproclamatório será então imprescindível. Esperamos que assim seja.


                     

 

Venezuela

O CONFRONTO SE APROFUNDA Stalin P. Borges (La Chispa, Venezuela)

 

           


Com o início do novo ano, muitos pensaram que poderia baixar a tensão e o enfrentamento diário entre os opositores golpistas e o governo bolivariano, mas não foi assim. Agora se está na mais forte tensão, desde que em 2 de dezembro iniciou-se a paralisação/conspiração pro imperialista e patronal. A marcha da oposição, que foi convocada para 3 de janeiro com o nome da “a grande batalha”, pela intervenção da Policia Metropolitana (PM) e setores civis fascistas que dispararam como se estivessem em um combate corpo a corpo, produziu 2 mortos, 6 feridos a bala e muitos mais feridos e asfixiados. No dia seguinte, a altas horas da noite, em pleno velório dos 2 assassinados do dia anterior, a PM voltou a arremeter de forma desapiedada, com disparos e bombas de gás lacrimogêneo contra os assistentes na funerária. Estes atos desesperados e criminosos da oposição, mostram o estado de perigosa violência a que se está chegando.

       A maioria do setor chavista e muitos não chavistas expressam uma profunda indignação pelos crimes, os outros atos de violência, as filas e a escassez, da qual culpam à oposição. São muitas as expressões de ódio contra os principais dirigentes da oposição (Carlos Ortega da CTV, Carlos Fernández de Fedecámaras e de Juan Fernández de Gente de Petróleo, assim como dos canais televisivos e de seus donos). Manifesta-se o desejo de encontra-los na rua para mata-los. Desde que se iniciou a paralisação/sabotagem, todos os dias ao final da tarde, Ortega e os Fernández, eram os que davam uma coletiva de imprensa, onde davam “sua parte de guerra”, coberta por toda a televisão privada, mas ontem, pela primeira vez, outras e outros, foram o que saíram para cumprir esta missão. Isto pode ser uma mostra de que se deram conta, de que estes personagens ganharam o repúdio da imensa maioria da população, incluindo milhares de não chavistas.

       Durante o dia de ontem e hoje, os chavista mobilizaram-se como resposta à ofensiva da oposição e ante a situação de impunidade que segue prevalecendo entre as instituições do estado burguês bolivariano. Em meio à marcha que se fez com os féretros dos mortos do dia 3, até o hotel onde está alojado César Gaviria e os outros representantes da OEA, a consigna que mais se exigiu foi: Castigo aos assassinos e aos golpistas! Chega de impunidade!.Durante os enterros, que foram com assistência multitudinárias e se efetuaram em duas cidades limítrofes de Caracas, também se fizeram essas exigências. A pressão é contra a Procuradoria Geral da República (Isaías Rodríguez), a quem se solicita de imediato que ordene a investigação e prisão contra os PMs e dos meios de comunicação, responsáveis pela sabotagem e terrorismo. Hoje realizaram-se em frente às sedes da Procuradoria e do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) duas grandes concentrações. No TSJ se entrou com um recurso contra a posição e programação dos meios televisivos. Em poucos dias, se não se cumpre algumas destas exigências e talvez, si se cumpra, pode haver mais atos de violência e até com mais mortos. Afirmo si se cumpra, porque a oposição, se há uma decisão contrária pode reagir enfurecida e as massas chavistas também responderiam.

       Agora o eixo da oposição é o chamado à desobediência tributária. As televisões intoxicam com o chamado a não pagar impostos. O governo afirma que será castigado quem se negar a pagar. Todavia não se sabe o que vai acontecer com esta nova jogada da oposição, por que recém começa. No dia de hoje se move com esta ofensiva e a de realizar distintas marchas e concentrações, em alguma dessas se realizaram missas pelos mortos, incluídos os de 3 de janeiro. Isso é com a intenção de amenizar a pecha de assassinos que hoje carregam por estes últimos mortos.

       Amanhã a tensão se deslocará para o setor de educação. Ambos os lados estão se preparando, um para seguir impedindo a força que as escolas, liceus e universidade sigam parados. Para isso contam em muitos estados com as polícias dos governadores e algumas prefeituras. . Os chavistas e muitos estudantes e representantes lights, tem a intenção de comparecer a estes centros de estudos para que haja aulas.

       No setor petroleiro se segue recuperando a produção. Há mais combustível no mercado, mas em muitos estados segue havendo filas para o fornecimento de gasolina. Nisto tem ajudado tanto que tenham voltado a funcionar algumas refinarias mas, fundamentalmente a importação de gasolina. O comercio segue na mesma situação explicada anteriormente. No setor manufatureiro abriram suas portas algumas empresas que não haviam feito. Isto não é massivo hoje, mas há alguns indícios que para o transcurso da semana pode vir a ser. Nesta semana vai começar haver problemas, porque muitos gerentes de empresas estão chamando aos sindicatos para informar-lhes que não vão seguir pagando seus trabalhadores da forma como o vinha fazendo. Isto incomodou aos sindicatos classistas  onde as empresas estavam paradas, mas que pagavam os salários. Os sindicatos estão se reunindo para dar respostas a esta baixa no salário que se pagavam, em meio do Lockout patronal.

       Os trabalhadores em alguns setores e o movimento popular em importantes cidades se organizam vertiginosamente. Em alguns estados como em Pto. La Cruz, constituiu-se, entre trabalhadores petroleiros e não petroleiros, brigadas populares em defesa do petróleo. Formaram-se em varias cidades onde estão depósitos de combustíveis, Cooperativas de Transportadores de combustíveis, adquirindo as carretas (trailes) de parte das que tinha PDVSA e outras de privadas que têm sido tomadas pelo governo para que se faça o transporte. No petróleo é onde se tem desenvolvido mais a auto organização, as que se fazem desde o controle da distribuição de gasolina, pela nomeação de novas gerências e até pelo pessoal novo que ingressa e o pessoal que havia parado e agora quer regressar.

       No movimento popular, em Caracas se tem estendido os “Blocos”, em algumas partes se chamam em defesa da Justiça popular, em outras, em defesa da Constituição ou contra o fascismo ou outro nome. Tomam distintas defesas ou lutas, mas se fazem chamar blocos, porque começaram a se dar em um setor do oeste onde proliferam as residências multifamiliares ou edifícios, aos que sempre se lhes tem chamado blocos. (Os blocos de 23 de janeiro, os blocos de Pro pátria, de Catia, de Caricuao, de Kennedy, de Sarría, etc.).

       Hoje é que nós recém regressamos do feriado de fim de ano. Nesses dias só estivemos pendentes, com chamadas telefônicas do setor petroleiro, onde os companheiros responderam de forma extraordinária. Os trabalhadores do setor manufatureiro e de alimentos, que é onde estamos, hoje é também quando estão tratando de buscar orientação. Esta noite ou amanhã é quando vamos nos reunir.


 

 


Argentina

O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO E OS DESAFIOS PARA OS SOCIALISTAS

 


Os fatos de 19 e 20 de dezembro de 2001 abriram uma situação política marcada por características inéditas. Entre as mais significativas, encontramos o desenvolvimento de organizações populares independentes do Estado, o descrédito ao conjunto das instituições da “democracia” (partidos burgueses e seus líderes no Parlamento, na Justiça, no governo nacional e nas províncias , etc.), um inicial, ainda que  débil, questionamento de alguns pilares do capitalismo argentino (como os bancos, especialmente os estrangeiros e as grandes empresas públicas, privatizadas durante os anos 90) e também uma crescente oposição ao pagamento da dívida externa.

Tudo isso, no marco de uma crise econômica estrutural que questiona e demonstra as características brutais de saque e espoliação capitalista-imperialista do país, de conseqüências sociais históricas quanto aos índices de desemprego, de pobreza e de distribuição de renda.

No momento político atual, a principal debilidade dos trabalhadores e do povo é a falta de uma ferramenta política independente, que possa credenciar-se no cenário para oferecer ao conjunto da classe uma saída à crise do país a partir de uma perspectiva claramente antiimperialista, anticapitalista e socialista. Da construção dessa ferramenta política e do desenvolvimento dos embriões das organizações, independentes e autodeterminadas, que hoje existem, porém de maneira limitada e dispersa, depende em grande medida, o futuro do processo aberto na Argentina.

 

OS PROTAGONISTAS DO “ARGENTINAZO”

Nos limitaremos aqui a desenvolver alguns elementos presentes no curso da luta de classes na Argentina, não tocaremos aqui de maneira específica nas causas e resultados da crise econômica e muito por cima nas divisões e problemas políticos no seio da classe dominante. Nos concentraremos em mostrar alguns avanços, obstáculos, perigos e desafios que concernem ao movimento e aos trabalhadores depois de dezembro de 2001.

Podemos dizer que após os anos 90, uma larga década de derrotas, fragmentação e desmoralização (que, refletiu em parte a nefasta herança da ditadura militar de 1976 a 1983) os sucessos de dezembro de 2001 são, em certa medida, o início de um processo global de reconstrução e reorganização da classe trabalhadora e dos setores populares, no sentido da autodeterminação e independência. Este processo tem, ao nosso ver, três grandes protagonistas:

 

As assembléias populares surgidas após 20 de dezembro, de caráter barrial. São organizações locais surgidas de maneira espontânea, ainda que, desde o primeiro momento as organizações políticas de esquerda tiveram forte (e excessiva) participação. Desenvolveram-se com maior força na cidade de Buenos Aires, ocorrendo mais de 130 assembléias com média de 100 a 500 participantes semanalmente, fora as reuniões de comissões específicas, tais como as de imprensa e difusão, de estudo, de união com outras assembléias e setores de trabalhadores em luta, etc. Na Grande Buenos Aires a extensão desse fenômeno é menor e suas características são distintas, com menos debate político e maior compromisso com atividades ligadas as demandas específicas.

No pico (fevereiro-março), existiu uma instância de coordenação ou Assembléia das assembléias, que chegou a ter de 3.000 a 4.000 participantes semanais em uma praça de Buenos Aires. Nessa assembléia geral, todas as assembléias da capital e da grande Buenos Aires e as poucas do interior do país, levavam suas propostas de ação e suas reivindicações programáticas votadas em cada lugar. Ali surgiram vários “panelaços” nacionais, de importante repercussão, com passeatas compostas por dezenas de milhares vindos de vários pontos do país. Além do mais, votou-se um programa comum com uma infinidade de pontos, inclusive com referência ao não pagamento da dívida externa, a nacionalização dos bancos e dos fundos de previdência privada, a renacionalização das empresas privatizadas e algumas propostas políticas. Entre elas “fora todos” (fórmula algébrica cujo sentido exato varia segundo aquele que a pronuncia e dependendo do contexto) e diversas variantes de governo dos trabalhadores.

Neste momento as assembléias têm uma existência muito reduzida, porém não vegetativa, uma vez que se mantêm como ponto de referência da organização nos bairros. Isto é evidente, quando a polícia assassinou dois piqueteiros durante uma manifestação, as assembléias “adormecidas” revitalizaram-se imediatamente para organizar uma resposta massiva nas ruas contra o governo de Duhalde, num golpe político que o obrigou a adiantar sua saída do governo.

 

O movimento de desempregados, também chamado de piqueteiros. Diferentemente das assembléias estas organizações não são produto direto do argentinaço. Surgiram e desenvolveram-se em sua maioria durante a segunda metade dos anos 90. Representam um processo orgânico de construção e organização e refletem um fato social inédito na Argentina: a existência de um exército permanente de milhões de pessoas desempregadas. Não são somente um fenômeno social, mas também político na medida em que baseiam suas ações em reivindicações concretas e urgentes (alimentos, postos de trabalho, subsídios, etc.), quase todos esses movimentos excedem esse horizonte e apresentam algum tipo de perspectiva política.

 

AS CORRENTES QUE ATUAM NESSE PROCESSO

Nesse terreno é possível diferenciar várias correntes. O setor claramente conciliador e reformista é o bloco da Federação Tierra y Vivienda (FTV, filiada a central operária CTA, estreitamente ligada política e ideologicamente ao setor majoritário da CUT no Brasil, a corrente Articulação) e a corrente classista e combativa (CCC, onde tem um peso decisivo o Partido Comunista Revolucionário, maoista, e composições de direita, parecidas com as do PC do B). Essas duas correntes atuam juntas no sentido de chegar a algum tipo de pacto social e assim acalmar a situação na luta de classes. Sua capacidade de mobilização é a maior de todos os movimentos piqueteiros, assim como o uso descarado de práticas clientelistas típicas do peronismo.

Na esquerda da FTV-CCC encontra-se o bloco piqueteiro nacional, uma frente de diversas organizações. As maiores são o Polo Operário (PO, dirigido pelo partido obreiro), o Movimento Territorial de Liberação (MTL, com forte peso do Partido Comunista) e o Movimento Teresa Rodrigues (MTR). Também integram a Frente de Trabalhadores Combativos (FTC, aonde trabalham em comum ativistas independentes, militantes do MAS, FOS e anarquistas) e outras organizações como CUBA, COBRE, etc, politicamente populistas ou semi-castristas. O bloco defende uma política claramente independente, opositora e combativa frente ao governo, ao Estado e à burguesia e foi protagonista de várias ações que resultaram em enfrentamentos com as forças  repressivas.

A divisão entre as correntes piqueteiras surgiram desde as assembléias nacionais piqueteiras, no calor na luta contra o governo De la Rua. Na primeira assembléia em meados de 2001, estabeleceu-se uma frente única muito precária entre a FTV, a CCC e o PO. Este equilíbrio foi rompido em dois meses, na segunda assembléia quando a FTV e a CCC tentaram impedir o acesso das organizações de esquerda, sobretudo o MTR. Essa assembléia votou um plano de luta, um programa político similar ao das assembléias populares e a convocatória a uma terceira assembléia. Esta última foi sistematicamente boicotada pela FTV e a CCC, que  não estiveram presentes na praça de Maio em dezembro de 2001.

Existem outras organizações de desempregados que não aderem a nenhuma das grandes correntes, ainda que realizem ações em comum. Do ponto de vista das ações, o setor piqueteiro é o que, mais claramente, tem mantido uma presença contínua com mobilizações, bloqueios de rodovias e pontes, etc. Politicamente o BPN tem sido o mais ativo, com duas assembléias nacionais de trabalhadores, uma ocorrida em fevereiro e outra em junho, contando com a participação de importantes delegações de trabalhadores ocupados, comissões de fábrica, chapas sindicais, etc.

 

OS TRABALHADORES OCUPADOS

O setor mais atrasado quanto ao processo de desenvolvimento organizativo é dos trabalhadores ocupados, no entanto, estão ocorrendo várias experiências importantes que apontam para o desenvolvimento de formas de autodeterminação contra a burocracia. É importante assinalar que estas experiências são tanto por fora como por dentro das organizações sindicais tradicionais. Neste último caso são sindicatos ou sessões deles que, ao ter uma nova direção não burocrática, colaboram na confluência de ações e experiências de outros setores.

Na Patagônia (ao sul do país) vive uma rica experiência. Os mineiros de Rio Turbio, no extremo sul do continente, não só têm impedido o fechamento da mina de carvão, obrigando o Estado a reestatizar a empresa que havia sido privatizada, mas também no Congresso do Carvão propuseram um plano econômico para a bacia carbonífera, baseado na exploração da mina, com assessoramento técnico de alto nível e apoio incondicional do conjunto da comunidade de 15 mil habitantes. Esta luta está em pleno curso e representa, apesar da distância geográfica, um grande exemplo de como os trabalhadores organizados podem converterem-se em reais dirigentes do conjunto da população frente a deserção da classe dominante. Os professores de Rio Negro, também na Patagônia, foram protagonistas de uma das maiores lutas do ano, com 70 dias de duração, passeata por toda a província, encontro com outros trabalhadores e o apoio do conjunto da população, começando pelos pais de alunos que em assembléias conjuntas levaram sua luta para a própria praça de Maio em Buenos Aires.

 

HÁ LUTAS

Também é digna de orgulho a luta dos operários ceramistas de Zanón na província de Neuquén. Com um sindicato recuperado das mãos da burocracia, estão lutando para manter o controle operário da produção e são referência na região. O mesmo ocorre com os operários da construção, também em Neuquén, que lutam para derrubar a burocracia e recuperar o sindicato para a luta, como nos bons tempos. Recentemente está recobrando importância os encontros de trabalhadores das fábricas ocupadas sobre controle operário ou sobre cooperativas, experiências cada vez mais freqüentes. Isto, ainda que gere uma discussão apaixonada ao redor de qual perspectiva seguir (nacionalização, controle operário, cooperativas, etc) de maneira geral, é parte de uma rica experiência de setores da classe trabalhadora no sentido de orientar o trabalho e seu produto de maneira autônoma.

 

O DESAFIO DA CONFLUÊNCIA E A ALTERNATIVA POLÍTICA DOS TRABALHADORES

Apesar dessas expressões de organização independente da classe trabalhadora e do povo serem profundamente valiosas, não podemos perder de vista os limites e as necessidades que devemos enfrentar. Sem dúvida a primeira necessidade é estender e massificar essas experiências nos locais que não existem e ampliar suas influências nas formas de organização da vanguarda. As assembléias populares, os movimentos de desempregados e as experiências dos trabalhadores empregados são fenômenos que sem dúvida chegaram para ficar, porém representam formas embrionárias do que potencialmente podem vir a ser: organização de duplo poder em condições de disputar o poder com Estado capitalista.

Nos locais em que estas experiências se consolidaram os trabalhadores assumiram de fato e conscientemente determinadas responsabilidades sobre a vida social, abandonadas ou não garantidas pelo Estado burguês, desde a distribuição de alimentos e insumos básicos até a organização da produção e a segurança. Em Rio Turbio há uma formulação da perspectiva global de desenvolvimento da comunidade. Porém isso ocorre de maneira isolada ou minoritária e não consegue projetar-se além da localidade. Outro obstáculo é que muitas iniciativas que esses trabalhadores realizam ficam dispersas e não conseguem confluir, coordenar ou unificar-se com iniciativas similares provenientes de outros setores. Esta situação é agravada pelo papel negativo que muitas organizações políticas da esquerda cumpre, que ao invés de colocar os setores que dirigem a serviço dessa massificação e confluência, preferem o posicionamento sectário e limitado em função de seus interesses (algo que ocorre com o PTS em Zanón, em várias assembléias populares com o MST e nos movimentos piqueteiros como o PO e outros).

Essas dificuldades se repetem em torno de um dos problemas mais candentes do processo: a necessidade de que essa ampla vanguarda surgida nos movimentos sociais se eleve ao plano político e esteja a altura de apresentar ao conjunto da população uma alternativa política frente à bancarrota do país.

Isto se faz mais urgente na medida que, se essa alternativa não se desenvolve por parte dos trabalhadores, surgirá um amplo terreno para opções burguesas recicladas ou neoreformistas, expressas nas correntes de Elisa Carrió (deputada que rompeu com a UCR e formou o seu próprio partido) e na política da Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA). Esta última organizou no ano passado o Frenapo (Frente Nacional Contra a Pobreza) com participação de banqueiros, industriais, produtores agrícolas, supostamente neoliberais.

O que está em jogo é o processo revolucionário argentino. Se não se conforma uma alternativa claramente anticapitalista e antiimperialista, com absoluta independência ao conjunto do setor patronal, todo o terreno ganho pode ser perdido ou conduzido a uma derrota da classe trabalhadora e do povo.

Por isso, desde o MAS, todos os esforços devem ser pertinazes no sentido de construir, desde baixo, desde os movimentos sociais, com os ativistas, vizinhos e trabalhadores, um movimento político amplo unitário dos trabalhadores, que tenha lugar para todas as organizações sociais e políticas que estejam de acordo em levar adiante a construção deste espaço, sobre as bases de poucas, mas claras definições: Contra o imperialismo e o FMI, pelo não pagamento da dívida externa, contra os bancos, as empresas privatizadas e os grandes capitalistas, por total independência política dos trabalhadores aos patrões e seus partidos. Por uma Argentina livre da opressão capitalista.

Acreditamos que exista tanto uma enorme necessidade como um grande espaço para construir esta ferramenta que não se opõe à construção individual das organizações que a integrem. Por outro lado, o programa mínimo que propomos em pouco ou nada se diferencia do adotado nas assembléias populares, dos movimentos piqueteiros, e dos partidos da esquerda revolucionária, porém falta a confluência.

O amadurecimento político da ampla camada de lutadores surgidos antes e depois do “argentinazo”, o progresso das lutas operárias e populares e também o abandono da postura sectária das organizações de esquerda revolucionárias levarão o processo de luta de classe na Argentina a superar os perigos que o inimigo de classe representa e a enfrentar os desafios para avançar a um plano superior na luta por uma sociedade livre da opressão e da exploração.


 

 

 

 

 

 

 

Brasil


O GOVERNO LULA E A LUTA DOS TRABALHADORES


 

A eleição de Lula deve ser entendida no marco das intensas lutas que estão ocorrendo na América Latina e no mundo e da crise do modelo neoliberal no continente. No entanto, essa vitória também deve ser explicada a partir da compreensão da situação presente do país e das forças envolvidas na eleição. Assim, se combinaram dois movimentos: um a partir da classe trabalhadora, dos setores médios e explorados que, cansados de FHC e do fracasso de sua política econômica, optaram pelo que entenderam ser uma possibilidade de mudança; outro a partir da necessidade de um setor da burguesia, ligado à produção que, ainda que beneficiado pelas políticas macro-econômicas de FHC, vinham defendendo a necessidade de ajustes, principalmente no que se refere à política de juros e de câmbio, mudanças às quais Lula pareceu ser muito mais favorável do que Serra. Ainda que todo o setor da burguesia tem como único objetivo a perpetuação de seu poder, entre eles há diferenças ou interesses específicos. Assim, o setor financeiro tem interesses próprios diferentes do produtivo. Cada um exige do Estado políticas que permitam sempre aumentar seus lucros. Nessa briga, quem pode mais, chora menos.

Os primeiros movimentos do governo Lula têm sido na direção de governar para a burguesia, criando um ambiente favorável aos negócios e ao capitalismo. Isso é assim porque a lógica do sistema é a da continuidade das medidas de “reforma” no sistema capitalista, não para beneficiar os trabalhadores mas sim, para beneficiar a burguesia. E aqueles que se propõem a administrar o sistema têm que se submeter a essas normas de ferro. Ou seja, será um governo que irá frustrar as expectativas das massas trabalhadoras.

      

A CRISE DA IDEOLOGIA NEOLIBERAL E A SITUAÇÃO ECONÔMICA NA AMÉRICA LATINA

        No início dos anos 90, com a queda do Muro de Berlim, os EUA, junto com o FMI e o Banco Mundial, impuseram uma série de normas econômicas, conhecidas como Consenso de Washington, onde expressavam a necessidade dos países sub-desenvolvidos abrirem seus mercados nacionais às exportações, liberar as finanças, privatizar os serviços e empresas

 

 

estatais, flexibilizar os direitos trabalhistas, para que pudessem crescer economicamente.

Essas medidas foram aplicadas em todo o continente. 10 anos depois, o resultado está aí. Sobre a Argentina não precisamos nem falar, pois os noticiários mostram o estado de calamidade econômica ao qual chegou aquele país. O Uruguai, a mesma coisa. Um país que foi considerado até pouco tempo atrás como a “Suíça Latino americana”, hoje tem 20% de sua população economicamente ativa desempregada. Bolívia, Peru e Paraguai estão também em crise. A única exceção é o Chile, que tem uma parceria especial com os EUA e usufrui dos benefícios do NAFTA. No entanto, os trabalhadores daquele país não vivem em condições melhores do que seus irmãos latino americanos.

Mas os trabalhadores têm se levantado contra esse estado de coisas. Toda América Latina tem passado por lutas contra essas medidas de fome e miséria. E por isso a ideologia neoliberal entrou em crise. Dizemos ideologia e não as idéias econômicas neoliberais, pois essas seguem aí, ainda que mascaradas, como parte da política dos novos governantes que estão se elegendo em toda América Latina.

No Brasil vivemos a era FHC sob a chamada estabilidade financeira, onde dizem que não havia inflação, que a moeda manteve seu valor e que o poder de compra dos salários foi mantido e em alguns casos aumentado. Mas essas medidas que resultaram na chamada estabilidade financeira trouxeram custos sociais e econômicos imensos. A estabilidade foi conseguida graças à privatização das empresas estatais, do aumento do desemprego, do arrocho salarial. Mesmo assim, seguimos mergulhados na crise econômica, onde o país apresenta uma das maiores concentrações de renda do mundo, altíssimos índices de desemprego e de miséria e um baixo crescimento econômico.

A burguesia e os meios de comunicação seguem papagaiando a necessidade de “aprofundar as reformas” de “flexibilizar as leis trabalhistas” de “diminuir a presença do Estado na economia” de “manter a austeridade financeira” de “não indexar os salários”. E afirmam que  se tudo isso fosse feito, entraríamos numa fase de crescimento econômico.

Ou seja, defendem a mesma receita implementada na América Latina e que faliu todos os países da região. Defendem a subordinação da economia aos interesses do capitalismo financeiro, de onde eles tiram seus lucros, em detrimento de medidas que possam atenuar o sofrimento da população trabalhadora. isso porque o capitalismo tem uma lógica não de beneficiar a classe trabalhadora, mas sim gerar mais e mais lucros para a burguesia.

                  

O QUE REPRESENTOU A ELEIÇÃO DE LULA

A eleição de Lula ocorreu no marco dessa situação latino americana de instabilidade, de luta e de questionamentos ao modelo neoliberal. Em que pese a boa campanha de marketing do PT, o determinante para a eleição foi que o país está numa crise econômica e essa crise tem sido paga pelos trabalhadores. Esses, apesar de não estarem mobilizados como os trabalhadores na Argentina ou no Uruguai, identificaram no PT o símbolo de uma possível mudança, ainda que dentro do regime, e votaram majoritariamente em Lula na esperança de mudanças.

Nesse sentido, para os trabalhadores, a eleição de Lula foi vista como uma vitória, pois eles derrotaram o candidato do governo (Serra) e acreditaram que Lula representava a mudança, ainda que sem saber ao certo em que sentido. Assim, é fácil entender a enorme expectativa que cercou o início do seu governo, pois há uma enorme esperança em Lula. Essa “vitória” tem marcos muito definidos e, ao que tudo indica, se voltará contra os trabalhadores, uma vez que o governo Lula já disse para o que veio e mostrou qual sua disposição de seguir a obra inacabada de FHC.

Também não podemos esquecer que um setor da burguesia, descontente com a política econômica de FHC, passou de mala e cuia para a campanha do PT, pois enxergou nesse o melhor representante de seus interesses. Com seu apoio, Lula foi quebrando as resistências em boa parte do empresariado e conquistou importante apoio.

Lula se mostrou como o único que poderia levar em frente as medidas necessárias de “reformas” que FHC não conseguiu. Além do mais, a burguesia, ao notar a vitória inevitável de Lula, passou a apoiá-lo ostensivamente. Isso tem razão de ser, pois não lhe interessava vê-lo enfraquecido desde o início e deixá-lo à mercê das forças populares, como está ocorrendo com Hugo Cháves na Venezuela. A ela interessava um governo que pudesse conter o movimento de massas, manejar as situações críticas, como as reivindicações por aumento de salário, terra, etc e dar continuidade ao processo de reformas do capitalismo no Brasil, a fim de proporcionar à burguesia nacional e internacional melhores condições de obterem mais e mais riquezas, ainda que tenha que jogar sobre as costas dos trabalhadores o ônus da crise econômica. Para isso era preciso reverter o clima de pessimismo sobre o Brasil, não fazendo nada, que segundo eles, pudesse afugentar os investimentos do país. E Lula tem correspondido a isso.

Assim, para a burguesia, a eleição de Lula foi uma vitória real, pois foi eleito um governo que pode dar prosseguimento às mudanças necessárias ao sistema e, ao ter muita presença no movimento social, através da CUT, dos sindicatos e do PT, pode ser vendido como moeda de troca, pois é o único a ter controle do movimento.

Essa vitória, da burguesia, sim é real. Para os trabalhadores, eles se sentem vitoriosos por tê-lo elegido. É uma ilusão da qual não compartilhamos. Mas para a burguesia foi uma vitória desde muitos pontos de vista. É um governo que tem controle do movimento social, com experiência de movimento e de saber como neutralizá-lo (vide as prefeituras e os governos estaduais). É também um governo disposto a seguir as reformas para o capitalismo, indo onde FHC não foi, como é o caso da Reforma da Previdência.

O novo desenvolvimentismo do PT não é uma ruptura com o modelo que privilegiou o capital financeiro até agora. O que o novo governo põe em questão é como, dentro da sua proposta e da sua base de apoio na burguesia, que entrou em choque com FHC pela política de juros, o governo vai acomodar as enormes pressões do capital financeiro. A indicação do ex-presidente do Boston Bank é mostra que o setor terá seu espaço garantido. Todo o mercado financeiro aplaudiu de pé a indicação de Meirelles. O ministro da Fazenda também goza de ampla simpatia no mercado, a ponto de um analista afirmar que: “No mercado financeiro há quem pense que com cinco Palloccis podemos salvar o mundo inteiro”. (O Estado de São Paulo, 24/11). O próprio Palloci já declarou publicamente que tem “muitas coincidências “ com o atual ministro Mallan, grande mestre das receitas do capital financeiro.

 

GOVERNO LULA NÃO É DE FRENTE POPULAR, MAS UM GOVERNO BURGUÊS CLÁSSICO E DE CONTINUIDADE.

As Frentes Populares têm como questão central a formação de governos com maioria de esquerda, mas com participação de setores da burguesia. Têm como principal elemento o fato de serem produtos de crises políticas, onde o proletariado e os movimentos sociais impõem um recuo às burguesias que, para não perderem de vez o controle do Estado, abrem mão do poder político em troca de que o novo governo consiga por um freio às mobilizações. Na América latina, o melhor exemplo é a eleição de Allende no Chile, no início da década de 70.

O processo eleitoral brasileiro ocorreu dentro da normalidade. Não houve nenhum processo de mobilizações que obrigasse a burguesia a ceder parte do poder. Foi uma opção da burguesia, principalmente aquela ligada ao setor produtivo, que passou a apoiar Lula. Não podemos esquecer que dentro da própria regra da democracia burguesa está prevista a alternância de poder desde que... não se mude nada em relação aos princípios fundamentais do capitalismo, a saber, a propriedade privada dos meios de produção bem como a ordem do sistema.

Sendo a eleição no país um processo que envolveu uma eficiente campanha de Marketing, com recursos televisivos de altíssimo nível, aliada ao nome de Lula, sua trajetória etc, não fica difícil entender por que ele foi eleito. Mas em nenhum momento podemos afirmar que sua eleição é a eleição da Frente Popular.

Isso não quer dizer que esse governo não tenha bases nos setores organizados nem tampouco de que seja uma fortaleza invencível. E muito menos que a eleição de Lula é fruto de uma crise do regime democrático burguês brasileiro. Muito pelo contrário. A sua eleição não só é uma demonstração de que esse regime está forte e consolidado, mas que também reforça a  ideologia da democracia burguesa como valor universal, que através do voto é possível mudar, etc. etc.

Dessa forma a eleição de Lula não é produto de lutas do movimento de massas que botaram em crise a burguesia e seu regime e, como última saída, permitiu a eleição de uma frente popular, mas sim  de um processo eleitoral controlado e dirigido pelo aparato da burguesia dentro das pautas e regras estabelecidas pela própria burguesia. Lula foi uma opção da burguesia, também porque conta com o apoio de setores organizados e isso pode facilitar a aplicação dos planos políticos e econômicos.

 

O CARÁTER DE CLASSE DO PT

Outra questão que não corrobora a tese da Frente Popular é o caráter de classe do PT. O PT surgiu das lutas da classe trabalhadora do final da década de 70. Tinha um programa, que mesmo não sendo socialista, respondia às aspirações e as necessidades da classe trabalhadora naquele período. No entanto, o PT cresceu e se adaptou ao aparato do Estado Brasileiro. Assim, passou a dirigir várias prefeituras, a ter muitos cargos no parlamento, a ser governo em estados importantes. Com isso se adaptou ao sistema capitalista.

Essa adaptação ocorreu em todos os sentidos, desde a sua direção, programa e estrutura. Não podemos dizer mais que o PT é um partido operário sequer pela sua base, pois esse não tem mais um funcionamento como antigamente, onde as bases podiam, de certa maneira, influenciar nos destinos do partido. Hoje se transformou num grande aparato que gira ao redor de cargos parlamentares e de funcionários burocráticos que nada têm haver com a classe operária ou seus interesses, ainda que fossem reformistas.

A partir de 89, com a aceleração da mundialização do capital e a crise da ideologia socialista causada pela confusão entre a queda do stalinismo ( Muro de Berlim ) e a falsa idéia da morte do socialismo, podemos afirmar que encerrou-se o período de reformas que foi possível desde a Segunda Guerra Mundial. O capital não pode mais conceder benefícios reais e duradouros. Sua linguagem passou a ser unicamente a enganação e a repressão.

O reformismo social democrata, que defendia a mudança social a partir de reformas e promoveu o estado de bem-estar social na Europa após a Segunda Guerra, passou de malas e cuia para as teses e programas do capitalismo financeiro. Todas as correntes reformistas caíram na mera defesa da governabilidade e na frase pisada de que “não há alternativa ao capitalismo”, que devemos apenas lutar para “humanizá-lo”, por uma “globalização menos injusta”. Quando chegam ao poder passam rapidamente ao discurso de que “não há outro jeito” e seguem o mesmo receituário dos seus antecessores. Os governos Mitterrand (França), Filipe Gonzalez ( Espanha ) e Tony Blair ( Inglaterra ) são a prova cabal disso, ainda que possa haver uma ou outra medida de reforma.

Assim, esses partidos passaram a responder outras demandas que não as da classe trabalhadora. Passaram a se candidatar e se credenciar para gerir o capitalismo em sua fase de crise crônica. Passaram a impor planos de austeridade que resultaram no desemprego e na miséria de milhões de trabalhadores. Não se tratava mais de simples traições da luta de classes, mas sim de que eles passaram para um outro campo de classe.

O PT aproveitou essa situação e procurou se consolidar enquanto um partido da ordem, completamente institucionalizado, tendo como centro a crítica ao neoliberalismo, à globalização e aos excessos do capitalismo selvagem. Passou a colocar como saída um “capitalismo humanizado”. Na verdade se somou a outros setores, como a igreja (com o papa pousando de “antiliberal”), outros aparatos políticos e sindicais (social democracia, stalinistas puros e reciclados), inclusive setores da burguesia, aqueles que foram prejudicados pela hegemonia imperialista ou aqueles que só existem nos países pobres.

Mesmo tendo no governo membros que são oriundos do movimento social, isso não é suficiente para se caracterizar o novo governo de outra forma que não como um governo da burguesia para a burguesia.

O PT e Lula romperam há muito a barreira de classe. Lula não é mais nosso companheiro. É o governo da burguesia. Lógico que essa mudança é uma derrota para os trabalhadores e a burguesia usa muito bem essa mudança dizendo que o radicalismo era coisa de quando o PT era jovem e que, quando seus dirigentes adquiriram a maturidade ficaram responsáveis  e estão prontos para gerenciar seus negócios.

O alinhamento do PT às instituições da democracia burguesa tem explicação na combinação de fatores objetivos e subjetivos. Pelo lado objetivo, de pressões políticas econômicas da burguesia através do parlamento, mídia e cargos no aparato estatal e pelo lado subjetivo, do afastamento da realidade de como os trabalhadores vivem e de suas necessidades, deixando-se influenciar pela ideologia burguesa de que só existe o sistema capitalista e que o socialismo não é mais possível.

Não há como chamar o governo Lula/PT senão pelo seu nome verdadeiro: Um governo burguês clássico, ou na pior das hipóteses de burguês-reformista sem reformas...

 

E POR QUE DIZEMOS CONTINUIDADE?

Primeiro por que, desde a campanha eleitoral, todos os esforços de Lula foram no sentido de se mostrar “responsável” perante o capital. Lula se preocupou em mostrar-se um estadista responsável, que não iria quebrar os contratos (leia-se irá continuar pagando a dívida externa), nem promover mudanças nas políticas econômicas adotadas até o momento. Após a eleição apoiou o aumento das taxas de juros que geram mais desemprego e recessão.

Segundo, por que a escolha dos ministros, principalmente os ligados à área econômica, foi feita entre representantes do grande capital, além da escolha do presidente do Banco Central que foi, nada mais nada menos, que o presidente mundial do Banco de Boston. Esse senhor, legítimo representante do capital financeiro, decidiu manter toda a antiga diretoria do Banco Central. Isso sem contar os secretários, que tem sido escolhidos de dentro do atual governo FHC.

Terceiro, o PT e Lula já têm se pronunciado contra aumento de salários para os trabalhadores pois “isso gera inflação”. Esse tipo de afirmação costumava sair da boca dos ministros de... FHC. No entanto, quando foi para aumentar o salário dos deputados, votar a manutenção da alíquota do imposto de renda em 27,5 %, o PT e Lula se pronunciaram a favor e votaram a favor. Ou seja , igualzinho a FHC.

Essa continuidade tem uma explicação. Nós, do Espaço Socialista, que chamamos a votar nulo nos dois turnos das últimas eleições, acreditamos que, qualquer que fosse o governo eleito, essas medidas seriam tomadas. Pois trata-se de uma pauta imposta pelo estágio atual do capitalismo a todos os governantes, sejam eles de direita ou de esquerda, em todo o mundo. Ou aplicam os planos econômicos do imperialismo, seguindo os conceitos do Consenso de Washington ou caem fora, por bem ou por mal. E no Brasil não será diferente. O PT se subordinou às ordens do capitalismo para conseguir se eleger. Esse foi o preço que eles aceitaram pagar. Agora estão sendo cobrados. E pretendem impulsionar já no primeiro ano de mandato medidas que vão prejudicar justamente aqueles que os colocaram no governo.

 

SOMOS OPOSIÇÃO A TODO E QUALQUER GOVERNO BURGUÊS

Sem romper com esse ciclo de dominação e exploração não há como enfrentar qualquer um dos graves problemas que afetam hoje aos países da América Latina e do mundo inteiro. Ao se colocar como gestor das contradições capitalistas, o PT já definiu de que lado está (do lado do capital) e também quem serão seus inimigos: os movimentos que ousarem interferir no direito de propriedade burguesa ou na ordem de reprodução do capital - como os trabalhadores sem-teto da Ocupação Carlos Lamarca, que foram desalojados de Guarulhos (SP) pela Tropa de Choque a mando do Prefeito Elói Pietá (PT).  

Por isso somos oposição ao governo Lula e chamamos a não confiar nesse governo e em nenhum outro.

Temos que defender a total independência das organizações de trabalhadores, dos explorados e dos estudantes frente ao governo e denunciar os dirigentes que querem atrelar os sindicatos e centrais sindicais  ao governo. Temos, acima de tudo, que impulsionar a auto-organização e auto-atividade da classe trabalhadora e das massas exploradas, que não se submetam ao estado a aos partidos, que ajam segundo seus interesses e não segundo os interesses daqueles que se perpetuam no poder desde sempre. Só assim teremos condições de enfrentar os ataques de qualquer governo, seja ele de direita ou de esquerda.

 

CONSTRUIR UM PROGRAMA ANTICAPITALISTA NAS LUTAS

A partir dessa situação, as questões sociais relevantes só podem ser solucionadas com o enfrentamento à própria lógica do capital (lucro) e isso só pode ser feito por um processo de lutas dos trabalhadores que se proponha a apresentar uma alternativa própria ao funcionamento da sociedade capitalista, uma alternativa socialista. Essa alternativa deve ser construída desde já, a partir da luta pelas questões concretas que nos afetam cotidianamente.   

      

NEHUMA TRÉGUA E NÃO AO PACTO SOCIAL. Desenvolver a Luta Direta!  

Por isso caracterizamos que teremos uma dura luta pela frente. Não podemos nos deixar iludir pelo charme ou pelo marketing do PT e de Lula. Não podemos dar trégua alguma a um governo que se propõe fazer a reforma da previdência e prejudicar os trabalhadores, a manter o arrocho salarial e continuar pagando a dívida externa e interna. Temos que ser contra qualquer proposta de pacto social e de negociação que sejam perniciosas aos trabalhadores.

Como falar em trégua, sem aumento de salários, se antes já aumentaram todos os preços? Como falar em pacto social se os capitalistas já demitiram milhões, precarizaram o trabalho nesses últimos anos e vão continuar sua ofensiva contra o emprego, mesmo que todos os direitos sejam retirados da CLT? Se nesse e nos outros pactos, só nós é que sempre perdemos? Como pode haver pacto social entre as classes, se a preservação do domínio do capital – cujos representantes são os empresários - depende do aumento da nossa exploração? Sem enfrentar a causa dos problemas sociais, que é justamente a exploração capitalista, não há como resolver nenhum dos problemas sociais.   

 

A BALELA DO COMBATE A FOME E AO DESEMPREGO

Por mais que se fale em combater a fome, tudo cai em jogadas de marketing e assistencialismo. A fome não será eliminada, no máximo amenizada temporariamente, pois suas causas estruturais não estão sendo atacadas. Ao contrário. As próximas medidas, já apontadas, vão no sentido de aumentar a concentração de renda e a pobreza:

- A Reforma da Previdência - que pretende dificultar ainda mais a aposentadoria, diminuir o teto de benefício dos aposentados e estabelecer a contribuição dos inativos.

- a Reforma da CLT, que vem para  desregulamentar uma série de direitos que ainda possuímos (como a multa de 40% sobre o FGTS, 13°, férias, adicionais, etc)

- Reforma Tributária - que pretende retirar impostos dos grandes grupos exportadores e aumentar os nossos.

O mesmo pode se dizer da promessa de criar 10 milhões de empregos, através de um novo ciclo de crescimento brasileiro puxado pelas exportações.

Diante da crise da super-produção estabelecida, uma crise de excesso de mercadorias e capitais - não em relação às necessidades humanas, mas relação a quem pode comprar, quando os mercados já não se expandem mais para receber as mercadorias produzidas por tanta tecnologia; diante do lento crescimento da economia mundial e do aumento do protecionismo comercial adotado pelos países ricos, a promessa de crescimento econômico e do aumento das exportações se mostram utópicas.

Se os EUA estão querendo impor a ALCA para desaguarem aqui os seus produtos e capitais, se a própria FIESP já fez um levantamento de que a ALCA irá trazer o fechamento de muitas empresas, se o governo Lula já disse que não é contra a ALCA,  mas vai “negociar” como imaginar que essa negociação diplomática frente aos EUA possa ser vantajosa para o Brasil, dentro da atual relação de mercado?

Por outro lado, o aumento da tecnologia é incentivado e utilizado pelos grupos transnacionais para economizar mão-de-obra, ou seja desempregar cada vez mais.

Sendo assim torna-se uma farsa a promessa de gerar 10 milhões de empregos em 4 anos, assim como acabar com a fome no país, obedecendo às regras do jogo capitalista.

 

REDUÇÃO DA JORNADA DE TRABALHO

Para acabar com desemprego, impedindo as demissões e criando novos postos de trabalho, unindo empregados e desempregados, é preciso desenvolvermos uma grande campanha por uma redução radical da jornada de trabalho semanal em nível nacional, sem perda nos salários, em que o trabalho seja dividido entre todos, segundo um plano e uma organização definida pelos próprios trabalhadores. Essa é a única maneira de fazer frente ao aumento da tecnologia, impedindo que continue sendo utilizada para aumentar o lucro dos patrões e o nosso desemprego.

 

SALÁRIO MINÍMO DO DIEESE

Em relação aos salários, precisamos retomar a bandeira de reposição das perdas salariais e de um salário mínimo suficiente para a alimentação de uma família (mínimo do DIEESE). Não podemos deixar que nosso poder de compra seja destruído em nome do falso argumento – agora também utilizado pelos governos do PT – de que “reposição de perdas salariais gera inflação” (e quem gerou a perda salarial?). Enquanto continuamos com os salários congelados, a inflação vai aumentando do mesmo jeito, revelando ser mais um truque dos empresários para iniciar o novo governo já com os preços lá em cima e os salários lá embaixo, para agora vir falar de pacto social...

 

NÃO PAGAMENTO DA DÍVIDA EXTERNA

Quanto à saúde e à educação, não há como superar anos de abandono mantendo a submissão ao FMI. Precisamos retomar a campanha pelo NÃO PAGAMENTO DA DÌVIDA EXTERNA E INTERNA. É preciso romper com o FMI e com essa agiotagem da dívida, e aplicar os bilhões de dólares dos juros anuais na melhoria dos serviços públicos. Essa é a única forma de acabarmos com as “filas da morte” nos hospitais públicos e com a aprovação automática sem nenhuma aprendizagem nas escolas públicas, construindo mais e melhores hospitais, escolas, re-abrindo as salas de aula fechadas, contratando mais professores, etc

 

REFORMA AGRÁRIA

Outra luta importante é por uma Reforma Agrária radical e a única maneira de realizá-la é continuar com as ocupações, como a experiência do movimento já provou. Também não se trata somente do assentamento dos trabalhadores sem-terra, pois hoje com a grande produção mecanizada, as condições de concorrência no mercado levam à quebra dos pequenos produtores. Por outro lado, a existência de propriedades cada vez maiores, sob a lógica capitalista, e em base à monocultura, são prejudiciais ao solo e muitas estão utilizando-se dos transgênicos, sem nem mesmo saber as consequências para o futuro.

Por tudo isso, é necessário colocar como objetivo que as grandes propriedades e agro-indústrias – localizadas nas melhores terras – sejam também transformadas em propriedade coletiva e colocada sob gestão dos trabalhadores, única forma de rediscutir novos critérios de produção que levem em conta as necessidades da população, o melhor aproveitamento do solo e a segurança quanto às novas biotecnologias.

 

MORADIA PARA TODOS

Continuar com as Ocupações de Áreas Urbanas é a única forma de obter a desapropriação de áreas e a construção de moradias para os trabalhadores sem-teto, pois quase todas as áreas urbanas já foram griladas por especuladores e empresas que agora ganham bilhões com a valorização dos terrenos ou construindo condomínios luxuosos e espaçosos para uma minoria enquanto a maioria fica amontoada nas favelas, nas ruas, embaixo de pontes, viadutos.

AMPLIAR A LUTA CONTRA O ALCA

Vinculada a essas questões deve estar uma postura muito clara de levarmos uma luta continental contra o ALCA, pois é o principal projeto de recolonização dos EUA para a América Latina. Ao mesmo tempo, é uma bandeira que pode servir para desenvolver uma resistência unificada continental. Com isso, podemos desenvolver os vínculos e a unidade necessária para enfrentarmos juntos os desafios colocados para os explorados deste continente e irmos construindo a resistência direta e global ao capitalismo e ao imperialismo.

 

A LUTA CONTRA O CAPITAL É GLOBAL

Os problemas enfrentados por nós são os mesmos dos trabalhadores dos outros países.    Nas condições atuais, do capitalismo mundializado, é mais necessário ainda que essas bandeiras e ações sejam levadas a cabo numa região cada vez mais ampla e de forma coordenada, expandindo-se num processo latino-americano e mundial de enfrentamento anticapitalista e anti-imperialista.

Para isso, é necessário desenvolvermos uma rede de movimentos e agrupamentos anticapitalistas e/ou socialistas em nível de toda a América Latina e do mundo. Essa é uma tarefa urgentíssima, para que possamos empreender ações unificadas e a construção através do debate e da experiência de uma alternativa programática que possa se constituir numa referência para todos os ativistas e movimentos que já enfrentam a dominação do capital no seu cotidiano e que buscam um referencial maior de organização e um objetivo estratégico.

 

UM OUTRO CAMINHO É POSSÍVEL: A LUTA ANTI-CAPITALISTA E PELO SOCIALISMO

Retomar e atualizar a ofensiva socialista, superando o capitalismo que está nos levando à barbárie. Lutar até que os modernos meios de produzir e distribuir a riqueza social (fábricas, terras, bancos, hiper-mercados, etc) sejam expropriados pelos trabalhadores e transformados em propriedade coletiva sob gestão direta de suas organizações de base, planificando e re-orientando a  produção social para as necessidades humanas, eis aí o maior desafio de todos. Uma sociedade socialista.

 


 

 

O INCONSCIENTE EQUÍVOCO DOS JOVENS COMUNISTAS, ANARQUISTAS E FEMINISTAS...

Carlos Wellington - estudante – ABC/SP

 

“É certo que a mudança das mentalidades demora algumas

vezes mais de 100 anos para se concretizar,

mas isso não importa, desde que se abra um

espaço definitivo para autonomia de homens e mulheres”

(Regina Navarro Lins)

 


Algo que os jovens comunistas, anarquistas e feministas desesperadamente não podem encarar é o fato de que as sociedades auto-afirmativas produzem gerações de pessoas auto-afirmativas. Essas sociedades auto-afirmativas são, essencialmente, coordenadas por indivíduos auto-afirmativos.

Um sistema de vida agradável não pode ser proposto revolucionariamente estando os jovens propositores "gozando" de uma vida basicamente negativa. Se isso ocorre o modo de vida regressa sempre ao negativismo, na forma mais violenta e mais bárbara da qual a revolução procurou fugir.
Muitos jovens comunistas e anarquistas encaram o capitalismo com clareza, mas com os olhos blindados. E muitas coisas que os jovens socialistas, comunistas, anarquistas e feministas sustentam contra o capitalismo são verdadeiras.

No entanto, existem duas verdades incontestáveis que tais jovens não assumem: a liberdade pode e deve ser maior do que atualmente "desfrutam" e que estão longe de conseguir tolerar, uma liberdade maior do que a que “desfrutam”. O que se tornou uma tapeação é aceito como real pelos próprios jovens "revolucionários" e "libertários". Em contraste com esta constatação está o fato de que quando o assunto ("liberdade", "personalidade", "felicidade", "gratificação", "libertários (!)", "livre escolha (!)", etc...) é empregado por esses jovens "revolucionários" tem um forte acento de ironia.

Na verdade esses jovens comunistas, anarquistas, feministas estão condicionados a espaços bem menores do que os “oferecidos” pelo capitalismo. Ou seja, poderiam se descondicionar bem mais se pudessem tolerar um pouco mais de           liberdade.

Parece mesmo difícil pra esses jovens "revolucionários, tolerar a liberdade que já existe! Infelizmente, o ligeiro verniz de liberdade no capitalismo liberal, representa tudo quanto os próprios jovens “revolucionários" podem "desfrutar". Imaginem então a situação das vastas massas!

Uma liberdade maior que essa, exige dos jovens "revolucionários” maior senso de responsabilidade pelos seus próprios destinos. E isso acaba por reduzir os jovens "revolucionários" a verdadeiras ruínas nervosas. Então eles a rejeita.
O erro trágico que os jovens anarquistas, comunistas e feministas cometem por não compreenderem o fato, naturalmente porque não podem fazê-lo, nos conduzirá a uma sociedade também autoritária.Uma sociedade economicista e pior, muito pior que isso: Com o mesmo modelo de família há muito  já dilacerada. Uma família baseada numa extensa violência psicológica de codinome monogamia. Uma farsa que até reacionários burgueses            falam contra: "A monogamia é uma violência, ela é antinatural. Vê-se muito pouco dela na natureza“ (Ciro Gomes, PPS).
Tal erro levará na práxis ao combate, com unhas e dentes por eles próprios, à liberdade pela qual aparentemente anseiam!

A marca registrada de revolucionários blindados não permite que tolerem nenhum movimento de expansão que supere a forma pueril e inexpressiva da desumana sociedade burguesa. Sociedade desumana, com valores desumanos e mesquinhos, mas na qual se apegam, como os mais inseguros filhos da classe média se       apegam aos seus      pais.
Os jovens revolucionários estão longe de conseguirem tolerar um movimento de expansão ou de liberdade autentica. O que podem ainda tolerar é um movimento em proporções extremamente limitadas. Isso porque ainda são capazes de tagarelar bonito como os anarquistas “libertários”: "O que desejamos é uma sociedade que afirme a liberdade de espírito, uma sociedade que facilite o amor, a ternura e a comunicação com a natureza. Uma sociedade que permita realmente que cada um faça o que quiser".

 

De fato, parecem convencidos de pertencerem a uma espécie diferente, de serem capazes de adotarem um novo modo de vida e, de algum modo, criarem uma sociedade mais feliz e afetuosa. Acreditam realmente que são mais saudáveis que a geração que os gerou. Acreditam que são sexualmente livres. Julgam-se capazes de amar e de sustentar uma sociedade baseada no amor.
Na práxis, é isso que vemos? Não.

De tão blindados que estão não conseguem enxergar que, por exemplo, as anarco-punks são, no aspecto sexual, mais conservadoras do que as estudantes do colégio  de freiras!   

Se nesse aspecto mais simples da vida  os jovens revolucionários não são auto-afirmativos, são em qual? Já que, ao contrário, a sexualidade de amplos setores das massas é menos raquítica que a dos jovens anarquistas, comunistas e feministas.     
Se ocorrer uma "revolução" proposta por esses jovens basicamente negativos, será uma porcaria! Esses jovens serão um pelotão de neuróticos.

Ao se reprimirem sexualmente, adquirem-se deformações anti-sociais, e criam-se seqüelas que vão se alargando a medida que os indivíduos reprimidos vão se defrontando com novas interdições sociais. Essa repressão aleija psiquicamente os indivíduos, bloqueando-os em suas manifestações criativas e afetivas, e dotando-os de uma estrutura mental de vassalo. Isso explica a atitude monogâmica, que é baseada na insegurança, no         medo, no esquisitíssimo apego.
Qualquer indivíduo sem a blindagem, não pode acreditar numa revolução proposta por jovens com uma esquisitíssima "personalidade monogâmica".

Infelizmente os conservadores idiotas liberais, que pensam com o coração, porém sem a razão, estão mais perto da verdade autentica sobre a condição humana do que  um jovem anarquista, comunista ou feminista incrivelmente lúcido que, aparentemente, vê a        humanidade na forma que    ela      é.
Vejamos o que temos encontrado nos meios de comunicação reacionários,  uma verdade que está longe de ser aceita, tanto na prática como na teoria por aqueles que se denominam libertários, como também, por aqueles jovens que se denominam comunistas. Sem nos esquecer das jovens feministas:

1) Edição de um domingo do reacionário jornal Diário do Grande ABC por Rosangela Espinossi – da redação: A sexualidade no limiar do séc. XXI. "Uma pesquisa realizada na região da grande São Paulo revelou que 66% dos homens casados e 55% das mulheres casadas já pensaram ou pensam em ter outro parceiro sexual. Estranho é ficar com uma pessoa e não ter vontade de se relacionar com outra, em nenhum momento, durante o período de duração da relação. Essa idéia de que um é propriedade do outro tende a acabar com o decorrer dos anos. É exatamente para este ponto que a meu ver, as atenções vão se voltar neste terceiro milênio. Haverá os prós e os contras, os que seguirão por outro caminho. A decisão é pessoal e intransferível. Só não dá para pensar no séc. XXI como se   pensava até meados do        séc.    XX."
    2) Matéria publicada em um outro Domingo, e do mesmo veículo reacionário de comunicação por Cristiane Ferreira - da redação. Casamento na corda bamba.”É importante cada um saber desenvolver sua capacidade de ficar bem com alguém, sem institucionar a relação. Uma relação não se deve dá por dependência, e, sim porque o convívio é bom. Um dos principais motivos para as pessoas continuarem solteiras é a preservação da sua liberdade. Elas não querem se amoldar       ao       outro. É preciso acabar com a cobrança de fidelidade. Isso não é natural. É limitador e faz com que as pessoas carreguem no relacionamento um fardo pesado. Não se deve fazer sacrifícios pelas relações, pois o direito de ir e vir deve        ser      respeitado".
     Na condição de um revolucionário que deixou sua comodidade (?) para tornar-me mais autentico (isso é incomodo, mas arrisco ser rejeitado mantendo minha libertária posição. Mesmo que para isso precise arcar com mais dores sendo eu contra o sacrifício) sinto-me frustrado com essa revolução fictícia que pretendem os jovens anarquistas, comunistas e    feministas.
Essa revolução é uma fuga da prisão mal planejada e condenada ao fracasso. Pois, o estudo da formação da estrutura mental autoritária dos indivíduos, e do seu papel na sustentação dos sistemas de dominação está abandonado, restando-nos uma psicologia e uma psicanálise integrativas que são mais preocupadas em adaptar os indivíduos ao “status quo” do que em      conscientizá-los.
    A atividade monogâmica por parte de jovens que supostamente são libertários, ou comunistas demonstra um forte apego à situação vigente ou às normas conhecidas, em face ao pavor de novas situações, quando uma situação de instabilidade precária poderá levar esses supostos jovens revolucionários, a se  sentirem desamparados. Uma situação monogâmica garante uma certa estabilidade.

Os adeptos da monogamia, em sua esmagadora maioria, são jovens que têm medo da democracia ou de situações de mudança nas regras do jogo sem papéis fixados, enfim      são pessoas  que temem a vida.
    O amor é ausência de engarrafamento. É a própria sensualidade. É a própria vida dos supostos jovens revolucionários, que está escapando. Imaginem mudando a sociedade como um          todo!
Não é muito animador lutar por uma sociedade que, a julgar pela práxis sexual raquítica dos jovens libertários e comunistas, já nasceria morta. Essa sociedade  seria a sociedade         da       sexualidade burguesa           sem            burgueses!
Na bíblia "sagrada", no velho testamento (livro do Êxodo), encontramos o seguinte: "Tu não cobiçarás a casa do teu próximo, nem a sua mulher, nem seu servo, nem sua serva, nem seu boi, nem seu asno; nada do que lhe pertence"

A posição da mulher nessa lista fica bem clara: Primeiro, ela pertence ao homem, assim como o boi e o asno; e segundo, em matéria de importância só está um pouco acima     destes.
As feministas revolucionárias estão certas, ao colocar,  que  “o que faz o violador ser punido, de acordo com a interpretação dos códigos, não é o ataque contra a mulher, mas sim o fato de que ele atenta contra um direito fundamental: o direito à propriedade”.

   A ordem social patriarcal supõe uma repartição relativamente eqüitativa das mulheres. Neste sentido o violador ameaça a ordem social, porque ameaça   a         propriedade de outro!
Gramsci dizia que "enquanto a mulher não tiver atingido uma real independência frente ao homem, e um novo modo de conceber-se a si própria e à sua participação nas relações sexuais, a questão sexual permanecerá plena de aspectos mórbidos... A questão ético-civil mais importante é a formação de uma nova personalidade feminina...”
    Enquanto isso não ocorre com as raparigas libertárias (?), as raparigas comunistas (?), e as raparigas feministas; ficamos todos, ou quase todos, "funcionando" via álcool, "ervas medicinais", com "amor exclusivista", quebrando Mc Donalds, provocando a polícia estando em menor número, vivendo alucinações com Skinheads ausentes, vendo raparigas, supostas libertárias, esbanjando sensualidade nas vestimentas com atitudes de garotas virgens que tem medo de sexo, e diversas outras esquisitices que se observa nos jovens libertários, comunistas e feministas.

E por falar em esquisitice, vocês sabiam que danças e festividades geram tensão sexual? Então porque que não se verifica uma descontração depois, numa atividade cultural? Cultura de quem? De jovens comunistas e também            de libertários!

    O conservadorismo das raparigas revolucionárias é tanto que até reportagens da mais reacionária de todas as revistas do planeta Terra serve pra         ajudá-las: Revista Cláudia - 479 - edição    de       Agosto. O      sexólogo         burguês,        internacionalmente conhecido Oswaldo Rodrigues, coloca o seguinte sobre a crise da libido na mulher:
 "A mulher precisa se sexualizar. Quer dizer, incluir no cotidiano coisas relativas a sexo: se dar o direito de ficar pensando em sexo durante o dia, de conversar sobre isso de maneira direta. Sai ganhando aquela que  se permite revelar os próprios desejos, executar jogos eróticos e viver, de fato, a sexualidade.   É preciso ter desejo genuíno. A inibição do desejo é grande no mundo ocidental. Está entre 40% e 60% em populações masculinas  e femininas. Tem origem cultural. Com a inibição o sexo deixa de ser tão importante.

Para uma grande parte das pessoas, a diminuição do desejo não é tão angustiante ...Você passa um mês sem sexo, dois meses...e acha que não é tão importante assim. Mas a baixa freqüência influencia a qualidade de vida, mesmo que a pessoa não perceba. Sexo traz bem-estar, satisfação; é  um meio de comunicação entre as pessoas. Vida sexual ativa não faz falta exatamente. O que faz falta é o prazer. E o prazer sexual é de graça, você não precisa gastar nada com ele. O problema da sexualidade feminina é emocional e social por isso é difícil achar alguma pílula que possa ajudá-las. A maior causa das dificuldades femininas é estar disponível para o sexo, querer de verdade, sem tabus.     

A  mulher precisa resolver isso antes de pensar em usar uma pílula para agir no seu            cérebro”. 
Eu penso que a maior parte da culpa do caos emocional se encontra com as raparigas revolucionárias, com sua frigidez camuflada numa atividade sexual pra lá de raquítica. Elas se apegam a moralidade burguesa como a Igreja se        apega à perseguição da       sexualidade!
Acredito que rapazes e raparigas com consciência de classe, devam conviver em boa camaradagem sexual e intelectual.


 

"Se procurar bem, você acaba encontrando

 não a explicação da vida

 mas a poesia da vida”.

 (Carlos Drummond de Andrade,         Lembrete)

        

                           "Eu queria fazer uma revolução

pra   gente     se divertir...”

(D. H. Laurence.)

 

 

 

“NOVA ORDEM MUNDIAL”: GUERRAS E GENOCÍDIOS                        Zé Alemão – estudante da FDSBC

 


Com a invasão do Afeganistão e os preparos para o ataque ao Iraque, a indústria de guerra norte-americana teve um aumento em sua receita de aproximadamente 10% no período de um ano (cerca de 14 bilhões de dólares) e uma expectativa de gerar mais de 5 mil empregos anuais num período de 5 anos.

Em Wall Street, os papéis da TRW subiram 75%; os da Northrop 55% e os da Raytheon 30% . Isto sem falar na Boeing e na Lockheed Martim, fiéis fornecedoras do Pentágono.

Sem dúvida que a guerra é um grande negócio, que unifica democratas e republicanos em torno da proposta de atacar o Iraque defendida por Bush.

Por que o Iraque, um pequeno país no sudoeste da Ásia, foi eleito o alvo principal da intervenção militar imperialista?

As razões são evidentes: do ponto de vista militar, a região é uma plataforma que possibilita uma eventual ação militar na Europa como na África, no Sudeste Europeu - na direção das antigas repúblicas soviéticas -, como na Ásia Central e Oceano Índico. Na geopolítica da “Nova Ordem Mundial”, submeter o Iraque tornou-se fundamental para a consolidação das posições militar, política e econômica dos imperialistas americanos no Oriente Médio.

Além disso, o Iraque concentra importantes reservas petrolíferas, em condições mais acessíveis e, portanto, mais baratas. Retardar ou impedir as exportações do petróleo iraquiano, que provocariam uma queda dos preços no mercado mundial, tornou-se obsessão dos grandes monopólios do petróleo - empresas americanas e inglesas (as mesmas que financiaram as campanhas dos Bush`s).    

Por fim, talvez seja importante para o “império do mal” uma dose de ideologia e cultura demonizante frente à expansão Islamismo, que questiona as matizes ideológicas da globalização vinda do ocidente.

Por tudo isso e em respeito, solidariedade e defesa do povo iraquianos, descreveremos um pouco da história daquela pátria.

      

Iraque: Que país é esse?

As civilizações da antiga Mesopotâmia prosperaram sobre a fertilidade dos rios Tigre e  Eufrades. A região abrigava, cinco milênios antes de Cristo, os acádios e sumérios, que por volta de 4.000  a .C. fundiram-se, dando origem à antiga Babilônia.

Posteriormente foi subjugada pelos assírios e caldeus, quando ganha status de centro comercial e cultural do mundo antigo.

Foi incorporada à pérsia em 538 a.C. e, posteriormente, pelos gregos em 331 a.C. Depois vieram os romanos.

Após o jugo romano, foi dominada pelos árabes, que fundaram um vasto império nos séculos VIII a IX de nossa era.

Em 762, os árabes fundam, nas proximidades das ruínas da antiga Babilônia, a cidade de Bagdá, irradiadora da religião islâmica, da cultura e idioma do império.

Em 1258, invadido pelos mongóis, o império árabe foi saqueado e fragmentado.

Conquistada pelos turcos no século XVII, a região foi integrada ao império otomano no século XVIII, permanecendo sob seu domínio até o século XX.

O período entre 1800 a 1923 assistiu a fragmentação do império otomano e sua substituição pela ocupação geopolítica do imperialismo colonialista europeu.

No início da 1ª Guerra Mundial, forças anglo-indianas invadiram e dominaram a Mesopotâmia e, em abril de 1920, em São Remo, a Conferência dos Aliados transfere para a Grã-Bretanha o “mandato’’ sobre a região do Iraque e da Palestina.  

Seguiram-se revoltas e movimentos nacionalistas de diferentes intensidades em todo o mundo árabe e em 1921, as antigas províncias de Basra, Bagdá e Massul são unificadas como reino sob a monarquia hachemita e o domínio inglês.

O Iraque nasce sob o jugo da Liga das Nações, que coloca o novo país sob a tutela política e militar da Inglaterra. Instala-se no trono o filho do xerife de Meca, Faisal Ibn Hussein, cujo irmão, Abdullah Ibn Hussein, torna-se, no mesmo período, o Emir da Transjordânia (atual Jordânia), também sob controle britânico.

A 18 de outubro de 1927 é descoberto petróleo no Iraque.

A Inglaterra reconheceu a independência do Iraque através do tratado de 1932, mantendo amplos privilégios militares e econômicos no país, notadamente na exploração do petróleo, cujo valor assumira novas dimensões com a crescente demanda para mover as máquinas de guerra e as indústrias.

Durante a Segunda Guerrra Mundial, Rashid Ali assumiu o poder, mas o país foi de imediato invadido pelos ingleses que o destituíram, alegando uma tentativa de governo pró-nazista.

Em 1945, o Iraque começou a fazer parte da Liga Árabe, participando da primeira guerra árabe-israelense de 1948.

Dez anos depois, a monarquia é derrubada por um golpe militar nacionalista. O rei Fasal e seu tio Abdul Ilah são metralhados durante a tomada do palácio em Bagdá. Uma comissão provisória proclamou a república e o general Karim Kassem presidiu o primeiro governo, que iniciou uma política de neutralidade que não foi aceita pelas potências ocidentais.

Nos anos seguintes a agitação foi contínua, com pressões políticas internas e externas, golpes e contragolpes sucessivos. Cresce a influência do Partido Socialista Árabe – Baath, que defende a união de todos os povos árabes numa única nação.

Em 1961 é aprovada uma lei que limita os direitos das empresas petrolíferas estrangeiras.

Karim é derrubado e fuzilado em 1963, num golpe militar apoiado pelo  Baath, que se torna partido único em 1968, assumindo o poder o general Ahmad Hassan Al-Bakr, que tinha como vice-presidente Saddam Hussein.

Em 1972 o petróleo é nacionalizado.

O vice-presidente amplia sua influência no decorrer da década de 70, assumindo a presidência em 1979, por meio de um golpe.

 

História recente: o genocídio de um povo legitimado pela ONU

Em 1980, Saddam Hussein declara guerra ao Irã, alegando que a presença iraniana no canal de Chatt-el-Arab (onde ficam as reservas de petróleo iranianas) era ilegal.

Recebe o apoio das potências ocidentais, EUA, URSS e dos estados árabes conservadores, todos temerosos que a revolução islâmica xiita se expandisse para outras regiões do Oriente Médio e repúblicas soviéticas da Ásia Central.

A população xiita se uniu, retomou posições ocupadas e invadiu o Iraque em 1982. A guerra alastrou-se em todo o Golfo Pérsico, comprometendo as exportações de petróleo.

Destruído, o Irã aceitou um cessar-fogo em julho de 1988.

O conflito, de quase 10 anos, matou 300 mil iraquianos e 400 mil iranianos, deixando feridos aproximadamente um milhão de pessoas nos dois países.

 

Guerra do Golfo

Em julho de 1990, o Iraque acusa o Kuwait de lhe ter retirado petróleo no valor de 2,4 milhões de dólares dos campos de Rumaila e Saddam acusa o emirado de causar baixa no preço do petróleo, vendendo-o mais barato do que o preço estabelecido pela OPEP.

Antigo protetorado inglês, o Kuwait, pequeno país ao sul do Iraque, tornou-se “independente” em 1961. Atualmente operam no Kuwait cerca de novecentas empresas norte-americanas. Esse país também importa dos EUA e da Europa quase tudo que  consome em produtos e serviços. Ninguém ouve dizer que seu regime é ditatorial, apesar de não haver sequer eleições para escolher os dirigentes daquele país.

O Iraque exige indenizações e reivindica territórios, invadindo o Kuwait em 1990.

A resposta dos EUA ( do Bush pai ) foi enviar tropas para o Golfo, enquanto o Conselho de Segurança da ONU impôs um boicote econômico ao Iraque. Em resposta, Saddan proclamou a anexação do Kuwait e ordenou a prisão dos estrangeiros ali residentes.

A ONU, então, autorizou o uso da força militar, caso o Iraque não liberasse a Kuwait até 15 de janeiro de 1991. Dois dias depois deste prazo, os americanos iniciaram os bombardeios contra o Iraque, destruindo o país.

No final de fevereiro de 1991, as forças de coalizão, formadas por 28 países capitaneados pelos EUA, invadiram o Kuwait e o sul do Iraque.

Durante 43 dias, o Iraque foi sujeito a bombardeios de mais de cem mil toneladas de explosivos, que destruíram ministérios, fábricas, hospitais, pontes, telecomunicações e bairros civis, matando mais de cem mil iraquianos. As infra-estruturas rodoviárias e sanitárias foram deliberadamente destruídas nos ataques “cirúrgicos”, visando a destruição da vida civil, social, política, cultural e econômica do país que ousou questionar o poder e os interesses das grandes corporações mundiais do petróleo.

Em dezembro de 1998, os EUA e a Inglaterra voltam a bombardear o território iraquiano, à revelia do Conselho de Segurança da ONU, na operação batizada de “raposa do deserto”.

O embargo econômico é mantido pela ONU desde de 1991 até hoje, a pretexto de pagamentos das despesas de guerra e exigência do desarmamento do país.

Genocídio é a palavra mais apropriada para qualificar a situação criada no Iraque pela política da ONU, desrespeitando os tão falados princípios da liberdade, democracia e igualdade soberana dos Estados.

Mais de quinhentas mil crianças morreram de fome e doença durante estes anos de embargo, enquanto a fome e desnutrição, junto com a extrema escassez de medicamentos, são responsáveis pela morte de 300 crianças diariamente.

“As sanções estão na moda em Washington. Elas têm lugar de política estrangeira. (...) Foram utilizadas pela primeira vez na região em 1951, contra o regime do Dr. Muhammad Mossadegh no Irã, que acabava de nacionalizar, crime de lesa-majestade, o petróleo; foi preciso um golpe de Estado, organizado pela CIA dois anos mais tarde, para voltar a levar ao poder o Chah e instaurar a ditadura (...)

(...) O embargo sobre as exportações do petróleo iraquiano deveria, em princípio, ser levantado quando Bagdad tivesse respondido às condições de desarmamento impostas pelas Nações Unidas. Ora os Estados Unidos interpretando muito livremente as resoluções da ONU colocam uma série de condições prévias: restituição de todos os bens roubados ao Kuwait, regresso de todos os desaparecidos, melhoramento da situação de direitos do homem, etc. (...) “Nós nunca mais permitiremos, dizem os nossos diversos interlocutores, que renasça um Iraque poderoso que possa ser uma ameaça para os seus vizinhos, e isso com ou sem Saddan Russein.”  Alain Gresh – Le Monde Diplomatique – Julho de 1996.


 

 


 


GUERRA CONTRA TERROR OU  O TERROR DA GUERRA?


Um espectro ronda o mundo. Infelizmente não é o espectro do comunismo. É o espectro da guerra. Em nome de uma duvidosa luta contra o terror, os Estados Unidos e Inglaterra estão dispostos a lançar uma ofensiva  contra o Iraque para, segundo dizem, “derrubar o governo terrorista de Sadam Hussein e libertar o povo iraquiano”.

Essa tese, empregada até a exaustão pelo presidente dos EUA, George Bush, desde de 11 de setembro, tem servido a todos os propósitos militares.

Aproveitando-se do medo instalado na sociedade norte americana pós 11 de setembro, Bush sente-se na obrigação de ser o novo “salvador” do mundo ocidental. Mas será que o mundo ocidental está ameaçado? O que de fato está por trás dessa escalada de guerras? Será que há necessidade de um luta contra o terror? Que posição tomar frente a uma possível guerra entre EUA e Iraque? São questões como estas que tentaremos responder neste artigo.

 

A GUERRA CONTRA O TERRORISMO: A VERDADE

Se for verdade que o terrorismo hoje é o inimigo número 1 do Ocidente (mais adiante mostraremos que não é), é importante buscar entender por que esse fenômeno existe e quais as causas e responsabilidades disso. Em primeiro lugar temos que estabelecer que o terrorismo é uma saída militar desesperada de setores das classes sociais, burguesia ou proletariado, usado um contra o outro. Também existe o terrorismo de estado, que estando a serviço da burguesia, busca destruir ou desmoralizar a vanguarda lutadora.

O terrorismo, de maneira genérica, sempre foi utilizado na história como parte do arsenal das armas das classes em lutas. Na revolução americana foi usado contra os ingleses (ver o filme “O Patriota”), foi utilizado na revolução bolchevique russa em 1917 entre outras lutas ocorridas nos dois últimos séculos. Não cabe aqui uma posição pacifista. Somente o contexto histórico coloca a necessidade da  utilização ou não do terror como ferramenta da luta de classes.

O terrorismo  foi muito utilizado pelos EUA e seus aliados no século XX contra os trabalhadores de todo o mundo e ainda hoje o faz. Trata-se do que chamamos terrorismo de Estado. Para isso os EUA montaram a CIA, que financiou e armou vários grupos terroristas no mundo todo. E não só isso. Apoiou regimes terroristas como os de Pinochet no Chile, as ditaduras no Brasil e na Argentina e  outras pelo mundo afora.

Os EUA financiaram também Sadam Hussein, sim o mesmo Sadam que hoje querem derrubar, de 1979 a 1988 na guerra Irã-Iraque. Ou seja, quando convém, podem matar milhões, pois se trata de uma guerra pela liberdade e democracia, mesmo que não haja democracia e liberdade alguma para o povo, como no caso das ditaduras na América Latina. Mas quando contraria seus interesses  se trata de guerra contra terrorismo.

Sintetizando, no sentido negativo da palavra, o EUA  é o maior estado terrorista do mundo. Tem estrutura para desenvolver e financiar o terror no mundo todo quando a favor de seus interesses. Sempre souberam que sadam Hussein era um sanguinário, assassino e ditador da pior espécie. Sempre souberam que não havia democracia e liberdade no Iraque. Sempre souberam que o povo iraquiano sofre com a ditadura de Sadam Hussein. Mas enquanto este era favorável aos EUA, pois levava uma guerra contra o Irã, nunca foi sequer citado como sanguinário ou terrorista. Pelo contrário, era apresentado ao mundo como o único que poderia conter o “fantasma do fanatismo xiita”.  Agora que não mais interessa, Sadam Hussein é reconhecido como ditador.

Outras contradições no discurso americano: Por exemplo, onde está o Bin Laden? Não era o responsável pelo atentado de 11 de setembro? Não era o motivo da guerra contra o Afeganistão? O que a guerra contra o Afeganistão provou? Que se tratava de uma desculpa dos EUA para instalar um regime político naquele país que assegurasse os negócios de petróleo e gás, por onde passarão importantes oleodutos e gasodutos. Não se tratou de instalar um governo democrático.

Ao contrário do que a Globo e várias redes de televisão ao redor do mundo anunciam, as mulheres continuam sendo perseguidas, as condições de vida continuam péssimas e o país continua dominado por senhores da guerra.

Quanto a Bin Laden que nem era afegão e sim saudita,  financiado pelos EUA na guerra do Afeganistão contra a Rússia,  (isso é outra história) ninguém sabe ninguém viu. Sumiu do noticiário.

Se  os EUA estão querendo democracia no Oriente Médio, por que então apoiam a Monarquia na Arábia Saudita, no Lemen, no Qatar, que são regimes tão atrozes como o de Sadam Hussein?

 

O PAPEL DA IMPRENSA NA GUERRA

As idéias dominantes de um período são as idéias da classe dominante, já dizia Marx na  A Ideologia Alemã  afirmação, mais do que nunca, verdadeira. Através da imprensa televisiva, escrita e  Internet a burguesia tem conseguido influenciar milhões de pessoas, no mundo todo com suas idéias.

Com os interesses econômicos por trás, a imprensa tem sido uma importante ferramenta para vender idéias e preconceitos a fim de manipular o povo.

Trabalha a realidade mostrando-a segundo os interesses das classes dominantes ou de setores das classes dominantes.

No caso da guerra o mesmo acontece. Desde a segunda guerra mundial, a imprensa cumpre um papel de primeira grandeza no cenário de preparação do povo para a guerra. Foi o estrategista Goebels que cunhou a seguinte verdade para os meios de comunicação na guerra “quanto mais uma mentira for divulgada, mas verdadeira ela se torna”. Ou seja, para uma posição ser tomada pela população é preciso ficar martelando o tempo todo na mesma tese. Quem não se lembra dos xiitas, sempre identificados como radicais?

Vejamos o caso Bin Laden. Nunca apresentaram provas se  era mesmo o culpado, o que importava era que todos aceitassem assim não só ele como o Afeganistão que supostamente o acobertava. Assim moveram uma guerra contra um país miserável para caçar um homem!!!  Até onde o ridículo se torna verdade!!!

Agora no caso da guerra contra o Iraque a mesma coisa. Há uma verdadeira lavagem cerebral sobre as atrocidades de Sadam, da Ditadura de Sadam, dos filhos de Sadam, do monstro que é Sadam, da miséria que causa Sadam ao povo iraquiano, que quase dá vontade de ir lá e dar umas porradas em Sadam!!!

A imprensa assim, cumpre seu papel de poderosa arma de propaganda da burguesia a favor da guerra ou de consolidar a união ou aceitação da opinião pública  sobre a guerra. Fica claro então o próprio caráter da imprensa que não tem  nada de neutro, como  costumam dizer. Manipula conceitos e verdades e os acaba mudando. Ontem Sadam era aliado, hoje é terrorista. Mas o que é ser terrorista? A CIA não é terrorista, ao seqüestrar, torturar, matar de maneira atroz lutadores em todo o mundo. Mas lutar contra o capitalismo é terrorismo!!

 

QUAIS AS RAZÕES DESSA GUERRA?

As razões dessa guerra estão muitas claras, apesar de toda a cortina de fumaça lançada pelos EUA. O que interessa é o controle e a segurança de fornecimento de petróleo e de gás do Oriente Médio e geração de grandes oportunidades de negócios para as empresas petrolíferas americanas e inglesas.

Isso também estava por trás da guerra contra o Afeganistão. O   Taliban rompeu o acordo com os EUA de assegurar a passagem dos oleodutos e gasodutos pelo país e, por isso foram derrubados. No seu lugar hoje está uma coalizão de representantes de diversas tribos compromissados com os EUA em garantir a segurança e manutenção dos oleodutos e gasodutos naquela região, ligando as gigantescas reservas de petróleo do Cazaquistão e outros países ao sul da Rússia até a Turquia, no mar Mediterrâneo.

Mais do que nunca, o atual governo americano está comprometido com duas poderosas indústrias diretamente interessadas na guerra. São as indústrias de petróleo e de armas, das quais muitos dos atuais mandarins da Casa Branca vieram, começando por Bush e Rumsfield. Esses senhores sonham em iniciar um novo ciclo de crescimento na economia americana como o  inaugurado pela outra guerra contra o Iraque no inicio da década de 90.

Derrubar Sadam Hussein faz parte de uma ampla ação para gerar novos negócios para a indústria americana e de estabilizar o Oriente Médio, através de governos favoráveis aos interesses econômicos dos EUA. Não se trata de estabelecer democracia coisa nenhuma. Basta olhar os governos sauditas e iemenitas para ver que não passa de uma grotesca mentira.

 

A IMPORTÂNCIA ECONOMICA E  POLÍTICA DA GUERRA PARA O CAPITALISMO

Outra razão importante nesse cenário é o recado que os EUA querem passar ao mundo inteiro, de que ninguém pode desafiá-lo, muito menos o sistema do qual  é guardião, o sistema capitalista.

Desde o fim dos Estados erradamente chamados comunista, os EUA vêm querendo impor uma nova ordem mundial, a fim de garantir segurança aos negócios capitalistas em todo mundo. No entanto o que têm conseguido é aumentar a miséria e aguçar lutas.  Criam assim oportunidades  para promover novas guerras, destruindo forças produtivas e criando novas oportunidades de negócio para os capitalistas.

A guerra tem duas finalidades: restabelecer o poder de um setor sobre o outro ou de uma classe sobre a outra e de criar campo para mais negócios.

A questão do poder está clara. Ao vencedor tudo, ao perdedor a lei. Mas o que mais interessa na guerra para os capitalistas, são as oportunidades de negócios que a guerra gera antes, durante e depois. O maior exemplo disso foi a Segunda Guerra Mundial, que consolidou os EUA como a grande potencia mundial.

Ao preparar-se para guerra, os estados europeus moveram montanhas de dinheiro que foram parar nas mãos dos fornecedores de armas e mantimentos americanos. Durante a guerra nem se fala. O consumo de armas, mantimentos e energia foi absurdo. E depois, com a destruição o esforço de reconstrução gerou o maior período de bonança capitalista na história, de 1945 a 1975, os chamados anos gloriosos do capitalismo.

Isso porque, ao contrário das baboseiras neoliberais, o Estado Capitalista passou a ser o grande motor da economia capitalista, principalmente ao encomendar armas e comandar a reconstrução com inúmeras e gigantescas obras de construção civil. Foi o esforço de reconstrução e a corrida armamentista, financiada pelos Estados que possibilitou o crescimento capitalista do século XX.

A guerra do Golfo, em menor escala, pode ser um outro exemplo. Desde 1987 o capitalismo americano vinha numa crise importante. Com a guerra foi iniciado um novo ciclo expansionista, motivado por fatores econômicos, políticos e sociais que a vitória dos EUA na guerra refletiu.

Do ponto de vista político trata de tentar afirmar que ninguém pode desafiar o EUA nem o sistema econômico que ele sustenta.

Mas do que nunca a etapa atual da luta de classe tem sido marcada por guerras e revoluções. Ao contrário das teses de fim da história e das classes sociais, como alguns saíram apressados a divulgar após a queda do muro de Berlim, o que temos visto é um mundo em permanente ebulição, com lutas, rebeliões e guerras.

Mais do que nunca a história tem se desenvolvido como Marx afirmou no Manifesto Comunista “que a história da humanidade é a história da luta de classes”. As classes têm se enfrentado no mundo inteiro.

Com o surgimento do movimento anticapitalista nos EUA e Europa e a crise do modelo neoliberal em todo o mundo, o imperialismo foi colocado numa situação  defensiva. Para sair dessa situação, quando o povo com sua luta desafia o capitalismo, o EUA lança uma guerra para tentar reequilibrar seu domínio.

Nesse sentido, os atentados de 11 de setembro não foram um ataque ao coração do capitalismo e sim uma oportunidade criada ao imperialismo para partir com tudo para cima do movimento. A vitória sobre o Afeganistão deu um certo fôlego aos EUA, fazendo recuar o movimento anticapitalista naquele país. Mas o atual quadro da preparação de guerra não parece muito favorável a Bush e companhia.

 

CONTRADICÕES PARA IR A GUERRA

O fato de querer ir a guerra contra o Iraque não assegura que Bush tenha tudo a seu favor. Há muitas contradições envolvidas que os donos da Casa Branca têm que superar para poder ir à guerra.

Em primeiro lugar há uma recessão mundial detonada pela crise na economia americana, ampliada com as fraudes das grandes empresas. Há também um temor generalizado de que uma guerra não só aprofunde a recessão, mas que leve a uma depressão econômica como aconteceu em 1929. Esse temor tem sido expresso por senhores como James Baker, ex-secretario de estado do governo Bush (pai), responsável pela guerra do Golfo, e pelos governos imperialistas de França, Rússia e China.

Na Alemanha, o chanceler Gerard Schroeder foi eleito em função de sua oposição à guerra. Isso causou um mal estar diplomático, pois a Alemanha sempre foi fiel aos EUA e essa posição deixou o governo americano furioso, levando-o a cometer, do ponto de vista diplomático, uma grosseria de não cumprimentar Schroeder pela sua eleição.

Essas situações refletem que na sociedade há uma enorme oposição à guerra. Apesar dos meios de comunicação, existe  um grande questionamento do porquê de ir à guerra. Crescem as mobilizações contra a guerra. A mobilização em setembro na Inglaterra com mais de 150 mil pessoas mostra isso.

 

CONTRA A GUERRA

Apesar de sermos oposição ao governo de Sadam Hussein, de denunciá-lo como um ditador, opressor e assassino dos trabalhadores iraquianos e curdos e defender que ele precisa ser derrubado pelo povo iraquiano, nós somos contra a guerra que os EUA impõe ao Iraque.

Essa guerra não tem como objetivo melhorar as condições de vida do povo iraquiano nem de estabelecer a democracia. Bush e companhia estão interessados no petróleo e nos negócios que a guerra poderá gerar para suas empresas.

Com nossa posição de radical oposição a Sadam Hussein,  estamos ao lado dos trabalhadores iraquianos contra a guerra. Pois entendemos que serão os trabalhadores e oprimidos iraquianos que sofrerão com os bombardeios a fuzis americanos.

Chamamos a todos os trabalhadores a lutar contra essa guerra, a derrotar os EUA, pois assim, impediremos que siga sua escalda assassina pelo mundo e que se consolide como guardião do capitalismo. Temos que derrotá-lo pois, além de tudo, se trata de uma postura arrogante de submeter os trabalhadores do mundo inteiro ao medo de suas bombas e tecnologia. Sua derrota nessa guerra fortalece nossa luta contra o capitalismo.

Por isso é tarefa número um do movimento anticapitalista lutar contra essa guerra. Só assim poderemos fazer avançar nossa luta contra o imperialismo.

 

-FORA  IMPERIALISMO DO IRAQUE! NÃO À GUERRA!

-PELA DEMOCRACIA, AUTODETERMINAÇÃO E AUTO-ORGANIZAÇÃO DOS TRABALHADORES IRAQUIANOS!

-NENHUMA CONFIANÇA EM SADAM HUSSEIN!