JT WEB/ARTIGOS – 23/9/97

           

O profeta assassinado (II)

 

Moacir Werneck de Castro

 

O livro de Dmitri Volkogonov, Trotski – O Eterno Revolucionário(1), esclarece sob novos aspectos as maquinações que culminaram no assassinato de Leon Trotski na cidade do México, em agosto de 1940.

Agora se sabe a história toda, desfeitas as últimas dúvidas pelos documentos de NKVD, como era então chamada, antes da GPU, a polícia secreta soviética, tudo confirmado por um dos seus principais agentes na época, Pavel Sudoplatov, que o autor entrevistou. Esse homem teve como parceiro um superespião russo, Naum Eitington, que trabalhou em Xangai com o famoso Richard Sorge e foi controlador das atividades do não menos célebre espião inglês Kim Philby. A motivação de uma equipe tão capacitada para executar a sentença de morte contra Trotski permite avaliar a importância que Moscou dava à tarefa. Era preciso eliminar a qualquer preço o inimigo número um da  política soviética de construção do socialismo num só país, tanto mais quanto sabiam que ele estava reunindo documentos e informações para um livro devastador contra Stalin. Trotski vivia em situação relativamente confortável no México, e não tomava, apesar das advertências, as necessárias precauções contra um provável atentado.

Seu hospedeiro foi o pintor Diego Rivera. Outro grande pintor mexicano, David Siqueiros, comunista da linha soviética, envolveu-se num plano de assalto à casa de Trotski, nãopara matá-lo, mas para roubar documentos.

Em março de 1939, Stalin convocou pessoalmente Sudoplatov e Eitington, segundo o relato do primeiro, para transmitir a ordem definitiva, frisando que ela partia do Comitê Central. "Não preciso dizer o que isso significa", acrescentou. Não admitia fracasso, o que os agentes também sabiam o que significava.

Ramón Mercader, comunista fanático, de família comunista, foi recrutado e preparado psicologicamente para executar o atentado. Juntou-se a uma moça que se tornou secretária de Trotski, e ele próprio ganhou a confiança do líder, fazendo-se passar por simpatizante do trotskismo. No dia marcado, entrou na casa portando uma picareta por baixo de uma capa de chuva. Atacou Trotski sentado, pelas costas; a vítima gritou, veio gente e o matador foi preso. Trotski não morreu no ato, como estava planejado: viveria ainda 36 horas.

À porta da casa um carro estava à espera de Mercader, com o motor em marcha; dentro dele, Eitington e a mãe de Mercader. Os dois fugiram, advertidos pela gritaria, e conseguiram chegar a Moscou. Tarefa  cumprida. O assassino cumpriu alguns anos de prisão e, libertado, tomou o caminho da União Soviética.

Bem lhe haviam advertido que o México era o país ideal para o atentado, por não ter pena de morte. Sudopladov e Eitington foram condecorados com a Ordem de Suvorov. Mas o prestígio não durou muito: eram homens ligados a Beria, o facinoroso ministro do Interior (chefe de polícia), e quando este caiu arrastou-os junto. Foram ambos condenados à prisão, o primeiro a 15 anos e o segundo a 12, embora se defendessem alegando que cumpriam ordens do Comitê Central e revelando que importantes  líderes do Comintern prestavam serviços à NKVD.

O profeta às vezes previa o certo: deu como inevitável o choque entre a Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler. Até o fim, defendeu a URSS como "baluarte da revolução internacional proletária".

Impenitente, escrevia pouco antes de morrer:

"Durante 43 anos de minha vida consciente eu fui um revolucionário. Se tivesse que começar tudo de novo, procuraria, é claro, evitar este ou aquele erro, mas o curso principal de minha vida não sofreria alteração. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é menos ardente hoje - na realidade é mais firme - do que nos dias de minha juventude."

Foi um eterno sonhador. Vaidoso, cometeu muito mais erros do que  reconhece em seus escritos. Mas é, sem dúvida, uma das mais fascinantes personalidades deste século.

 

Moacir Werneck de Castro é jornalista e escritor  

 

  (1)Trotsky - The Eternal Revolutionary, de Dmitri Volkogonov (Free Press, New York, 1996).

O autor é um coronel-general do Exército soviético, chefe da seção de Educação Política. Nomeado diretor do Instituto de História Militar de Moscou no governo de Leonid Brejnev, começou a pesquisar nos arquivos da  NKVD, até então rigorosamente interditados, a história da Revolução e de seus principais líderes.

Escreveu biografias de Stalin e Lenin, depois essa de Trotski. Morreu de câncer em 1995.

 


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