Notas de um trabalhador sobre o 1º de maio

Vai companheiro, vai meu irmão ...
No paraíso canta a canção
Que diz da vida, que diz da morte
Que anda solta no meu sertão.
(Vem, vem Geraldo Vandré)

É certo que você já está cansado de promessas. No espelho da História, o novo governo é reflexo do velho.

Velhos discursos, que no dia a dia se traduzem no aumento da carne, do arroz e do feijão, na conta de luz, no gás, etc ...

E o seu salário? Bom, primeiro vem o medo de perdê-lo, depois, enquanto ainda o tem, vem a dúvida de qual dívida pagar.

É ..., passou a campanha eleitoral e tudo o que disseram, nem a cachaça escapou, ela também subiu, tá mais cara!

Então vem a pergunta: por que me orgulhar de ter um dia todinho para mim, diz o trabalhador?

Eu que já fui valente, fiz greve, enfrentei polícia, amaldiçoei o patrão, comi o pão que o diabo amassou ...

Eu que tanto acreditei que a união faz a força e vejo um ex metalúrgico chefiando a União. Para quê, pergunta o metalúrgico?

Para dizer que agora tem maturidade, que juros altos é coisa de gente séria, que o tal do mercado não pode ficar nervoso.

Qual o sentido de tudo isso, diz pensativo o trabalhador?

Ele que já ajudou a construir tantos 1ºs de maio, recheados de palavras de ordem, de esperança no socialismo, com suas bandeiras vermelhas! Um vermelho de gerações passadas, de companheiros que derramaram seu sangue na luta.

Cadê tudo isso, pergunta o trabalhador?

Em sua frente, vê um 1º de maio pálido, com a dignidade rifada em praça pública, com gente desesperada, brigando por sorteio, onde poucos ganham e milhares perdem, endossados por discursos clamando por responsabilidade.

Responsabilidade, qual?

A de gente agoniando nas sarjetas, de crianças chorando com fome, de velhos nas filas dos hospitais, enquanto banqueiros engordam ainda mais os seus lucros?

Não, definitivamente essa responsabilidade ele não terá!

E quando olha para o mundo afora, ele só vê o monstro multiplicado. Um monstro com as cores da bandeira norte-americana, pisoteando um país inteiro e que não parece que vai parar.

O que move tal máquina, indaga o trabalhador?

E de olho nas notícias o trabalhador começa a questionar, começa a comparar e a relacionar os fatos, começa a perceber que tudo está ligado. Que por trás dos atos está a tal responsabilidade.

Sim, o homem da Casa Branca também é responsável e tem que prestar contas aos seus sócios e aos donos de empresas de armas e mercadorias de todo tipo de seu país império.

E tem mais ..., se em um lugar ele joga bomba, em outro, como no Brasil, ele manda cortar gastos, aumentar juros, etc ...

E a tal da ALCA que vem ai para liberar os produtos norte-americanos sem pagar impostos em terras brasileiras e em toda a América Latina?

Vai ser aquela quebradeira de empresas nacionais e um desemprego ainda maior, conclui o trabalhador em suas reflexões.

Porém, longe de ficar pessimista, o trabalhador lembra-se de outras formas de luta, tão de acordo com o seu sangue quente:

As recentes manifestações em todo o mundo contra a guerra imperialista, a luta dos heróicos guerrilheiros colombianos, dos zapatistas no México, a luta do povo palestino, a dos trabalhadores venezuelanos com a sua Revolução Bolivariana, a do povo equatoriano, os piqueteiros argentinos e as do seu Brasil com os movimentos sem terras e sem tetos que não ficam pacíficos, pois sabem que: Fome Zero é uma piada que na se conta nas calçadas das grandes cidades e no chão seco do seu sertão.

Percebendo a História, o trabalhador vê que, governos, patrões e burocratas, atuam em conjunto e que os trabalhadores precisam lutar unificados, sendo solidários uns com os outros, sem distinção de etnia, cor, sexo, sob a única bandeira da classe trabalhadora de todo o mundo.

Que o 1º de Maio é motivo de orgulho sim, porque não é dia de todos os santos onde todos são iguais.

Não, esse dia é só seu! Seu e de seus companheiros.

É o dia símbolo de luta e esperança dos trabalhadores, onde nem patrão e nem seus colaboradores podem estar.

São Paulo, 1º de maio de 2003.

Comitê Permanente de Solidariedade aos Povos em Luta São Paulo


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