PERFIL
Não calarás


O escritor português José Saramago levanta sua voz indignada contra as injustiças sociais e o autoritarismo da globalização econômica.

 

Quando o navegante genovês Lanceloto Malocello chegou à ilha mais oriental do arquipélago canário, no século XIV, encontrou provavelmente cenário muito parecido com o do paraíso descrito nas Escrituras. Sete séculos depois, a bela ilha espanhola de Lanzarote, assim batizada em sua homenagem, é refúgio de um homem cuja saudável indignação já o levou a questionar do Criador todos e tantos castigos impostos aos humanos pós-pecado original, os mesmos pobres seres cuja cegueira, descreveu, não vem dos olhos, mas do espírito. Esse outro argonauta viaja com firmeza pelo mundo das palavras, onde cria suas próprias ilhas. É José Saramago, 78 anos, escritor português Nobel de Literatura em 1998.


Autor de mais de duas dezenas de obras, quase todas disponíveis ao leitor brasileiro, José de Sousa Saramago é ateu convicto. Poucos como ele, porém, emprestam sua obra e voz para defender aquele que deveria ser o mais cristão dos mandamentos – a busca da justiça. Uma justiça que, no mundo moderno, segue ameaçada pelo fenômeno da globalização econômica, alvo de dura crítica do autor em seu último livro, A Caverna. “A globalização econômica representa uma nova forma de autoritarismo. Não é preciso usar uma camisa azul, marrom ou preta. O totalitarismo tem muitas caras, e a globalização é uma delas”, afirmou recentemente na Espanha, durante a apresentação do romance, que já havia sido lançado com sua presença no Brasil em novembro passado.


No final de janeiro, o escritor foi convidado a pisar novamente em solo brasileiro, para participar, junto com outros grandes nomes da literatura, política e representantes de organizações não-governamentais, do Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre, encontro pautado pela busca de alternativas de desenvolvimento viáveis que fujam da ordem perversa imposta pela globalização. A ligação de Saramago com a gente brasileira vem de longe, talvez porque aqui, como na Portugal de sua origem camponesa, a similaridade vá além da língua e encontre afinidades em questões graves como a falta do emprego e a miséria, causada principalmente pela má divisão da terra e pela péssima distribuição da riqueza.

Em parceria com artistas nacionais, o escritor português inspirou e ajudou a produzir jóias raras em favor do povo do campo, como a música Levantados do Chão, de Chico Buarque, inspirada em seu livro Levantado do Chão. Prefaciando o ensaio fotográfico de Terra, de Sebastião Salgado, também está o texto cortante em que narra a visita de Deus a estas paragens, para constatar as tantas e inúteis atrocidades sofridas pelos homens após a expulsão do paraíso. “A penúltima imagem que ainda viu (Deus, antes de partir definitivamente para a eternidade) foi a de espingardas apontadas à multidão, o penúltimo som que ainda ouviu foi o dos disparos, mas na última imagem já havia corpos caídos sangrando, e o último som estava cheio de gritos e de lágrimas”, descreve, antes de abordar os massacres de sem-terra em Corumbiara (agosto de 1995) e Eldorado dos Carajás (abril de 1996).


Saramago nasceu em Azinhaga, província de Ribatejo, e não teve a educação formal que costuma rechear intelectuais ou escritores aclamados. No discurso de premiação do Nobel, lembrou como homem mais sábio que já conhecera em sua vida o avô camponês, analfabeto, que tantas vezes o encantara com suas histórias até o adormecer. O cotidiano dessa vida severina, de gente sofrida e calejada, está em Levantado do Chão. E uma história comum a milhões de miseráveis do mundo, a morte de um filho ainda criança, deu origem a Todos os Nomes, a partir da busca de dados da vida e morte de um irmão do escritor (Francisco de Sousa), aos 4 anos de idade, quando Saramago tinha apenas 2.


Até os 19 anos, o adolescente Saramago não tivera sequer um livro, e ganhava a vida trabalhando numa oficina mecânica. A descoberta de seu talento para o mundo foi tão tardia quanto vital. Há pouco mais de duas décadas, estava envolvido com traduções e contabilizava passagens pelo jornalismo. Sua carreira literária limitava-se ao romance Terra do Pecado e algumas coletâneas de poemas, mas nada que indicasse o grande autor que viria a se tornar já beirando a casa dos 60. A virada veio em 1975, quando foi demitido do cargo de diretor-adjunto do Diário de Notícias e decidiu não procurar emprego, dedicando-se à literatura. Era a peça que faltava para o tempo começar a engendrar o Nobel.


“José Saramago é atualmente o maior escritor em prosa na língua portuguesa”, avalia João Alexandre Barbosa, professor aposentado de teoria literária da Universidade de São Paulo. Para Barbosa, que foi pró-reitor de Cultura da USP e presidiu a Edusp, o equivalente a Saramago na literatura brasileira, em medida de importância, só pode ser Guimarães Rosa. “Guimarães é o grande autor brasileiro do século 20 em prosa e, Saramago, o maior em língua portuguesa”, compara. O professor, que leu recentemente A Caverna, considerou a obra excepcional. “Saramago defende o homem e o que há de humano no homem”, aponta.


Embora singular, o sucesso do escritor trouxe-lhe as mesmas e impiedosas conseqüências típicas aos que chegam lá: somados aos milhares de admiradores em todo o mundo, vieram também uns tantos desafetos. “Deixem o Brasil para Saramago. É o único lugar que ele tem”, espetou seu conterrâneo António Lobo Antunes, igualmente considerado dos grandes no time da literatura lusitana.

Com a perseguição que sofreu após ter publicado O Evangelho segundo Jesus Cristo, Saramago achou por bem deixar Portugal, partindo para Lanzarote com a mulher, Pilar. Ali, na pequena cidade de Tías, prepara agora aquele que deve ser seu próximo livro, prometido para a série Literatura ou Morte, da Companhia das Letras, em que o personagem será o escritor Alexandre Dumas, pai. E celebra, a cada dia, a principal parte de toda a história, muito mais saborosa que estar entre os expoentes do talento literário no mundo. “O melhor que me aconteceu foi ter uma vida suficientemente larga para que aquilo que tinha que chegar chegasse”, comemora o autor. O novo século agradece: vida longa a Saramago.

Maria Angélica Ferrasoli (angelica@spbancarios.com.br) é repórter da Revista dos Bancários. Formada em 1985, autuou em jornais diários como repórter, editora-assistente, colunista de Educação e editora (Diário do grande ABC, Agora SP) nas áreas de Cidades, Cultura e Lazer, Economia, Ciência e Tecnologia e Internacional. Também foi assessora de imprensa de entidades e empresas (Volkswagen do Brasil, Programa de Educação Integrar, entre outros) e colaborou em revistas de arte (coleção Pinacoteca) e do setor econômico (Livre Mercado, Bombril Trade), além de publicação ítalo-brasileira editada pela rede consular.

Milton Michida tem 36 anos e desde 1990 faz parte da equipe de fotógrafos do Estado. Conheça mais sobre seu trabalho em Especiais-AE-Fotojornalismo e A classe operária descobre a arte- JT

 


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