Apresentação à tradução brasileira

O pensamento do grande revolucionário russo, Leon Trotski, é uma obra polêmica1. Não poderia ser de outra forma: toda a sua obra está organicamente imbricada com aquele período crucial da luta de classes que se estende da época da II Internacional ao período do domínio stalinista no movimento comunista internacional. Uma época de grandes transformações: as duas revoluções russas, o colapso da II Internacional e a fundação da III Internacional, a derrota do “outubro” alemão (1923) e da revolução européia, a ascensão de Stalin na URSS, a chegada do nazismo de Hitler ao poder na Alemanha, a revolução espanhola. E a nenhum desses grandes acontecimentos Trotski deixou de dar respostas.

Nenhuma linha de seus vários escritos tem um caráter “abstrato” ou acadêmico. A linha que conduz, ininterruptamente, tanto as suas ações quanto as suas elaborações, é a luta pela transformação revolucionária. Um fato digno de nota é que Trotski raramente se vale de citações para emprestar “autoridade” aos seus argumentos. Para ele “o marxismo é um método de análise, não análise de textos, mas das relações sociais”. Imbuído desse espírito, procurou analisar e dar respostas políticas a todos os novos desafios políticos que a luta de classes lhe colocou. Exemplo disso são as suas análises sobre o fascismo, até hoje insuperáveis2.

Portanto, nada mais estranho a Trotski do que o dogmatismo. E é, de certo modo, irônico que a sua obra tenha sido “ossificada” justamente por seus seguidores que, em disputas às vezes escolásticas, realizam “exegeses” dos seus escritos para provarem os seus pontos de vista em tal ou qual questão3.

Qualquer obra enraizada no solo histórico da luta de classes não pode estar imune a equívocos e tensões, ao lado dos acertos e novas aquisições teóricas e políticas, como não o foram as obras de todos os grandes representantes do marxismo clássico, de Marx e Engels a Rosa Luxemburgo, Lenin e Gramsci.

No caso de Trotski menos ainda: a dimensão trágica de sua vida, após a sua expulsão da URSS até o seu assassinato em 1940 no México, é o suficiente para entendermos o por quê. De presidente (aos 26 anos) do soviet de Petrogrado em 1905, presidente do mesmo soviet (em 1917), organizador da insurreição de outubro, organizador e dirigente do Exército Vermelho nos anos cruciais da guerra civil, figura central, ao lado de Lenin, na jovem Internacional Comunista, Trotski estaria destinado ao exílio, acusado de agente do imperialismo e do fascismo, isolado e incapaz de intervir efetivamente no curso dos acontecimentos, além dos sofrimentos impostos aos seus familiares.

O Marxismo de Trotski, de Duncan Hallas, publicado pela primeira vez em 1978 na Inglaterra, é uma obra introdutória ao pensamento de Trotski, mas como o próprio autor indica, sua abordagem é “incomum”.

Sua análise considera os quatro eixos mais importantes da obra de Trotski: a teoria da revolução permanente; a análise do stalinismo; as questões relacionadas à estratégia e tática; a questão do partido revolucionário. Longe, portanto, de esgotar outros campos nos quais Trotski deu contribuições importantes4.

Mas o que distingue o livro de Hallas é que não se limita a expor o legado teórico-político trotskiano. Executa um resgate crítico de sua obra, mostrando, assim, tanto as suas grandezas quanto as posições que o autor considera problemáticas, principalmente no que se refere à análise do stalinismo5. Ao mesmo tempo ele aponta para futuros desenvolvimentos históricos que iriam problematizar as elaborações de Trotski, especificamente no caso da teoria da revolução permanente, com o advento das revoluções chinesa e cubana, principalmente6.

Não se trata de estabelecer o “lado bom” e o “lado mau” da obra de Trotski. Tal atitude, muitas vezes aplicada ao caso de Stalin, seria incompatível com uma análise marxista. Pois é exatamente o que realiza Hallas, não uma mera “análise de textos”, mas uma avaliação da obra de um dos maiores marxistas da história, contextualizando-a historicamente e submetendo-a ao crivo da própria crítica marxista.

E a conclusão, ao lermos o livro de Hallas, é que o marxismo de Trotski, enquanto parte do legado do marxismo clássico, é fundamental para enfrentarmos os desafios da luta de classes no mundo contemporâneo.

A presente tradução é de autoria de Günther Bachmann, revisão de A. Nehmad.

Duncan Hallas, é um membro do Socialist Workers' Party (Grã-Bretanha), partido que faz parte da tendência internacional Socialismo Internacional.

Rui Polly

Notas

1.   No Brasil ainda existe um forte preconceito em relação a Trotski. Isso se deve, em parte, à prática, ao sectarismo e dogmatismo de alguns grupos que reivindicam o trotskismo. Mas deve-se sobretudo à ainda grande influência da cultura política stalinista. De fato ainda permanece uma “cultura anti-trotskista” que foi alimentada pelos Partidos Comunistas, e que se fez sentir até mesmo no campo da literatura (vide “Os subterrâneos da Liberdade” de Jorge Amado). Muitos dos grupos e tendências que romperam com os PCs durante os anos 70 e 80, assumiram uma postura anti-stalinista, mas um anti-stalinismo que trazia embutido um dos elementos mais grotescos da ideologia stalinista, um “anti-trotskismo” visceral que contrapõe Trotski a Lenin e ao próprio legado do marxismo clássico. Assim, não raras vezes nos deparamos com militantes que recusam, muitas vezes com veemência, o legado teórico e político de Trotski, embora praticamente o desconheçam.

2.   Talvez as considerações (equivocadas) de Gramsci em relação a Trotski, se devam, não apenas à stalinização da III Internacional que “filtrava” os relatos dos acontecimentos na URSS e na própria Comintern. O fato é que tudo indica que ele desconheceu, uma vez no cárcere, as análises de Trotski sobre a ascensão do nazismo na Alemanha. Já não é o caso de Carlos Nelson Coutinho, que não esconde uma, digamos, “falta de simpatia” por Trotski, não raro apresentando comentários (ligeiros, é verdade) que deformam posições de Trotski (no tocante à NEP, por exemplo) e/ou minimizam o seu papel real (não só Lenin, mas também Trotski foi um dos maiores defensores da “frente única”). Na questão do fascismo Coutinho desconsidera, ou “esquece-se”, de que antes da vitória de Hitler, Trotski havia alertado para as conseqüências trágicas da política ultra-esquerdista stalinista, analisado a natureza do nazismo e proposto uma aliança entre os comunistas e social-democratas (a quem os stalinistas chamavam de “social-fascistas”) contra o nazismo. “Deslizes” surpreendente se levarmos em conta a “erudição” do introdutor de Lukács e Gramsci no Brasil.

3.   Exemplos disso estão presentes no livro Trotsky Ontem e Hoje de Osvaldo Coggiola. Um outro exemplo mais recente pode ser encontrado na intervenção de Martin Hernandez no debate interno da LIT sobre a natureza dos regimes stalinistas (disponível no site http://www.pstu.org.br/ ). A sua intervenção sintetiza, com rara infelicidade, os piores defeitos do dogmatismo em geral e do trotskismo ortodoxo em particular.

4.   Uma extensa análise da obra de Trotski pode ser encontrada na volumosa biografia política (4 volumes) de Tony Cliff. Infelizmente não há tradução disponível seja em português ou espanhol. Também em inglês Trotsky’s Theory of Revolution, de John Molyneux. No Brasil dispomos da importante trilogia de Isaac Deutscher, não obstante o seu enfoque problemático sob vários aspectos.

5.   Sobre esse tema específico a obra de Tony Cliff, O Capitalismo de Estado na Rússia stalinista, publicado pela primeira vez em 1947, permanece sendo a principal referência. Há uma tradução espanhola do livro. Em português A Natureza de classe dos regimes stalinistas, Rui Polly, cadernos Rebento, assim como outros artigos escritos à época do colapso do stalinismo no leste europeu nos números da revista Rebento.

6.   Para quem deseja uma abordagem mais detalhada da teoria da revolução permanente, Introdução à Teoria da Revolução Permanente, de Rui Polly, disponível no site Socialismo Internacional . Sobre as revoluções chinesa e cubana e seu impacto sobre a teoria, ver Marxismo y Revolución en el Tercer Mundo, tradução espanhola de The Deflected Permanent Revolution, de Tony Cliff. O texto em espanhol está disponível no site Socialismo Internacional (Espanha).

Agradecimentos

Este pequeno livro deve sua existência ao encorajamento, aconselhamento e a ajuda prática de Tony Cliff.

Na medida em que o tratamento dado ao pensamento de Trotski é, de qualquer forma, incomum, o livro é fortemente influenciado pela avaliação e a crítica realizadas pelo próprio Cliff a partir de 1947. Certamente Cliff não é responsável por todas as ênfases presentes no trabalho.

Devem ser feitos outros três reconhecimentos específicos. Para Nigel Harris, cujos escritos e conversas têm modificado consideravelmente minha própria avaliação de Trotski. Para John Molyneux, cujo livro, Marxismo e o Partido, me influenciou mais do que pode aparentar uma visão superficial dos nossos respectivos escritos sobre o tema. E para Chanie Rosenberg, quem datilografou o meu manuscrito durante os intervalos de uma vida política muito ativa, e sem cujos esforços este livro jamais teria visto a luz do dia.

Duncan Hallas

Julho de 1979.

Introdução

Leon Trotski nasceu em 1879 e cresceu para a vida adulta e para a consciência em um mundo que já se foi, o mundo do marxismo social-democrata da Segunda Internacional.

Em qualquer geração existem vários mundos mentais possíveis, arraigados em circunstâncias, organizações sociais e ideologias amplamente diferenciadas, as quais coexistem a um só tempo. O mundo da social-democracia era, então, o mais avançado, o que mais se aproximava de uma visão de mundo científica, materialista.

Para Lev Davidovitch Bronstein (o nome de Trotski foi tomado de um carcereiro), filho de uma família camponesa judia ucraniana, atingir aquela perspectiva era algo bastante notável. O Bronstein mais velho era um camponês próspero, um kulak - caso contrário, Trotski teria recebido muito pouca educação formal - e era um judeu em um país onde anti-semitismo era encorajado oficialmente e pogroms não eram raros. De qualquer forma, o jovem Trotski se tornou, após um período inicial de “revolucionarismo” romântico, um marxista. E muito cedo, sob as condições da autocracia tzarista, tornou-se um revolucionário profissional e prisioneiro político. A sua primeira prisão ocorreu quando tinha 19 anos de idade, ele foi condenado à deportação de quatro anos na Sibéria, depois de passar 18 meses na prisão. Ele escapou em 1902 e desde então, até a sua morte, a revolução foi a sua profissão.

Este pequeno livro se preocupa com as idéias, mais do que com os acontecimentos. É qualquer coisa, menos uma tentativa de biografia. Os três volumes de Isaac Deutscher, qualquer que seja a visão acerca das conclusões políticas do autor, permanecerá o estudo biográfico autorizado durante um longo tempo.

Mas qualquer tentativa para apresentar um resumo das idéias de Trotski depara-se com uma dificuldade imediata. Muito mais do que a maioria dos grandes pensadores marxistas (Lenin é uma destacada exceção), Trotski se preocupou, ao longo da sua vida, com os problemas imediatos que se apresentavam aos revolucionários no movimento operário. Quase tudo que ele disse ou escreveu relaciona-se a algum assunto imediato, a alguma luta real. O contraste com o que veio a ser chamado “marxismo ocidental” não poderia ser mais marcante. Um comentarista, simpatizante desta tendência, escreveu: “A primeira e a mais fundamental das suas características tem sido o divórcio estrutural deste marxismo com a prática política”.1 Esta é a última coisa que poderia ser dita do marxismo de Trotski.

Assim, é necessário apresentar, ainda que numa forma (inadequada) de esboço, alguns elementos do pano de fundo histórico, social e político da formação e amadurecimento do pensamento de Trotski.

A Rússia era atrasada, a Europa avançada. Esta era a idéia básica de todos os marxistas russos (e não só dos marxistas). A Europa era avançada porque a sua industrialização era bem desenvolvida, e porque a social-democracia, na forma dos grandes partidos operários que professavam a sua adesão ao programa marxista, estava crescendo rapidamente. Para os russos (e, de certo modo, geralmente) os partidos dos países de língua alemã eram considerados os mais importantes. Os partidos social-democratas dos impérios alemão e austríaco eram partidos operários em expansão que haviam adotado plenamente programas marxistas (o programa alemão de Erfurt de 1891, o programa austríaco de Heinfeld de 1888). A sua influência entre os marxistas russos era imensa. O fato de que a Polônia, cuja classe trabalhadora já estava se mexendo, foi dividida entre os impérios do tzar e dos dois Kaisers fortaleceu a conexão. Rosa Luxemburgo, será recordado, nasceu na Polônia de ocupação russa, mas tornou-se proeminente no movimento alemão. Não havia nada demais nisto. Os social-democratas consideravam então os “limites nacionais” algo secundário.

Em termos de idéias, este movimento crescente (ilegal na Alemanha entre 1878 e 1890, mas conseguindo um milhão e meio de votos em uma eleição restrita no último ano) era sustentado pela síntese do “primeiro” marxismo com os desenvolvimentos alcançados por Friedrich Engels no final do século 19. O seu Anti-Duhring dele (1878), uma tentativa de uma concepção de mundial global, cientificamente fundamentada, foi a base para as popularizações (ou vulgarizações) de Karl Kautsky, o “Papa do marxismo”, e as exposições mais profundas do russo G.V. Plekhanov.

Nesse excitante mundo intelectual/prático - pois Engels e os seus discípulos e imitadores haviam estabelecido um vínculo entre a teoria e a prática no partido operário - o jovem Trotski cresceu intelectualmente e logo se tornou mais que um simples discípulo dos seus veteranos. O seu respeito para com Engels era imenso.

Mas ele iria, alguns anos após a sua primeira assimilação do marxismo, desafiar a ortodoxia marxista de então na questão dos países atrasados. Mas primeiro ele iria conhecer os líderes emigrados do marxismo russo e desempenhar um papel de destaque no congresso de 1903 do Partido Operário Social-democrata russo - a verdadeira conferência de fundação.

Trotski escapou de Verkholensk na Sibéria, escondido debaixo de uma carga de feno, no verão de 1902. Em outubro ele havia chegado ao centro dirigente da social-democracia russa, situada então perto da estação Kings Cross em Londres. Lenin, Krupskaya, Martov e Vera Zasulich moravam na área, e ali era produzido, e depois despachado clandestinamente para a Rússia, o jornal Iskra, o órgão dos defensores de um partido centralizado e disciplinado. Trotski logo estava envolvido nas disputas dentro da equipe do Iskra - Lenin quis colocá-lo no corpo editorial do jornal, Plekhanov se opôs resolutamente à idéia - e assim veio a conhecer de perto os futuros dirigentes do menchevismo, Plekhanov e Martov, assim como a Lenin. A divisão no grupo do Iskra já estava sendo gestada.

As diferenças vieram à tona no congresso de 1903. Os “iskristas” estiveram unidos na resistência às reivindicações do Bund, organização socialista judia, de autonomia no referente ao trabalho entre judeus, e na resistência à tendência reformista dos “economicistas”. Veio, então, a divisão no próprio grupo do Iskra na maioria bolchevique e na minoria menchevique.

No princípio não era uma divisão clara - os motivos não estavam ainda esclarecidos. Plekhanov apoiou inicialmente Lenin, mas Trotski apoiou o líder menchevique Martov.

Dois anos mais tarde, Trotski regressou à Rússia. A revolução de 1905 estava a caminho. No seu desenrolar, Trotski elevou-se à sua plena estatura. Com apenas 26 anos, ele se tornou o líder revolucionário mais proeminente e uma figura internacionalmente conhecida. Ele emergiu da política de pequenos grupos de emigrados e transformou num orador magnífico e líder de massas. Como presidente do soviet de Petrogrado ele pôde mostrar um grau considerável de direção tática e demonstrou aquele tato seguro e os nervos de aço que o caracterizariam nos grandes acontecimentos de 1917.

A revolução foi esmagada. O exército tzarista foi abalado, mas não quebrado. Daquela experiência - o “ensaio geral” como Lenin a chamou - as tendências divergentes da social-democracia russa se separaram ainda mais. Trotski, ainda formalmente um menchevique, desenvolveu a sua própria síntese, a teoria da revolução permanente.

A próxima década seria novamente passada nos pequenos círculos de emigrados e em tentativas fúteis de unir o que eram até agora tendências incompatíveis. E então veio a guerra, a atividade antiguerra e, em fevereiro de 1917, a derrocada do tzar. Trotski juntou-se ao partido bolchevique, a esta altura um verdadeiro partido operário de massas, no mês de julho, e tal era a sua força de personalidade, talento e reputação que dentro de algumas semanas ele estava abaixo apenas em relação a Lenin, aos olhos da massa de partidários. A ele foi confiada a organização real da insurreição de outubro e, aos 38 anos, tornou-se uma das duas ou três figuras mais importantes no partido e no Estado, e, um pouco depois, também um dos líderes mais importantes do movimento comunista mundial, a Internacional Comunista. Ele foi o principal criador e dirigente do Exército Vermelho e foi influente em todos os campos da política.

Dos altos píncaros Trotski estaria destinado a ser lançado abaixo. A sua queda não foi simplesmente uma tragédia pessoal. Trotski ascendeu com a revolução, e caiu quando a revolução entrou em declínio. A sua história pessoal está amalgamada com a história da revolução russa e do socialismo internacional. A partir de 1923 ele dirigiu a oposição à crescente reação na Rússia - o stalinismo. Expulso do partido em 1927 e da URSS em 1929, seus últimos onze anos foram consumidos numa luta heróica contra terríveis restrições para manter viva a autêntica tradição comunista e encarná-la numa organização revolucionária. Vilipendiado e isolado, ele foi finalmente assassinado por ordem de Stalin em 1940. Ele deixou atrás de si uma organização internacional frágil e um corpo de escritos que é uma das fontes mais ricas de marxismo aplicado existente.

Este livro se concentra em quatro temas. Eles não esgotam a contribuição de Trotski ao pensamento marxista, de forma alguma, pois ele foi um escritor excepcionalmente prolífico com interesses extremamente amplos.

Não obstante, a obra de sua vida esteve centralmente voltada a essas quatro questões, e o grosso de seus volumosos escritos está relacionado, de uma maneira ou de outra, a elas.

Elas são, em primeiro lugar, a teoria da “revolução permanente”, a sua relevância para as revoluções russas do século 20 e para os desenvolvimentos subseqüentes nos países coloniais e semicoloniais - o que é chamado hoje de “Terceiro Mundo”.

Segundo, o resultado da revolução russa de outubro e a questão do stalinismo. Trotski realizou a primeira tentativa contínua e sistemática de uma análise materialista e histórica do stalinismo. E a suas análises, quaisquer que sejam as críticas que possam ser feitas, tem sido o ponto de partida para todas as análises sérias que foram empreendidas posteriormente de um ponto de vista marxista.

Terceiro, a estratégia e a tática dos partidos revolucionários de massas em uma ampla variedade de situações, um campo no qual a contribuição de Trotski não foi inferior à de Marx e Lenin.

Quarto, o problema da relação entre partido e classe e o desenvolvimento histórico que reduziu o movimento revolucionário a um status marginal em relação às organizações operárias de massa.

Isaac Deutscher descreveu Trotski, nos seus últimos anos, como o “herdeiro residual do marxismo clássico”. Ele o foi, realmente, e ainda mais. É isto que confere ao seu pensamento a sua enorme importância contemporânea.

Notas

1. P. Anderson, Considerations on Western Marxism Considerações sobre o Marxismo Ocidental, London: New Left Books 1976, p.29.

1. A revolução permanente

Durante o último terço do século 18 a revolução industrial, a mudança mais profunda em toda a história do gênero humano desde o desenvolvimento da agricultura no passado remoto, ganhou um impulso irresistível em um pequeno canto do mundo, na Inglaterra. Mas os capitalistas britânicos logo tiveram imitadores em outros países onde uma burguesia havia conquistado o poder ou estava perto de conquistá-lo.

No começo do século 20 o capitalismo industrial dominava completamente o mundo. Os impérios coloniais da Inglaterra, França, Alemanha, Rússia, dos EUA, Bélgica, Países Baixos, Itália e Japão cobriam, sem dúvida, a maior parte da superfície do mundo. As sociedades essencialmente pré-capitalistas, que ainda preservavam uma independência formal (China, Irã, o Império turco, Etiópia, etc.), eram, na realidade, dominadas por uma ou outra das grandes potências imperialistas, ou informalmente divididas entre eles - o termo “esferas de influência” expressa exatamente isto. Essa independência simbólica mantinha-se unicamente devido às rivalidades entre os imperialismos concorrentes: a Inglaterra contra a Rússia no Irã, a Inglaterra contra a França na Tailândia, a Inglaterra contra a Alemanha - e também com a Rússia - na Turquia, a Inglaterra, os EUA, Alemanha, Rússia, França, Japão e vários contendores secundários, todos uns contra os outros na China.

Mas os países conquistados ou dominados pelas potências capitalistas industriais não eram, falando de modo geral, transformados em réplicas dos vários países “maternos”. Pelo contrário, permaneceram sociedades essencialmente pré-industriais. O seu desenvolvimento social e econômico era profundamente influenciado, profundamente distorcido, através de conquista ou domínio, mas tipicamente elas não eram transformadas num novo tipo de sociedade.

A famosa descrição de Marx sobre a ruína da indústria têxtil hindu (que era baseada em produtos de alta qualidade feitos por artesãos independentes) devido aos bens de algodão baratos, fabricados por máquinas em Lancashire, ainda permanece um bom esboço do impacto inicial do capitalismo ocidental no que é chamado hoje de “Terceiro Mundo”: empobrecimento e retrocesso social.

Este processo de “desenvolvimento desigual e combinado”, para usar a expressão de Trotski, conduziu a uma situação (ainda presente em todos os traços essenciais) na qual a maior parte da população do mundo não só não tinha avançado social e economicamente, mas havia retrocedido. Qual era (e, na verdade, é), então, a saída para a massa da população nestes países?

Trotski, quando era um homem ainda nos seus 26 anos, deu uma contribuição profundamente original à solução deste problema. Era uma solução arraigada tanto na realidade do desenvolvimento desigual do capitalismo em escala mundial, quanto na análise marxista do verdadeiro significado do desenvolvimento industrial - a criação, de uma só vez e ao mesmo tempo, da base material para uma sociedade avançada sem classes e de uma classe explorada, o proletariado, capaz de se elevar ao nível de uma classe dirigente e, através do seu domínio, abolir as classes, a luta de classe e todas as formas de alienação e opressão.

Naturalmente, Trotski desenvolveu a sua idéias primeiramente em relação à Rússia. É então necessário nos voltarmos para o pano de fundo ideológico nas disputas entre os revolucionários russos em fins do século 19 e começo do século 20, para compreendermos a plena importância de sua contribuição. Mas não somente os revolucionários russos. Afinal de contas, havia um autêntico movimento internacional naquele momento.

“Uma vez que a Europa esteja reorganizada, e a América Norte, isso proporcionará um tal poder colossal e um tal exemplo que os países semicivilizados seguirão na sua esteira por sua própria iniciativa. Somente as necessidades econômicas serão responsáveis por isto. Mas sobre quais fases sociais e políticas estes países terão de atravessar antes de chegarem igualmente à organização socialista, eu penso que só podemos avançar hipóteses bastante vãs. Apenas uma coisa é certa: o proletariado vitorioso não pode forçar nenhum benefício de qualquer tipo, em qualquer nação estrangeira, sem minar a sua própria vitória agindo de tal maneira”.{1}

Assim Engels escreveu a Kautsky em 1882. Ele não estava pensando na Rússia. Os países mencionados nesta carta são Índia, Argélia, Egito e as “possessões holandesas, portuguesas e espanholas”. Contudo, a sua abordagem geral é representativa do pensamento da futura Segunda Internacional (a partir de 1889). O curso do desenvolvimento político seguiria o curso do desenvolvimento econômico. O movimento socialista revolucionário, que destruiria o capitalismo e levaria, no final, à dissolução do proletariado e de todas as classes (depois de um período de ditadura proletária) na sociedade sem classes do futuro, se desenvolveria onde o capitalismo e seu inseparável acompanhante, o proletariado, tivessem se desenvolvido.

Os marxistas russos, cujo grupo pioneiro “A Emancipação do Trabalho” foi fundada um ano após a carta de Engels, tiveram que enquadrar a Rússia nesse esquema histórico.

Plekhanov, o teórico principal do grupo, não tinha nenhuma dúvida. O império russo, ele argumentou nos anos 80 e 90 do século 19, era uma sociedade essencialmente pré-capitalista e, portanto, estava destinado a passar pelo processo de desenvolvimento capitalista antes que a questão do socialismo pudesse ser colocada. Ele rejeitou firmemente a idéia, que o próprio Marx havia levado em conta vagamente, de que a Rússia, dependendo dos desenvolvimentos na Europa, pudesse evitar a fase capitalista de desenvolvimento e conseguir uma transição para socialismo com base na derrocada da autocracia por um movimento de camponês, buscando preservar os elementos da propriedade comunal tradicional da terra (o Mir) que ainda existia nos anos 1880.

As idéias de Plekhanov, desenvolvidas em polêmicas com o “caminho camponês para o socialismo” (os Narodniks), tornaram-se o ponto de partida para todo o marxismo russo subseqüente. Que o capitalismo estava se desenvolvendo de fato na Rússia, que o Mir estava condenado, que um “caminho” especificamente russo para o socialismo era uma ilusão reacionária - estas idéias foram básicas para a próxima geração de marxistas russos, para Lenin e, alguns anos depois, para Trotski e todos os seus associados. Os primeiros três volumes das Obras Completas de Lenin consistem em grande parte de críticas aos Narodniks e demonstrações da inevitabilidade - e o caráter progressivo - do capitalismo na Rússia. O grupo do Iskra, fundado em 1900 para criar uma organização nacional unificada a partir dos grupos e círculos social-democratas difusos, baseava-se firmemente na visão de que a classe operária industrial era a base para aquela organização.

Três perguntas surgiram: primeiro, qual era a relação entre os papéis políticos da classe operária (ainda uma minoria pequena), a burguesia e o campesinato (a grande maioria)? E, conseqüentemente, qual era o caráter de classe da próxima revolução na Rússia? Finalmente, qual era a relação entre a revolução e os movimentos operários dos países avançados do Ocidente?

As diferentes respostas a estas perguntas, ao lado das diferenças quanto à natureza do partido revolucionário, acabaram por definir as tendências fundamentalmente divergentes no interior da social-democracia russa. Para entender a teoria da revolução permanente de Trotski é necessário voltarmos nossa atenção brevemente para essas respostas, as quais apareceram em forma mais desenvolvida após a revolução de 1905.

O menchevismo

A visão menchevique pode ser resumida deste modo: o estágio do desenvolvimento das forças produtivas (quer dizer, o atraso econômico geral de Rússia combinada com uma indústria moderna pequena, mas significativa e crescente) define o que é possível - uma revolução burguesa, como a de 1789-94 na França. Portanto, a burguesia deve chegar ao poder, estabelecer uma república democrático-burguesa que varrerá as sobras das relações sociais pré-capitalistas e abrir o caminho para um crescimento rápido das forças produtivas (e também do proletariado) em uma base capitalista. Após o que a luta pela revolução socialista estaria colocada na ordem do dia.

O papel político da classe operária é, então, empurrar a burguesia adiante contra o tzarismo. Ela tem que preservar sua independência política - o que, centralmente, significava que os social-democratas não poderiam participar de um governo revolucionário ao lado de forças não-proletárias.

Quanto ao campesinato, este não pode desempenhar um papel político independente. Pode desempenhar um papel revolucionário secundário em defesa de uma revolução burguesa essencialmente urbana e, após a revolução, sofrerá uma diferenciação econômica mais ou menos rápida em um estrato de fazendeiros capitalistas (que será conservador), um estrato de pequenos proprietários e um estrato de proletários agrícolas não-proprietários.

Para os mencheviques não havia nenhuma conexão orgânica entre a revolução burguesa russa e os movimentos operários europeus, embora admitissem que a revolução russa (caso acontecesse antes da revolução socialista no Ocidente) iria revigorar os movimentos social-democratas ocidentais.

Na realidade, o menchevismo era uma tendência bastante matizada. Diferentes mencheviques punham ênfases diferentes nas várias partes deste esquema (o qual, tal como apresentado, é essencialmente de Plekhanov), mas todos aceitavam os seus contornos gerais.

A revolução de 1905 trouxe à tona as falhas fundamentais desse esquema. A burguesia não cumpriria a parte que lhe destinava o menchevismo. É claro que, Plekhanov, um estudioso profundo da grande Revolução francesa, nunca esperou que a burguesia russa conduzisse uma luta implacável contra o tzarismo sem uma enorme pressão vinda “de baixo”. Da mesma maneira que a ditadura jacobina de 1793-94, a culminação decisiva da Revolução francesa, havia chegado ao poder sob a tremenda pressão dos sans-culottes, as massas plebéias de Paris, assim também na Rússia a classe operária poderia ser a real força motriz e poderia compelir os representantes políticos da burguesia (ou uma seção deles) a tomar o poder. Mas a revolução de 1905 e seu resultado demonstraram que não havia nenhuma tendência “Robespierrista” na burguesia russa. Diante da excitação revolucionária a burguesia juntou-se ao tzar.

Já em 1898 o Manifesto esboçado para o abortado Primeiro Congresso dos Social-democratas russos havia declarado:

“Quanto mais se vai para o oriente na Europa, mais a burguesia se torna débil no aspecto político, mais covarde, e mais mesquinho, e maiores são as tarefas culturais e políticas que recaem sobre o proletariado”.2

Não era uma questão de geografia, mas de história. O desenvolvimento do capitalismo industrial e do proletariado moderno havia transformado a burguesia, em todos os lugares, até mesmo em países onde a industrialização era embrionária, numa classe conservadora. De fato, o fracasso da revolução na Alemanha em 1848-49 havia demonstrado isto muito antes.

O bolchevismo

A visão dos bolcheviques partia das mesmas premissas dos mencheviques. A revolução vindoura seria, e só poderia ser, uma revolução burguesa em termos de sua natureza de classe. Mas os bolcheviques rejeitavam completamente qualquer ilusão na burguesia, e propunham uma alternativa.

“A transformação da situação econômica e política na Rússia no sentido democrático-burguês é inevitável e inelutável”, escreveu Lenin no seu famoso folheto Duas Táticas da Social-democracia na Revolução Democrática (julho de 1905).

“Não há força no mundo capaz de impedir esta transformação. Mas da combinação da ação das forças existentes, criadoras desta transformação, podem surgir dois resultados ou duas formas desta transformação. Das duas uma: 1) ou as coisas terminarão com “a vitória decisiva da revolução sobre o tzarismo, ou 2) não haverá forças suficientes para a vitória decisiva e as coisas terminarão por um acordo entre o tzarismo e os elementos mais “inconseqüentes” e “egoístas” da burguesia(…) Devemos conhecer de maneira exata quais forças sociais reais que se opõe ao tzarismo (…) e que são capazes de obter a “ vitória decisiva” sobre o mesmo. Esta força não pode ser a grande burguesia(…) Vemos que eles nem sequer desejam uma vitória decisiva. Sabemos são incapazes, devido à sua posição de classe, de uma luta decisiva contra o tzarismo: para irem à luta decisiva, a propriedade privada, o capital e a terra são um lastro demasiadamente pesado. Têm demasiada necessidade do tzarismo, com as suas forças policiais-burocráticas e militares, para usar contra o proletariado e campesinato, para poderem aspirar à destruição do tzarismo. Não, a única força capaz de obter a “vitória decisiva sobre o tzarismo” é o povo, isto é, o proletariado e o campesinato (…) A “vitória decisiva sobre o tzarismo” significa o estabelecimento da ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato(…)

Só pode ser uma ditadura porque a realização das transformações imediata e absolutamente necessárias para o proletariado e campesinato provocará uma resistência desesperada tanto por parte dos latifundiários como da grande burguesia e do tzarismo. (…) Mas não será, naturalmente, uma ditadura socialista, mas uma ditadura democrática. (…) Poderá, no melhor dos casos, efetuar uma redistribuição radical da propriedade da terra a favor dos camponeses, implantar uma democracia conseqüente e completa indo até à república, erradicar não só da vida do campo mas também da fábrica todos os traços asiáticos, servis, iniciar uma melhoria séria na situação dos operários, elevar o seu nível de vida e, finalmente, last but not least (o último, mas não o menos importante), levar o incêndio revolucionário à Europa. Semelhante vitória não converterá ainda, de forma alguma, a nossa revolução burguesa em socialista (…)3

A linha menchevique não era simplesmente um engano, segundo Lenin, era a expressão de uma ausência de vontade de levar a cabo a revolução. A determinação menchevique para agarrar-se aos liberais burgueses conduziria à paralisia. Por outro lado, o campesinato tinha um interesse genuíno na destruição do tzarismo e dos restos do feudalismo na terra. Portanto, a “ditadura democrático” - um governo revolucionário provisório, com representantes do campesinato ao lado de social-democratas - era o “regime jacobino” apropriado que esmagaria a reação e estabeleceria “uma república democrática” (com completa igualdade e autodeterminação para todas as nações), o confisco das propriedades fundiárias, e uma jornada de trabalho de oito hora diárias”.4

A solução de Trotski

Trotski rejeitou a esperança em uma “burguesia revolucionária” tão firmemente quanto Lenin. Ele ridicularizou o esquema menchevique como uma:

“categoria extra-histórica criada por analogia jornalística e dedução… porque, na França, a Revolução foi levada a cabo por revolucionários democráticos - os jacobinos - então a revolução russa só pode transferir o poder às mãos de uma democracia burguesa revolucionária. Tendo erguido assim uma inabalável fórmula algébrica da revolução, os mencheviques tentam inserir nela valores aritméticos que não existem de fato.”5

Em todos os outros aspectos a teoria da revolução permanente de Trotski, a qual teve grande influência do marxista russo-alemão Parvus, diferia da posição bolchevique.

Em primeiro lugar, diferia num ponto crucial, ao negar a possibilidade de que o campesinato pudesse desempenhar um papel político independente:

“O campesinato não pode cumprir um papel revolucionário principal. A história não pode confiar ao muzhik a tarefa de libertar uma nação burguesa de suas correntes. Por causa de sua dispersão, atraso político, e especialmente de suas profundas contradições internas, que não podem ser solucionadas dentro do arcabouço de um sistema capitalista, o campesinato só pode atingir a velha ordem com alguns golpes poderosos pela retaguarda, através de levantes espontâneos na zona rural, por um lado, e criando descontentamento dentro do exército, por outro.”6

Esta perspectiva era idêntica à linha menchevique e seguia as considerações feitas pelo próprio Marx sobre o campesinato francês enquanto classe.

Porque “a cidade dirige na sociedade moderna”, só uma classe urbana pode cumprir um papel dirigente, e porque a burguesia não é revolucionária (e a pequena burguesia urbana é, em todo caso, incapaz de cumprir o papel de sans-culottes), “a conclusão é que só o proletariado em sua luta de classe, com as massas camponesas sob sua direção revolucionária, pode “levar a revolução até o fim”“.7

Isso deve conduzir a um governo operário. A “ditadura democrática” de Lenin é simplesmente uma ilusão:

“A dominação política do proletariado é incompatível com a sua escravidão econômica. Não importa sob que bandeira política o proletariado chegou ao poder, ele é obrigado a tomar o caminho da política de socialista. Seria a maior utopia pensar que o proletariado, tendo sido elevado à dominação política pelo mecanismo interno de uma revolução burguesa possa, mesmo que assim o queira, limitar a sua missão à criação de condições republicano-democráticas para a dominação social da burguesia.”8

Mas isto conduz a uma contradição imediata. O ponto de partida comum de todos os marxistas russos era justamente que na Rússia faltavam tanto a base material quanto humana para o socialismo - uma indústria altamente desenvolvida e um proletariado moderno que compusesse uma ampla fração da população, e que tivesse adquirido organização e consciência enquanto uma classe “para si”, como Marx tinha posto. Lenin havia denunciado vigorosamente (em Duas Táticas):

“A idéia absurda e semi-anarquista de dar efeito imediato ao programa máximo e a conquista do poder para uma revolução socialista. O grau de desenvolvimento econômico (uma condição objetiva), e o desenvolvimento da consciência de classe e da organização das amplas massas do proletariado (uma condição subjetiva inseparavelmente ligada à condição objetiva), tornam a emancipação completa e imediata da classe operária impossível. Só as pessoas mais ignorantes podem fechar os seus olhos para a natureza burguesa da revolução democrática que está em curso neste momento (em 1905).”9

De um ponto de vista marxista, o argumento de Lenin é incontestável, conquanto se trate de considerar essas questões apenas no terreno da Rússia. Talvez seja necessário, devido a desenvolvimentos posteriores, acentuar este ponto elementar. O socialismo, para Marx e para tudo os que se consideravam seus seguidores naquele momento, é a auto-emancipação da classe operária. Pressupõe uma ampla indústria moderna e um proletariado consciente, capaz de auto-emancipar-se.

Trotski, entretanto, estava convencido que somente a classe operária era capaz de desempenhar o papel dirigente na revolução russa e, se conseguisse cumprir esse papel, poderia tomar o poder em suas próprias mãos.

“As autoridades revolucionárias serão confrontadas com os problemas objetivos do socialismo, mas a solução destes problemas será, em um certo estágio, impedida pelo atraso econômico do país. Não há saída desta contradição dentro do arcabouço de uma revolução nacional. O governo operário, desde o começo, enfrentará a tarefa de unir suas forças com as do proletariado socialista da Europa Ocidental. Só deste modo a sua hegemonia revolucionária temporária se tornará o prólogo a uma ditadura socialista. Assim, a revolução permanente se tornará, para o proletariado russo, um assunto de auto-preservação enquanto classe.”10

A hipótese original de Engels é virada de cabeça para baixo. O desenvolvimento desigual do capitalismo leva a um desenvolvimento combinado no qual a Rússia atrasada se torna, temporariamente, a vanguarda de uma revolução socialista internacional.

A teoria da revolução permanente permaneceu central ao marxismo de Trotski até o fim da sua vida. Em apenas um aspecto importante as suas idéias pós-1917 iriam diferir das que acabamos de esboçar. A versão pré-1917 dependia fortemente da ação espontânea da classe operária. Como nós veremos, Trotski era, neste período, um forte oponente do “centralismo” bolchevique e rejeitava, na prática, a concepção do papel dirigente do partido. Em 1917 ele inverteu a sua posição no tocante a este assunto. Suas aplicações subseqüentes da teoria de revolução permanente foram estruturadas em torno do papel do partido operário revolucionário.

O resultado

Toda a teoria, pelo menos toda a teoria que tenha alguma pretensão de ser científica, encontra seu último teste na prática. “A prova do pudim”, como diz o ditado de Lancashire, “está em comê-lo”. Mas o teste prático decisivo pode ser adiado por um longo tempo, adiado até mesmo para muito tempo depois das mortes do teórico, dos seus seguidores e oponentes. Ao contrário das ciências físicas - onde sempre é possível, em princípio, realizar testes experimentais (embora os meios técnicos para realizá-los possam não ser disponíveis imediatamente) - o marxismo enquanto ciência do desenvolvimento social (e, na realidade, seus rivais burgueses, as pseudo-ciências da economia, sociologia e assim por diante) não pode ser testado de acordo com alguma escala arbitrária de tempo, mas só no curso do desenvolvimento histórico e, mesmo assim, apenas provisoriamente.

A razão é bastante simples, embora as conseqüências sejam imensamente complicadas. “Os homens fazem a sua própria história”, disse Marx, “mas eles não o fazem sob condições de sua própria escolha”. Os atos “voluntários” de milhões e dezenas de milhões de pessoas que são, é claro, elas próprias condicionadas historicamente, lutando contra as limitações impostas por todo o curso anterior de desenvolvimento histórico (o qual elas, tipicamente, ignoram), produz efeitos mais complexos do que o teórico mais previdente pode antecipar. O grau de s’engage, et puis…on voit (é aderido em, e então nós veremos), que era a descrição aforística de Napoleão da sua ciência militar, sempre deve ser considerado pelos revolucionários ocupados em uma tentativa consciente de modificar o curso dos eventos.

Os revolucionários russos do início do século 20 foram mais afortunados do que a maioria. Para eles o teste decisivo chegou bastante depressa. O ano de 1917 presenciou a entrada dos mencheviques, oponentes em princípio da participação num governo não-proletário, em um governo de adversários do socialismo para prosseguir uma guerra imperialista e conter a maré da revolução. Verificou-se na prática a previsão feita por Lenin em 1905 de que eles eram a “Gironda” da revolução russa. Presenciou os bolcheviques - os defensores da ditadura democrática e de um governo revolucionário provisório de coalizão - após um período inicial de “apoio crítico” ao que Lenin, no seu retorno à Rússia, chamou de “um governo de capitalistas”, voltarem-se decisivamente para a tomada do poder pela classe operária sob o impacto das Teses de abril de Lenin e a pressão dos trabalhadores revolucionários nas suas fileiras. Testemunhou o desagravo de Trotski quando Lenin, efetivamente, embora não em palavras, adotou a perspectiva da revolução permanente e abandonou, sem cerimônia, a ditadura democrática. Também testemunhou Trotski, isolado e impotente para afetar o curso dos acontecimentos na grande crise revolucionária de 1917, conduzir, no mês de julho, o seu pequeno grupo de seguidores ao partido bolchevique de massas. Foi também o brilhante reconhecimento da longa e dura luta de Lenin (que Trotski havia denunciado por mais de uma década como sendo “sectária”) pelo partido operário, livre da influência ideológica de “marxistas” pequeno-burgueses (tanto quanto tal independência pode ser alcançada através de meios organizativos).11

Trotski provou estar correto na questão estratégica central da revolução russa. Mas, como Cliff afirma, com razão, ele era um “general brilhante sem um exército”.12 Trotski nunca mais se esqueceu desse fato. Mais tarde ele chegou a afirmar que sua ruptura com Lenin durante o período de 1903-04, na questão da necessidade de um partido operário disciplinado, havia sido “o maior erro de minha vida”.

A revolução de outubro levou a classe operária russa ao poder. Levou-a no contexto de uma maré ascendente de revolta revolucionária contra os antigos regimes na Europa central e, em menor grau, ocidental.

A perspectiva de Trotski, e de Lenin após abril de 1917, dependia crucialmente do sucesso da revolução proletária em pelo menos “um ou dois” países avançados (como Lenin, sempre cauteloso, dizia).

No evento, o poder dos partidos social-democratas estabelecidos (os quais mostraram, na prática, terem se tornado conservadores e nacionalistas a partir de agosto de 1914) e as vacilações e evasões dos líderes dos grupos “centristas” de massas, oriundos de “rachas” da social-democracia ocorridos entre 1916 e 1921, contribuíram para abortar os movimentos revolucionários na Alemanha, Áustria, Hungria, na Itália e em outros lugares antes que a revolução proletária pudesse ser alcançada ou, onde foi alcançada temporariamente, antes que pudesse ser consolidada.

A análise de Trotski das conseqüências destes fatos serão examinadas mais adiante. Mas, antes, será útil considerarmos a segunda revolução chinesa (de 1925-27), e o seu resultado em termos da teoria de Trotski.

A revolução chinesa de 1925-27

O Partido Comunista chinês (PCCh) foi fundado em julho de 1921 num quadro marcado por crescentes sentimentos anti-imperialistas e militância operária nas cidades litorâneas, onde uma recém-criada, mas numerosa, classe operária estava lutando para se organizar.

Minúsculo, e inicialmente composto completamente por intelectuais, o PCCh foi capaz de se tornar, em alguns anos, na direção efetiva do movimento operário recém nascido.

A China era então uma semi-colônia, dividida informalmente entre os imperialismos britânico, francês, norte-americano e japonês. Os imperialismos alemão e russo haviam sido eliminados pela guerra e pela revolução antes de 1919.

Cada poder imperialista manteve sua própria “esfera de influência” e apoiava o “seu próprio” o barão local, senhor guerreiro ou o governo “nacional”. Assim, o império britânico, o poder imperialista dominante, forneceu armas, dinheiro e “conselheiros” para Wu P’ei-fu, o senhor guerreiro dominante na China central que controlava os distritos ao longo do Rio de Yangtse. Os japoneses prestaram os mesmos serviços a Chang Tso-lin, na Manchúria. Pouco menos que gangsteres militares, todos eles vinculavam-se a uma ou outra potência imperialista, e controlavam grande parte do país.

A exceção, muito parcial, era Cantão e o seu interior. Ali Sun Yat-sen, o pai do nacionalismo chinês, havia estabelecido uma certa base com um programa de independência nacional, modernização e reformas sociais, com um vago verniz “esquerdista”. O partido de Sun, o Kuomintang (KMT), bastante disforme e ineficaz antes de 1922, dependia da tolerância dos senhores “progressistas” da região.

Porém, depois de movimentos preliminares a partir de 1922, os líderes do KMT fizeram um acordo com o governo da URSS, a qual enviou, em 1924, conselheiros políticos e militares a Cantão e começou a prover armas. O KMT se tornou um partido centralizado com um exército relativamente eficiente. Além disso, a partir do final de 1922 os membros do PCCh foram enviados ao KMT “enquanto indivíduos”. Três deles chegaram até mesmo a participarem como membros da Executiva do KMT. Esta política, que contou com alguma resistência no CCP, foi imposta pela Executiva da Internacional Comunista. O PCCh estava efetivamente preso ao KMT.

No início do verão de 1925 um movimento grevista de massa - que na sua origem era parcialmente econômica, mas rapidamente assumiu um caráter político após a tentativa de repressão pelas tropas estrangeiras e a polícia - explodiu em Xangai e espalhou-se para as principais cidades da China central e meridional, inclusive Cantão e Hong Kong. Com muitos altos e baixos, houve um enorme movimento de revolta nas cidades até o início de 1927. Em vários momentos existiu uma situação de poder dual, com comitês de greve, dirigidos pelo PCCh, constituindo um “Governo Número Dois”. E nesses mesmos anos ocorreram revoltas camponesas em várias províncias importantes. Os regimes dos senhores guerreiros foram abalados nos seus alicerces. O KMT procurou cavalgar a tempestade com ajuda do PCCh, para utilizar o movimento para a conquista do poder nacional sem mudança social. No início de 1926 o KMT foi admitido na Internacional Comunista na condição de partido simpatizante!

Trotsky, embora ainda membro do bureau político do partido russo, estava efetivamente impedido de qualquer influência política direta em 1925. De acordo com Deutscher 13, ele exigiu a saída do PCCh do KMT em abril de 1926. As sua primeiras críticas significativas foram escritas em setembro:

“A luta revolucionária na China entrou em uma nova fase a partir de 1925, uma fase que é caracterizada acima de tudo pela intervenção ativa de amplas camadas do proletariado. Ao mesmo tempo, a burguesia comercial e os elementos da intelligentsia ligados à mesma, estão indo para a direita, assumindo uma atitude hostil em relação às greves, aos comunistas e a URSS. Fica bastante claro, à luz destes fatos fundamentais, que a questão da revisão das relações entre o Partido Comunista e o Kuomintang deve ser necessariamente colocado (…)”

“O movimento para a esquerda das massas operárias chinesas é um fato tão certo quanto o movimento para a direita da burguesia chinesa. Na medida em que o Kuomintang tem se baseado na união política e organizativa dos trabalhadores com a burguesia, ele deve ser destroçado pelas tendências centrífugas da luta de classes.”

“A participação do PCCh no Kuomintang estava perfeitamente correta no período em que o PCCh era uma sociedade de propaganda que estava apenas se preparando para uma futura atividade política independente, mas que, ao mesmo tempo, procurava tomar parte na luta de liberação nacional em curso(…) Mas o poderoso despertar proletariado chinês, seu desejo para luta e para organização independente de classe, é absolutamente inegável. A sua (do PCCh) tarefa política imediata deve ser agora lutar pela direção direta e independente da classe operária que se levanta - não para remover, é claro, a classe operária da luta nacional-revolucionária, mas assegurar-lhe o papel não só de combatente mais resoluto, mas também de dirigente político com hegemonia na luta das massas chinesas(…)

“Pensar que a pequena burguesia pode ser ganha através de manobras inteligentes ou bons conselhos dentro do Kuomintang é utopia desesperada. O Partido Comunista será tanto mais capaz de exercer influência direta e indireta sobre a pequena burguesia de cidade e do campo, quanto mais forte for o partido, quer dizer, quanto mais o partido tenha conquistado classe operária chinesa. Mas isso só é possível sobre a base de um partido de classe e uma política de classe independentes.”14

Isto era totalmente inaceitável para Stalin e seus associados. A sua política agarrar-se ao KMT e forçar o PCCh a se subordinar, não importa a que. Deste modo eles esperavam manter um aliado fidedigno da URSS no sul da China, o qual poderia, posteriormente, até mesmo tomar o poder nacionalmente.

Esta política era justificada teoricamente com a ressurreição da tese da “ditadura democrática”. A revolução chinesa era uma revolução burguesa e, portanto, segundo o argumento, a meta a ser alcançada deveria ser uma ditadura democrática do proletariado e do campesinato. Para preservar o bloco operário-camponês, o movimento teria que se limitar às “reivindicações democráticas”. A revolução socialista não estava na ordem do dia. A dificuldade apresentada pelo fato de que o KMT não era um partido camponês foi respondida pelo argumento de que, na verdade, tratava-se de um partido policlassista, um “bloco de quatro classes” (burguesia, pequena burguesia urbana, operários e camponeses).

“O que significa isto - bloco de quatro classes? Alguma vez se encontrou esta expressão na literatura marxista? Se a burguesia conduz as massas oprimidas do povo sob a bandeira burguesa e toma o poder sob sua direção, então isto não é nenhum bloco, mas a exploração política das massas oprimidas pela burguesia.”15

O verdadeiro ponto é que a burguesia capitularia diante dos imperialistas. Portanto o KMT inevitavelmente representaria um papel contra-revolucionário.

“A burguesia chinesa é suficientemente realista e bastante familiarizada com a natureza do imperialismo mundial para entender que uma luta realmente séria contra este último requer uma tal revolta das massas revolucionárias que se tornaria uma ameaça, principalmente à própria burguesia(…) E se nós ensinamos aos trabalhadores da Rússia, desde o começo a não acreditarem na boa vontade do liberalismo e na capacidade da democracia pequeno-burguesa de esmagar o tzarismo e destruir o feudalismo, nós devemos de maneira não menos enérgica imbuir os trabalhadores chineses desde o início com o mesmo espírito de desconfiança. A nova e absolutamente falsa teoria promulgada por Stalin e Bukharin acerca do espírito revolucionário “imanente” da burguesia colonial é, em sua substância, uma tradução do menchevismo na linguagem da política chinesa.”16

O resultado é bem conhecido. Chiang Kai-Shek, chefe militar do KMT, lançou o primeiro golpe contra a esquerda em Cantão em março de 1926. O PCCh, sob pressão russa, submeteu-se. Quando o exército de Chiang lançou a “Expedição do norte” uma onda de revolta operária e camponesa destruiu as forças senhoriais, mas o PCCh, fiel ao “bloco”, fez o melhor possível para impedir “excessos”. Antes que Chiang entrasse em Xangai em março de 1927, as forças dos senhores guerreiros foram derrotadas por duas greves gerais e uma insurreição conduzidas pelo PCCh. Chiang ordenou que os trabalhadores fossem desarmados. O PCC recusou-se a resistir. Então, em abril, eles foram massacrados e o movimento operário foi decapitado. Seguiu-se uma divisão no KMT. Os líderes civis, temendo (corretamente) que Chiang estava por se tornar um ditador militar, estabeleceram o seu governo em Wuhan (Hankow).

Agora a Comintern exigia do PCC o apoio ao regime da “esquerda” do KMT, e forneceu os seus ministros do trabalho e da agricultura. Seu líder, Wang Ching-Wei, usou-os enquanto lhe serviram e então, depois de alguns meses, realizou o seu próprio golpe. Posteriormente, ele chegou até mesmo a encabeçar o governo fantoche da China sob ocupação japonesa. O PCCh foi levado à clandestinidade, e rapidamente perdeu sua base de massas nas cidades. A cada confronto crucial o partido usara a sua influência, conquistada a duras penas, para persuadir os trabalhadores a não resistirem ao KMT.

E então, devido à fase crítica a que havia chegado a luta interna no partido russo, o grupo dominante de Stalin e Bukharin no Partido Comunista da União soviética (PCUS) deu um giro de 180 graus. Das consecutivas capitulações ao KMT, o PCCh foi forçado a realizar um putsch. Stalin e Bukharin precisavam de uma vitória na China para afastar as críticas da oposição (a qual eles planejaram expulsar) no décimo quinto Congresso do partido em dezembro de 1927. O novo emissário da Comintern, Heinz Neumann, foi enviado a Cantão onde tentou organizar um golpe de estado no início de dezembro. O PCCh ainda possuía uma força subterrânea séria na cidade. Cinco mil comunistas, na maior parte trabalhadores locais, tomaram parte no levante. Mas não tinha havido nenhuma preparação política, nenhuma agitação, nenhum envolvimento da massa da classe operária. Os comunistas estavam isolados. A “comuna de Cantão” foi esmagada em aproximadamente o mesmo tempo que fora necessário para esmagar a insurreição de Blanqui em Paris no ano de 1839 - dois dias - e pelas mesmas razões. Foi um putsch levado adiante sem levar em conta o nível da luta de classe e a consciência da classe operária. O resultado foi um massacre até maior que o de Xangai. O PCCh deixou de existir em Cantão.

A teoria da revolução permanente havia sido novamente confirmada - em um sentido negativo. A dominação imperialista da China conseguiu um tempo adicional de vida.

Porém, suponha que o PCCh houvesse seguido o mesmo curso que os bolcheviques haviam seguido após abril de 1917. Uma ditadura proletária era realmente possível em um país tão atrasado quanto a China nos anos 20?

“A questão do caminho “não-capitalista” de desenvolvimento na China foi posto de uma forma condicional por Lenin, para quem, assim como para nós, era e é o ABC que a revolução chinesa, deixada às suas próprias forças, isto é, sem o apoio direto do proletariado vitorioso da URSS e da classe operária de todos os países, só poderia terminar com as possibilidades mais amplas de desenvolvimento capitalista do país, com condições mais favoráveis para o movimento operário (…) Mas, em primeiro lugar, a inevitabilidade do caminho capitalista não tem sido, de nenhum modo, demonstrado, e, segundo, - o argumento é incomparavelmente mais oportuno para nós - as tarefas burguesas podem ser resolvidas de vários maneiras.”17

Será necessário retornarmos a este último ponto. Na segunda metade deste século uma série de revoluções aconteceram, de Angola a Cuba e do Vietnã a Zanzibar (agora parte de Tanzânia), as quais não foram certamente revoluções proletárias, e tampouco eram certamente revoluções burguesas no sentido clássico.

Trotski não previu um tal desenvolvimento, nem nenhuma outra pessoa de seu tempo. A teoria da revolução permanente, confirmada decisivamente na primeira metade deste século, deve ser reconsiderada obviamente à luz desses últimos desenvolvimentos. A questão será retomada mais adiante, no último capítulo.

Notas

1.   Engels a Kautsky, Marx and Engels: Selected Correspondence 1846-1895,  London: Lawrence & Wishart 1936, p.399.

2.   “Manifesto of the Russian Social-Democratic Workcrs” Party”, (1898), in R.V. Daniels (ed.), A Documentary History of Communism, New York: Vintage 1962, Vol.1, p.7.

3.   Lenin, Collected Works, Moscow: Foreign Languages Publishing House 1960, Vol.9, pp.55-57. Ênfase no original.

4.   Ibid. Vol.21, p.33

5.   Trotsky, “Our differences”, in 1905, New York: Vintage 1972, p.312.

6.   Ibid.

7.   Ibid. pp.313-14.

8.   Trotsky, “Results and prospects”, in The Permanent Revolution, 1962, pp.194-95. Grifo meu.

9.   Lenin, Collected Works, op.cit. Vol.9, p.28.

10. Trotsky, “Our differences”, op.cit. p.317.

11. Tentar justificar estas declarações ultrapassaria os propósitos limitados deste livro. A História da Revolução Russa do próprio Trotsky, vols 1 e 2, e a obra Lenin de Tony Cliff, London: Pluto Press 1976, Vol.2, proporcionam, a partir de ângulos ligeiramente diferentes, as evidências decisivas.

12. T. Cliff, Lenin, London: Pluto Press 1976, Vol.2, p.138.

13. I. Deutscher, The Prophet Unarmed , London: Oxford University Press 1959, p.323.

14. Trotsky, “The Chinese Communist Party and the Kuomintang”, Leon Trotsky on China, N.York: Monad 1976, pp.113-15.

15. Trotsky, “First speech on the Chinese question”, Leon Trotsky on China, op.cit. p.227.

16. Trotsky, “Summary and perspectives of the Chinese revolution”, Leon Trotsky on China, op.cit. p.297.

17. Trotsky, “The Chinese revolution and the theses of Comrade Stalin”, Leon Trotsky on China, op. cit. pp.162-63.

2. O stalinismo

O sonho e a esperança de uma sociedade sem classes e verdadeiramente livre são muito antigos. Na Europa eles são bem documentados a partir século XIV em diante nos fragmentos sobreviventes das idéias de muitos rebeldes e hereges.

Uma rima popular durante a grande revolta camponesa na Inglaterra em 1381 dizia: “When Adam delved and Eve span, who was then the gentleman?” (“Enquanto Adão cavava e Eva cobria, quem era então o cavalheiro?). E, é claro, também se pode encontrar sentimentos semelhantes (embora carregados da ideologia da classe dominante) no cristianismo e no islamismo primitivos e, em graus variados, em sociedades muito mais antigas.

Marx introduziu uma idéia fundamentalmente nova. Ela pode ser resumida da seguinte forma: as aspirações dos pensadores e ativistas mais avançados das gerações passadas (pré-industriais), por mais admiráveis e inspiradoras que tenham sido para o futuro, eram utópicas no seu tempo pelo simples fato de que eram irrealizáveis. A sociedade de classes, a exploração e a opressão são inevitáveis enquanto o desenvolvimento das forças produtivas e a produtividade do trabalho (conceitos relacionados, mas não idênticos) são relativamente baixos. Com o desenvolvimento do capitalismo industrial tal estado não é mais inevitável, contanto que o capitalismo seja derrocado. Uma sociedade sem classes, baseada numa (relativa) abundância tornou-se possível. Além disso, o instrumento para alcançar tal sociedade - o proletariado industrial - foi criado pelo próprio desenvolvimento do capitalismo.

Estas idéias eram naturalmente a moeda comum do marxismo pré-1914. Todos os revolucionários da tradição de marxista as tinham como certas. Mas a sociedade que saiu da revolução russa de outubro não foi uma sociedade livre e sem classes. Mesmo no início ela diferia muito da visão de Marx de um Estado operário (explicitada em A guerra civil na França) ou do desenvolvimento das idéias de Marx por Lenin (exposto no Estado e Revolução). Mais tarde, acabou por transformar-se, sob Stalin, em um monstruoso despotismo.

Seria difícil exagerar a importância destes fatos. A existência, primeiro de um estado, e depois de toda uma série de estados que afirma ser “socialistas”, mas que na realidade são caricaturas repulsivas do socialismo, deve ser considerado como um dos fatores mais importantes do “capitalismo ocidental”.

Propagandistas de direita argumentam que o stalinismo é o resultado inevitável da expropriação da classe capitalista. Por outro lado, propagandistas social-democratas argumentam que o stalinismo é a conseqüência inevitável do “centralismo bolchevique”, e que Stalin foi o “herdeiro natural de Lenin”.

Trotski foi responsável pela primeira tentativa de uma análise histórico-materialista do stalinismo - do resultado real da revolução russa. Sejam quais forem as críticas a serem feitas - e algumas serão feitas aqui -, essa tentativa foi o ponto de partida para todas as análises sérias feitas subseqüentemente de um ponto de vista marxista.

Qual era a realidade social da Rússia de 1921, quando Lenin era ainda o presidente do Conselho dos Comissários do Povo e Trotski o Comissário de Guerra?

Falando em defesa da Nova Política Econômica (NEP) na URSS no final de 1921, Lenin argumentou que:

“Se o capitalismo lucra com ela (a NEP), a produção industrial crescerá, e o proletariado também crescerá. Os capitalistas ganharão com a nossa política e criarão um proletariado industrial que em nosso país, devido à guerra e a pobreza e ruína desesperadoras, se tornou “desclassado”, isto é, foi desalojado de seu entalhe de classe, e deixou de existir enquanto proletariado. O proletariado é a classe que está engajada na produção de valores materiais na indústria capitalista de larga escala. Visto que a indústria capitalista de larga escala foi destruída, e que as fábricas estão paradas, o proletariado desapareceu.”1

O proletariado “deixou de existir enquanto proletariado”! O que acontece então com a ditadura do proletariado, o proletariado como classe dominante?

A guerra e a guerra civil destroçaram a indústria russa - já bem frágil para os padrões da Europa ocidental. Da revolução de outubro até março de 1918, quando o “monstruoso tratado de ladrões” de Brest Litovsk foi assinado com a Alemanha, a Rússia revolucionária permaneceu em guerra contra a Alemanha e o império austro-húngaro. No mês seguinte o primeiro dos exércitos “aliados” de intervenção - o japonês - atracou em Vladivostok e começou o seu ataque em direção à Sibéria. Ele não se retiraria até novembro de 1922. Nesses anos os destacamentos de quatorze exércitos estrangeiros (incluindo os dos Estados Unidos, Inglaterra e França) invadiram o território da república revolucionária. Os generais “brancos” foram armados, abastecidos e apoiados. No auge da intervenção, no verão de 1919, a república soviética estava reduzida a um pedaço de Estado na Rússia européia central ao redor de Moscou, com alguns baluartes remotos sustentados precariamente. Até mesmo no verão seguinte, quando os exércitos “brancos” haviam sido decisivamente derrotados, um quarto de todo estoque disponível de grãos da república soviética teve que ser enviado ao grupo do exército ocidental em luta contra os invasores poloneses.

Isso numa época em que as cidades estavam despovoadas e sofrendo fome. Mais da metade da população total de Petrogrado (Leningrado) e quase metade da de Moscou haviam fugido para o campo. As indústrias que conseguiam manter-se em funcionamento estavam dedicadas quase inteiramente à guerra - e isso só foi possível através da “canibalização”, o ininterrupto sacrifício da base produtiva como um todo para manter em funcionamento uma fração dela. Estas eram as circunstâncias nas quais o proletariado russo desintegrou-se.

Os fatos são bem conhecidos e foram apresentados em algum detalhe, por exemplo, no segundo volume da História da revolução Bolchevique de E.H. Carr.2 Em 1921 a produção industrial total mal alcançava um oitavo da produção de 1913, a qual já era miseravelmente baixa para os padrões alemão, britânico ou norte-americano.

A revolução sobreviveu por meio de esforços e sacrifícios enormes, dirigida por uma ditadura revolucionária, a qual de longe ultrapassou a ditadura jacobina de 1793 em sua capacidade de mobilização. Mas sobreviveu às custas de uma economia arruinada. E permaneceu isolada. Em 1921 o movimento revolucionário europeu estava claramente em refluxo.

O que nos interessa aqui são as conseqüências sociais destes fatos. O chamado “comunismo de guerra” de 1918-21 tinha sido, na realidade, uma economia de cerco das mais brutais e brutalizantes. Em essência consistiu na requisição forçada de grão dos camponeses, na “canibalização” da indústria, serviço militar obrigatório universal e coerção massiva para vencer a guerra pela sobrevivência.

Antes da revolução uma parte significativa da produção de grãos era desviada para as cidades (diretamente ou via exportações) na forma de rendas, pagamentos de juros, impostos, pagamentos de compensação, etc., para as antigas classes dominantes. A Rússia tzarista havia sido uma grande exportadora de grãos. Agora, com a destruição da velha ordem, esse vínculo fora cortado. Os camponeses produziam para o consumo ou para troca. Mas a ruína da indústria significava que não havia nada, ou quase nada, para trocar. Por isso se tornou necessária a requisição forçada.

A revolução havia sobrevivido em um país esmagadoramente camponês por causa do apoio - normalmente passivo, mas às vezes ativo - das massas camponesas que haviam logrado ganhos com ela. Com o fim da guerra civil já não tinham mais nada para ganhar, e as revoltas em 1921, em Kronstadt e Tambov, mostraram que o campesinato e seções remanescentes da classe trabalhadora estavam se voltando contra o regime.

A Nova Política Econômica (NEP), estabelecida a partir de 1921, era, acima de tudo, um reconhecimento desse fato e introduziu um imposto fixo (arrecadado em grãos, uma vez que o dinheiro havia perdido todo o seu valor durante o comunismo de guerra) em substituição à requisição arbitrária daquela época. Em segundo lugar, permitiu o renascimento do comércio privado e da produção privada de pequena escala (mantendo as “instâncias de comando” para o estado). Em terceiro lugar, abriu as portas (sem sucesso) para o capital estrangeiro explorar “concessões”. E em quarto lugar, e isto foi de importância vital, a NEP introduziu o cumprimento rigoroso do princípio de lucratividade na maioria das indústrias nacionalizadas, combinado a uma severa ortodoxia financeira, baseada no padrão ouro, para criar uma moeda corrente estável e impor a disciplina do mercado tanto às empresas públicas quanto privadas.

Estas medidas, introduzidas entre 1921 e 1928, realmente produziram um renascimento econômico. No início ele ocorreu de forma mais lenta, para posteriormente assumir um ritmo mais rápido, até que em 1926-27 o nível de produção industrial alcançou novamente - e, em alguns casos, ultrapassou - o nível de 1913. No caso dos produtos alimentícios disponíveis (na maior parte grãos) o crescimento foi muito mais lento. A produção cresceu, mas os camponeses, não mais explorados como em 1913, consumiam muito mais da sua produção em comparação ao período anterior à revolução. Assim, as cidades tiveram que continuar com rações pequenas.

Essa recuperação econômica conseguida com medidas capitalistas ou quase capitalistas teve conseqüências sociais análogas.

“E então as cidades que dirigíamos assumiram um aspecto estrangeiro; nós nos sentíamos afundando no lodo - paralisados, corrompidos… O dinheiro lubrificava toda a máquina exatamente como no capitalismo. Um milhão e meio de desempregados recebiam ajuda - insuficiente - nas grandes cidades… As classes renasciam diante de nossos próprios olhos; na base da escala (social) o desempregado recebia 24 rublos por mês, no topo o engenheiro (isto é, um especialista técnico) recebia 800, e entre os dois estava o funcionário do partido que recebia 222 rublos, mas obtinha muitas coisas de graça. Formava-se um abismo crescente entre a prosperidade de alguns e a miséria de muitos.”3

Como resultado da NEP a classe trabalhadora realmente recuperou-se numericamente do ponto baixo de 1921, mas não renasceu politicamente, ou pelo menos não em uma escala suficiente para abalar o poder do burocrata, do “Nepman” e do kulak. Uma das razões principais foi a sombra do desemprego em massa - proporcionalmente muito mais severo na Rússia dos anos 20 do que na Inglaterra dos anos 30.

O Estado operário deformado

O desagregamento da classe trabalhadora tinha alcançado um estágio avançado quando, pelo final de 1920, desencadeou-se no PC russo o chamado “debate sindical”.

Superficialmente, a questão em debate era se os trabalhadores necessitavam ou não da organização sindical para se protegerem do “seu” próprio Estado. A um nível mais profundo o conflito girava em torno de questões muito mais fundamentais.

O Estado operário de 1918 ainda existia? A democracia soviética, na prática, havia sido destruída na guerra civil. O Partido Comunista havia se “emancipado” da necessidade de apoio majoritário da classe trabalhadora. Os soviets haviam se tornado meros “carimbos” para as decisões do partido. E, pelas mesmas razões, o processo de “militarização” e “dirigismo” dentro do Partido comunista havia crescido rapidamente.

Contra esses desenvolvimentos, revoltou-se a “Oposição Operária” dentro do partido. A Oposição exigia “autonomia” para os sindicatos, denunciando o controle do partido e apelando à tradição do “controle operário” sobre a produção (uma bandeira do próprio partido num período anterior). Se adotadas, essas medidas teriam significado o fim do regime - pois a massa do que restou da classe operária era decididamente indiferente, se não anti-bolchevique. Também crescente era a massa de camponeses que formavam a grande maioria da população. “Democracia” sob essas condições só podia significar contra-revolução - e uma ditadura de direita.

O partido tinha sido levado a servir de substituto a uma classe trabalhadora em desagregação, e, no interior do partido os organismos dirigentes haviam afirmado crescentemente a sua autoridade sobre uma militância crescente, mas de composição problemática. (O PC russo tinha, em números arredondados, 115,000 membros no início de 1918, 313,000 no início de 1919, 650,000 pelo verão de 1921 - dos quais uma parte cada vez menor era de trabalhadores).

O partido havia se tornado o tutor de uma classe trabalhadora que, temporariamente (esperava-se), tinha se tornado incapaz de administrar seus próprios negócios. Mas o próprio partido não era imune às forças sociais imensamente poderosas geradas pelo declínio industrial, baixa (e decrescente) produtividade do trabalho, atraso cultural e barbarismo. Na verdade para que o partido pudesse agir “tutor”, era necessário privar a massa dos sus militantes de qualquer influência direção dos acontecimentos, pois também eles vieram a refletir o atraso da Rússia e o declínio da classe trabalhadora.

A solução de Trotski para este dilema foi, a princípio, persistir resolutamente no curso de substitucionista.

“É necessário criar entre nós a consciência do direito de nascença histórico revolucionário do partido. O partido tem obrigação de manter a sua ditadura, indiferente às oscilações temporárias nos humores espontâneos das massas, até mesmo às vacilações temporárias na classe trabalhadora. Esta consciência é para nós um elemento de unificação indispensável.” 4

Esta atitude o levou a argumentar que os sindicatos deveriam ser absorvidos na máquina estatal (como depois aconteceu sob Stalin, de fato embora não na forma). Não havia nenhuma necessidade ou justificativa nem sequer para uma relativa autonomia sindical; ela servia mais como um foco de descontentamento do que para o exercício do controle do partido.

Os argumentos avançados por Lenin contra esta posição, em dezembro de 1920 e janeiro de 1921, são importantes para o futuro desenvolvimento da análise de Irotski da URSS. Eles se tornaram, tardiamente, na base dessa análise.

“Camarada Trotski fala de um “Estado operário”. Permitam-me dizer que isso é uma abstração. É natural que nós tenhamos escrito em 1917 sobre um “Estado operário”. Mas agora é um erro patente afirmar que “desde que este é um Estado operário sem qualquer burguesia, então contra quem a classe operária deve ser defendida e com que propósito?”. Toda a questão é que este não é inteiramente um Estado operário. É neste ponto que o camarada Trotski comete um de seus maiores erros…” 5

E um mês depois ele escreveu:

“O que eu deveria ter dito é: “Um Estado operário é uma abstração. O que nós temos de fato é um Estado operário com a peculiaridade, primeiro, de que não é a classe operária mas a população camponesa que predomina no país, e, segundo, que é um Estado operário com deformações burocráticas.”6

Um Estado operário burocraticamente deformado em um país predominantemente camponês. No próximo estágio, a NEP, Trotski adotaria esta visão e aprofundaria seu conteúdo. Não é necessário aqui descrever o destino da Oposição de Esquerda (1923) e da Oposição Unificada (1926-27) em detalhes 7, nas quais Trotski desempenhou um papel central. É suficiente para nossos propósitos apresentarmos algumas das opiniões principais.

A Oposição de esquerda e a Oposição unificada haviam feito pressão pela democratização do partido, a restrição de seu aparato e por um programa de industrialização planejada a ser financiado “arrochando” o kulak e os Nepmen, pelo combate ao desemprego, renascimento econômico e político da classe trabalhadora de forma a recriar a base da democracia soviética.

“A posição material do proletariado dentro do país deve ser fortalecida absolutamente e relativamente (crescimento no número de trabalhadores empregados, redução no número de desempregados, melhorias no nível material da classe trabalhadora)…”, declarava a plataforma da Oposição.

“O atraso crônico de indústria, e também de transporte, eletrificação e construção, em relação às demandas e necessidades da população, da economia pública e do sistema social como um todo, prende como uma morsa o funcionamento de toda a economia do país.” 8

A contradição interna desta posição era que, por um lado, a democratização do partido permitiria ao descontentamento de ambos os setores, camponês e proletário, encontrar uma expressão organizada. Por outro lado, aumentar a pressão estatal nos novos ricos (especialmente os camponeses mais ricos) reproduziria algumas das tensões extremas do comunismo de guerra que haviam levado o partido, primeiro a suprimir toda a oposição extra-partidária legal e depois a eliminar a oposição partidária interna e estabelecer a ditadura do aparato.

Na verdade, essas questões não foram colocadas à prova.

Não era simplesmente a economia que estava presa “em uma morsa”. Também era o caso da Oposição. O seu programa desafiava os interesses materiais de todas as três classes que se beneficiavam com a NEP: os burocratas, os Nepmen e os kulaks. A oposição não poderia prevalecer sem o renascimento da atividade da classe trabalhadora, a qual era a sua única base de apoio possível. Mas isso, por sua vez, era enormemente dificultado pelas condições sociais e econômicas da NEP, tanto quanto a revolução permanecesse isolada.

Stalin, chefe e porta-voz da camada conservadora do partido e dos funcionários estatais que de fato governavam o país, resistiu vigorosamente às demandas por industrialização planificada e pela democratização (como também o fizeram os seus aliados da direita do partido, notavelmente Bukharin e seus partidários).

Este era o conteúdo social do “socialismo em só país” defendido pelo grupo dominante a partir de 1925. Era uma declaração pelo status quo contra “motins” de qualquer tipo, contra expectativas revolucionárias e contra uma política exterior ativa.

Ainda um ano antes, em abril de 1924, Stalin havia resumido o que era ainda a visão comum:

“Para a derrubada da burguesia, os esforços de um país são suficientes - a vitória de nossa própria revolução é testemunha disso. Para a vitória final do socialismo, para a organização de produção socialista, os esforços de um país, especialmente de um país camponês como o nosso, não são suficientes - para isto nós precisamos dos esforços dos proletariados de vários países avançados.” 9

Era uma paráfrase de Lenin, e não mais do que uma declaração da realidade sócio-econômica. Mas esta visão ortodoxa, uma vez propriedade comum dos marxistas russos de todas as tendências, teve a desvantagem de enfatizar o caráter provisório do regime e a sua dependência, para um desenvolvimento socialista, das revoluções no Ocidente. Isto tornou-se profundamente inaceitável às camadas dominantes. O “socialismo em só país” era a declaração de sua independência em relação ao movimento operário.

Depois da derrota final da Oposição e o seu exílio da Rússia, Trotski resumiu a experiência em um artigo escrito em fevereiro de 1929:

“Após a conquista do poder, uma burocracia independente destacou-se do ambiente de classe operária e esta diferenciação… (que) no princípio era apenas funcional, tornou-se depois social. Naturalmente, os processos dentro da burocracia desenvolveram-se em relação aos profundos processos em andamento no país. Sobre a base da Nova Política Econômica um amplo estrato da pequena burguesia reapareceu ou foi recentemente criada nas cidades. As profissões liberais reviveram. Na zona rural, o camponês rico, o kulak, ergueu a sua cabeça. Amplas seções da oficialidade, justamente por terem se levantado sobre as massas, se aproximaram dos estratos burgueses e estabeleceram laços de família. Crescentemente, qualquer iniciativa ou crítica por parte das massas eram vistas como interferência… A maioria desta oficialidade que se levantou por cima das massas é profundamente conservadora. . . Essa camada conservadora, que constitui o apoio mais poderoso de Stalin na sua luta contra a Oposição, está mais inclinada a seguir o rumo à direita, em direção aos novos elementos proprietários, do que o próprio Stalin ou o núcleo central da sua facção.” 10

A conclusão política tirada desta análise era o perigo de um “Termidor soviético”. No dia 9 do Termidor (27 de julho de 1794) a ditadura jacobina foi subvertida pela Convenção e foi substituída por um regime de direita (o Diretório de 1795), o qual presidiu sobre a base de uma reação política e social na França e pavimentou o caminho para a ditadura de Bonaparte (a partir de 1799). O Termidor marcou o fim da Grande Revolução francesa. Agora pairava a ameaça de um Termidor russo.

“Elementos de um processo termidoriano, com certeza um que é completamente distintivo, podem ser encontrados na terra dos soviets. Eles tem se tornado notavelmente evidentes nos anos recentes. Os que estão no poder hoje ou desempenharam um papel secundário nos eventos decisivos do primeiro período da revolução ou eram oponentes sinceros da revolução e só se juntaram a ela depois de vitoriosa. Eles servem agora na maior parte como camuflagem para essas camadas e agrupamentos que, embora hostis ao socialismo, são muito frágeis para uma virada contra-revolucionária e, por isso, buscam uma transferência termidoriana pacífica que conduza à sociedade burguesa. Eles procuram “descer a ladeira freando”, como formulou um de seus ideólogos.11

Porém, isto ainda não havia acontecido, e tampouco era inevitável. O estado operário ainda estava intacto, embora corroído. O resultado, acreditava Trotski,

“será decidido pelo curso da própria luta das forças vivas da sociedade. Haverão fluxos e refluxos, cuja duração dependerá em grande parte da situação na Europa e ao longo do mundo.” 12

Em resumo, haviam três forças básicas a trabalho na URSS: as forças da direita - os elementos neo-capitalistas, kulaks, Nepmen, etc., para os quais uma grande seção do aparato no poder serve “na maior parte como uma camuflagem”; a classe trabalhadora, representada politicamente pela Oposição, agora suprimida; e a “burocracia” centrista, a facção de Stalin no topo da máquina, que em si não é termidoriana, mas que se apóia nos termidorianos e ziguezagueia da esquerda para a direita na tentativa de manter o poder.

A burocracia havia dado uma guinada para a direita de 1923 a 1928, e depois para a esquerda. “O curso de 1928-31”, escreveu Trotski em 1931:

“se deixarmos novamente de lado as inevitáveis oscilações e recaídas, representa uma tentativa da burocracia para se adaptar ao proletariado, mas sem abandonar os princípios básicos de sua política ou, o que é muito importante, de sua onipotência. Os ziguezagues do stalinismo mostram que a burocracia não é uma classe, nem um fator histórico independente, mas um instrumento, um órgão executivo das classes. O ziguezague à esquerda é a prova de que não importa o quão longe o curso anterior de direita tenha ido, ele todavia desenvolveu-se com base na ditadura do proletariado.”13

Portanto, a classe trabalhadora, em algum sentido, ainda detinha o poder, ou pelo menos tinha a possibilidade de recuperar o poder sem uma sublevação fundamental.

“O reconhecimento do Estado soviético atual como um Estado operário não só significa que a burguesia só pode conquistar o poder por meio de uma insurreição armada, mas também que o proletariado da URSS não perdeu a possibilidade de subordinar a burocracia para si, de reavivar a partido novamente, e de regenerar o regime do ditadura - sem uma nova revolução, com os métodos e no caminho da reforma.” 14

À altura em que isto foi escrito, factualmente já não possuía o menor fundamento. A análise das “três forças” estava irremediavelmente ultrapassada. Nos anos 20 tinha sido uma tentativa realista (mesmo que provisória) de uma análise marxista do curso do desenvolvimento na URSS.

As classes neo-capitalistas e a sua influência na ala direita do partido dominante, eram suficientemente reais em 1924-27. O papel vacilante de Stalin era, naquela época, tal como descrito. Mas em 1928-29 houve uma mudança fundamental.

Por 1928 a NEP estava entrando em sua crise final. Nepmen e kulaks tinham um interesse vital em mantê-la, ampliando ainda mais as concessões para o pequenos capitalistas, nas cidades e no campo.

Os membros principais da burocracia, e a sua vasta clientela nos mais baixos degraus da hierarquia burocrática, não tinham tal interesse vital. Eles só tinham um interesse vital de resistir à democratização do partido e do Estado. Haviam se aliado com as forças do pequeno capitalismo (e a direita bukharinista do partido) contra a Oposição, contra o perigo de um renascimento da classe operária.

Mas quando, com a Oposição esmagada, a burocracia viu-se diante de uma ofensiva de kulak, a “greve dos grãos” de 1927-28, ela demonstrou que a sua base essencial eram a propriedade e a máquina estatais, nenhuma das quais tinham qualquer conexão orgânica com a NEP. Ela defendeu seus interesses vigorosamente contra os seus aliados de ontem.

O kulaks controlavam praticamente todo o grão comerciável, o excedente sobre o consumo dos camponeses (a estimativa geralmente aceita é a de que um quinto dos fazendeiros camponeses produziam quatro quintos dos grãos vendidos no mercado). Sua tentativa para forçar um aumento nos preços, privando o mercado de seus estoques, forçou a burocracia a recorrer à requisição. E uma vez neste caminho, que minou a base fundamental da NEP, eles foram impelidos a adotar o programa de industrialização da Oposição, o que eles fizeram de uma forma extravagantemente exagerada, e empreender a coletivização forçada da agricultura, a “liquidação dos kulaks enquanto classe”. O primeiro “plano qüinqüenal” foi lançado.

Trotski interpretou isto como uma guinada (temporária) à esquerda pela burocracia stalinista, como uma tentativa “de se adaptar ao proletariado”. Ele estava profundamente equivocado. Estes foram justamente os anos nos quais o proletariado na URSS estava atomizado e sujeitado, pela primeira vez, a um despotismo verdadeiramente totalitário. Os salários reais caíram bruscamente. Embora os salários nominais tenham subido consideravelmente, os preços subiram muito mais rapidamente. Em geral, estatísticas importantes deixaram de ser publicadas depois de 1929 (isto é em si um fato significativo), mas um cálculo, publicado na URSS muito tempo depois (1966), mostrava o índice dos salários reais em 1932 como 88,6 (1928 = 100). “O índice correto dos salários reais (se soubéssemos) seria (…)bem abaixo de 88,6”, comenta Alec Nove, a fonte desta informação.15

O plano qüinqüenal introduziu um período de direcionamento da economia de acordo com um plano global, de crescimento industrial rápido, de coletivização forçada da agricultura, de destruição dos direitos políticos e sindicais (restantes) da classe trabalhadora, do rápido crescimento da desigualdade social, de extrema tensão social e trabalho forçado em massa. Também pressagiou a ditadura pessoal de Stalin e o seu regime de terror policial e, pouco mais tarde, o assassinato por fuzilamento ou a morte lenta nos campos de trabalho da grande maioria dos quadros originais do partido bolchevique e, na verdade, da maioria da própria facção de Stalin dos anos 20, junto a um número incerto mas muito grande de outros cidadãos da URSS e de muitos comunistas estrangeiros. Em resumo, introduziu a grande vaga do Stalinismo.

O fato de Trotski ter visto tudo isso como um giro à esquerda (embora ele não tenha estado a par de todos os fatos até alguns anos mais tarde), indica que ele tinha recaído no substitucionismo, pelo menos no que tocava à a URSS. Foi um engano que ele nunca pôde corrigir completamente. O argumento de que a burocracia não era um fator histórico independente mas um instrumento, um órgão executivo de outras classes, tinha sido decisivamente refutado quando aquela mesma burocracia simultaneamente esmagou os kulaks e atomizou os trabalhadores.

No início dos anos 20 ainda era possível discutir sobre os fatos. Mas o recém-nascido regime totalitário abafou todas as notícias reais e impôs sua própria máquina monolítica de propaganda. Trotski foi dos que menos se deixou enganar por isto. Foram os seus conceitos e o arcabouço teórico que o levaram a defender a perspectiva de “reforma” na URSS naquele momento. Uma famosa, e profundamente enganosa, analogia da URSS com um sindicato burocratizado originou-se nesse período. A analogia era, pelo menos, logicamente coerente, tanto quanto a estratégia de reforma persistisse.

O Estado operário, Termidor e bonapartismo

Em outubro 1933 Trotski mudou a sua posição abruptamente, passando a argumentar que o regime não podia ser reformado. Tinha que ser derrocado. O caminho da “reforma” já não era mais possível. Só revolução poderia destruir a burocracia:

“Após as experiências dos últimos anos seria infantil supor que a burocracia stalinista pode ser removida por meio de um congresso de partido ou dos soviets. Na realidade, o último congresso do Partido bolchevique aconteceu no começo de 1923, o décimo segundo Congresso do Partido. Todos os congressos posteriores foram paradas burocráticas. Hoje em dia, até mesmo tais congressos foram descartados. Não resta nenhum meio “constitucional” para remover o grupo governante. A burocracia só pode ser compelida a passar o poder às mãos da vanguarda proletária pela força.” 16

O “sindicato burocratizado” tinha que ser destruído, não reformado. É verdade que este artigo contém a seguinte afirmação: “Hoje a ruptura do equilíbrio burocrático na URSS serviria, quase certamente, a favor das forças contra-revolucionárias”, mas essa posição equivocada logo cedeu lugar a uma posição revolucionária.

Com a característica honestidade, Trotski prosseguiu criticando e revisando sua própria perspectiva “reformista” anterior, escrevendo em 1935 que:

“A questão do “Termidor” está intimamente ligada à história da Oposição de esquerda na URSS(…) De qualquer forma as posições a respeito desta questão em 1926 eram aproximadamente as seguintes: o grupo “Centralismo Democrático” (V.M. Smirnov, Sapronov e outros que foram perseguidos por Stalin até à morte no exílio) declaravam que “o Termidor é um fato consumado”. Os partidários da plataforma da Oposição de esquerda. . . negavam categoricamente esta afirmação(…) Quem demonstrou estar correto?

V.M. Smirnov - um dos melhores representantes da velha escola bolchevique - sustentava que o atraso na industrialização, o crescimento do kulak e dos Nepmen (a nova burguesia), a ligação entre a burocracia e estes últimos e, finalmente, a degeneração do partido, haviam ido tão longe que havia tornado impossível um retorno ao caminho socialista sem uma nova revolução. O proletariado já havia perdido o poder… As conquistas fundamentais da revolução de outubro tinham sido liquidadas.” 17

A conclusão de Trotski era de que o “Termidor da Grande Revolução russa não está no futuro, mas sim no passado. Os termidorianos podem celebrar, aproximadamente, o décimo aniversário da sua vitória.” (Quer dizer, teria acontecido por volta de 1925.) 18

Sendo assim os centralistas democráticos estavam corretos em 1926? Sim e não, afirma Trotski agora. Estavam corretos sobre o Termidor, errados sobre o seu significado. “O regime político atual na URSS é um regime de bonapartismo “soviético” (ou anti-soviético), de tipo mais próximo ao império do que ao Consulado.” Mas, ele continuou, “em suas fundações sociais e tendências econômicas a URSS permanece sendo um Estado operário.”

Em termos de analogias formais tudo isso era bastante plausível. Como o próprio Trotski apontou, ambos os termidorianos e Bonaparte representaram uma reação na base da revolução burguesa, e não um retorno ao ancien regime. Mas permanece o fato de que Trotski, não menos que Smirnov, tinha considerado previamente o “Termidor soviético” sob um aspecto fundamentalmente diferente. “O proletariado já havia perdido o poder” era a essência da tese de Smirnov, a qual Trotski negava veementemente na ocasião. Para ele, o partido, embora burocratizado, representava ainda a classe operária. Esta, ao contrário da burguesia, só podia manter o poder através de suas organizações.

“Camaradas”, ele havia declarado em 1924, “nenhum de nós deseja ter ou pode ter razão contra o partido. Em última instância o partido sempre está correto, porque é o único instrumento histórico que a classe operária possui para a solução de suas tarefas fundamentais… Só se pode estar certo com o partido e pelo partido, porque a história não criou nenhum outro modo para a realização da justeza de uma pessoa… Os ingleses têm um ditado que diz: “Meu país, certo ou errado!”. Com muito mais justificativa podemos dizer: Meu partido, certo ou errado - errado em certas questões específicas ou em certos momentos.” 19

Mas o partido (russo) havia se tornado o instrumento, primeiro do Termidor e agora do Bonapartismo; esta era a posição de Trotski ao término de 1933. Já que o partido tinha deixado de ser um instrumento da classe trabalhadora (seu regime tinha que ser derrubado “pela força”, e já que admitidamente os trabalhadores russos não tinham nenhum outro instrumento (estavam na verdade atomizados e sob o terror) o que poderia permanecer do Estado operário?

Nada. Esta era a única conclusão possível, se é que as definições tinham de reter o significado que todos lhes concediam até então. Uma nova revolução nova, “uma insurreição revolucionária vitoriosa”, era necessária para que a classe operária recuperasse o poder na URSS. O proletariado tinha perdido o poder e não havia nenhum modo pacífico, constitucional, para que o recuperasse novamente. Então o Estado operário já não existia. Uma contra-revolução havia acontecido.

Trotski rejeitou estas conclusões firmemente. Ele foi forçado a fazer então uma mudança fundamental na sua definição de Estado operário:

“A dominação social de uma classe (sua ditadura) pode encontrar formas políticas extremamente diversas. Isto é atestado por toda a história da burguesia da Idade Média até os dias de hoje. A experiência da União soviética já é adequada para a extensão desta lei sociológica, mutatis mutandis (mudando o que deve ser mudado), também à ditadura do proletariado.. . Assim, o domínio de Stalin em nada se assemelha ao domínio soviético durante os anos iniciais da revolução. . . Mas esta usurpação só foi tornada possível porque o conteúdo social da ditadura da burocracia é determinado por essas relações produtivas que foram criadas pela revolução proletária. Neste sentido nós podemos dizer com toda justificação que a ditadura do proletariado encontrou sua expressão, distorcida mas indubitável, na ditadura da burocracia.”20

Trotski manteve esta posição, em essência, durante os último cinco anos de sua vida. O seu livro A Revolução Traída (1937) elabora-a com riqueza de detalhe e ilustração vívida.

A natureza fundamental da ruptura com as suas próprias análises anteriores não pode ser exagerada. Era uma coisa discutir (como Lenin tinha feito) que o Estado operário pudesse ser deformado burocraticamente, distorcido, degenerado ou seja lá o que for. Agora o que estava sendo afirmado era que a ditadura do proletariado não possuía nenhuma conexão necessária com qualquer poder dos trabalhadores real. Agora a ditadura do proletariado passava a significar, primeiramente, a propriedade estatal da indústria e o planejamento econômico (embora quase não tenha havido planejamento sob a NEP). A ditadura proletária poderia permanecer existindo até mesmo com a classe operária atomizada e sujeitada a um despotismo totalitário.

A favor de Trotski deve ser dito que ele estava lidando com um fenômeno completamente novo. Ele, como todos os oposicionistas nos anos 20, tinha visto o perigo de um colapso do regime devido à pressão das forças crescentes do pequeno capital. Isto é o que o Termidor havia significado para todos eles. O resultado efetivo foi bastante inesperado. A propriedade estatal não só sobreviveu como se expandiu rapidamente. A burocracia, na realidade, desempenhou um papel independente, fato que Trotski nunca admitiria completamente. O regime resultante era único naquela época.

Nenhuma restauração burguesa havia ocorrido. Além do mais, em um período de profunda depressão industrial no Ocidente, um rápido crescimento econômico teve lugar na URSS, um ponto que Trotski enfatizou repetidas vezes em defesa da sua contenção de que o regime não era capitalista.

Prognósticos

No seu “Programa de Transição” de 1938 Trotski escreveu:

“A União soviética surgiu da revolução de outubro como um Estado operário. A propriedade estatal dos meios de produção, condição necessária ao desenvolvimento socialista, abriu a possibilidade de um crescimento rápido d