ESPAÇO
SOCIALISTA
No. 5 junho de 2002
Contato: espacosocialista@hotmail.com
O IMPÉRIO ATACA: OS TRABALHADORES
RESISTEM
CAPITALISMO: UM SISTEMA EM CRISE CRÔNICA
O capitalismo vive
intensamente a crise crônica de superprodução e seus desdobramentos. Como
podemos verificar pelos dados, a taxa
de crescimento anual da economia mundial girava em torno dos 4% ao ano entre
1960 e 1973, caindo para 2,4% entre 1973 e 1980, caindo de novo para 1,2% de
1980 a 1993. A economia mundial, em seu conjunto, encontra-se, de fato numa
crise estrutural de difícil solução. Para os analistas ligados ao pensamento
burguês, na sua forma neoliberal, a solução das crises do capital passa pelo
simples “crescimento econômico”. Na América Latina o crescimento econômico não
significou melhoria das condições de vida ou criação de mais empregos. O PIB
cresceu 5,5% anual entre 1950 e 1980, e o emprego apenas 2,9%.
O
modo de produção capitalista a partir da década de 60 entra novamente num longo
período caracterizado pela depressão e pela queda da taxa de lucro. Nos anos 80
e 90, com a reestruturação produtiva e a globalização, houve um período de alta
lucratividade e acumulação. Isto só foi possível pela incorporação de enormes
contingentes de consumidores diretamente ao mercado global capitalista, à
intensificação dos ritmos de trabalho, ao desemprego estrutural. A defensiva
vivida pela classe trabalhadora durante mais de uma década foi a base política
na qual se assentaram os dez anos de crescimento da economia dos EUA. Este
crescimento não teve como contrapartida a redução da pobreza ou resolveu
questões nacionais/étnicas, pelo contrário, os problemas da sociedade
capitalista tornaram-se mais agudos.
A
concentração de riquezas em uma parte cada vez menor da população mundial se
faz às custas de milhões de seres humanos condenados pelo capital a mais
absoluta miséria. A crise não paralisa os capitalistas, pelo contrário, sempre
buscam soluções para, na pior das hipóteses, retardar os seus efeitos. O
objetivo da globalização é possibilitar, por um lado, ao capital imperialista
superar a crise com maiores taxas de exploração sobre os trabalhadores e, por
outro, avançar no processo de recolonização dos países subordinados à economia
dos EUA, da Alemanha e do Japão.
A globalização modificou as dinâmicas sociais e
econômicas de todos os países. Ao “se globalizar” o capital conseguiu uma
posição mais vantajosa para submeter e explorar os trabalhadores. No entanto, é
importante destacar que a “recuperação” da economia após os períodos de crise é
sempre mais efêmera e cada vez menos países conseguem voltar ao nível anterior
de desenvolvimento.
A crise crônica obriga o imperialismo a estar
freqüentemente desenvolvendo um conjunto de medidas para se contrapor à crise:
a reestruturação produtiva, diminuiu/reestruturou o parque industrial de vários
países (colocando no olho da rua milhões de trabalhadores); as privatizações,
que entregaram ao capital privado setores extremamente rentáveis e com ampla
infra-estrutura construída; a abertura dos mercados, com trocas desiguais de
valores, “investimentos” nas bolsas, livre remessa de lucro e outras formas de
rapinagem, permitindo uma extração
maior de mais valia.
REAÇÃO IMPERIALISTA X NOVA ONDA DE LUTAS
O início da década de 90 foi marcado pela
confusão teórico-politica provocada, dentre outras coisas, pelo desmoronamento
dos Estados Burocráticos. O imperialismo, aproveitando-se da confusão reinante
entre os trabalhadores, conseguiu tomar as rédeas da luta de classes,
aprofundar a exploração e fortalecer o
domínio estratégico sobre todas as nações.
Depois de um longo período de refluxo, quando a ideologia
pós Muro de Berlim deu por mortos e acabados a revolução e o socialismo, a
experiência com o capitalismo nos coloca novamente em ótimas condições para
discutir a construção de outra sociedade sem exploração e sem opressão. Essa
nova situação está marcada por uma nova onda de combates e resistência de
trabalhadores em várias partes do mundo. O proletariado volta a desenvolver
grandes lutas contra os planos capitalistas.
No cenário mundial
surgem diversas lutas com organizações independentes dos velhos aparatos
sindicais e políticos, com processos de rebeliões populares e proletárias
(Equador, Intifada na Palestina, Argentina). Novos agentes entram no campo de
batalha. Operários da Coréia, Caminhoneiros da França, trabalhadores postas da
UPS americana, indígenas do Equador e do México, trabalhadores rurais do
Brasil, trabalhadores da Itália contra a desregulamentação trabalhista
,movimentos agrários da índia, etc.
Neste novo cenário podemos destacar as grandes
manifestações dos trabalhadores argentinos que derrubaram em poucos dias quatro
presidentes, colocando em xeque a dominação capitalista. A Argentina, que
aplicou a fundo à cartilha neoliberal com privatizações em praticamente todos
os setores da economia, controle da inflação através da política monetária e um
brutal ataque através do desemprego e da precarização das condições de
trabalho, vive uma situação de falência econômica, social e política do modelo
e passa por um processo prolongado de convulsões sociais com protestos,
manifestações e o início de uma experiência de auto organização dos empregados
e desempregados em assembléias de bairros que tem ocupado a cena política
nacional e impressionado todo o mundo.
No Equador as mobilizações também conseguiram
colocar para correr um presidente. E no mês de abril desse ano os trabalhadores
Venezuelanos impediram a consolidação de um Golpe Militar patrocinado pela
burguesia mais reacionária e pelo Governo Americano. Outro elemento
importantíssimo desse novo processo é a volta à cena do poderoso proletariado
dos países imperialistas, dentre as várias mobilizações podemos destacar como
exemplo de confirmação desse processo,
a mobilização e a greve geral na Itália que paralisou todo o país, com a
adesão de mais de 14 milhões de trabalhadores italianos contra a reforma da
legislação trabalhista e também a marcha de mais de 500.000 espanhóis contra a
globalização. Esse processo de
mobilização teve início em Seattle (1999), passando por Quebec, Praga, Nice,
Gênova... Trazem, ainda que de forma embrionária/difusa, um sentido antiimperialista
e internacionalista que se estende às demais lutas e movimentos contra o capitalismo.
Este movimento vinha conseguindo, até o dia 11 de
Setembro de 2.00, atrair os mais diversos setores de trabalhadores em diversas
partes do mundo, realizando grandes manifestações de protestos contra os planos
neoliberais, estas lutas tendiam a expansão e sempre tendendo para a
radicalização. Conseguia conquistar amplos setores da “opinião publica” e
difundia a idéia de que é o FMI e os
EUA, principalmente, que são os grandes responsáveis pela pobreza e demais
problemas planetários. Obtinha vitórias importantes inclusive contra as forças
repressivas dos países onde ocorriam as manifestações. Em diversas vezes a
polícia e os governos não sabiam o que fazer para conter o movimento.
Preocupado, o imperialismo se aproveitou do ataque às
Torres Gêmeas para colocar em prática uma política de reação ao movimento que
avançava. Utilizando o ataque como pretexto, o imperialismo americano e inglês,
principalmente, iniciaram uma ofensiva com o objetivo de responder a diferentes
frentes:
1) Econômicas: Combate à recessão, pois no mês de março de 2.001 a economia
americana já dava claros sinais de que estava rumando para a recessão. Assim a
ofensiva, do ponto de vista econômico, tinha o objetivo de aumentar o controle
sobre as fontes de energia, principalmente o petróleo e o escoamento da produção da industria
bélica, como forma de dinamizar o
complexo militar-indústrial;
2) Políticas: Uma ampla campanha contra o “terrorismo”,
onde a mídia, os políticos e os ideólogos ligados ao sistema procuram
relacionar qualquer forma da legítima resistência, armada ou não, de vários
povos, a atos de terror. Nesta questão, principalmente o governo Bush, procura
reverter uma situação desfavorável internamente como o desgaste que vinha
sofrendo, pois já enfrentava grande repúdio (baixo índice de popularidade) e
questionamento por causa das orientações sobre o meio ambiente global e sobre a
sua política protecionista;
3) Militar: O ataque às Torres foi utilizado para
legitimar a intervenção militar no Afeganistão, o deslocamento de tropas para
as Filipinas e a ofensiva contra a guerrilha colombiana. A participação direta
na organização do golpe venezuelano e as sérias restrições democráticas que os trabalhadores americanos estão
submetidos, com centenas de presos políticos e uma crescente intervenção do
serviço de inteligência e espionagem, revelam uma política cada vez mais
próxima do fascismo. Nos quatro cantos do planeta há presença de tropas
imperialistas controlando a vida dos povos desses países.
No
que pese todas as mediações do processo,
não podemos deixar de notar que a situação política mundial e também a
da América Latina assumiu contornos de extrema violência com elementos de holocausto
que podem se generalizar. O aniquilamento da luta de classe através do
extermínio físico, a intervenção militar em todos os pontos do planeta, ou
outras formas de repressão são necessidades crescentes do Estado e da burguesia
imperialista. Estes são os principais objetivos da ofensiva imperialista.
O 11 de Setembro foi oportunidade impar para os EUA
desfecharem uma ofensiva global aos povos oprimidos e aos trabalhadores. No
entanto esta ofensiva, que tem como um
dos seus elementos o massacre do Estado de Israel ao povo palestino e a
tentativa de golpe na Venezuela, não foram suficientes para paralisarem as
ações antiimperialistas e de resistência dos trabalhadores de diversos locais
do mundo. A rebelião prolongada do povo argentino, a recente greve geral dos
trabalhadores italianos, a reação popular contra o Estado de Israel, o repúdio
popular ao golpe militar na Venezuela e outros exemplos demonstra .que essa
ofensiva imperialista pode ser
derrotada.
ALCA: RECOLONIZAÇÃO DA AMÉRICA LATINA
A formação dos blocos
econômicos capitalistas é parte das medidas para combater a tendência a queda
da taxa de lucro. Todos os países imperialistas se articulam neste sentido e
impõem acordos que favorecem a troca de
mercadorias, serviços, matérias primas e força de trabalho. A ALCA, como parte
deste processo, é um projeto estratégico para que o imperialismo americano
possa ganhar fôlego e combater a tendência à crise endêmica da economia
mundial. Como sua economia possui crescente capacidade produtiva e alta
produtividade, com mercados internos cada vez mais saturados (base das crises
de superprodução), faz-se necessário o controle absoluto sobre as fontes de
energia e matérias primas, a produção, a força de trabalho e o mercado da
América Latina. É neste marco que se explica o porque da organização da ALCA.
Os governos e as empresas da América Latina já vem
dando passos no sentido de implementar a ALCA, vejamos: desregulamentação das
relações trabalhistas, controle fiscal sobre os gastos públicos (Lei de
Responsabilidade Fiscal). Querem, também, melhores condições para “competir”
com as empresas da América do Norte, aí entram em ação as políticas de
desregulamentação das relações trabalhistas expressas na emenda constitucional
do artigo 618 da CLT, as demissões e a intensificação do ritmo de trabalho.
Assim com a implementação dessas medidas a burguesia consegue baratear o custo
de produção, possibilitando dessa forma que consiga competir no mercado
internacional. A ALCA representa a
liberação de todas as fronteiras para o capital e a multiplicação de
possibilidades para o faturamento das empresas capitalistas da América do
Norte e dos seus sócios menores da
América Latina.
Mas a implementação desse “Mercado Comum” (ALCA)
esbarra nas crises políticas e econômicas. A proposta da ALCA não se faz sem
conflitos de interesses entre as classes dominantes dos países da América
Latina e dos EUA. Também deve enfrentar a resistência dos trabalhadores que
estão ganhando força e confiança com as mobilizações em diversos países da
América L e alguns deles com vitórias importantes.
NOVAS LUTAS DE UM NOVO PROLETARIADO
As novas ondas de resistência são
protagonizadas por um proletariado muito mais heterogêneo, composto por
trabalhadores sem carteira, setores que foram vítimas da reestruturação produtiva, vendedores ambulantes, setores de
classe média que foram “proletarizados”. Esta classe não é composta apenas
pela classe operária clássica, mas por vários setores com uma
diversidade nunca vista.
Não podemos deixar de reconhecer que apesar da sua
redução numérica o proletariado industrial, aquele que na produção de bens
materiais, cria valor e mais valia, terá um papel importante na luta pela
superação do atual modo de produção. A desarticulação do proletariado
industrial dos últimos anos não significa a sua queda estratégica para a
luta revolucionária. O fato social é que a produção material é o fundamento do
metabolismo social. Sendo assim, o proletariado industrial apesar de dividido e
subjugado terá um papel decisivo nessa nova onda de combates anticapitalistas.
A conseqüência política desta análise é a de que os
setores da classe trabalhadora que hoje estão à frente dos processos de luta
não podem deixar de buscar a unidade política e programática com o proletariado
industrial, convocá-lo para a luta e construir com este as estratégias de
resistência.
A
classe trabalhadora e suas lutas de resistência localizadas ou globais apontam
para um ciclo de grandes enfrentamentos entre o capital e o trabalho. É
evidente que estas lutas não acontecem simultaneamente e que ainda apresentam
limites como a falta de uma alternativa real ao capitalismo. Este processo
ainda se situa nos marcos de um questionamento aos planos neoliberais e em cada
país se manifesta de uma forma e em diferentes momentos. Mas o mais importante é a classe está
buscando desenvolver novas armas e ferramentas necessárias para fazer frente ao
capitalismo. Impulsionar a
construção de novas organizações, programas e lutas políticas
independentes contra o sistema é
certamente a mais importante tarefa dos trabalhadores na atualidade.
TESES SOBRE A SITUAÇÃO ARGENTINA
1
A
situação em que se encontra a Argentina é o momento mais avançado de uma
situação pela qual atravessa todo o continente latino americano, aberta em 1994
com a irrupção do movimento zapatista , no México, e que se estendeu por todo
continente. Também está atravessada pela crise econômica do imperialismo e das
lutas anti- globalização no seio dos países imperialistas e pela tentativa
daquele em dar um giro reacionário na situação mundial com a ofensiva militar
sobre o Afeganistão, Iraque e Colômbia.
Esta situação tem haver com a falência de um modelo econômico, amplamente adotado na região, de submissão incondicional aos ditames do capital financeiro mundializado, das multinacionais, dos organismos econômicos mundiais (FMI. Banco Mundial, OMC), em outras palavras, de submissão ao IMPERIALISMO.
México, Bolívia, Equador, Paraguai, Venezuela, Peru e Argentina passaram, nesse período, por crises econômicas e sociais muito profundas em função do resultado da aplicação dos planos de abertura de mercado, privatização, liberalização das leis trabalhistas, destruição dos serviços públicos.
Houve com isso uma profunda mudança da estrutura econômica desses países, tornando-os mais dependentes que nunca do capital estrangeiro, resultando em uma enorme concentração de renda nas mãos de uma pequena parcela da população, diretamente ligada ao imperialismo e defensora de seus interesses nesses países e, no outro extremo, amplos setores sociais condenados à marginalidade, à fome e miséria.
O tão propagado sonho do fim das crises econômicas, da superioridade do capitalismo mostrou-se um verdadeiro pesadelo para as massas trabalhadoras do continente.
2
A responsabilidade da crise argentina e dos seus desdobramentos sobre o povo é exclusivamente do imperialismo, que impôs o modelo econômico baseado nas idéias de livre mercado (para ele, é claro), da burguesia argentina, seus partidos e frações de classe média alta, tributárias dos benefícios de associar-se ao projeto de expoliação do país, via mecanismos de especulação financeira e de abertura do mercado, deixando que a economia nacional fosse destruída.
Durante o governo Menem, a aplicação desse modelo econômico foi apresentado ao mundo como exemplo a ser seguido por todos países. Privatização selvagem, abertura do mercado mais agressiva possível, ataques profundos desferidos aos direitos dos trabalhadores, era o canto do cisne do imperialismo mundial.
Mas esse modelo econômico modificou o país estruturalmente. De um país, apesar de dependente, que possuía um importante parque industrial na década de 40 e 50, com índices de escolaridade e de serviço público próximo ao dos países avançados, passou a ser um país que importava de tudo, com uma industria reduzida a quase nada.
A paridade peso-dólar foi uma
forma do imperialismo rapinar diretamente, em moeda forte, toda riqueza do
país. Só no ano passado foram 40 bilhões de dólares levados para fora do país. Não é a toa que o governo mantém o
chamado corralito: NÃO HÁ DINHEIRO NA ARGENTINA! Essa situação impede que
qualquer país consiga se manter. Ao fecharem fábricas e transferirem as
empresas para o controle do imperialismo, a burguesia argentina renunciou a
toda forma de produção de riquezas capazes de manter o país em pé. Com isso, se
tornou impossível manter a cadeia de pagamentos obrigando a desvalorização. Só
que, sem ter uma indústria competitiva que gere valor e que esse valor seja
reinvestido no país, não há possibilidades de manter um sistema.
A
crise é uma crise estrutural, que vem sendo gestada em anos de descalabro
econômico. A destruição do parque industrial, a perda de produtividade e
competitividade do país, a pressão exercida pelo capital financeiro e pelos
bancos nacionais para que o país siga pagando os juros da dívida externa impede
que, no curto ou médio prazo seja encontrada uma saída, dentro dos marcos
capitalistas, para essa crise. Não se trata de um crise cíclica do capitalismo
argentino. É uma crise sistêmica, de difícil solução. E mais ainda, com a
configuração atual do capitalismo
globalizado, não há muita margem de manobra para saídas nacionalistas
burguesas ou outras pelo estilo. A submissão ao mercado mundial, como uma
cadeia de ferro, impõe às classes dirigentes seguir aprofundando o modelo,
mesmo que isso implique em mais miséria e fome as grandes massas.
3
As
mudanças estruturais que ocorreram na Argentina, como parte da mudança
estrutural pela qual passou o capitalismo, tiveram implicações sociais sérias
naquele país, como em todo mundo.
A
abertura de mercado, as privatizações, o papel jogado pelo capital financeiro,
causaram um grande impacto na economia e na vida social do país. Por um lado, a
burguesia argentina se transformou. De classe que tinha como base de seus interesses a exploração do mercado
argentino, no período pré globalização, a partir do governo Menem , continuador
do processo de transformação iniciado pelos militares em 76 / 82, passou a
depender diretamente e se subordinar as regras do capital financeiro e de ser
tributária dos lucros do mesmo. Ou seja, sua base de interesse passou a ser a
especulação nas bolsas de valores ao redor do mundo e no resultado dos juros
que o governo lhe pagava. Tornou-se uma classe muito mais parasitária. Nesse
caminho seguiram também frações da classe média alta.
Por
outro lado, na classe operária os efeitos dessas mudanças foram catastróficos.
Demissões, arrocho salarial, flexibilização nas condições de trabalho, ação de
todo aparato de dominação (Estado, Igreja, Mídia, partidos políticos, etc)
foram fatores transformadores da classe trabalhadora. A redução do número de
trabalhadores industriais refletiu diretamente sobre a ação do movimento de
massas nos anos 90. Essa nova configuração da classe que vive do trabalho, está
influenciando diretamente o movimento surgido com força em dezembro de 2001. E
mais, irá condicionar toda a política que os revolucionários terão de
apresentar para fazer avançar o processo.
Essas
mudanças não só afetaram o aspecto quantitativo da classe. Afetaram também o
qualitativo, ou seja, sua organização e consciência. Desencadearam uma crise
monumental no movimento sindical, resultado do fechamento de indústrias e
demissões, implicando na perda de eficiência da luta sindical. Acelerou o
processo de integração das direções sindicais como agentes do capital no seio
da classe trabalhadora. Detonou também uma profunda crise na esquerda
revolucionária argentina, quando essa situação combinou-se com a queda do Muro
de Berlim e a falência de aspectos teóricos e programáticos que nortearam a
esquerda mundial como um todo até aquele momento. Além do retrocesso na
consciência de classe.
Nesse
terreno a burguesia pôde sem problemas seguir dominando o país de modo a
levá-lo onde está hoje.
5
No
entanto, essa nova configuração social, de trabalhadores precarizados , sem
organização sindical, sem direitos e sobretudo muito jovem, é hoje a vanguarda
do processo revolucionário argentino.
É
importante ter em mente que é sobre essa realidade que a esquerda deve atuar.
Não há mais a classe operária clássica, concentrada em grandes fábricas e
organizações. Nem os grandes líderes e caudilhos. Há uma classe flexibilizada,
sem uma organização definida pelo lugar de trabalho, sem vínculos institucionais
com os aparatos que dominaram a cena do movimento operário no pósguerra,
desconfiada dos partidos, sejam eles de esquerda ou de direita.
Mas
essa classe está em luta. São os jovens, filhos da abertura democrática e do
governo Menem, sem vínculos com um passado dominado pelo estalinismo ou pelo
peronismo, que estão na vanguarda. A eles se juntam todos os estratos
explorados da sociedade.
Não
é a toa que a forma adotada de organização seja a assembléia de vizinhos. Ali
estão tentando tomar em suas mão os destinos de suas vidas e do país. Ali estão
buscando uma solução para o problema imediato, do emprego, do ter o que comer,
e da economia. Não poderia ser diferente. O surgimento de uma expressão de
organização se desenvolve pelo local de moradia. Ao ser quebrada a estrutura de
classe, as relações sociais no interior da classe trabalhadora passaram a estar
mediadas pelo local de moradia, onde era possível manter uma sociabilidade um
pouco mais livre do controle da burguesia.
6
Como
classificar o processo argentino? Eis uma questão em pauta para todos aqueles
que, de uma forma ou de outra, pretendem intervir no processo.
O
que está acontecendo na Argentina é único na história daquele país e uma das
poucas experiências em nível mundial. Nunca houve no país um processo de lutas
tão profundo e extenso como o de agora. Nem um processo que desembocasse em uma
expressão de organização independente das massas, democrático , amplo,
profundamente político. Nunca os partidos burgueses tradicionais estiveram tão
em crise como nesse momento. As características do processo possibilitam
trabalhar com a hipótese de estar aberta uma situação pré revolucionária na
Argentina.
As
características mais marcantes são a entrada em luta de milhares de pessoas,
gente comum que esteve anos a fio em uma postura passiva e conservadora, em
todo país. Se mobilizam permanentemente, organizados nas assembléias de
vizinhos. Essas assembléias dão a tônica do processo podendo se tornar possíveis organismos alternativos de poder. O surgimento das
assembléias de vizinhos é o mais importante passo dado, poisexpressa o
surgimento de uma forma de organização independente do seio da mobilização e
que está envolvendo uma parcela das massas argentinas, principalmente em Buenos
Aires, o que é outro dado qualitativo.
Há
uma crise de dominação séria pois, mesmo tendo sido fechada a crise
revolucionária aberta com a queda de De La Rúa, com a eleição de Duhalde, a
burguesia e os partidos enfrentam uma crise de legitimidade e de respaldo
social muito grande. Acompanhando a crise estrutural descrita acima, há muito
pouca margem de manobra. O que pode ocorrer são tentativas de frear a
mobilização via eleições, o que pode ser possível, mas a situação está, até o
momento, diretamente dominada pela crise estrutural. O que não significa que a
burguesia está numa crise sem saída. Por definição, enquanto houver capitalismo
sempre há possibilidade de uma saída, por pior que seja para os trabalhadores.
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Do ponto de vista da dinâmica da situação é
preciso ter em conta também a movimentação do imperialismo. Este tem sido
ambíguo frente ao descalabro argentino. Ao que parece, ele procura ver até onde
irá o processo de crise econômica e social do país e como isso influenciaria a
economia mundial. O imperialismo está deixando a crise correr, fazendo pressão
para o governo seguir pagando a dívida e os bancos e aprofundar a aplicação do
plano (principalmente corte no déficit das províncias) e ora acenando com
ajuda. Não parece estar disposto a bancar o país, como fez com o México e o
Sudeste Asiático, uma vez que ali não há uma base produtiva tão ligadaà
economia mundial. Talvez uma operação, para salvar os bancos e o capital
financeiro. Há uma tendência a deixar o país se afundar como um todo e
administrar as perdas de maneira homeopática. Isso, caso não se abra a
perspectiva de ocorrer uma revolução ou uma crise de proporções colossais no
mercado mundial, o que levaria a uma mudança de postura.
8
A
política dos revolucionários deve ser ajudar aos organismos que estão sendo
gestados no calor da luta, principalmente as assembléias de vizinho, a se
desenvolverem como organismos alternativos de poder e levar a luta na direção
da revolução socialista. Isso é muito importante. O domínio absoluto que o
Stalinismo e os reformistas de um modo geral tiveram sobre o movimento operário
mundial, as mudanças estruturais na classe operária e a queda do Muro de Berlim
causaram uma profunda crise de alternativa socialista. O movimento operário
parte de muito atrás. Anos de ação da burguesia e seus agentes no seio do
movimento só fizeram confundir os trabalhadores.
No
entanto esse é o momento propício para lançar a luta pelo socialismo. Não é um
lançamento em abstrato, feito através de propaganda simplesmente, ainda que a
propaganda pelo socialismo deva ser feita e com vigor. É que no calor da luta
que os revolucionários, sem aparelhar ou substituir o movimento real
devem, a partir das assembléias, apresentar propostas políticas que apontem no
sentido do socialismo. Em primeiro lugar está o da defesa intransigente da auto
organização e independência de classe, contra as manobras eleitorais. A
apresentação, discussão e defesa de um programa que atenda as necessidades
imediatas das grandes massas em detrimento do capital. São passos que os revolucionários
devem seguir nessa luta pelo socialismo.
Outro
aspecto importante é combater com tudo as tentativas de desviar o processo
revolucionário para o beco sem saída das eleições. Na atual conjuntura o que
mais avançado há são os processos que ocorrem nas assembléias de vizinhos.
Canalizar esse processo para qualquer tipo de eleição, como parte de uma
política consciente, nada mais é que traição. Confundir a questão da
constituinte no processo revolucionário russo, onde haviam um pressões
objetivas para realização de uma assembléia constituinte , como uma política
sine qua non para a tomada do poder não passa de um delírio.
O
centro da atividade deve ser as assembléias, seu fortalecimento, seu
desenvolvimento e aprendizado. Aí será o local onde as massas superarão anos de
atraso na consciência. Aí será onde as discussões sobre como organizar o país
serão feitas de maneira concreta. A consciência socialista será construída aí,
na prática.
9
O
processo argentino é a ação anti-capitalista mais avançada na atualidade. É a luta concreta de um povo contra a
aplicação pelo imperialismo e seus agentes dos planos neo-liberais. Nesse
sentido é o dever número 1 do movimento anti-capitalista mundial lutar em
solidariedade aos trabalhadores e explorados argentinos. Não a solidariedade
pela solidariedade, mas na luta concreta contra o inimigo comum e pelo
lançamento do combate pelo socialismo por baixo no mundo inteiro.
Muito
tem se falado do movimento anti-capitalista, da sua potência e do entusiasmo
gerado em milhares de jovens. No entanto, as lutas anti-capitalistas têm um
sério limite de estar centrada no aspecto mais visível que são as reuniões dos
fóruns mundiais do imperialismo (FMI, Banco Mundial, Davos , etc). Consideramos
muito importante lutar contra esses organismos. No entanto a luta
anti-capitalista não se resume a isso. Faz-se necessário enfrentar o
imperialismo no campo mais importante, no campo econômico, da propriedade privada. E a luta dos
trabalhadores argentinos pode ser por onde essa luta vá se iniciar.
ECONOMIA ARGENTINA: UM BECO SEM SAÍDA
Há saída para o impasse na economia Argentina?
Não podemos subestimar a capacidade da burguesia de
manter o seu sistema econômico, mesmo nas mais graves crises. O século XX é
pródigo em exemplos e, enquanto houver o imperialismo, enquanto o capitalismo
for o sistema dominante mundialmente, sempre haverá possibilidades. Tendo claro
que, nas saídas para as crises econômicas, a burguesia pensa e age, antes de
tudo , em benefício próprio e, invariavelmente, lança o ônus da crise sobre as
costas dos trabalhadores e do povo oprimido e explorado. Ou seja, qualquer que
seja a saída para o impasse, quem paga a conta são os trabalhadores. E isso só
é possível porque a burguesia conseguiu estabelecer uma relação de forças na
sociedade que lhe permite tomar tal medida. Em outras palavras, as saídas para
a crise econômica são, em última instância, produto da luta de classes.
Tendo isso em mente podemos apontar que, a curto prazo, a economia Argentina não tem saída. Isso porque não há perspectiva de, no próximo período, ser estabelecida uma nova correlação de forças favorável à burguesia.
Se recapitularmos a história Argentina, em grandes pinceladas, veremos que o modelo econômico aplicado foi produto da situação de derrotas das classes exploradas no confronto com a burguesia. Com a ditadura militar em 1976 iniciou-se o processo de sucateamento e de total submissão ao imperialismo. Isso só foi possível porque os militares destruíram a vanguarda lutadora, surgida nas lutas desde 1969.
Com a queda da ditadura, a burguesia viveu um período de crise, fruto das lutas e da contradição que o modelo econômico, cujo o imperialismo e a burguesia Argentina queriam aplicar, não tinha sido implantado na sua totalidade. Apesar da destruição física da vanguarda da década de 70, a luta pela queda da ditadura fortaleceu o movimento de massas e levou a um agravamento da crise econômica, originando aí, a hiperinflação.
A ascensão de Carlos Menen muda qualitativamente esse cenário, há uma unificação da burguesia e decidem enfrentar o movimento dos trabalhadores, derrotando as lutas contra as privatizações e gerando um enorme desemprego, ao mesmo tempo em que atrelavam o peso ao dólar e abriam o país para o capital estrangeiro.
Esse modelo, hoje em total crise, foi um presente ao imperialismo, pois permitiu o saque direto das riquezas do país em moeda forte. Os investimentos diretos ( nada mais do que compra a preços de banana das empresas estatais) forneceram posições ao imperialismo para explorar mais e mais os trabalhadores, sem aumentar a competitividade da economia. O aumento da dívida externa e interna, fruto da política de submissão de remunerar o capital financeiro em moeda forte, exauriu a economia.
Ora, uma economia dependente, com seu parque industrial sucateado e reduzido, sem competitividade internacional, não poderia continuar gerando dólares para pagar os credores. Com isso veio a crise. Essa crise não é uma crise qualquer. O país parou de funcionar. Não há dinheiro para pagar, por exemplo, os correntistas que depositaram suas economias em dólar, pois o dinheiro foi retirado do país pelos bancos, empresas e burguesia que tem acesso ao mercado financeiro mundial. O governo está sendo obrigado a imprimir papel dinheiro, sem valor, fazendo disparar a inflação.
E a situação das classes sociais mostra uma burguesia fraca e dividida, num salve-se-quem-puder, uma profunda retomada da luta de classes por parte de milhões de explorados argentinos, de uma atividade autônoma dessas massas e um descrédito nunca visto das instituições e partidos. O imperialismo não dá mostras de querer socorrer a Argentina, pois significaria investir muito dinheiro vivo no país e reconstruir o parque industrial.
Um outra saída seria uma nova derrota, aplastante, do movimento de massas, que unificasse a burguesia sob um novo projeto e direção. Não vemos, pelo menos nesse momento, a possibilidade dessa saída, uma vez que não surgiu no seio da burguesia uma figura com tal envergadura e projeto. Se o quadro de mobilização se mantêm e o impasse no seio da burguesia também, a economia ficará num beco sem saída por algum tempo. A mudança de qualidade virá quando uma das classes, burguesia ou trabalhadores, apresentarem um projeto que unifique com os setores populares. Nossas esperanças são de que os trabalhadores, no processo de auto organização que estão protagonizando, dêem um passo a frente, apresentem um projeto para o país, um projeto socialista.
Paletina
-História: CRÔNICA DE UMA COLONIZAÇÃO
O sionismo foi um movimento europeu nascido no fim do século XIX entre setores, a princípio muito minoritários, da população judia. Sustentava que a solução ao anti-semitismo e a discriminação era a separação entre judeus e não-judeus. Estes deveriam emigrar à Palestina para construir um país próprio.
O sionismo alegava que os judeus constituíam um grupo nacional, apesar de que em quase vinte séculos nunca se haviam reivindicado como tal. Seu traço comum ao redor do mundo havia sido principalmente as tradições religiosas e, nas sociedades pré-capitalistas ou de capitalismo atrasado, o exercício de alguns ofícios ou funções particulares.
Desde o início, o sionismo se estabeleceu abertamente como um movimento de colonização, não é casual que surgiu no momento em que o colonialismo europeu estava em seu apogeu. Os imperialismos britânico, francês, alemão, belga, italiano, etc. haviam se apoderado de quase toda Ásia e África, e tinham convertido esses territórios em colônias.
Havia duas formas de colonização. Em uma, a potência imperialista se limitava a estabelecer seu governo sobre os nativos, substituindo as suas autoridades e instituições. A outra forma acrescenta a esse domínio a emigração em massa de europeus, que deslocavam e/ou exterminavam total ou parcialmente a população nativa. Isso fizeram os franceses na Argélia, os holandeses na África do Sul, os ingleses na Rodésia (atual Zimbabwe), África do Sul e Austrália, etc.
Para o imperialismo europeu era uma forma de reduzir as lutas sociais. Ao inglês ou francês na pobreza (que poderia ser conquista pelas idéias do socialismo), dava-lhe um fuzil e um chicote, e o enviava a África para que às custas dos árabes ou dos negros fizesse fortuna. De explorado miserável em seu país de origem passava a ser amo e senhor nas colônias.
Nessa atmosfera de colonialismo e racismo desenfreado, que considerava os povos não europeus como raças inferiores sem direitos, o sionismo nasceu estabelecendo que a colonização da Palestina era a forma de resolver a questão judaica. Para obter isso o movimento sionista tinha dois problemas:
Primeiro, lá vivia outro povo. Mas os fundadores do sionismo diziam que Palestina era “uma terra sem povo, para um povo sem terra”. Certamente todo o mundo sabia que estava habitada. O que isso significava, em uma linguagem colonial-racista da época, que a Palestina era uma terra sem povos… europeus. Ou seja “vazia”, já que os nativos subumano não contavam…
O segundo problema foi buscar aprovação de uma potência imperialista para sua aventura colonizadora. Depois de recorrer ao czar russo (anti-semita notório) e ao imperador da Alemanha, o sionismo obteve finalmente o apadrinhamento do Império Britânico.
Assim durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18), ao governo inglês emitiu em 1917 a Declaração Balfour, pela qual prometia ao movimento sionista seu apoio para colonizar a Palestina.
Nesse momento, a Palestina era parte do Império Turco, em Guerra com Império Britânico, e a população judia era insignificante. Ao terminar a Guerra em 1918, a Inglaterra se apoderou do país e estabeleceu ali o“Mandato Britânico”, que durou até pouco depois da Segunda Guerra Mundial (1939-45). Burlava assim as promessas de independência feitas aos árabes por meio de seus agentes, entre eles o famoso Lawrence da Arábia.
Com o domínio inglês, entraram os sionistas. Jogaram um papel importante no mecanismo de domínio do Império Britânico, em troca de permitir o início de processo de expulsão dos palestinos de suas terras. Os charlatões que falam de “ódios ancestrais” devem inteirar-se que até essa data e durante séculos não havia tido grandes problemas, “ódios”, nem perseguições entre árabes e judeus no mundo muçulmano. O islã havia sido muito tolerante em comparação ao cristianismo anti-semita da Inquisição e dos (progroms). Esses “ódios” não são, então, “ancestrais” se não um produto do moderno imperialismo.
Em 1936 os palestinos, fartos da opressão britânica, se sublevaram. Assim instalou-se a primeira Intifada (“levantamento”, “agitação”) que durou até 1939. Foi esmagada a sangue e fogo pelas tropas britânicas com a colaboração de Haganã, a organização armada dos colonos sionistas, que logo se converteria em Exército de Israel.
Até os anos 30, o sionismo seguia sendo no entanto em movimento minoritário entre as massas judias européias. Foram os horrores do racismo e as perseguições de Hitler e os nazistas que empurraram até ao nacionalismo sionista e, ao mesmo tempo, deram um selo de “legitimidade” a esse movimento colonialista. O racismo anti-semita de Hitler serviu para justificar o racismo anti-árabe do Estado de Israel 1947/49: grande “limpeza étnica” meio século antes da Iugoslávia.
Com a Segunda Guerra Mundial, o sionismo mudou de luta. Se divorciou violentamente do Império Britânico em ruínas, e se colocou sob a proteção dos Estados Unidos.
Em 29 de novembro de 1947, a ONU com o voto conjunto do imperialismo Ianque se a burocracia soviética, e sem a menor consulta aos palestinos que eram amplamente majoritários, decidiu pela divisão do país entre um Estado Hebreu e outro Palestino. Nos choques que se prolongaram até 1949 – onde 60.000 soldados sionistas veteranos, armados pelos EUA e pela URSS, venceram facilmente a 25.000 árabes traídos por seus governos do Egito e Jordânia - produziu-se uma das maiores operações de “limpeza étnica” do século.
Apenas decretada a divisão iniciaram-se as matanças de palestinos por todo país. O objetivo era dispersar mediante o terror a população nativa. Ao firmar o armistício de 1949, Israel havia se apoderado de muito mais territórios que o designado pela ONU e a maioria dos Palestinos havia sido expulsa de lá. Ficaram só 150.000 enquanto 800.000 haviam sido expulsos e convertidos em refugiados no Líbano, Jordânia, Egito e outros países. Quatrocentas vilas foram destruídas, e os povoados que não fugiram a tempo foram exterminados. O símbolo mundial desta “limpeza étnica” foi a aldeia de Deir Yassin, massacrada em 9 de abril de 1948, que desencadeou uma onda de êxodo massivo da população aterrorizada.
Mas os colonizadores não iam ficar satisfeitos. Em 1967 desencadearam a Guerra dos Seis Dias, na qual se apoderaram do resto da Palestina, os atuais: “territórios ocupados” , a Margem Ocidental do Rio Jordão (Cisjordânia), a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental. Começou assim uma nova etapa da colonização.
Reprodução
da declaração, em debate, da corrente internacional NOVO CURSO, com a qual
mantemos relações fraternais.,
DECLARAÇÃO SOBRE
A PALESTINA
Poucos povos no
último século sofreram um destino mais trágico que o oprimido povo Palestino.
Depois da II Guerra Mundial,
quando Ásia e África conseguiam sair do status colonial, os palestinos eram
brutalmente colonizados. Mediante uma “limpeza étnica” em grande escala, em
1948 constituiu-se o Estado de Israel. Em 1967, repetiu-se a operação, e Israel
passou a ocupar militarmente o que restava da Palestina (a saber Cisjordânia,
Gaza e Jerusalém Oriental). Em 1982, pela terceira vez, atuou a “limpeza
étnica”, desta vez contra a resistência palestina e aproveitou-se para invadir
o Líbano.
O processo de conformação do
Estado de Israel, marcou seu caráter atual: é o Estado de um enclave colonial,
teocrático e racista, com um regime de apartheid similar ao que houve na África
do Sul. O Estado de Israel foi uma criação artificial do imperialismo ianque e
europeu. Nas portas de uma região chave no dispositivo de dominação mundial
desses imperialismos, constituiu-se um enclave colonial trazendo da Europa e do
resto do mundo uma nova população, expulsando pela força a maioria de seus
habitantes originários e impondo uma segregação religiosa e racial aos
restantes.
Hoje, nos territórios
controlados por Israel, habitam 4 milhões de palestinos (3 milhões nos
Territórios Ocupados em 1967 e outro milhão dentro das fronteiras de 1948). Mas
a maioria dos palestinos (4,5 milhões) vive na diáspora, repartidos entre
dezenas de países dos cinco continentes.
Porém este povo, do qual se
quis apagar até seu nome, tem sido protagonista de uma resistência sem fim.
Essa epopéia continua hoje na luta desigual que travam contra um dos exércitos
mais poderosos do planeta, que conta além disso, com o pleno apoio dos EUA.
O
IMPERIALISMO SUSTENTA A EXISTÊNCIA DE ISRAEL
A relação especial com o
imperialismo ianque, é a chave da continuidade de Israel como enclave colonial
e Estado racista. EUA não tem com ele a mesma relação que estabelece com seus
vassalos da Ásia, África e América Latina, ou com seus sócios-rivais da União
Européia e Japão.
Israel goza de uma sustentação
praticamente incondicional do principal imperialismo. Seus governos até podem
atrever-se a contradizer em tal ou qual aspecto a política de Washington, sem
que por isso vejam questionados um milímetro o apoio político, econômico e
militar que prestam o EUA. Sem esse suporte, seria inconcebível que Israel
pudesse perpetrar as agressões e crimes contra o povo palestino. Estaria
inclusive em jogo sua própria existência, pelo menos como Estado racista e
colonizador.
Os imperialismos europeus,
ainda que assumam uma atitude “crítica” para consumo dos povos árabes e de sua
própria opinião pública, e sustentem outras “soluções” para a questão
palestina, tem também uma responsabilidade fundamental. O principal “parceiro”
comercial de Israel não é o EUA e sim a União Européia. A aplicação de sanções
a sério por parte da União Européia poria Israel numa situação muito difícil.
Porém essa não é sua atitude.
Combinam-se vários fatores
para isso. Um é sua localização geopolítica, nas portas de uma região chave
para o domínio imperialista do planeta, onde além do mais se encontram as
últimas e maiores reservas mundiais de petróleo.
Também tem peso e importância o sionismo norte-americano,
especialmente no aparato político e nos meios de comunicação dos EUA. Dá-se uma
combinação singular: a maior parte da burguesia e da alta classe média
sionista, que identificam Israel como seu Estado, não são israelenses nem vivem
ali, e sim são parte (minoritária, mas muito influente) da burguesia
imperialista mais poderosa do planeta.
Nas últimas semanas, o
repúdio mundial às atrocidades perpetradas por Sharon obrigou o governo
norte-americano a tomar distância. Bush voltou a falar de “Estado Palestino” e
Powell viajou supostamente para exigir a retirada das tropas de Israel. Mas isto
não é o inicio de uma ruptura nem de um giro na política do EUA, como se quis
apresentar, é muito mais uma atitude hipócrita, por trás continua-se enviando
armas e dinheiro para que prossigam o massacre.
PARTE
DA OFENSIVA IMPERIALISTA APÓS 11 DE SETEMBRO
A atual matança é parte do
panorama mundial posterior ao 11 de setembro. É um quadro que inclui desde a
invasão ao Afeganistão e sua conversão em protetorado colonial, os preparativos
para fazer o mesmo com o Iraque e a retomada da guerra na Colômbia , até a
extrema dureza dos EUA frente aos países pobres, como se expressou em Monterrey
e na crise Argentina. A recente tentativa de golpe na Venezuela também é parte
do mesmo.
Os atentados deram a Bush a
oportunidade de lançar uma ofensiva reacionária e recolonizadora. O
imperialismo ianque pode sair à guerra contra meio mundo (e subjugar a outra
metade), porque o atentado das Torres voltou a grande parte do povo
norte-americano ao apoio de um governo que era um dos mais débeis e
controvertidos na história do país. Este “giro” político nas massas da
principal potência imperialista é o principal fator que permite ao milionário
analfabeto George W. Bush levantar seu “gran garrote” sobre todo o planeta.
Ainda que este apoio comece a reduzir-se, todaviaé massivo o suficiente para
respaldar seus abusos.
O imperialismo
norte-americano desenvolve esta ofensiva em múltiplas frentes. No militar, não
se limitou a invadir e ocupar o Afeganistão, preparar novas guerras (como
planeja contra o Iraque) e espalhar bases por todo o planeta. Também desatou
uma corrida armamentista e nuclear que ameaça abertamente a Rússia, China e
outras potências. Em relação aos outros imperialismos, o EUA os trata impondo
sua hegemonia com uma política de fatos consumados, sem negociar nem ceder em
questões essênciais. Porém onde talvez mais se note o giro, é no impulso
redobrado aos processos de recolonização, que vinham de antes mas que agora
assumem formas cada vez mais diretas e brutais.
Tudo isso se faz sob o lema
da “guerra contra o terrorismo”, um conceito suficientemente elástico para
encobrir as piores barbaridades. O genocídio do povo palestino é um episódio
particular desta ofensiva desatada pelo imperialismo americano.
A imprensa e a TV
norte-americanas, manipuladas, apresentam o genocídio dos palestinos como outra
batalha da “guerra contra o terrorismo”. A resposta de Sharon aos “terroristas”
que se imolam por “fanatismo” é justa – ainda que um pouco “excessiva”.
Nos meios de comunicação de
outros países, mostra-se mais a realidade, porém mesclada com outras
falsificações. Pintam-na como uma “guerra” entre forças equivalentes, dos povos
que se matam por “ódios seculares” (que ninguém explica). Condena-se, assim, “a
violência de um e outro lado”, igualando a opressores e oprimidos,
colonizadores e colonizados.
UMA
RESISTÊNCIA HERÓICA
Os palestinos resistem
heroicamente não só a uma ocupação colonial, mas também a uma tentativa de
aniquilar-los como povo, mediante a diáspora, os massacres, a legalização da
tortura (que se aplica sistematicamente), as prisões em massa, a destruição de
seus lares e plantações, suas escolas e hospitais, a privação de água (80% vai
para os 200.000 colonos e o resto para os 3 milhões de palestinos dos
Territórios Ocupados), as humilhações diárias de racismo e apartheid, e até a
tentativa de afogar também suas expressões culturais. Faz 54 anos que sofrem
isto tudo, e a situação foi-se agravando, apesar dos enganosos “acordos de paz”
que os dirigentes palestinos firmaram.
Não se pode então condenar
aos jovens palestinos que se imolam, por responder assim a esse terrorismo de
Estado de seus opressores. Sua resposta tem a mesma legitimidade que as ações
dos lutadores europeus contra os ocupantes nazistas durante a II Guerra
Mundial, ou a dos lutadores do gueto de Varsóvia, que se imolaram enfrentado as
tropas de Hitler.
OS
PLANOS DE PAZ QUE NADA RESOLVEM
Tem tido repercussão a oferta
da Arábia Saudita de normalização de relações entre os países árabes com Israel
em troca de sua retirada dos Territórios Ocupados. Não há nada de novo na
proposta. É o “plano Reagan” de 1982, o “plano Fahd” de 1983, o “plano de
Madrid de 1991” e outros similares. Sempre boicotados por Israel e EUA. Neste
caso, é possível que o roteiro tenha sido escrito em Washington.
Os Estados árabes reuniram-se
em Beirute de 27 a 28 de março para dar um solene apoio ao plano saudita. Foi
outra vez uma grande farsa para ocultar o papel canalhesco que cumprem esses
governos em relação aos palestinos. Enquanto seus povos apoiam a Intifada,
esses governos não tomam nenhuma medida efetiva, seja econômica, política ou
militar, em socorro dos palestinos. Descartaram, por exemplo, as propostas de
um boicote de petróleo, que neste momento poderia ser um duro golpe às
economias do Ocidente,
Na verdade, a maioria dos
regimes corrompidos e ditatoriais que imperam no mundo árabe se sustentam em
grande medida, graças ao apoio do EUA contra seus povos. Depois de Israel, é o
Egito que recebe a maior ajuda militar e econômica do imperialismo ianque. Só
este fato retrata o papel servil e traidor desses regimes.
Os “acordos de paz de Oslo”
de 1993 não trouxeram “paz” alguma, porque nem sequer implicavam que nos
Territórios Ocupados em 1967 iria se estabelecer finalmente um Estado
Palestino, como uma semi-colônia“normal”, tais como Jordânia ou Egito. Quer
dizer, um Estado e governo “próprio”, formalmente “independente”, ainda que
submetidos ao imperialismo pela supremacia econômica e pactos políticos e
militares. Esse Estado semi-colonial palestino seria também dependente de
Israel.
Essa solução “normal”,
semi-colonial, era e é a “saída” sustentada, de uma ou outra forma, pela
maioria dos países europeus e pelas burguesias árabes e “islâmicas”, e por uma
minoria dos próprios israelenses. Também os Acordos de Oslo, foram a princípio
aceitos resignadamente pela maioria dos palestinos dos Territórios Ocupados,
que o viram como um passo adiante.
Porém Israel aproveitou os
anos da “paz” de Oslo, para instalar mais de 200.000 colonos fanáticos e
fascistas, para apoderar-se de quase toda a água, e de mais e mais terras nos
Territórios Ocupados, expulsando aos palestinos que tinham nelas suas casas e
plantações. À chamada “Autoridade Nacional Palestina” só se deixou o controle
de setores menores dos Territórios, com a agravante de serem cada vez mais
fragmentados.
Sobre essa base, tem sido
impossível falar a sério de um “Estado Palestino”, ainda que fosse a mais
submissa semi-colonia. Esse rosário de guetos ou bantustões
onde foram encerrados os palestinos, não foi o passo a um status semi-colonial,
e sim a continuidade e aprofundamento da ocupação colonial de Israel, só que
essa “ordem” ia ser garantida por um setor dos próprios palestinos, o aparato
de Arafat e da ANP (Autoridade Nacional Palestina).
Isto levou a situações cada
vez mais intoleráveis. A nova Intifada detonada em 29 de setembro de 2000 –
pela profanação de Sharon à mesquita de Al-Aqsa – foi a explosão de um povo
farto de ser ultrajado. A essa altura,se haviam desvanecido as ilusões em Oslo.
A grande maioria repudiava os acordos.
Arafat e o antigo aparato da
OLP, transformado em “Autoridade Nacional Palestina”, serviu submissamente nos
primeiros anos da aplicação de Oslo. Refletindo a setores da burguesia
palestina e de outros países árabes que tradicionalmente a financiaram (e
também a seus próprios interesses), a cúpula da ANP associou-se ademais com
capitalistas israelenses para fazer negociatas. Em seu servilismo, não hesitou
sequer em estabelecer um comitê conjunto de repressão (presidido pela CIA) com
os serviços de inteligência de Israel, torturadores e assassinos de várias
gerações de lutadores palestinos.
Hipoteticamente, Arafat e a
ANP teriam podido cumprir um papel similar ao de Mandela e o Congresso Nacional
Africano na África do Sul, si se tratasse simplesmente de descolonizar e
terminar com o apartheid nos Territórios Ocupados e passar a um status de
semi-colônia. Porém isto implicava uma retirada que vai contra a natureza mesma
do Estado de Israel, nascido como colonizador e racista, e que ademais afeta a
seus interesses em várias esferas (demográfica, militar, ecológica, etc.). E o
EUA não exigiu nem exige outra coisa a Israel.
Arafat ficou assim feito um
sanduíche entre a nova Intifada, e Israel e EUA que lhe exigem por ordem.
A
INTIFADA E OS PROBLEMAS POLÍTICOS E DE DIREÇÃO
É falso que na Intifada se
expressa um predomínio absoluto das correntes fundamentalistas sobre a tradição
progressiva do nacionalismo laico, que caracterizou a resistência palestina. Na
verdade, atuam duas correntes principais: uma efetivamente, islâmica. Mas
outra, não menos forte, a de uma “jovem guarda” do mesmo movimento
nacionalista, que começou a atuar por conta própria, descontente com a
corrupção, o autoritarismo e o servilismo da cúpula diante de Israel e EUA.
Porém, ainda que o
fundamentalismo tenha ganhado presença, não há semelhanças com movimentos como,
por exemplo, o taliban, surgido de uma contra-revolução auspiciada pela CIA
mediante as ditaduras militares do Paquistão. A longa tradição relativamente
democrática e laica, e o fato que enfrentam a outro fundamentalismo, o judeu,
deram à resistência, inclusive islâmica, uma cor muito distinta.
Entretanto, isto não pode
ocultar os graves problemas políticos e de direção que sofre a rebelião do povo
palestino. Tanto o tradicional nacionalismo laico como o Hamas e outros
movimentos “islâmicos” mantém políticas desastrosas. Não existe uma política
dessas direções para ganhar às massas e a opinião pública do EUA e outros
países cujo apoio a Israel é decisivo. Por parte de Arafat, sua política se
dirige não às massas, e sim aos sucessivos governos americano para
demonstrar-lhes que ele pode ser um servidor ainda mais fiel e útil que Israel.
Os fundamentalistas, ao colocar o combate em termos religiosos, tampouco
contribuem nesse sentido. O apoio internacional à luta contra o apartheid na
África do Sul foi decisivo para terminar com esse regime. Com mais razão, a
causa palestina necessita de um apoio internacional ainda mais amplo.
Da mesma maneira, a submissão
dessas direções a diferentes governos árabes ou islâmicos, as priva de toda
política efetiva para as massas desses países, que estão de coração com a causa
palestina.
Dentro desse marco, é
necessário avaliar politicamente os atentados. Já assinalamos que diante do
brutal terrorismo de Estado e do genocídio em cotas que vêm sofrendo os
palestinos há 54 anos, são compreensíveis e legítimas essas ações. No entanto,
ao mesmo tempo, é preciso dizer que politicamente são contraproducentes. Os
atentados tenderam a substituir as ações de massas do começo da Intifada. Por
outro lado, pelo menos em um primeiro momento, contribuíram para unificar com
Sharon uma maioria de israelenses.
AUTODETERMINAÇÃO
DO POVO PALESTINO
Que saída de fundo propomos
para a Palestina? Defendemos em primeiro lugar, o direito de autodeterminação
do povo palestino. Como parte essencial deste direito, defendemos o direito de
retorno a seus lugares de origem (seja nos Territórios Ocupados ou dentro das
fronteiras de 1948). Esta é uma consigna democrática irrenunciável, e uma das
piores capitulações de Arafat foi a de abdicar dela em Oslo. É uma injustiça
monstruosa que se negue o retorno aos palestinos expulsos pela força e/ou
nascidos no exílio, enquanto que qualquer pessoa de religião judia (ainda que
tenha nascido em qualquer parte e nenhum de seus antepassados provenha da
palestina) tenha o direito à cidadania israelense e a “retornar a sua pátria”.
Se, livre e democraticamente,
os palestinos, incluída a diáspora, optam por estabelecer um Estado próprio nos
Territórios Ocupados, apoiaríamos o exercício desse direito, ainda que essa
proposta não seja a nossa. O problema é que, se o Estado de Israel continua
mantendo seu caráter colonial e racista, e segue dominando a região, um Estado
palestino reduzido a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental, seria, no melhor
dos casos, uma semi-colônia de Israel e, no pior, a administração “palestina”
de um bantustão. Nessas condições, a guerra estaria sempre atrás da esquina.
Em outras palavras: estamos
incondicionalmente pela total retirada de Israel da Cisjordânia (incluindo
Jerusalém Oriental) e Gaza, e defendemos o direito dos palestinos de proclamar
seu Estado com esta base territorial (já que quase todos reivindicam isso).
Mas, ao mesmo tempo assinalamos que isto, no fundo não solucionaria muito. Por
um lado, as duas populações estão de fato mescladas, por outro, se Israel
continua existindo como Estado colonizador e racista, seu império sobre a
totalidade da região (e sobre o mini-estado palestino) se manteria. Por isso,
ainda que pareça como a mais “realista”, a perspectiva de dois Estados na
verdade solucionaria pouco ou nada.
A única perspectiva realista
seria um único estado laico, democrático e não racista. Este seria
“binacional”, já que deveria conter duas realidades nacionais, a palestina e também
a judia.
ROMPER
O ISOLAMENTO: UM AMPLO MOVIMENTO MUNDIAL DE SOLIDARIEDADE AO POVO PALESTINO
A selvageria de Sharon e o
heroísmo palestino são tão notórios, que começaram a romper a cortina de
mentira da propaganda sionista e norte-americana. Jogaram um papel relevante as
arriscadas ações de personalidades como o líder camponês francês José Bové, o
Prêmio Nobel de Literatura José Saramago, o euro-deputado trotskista Alan
Krivine e centenas de ativistas de movimentos sociais e pacifistas que
marcharam à Cisjordânia e deram testemunho das atrocidades.
Por cima, até o Papa, os
governos europeus e a ONU queixaram-se. Mas os “reclamações” desse coro revelam
ao mesmo tempo sua voluntária impotência. Além dos discursos que o vento leva,
ninguém pensa em tomar medidas – por exemplo, sanções econômicas, como contra a
África do Sul. Os governos árabes são ainda mais timoratos...
Mais importante pode ser o
que começa a surgir por baixo. O mesmo Sharon admite que as simpatias mundiais
começam a inclinar-se para os palestinos. Tanto em países árabes e islâmicos
como na Europa, começaram a dar-se manifestações de apoio, desde distintos
setores sociais e políticos. Inclusive em Israel, ainda que se tratem de uma
minoria, setores da população judia têm se manifestado, junto com ativistas
palestinos e pacifistas, contra as agressões do exército. Uns 500 “refuseniks”,
soldados na ativa ou na reserva, entre eles alguns altos oficiais, tem se
negado a obedecer as ordens de atuar nos Territórios Ocupados, apesar das
punições.
Romper o isolamento dos
palestinos mediante a mobilização internacional seria decisivo. Um amplo
movimento mundial de solidariedade poderia também influir sobre as massas
norte-americanas, cuja atitude é determinante para acabar com a proteção
incondicional de Washington aos criminosos de guerra que governam Israel.
É necessário, então, um
movimento de solidariedade mundial que possa unir amplos setores sociais,
políticos e ideológicos. Muito mais que as soluções de fundo que cada um
sustente, é necessário unir-se em defesa do povo palestino.
Para isso, haveria que
começar por exigir a retirada imediata e incondicional do Exército de Israel e
de todos os colonos dos Territórios Ocupados. Isto responde à necessidade mais
urgente: parar a matança dos palestinos. É além disso, uma consigna que poder
ser comum a amplos setores (incluindo os israelenses que querem viver em paz),
ainda que tenham distintos pontos de vista sobre as saídas de fundo.
Por outro lado, cremos que há
que se opor a propostas de “capacetes azuis” da ONU ou tropas de qualquer outra
cor, que supostamente viriam a “separar aos contendores”. A experiência da
Iugoslávia indica que equivaleria a estabelecer um “protetorado”, que seria um
obstáculo adicional para a libertação do povo palestino.
Com a exigência de retirada
dos Territórios Ocupados, devemos cobrar o pronunciamento das organizações
operárias, populares e democráticas, dirigir-nos a todos os movimentos sociais,
como o que se tem mobilizado recentemente em Barcelona... Um grande movimento
internacional pode deter o genocida Sharon e salva a vida e conseguir a
liberdade de milhões de palestinos.
II FÓRUM
SOCIAL MUNDIAL: UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL?
Em função da perda de
prestígio da idéias neo-liberais, graças às sucessivas crises econômicas que
abalaram o mundo e as grandes mobilizações ocorridas desde 94, com o auge em
Seatle e Washington, cada vez mais setores da esquerda institucional buscam
ocupar espaço político, apresentando um projeto neo-reformista do capitalismo.
Com isso surgiu o I Fórum social
mundial em 2001 e, esse ano, no final de janeiro ocorreu o II.
A
conjuntura atual está marcada
por grande atividade do chamado movimento anti-globalização e da crise tanto do
capitalismo, onde o exemplo vivo é Argentina e Venezuela, exigindo uma busca de
resposta política por parte da vanguarda e, por outro, como a crise de
alternativa, quando essa mesma vanguarda não tem uma referencia clara do que
buscar.Com isso, o FSM passou a ser visto, por amplos setores organizados em
ONG´s, partidos políticos e mesmo ativistas independentes, como uma referência onde pode se debater e
encontrar respostas políticas para “ um outro mundo possível”.
O Fórum caracteriza-se
pelo seu caráter diversificado e
contraditório, composto por amplos setores, que vão desde a direita do PT, a
social democracia européia, passando por ambientalistas, grupos religiosos e
étnicos, estudantes e sindicalistas da América do Norte até organizações
revolucionárias como o MAS, o SWP inglês e outras organizações afins. Com essa
composiçãoé possível perceber o caráter heterogêneo do evento.
Essa heterogeneidade
expressou-se numa cisão de fato do Fórum. Por um lado houve o chamado fórum oficial : formal, ultra
burocratizado, onde só os figurões falam e a platéia fica ouvindo, passiva, sem
ter o direito de debater. Sem contar a barreira econômica imposta pela
organização para a participação, a chamada
taxa de credenciamento de 50 dólares para o primeiro delegado e 25 para
cada outro inscrito. Aí o neo-reformismo teve o seu palanque para o mundo, via
imprensa.
Com destaque para o PT que se apresenta como
alternativa viável ao capitalismo mundial e insiste na propaganda do orçamento
participativo como solução para todos os problemas, o que não passa de uma
grande mentira. ( ver artigo sobre o Orçamento Participativo)
Por
outro lado houve o que podemos dizer FSM paralelo, composto pelas
oficinas, pelo acampamento da juventude e pelas iniciativas de diversos grupos.
Aí foi possível intervir, fazer política, travar contatos com uma infinidade de
gente e grupos, nacional ou de outros países, embora não possamos caracterizar
esse espaço como revolucionário. É mais um espaço aberto, caótico, destinado a
dar vazão a uma série de demandas de
discussão e apresentação de idéias de vários agrupamentos e pessoas
Infelizmente, por mais
rica que tenha sido a experiência, a eficácia de um fórum deste tipo, para
encontrar uma resposta à crise foi muito baixa. E, ao nosso ver, a dispersão
foi proposital pois a organização oficial não queria discussões sobre um eixo
concreto, como por exemplo, combate à globalização.
ACAMPAMENTO MUNDIAL DA JUVENTUDE
Tinha por volta 13 mil
pessoas. Aí perdeu-se também a oportunidade de buscar uma coordenação das lutas
da juventude como a marcação de um dia de luta global contra o capitalismo, em
defesa da lutas do povo argentino. O que aconteceu foram apenas atos que, na
nossa volta para casa , não tiveram continuidade de luta .
O que podemos dizer, do
ponto de vista do movimento, é que, pela falta de uma intervenção mais
organizada, que fizesse do acampamento um fórum de discussão e resolução,
perdeu-se uma oportunidade de, por exemplo, organizar a luta contra a ALCA.
ATIVIDADES SOBRE O TEMA ARGENTINA
No
fórum paralelo, o tema que mais pegou foi a situação da Argentina.
Em linhas gerais a
situação do país é caótica. Não há dinheiro e o país está paralisado. Há uma
profunda crise de dominação burguesa e não há, a princípio, uma saída ao caos
estrutural do país. O imperialismo precisa bancar bilhões de dólares para que o
país possa sair da crise. E, até o momento, não está claro o que ele pretende
fazer. O movimento segue muito forte, com um novo fenômeno, as assembléias por
bairro que reúnem de 3 a 6 mil pessoas. Estas assembléias estão discutindo e votando
tudo, desde como burlar os cortes de linha telefônica até conter as
depredações, temas como não pagamento de divida externa e se devem ser
governados por democracia representativa ou democracia direta. Estes temas
aparecem em diversas assembléias, não ao mesmo tempo.
E esse processo
desacreditou os partidos da direita e passou por cima dos da esquerda, que
apesar de estarem crescendo nesse processo, não deram a tônica. Há uma forte
atividade de massas, milhões entraram em. Não se pode dizer se vai ou não para
uma revolução socialista, pois há uma longa marcha para chegar até lá, mas é
sem dúvida, um processo revolucionário.
Houve no fórum um ato em
solidariedade a luta do povo argentino, com a participação de umas 500 pessoas.
Fora isso, uma ou outra
oficina atraiu a atenção mas sem poder dar uma diretriz clara ou que agrupasse
os setores no sentido de expandir a luta contra o capitalismo.
COMO AVALIAMOS O II FSM
De
propostas concretas o II FSM foi um fiasco. Com declarações vagas dos
principais dirigentes e figuras, ficamos na mesmice. Esses senhores, que não
estiveram em nenhum momento nas lutas dos jovens e trabalhadores em Seatle,
Washington, Praga, Gênova, Buenos
Aires, não poderiam traduzir a mensagem que surge dessas mobilizações. Tampouco
o PT, que reprime e arrocha o salário do funcionalismo público, seja qual for o
estado ou município que administre, pode apresentar uma alternativa ao
capitalismo.
Nesse
sentido, o II FSM foi um fracasso para a luta contra o capitalismo e a
globalização. Pois o objetivo do neo-reformismo é capitalizar as mobilizações
para ganhar mais espaço junto ao imperialismo apresentando-se como uma
alternativa dentro do sistema. No entanto como há estreitos limites para
reforma, suas propostas ficam sem bases reais para oferecer aos trabalhadores
uma perspectiva reformista.
No
entanto, pelo fato de ali estarem amplos setores de lutadores anti-globalização
cremos que a esquerda revolucionária perdeu uma oportunidade de se articular
nacional e internacionalmente. Havia a oportunidade do FSM com uma proposta de
luta e de pauta, contrapondo-se de maneira efetiva ao FSM reformista. Mas isso
não foi feito.
Diversos
grupos ou optaram solenemente por não ir, declarando o fórum reformista , uma
política complicada, pois acham que existe uma realidade pura, na qual as
correntes reformistas e burocrática não atuam , onde só existem os
revolucionários, deixando de lado uma amplo movimento, ou os demais grupos e
partidos que foram e se prenderam aos seus mesquinhos objetivos de construção e
esqueceram o objetivo maior.
Assim
não depositamos nenhuma confiança no FSM. É papel dos revolucionários, nas
próximas edições, dar um combate mais efetivo pelas suas idéias, procurando
articular os setores lutadores que comparecerão aos próximos Fóruns , para
avançar na luta contra o capitalismo.
Mudanças
na CLT
Dia 21/03: O que aconteceu com a “Greve Geral”?
O Governo Federal, seguindo a política do FMI e dos
empresários, vem mais uma vez com toda força atacar os direitos dos
trabalhadores através da "Reforma da CLT".
Como se não bastassem as políticas anteriores, a
reforma da CLT vem para aumentar ainda mais as desigualdades entre ricos e
trabalhadores.
Como sempre, vem mascarada de algo necessário e
positivo: "flexibilização",
"reforma", "modernização", "garantia de
emprego", etc. Seja lá o nome que se dê, significa a retirada de direitos
e aumento da exploração.
Retirada
de direitos num país onde se tem um dos piores índices de distribuição de renda
e onde mais de 50% dos trabalhadores não tem sequer garantidos os direitos
mínimos previstos em lei, sem falar do baixo índice salarial, deixa claro que o
capital quer aumentar a exploração via precarização do trabalho.
Deste governo e dos capitalistas não devemos esperar
algo diferente, pois é da exploração sem limites que eles subsistem. Também não
se deve esperar resistência de organizações como a Força Sindical, que se diz
representante dos trabalhadores, mas
vende os direitos destes em troca de
verbas como a do FAT, cujo uso é questionável. Sua política é, desde a sua
origem, a conciliação com os empresários e a defesa de governos neoliberais. É
nefasta sua atuação no movimento sindical em conjunto com os patrões, quando
para legitimar as reformas na CLT organiza assembléias para intimidar os trabalhadores
com ameaças de demissões, redução de salário, etc.
Mas e a CUT? É um ponto de apoio da luta dos
trabalhadores contra essa contra-reforma?
A "Greve Geral" convocada pela CUT para o
dia 21 de março poderia ter sido uma importante luta de resistência, mas não
foi o que ocorreu. O que aconteceu foi a marcação de uma greve geral que não
foi seguida sequer pela própria central e pelos sindicatos a ela filiados, se
transformando disfarçadamente em um "dia de protestos". Isto merece uma reflexão . . .
O nível de ataque que o governo está fazendo com a
"Reforma da CLT" merece uma resposta proporcional de resistência dos
trabalhadores para impedi-la, através de uma luta direta.
Historicamente a greve geral é uma importante forma de
luta dos trabalhadores, seja de resistência , seja de conquistas, contra os
governos e o regime capitalista. A política da direção majoritária da CUT (com
conivência dos vários outros setores) leva à desmoralização e descrédito de um
dos mais importantes instrumentos de luta do proletariado. A Greve Geral tem
uma importância fundamental por demonstrar a todos que são os trabalhadores que
movem a sociedade, quando os trabalhadores param, pára o país. Já o capital não
cumpre nenhum outro papel que não o de se reproduzir às custas dos
trabalhadores. Por isso, uma greve geral deve ser organizada com seriedade e com o máximo de democracia entre os
trabalhadores
A marcação do dia 21, revelou-se um jogo de aparências
pois foi seguida de falta de preparação
e traição na mudança do caráter da mesma sem ter a coragem de assumir essa
mudança.
A falta de democracia ficou clara, pois todas as
decisões ocorreram sem que os próprios trabalhadores ( os verdadeiros
envolvidos ) fossem chamados a discutir, decidir e organizar a luta através da
Greve Geral. Raríssimos foram os sindicatos que realizaram assembléias para
deliberarem sobre esta greve. Isto expressa uma política, que vem sendo
implementada já há alguns anos, de não impulsionar a luta direta nem a organização de base.
Assim como repudia-se os métodos da "Força
Sindical", por vender os direitos dos trabalhadores sem consultá-los,
igualmente não se pode decidir em nome dos trabalhadores sem a participação dos
mesmos.
O que vimos foi um “dia de protestos” que nem de longe
atingiu o objetivo de barrar a retirada de importantes conquistas dos
trabalhadores, pois o projeto que altera o art. 618 da CLT permanece em pauta
para votação, não cabendo aqui nenhuma ilusão no Governo, Senado, processo
eleitoral ou no novo governo a ser eleito.
As chances dos trabalhadores de barrar estes ataques
existem, mas só através de uma luta forte, direta e democrática, onde sejam os
próprios trabalhadores a decidirem sobre os rumos e a organização de sua luta e
não com os métodos usados nesta
"greve geral" marcada para o dia 21/03.
“MÍDIA, REALIDADE, SOCIEDADE
HIPÓCRITA”.
Caverna – Grupo Cultural Cacorê
Em dois dos três bilhetes
encontrados pela polícia no apartamento de Mateus da Costa Meira, o matador do
MorumbiShopping, lia-se a mesma mensagem: “Mídia, realidade, sociedade
hipócrita”. No terceiro, lia-se: “Isso é efeito da droga. Eu não sou assim”.
Além disso, descobriu-se que Mateus possuía um distúrbio persecutório ( mania
de perseguição ), e que já havia permanecido internado em uma clínica psiquiátrica.
Até aqui tudo bem! Dos males o menor! Para a alegria
da classe média, o caso de Mateus é um caso isolado, e apesar do susto os
shoppings ainda podem ser considerados seguros. Não é fácil, mas combatendo as
drogas e o comércio de armas, tratando os loucos, melhorando a qualidade da
TV... Há uma luz no fim do túnel!
Os otimistas pararão por aqui. Apontadas as causas e
as soluções do problema eles poderão dormir tranquilos. Contudo. E se
continuássemos a refletir? E se considerássemos a mensagem “Mídia, realidade,
sociedade hipócrita”? E se lembrássemos que o próprio Mateus é filho da classe
média, e que ele tinha “tudo para dar certo”?
No início desse ano morreu na prisão Fernando Dutra
Pinto, o sequestrador que raptou Patrícia Abravanel, a filha de Silvio Santos,
e depois voltou à casa do apresentador mantendo-o como refém. Fernando, ao
contrário de Mateus, era filho de uma família humilde da periferia de São
Paulo, manejava bem armas de fogo e não apresentava nenhum distúrbio.
Ousado e inteligente, Fernando, ao invadir a mansão de
Sílvio Santos, protagonizou um daqueles raros momentos em que a realidade
supera a ficção, como nos ataques de 11 de setembro. Coerente com os
ensinamentos do velho Silvio, o sequestrador “topou tudo por dinheiro”, apostou
a vida e a “liberdade”. Perdeu Tudo. Cercado pela polícia acabou preso e depois
morreu na prisão de forma misteriosa. Mas por alguns momentos a criação
submeteu o criador, e o velho apresentador, acostumado a explorar a intimidade
e as desgraças da vida, acabou tendo seu drama transmitido para todo o país,
proporcionando entretenimento de qualidade (para os padrões do SBT) ao ser
vitimado pela idéia de topar tudo por dinheiro levada às últimas consequências.
O que chama a atenção em ambos os casos é o novo:
balas que saem da tela e sequestrador que volta ao local do crime. Contudo, as
semelhanças param por ai. Enquanto Fernando era um profissional da violência,
Mateus, por outro lado, parecia querer devolver uma violência sofrida. Ele
dizia-se perseguido por vozes, teria atirado na platéia da sala de cinema por
ter visto seus perseguidores nela. A questão é saber o que diziam as tais
vozes. Seria onde você mora? Vem sempre aqui? Onde você trabalha? Onde você
estuda?
O terrorismo individual, como o praticado por Mateus,
costuma acontecer nos locais em que a pessoa sente-se mal. Nos Estados Unidos
aconteceram casos em escolas e também em escritórios. O assassino parece querer
vingar-se de um Mundo frio e indiferente; é como se ele gritasse: “ Olhem, eu
estive aqui por tanto tempo e ninguém me deu atenção. Morri aqui dia após dia e
ninguém viu. Agora todos pagarão”. O assassino não reivindica nem dinheiro nem
nada, apenas vingança. Diferentemente de Fernando que reivindicava os
benefícios oferecidos pela civilização inacessíveis a jovens de periferia como
ele.
A lição dessa história toda é que raios caem duas
vezes no mesmo local, como caíram no jardim da família Abravanel. Da mesma
forma outros matadores como Mateus aparecerão Mundo afora, e como raios trarão
a morte, resta saber se em cinemas, dinâmicas de grupo, academias de musculação
ou em praias. Em geral os matadores serão jovens de classe média que sentem na
carne o peso do distanciamento entre as possibilidades pessoais e as exigências
estéticas, profissionais, culturais, etc. Quanto às carreiras de sequestrador,
assaltante, entre outras a serem criadas, as vagas estão abertas aos mais
ousados que queiram grana; para os menos corajosos, que sejam pagodeiros ou
então jogadores de futebol.
De resto, saber se Mateus premeditou o crime ou não é
coisa menor, depois de praticado o ato isso nada altera. Preocupante é saber
que o rapaz (Mateus) que é maluco esteve tanto tempo entre os “normais” e
ninguém o notou. Quanto a saber se os filmes, principalmente os de hollywood,
influenciam ou não ações violentas, como disse Contardo Calligaris: “Se o
cinema não influência nosso comportamento, quem o faz: os tratados de ética do
século 17”. Na verdade a influência do cinema pode ser sentida menos na ação de
Mateus e mais na comoção após o ocorrido, já que se fossem milhares de
“soldados inimigos”, “terroristas”, ou mesmo civis mortos em uma terra distante
tudo bem, o problema é quando morrem pessoas inocentes que nos filmes são
sempre salvas no final.
GEOGRAFIA, ARTE, EDUCAÇÃO E IDEOLOGIA
Joacir
(Professor da rede pública de São Paulo)
Em sua origem, o termo estética vem da palavra grega aisthetiké,
que se refere a tudo aquilo que pode ser percebido pelos sentidos. Baseado
nessa etimologia, Kant definiu a estética, como a ciência que trata das
condições da percepção pelos sentidos.Foi, no entanto, o alemão Alexander
Baumgarten (1714 – 1762 ) quem a utilizou pela primeira vez
no sentido que ela tem, isto é, como teoria do belo e
das suas manifestações através da arte.
Como teoria do belo, a
estética pretende alcançar um tipo específico de conhecimento: aquele que é
captado pelos sentidos. Por esse motivo, ela difere e se contrapõeà lógica e à
matemática. Essas duas disciplinas partem da razão, e não dos sentidos, para
estabelecer um conhecimento que é “claro e distinto”, conforme o ideal de saber
proposto por Descartes.
A estética, por sua vez, parte da experiência
sensorial, da sensação da percepção sensível, para chegar a um resultado que se
poderia dizer “confuso” e “obscuro”, que não apresenta a mesma clareza e
distinção lógico-racional. Seu principal objeto de investigação é a obra de
arte.
Ocupando-se, também, da obra de arte encontramos a
filosofia da arte, que procura investigar o desenvolvimento artístico em busca
do “sentido” e da razão de ser da história da arte. Conforme
assinala Ernst Fisher, “a razão de ser da arte nunca permanece inteiramente
a mesma, A função da arte, numa sociedade em que a luta de classes se aguça,
difere, em muitos aspectos, da função original da arte. No entanto, a despeito
das situações sociais diferentes, há alguma coisa que nos possibilita – nós,
que vivemos no século XX – o comovermo-nos com as pinturas pré-históricas das
cavernas e com antiqüíssimas canções. Karl Marx descreveu a epopéia como a
forma artística típica de uma sociedade ainda não desenvolvida; e, em seguida,
acrescentou: Mas a dificuldade não está na idéia de que a arte e a epopéia
gregas estejam ligadas a certas formas de desenvolvimento social. A dificuldade
está em compreender por que ainda hoje nos proporcionam um prazer artístico e
valem, em certos aspectos, como norma e modelo insuperáveis”.
Assim, para Karl Marx, na arte historicamente condicionada por um estágio
social não desenvolvido, perdurava um momento de humanidade; e nisso Marx
reconheceu o poder da arte de se sobrepor ao momento histórico e exercer um
fascínio permanente. E ainda segundo Fischer, “ toda arte é condicionada
pelo seu tempo e representa a humanidade em consonância com as idéias e
aspirações, as necessidades e as esperanças de uma situação histórica
particular. Mas, ao mesmo tempo, a arte supera essa limitação e, de dentro do
momento histórico, cria também um momento de humanidade que promete constância
no desenvolvimento”.
Por diversos ângulos e com diferentes enfoques, as
discussões sobre a beleza e o estético tiveram uma presença marcante no
pensamento de vários autores, desde a antiguidade grega até os nossos dias.
Muitas dessas especulações tomaram o rumo de associar o belo ao bom, entrelaçando
os campos filosóficos da estética e da moral. Sócrates e Platão, já diziam que
o que é bom é belo, e o que é belo é bom. Assim, se o belo pode também
despertar o bom no indivíduo, deve fazer parte de sua educação. Assim, além da
educação ética, o escritor e pensador alemão Schiller ( 1759-1805 ) propôs a
educação estética como forma de harmonizar e aperfeiçoar o mundo e de o individuo
alcançar sua liberdade. Nas suas palavras: Para chegar a uma solução, mesmo
em questões políticas, o caminho da estética deve ser buscado, porque é pela
beleza que chegamos à liberdade.
A arte é quase tão antiga quanto o homem e representa
uma manifestação dos sentimentos individuais do artista, porém ela é antes de
mais nada um fenômeno social, o que significa que é praticamente impossível
situar uma obra de arte sem estabelecer um vínculo com uma determinada
sociedade.
O artista como ser social reflete em sua obra de arte
sua maneira de sentir o mundo, o que segundo Lukács significa que: “O
artista vive em sociedade e – queira ou não – existe uma influência recíproca
entre ele e a sociedade. O artista - queira ou não – se apóia numa determinada
concepção do mundo, que ele exprime igualmente em seu estilo”.
Mesmo possuindo uma subjetividade específica deixada
pelo artista, esta sempre será percebida e apropriada pelas pessoas. Sendo
assim, a obra de arte será um elemento social de comunicação da mensagem
artística.
Neste sentido Lukács afirmará que “uma arte que seja
por definição sem eco, incompreensível para os outros – uma arte que tenha um
caráter de puro monólogo – só seria possível num asilo de loucos(...) A
necessidade de repercussão, tanto do ponto de vista da forma, quanto do
conteúdo, é a característica inseparável, o traço essencial de toda obra de
arte autêntica em todos os tempos”.
Assim, dentro
de um processo dialético e como fenômeno social, a arte possui relações com a
sociedade, modificando-se historicamente.
Pela criação estética, a obra de arte tende a se
universalizar, a permanecer viva através dos tempos, anunciando uma mensagem
artística que, independentemente de seu conteúdo ideológico, expressa profunda
sensibilidade. Por isso, elaé capaz de atrair uma grande diversidade de homens,
culturas e sociedades. Neste sentido escreve Ernst Fischer: “Se fosse da natureza
do homem o não ser ele mais do que um indivíduo, tal desejo seria absurdo e
incompreensível, porque então como indivíduo ele já seria um todo pleno, já
seria tudo o que era capaz de ser. O desejo do homem de se desenvolver e
completar indica que ele é mais do que um indivíduo. Sente que só pode atingir
a plenitude se se apoderar das experiências alheias que potencialmente lhe
concernem, que poderiam ser dele. E o que um homem sente como potencialmente
seu inclui tudo aquilo de que a humanidade, como um todo, é capaz. A arte é o
meio indispensável para essa união do indivíduo como o todo; reflete a infinita
capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e
idéias”.
Tendo como princípio a impossibilidade da neutralidade
axiológica, a arte também não é isenta
e como definido anteriormente, ela é também um produto histórico e social que
pode também retratar as idéias próprias de certos grupos sociais e políticos,
possuindo portanto, um caráter ideológico.
Por influência de Karl Marx, a palavra ideologia
tornou-se largamente utilizada na filosofia e nas ciências humanas, designando
os sistemas de idéias que elaboram uma “compreensão da realidade” para ocultar
ou dissimular o domínio de um grupo social sobre o outro.
Nesse sentido, a ideologia tem funções como a de
preservar a dominação de classes apresentando uma explicação apaziguadora para
as diferenças sociais. Seu objetivo é evitar um conflito aberto entre
opressores e oprimidos.
A ideologia é, portanto, uma forma de consciência da
realidade, mas uma consciência parcial, alienada, ilusória e enganadora que se
baseia na criação de conceitos e preconceitos como instrumentos de dominação.
Conforme aponta a Professora Marilena Chauí, “a ideologia
só pode manter-se pela ocultação de sua gênese, isto é, a divisão social das
classes, pois sendo missão das ideologias dissimular a existência dessa
divisão, uma ideologia que revelasse sua própria origem se autodestruiria.”
Neste sentido, a arte pode, também ocultar antes que
revelar e, assim, o ato da educação
pode ser o ato da alienação.
Podemos afirmar que este processo de ocultação e de
alienação sofrido pela arte acentua-se a partir da segunda metade do
século XIX quando as regras do mercado capitalista e a ideologia da indústria
cultural transformaram as obras de arte em mercadorias, como tudo o que existe
no capitalismo, ou como assinala a Professora Marilena Chauí: “...a indústria
cultural separa os bens culturais pelo seu suposto valor de mercado: Há obras
“caras” e “raras”, destinadas aos privilegiados que podem pagar por elas,
formando uma elite cultural; e há obras “baratas” e “comuns”, destinadas à
massa. Assim, em vez de garantir o mesmo direito de todos à totalidade da
produção cultural, a indústria cultural introduz a divisão social entre elite
“culta” e massa “inculta”...
Observamos assim, nas artes, o fortalecimento da
divisão social existente na sociedade entre os que “têm cultura” e os que “não
têm cultura” bem como a apropriação desta produção cultural pelas elites.
Assim, a ideologia pode ser considerada como um processo
que tenta justificar a dominação de classe como algo natural (ter ou não ter) .
Portanto, a racionalização ideológica constrói uma visão de mundo para explicar
a realidade utilizando dados parciais e ocultando os reais interesses das
classes dominantes.
MOVIMENTO ESTUDANTIL E AS CIÊNCIAS SOCIAIS
Adriana Paula (PUC/SP) Maciel Shira (FSA)
A Democracia brasileira restringe-se a escolha de
representantes a cargos eletivos, tanto no Poder Legislativo como no Poder
Executivo. Retrata, portanto, o entendimento bastante restrito do sentido e
significado real de Democracia, visto que desconsidera a própria noção de
cidadania, entendida como participação do indivíduo na vida social e política
de sua nação, tendo respeitados e assegurados direitos sociais à moradia,
transporte, educação, assistência médica etc. É o cidadão participante,
consciente de seus direitos e deveres, cumpridor de suas obrigações, mas
respeitado em seus direitos, tanto por parte do poder público como da
iniciativa privada.
A Democracia burguesa representativa excluiu as
pessoas da participação política, desloca-as da esfera pública para a
particular. Essa lógica tem se reproduzido e sofisticado ainda mais, culminando
numa crise do pensamento que produz uma sociedade obscurecida e imóvel. O
resultado desse estado de coisas é a reprodução em larga escala de um sistema
social marcado pela dominação de poucos sobre muitos.
Deslocando o foco da análise para o movimento
estudantil, percebe-se que em grande medida as práticas políticas da juventude,
de forma geral, mimetizam a lógica política vigente. Isso é óbvio, pois se
caminhassem na contramão do modelo vigente estariam muito mais próximas do que
poderíamos chamar de “práticas revolucionárias”, infelizmente praticamente
inexistentes. O que assistimos são disputas por aparatos, pelo mero controle
descompromissado com a base e seus interesses; percebemos ainda, a falta de
interesse frente aos problemas sociais e econômicos que acometem nosso país e
outras nações, mostrando que o estudante tem dificuldades em estabelecer
relações causais entre os fatos ou o que é pior, demonstrando sua deliberada
ignorância frente a eles.
A mesmice, a falta de conteúdo, a superficialidade e acima de tudo a falta de ação, tão presentes no movimento estudantil atual, são frutos do domínio de um sistema capitalista que dita normas, modas e comportamentos, disseminando-os através de toda e qualquer forma de estrutura e convívio social. Não importa ao sistema a problematização consistente de assuntos e questões de importância local, nacional ou global e sim um tratamento superficial, de curta duração e muitas vezes sem a devida contextualização histórica. Isto não significa em hipótese alguma que estejamos fadados a seguir esse caminho, existem pessoas conscientes desses movimentos, poucas