Apresentação à tradução brasileira

O pensamento do grande revolucionário russo, Leon Trotski, é uma obra polêmica1. Não poderia ser de outra forma: toda a sua obra está organicamente imbricada com aquele período crucial da luta de classes que se estende da época da II Internacional ao período do domínio stalinista no movimento comunista internacional. Uma época de grandes transformações: as duas revoluções russas, o colapso da II Internacional e a fundação da III Internacional, a derrota do “outubro” alemão (1923) e da revolução européia, a ascensão de Stalin na URSS, a chegada do nazismo de Hitler ao poder na Alemanha, a revolução espanhola. E a nenhum desses grandes acontecimentos Trotski deixou de dar respostas.

Nenhuma linha de seus vários escritos tem um caráter “abstrato” ou acadêmico. A linha que conduz, ininterruptamente, tanto as suas ações quanto as suas elaborações, é a luta pela transformação revolucionária. Um fato digno de nota é que Trotski raramente se vale de citações para emprestar “autoridade” aos seus argumentos. Para ele “o marxismo é um método de análise, não análise de textos, mas das relações sociais”. Imbuído desse espírito, procurou analisar e dar respostas políticas a todos os novos desafios políticos que a luta de classes lhe colocou. Exemplo disso são as suas análises sobre o fascismo, até hoje insuperáveis2.

Portanto, nada mais estranho a Trotski do que o dogmatismo. E é, de certo modo, irônico que a sua obra tenha sido “ossificada” justamente por seus seguidores que, em disputas às vezes escolásticas, realizam “exegeses” dos seus escritos para provarem os seus pontos de vista em tal ou qual questão3.

Qualquer obra enraizada no solo histórico da luta de classes não pode estar imune a equívocos e tensões, ao lado dos acertos e novas aquisições teóricas e políticas, como não o foram as obras de todos os grandes representantes do marxismo clássico, de Marx e Engels a Rosa Luxemburgo, Lenin e Gramsci.

No caso de Trotski menos ainda: a dimensão trágica de sua vida, após a sua expulsão da URSS até o seu assassinato em 1940 no México, é o suficiente para entendermos o por quê. De presidente (aos 26 anos) do soviet de Petrogrado em 1905, presidente do mesmo soviet (em 1917), organizador da insurreição de outubro, organizador e dirigente do Exército Vermelho nos anos cruciais da guerra civil, figura central, ao lado de Lenin, na jovem Internacional Comunista, Trotski estaria destinado ao exílio, acusado de agente do imperialismo e do fascismo, isolado e incapaz de intervir efetivamente no curso dos acontecimentos, além dos sofrimentos impostos aos seus familiares.

O Marxismo de Trotski, de Duncan Hallas, publicado pela primeira vez em 1978 na Inglaterra, é uma obra introdutória ao pensamento de Trotski, mas como o próprio autor indica, sua abordagem é “incomum”.

Sua análise considera os quatro eixos mais importantes da obra de Trotski: a teoria da revolução permanente; a análise do stalinismo; as questões relacionadas à estratégia e tática; a questão do partido revolucionário. Longe, portanto, de esgotar outros campos nos quais Trotski deu contribuições importantes4.

Mas o que distingue o livro de Hallas é que não se limita a expor o legado teórico-político trotskiano. Executa um resgate crítico de sua obra, mostrando, assim, tanto as suas grandezas quanto as posições que o autor considera problemáticas, principalmente no que se refere à análise do stalinismo5. Ao mesmo tempo ele aponta para futuros desenvolvimentos históricos que iriam problematizar as elaborações de Trotski, especificamente no caso da teoria da revolução permanente, com o advento das revoluções chinesa e cubana, principalmente6.

Não se trata de estabelecer o “lado bom” e o “lado mau” da obra de Trotski. Tal atitude, muitas vezes aplicada ao caso de Stalin, seria incompatível com uma análise marxista. Pois é exatamente o que realiza Hallas, não uma mera “análise de textos”, mas uma avaliação da obra de um dos maiores marxistas da história, contextualizando-a historicamente e submetendo-a ao crivo da própria crítica marxista.

E a conclusão, ao lermos o livro de Hallas, é que o marxismo de Trotski, enquanto parte do legado do marxismo clássico, é fundamental para enfrentarmos os desafios da luta de classes no mundo contemporâneo.

A presente tradução é de autoria de Günther Bachmann, revisão de A. Nehmad.

Duncan Hallas, é um membro do Socialist Workers' Party (Grã-Bretanha), partido que faz parte da tendência internacional Socialismo Internacional.

Rui Polly

Notas

1.   No Brasil ainda existe um forte preconceito em relação a Trotski. Isso se deve, em parte, à prática, ao sectarismo e dogmatismo de alguns grupos que reivindicam o trotskismo. Mas deve-se sobretudo à ainda grande influência da cultura política stalinista. De fato ainda permanece uma “cultura anti-trotskista” que foi alimentada pelos Partidos Comunistas, e que se fez sentir até mesmo no campo da literatura (vide “Os subterrâneos da Liberdade” de Jorge Amado). Muitos dos grupos e tendências que romperam com os PCs durante os anos 70 e 80, assumiram uma postura anti-stalinista, mas um anti-stalinismo que trazia embutido um dos elementos mais grotescos da ideologia stalinista, um “anti-trotskismo” visceral que contrapõe Trotski a Lenin e ao próprio legado do marxismo clássico. Assim, não raras vezes nos deparamos com militantes que recusam, muitas vezes com veemência, o legado teórico e político de Trotski, embora praticamente o desconheçam.

2.   Talvez as considerações (equivocadas) de Gramsci em relação a Trotski, se devam, não apenas à stalinização da III Internacional que “filtrava” os relatos dos acontecimentos na URSS e na própria Comintern. O fato é que tudo indica que ele desconheceu, uma vez no cárcere, as análises de Trotski sobre a ascensão do nazismo na Alemanha. Já não é o caso de Carlos Nelson Coutinho, que não esconde uma, digamos, “falta de simpatia” por Trotski, não raro apresentando comentários (ligeiros, é verdade) que deformam posições de Trotski (no tocante à NEP, por exemplo) e/ou minimizam o seu papel real (não só Lenin, mas também Trotski foi um dos maiores defensores da “frente única”). Na questão do fascismo Coutinho desconsidera, ou “esquece-se”, de que antes da vitória de Hitler, Trotski havia alertado para as conseqüências trágicas da política ultra-esquerdista stalinista, analisado a natureza do nazismo e proposto uma aliança entre os comunistas e social-democratas (a quem os stalinistas chamavam de “social-fascistas”) contra o nazismo. “Deslizes” surpreendente se levarmos em conta a “erudição” do introdutor de Lukács e Gramsci no Brasil.

3.   Exemplos disso estão presentes no livro Trotsky Ontem e Hoje de Osvaldo Coggiola. Um outro exemplo mais recente pode ser encontrado na intervenção de Martin Hernandez no debate interno da LIT sobre a natureza dos regimes stalinistas (disponível no site http://www.pstu.org.br/ ). A sua intervenção sintetiza, com rara infelicidade, os piores defeitos do dogmatismo em geral e do trotskismo ortodoxo em particular.

4.   Uma extensa análise da obra de Trotski pode ser encontrada na volumosa biografia política (4 volumes) de Tony Cliff. Infelizmente não há tradução disponível seja em português ou espanhol. Também em inglês Trotsky’s Theory of Revolution, de John Molyneux. No Brasil dispomos da importante trilogia de Isaac Deutscher, não obstante o seu enfoque problemático sob vários aspectos.

5.   Sobre esse tema específico a obra de Tony Cliff, O Capitalismo de Estado na Rússia stalinista, publicado pela primeira vez em 1947, permanece sendo a principal referência. Há uma tradução espanhola do livro. Em português A Natureza de classe dos regimes stalinistas, Rui Polly, cadernos Rebento, assim como outros artigos escritos à época do colapso do stalinismo no leste europeu nos números da revista Rebento.

6.   Para quem deseja uma abordagem mais detalhada da teoria da revolução permanente, Introdução à Teoria da Revolução Permanente, de Rui Polly, disponível no site Socialismo Internacional . Sobre as revoluções chinesa e cubana e seu impacto sobre a teoria, ver Marxismo y Revolución en el Tercer Mundo, tradução espanhola de The Deflected Permanent Revolution, de Tony Cliff. O texto em espanhol está disponível no site Socialismo Internacional (Espanha).

Agradecimentos

Este pequeno livro deve sua existência ao encorajamento, aconselhamento e a ajuda prática de Tony Cliff.

Na medida em que o tratamento dado ao pensamento de Trotski é, de qualquer forma, incomum, o livro é fortemente influenciado pela avaliação e a crítica realizadas pelo próprio Cliff a partir de 1947. Certamente Cliff não é responsável por todas as ênfases presentes no trabalho.

Devem ser feitos outros três reconhecimentos específicos. Para Nigel Harris, cujos escritos e conversas têm modificado consideravelmente minha própria avaliação de Trotski. Para John Molyneux, cujo livro, Marxismo e o Partido, me influenciou mais do que pode aparentar uma visão superficial dos nossos respectivos escritos sobre o tema. E para Chanie Rosenberg, quem datilografou o meu manuscrito durante os intervalos de uma vida política muito ativa, e sem cujos esforços este livro jamais teria visto a luz do dia.

Duncan Hallas

Julho de 1979.

Introdução

Leon Trotski nasceu em 1879 e cresceu para a vida adulta e para a consciência em um mundo que já se foi, o mundo do marxismo social-democrata da Segunda Internacional.

Em qualquer geração existem vários mundos mentais possíveis, arraigados em circunstâncias, organizações sociais e ideologias amplamente diferenciadas, as quais coexistem a um só tempo. O mundo da social-democracia era, então, o mais avançado, o que mais se aproximava de uma visão de mundo científica, materialista.

Para Lev Davidovitch Bronstein (o nome de Trotski foi tomado de um carcereiro), filho de uma família camponesa judia ucraniana, atingir aquela perspectiva era algo bastante notável. O Bronstein mais velho era um camponês próspero, um kulak - caso contrário, Trotski teria recebido muito pouca educação formal - e era um judeu em um país onde anti-semitismo era encorajado oficialmente e pogroms não eram raros. De qualquer forma, o jovem Trotski se tornou, após um período inicial de “revolucionarismo” romântico, um marxista. E muito cedo, sob as condições da autocracia tzarista, tornou-se um revolucionário profissional e prisioneiro político. A sua primeira prisão ocorreu quando tinha 19 anos de idade, ele foi condenado à deportação de quatro anos na Sibéria, depois de passar 18 meses na prisão. Ele escapou em 1902 e desde então, até a sua morte, a revolução foi a sua profissão.

Este pequeno livro se preocupa com as idéias, mais do que com os acontecimentos. É qualquer coisa, menos uma tentativa de biografia. Os três volumes de Isaac Deutscher, qualquer que seja a visão acerca das conclusões políticas do autor, permanecerá o estudo biográfico autorizado durante um longo tempo.

Mas qualquer tentativa para apresentar um resumo das idéias de Trotski depara-se com uma dificuldade imediata. Muito mais do que a maioria dos grandes pensadores marxistas (Lenin é uma destacada exceção), Trotski se preocupou, ao longo da sua vida, com os problemas imediatos que se apresentavam aos revolucionários no movimento operário. Quase tudo que ele disse ou escreveu relaciona-se a algum assunto imediato, a alguma luta real. O contraste com o que veio a ser chamado “marxismo ocidental” não poderia ser mais marcante. Um comentarista, simpatizante desta tendência, escreveu: “A primeira e a mais fundamental das suas características tem sido o divórcio estrutural deste marxismo com a prática política”.1 Esta é a última coisa que poderia ser dita do marxismo de Trotski.

Assim, é necessário apresentar, ainda que numa forma (inadequada) de esboço, alguns elementos do pano de fundo histórico, social e político da formação e amadurecimento do pensamento de Trotski.

A Rússia era atrasada, a Europa avançada. Esta era a idéia básica de todos os marxistas russos (e não só dos marxistas). A Europa era avançada porque a sua industrialização era bem desenvolvida, e porque a social-democracia, na forma dos grandes partidos operários que professavam a sua adesão ao programa marxista, estava crescendo rapidamente. Para os russos (e, de certo modo, geralmente) os partidos dos países de língua alemã eram considerados os mais importantes. Os partidos social-democratas dos impérios alemão e austríaco eram partidos operários em expansão que haviam adotado plenamente programas marxistas (o programa alemão de Erfurt de 1891, o programa austríaco de Heinfeld de 1888). A sua influência entre os marxistas russos era imensa. O fato de que a Polônia, cuja classe trabalhadora já estava se mexendo, foi dividida entre os impérios do tzar e dos dois Kaisers fortaleceu a conexão. Rosa Luxemburgo, será recordado, nasceu na Polônia de ocupação russa, mas tornou-se proeminente no movimento alemão. Não havia nada demais nisto. Os social-democratas consideravam então os “limites nacionais” algo secundário.

Em termos de idéias, este movimento crescente (ilegal na Alemanha entre 1878 e 1890, mas conseguindo um milhão e meio de votos em uma eleição restrita no último ano) era sustentado pela síntese do “primeiro” marxismo com os desenvolvimentos alcançados por Friedrich Engels no final do século 19. O seu Anti-Duhring dele (1878), uma tentativa de uma concepção de mundial global, cientificamente fundamentada, foi a base para as popularizações (ou vulgarizações) de Karl Kautsky, o “Papa do marxismo”, e as exposições mais profundas do russo G.V. Plekhanov.

Nesse excitante mundo intelectual/prático - pois Engels e os seus discípulos e imitadores haviam estabelecido um vínculo entre a teoria e a prática no partido operário - o jovem Trotski cresceu intelectualmente e logo se tornou mais que um simples discípulo dos seus veteranos. O seu respeito para com Engels era imenso.

Mas ele iria, alguns anos após a sua primeira assimilação do marxismo, desafiar a ortodoxia marxista de então na questão dos países atrasados. Mas primeiro ele iria conhecer os líderes emigrados do marxismo russo e desempenhar um papel de destaque no congresso de 1903 do Partido Operário Social-democrata russo - a verdadeira conferência de fundação.

Trotski escapou de Verkholensk na Sibéria, escondido debaixo de uma carga de feno, no verão de 1902. Em outubro ele havia chegado ao centro dirigente da social-democracia russa, situada então perto da estação Kings Cross em Londres. Lenin, Krupskaya, Martov e Vera Zasulich moravam na área, e ali era produzido, e depois despachado clandestinamente para a Rússia, o jornal Iskra, o órgão dos defensores de um partido centralizado e disciplinado. Trotski logo estava envolvido nas disputas dentro da equipe do Iskra - Lenin quis colocá-lo no corpo editorial do jornal, Plekhanov se opôs resolutamente à idéia - e assim veio a conhecer de perto os futuros dirigentes do menchevismo, Plekhanov e Martov, assim como a Lenin. A divisão no grupo do Iskra já estava sendo gestada.

As diferenças vieram à tona no congresso de 1903. Os “iskristas” estiveram unidos na resistência às reivindicações do Bund, organização socialista judia, de autonomia no referente ao trabalho entre judeus, e na resistência à tendência reformista dos “economicistas”. Veio, então, a divisão no próprio grupo do Iskra na maioria bolchevique e na minoria menchevique.

No princípio não era uma divisão clara - os motivos não estavam ainda esclarecidos. Plekhanov apoiou inicialmente Lenin, mas Trotski apoiou o líder menchevique Martov.

Dois anos mais tarde, Trotski regressou à Rússia. A revolução de 1905 estava a caminho. No seu desenrolar, Trotski elevou-se à sua plena estatura. Com apenas 26 anos, ele se tornou o líder revolucionário mais proeminente e uma figura internacionalmente conhecida. Ele emergiu da política de pequenos grupos de emigrados e transformou num orador magnífico e líder de massas. Como presidente do soviet de Petrogrado ele pôde mostrar um grau considerável de direção tática e demonstrou aquele tato seguro e os nervos de aço que o caracterizariam nos grandes acontecimentos de 1917.

A revolução foi esmagada. O exército tzarista foi abalado, mas não quebrado. Daquela experiência - o “ensaio geral” como Lenin a chamou - as tendências divergentes da social-democracia russa se separaram ainda mais. Trotski, ainda formalmente um menchevique, desenvolveu a sua própria síntese, a teoria da revolução permanente.

A próxima década seria novamente passada nos pequenos círculos de emigrados e em tentativas fúteis de unir o que eram até agora tendências incompatíveis. E então veio a guerra, a atividade antiguerra e, em fevereiro de 1917, a derrocada do tzar. Trotski juntou-se ao partido bolchevique, a esta altura um verdadeiro partido operário de massas, no mês de julho, e tal era a sua força de personalidade, talento e reputação que dentro de algumas semanas ele estava abaixo apenas em relação a Lenin, aos olhos da massa de partidários. A ele foi confiada a organização real da insurreição de outubro e, aos 38 anos, tornou-se uma das duas ou três figuras mais importantes no partido e no Estado, e, um pouco depois, também um dos líderes mais importantes do movimento comunista mundial, a Internacional Comunista. Ele foi o principal criador e dirigente do Exército Vermelho e foi influente em todos os campos da política.

Dos altos píncaros Trotski estaria destinado a ser lançado abaixo. A sua queda não foi simplesmente uma tragédia pessoal. Trotski ascendeu com a revolução, e caiu quando a revolução entrou em declínio. A sua história pessoal está amalgamada com a história da revolução russa e do socialismo internacional. A partir de 1923 ele dirigiu a oposição à crescente reação na Rússia - o stalinismo. Expulso do partido em 1927 e da URSS em 1929, seus últimos onze anos foram consumidos numa luta heróica contra terríveis restrições para manter viva a autêntica tradição comunista e encarná-la numa organização revolucionária. Vilipendiado e isolado, ele foi finalmente assassinado por ordem de Stalin em 1940. Ele deixou atrás de si uma organização internacional frágil e um corpo de escritos que é uma das fontes mais ricas de marxismo aplicado existente.

Este livro se concentra em quatro temas. Eles não esgotam a contribuição de Trotski ao pensamento marxista, de forma alguma, pois ele foi um escritor excepcionalmente prolífico com interesses extremamente amplos.

Não obstante, a obra de sua vida esteve centralmente voltada a essas quatro questões, e o grosso de seus volumosos escritos está relacionado, de uma maneira ou de outra, a elas.

Elas são, em primeiro lugar, a teoria da “revolução permanente”, a sua relevância para as revoluções russas do século 20 e para os desenvolvimentos subseqüentes nos países coloniais e semicoloniais - o que é chamado hoje de “Terceiro Mundo”.

Segundo, o resultado da revolução russa de outubro e a questão do stalinismo. Trotski realizou a primeira tentativa contínua e sistemática de uma análise materialista e histórica do stalinismo. E a suas análises, quaisquer que sejam as críticas que possam ser feitas, tem sido o ponto de partida para todas as análises sérias que foram empreendidas posteriormente de um ponto de vista marxista.

Terceiro, a estratégia e a tática dos partidos revolucionários de massas em uma ampla variedade de situações, um campo no qual a contribuição de Trotski não foi inferior à de Marx e Lenin.

Quarto, o problema da relação entre partido e classe e o desenvolvimento histórico que reduziu o movimento revolucionário a um status marginal em relação às organizações operárias de massa.

Isaac Deutscher descreveu Trotski, nos seus últimos anos, como o “herdeiro residual do marxismo clássico”. Ele o foi, realmente, e ainda mais. É isto que confere ao seu pensamento a sua enorme importância contemporânea.

Notas

1. P. Anderson, Considerations on Western Marxism Considerações sobre o Marxismo Ocidental, London: New Left Books 1976, p.29.

1. A revolução permanente

Durante o último terço do século 18 a revolução industrial, a mudança mais profunda em toda a história do gênero humano desde o desenvolvimento da agricultura no passado remoto, ganhou um impulso irresistível em um pequeno canto do mundo, na Inglaterra. Mas os capitalistas britânicos logo tiveram imitadores em outros países onde uma burguesia havia conquistado o poder ou estava perto de conquistá-lo.

No começo do século 20 o capitalismo industrial dominava completamente o mundo. Os impérios coloniais da Inglaterra, França, Alemanha, Rússia, dos EUA, Bélgica, Países Baixos, Itália e Japão cobriam, sem dúvida, a maior parte da superfície do mundo. As sociedades essencialmente pré-capitalistas, que ainda preservavam uma independência formal (China, Irã, o Império turco, Etiópia, etc.), eram, na realidade, dominadas por uma ou outra das grandes potências imperialistas, ou informalmente divididas entre eles - o termo “esferas de influência” expressa exatamente isto. Essa independência simbólica mantinha-se unicamente devido às rivalidades entre os imperialismos concorrentes: a Inglaterra contra a Rússia no Irã, a Inglaterra contra a França na Tailândia, a Inglaterra contra a Alemanha - e também com a Rússia - na Turquia, a Inglaterra, os EUA, Alemanha, Rússia, França, Japão e vários contendores secundários, todos uns contra os outros na China.

Mas os países conquistados ou dominados pelas potências capitalistas industriais não eram, falando de modo geral, transformados em réplicas dos vários países “maternos”. Pelo contrário, permaneceram sociedades essencialmente pré-industriais. O seu desenvolvimento social e econômico era profundamente influenciado, profundamente distorcido, através de conquista ou domínio, mas tipicamente elas não eram transformadas num novo tipo de sociedade.

A famosa descrição de Marx sobre a ruína da indústria têxtil hindu (que era baseada em produtos de alta qualidade feitos por artesãos independentes) devido aos bens de algodão baratos, fabricados por máquinas em Lancashire, ainda permanece um bom esboço do impacto inicial do capitalismo ocidental no que é chamado hoje de “Terceiro Mundo”: empobrecimento e retrocesso social.

Este processo de “desenvolvimento desigual e combinado”, para usar a expressão de Trotski, conduziu a uma situação (ainda presente em todos os traços essenciais) na qual a maior parte da população do mundo não só não tinha avançado social e economicamente, mas havia retrocedido. Qual era (e, na verdade, é), então, a saída para a massa da população nestes países?

Trotski, quando era um homem ainda nos seus 26 anos, deu uma contribuição profundamente original à solução deste problema. Era uma solução arraigada tanto na realidade do desenvolvimento desigual do capitalismo em escala mundial, quanto na análise marxista do verdadeiro significado do desenvolvimento industrial - a criação, de uma só vez e ao mesmo tempo, da base material para uma sociedade avançada sem classes e de uma classe explorada, o proletariado, capaz de se elevar ao nível de uma classe dirigente e, através do seu domínio, abolir as classes, a luta de classe e todas as formas de alienação e opressão.

Naturalmente, Trotski desenvolveu a sua idéias primeiramente em relação à Rússia. É então necessário nos voltarmos para o pano de fundo ideológico nas disputas entre os revolucionários russos em fins do século 19 e começo do século 20, para compreendermos a plena importância de sua contribuição. Mas não somente os revolucionários russos. Afinal de contas, havia um autêntico movimento internacional naquele momento.

“Uma vez que a Europa esteja reorganizada, e a América Norte, isso proporcionará um tal poder colossal e um tal exemplo que os países semicivilizados seguirão na sua esteira por sua própria iniciativa. Somente as necessidades econômicas serão responsáveis por isto. Mas sobre quais fases sociais e políticas estes países terão de atravessar antes de chegarem igualmente à organização socialista, eu penso que só podemos avançar hipóteses bastante vãs. Apenas uma coisa é certa: o proletariado vitorioso não pode forçar nenhum benefício de qualquer tipo, em qualquer nação estrangeira, sem minar a sua própria vitória agindo de tal maneira”.{1}

Assim Engels escreveu a Kautsky em 1882. Ele não estava pensando na Rússia. Os países mencionados nesta carta são Índia, Argélia, Egito e as “possessões holandesas, portuguesas e espanholas”. Contudo, a sua abordagem geral é representativa do pensamento da futura Segunda Internacional (a partir de 1889). O curso do desenvolvimento político seguiria o curso do desenvolvimento econômico. O movimento socialista revolucionário, que destruiria o capitalismo e levaria, no final, à dissolução do proletariado e de todas as classes (depois de um período de ditadura proletária) na sociedade sem classes do futuro, se desenvolveria onde o capitalismo e seu inseparável acompanhante, o proletariado, tivessem se desenvolvido.

Os marxistas russos, cujo grupo pioneiro “A Emancipação do Trabalho” foi fundada um ano após a carta de Engels, tiveram que enquadrar a Rússia nesse esquema histórico.

Plekhanov, o teórico principal do grupo, não tinha nenhuma dúvida. O império russo, ele argumentou nos anos 80 e 90 do século 19, era uma sociedade essencialmente pré-capitalista e, portanto, estava destinado a passar pelo processo de desenvolvimento capitalista antes que a questão do socialismo pudesse ser colocada. Ele rejeitou firmemente a idéia, que o próprio Marx havia levado em conta vagamente, de que a Rússia, dependendo dos desenvolvimentos na Europa, pudesse evitar a fase capitalista de desenvolvimento e conseguir uma transição para socialismo com base na derrocada da autocracia por um movimento de camponês, buscando preservar os elementos da propriedade comunal tradicional da terra (o Mir) que ainda existia nos anos 1880.

As idéias de Plekhanov, desenvolvidas em polêmicas com o “caminho camponês para o socialismo” (os Narodniks), tornaram-se o ponto de partida para todo o marxismo russo subseqüente. Que o capitalismo estava se desenvolvendo de fato na Rússia, que o Mir estava condenado, que um “caminho” especificamente russo para o socialismo era uma ilusão reacionária - estas idéias foram básicas para a próxima geração de marxistas russos, para Lenin e, alguns anos depois, para Trotski e todos os seus associados. Os primeiros três volumes das Obras Completas de Lenin consistem em grande parte de críticas aos Narodniks e demonstrações da inevitabilidade - e o caráter progressivo - do capitalismo na Rússia. O grupo do Iskra, fundado em 1900 para criar uma organização nacional unificada a partir dos grupos e círculos social-democratas difusos, baseava-se firmemente na visão de que a classe operária industrial era a base para aquela organização.

Três perguntas surgiram: primeiro, qual era a relação entre os papéis políticos da classe operária (ainda uma minoria pequena), a burguesia e o campesinato (a grande maioria)? E, conseqüentemente, qual era o caráter de classe da próxima revolução na Rússia? Finalmente, qual era a relação entre a revolução e os movimentos operários dos países avançados do Ocidente?

As diferentes respostas a estas perguntas, ao lado das diferenças quanto à natureza do partido revolucionário, acabaram por definir as tendências fundamentalmente divergentes no interior da social-democracia russa. Para entender a teoria da revolução permanente de Trotski é necessário voltarmos nossa atenção brevemente para essas respostas, as quais apareceram em forma mais desenvolvida após a revolução de 1905.

O menchevismo

A visão menchevique pode ser resumida deste modo: o estágio do desenvolvimento das forças produtivas (quer dizer, o atraso econômico geral de Rússia combinada com uma indústria moderna pequena, mas significativa e crescente) define o que é possível - uma revolução burguesa, como a de 1789-94 na França. Portanto, a burguesia deve chegar ao poder, estabelecer uma república democrático-burguesa que varrerá as sobras das relações sociais pré-capitalistas e abrir o caminho para um crescimento rápido das forças produtivas (e também do proletariado) em uma base capitalista. Após o que a luta pela revolução socialista estaria colocada na ordem do dia.

O papel político da classe operária é, então, empurrar a burguesia adiante contra o tzarismo. Ela tem que preservar sua independência política - o que, centralmente, significava que os social-democratas não poderiam participar de um governo revolucionário ao lado de forças não-proletárias.

Quanto ao campesinato, este não pode desempenhar um papel político independente. Pode desempenhar um papel revolucionário secundário em defesa de uma revolução burguesa essencialmente urbana e, após a revolução, sofrerá uma diferenciação econômica mais ou menos rápida em um estrato de fazendeiros capitalistas (que será conservador), um estrato de pequenos proprietários e um estrato de proletários agrícolas não-proprietários.

Para os mencheviques não havia nenhuma conexão orgânica entre a revolução burguesa russa e os movimentos operários europeus, embora admitissem que a revolução russa (caso acontecesse antes da revolução socialista no Ocidente) iria revigorar os movimentos social-democratas ocidentais.

Na realidade, o menchevismo era uma tendência bastante matizada. Diferentes mencheviques punham ênfases diferentes nas várias partes deste esquema (o qual, tal como apresentado, é essencialmente de Plekhanov), mas todos aceitavam os seus contornos gerais.

A revolução de 1905 trouxe à tona as falhas fundamentais desse esquema. A burguesia não cumpriria a parte que lhe destinava o menchevismo. É claro que, Plekhanov, um estudioso profundo da grande Revolução francesa, nunca esperou que a burguesia russa conduzisse uma luta implacável contra o tzarismo sem uma enorme pressão vinda “de baixo”. Da mesma maneira que a ditadura jacobina de 1793-94, a culminação decisiva da Revolução francesa, havia chegado ao poder sob a tremenda pressão dos sans-culottes, as massas plebéias de Paris, assim também na Rússia a classe operária poderia ser a real força motriz e poderia compelir os representantes políticos da burguesia (ou uma seção deles) a tomar o poder. Mas a revolução de 1905 e seu resultado demonstraram que não havia nenhuma tendência “Robespierrista” na burguesia russa. Diante da excitação revolucionária a burguesia juntou-se ao tzar.

Já em 1898 o Manifesto esboçado para o abortado Primeiro Congresso dos Social-democratas russos havia declarado:

“Quanto mais se vai para o oriente na Europa, mais a burguesia se torna débil no aspecto político, mais covarde, e mais mesquinho, e maiores são as tarefas culturais e políticas que recaem sobre o proletariado”.2

Não era uma questão de geografia, mas de história. O desenvolvimento do capitalismo industrial e do proletariado moderno havia transformado a burguesia, em todos os lugares, até mesmo em países onde a industrialização era embrionária, numa classe conservadora. De fato, o fracasso da revolução na Alemanha em 1848-49 havia demonstrado isto muito antes.

O bolchevismo

A visão dos bolcheviques partia das mesmas premissas dos mencheviques. A revolução vindoura seria, e só poderia ser, uma revolução burguesa em termos de sua natureza de classe. Mas os bolcheviques rejeitavam completamente qualquer ilusão na burguesia, e propunham uma alternativa.

“A transformação da situação econômica e política na Rússia no sentido democrático-burguês é inevitável e inelutável”, escreveu Lenin no seu famoso folheto Duas Táticas da Social-democracia na Revolução Democrática (julho de 1905).

“Não há força no mundo capaz de impedir esta transformação. Mas da combinação da ação das forças existentes, criadoras desta transformação, podem surgir dois resultados ou duas formas desta transformação. Das duas uma: 1) ou as coisas terminarão com “a vitória decisiva da revolução sobre o tzarismo, ou 2) não haverá forças suficientes para a vitória decisiva e as coisas terminarão por um acordo entre o tzarismo e os elementos mais “inconseqüentes” e “egoístas” da burguesia(…) Devemos conhecer de maneira exata quais forças sociais reais que se opõe ao tzarismo (…) e que são capazes de obter a “ vitória decisiva” sobre o mesmo. Esta força não pode ser a grande burguesia(…) Vemos que eles nem sequer desejam uma vitória decisiva. Sabemos são incapazes, devido à sua posição de classe, de uma luta decisiva contra o tzarismo: para irem à luta decisiva, a propriedade privada, o capital e a terra são um lastro demasiadamente pesado. Têm demasiada necessidade do tzarismo, com as suas forças policiais-burocráticas e militares, para usar contra o proletariado e campesinato, para poderem aspirar à destruição do tzarismo. Não, a única força capaz de obter a “vitória decisiva sobre o tzarismo” é o povo, isto é, o proletariado e o campesinato (…) A “vitória decisiva sobre o tzarismo” significa o estabelecimento da ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato(…)

Só pode ser uma ditadura porque a realização das transformações imediata e absolutamente necessárias para o proletariado e campesinato provocará uma resistência desesperada tanto por parte dos latifundiários como da grande burguesia e do tzarismo. (…) Mas não será, naturalmente, uma ditadura socialista, mas uma ditadura democrática. (…) Poderá, no melhor dos casos, efetuar uma redistribuição radical da propriedade da terra a favor dos camponeses, implantar uma democracia conseqüente e completa indo até à república, erradicar não só da vida do campo mas também da fábrica todos os traços asiáticos, servis, iniciar uma melhoria séria na situação dos operários, elevar o seu nível de vida e, finalmente, last but not least (o último, mas não o menos importante), levar o incêndio revolucionário à Europa. Semelhante vitória não converterá ainda, de forma alguma, a nossa revolução burguesa em socialista (…)3

A linha menchevique não era simplesmente um engano, segundo Lenin, era a expressão de uma ausência de vontade de levar a cabo a revolução. A determinação menchevique para agarrar-se aos liberais burgueses conduziria à paralisia. Por outro lado, o campesinato tinha um interesse genuíno na destruição do tzarismo e dos restos do feudalismo na terra. Portanto, a “ditadura democrático” - um governo revolucionário provisório, com representantes do campesinato ao lado de social-democratas - era o “regime jacobino” apropriado que esmagaria a reação e estabeleceria “uma república democrática” (com completa igualdade e autodeterminação para todas as nações), o confisco das propriedades fundiárias, e uma jornada de trabalho de oito hora diárias”.4

A solução de Trotski

Trotski rejeitou a esperança em uma “burguesia revolucionária” tão firmemente quanto Lenin. Ele ridicularizou o esquema menchevique como uma:

“categoria extra-histórica criada por analogia jornalística e dedução… porque, na França, a Revolução foi levada a cabo por revolucionários democráticos - os jacobinos - então a revolução russa só pode transferir o poder às mãos de uma democracia burguesa revolucionária. Tendo erguido assim uma inabalável fórmula algébrica da revolução, os mencheviques tentam inserir nela valores aritméticos que não existem de fato.”5

Em todos os outros aspectos a teoria da revolução permanente de Trotski, a qual teve grande influência do marxista russo-alemão Parvus, diferia da posição bolchevique.

Em primeiro lugar, diferia num ponto crucial, ao negar a possibilidade de que o campesinato pudesse desempenhar um papel político independente:

“O campesinato não pode cumprir um papel revolucionário principal. A história não pode confiar ao muzhik a tarefa de libertar uma nação burguesa de suas correntes. Por causa de sua dispersão, atraso político, e especialmente de suas profundas contradições internas, que não podem ser solucionadas dentro do arcabouço de um sistema capitalista, o campesinato só pode atingir a velha ordem com alguns golpes poderosos pela retaguarda, através de levantes espontâneos na zona rural, por um lado, e criando descontentamento dentro do exército, por outro.”6

Esta perspectiva era idêntica à linha menchevique e seguia as considerações feitas pelo próprio Marx sobre o campesinato francês enquanto classe.

Porque “a cidade dirige na sociedade moderna”, só uma classe urbana pode cumprir um papel dirigente, e porque a burguesia não é revolucionária (e a pequena burguesia urbana é, em todo caso, incapaz de cumprir o papel de sans-culottes), “a conclusão é que só o proletariado em sua luta de classe, com as massas camponesas sob sua direção revolucionária, pode “levar a revolução até o fim”“.7

Isso deve conduzir a um governo operário. A “ditadura democrática” de Lenin é simplesmente uma ilusão:

“A dominação política do proletariado é incompatível com a sua escravidão econômica. Não importa sob que bandeira política o proletariado chegou ao poder, ele é obrigado a tomar o caminho da política de socialista. Seria a maior utopia pensar que o proletariado, tendo sido elevado à dominação política pelo mecanismo interno de uma revolução burguesa possa, mesmo que assim o queira, limitar a sua missão à criação de condições republicano-democráticas para a dominação social da burguesia.”8

Mas isto conduz a uma contradição imediata. O ponto de partida comum de todos os marxistas russos era justamente que na Rússia faltavam tanto a base material quanto humana para o socialismo - uma indústria altamente desenvolvida e um proletariado moderno que compusesse uma ampla fração da população, e que tivesse adquirido organização e consciência enquanto uma classe “para si”, como Marx tinha posto. Lenin havia denunciado vigorosamente (em Duas Táticas):

“A idéia absurda e semi-anarquista de dar efeito imediato ao programa máximo e a conquista do poder para uma revolução socialista. O grau de desenvolvimento econômico (uma condição objetiva), e o desenvolvimento da consciência de classe e da organização das amplas massas do proletariado (uma condição subjetiva inseparavelmente ligada à condição objetiva), tornam a emancipação completa e imediata da classe operária impossível. Só as pessoas mais ignorantes podem fechar os seus olhos para a natureza burguesa da revolução democrática que está em curso neste momento (em 1905).”9

De um ponto de vista marxista, o argumento de Lenin é incontestável, conquanto se trate de considerar essas questões apenas no terreno da Rússia. Talvez seja necessário, devido a desenvolvimentos posteriores, acentuar este ponto elementar. O socialismo, para Marx e para tudo os que se consideravam seus seguidores naquele momento, é a auto-emancipação da classe operária. Pressupõe uma ampla indústria moderna e um proletariado consciente, capaz de auto-emancipar-se.

Trotski, entretanto, estava convencido que somente a classe operária era capaz de desempenhar o papel dirigente na revolução russa e, se conseguisse cumprir esse papel, poderia tomar o poder em suas próprias mãos.

“As autoridades revolucionárias serão confrontadas com os problemas objetivos do socialismo, mas a solução destes problemas será, em um certo estágio, impedida pelo atraso econômico do país. Não há saída desta contradição dentro do arcabouço de uma revolução nacional. O governo operário, desde o começo, enfrentará a tarefa de unir suas forças com as do proletariado socialista da Europa Ocidental. Só deste modo a sua hegemonia revolucionária temporária se tornará o prólogo a uma ditadura socialista. Assim, a revolução permanente se tornará, para o proletariado russo, um assunto de auto-preservação enquanto classe.”10

A hipótese original de Engels é virada de cabeça para baixo. O desenvolvimento desigual do capitalismo leva a um desenvolvimento combinado no qual a Rússia atrasada se torna, temporariamente, a vanguarda de uma revolução socialista internacional.

A teoria da revolução permanente permaneceu central ao marxismo de Trotski até o fim da sua vida. Em apenas um aspecto importante as suas idéias pós-1917 iriam diferir das que acabamos de esboçar. A versão pré-1917 dependia fortemente da ação espontânea da classe operária. Como nós veremos, Trotski era, neste período, um forte oponente do “centralismo” bolchevique e rejeitava, na prática, a concepção do papel dirigente do partido. Em 1917 ele inverteu a sua posição no tocante a este assunto. Suas aplicações subseqüentes da teoria de revolução permanente foram estruturadas em torno do papel do partido operário revolucionário.

O resultado

Toda a teoria, pelo menos toda a teoria que tenha alguma pretensão de ser científica, encontra seu último teste na prática. “A prova do pudim”, como diz o ditado de Lancashire, “está em comê-lo”. Mas o teste prático decisivo pode ser adiado por um longo tempo, adiado até mesmo para muito tempo depois das mortes do teórico, dos seus seguidores e oponentes. Ao contrário das ciências físicas - onde sempre é possível, em princípio, realizar testes experimentais (embora os meios técnicos para realizá-los possam não ser disponíveis imediatamente) - o marxismo enquanto ciência do desenvolvimento social (e, na realidade, seus rivais burgueses, as pseudo-ciências da economia, sociologia e assim por diante) não pode ser testado de acordo com alguma escala arbitrária de tempo, mas só no curso do desenvolvimento histórico e, mesmo assim, apenas provisoriamente.

A razão é bastante simples, embora as conseqüências sejam imensamente complicadas. “Os homens fazem a sua própria história”, disse Marx, “mas eles não o fazem sob condições de sua própria escolha”. Os atos “voluntários” de milhões e dezenas de milhões de pessoas que são, é claro, elas próprias condicionadas historicamente, lutando contra as limitações impostas por todo o curso anterior de desenvolvimento histórico (o qual elas, tipicamente, ignoram), produz efeitos mais complexos do que o teórico mais previdente pode antecipar. O grau de s’engage, et puis…on voit (é aderido em, e então nós veremos), que era a descrição aforística de Napoleão da sua ciência militar, sempre deve ser considerado pelos revolucionários ocupados em uma tentativa consciente de modificar o curso dos eventos.

Os revolucionários russos do início do século 20 foram mais afortunados do que a maioria. Para eles o teste decisivo chegou bastante depressa. O ano de 1917 presenciou a entrada dos mencheviques, oponentes em princípio da participação num governo não-proletário, em um governo de adversários do socialismo para prosseguir uma guerra imperialista e conter a maré da revolução. Verificou-se na prática a previsão feita por Lenin em 1905 de que eles eram a “Gironda” da revolução russa. Presenciou os bolcheviques - os defensores da ditadura democrática e de um governo revolucionário provisório de coalizão - após um período inicial de “apoio crítico” ao que Lenin, no seu retorno à Rússia, chamou de “um governo de capitalistas”, voltarem-se decisivamente para a tomada do poder pela classe operária sob o impacto das Teses de abril de Lenin e a pressão dos trabalhadores revolucionários nas suas fileiras. Testemunhou o desagravo de Trotski quando Lenin, efetivamente, embora não em palavras, adotou a perspectiva da revolução permanente e abandonou, sem cerimônia, a ditadura democrática. Também testemunhou Trotski, isolado e impotente para afetar o curso dos acontecimentos na grande crise revolucionária de 1917, conduzir, no mês de julho, o seu pequeno grupo de seguidores ao partido bolchevique de massas. Foi também o brilhante reconhecimento da longa e dura luta de Lenin (que Trotski havia denunciado por mais de uma década como sendo “sectária”) pelo partido operário, livre da influência ideológica de “marxistas” pequeno-burgueses (tanto quanto tal independência pode ser alcançada através de meios organizativos).11

Trotski provou estar correto na questão estratégica central da revolução russa. Mas, como Cliff afirma, com razão, ele era um “general brilhante sem um exército”.12 Trotski nunca mais se esqueceu desse fato. Mais tarde ele chegou a afirmar que sua ruptura com Lenin durante o período de 1903-04, na questão da necessidade de um partido operário disciplinado, havia sido “o maior erro de minha vida”.

A revolução de outubro levou a classe operária russa ao poder. Levou-a no contexto de uma maré ascendente de revolta revolucionária contra os antigos regimes na Europa central e, em menor grau, ocidental.

A perspectiva de Trotski, e de Lenin após abril de 1917, dependia crucialmente do sucesso da revolução proletária em pelo menos “um ou dois” países avançados (como Lenin, sempre cauteloso, dizia).

No evento, o poder dos partidos social-democratas estabelecidos (os quais mostraram, na prática, terem se tornado conservadores e nacionalistas a partir de agosto de 1914) e as vacilações e evasões dos líderes dos grupos “centristas” de massas, oriundos de “rachas” da social-democracia ocorridos entre 1916 e 1921, contribuíram para abortar os movimentos revolucionários na Alemanha, Áustria, Hungria, na Itália e em outros lugares antes que a revolução proletária pudesse ser alcançada ou, onde foi alcançada temporariamente, antes que pudesse ser consolidada.

A análise de Trotski das conseqüências destes fatos serão examinadas mais adiante. Mas, antes, será útil considerarmos a segunda revolução chinesa (de 1925-27), e o seu resultado em termos da teoria de Trotski.

A revolução chinesa de 1925-27

O Partido Comunista chinês (PCCh) foi fundado em julho de 1921 num quadro marcado por crescentes sentimentos anti-imperialistas e militância operária nas cidades litorâneas, onde uma recém-criada, mas numerosa, classe operária estava lutando para se organizar.

Minúsculo, e inicialmente composto completamente por intelectuais, o PCCh foi capaz de se tornar, em alguns anos, na direção efetiva do movimento operário recém nascido.

A China era então uma semi-colônia, dividida informalmente entre os imperialismos britânico, francês, norte-americano e japonês. Os imperialismos alemão e russo haviam sido eliminados pela guerra e pela revolução antes de 1919.

Cada poder imperialista manteve sua própria “esfera de influência” e apoiava o “seu próprio” o barão local, senhor guerreiro ou o governo “nacional”. Assim, o império britânico, o poder imperialista dominante, forneceu armas, dinheiro e “conselheiros” para Wu P’ei-fu, o senhor guerreiro dominante na China central que controlava os distritos ao longo do Rio de Yangtse. Os japoneses prestaram os mesmos serviços a Chang Tso-lin, na Manchúria. Pouco menos que gangsteres militares, todos eles vinculavam-se a uma ou outra potência imperialista, e controlavam grande parte do país.

A exceção, muito parcial, era Cantão e o seu interior. Ali Sun Yat-sen, o pai do nacionalismo chinês, havia estabelecido uma certa base com um programa de independência nacional, modernização e reformas sociais, com um vago verniz “esquerdista”. O partido de Sun, o Kuomintang (KMT), bastante disforme e ineficaz antes de 1922, dependia da tolerância dos senhores “progressistas” da região.

Porém, depois de movimentos preliminares a partir de 1922, os líderes do KMT fizeram um acordo com o governo da URSS, a qual enviou, em 1924, conselheiros políticos e militares a Cantão e começou a prover armas. O KMT se tornou um partido centralizado com um exército relativamente eficiente. Além disso, a partir do final de 1922 os membros do PCCh foram enviados ao KMT “enquanto indivíduos”. Três deles chegaram até mesmo a participarem como membros da Executiva do KMT. Esta política, que contou com alguma resistência no CCP, foi imposta pela Executiva da Internacional Comunista. O PCCh estava efetivamente preso ao KMT.

No início do verão de 1925 um movimento grevista de massa - que na sua origem era parcialmente econômica, mas rapidamente assumiu um caráter político após a tentativa de repressão pelas tropas estrangeiras e a polícia - explodiu em Xangai e espalhou-se para as principais cidades da China central e meridional, inclusive Cantão e Hong Kong. Com muitos altos e baixos, houve um enorme movimento de revolta nas cidades até o início de 1927. Em vários momentos existiu uma situação de poder dual, com comitês de greve, dirigidos pelo PCCh, constituindo um “Governo Número Dois”. E nesses mesmos anos ocorreram revoltas camponesas em várias províncias importantes. Os regimes dos senhores guerreiros foram abalados nos seus alicerces. O KMT procurou cavalgar a tempestade com ajuda do PCCh, para utilizar o movimento para a conquista do poder nacional sem mudança social. No início de 1926 o KMT foi admitido na Internacional Comunista na condição de partido simpatizante!

Trotsky, embora ainda membro do bureau político do partido russo, estava efetivamente impedido de qualquer influência política direta em 1925. De acordo com Deutscher 13, ele exigiu a saída do PCCh do KMT em abril de 1926. As sua primeiras críticas significativas foram escritas em setembro:

“A luta revolucionária na China entrou em uma nova fase a partir de 1925, uma fase que é caracterizada acima de tudo pela intervenção ativa de amplas camadas do proletariado. Ao mesmo tempo, a burguesia comercial e os elementos da intelligentsia ligados à mesma, estão indo para a direita, assumindo uma atitude hostil em relação às greves, aos comunistas e a URSS. Fica bastante claro, à luz destes fatos fundamentais, que a questão da revisão das relações entre o Partido Comunista e o Kuomintang deve ser necessariamente colocado (…)”

“O movimento para a esquerda das massas operárias chinesas é um fato tão certo quanto o movimento para a direita da burguesia chinesa. Na medida em que o Kuomintang tem se baseado na união política e organizativa dos trabalhadores com a burguesia, ele deve ser destroçado pelas tendências centrífugas da luta de classes.”

“A participação do PCCh no Kuomintang estava perfeitamente correta no período em que o PCCh era uma sociedade de propaganda que estava apenas se preparando para uma futura atividade política independente, mas que, ao mesmo tempo, procurava tomar parte na luta de liberação nacional em curso(…) Mas o poderoso despertar proletariado chinês, seu desejo para luta e para organização independente de classe, é absolutamente inegável. A sua (do PCCh) tarefa política imediata deve ser agora lutar pela direção direta e independente da classe operária que se levanta - não para remover, é claro, a classe operária da luta nacional-revolucionária, mas assegurar-lhe o papel não só de combatente mais resoluto, mas também de dirigente político com hegemonia na luta das massas chinesas(…)

“Pensar que a pequena burguesia pode ser ganha através de manobras inteligentes ou bons conselhos dentro do Kuomintang é utopia desesperada. O Partido Comunista será tanto mais capaz de exercer influência direta e indireta sobre a pequena burguesia de cidade e do campo, quanto mais forte for o partido, quer dizer, quanto mais o partido tenha conquistado classe operária chinesa. Mas isso só é possível sobre a base de um partido de classe e uma política de classe independentes.”14

Isto era totalmente inaceitável para Stalin e seus associados. A sua política agarrar-se ao KMT e forçar o PCCh a se subordinar, não importa a que. Deste modo eles esperavam manter um aliado fidedigno da URSS no sul da China, o qual poderia, posteriormente, até mesmo tomar o poder nacionalmente.

Esta política era justificada teoricamente com a ressurreição da tese da “ditadura democrática”. A revolução chinesa era uma revolução burguesa e, portanto, segundo o argumento, a meta a ser alcançada deveria ser uma ditadura democrática do proletariado e do campesinato. Para preservar o bloco operário-camponês, o movimento teria que se limitar às “reivindicações democráticas”. A revolução socialista não estava na ordem do dia. A dificuldade apresentada pelo fato de que o KMT não era um partido camponês foi respondida pelo argumento de que, na verdade, tratava-se de um partido policlassista, um “bloco de quatro classes” (burguesia, pequena burguesia urbana, operários e camponeses).

“O que significa isto - bloco de quatro classes? Alguma vez se encontrou esta expressão na literatura marxista? Se a burguesia conduz as massas oprimidas do povo sob a bandeira burguesa e toma o poder sob sua direção, então isto não é nenhum bloco, mas a exploração política das massas oprimidas pela burguesia.”15

O verdadeiro ponto é que a burguesia capitularia diante dos imperialistas. Portanto o KMT inevitavelmente representaria um papel contra-revolucionário.

“A burguesia chinesa é suficientemente realista e bastante familiarizada com a natureza do imperialismo mundial para entender que uma luta realmente séria contra este último requer uma tal revolta das massas revolucionárias que se tornaria uma ameaça, principalmente à própria burguesia(…) E se nós ensinamos aos trabalhadores da Rússia, desde o começo a não acreditarem na boa vontade do liberalismo e na capacidade da democracia pequeno-burguesa de esmagar o tzarismo e destruir o feudalismo, nós devemos de maneira não menos enérgica imbuir os trabalhadores chineses desde o início com o mesmo espírito de desconfiança. A nova e absolutamente falsa teoria promulgada por Stalin e Bukharin acerca do espírito revolucionário “imanente” da burguesia colonial é, em sua substância, uma tradução do menchevismo na linguagem da política chinesa.”16

O resultado é bem conhecido. Chiang Kai-Shek, chefe militar do KMT, lançou o primeiro golpe contra a esquerda em Cantão em março de 1926. O PCCh, sob pressão russa, submeteu-se. Quando o exército de Chiang lançou a “Expedição do norte” uma onda de revolta operária e camponesa destruiu as forças senhoriais, mas o PCCh, fiel ao “bloco”, fez o melhor possível para impedir “excessos”. Antes que Chiang entrasse em Xangai em março de 1927, as forças dos senhores guerreiros foram derrotadas por duas greves gerais e uma insurreição conduzidas pelo PCCh. Chiang ordenou que os trabalhadores fossem desarmados. O PCC recusou-se a resistir. Então, em abril, eles foram massacrados e o movimento operário foi decapitado. Seguiu-se uma divisão no KMT. Os líderes civis, temendo (corretamente) que Chiang estava por se tornar um ditador militar, estabeleceram o seu governo em Wuhan (Hankow).

Agora a Comintern exigia do PCC o apoio ao regime da “esquerda” do KMT, e forneceu os seus ministros do trabalho e da agricultura. Seu líder, Wang Ching-Wei, usou-os enquanto lhe serviram e então, depois de alguns meses, realizou o seu próprio golpe. Posteriormente, ele chegou até mesmo a encabeçar o governo fantoche da China sob ocupação japonesa. O PCCh foi levado à clandestinidade, e rapidamente perdeu sua base de massas nas cidades. A cada confronto crucial o partido usara a sua influência, conquistada a duras penas, para persuadir os trabalhadores a não resistirem ao KMT.

E então, devido à fase crítica a que havia chegado a luta interna no partido russo, o grupo dominante de Stalin e Bukharin no Partido Comunista da União soviética (PCUS) deu um giro de 180 graus. Das consecutivas capitulações ao KMT, o PCCh foi forçado a realizar um putsch. Stalin e Bukharin precisavam de uma vitória na China para afastar as críticas da oposição (a qual eles planejaram expulsar) no décimo quinto Congresso do partido em dezembro de 1927. O novo emissário da Comintern, Heinz Neumann, foi enviado a Cantão onde tentou organizar um golpe de estado no início de dezembro. O PCCh ainda possuía uma força subterrânea séria na cidade. Cinco mil comunistas, na maior parte trabalhadores locais, tomaram parte no levante. Mas não tinha havido nenhuma preparação política, nenhuma agitação, nenhum envolvimento da massa da classe operária. Os comunistas estavam isolados. A “comuna de Cantão” foi esmagada em aproximadamente o mesmo tempo que fora necessário para esmagar a insurreição de Blanqui em Paris no ano de 1839 - dois dias - e pelas mesmas razões. Foi um putsch levado adiante sem levar em conta o nível da luta de classe e a consciência da classe operária. O resultado foi um massacre até maior que o de Xangai. O PCCh deixou de existir em Cantão.

A teoria da revolução permanente havia sido novamente confirmada - em um sentido negativo. A dominação imperialista da China conseguiu um tempo adicional de vida.

Porém, suponha que o PCCh houvesse seguido o mesmo curso que os bolcheviques haviam seguido após abril de 1917. Uma ditadura proletária era realmente possível em um país tão atrasado quanto a China nos anos 20?

“A questão do caminho “não-capitalista” de desenvolvimento na China foi posto de uma forma condicional por Lenin, para quem, assim como para nós, era e é o ABC que a revolução chinesa, deixada às suas próprias forças, isto é, sem o apoio direto do proletariado vitorioso da URSS e da classe operária de todos os países, só poderia terminar com as possibilidades mais amplas de desenvolvimento capitalista do país, com condições mais favoráveis para o movimento operário (…) Mas, em primeiro lugar, a inevitabilidade do caminho capitalista não tem sido, de nenhum modo, demonstrado, e, segundo, - o argumento é incomparavelmente mais oportuno para nós - as tarefas burguesas podem ser resolvidas de vários maneiras.”17

Será necessário retornarmos a este último ponto. Na segunda metade deste século uma série de revoluções aconteceram, de Angola a Cuba e do Vietnã a Zanzibar (agora parte de Tanzânia), as quais não foram certamente revoluções proletárias, e tampouco eram certamente revoluções burguesas no sentido clássico.

Trotski não previu um tal desenvolvimento, nem nenhuma outra pessoa de seu tempo. A teoria da revolução permanente, confirmada decisivamente na primeira metade deste século, deve ser reconsiderada obviamente à luz desses últimos desenvolvimentos. A questão será retomada mais adiante, no último capítulo.

Notas

1.   Engels a Kautsky, Marx and Engels: Selected Correspondence 1846-1895,  London: Lawrence & Wishart 1936, p.399.

2.   “Manifesto of the Russian Social-Democratic Workcrs” Party”, (1898), in R.V. Daniels (ed.), A Documentary History of Communism, New York: Vintage 1962, Vol.1, p.7.

3.   Lenin, Collected Works, Moscow: Foreign Languages Publishing House 1960, Vol.9, pp.55-57. Ênfase no original.

4.   Ibid. Vol.21, p.33

5.   Trotsky, “Our differences”, in 1905, New York: Vintage 1972, p.312.

6.   Ibid.

7.   Ibid. pp.313-14.

8.   Trotsky, “Results and prospects”, in The Permanent Revolution, 1962, pp.194-95. Grifo meu.

9.   Lenin, Collected Works, op.cit. Vol.9, p.28.

10. Trotsky, “Our differences”, op.cit. p.317.

11. Tentar justificar estas declarações ultrapassaria os propósitos limitados deste livro. A História da Revolução Russa do próprio Trotsky, vols 1 e 2, e a obra Lenin de Tony Cliff, London: Pluto Press 1976, Vol.2, proporcionam, a partir de ângulos ligeiramente diferentes, as evidências decisivas.

12. T. Cliff, Lenin, London: Pluto Press 1976, Vol.2, p.138.

13. I. Deutscher, The Prophet Unarmed , London: Oxford University Press 1959, p.323.

14. Trotsky, “The Chinese Communist Party and the Kuomintang”, Leon Trotsky on China, N.York: Monad 1976, pp.113-15.

15. Trotsky, “First speech on the Chinese question”, Leon Trotsky on China, op.cit. p.227.

16. Trotsky, “Summary and perspectives of the Chinese revolution”, Leon Trotsky on China, op.cit. p.297.

17. Trotsky, “The Chinese revolution and the theses of Comrade Stalin”, Leon Trotsky on China, op. cit. pp.162-63.

2. O stalinismo

O sonho e a esperança de uma sociedade sem classes e verdadeiramente livre são muito antigos. Na Europa eles são bem documentados a partir século XIV em diante nos fragmentos sobreviventes das idéias de muitos rebeldes e hereges.

Uma rima popular durante a grande revolta camponesa na Inglaterra em 1381 dizia: “When Adam delved and Eve span, who was then the gentleman?” (“Enquanto Adão cavava e Eva cobria, quem era então o cavalheiro?). E, é claro, também se pode encontrar sentimentos semelhantes (embora carregados da ideologia da classe dominante) no cristianismo e no islamismo primitivos e, em graus variados, em sociedades muito mais antigas.

Marx introduziu uma idéia fundamentalmente nova. Ela pode ser resumida da seguinte forma: as aspirações dos pensadores e ativistas mais avançados das gerações passadas (pré-industriais), por mais admiráveis e inspiradoras que tenham sido para o futuro, eram utópicas no seu tempo pelo simples fato de que eram irrealizáveis. A sociedade de classes, a exploração e a opressão são inevitáveis enquanto o desenvolvimento das forças produtivas e a produtividade do trabalho (conceitos relacionados, mas não idênticos) são relativamente baixos. Com o desenvolvimento do capitalismo industrial tal estado não é mais inevitável, contanto que o capitalismo seja derrocado. Uma sociedade sem classes, baseada numa (relativa) abundância tornou-se possível. Além disso, o instrumento para alcançar tal sociedade - o proletariado industrial - foi criado pelo próprio desenvolvimento do capitalismo.

Estas idéias eram naturalmente a moeda comum do marxismo pré-1914. Todos os revolucionários da tradição de marxista as tinham como certas. Mas a sociedade que saiu da revolução russa de outubro não foi uma sociedade livre e sem classes. Mesmo no início ela diferia muito da visão de Marx de um Estado operário (explicitada em A guerra civil na França) ou do desenvolvimento das idéias de Marx por Lenin (exposto no Estado e Revolução). Mais tarde, acabou por transformar-se, sob Stalin, em um monstruoso despotismo.

Seria difícil exagerar a importância destes fatos. A existência, primeiro de um estado, e depois de toda uma série de estados que afirma ser “socialistas”, mas que na realidade são caricaturas repulsivas do socialismo, deve ser considerado como um dos fatores mais importantes do “capitalismo ocidental”.

Propagandistas de direita argumentam que o stalinismo é o resultado inevitável da expropriação da classe capitalista. Por outro lado, propagandistas social-democratas argumentam que o stalinismo é a conseqüência inevitável do “centralismo bolchevique”, e que Stalin foi o “herdeiro natural de Lenin”.

Trotski foi responsável pela primeira tentativa de uma análise histórico-materialista do stalinismo - do resultado real da revolução russa. Sejam quais forem as críticas a serem feitas - e algumas serão feitas aqui -, essa tentativa foi o ponto de partida para todas as análises sérias feitas subseqüentemente de um ponto de vista marxista.

Qual era a realidade social da Rússia de 1921, quando Lenin era ainda o presidente do Conselho dos Comissários do Povo e Trotski o Comissário de Guerra?

Falando em defesa da Nova Política Econômica (NEP) na URSS no final de 1921, Lenin argumentou que:

“Se o capitalismo lucra com ela (a NEP), a produção industrial crescerá, e o proletariado também crescerá. Os capitalistas ganharão com a nossa política e criarão um proletariado industrial que em nosso país, devido à guerra e a pobreza e ruína desesperadoras, se tornou “desclassado”, isto é, foi desalojado de seu entalhe de classe, e deixou de existir enquanto proletariado. O proletariado é a classe que está engajada na produção de valores materiais na indústria capitalista de larga escala. Visto que a indústria capitalista de larga escala foi destruída, e que as fábricas estão paradas, o proletariado desapareceu.”1

O proletariado “deixou de existir enquanto proletariado”! O que acontece então com a ditadura do proletariado, o proletariado como classe dominante?

A guerra e a guerra civil destroçaram a indústria russa - já bem frágil para os padrões da Europa ocidental. Da revolução de outubro até março de 1918, quando o “monstruoso tratado de ladrões” de Brest Litovsk foi assinado com a Alemanha, a Rússia revolucionária permaneceu em guerra contra a Alemanha e o império austro-húngaro. No mês seguinte o primeiro dos exércitos “aliados” de intervenção - o japonês - atracou em Vladivostok e começou o seu ataque em direção à Sibéria. Ele não se retiraria até novembro de 1922. Nesses anos os destacamentos de quatorze exércitos estrangeiros (incluindo os dos Estados Unidos, Inglaterra e França) invadiram o território da república revolucionária. Os generais “brancos” foram armados, abastecidos e apoiados. No auge da intervenção, no verão de 1919, a república soviética estava reduzida a um pedaço de Estado na Rússia européia central ao redor de Moscou, com alguns baluartes remotos sustentados precariamente. Até mesmo no verão seguinte, quando os exércitos “brancos” haviam sido decisivamente derrotados, um quarto de todo estoque disponível de grãos da república soviética teve que ser enviado ao grupo do exército ocidental em luta contra os invasores poloneses.

Isso numa época em que as cidades estavam despovoadas e sofrendo fome. Mais da metade da população total de Petrogrado (Leningrado) e quase metade da de Moscou haviam fugido para o campo. As indústrias que conseguiam manter-se em funcionamento estavam dedicadas quase inteiramente à guerra - e isso só foi possível através da “canibalização”, o ininterrupto sacrifício da base produtiva como um todo para manter em funcionamento uma fração dela. Estas eram as circunstâncias nas quais o proletariado russo desintegrou-se.

Os fatos são bem conhecidos e foram apresentados em algum detalhe, por exemplo, no segundo volume da História da revolução Bolchevique de E.H. Carr.2 Em 1921 a produção industrial total mal alcançava um oitavo da produção de 1913, a qual já era miseravelmente baixa para os padrões alemão, britânico ou norte-americano.

A revolução sobreviveu por meio de esforços e sacrifícios enormes, dirigida por uma ditadura revolucionária, a qual de longe ultrapassou a ditadura jacobina de 1793 em sua capacidade de mobilização. Mas sobreviveu às custas de uma economia arruinada. E permaneceu isolada. Em 1921 o movimento revolucionário europeu estava claramente em refluxo.

O que nos interessa aqui são as conseqüências sociais destes fatos. O chamado “comunismo de guerra” de 1918-21 tinha sido, na realidade, uma economia de cerco das mais brutais e brutalizantes. Em essência consistiu na requisição forçada de grão dos camponeses, na “canibalização” da indústria, serviço militar obrigatório universal e coerção massiva para vencer a guerra pela sobrevivência.

Antes da revolução uma parte significativa da produção de grãos era desviada para as cidades (diretamente ou via exportações) na forma de rendas, pagamentos de juros, impostos, pagamentos de compensação, etc., para as antigas classes dominantes. A Rússia tzarista havia sido uma grande exportadora de grãos. Agora, com a destruição da velha ordem, esse vínculo fora cortado. Os camponeses produziam para o consumo ou para troca. Mas a ruína da indústria significava que não havia nada, ou quase nada, para trocar. Por isso se tornou necessária a requisição forçada.

A revolução havia sobrevivido em um país esmagadoramente camponês por causa do apoio - normalmente passivo, mas às vezes ativo - das massas camponesas que haviam logrado ganhos com ela. Com o fim da guerra civil já não tinham mais nada para ganhar, e as revoltas em 1921, em Kronstadt e Tambov, mostraram que o campesinato e seções remanescentes da classe trabalhadora estavam se voltando contra o regime.

A Nova Política Econômica (NEP), estabelecida a partir de 1921, era, acima de tudo, um reconhecimento desse fato e introduziu um imposto fixo (arrecadado em grãos, uma vez que o dinheiro havia perdido todo o seu valor durante o comunismo de guerra) em substituição à requisição arbitrária daquela época. Em segundo lugar, permitiu o renascimento do comércio privado e da produção privada de pequena escala (mantendo as “instâncias de comando” para o estado). Em terceiro lugar, abriu as portas (sem sucesso) para o capital estrangeiro explorar “concessões”. E em quarto lugar, e isto foi de importância vital, a NEP introduziu o cumprimento rigoroso do princípio de lucratividade na maioria das indústrias nacionalizadas, combinado a uma severa ortodoxia financeira, baseada no padrão ouro, para criar uma moeda corrente estável e impor a disciplina do mercado tanto às empresas públicas quanto privadas.

Estas medidas, introduzidas entre 1921 e 1928, realmente produziram um renascimento econômico. No início ele ocorreu de forma mais lenta, para posteriormente assumir um ritmo mais rápido, até que em 1926-27 o nível de produção industrial alcançou novamente - e, em alguns casos, ultrapassou - o nível de 1913. No caso dos produtos alimentícios disponíveis (na maior parte grãos) o crescimento foi muito mais lento. A produção cresceu, mas os camponeses, não mais explorados como em 1913, consumiam muito mais da sua produção em comparação ao período anterior à revolução. Assim, as cidades tiveram que continuar com rações pequenas.

Essa recuperação econômica conseguida com medidas capitalistas ou quase capitalistas teve conseqüências sociais análogas.

“E então as cidades que dirigíamos assumiram um aspecto estrangeiro; nós nos sentíamos afundando no lodo - paralisados, corrompidos… O dinheiro lubrificava toda a máquina exatamente como no capitalismo. Um milhão e meio de desempregados recebiam ajuda - insuficiente - nas grandes cidades… As classes renasciam diante de nossos próprios olhos; na base da escala (social) o desempregado recebia 24 rublos por mês, no topo o engenheiro (isto é, um especialista técnico) recebia 800, e entre os dois estava o funcionário do partido que recebia 222 rublos, mas obtinha muitas coisas de graça. Formava-se um abismo crescente entre a prosperidade de alguns e a miséria de muitos.”3

Como resultado da NEP a classe trabalhadora realmente recuperou-se numericamente do ponto baixo de 1921, mas não renasceu politicamente, ou pelo menos não em uma escala suficiente para abalar o poder do burocrata, do “Nepman” e do kulak. Uma das razões principais foi a sombra do desemprego em massa - proporcionalmente muito mais severo na Rússia dos anos 20 do que na Inglaterra dos anos 30.

O Estado operário deformado

O desagregamento da classe trabalhadora tinha alcançado um estágio avançado quando, pelo final de 1920, desencadeou-se no PC russo o chamado “debate sindical”.

Superficialmente, a questão em debate era se os trabalhadores necessitavam ou não da organização sindical para se protegerem do “seu” próprio Estado. A um nível mais profundo o conflito girava em torno de questões muito mais fundamentais.

O Estado operário de 1918 ainda existia? A democracia soviética, na prática, havia sido destruída na guerra civil. O Partido Comunista havia se “emancipado” da necessidade de apoio majoritário da classe trabalhadora. Os soviets haviam se tornado meros “carimbos” para as decisões do partido. E, pelas mesmas razões, o processo de “militarização” e “dirigismo” dentro do Partido comunista havia crescido rapidamente.

Contra esses desenvolvimentos, revoltou-se a “Oposição Operária” dentro do partido. A Oposição exigia “autonomia” para os sindicatos, denunciando o controle do partido e apelando à tradição do “controle operário” sobre a produção (uma bandeira do próprio partido num período anterior). Se adotadas, essas medidas teriam significado o fim do regime - pois a massa do que restou da classe operária era decididamente indiferente, se não anti-bolchevique. Também crescente era a massa de camponeses que formavam a grande maioria da população. “Democracia” sob essas condições só podia significar contra-revolução - e uma ditadura de direita.

O partido tinha sido levado a servir de substituto a uma classe trabalhadora em desagregação, e, no interior do partido os organismos dirigentes haviam afirmado crescentemente a sua autoridade sobre uma militância crescente, mas de composição problemática. (O PC russo tinha, em números arredondados, 115,000 membros no início de 1918, 313,000 no início de 1919, 650,000 pelo verão de 1921 - dos quais uma parte cada vez menor era de trabalhadores).

O partido havia se tornado o tutor de uma classe trabalhadora que, temporariamente (esperava-se), tinha se tornado incapaz de administrar seus próprios negócios. Mas o próprio partido não era imune às forças sociais imensamente poderosas geradas pelo declínio industrial, baixa (e decrescente) produtividade do trabalho, atraso cultural e barbarismo. Na verdade para que o partido pudesse agir “tutor”, era necessário privar a massa dos sus militantes de qualquer influência direção dos acontecimentos, pois também eles vieram a refletir o atraso da Rússia e o declínio da classe trabalhadora.

A solução de Trotski para este dilema foi, a princípio, persistir resolutamente no curso de substitucionista.

“É necessário criar entre nós a consciência do direito de nascença histórico revolucionário do partido. O partido tem obrigação de manter a sua ditadura, indiferente às oscilações temporárias nos humores espontâneos das massas, até mesmo às vacilações temporárias na classe trabalhadora. Esta consciência é para nós um elemento de unificação indispensável.” 4

Esta atitude o levou a argumentar que os sindicatos deveriam ser absorvidos na máquina estatal (como depois aconteceu sob Stalin, de fato embora não na forma). Não havia nenhuma necessidade ou justificativa nem sequer para uma relativa autonomia sindical; ela servia mais como um foco de descontentamento do que para o exercício do controle do partido.

Os argumentos avançados por Lenin contra esta posição, em dezembro de 1920 e janeiro de 1921, são importantes para o futuro desenvolvimento da análise de Irotski da URSS. Eles se tornaram, tardiamente, na base dessa análise.

“Camarada Trotski fala de um “Estado operário”. Permitam-me dizer que isso é uma abstração. É natural que nós tenhamos escrito em 1917 sobre um “Estado operário”. Mas agora é um erro patente afirmar que “desde que este é um Estado operário sem qualquer burguesia, então contra quem a classe operária deve ser defendida e com que propósito?”. Toda a questão é que este não é inteiramente um Estado operário. É neste ponto que o camarada Trotski comete um de seus maiores erros…” 5

E um mês depois ele escreveu:

“O que eu deveria ter dito é: “Um Estado operário é uma abstração. O que nós temos de fato é um Estado operário com a peculiaridade, primeiro, de que não é a classe operária mas a população camponesa que predomina no país, e, segundo, que é um Estado operário com deformações burocráticas.”6

Um Estado operário burocraticamente deformado em um país predominantemente camponês. No próximo estágio, a NEP, Trotski adotaria esta visão e aprofundaria seu conteúdo. Não é necessário aqui descrever o destino da Oposição de Esquerda (1923) e da Oposição Unificada (1926-27) em detalhes 7, nas quais Trotski desempenhou um papel central. É suficiente para nossos propósitos apresentarmos algumas das opiniões principais.

A Oposição de esquerda e a Oposição unificada haviam feito pressão pela democratização do partido, a restrição de seu aparato e por um programa de industrialização planejada a ser financiado “arrochando” o kulak e os Nepmen, pelo combate ao desemprego, renascimento econômico e político da classe trabalhadora de forma a recriar a base da democracia soviética.

“A posição material do proletariado dentro do país deve ser fortalecida absolutamente e relativamente (crescimento no número de trabalhadores empregados, redução no número de desempregados, melhorias no nível material da classe trabalhadora)…”, declarava a plataforma da Oposição.

“O atraso crônico de indústria, e também de transporte, eletrificação e construção, em relação às demandas e necessidades da população, da economia pública e do sistema social como um todo, prende como uma morsa o funcionamento de toda a economia do país.” 8

A contradição interna desta posição era que, por um lado, a democratização do partido permitiria ao descontentamento de ambos os setores, camponês e proletário, encontrar uma expressão organizada. Por outro lado, aumentar a pressão estatal nos novos ricos (especialmente os camponeses mais ricos) reproduziria algumas das tensões extremas do comunismo de guerra que haviam levado o partido, primeiro a suprimir toda a oposição extra-partidária legal e depois a eliminar a oposição partidária interna e estabelecer a ditadura do aparato.

Na verdade, essas questões não foram colocadas à prova.

Não era simplesmente a economia que estava presa “em uma morsa”. Também era o caso da Oposição. O seu programa desafiava os interesses materiais de todas as três classes que se beneficiavam com a NEP: os burocratas, os Nepmen e os kulaks. A oposição não poderia prevalecer sem o renascimento da atividade da classe trabalhadora, a qual era a sua única base de apoio possível. Mas isso, por sua vez, era enormemente dificultado pelas condições sociais e econômicas da NEP, tanto quanto a revolução permanecesse isolada.

Stalin, chefe e porta-voz da camada conservadora do partido e dos funcionários estatais que de fato governavam o país, resistiu vigorosamente às demandas por industrialização planificada e pela democratização (como também o fizeram os seus aliados da direita do partido, notavelmente Bukharin e seus partidários).

Este era o conteúdo social do “socialismo em só país” defendido pelo grupo dominante a partir de 1925. Era uma declaração pelo status quo contra “motins” de qualquer tipo, contra expectativas revolucionárias e contra uma política exterior ativa.

Ainda um ano antes, em abril de 1924, Stalin havia resumido o que era ainda a visão comum:

“Para a derrubada da burguesia, os esforços de um país são suficientes - a vitória de nossa própria revolução é testemunha disso. Para a vitória final do socialismo, para a organização de produção socialista, os esforços de um país, especialmente de um país camponês como o nosso, não são suficientes - para isto nós precisamos dos esforços dos proletariados de vários países avançados.” 9

Era uma paráfrase de Lenin, e não mais do que uma declaração da realidade sócio-econômica. Mas esta visão ortodoxa, uma vez propriedade comum dos marxistas russos de todas as tendências, teve a desvantagem de enfatizar o caráter provisório do regime e a sua dependência, para um desenvolvimento socialista, das revoluções no Ocidente. Isto tornou-se profundamente inaceitável às camadas dominantes. O “socialismo em só país” era a declaração de sua independência em relação ao movimento operário.

Depois da derrota final da Oposição e o seu exílio da Rússia, Trotski resumiu a experiência em um artigo escrito em fevereiro de 1929:

“Após a conquista do poder, uma burocracia independente destacou-se do ambiente de classe operária e esta diferenciação… (que) no princípio era apenas funcional, tornou-se depois social. Naturalmente, os processos dentro da burocracia desenvolveram-se em relação aos profundos processos em andamento no país. Sobre a base da Nova Política Econômica um amplo estrato da pequena burguesia reapareceu ou foi recentemente criada nas cidades. As profissões liberais reviveram. Na zona rural, o camponês rico, o kulak, ergueu a sua cabeça. Amplas seções da oficialidade, justamente por terem se levantado sobre as massas, se aproximaram dos estratos burgueses e estabeleceram laços de família. Crescentemente, qualquer iniciativa ou crítica por parte das massas eram vistas como interferência… A maioria desta oficialidade que se levantou por cima das massas é profundamente conservadora. . . Essa camada conservadora, que constitui o apoio mais poderoso de Stalin na sua luta contra a Oposição, está mais inclinada a seguir o rumo à direita, em direção aos novos elementos proprietários, do que o próprio Stalin ou o núcleo central da sua facção.” 10

A conclusão política tirada desta análise era o perigo de um “Termidor soviético”. No dia 9 do Termidor (27 de julho de 1794) a ditadura jacobina foi subvertida pela Convenção e foi substituída por um regime de direita (o Diretório de 1795), o qual presidiu sobre a base de uma reação política e social na França e pavimentou o caminho para a ditadura de Bonaparte (a partir de 1799). O Termidor marcou o fim da Grande Revolução francesa. Agora pairava a ameaça de um Termidor russo.

“Elementos de um processo termidoriano, com certeza um que é completamente distintivo, podem ser encontrados na terra dos soviets. Eles tem se tornado notavelmente evidentes nos anos recentes. Os que estão no poder hoje ou desempenharam um papel secundário nos eventos decisivos do primeiro período da revolução ou eram oponentes sinceros da revolução e só se juntaram a ela depois de vitoriosa. Eles servem agora na maior parte como camuflagem para essas camadas e agrupamentos que, embora hostis ao socialismo, são muito frágeis para uma virada contra-revolucionária e, por isso, buscam uma transferência termidoriana pacífica que conduza à sociedade burguesa. Eles procuram “descer a ladeira freando”, como formulou um de seus ideólogos.11

Porém, isto ainda não havia acontecido, e tampouco era inevitável. O estado operário ainda estava intacto, embora corroído. O resultado, acreditava Trotski,

“será decidido pelo curso da própria luta das forças vivas da sociedade. Haverão fluxos e refluxos, cuja duração dependerá em grande parte da situação na Europa e ao longo do mundo.” 12

Em resumo, haviam três forças básicas a trabalho na URSS: as forças da direita - os elementos neo-capitalistas, kulaks, Nepmen, etc., para os quais uma grande seção do aparato no poder serve “na maior parte como uma camuflagem”; a classe trabalhadora, representada politicamente pela Oposição, agora suprimida; e a “burocracia” centrista, a facção de Stalin no topo da máquina, que em si não é termidoriana, mas que se apóia nos termidorianos e ziguezagueia da esquerda para a direita na tentativa de manter o poder.

A burocracia havia dado uma guinada para a direita de 1923 a 1928, e depois para a esquerda. “O curso de 1928-31”, escreveu Trotski em 1931:

“se deixarmos novamente de lado as inevitáveis oscilações e recaídas, representa uma tentativa da burocracia para se adaptar ao proletariado, mas sem abandonar os princípios básicos de sua política ou, o que é muito importante, de sua onipotência. Os ziguezagues do stalinismo mostram que a burocracia não é uma classe, nem um fator histórico independente, mas um instrumento, um órgão executivo das classes. O ziguezague à esquerda é a prova de que não importa o quão longe o curso anterior de direita tenha ido, ele todavia desenvolveu-se com base na ditadura do proletariado.”13

Portanto, a classe trabalhadora, em algum sentido, ainda detinha o poder, ou pelo menos tinha a possibilidade de recuperar o poder sem uma sublevação fundamental.

“O reconhecimento do Estado soviético atual como um Estado operário não só significa que a burguesia só pode conquistar o poder por meio de uma insurreição armada, mas também que o proletariado da URSS não perdeu a possibilidade de subordinar a burocracia para si, de reavivar a partido novamente, e de regenerar o regime do ditadura - sem uma nova revolução, com os métodos e no caminho da reforma.” 14

À altura em que isto foi escrito, factualmente já não possuía o menor fundamento. A análise das “três forças” estava irremediavelmente ultrapassada. Nos anos 20 tinha sido uma tentativa realista (mesmo que provisória) de uma análise marxista do curso do desenvolvimento na URSS.

As classes neo-capitalistas e a sua influência na ala direita do partido dominante, eram suficientemente reais em 1924-27. O papel vacilante de Stalin era, naquela época, tal como descrito. Mas em 1928-29 houve uma mudança fundamental.

Por 1928 a NEP estava entrando em sua crise final. Nepmen e kulaks tinham um interesse vital em mantê-la, ampliando ainda mais as concessões para o pequenos capitalistas, nas cidades e no campo.

Os membros principais da burocracia, e a sua vasta clientela nos mais baixos degraus da hierarquia burocrática, não tinham tal interesse vital. Eles só tinham um interesse vital de resistir à democratização do partido e do Estado. Haviam se aliado com as forças do pequeno capitalismo (e a direita bukharinista do partido) contra a Oposição, contra o perigo de um renascimento da classe operária.

Mas quando, com a Oposição esmagada, a burocracia viu-se diante de uma ofensiva de kulak, a “greve dos grãos” de 1927-28, ela demonstrou que a sua base essencial eram a propriedade e a máquina estatais, nenhuma das quais tinham qualquer conexão orgânica com a NEP. Ela defendeu seus interesses vigorosamente contra os seus aliados de ontem.

O kulaks controlavam praticamente todo o grão comerciável, o excedente sobre o consumo dos camponeses (a estimativa geralmente aceita é a de que um quinto dos fazendeiros camponeses produziam quatro quintos dos grãos vendidos no mercado). Sua tentativa para forçar um aumento nos preços, privando o mercado de seus estoques, forçou a burocracia a recorrer à requisição. E uma vez neste caminho, que minou a base fundamental da NEP, eles foram impelidos a adotar o programa de industrialização da Oposição, o que eles fizeram de uma forma extravagantemente exagerada, e empreender a coletivização forçada da agricultura, a “liquidação dos kulaks enquanto classe”. O primeiro “plano qüinqüenal” foi lançado.

Trotski interpretou isto como uma guinada (temporária) à esquerda pela burocracia stalinista, como uma tentativa “de se adaptar ao proletariado”. Ele estava profundamente equivocado. Estes foram justamente os anos nos quais o proletariado na URSS estava atomizado e sujeitado, pela primeira vez, a um despotismo verdadeiramente totalitário. Os salários reais caíram bruscamente. Embora os salários nominais tenham subido consideravelmente, os preços subiram muito mais rapidamente. Em geral, estatísticas importantes deixaram de ser publicadas depois de 1929 (isto é em si um fato significativo), mas um cálculo, publicado na URSS muito tempo depois (1966), mostrava o índice dos salários reais em 1932 como 88,6 (1928 = 100). “O índice correto dos salários reais (se soubéssemos) seria (…)bem abaixo de 88,6”, comenta Alec Nove, a fonte desta informação.15

O plano qüinqüenal introduziu um período de direcionamento da economia de acordo com um plano global, de crescimento industrial rápido, de coletivização forçada da agricultura, de destruição dos direitos políticos e sindicais (restantes) da classe trabalhadora, do rápido crescimento da desigualdade social, de extrema tensão social e trabalho forçado em massa. Também pressagiou a ditadura pessoal de Stalin e o seu regime de terror policial e, pouco mais tarde, o assassinato por fuzilamento ou a morte lenta nos campos de trabalho da grande maioria dos quadros originais do partido bolchevique e, na verdade, da maioria da própria facção de Stalin dos anos 20, junto a um número incerto mas muito grande de outros cidadãos da URSS e de muitos comunistas estrangeiros. Em resumo, introduziu a grande vaga do Stalinismo.

O fato de Trotski ter visto tudo isso como um giro à esquerda (embora ele não tenha estado a par de todos os fatos até alguns anos mais tarde), indica que ele tinha recaído no substitucionismo, pelo menos no que tocava à a URSS. Foi um engano que ele nunca pôde corrigir completamente. O argumento de que a burocracia não era um fator histórico independente mas um instrumento, um órgão executivo de outras classes, tinha sido decisivamente refutado quando aquela mesma burocracia simultaneamente esmagou os kulaks e atomizou os trabalhadores.

No início dos anos 20 ainda era possível discutir sobre os fatos. Mas o recém-nascido regime totalitário abafou todas as notícias reais e impôs sua própria máquina monolítica de propaganda. Trotski foi dos que menos se deixou enganar por isto. Foram os seus conceitos e o arcabouço teórico que o levaram a defender a perspectiva de “reforma” na URSS naquele momento. Uma famosa, e profundamente enganosa, analogia da URSS com um sindicato burocratizado originou-se nesse período. A analogia era, pelo menos, logicamente coerente, tanto quanto a estratégia de reforma persistisse.

O Estado operário, Termidor e bonapartismo

Em outubro 1933 Trotski mudou a sua posição abruptamente, passando a argumentar que o regime não podia ser reformado. Tinha que ser derrocado. O caminho da “reforma” já não era mais possível. Só revolução poderia destruir a burocracia:

“Após as experiências dos últimos anos seria infantil supor que a burocracia stalinista pode ser removida por meio de um congresso de partido ou dos soviets. Na realidade, o último congresso do Partido bolchevique aconteceu no começo de 1923, o décimo segundo Congresso do Partido. Todos os congressos posteriores foram paradas burocráticas. Hoje em dia, até mesmo tais congressos foram descartados. Não resta nenhum meio “constitucional” para remover o grupo governante. A burocracia só pode ser compelida a passar o poder às mãos da vanguarda proletária pela força.” 16

O “sindicato burocratizado” tinha que ser destruído, não reformado. É verdade que este artigo contém a seguinte afirmação: “Hoje a ruptura do equilíbrio burocrático na URSS serviria, quase certamente, a favor das forças contra-revolucionárias”, mas essa posição equivocada logo cedeu lugar a uma posição revolucionária.

Com a característica honestidade, Trotski prosseguiu criticando e revisando sua própria perspectiva “reformista” anterior, escrevendo em 1935 que:

“A questão do “Termidor” está intimamente ligada à história da Oposição de esquerda na URSS(…) De qualquer forma as posições a respeito desta questão em 1926 eram aproximadamente as seguintes: o grupo “Centralismo Democrático” (V.M. Smirnov, Sapronov e outros que foram perseguidos por Stalin até à morte no exílio) declaravam que “o Termidor é um fato consumado”. Os partidários da plataforma da Oposição de esquerda. . . negavam categoricamente esta afirmação(…) Quem demonstrou estar correto?

V.M. Smirnov - um dos melhores representantes da velha escola bolchevique - sustentava que o atraso na industrialização, o crescimento do kulak e dos Nepmen (a nova burguesia), a ligação entre a burocracia e estes últimos e, finalmente, a degeneração do partido, haviam ido tão longe que havia tornado impossível um retorno ao caminho socialista sem uma nova revolução. O proletariado já havia perdido o poder… As conquistas fundamentais da revolução de outubro tinham sido liquidadas.” 17

A conclusão de Trotski era de que o “Termidor da Grande Revolução russa não está no futuro, mas sim no passado. Os termidorianos podem celebrar, aproximadamente, o décimo aniversário da sua vitória.” (Quer dizer, teria acontecido por volta de 1925.) 18

Sendo assim os centralistas democráticos estavam corretos em 1926? Sim e não, afirma Trotski agora. Estavam corretos sobre o Termidor, errados sobre o seu significado. “O regime político atual na URSS é um regime de bonapartismo “soviético” (ou anti-soviético), de tipo mais próximo ao império do que ao Consulado.” Mas, ele continuou, “em suas fundações sociais e tendências econômicas a URSS permanece sendo um Estado operário.”

Em termos de analogias formais tudo isso era bastante plausível. Como o próprio Trotski apontou, ambos os termidorianos e Bonaparte representaram uma reação na base da revolução burguesa, e não um retorno ao ancien regime. Mas permanece o fato de que Trotski, não menos que Smirnov, tinha considerado previamente o “Termidor soviético” sob um aspecto fundamentalmente diferente. “O proletariado já havia perdido o poder” era a essência da tese de Smirnov, a qual Trotski negava veementemente na ocasião. Para ele, o partido, embora burocratizado, representava ainda a classe operária. Esta, ao contrário da burguesia, só podia manter o poder através de suas organizações.

“Camaradas”, ele havia declarado em 1924, “nenhum de nós deseja ter ou pode ter razão contra o partido. Em última instância o partido sempre está correto, porque é o único instrumento histórico que a classe operária possui para a solução de suas tarefas fundamentais… Só se pode estar certo com o partido e pelo partido, porque a história não criou nenhum outro modo para a realização da justeza de uma pessoa… Os ingleses têm um ditado que diz: “Meu país, certo ou errado!”. Com muito mais justificativa podemos dizer: Meu partido, certo ou errado - errado em certas questões específicas ou em certos momentos.” 19

Mas o partido (russo) havia se tornado o instrumento, primeiro do Termidor e agora do Bonapartismo; esta era a posição de Trotski ao término de 1933. Já que o partido tinha deixado de ser um instrumento da classe trabalhadora (seu regime tinha que ser derrubado “pela força”, e já que admitidamente os trabalhadores russos não tinham nenhum outro instrumento (estavam na verdade atomizados e sob o terror) o que poderia permanecer do Estado operário?

Nada. Esta era a única conclusão possível, se é que as definições tinham de reter o significado que todos lhes concediam até então. Uma nova revolução nova, “uma insurreição revolucionária vitoriosa”, era necessária para que a classe operária recuperasse o poder na URSS. O proletariado tinha perdido o poder e não havia nenhum modo pacífico, constitucional, para que o recuperasse novamente. Então o Estado operário já não existia. Uma contra-revolução havia acontecido.

Trotski rejeitou estas conclusões firmemente. Ele foi forçado a fazer então uma mudança fundamental na sua definição de Estado operário:

“A dominação social de uma classe (sua ditadura) pode encontrar formas políticas extremamente diversas. Isto é atestado por toda a história da burguesia da Idade Média até os dias de hoje. A experiência da União soviética já é adequada para a extensão desta lei sociológica, mutatis mutandis (mudando o que deve ser mudado), também à ditadura do proletariado.. . Assim, o domínio de Stalin em nada se assemelha ao domínio soviético durante os anos iniciais da revolução. . . Mas esta usurpação só foi tornada possível porque o conteúdo social da ditadura da burocracia é determinado por essas relações produtivas que foram criadas pela revolução proletária. Neste sentido nós podemos dizer com toda justificação que a ditadura do proletariado encontrou sua expressão, distorcida mas indubitável, na ditadura da burocracia.”20

Trotski manteve esta posição, em essência, durante os último cinco anos de sua vida. O seu livro A Revolução Traída (1937) elabora-a com riqueza de detalhe e ilustração vívida.

A natureza fundamental da ruptura com as suas próprias análises anteriores não pode ser exagerada. Era uma coisa discutir (como Lenin tinha feito) que o Estado operário pudesse ser deformado burocraticamente, distorcido, degenerado ou seja lá o que for. Agora o que estava sendo afirmado era que a ditadura do proletariado não possuía nenhuma conexão necessária com qualquer poder dos trabalhadores real. Agora a ditadura do proletariado passava a significar, primeiramente, a propriedade estatal da indústria e o planejamento econômico (embora quase não tenha havido planejamento sob a NEP). A ditadura proletária poderia permanecer existindo até mesmo com a classe operária atomizada e sujeitada a um despotismo totalitário.

A favor de Trotski deve ser dito que ele estava lidando com um fenômeno completamente novo. Ele, como todos os oposicionistas nos anos 20, tinha visto o perigo de um colapso do regime devido à pressão das forças crescentes do pequeno capital. Isto é o que o Termidor havia significado para todos eles. O resultado efetivo foi bastante inesperado. A propriedade estatal não só sobreviveu como se expandiu rapidamente. A burocracia, na realidade, desempenhou um papel independente, fato que Trotski nunca admitiria completamente. O regime resultante era único naquela época.

Nenhuma restauração burguesa havia ocorrido. Além do mais, em um período de profunda depressão industrial no Ocidente, um rápido crescimento econômico teve lugar na URSS, um ponto que Trotski enfatizou repetidas vezes em defesa da sua contenção de que o regime não era capitalista.

Prognósticos

No seu “Programa de Transição” de 1938 Trotski escreveu:

“A União soviética surgiu da revolução de outubro como um Estado operário. A propriedade estatal dos meios de produção, condição necessária ao desenvolvimento socialista, abriu a possibilidade de um crescimento rápido das forças produtivas. Mas ao mesmo tempo, o aparelho de Estado soviético sofreu uma degeneração completa, transformando-se de instrumento da classe operária num instrumento de violência burocrática contra a classe operária, e, cada vez mais, um instrumento para a sabotagem da economia nacional. a burocratização de um Estado operário atrasado e isolado e a transformação da burocracia em uma casta privilegiada todo-poderosa, é a refutação mais convincente - não somente teórica, mas também na prática - da teoria do socialismo em um só país.

Assim, o regime da URSS traz em si contradições terríveis. Mas permanece ainda como um Estado operário degenerado. Tal é o diagnóstico social. O prognóstico político tem um caráter alternativo: ou a burocracia, tornando-se cada vez mais o órgão da burguesia mundial no Estado operário, derrubará as novas formas de propriedade e mergulhará o país de volta para o capitalismo, ou a classe operária destruirá a burocracia e abrirá uma saída em direção ao socialismo.” 21

Por que deveria ser assim? Trotski estava convencido de que a burocracia era altamente instável e politicamente heterogênea. Todos os tipos de tendências “do autêntico bolchevismo ao fascismo completo” existiam em seu interior, afirmou em 1938. Estas tendências estavam relacionadas a forças sociais, incluindo “tendências capitalistas conscientes. . . principalmente a camada próspera das fazendas coletivas… (as quais) encontram uma base ampla nas tendências pequeno-burguesas à acumulação privada, que nascem da miséria geral e que conscientemente a burocracia encoraja.”22

No interior da burocracia “os elementos fascistas contra-revolucionários, cujo número aumenta sem cessar, exprimem com cada vez mais conseqüentemente, os interesses de imperialismo mundial. Estes candidatos ao papel de “compradores” pensam, não sem razão, que a nova camada dirigente só pode assegurar as suas posições privilegiadas renunciando à nacionalização, à coletivização e o monopólio do comércio estrangeiro em nome da assimilação com a “civilização ocidental”, isto é, com o capitalismo.(…) Sobre a base deste sistema de antagonismos crescentes, que destroem cada vez mais o equilíbrio social, mantém-se por métodos de terror, uma oligarquia termidoriana que agora se reduz sobretudo à camarilha bonapartista de Stalin.(…)O extermínio da geração dos velhos bolcheviques e dos representantes revolucionários da gerações intermediária e da jovem geração destruiu ainda mais o equilíbrio político em favor da ala direita, burguesa, da burocracia e de seus aliados no país. É de lá, isto é, da direita, que podemos esperar no próximo período, tentativas cada vez mais resolutas de revisar o regime social da URSS, aproximando-o da “civilização ocidental” em sua forma fascista.” 23

É interessante que Trotski tenha tentado chamar atenção às semelhanças entre fascismo e stalinismo, quando a , “Frente Popular” estava ainda no seu auge. “Stalinismo e fascismo, apesar de uma diferença profunda na base social, são fenômenos simétricos. Em muitas das suas características eles mostram uma semelhança mortal”, escreveu ele A Revolução Traída. 24 E novamente “Como nos países fascistas, dos quais o aparato político de Stalin não se distingue, a não ser por uma selvageria ainda mais desenfreada…” 25 O que eles têm em comum - a destruição de cada e toda organização independente dos trabalhadores e a atomização da classe operária - é muito surpreendente. Mas, e quanto à suposição de que havia uma diferença profunda na “base social”, será que um Estado operário fascista havia surgido?

Porém, mais importante é a questão das “tendências restauradoras” da burocracia. Não há nenhum argumento significativo nos escritos de Trotski deste período, além do direito à de herança:

“Privilégios só valem a metade se eles não podem ser transmitidos aos próprios filhos. Mas o direito de testamento é inseparável do direito de propriedade. Não é o bastante ser o diretor de um truste, é necessário ser também um acionista.”26 , demonstrando, assim, a pressão sobre a burocracia para abandonar o seu próprio controle da URSS em favor de tornar-se um sócio menor (compradores) das várias potências imperialistas.

Na visão de Trotski, a União soviética, ainda era “uma sociedade contraditória, meio caminho entre o capitalismo e o socialismo. Em última análise, a questão (adiante para o socialismo ou atrás para o capitalismo) será decidida por uma luta de forças sociais vivas, tanto na arena nacional quanto na arena mundial.”

Esta luta já havia se desenvolvido de tal modo a tensionar a análise de Trotski além dos limites nos último anos antes de sua morte.

Notas

1.   Lenin, Collected Works, Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1960, Vol.33, pp.65-66.

2.   E.H. Carr, The Bolshevik Revolution, Harmondsworth: Penguin 1963, Vol.2, pp.194-20).

3.   V. Serge, From Lenin to Stalin, New York: Monad 1973, p.39.

4.   Trotsky in I. Deutscher, The Prophet Armed (O Profeta Armado), London: Oxford University Press 1954, p.509.

5.   Lenin op. Cit. Vol.32, p.24.

6.   Ibid. p. 48.

7.   Um relato detalhado é dado in I. Deutscher, The Prophet Unarmed (O Profeta Desarmado), London Oxford University Press 1959, especialmente capítulos 2 e 5.

8.   Platform of the Opposiction, London: New Park 1973, pp.35-36.

9.   Stalin, in Trotsky, The Revolution Bevayed (A Revolução Traída), London: New Park 1967, p.291.

10. Trotsky, “Where is the Soviet Repuhtic going?”, Writings of Leon Trotsky 1929, New York: Pathfinder Press 1975, pp.47-48.

11. Ibid. p.50.

12. Ibid. p.51.

13. Trotsky, “Problems of the development of the USSR”. Writings of Leon Trotsky 1930-31, New York: Pathfinder Press 1973, p.215.

14. Ibid. p 225 Ênfase no original.

15. A. Nove, An economic History of the USSR, Harmondsworth: Penguin 1965 p 206.

16. Trotsky, “The class nature of the Soviet State”, Writings of Leon Trotsky 1933-34, New York: Pathfinder Press, 1972, pp.117-18. Ênfase no original.

17. Trotsky, “The workers” state, Thermidor and Bonapartism”, Writings of Leon Trotstky 1934-35, New York: Pathfinder Press 1971, pp.166-67.

18. Ibid p. 182.

19. I. Deutscher op cit. p. 139.

20. Trotsky, “The Workers” state, Thermidor and Bonapartism”, op. cit. pp.172-73. Ênfase no original.

21. Trotsky, “The death agony of capitalistn and the tasks of the Fourth International”(Programa de Transição), Documents of the Fourth International, N. York: Pathfinder Press 1973, p.220. Ênfase no original.

22. Ibid p.211.

23. Trotsky, The Revolution Betrayed (A Revolução Traída), London: New Park 1967, p.278.

24. Ibid.

25. Ibid.

26. Trotsky, The Revolution Betrayed, op.cit. p.254.

3. Estratégia e tática

O ideal de um movimento internacional dos trabalhadores é tão antigo (se não mais) quanto o próprio Manifesto Comunista e o seu chamado, “Proletários de todo o mundo, uni-nos”. Em 1864 (a I Internacional) e novamente em 1889 (a II Internacional) foram feitas tentativas de dar uma expressão organizativa a esse ideal. A II Internacional entrou em colapso em 1914 quando seus grandes partidos romperam com internacionalismo e apoiaram os “seus” governos burgueses, dos Kaisers da Alemanha e Áustria, do rei inglês e da Terceira República Francesa, na I guerra mundial.

Não é que eles tenham sido pegos de surpresa. Antes da guerra os Congressos já haviam chamado a atenção repetidamente para a ameaça do imperialismo e do militarismo, para a ameaça crescente da guerra e para a necessidade dos partidos operários se posicionarem firmemente contra os seus próprios governos, para realmente “utilizar a crise gerada pela guerra para acelerar a queda do domínio de classe capitalista”, como o Congresso de Stuttgart da Internacional havia declarado em 1907.

As subseqüentes capitulações de 1914, uma derrota atordoante para o movimento socialista, levaram Lenin a declarar: “A II Internacional está morta…Viva a Terceira Internacional”. Cinco anos depois, em 1919, a Terceira Internacional (Comintern) foi de fato fundada. Trotski cumpriu um papel central nos primeiros anos da Comintern.

Mais tarde, com a ascensão do stalinismo na URSS, a Internacional foi prostituída a serviço do Estado stalinista na Rússia. Trotski mais do que qualquer outro lutou contra esta degeneração. Muitos dos seus escritos mais valiosos sobre a estratégia e tática dos partidos revolucionários dizem respeito à Comintern, em ambos os períodos, da sua ascensão e do seu declínio.

“Deixando de lado a frouxidão, as mentiras e a corrupção dos partidos socialistas oficiais sobreviventes, nós comunistas, unidos na Terceira Internacional, consideramos ser os continuadores diretos dos esforços heróicos e do martírio de uma longa linha de gerações revolucionárias, de Babeuf a Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo.

Se a Primeira Internacional prenunciou o curso futuro do desenvolvimento e indicou os seus caminhos, se a Segunda Internacional juntou e organizou milhões de trabalhadores, então a Terceira Internacional é a Internacional da ação aberta de massas, a Internacional da realização revolucionária, a Internacional da ação.” 1

Trotski tinha quarenta anos de idade e estava na plenitude de suas forças quando ele escreveu o Manifesto da Internacional Comunista, do qual as linhas acima foram extraídas. Como Comissário do povo para a guerra da República soviética, ele só era segundo em relação a Lenin como porta-voz reconhecido do comunismo mundial.

Os seus pontos de vista não eram, naquele momento, especialmente distintivos. Eram os pontos de vista comuns a toda a direção bolchevique; uma perspectiva que não excluía agudas diferenças de opinião neste ou naquele assunto, mas que era essencialmente homogêneo. Mas Trotski se tornaria a tempo num dos defensores mais notáveis das idéias da Comintern em seu período heróico. Eventos não previstos por quaisquer dos líderes revolucionários de 1919 - ou pelos oponentes - reduziram mais tarde a um pequeno punhado os portadores desta tradição comunista autêntica. Trotski sobressaiu-se entre eles como um gigante entre lilliputianos.

Em várias ocasiões Trotski se referiria, nos seus escritos do final dos anos 20 e dos anos 30, às decisões dos primeiro quatro congressos da Comintern como um modelo de política revolucionária. O que foram estas decisões e em que circunstâncias foram adotadas?

Dia 4 de março de 1919. Trinta e cinco delegados reunidos no Kremlin votaram, com uma abstenção, pela constituição da Terceira Internacional. Não era uma reunião muito representativa. Somente os cinco delegados do Partido Comunista russo (Bukharin, Chicherin, Lenin, Trotski e Zinoviev) representavam um partido que era uma organização de massas e genuinamente revolucionário. Stange, do Partido Trabalhista norueguês (NAP), vinha de um partido de massas mas, como os fatos iriam demonstrar, na prática o NAP estava longe de ser revolucionário. Eberlein, do recém-formado Partido Comunista da Alemanha (KPD), representava uma real organização revolucionária, mas ainda contava com uns poucos milhares de membros. A maioria dos outros delegados representava muito pouco.

A maioria era da opinião de que uma “Internacional” sem qualquer apoio real de massas em vários países seria algo sem sentido. Zinoviev, pelos russos, argumentou que esse apoio de massas na realidade existia. A debilidade de muitas das delegações era acidental. “Nós temos uma revolução proletária vitoriosa num grande país. . . Na Alemanha vocês têm um partido que marcha para o poder, que em alguns meses estabelecerá um governo proletário. E ainda vamos esperar? Ninguém entenderá isto.”2

Nenhum dos delegados duvidava que a revolução socialista era uma perspectiva imediata na Europa central, sobretudo na Alemanha. Nas palavras de Eberlein:

“A menos que todos os sinais sejam enganosos, o proletariado alemão está enfrentando a última luta decisiva. Por mais difícil que possa ser, as perspectivas para o comunismo são favoráveis.”3

Lenin, o mais sóbrio e calculista dos revolucionários, havia dito no seu discurso de abertura que: “não só na Rússia, mas na maioria dos países capitalistas desenvolvidos da Europa, na Alemanha por exemplo, a guerra civil é um fato(…) a revolução mundial está começando e está crescendo em intensidade em todos lugares”.4

Isto não era nenhuma fantasia. Em novembro de 1918 o Império alemão, até então o Estado mais poderoso na Europa, tinha desmoronado. Seis comissários do povo, três social-democratas e três social-democratas independentes, substituíram o governo do Kaiser. Os conselhos de trabalhadores e soldados tinham surgido em todo o país e exerciam o poder efetivo. É bem verdade que os líderes social-democratas, que detinham o predomínio político, fizeram todos os esforços para reconstituir o velho poder estatal capitalista, desta vez sob um disfarce “republicano”. Isso era uma razão a mais para criar um Internacional revolucionária com uma direção fortemente centralizada, para guiar e apoiar a luta por uma Alemanha dos soviets. E essa luta, apesar da supressão sangrenta do levante espartaquista em janeiro de 1919, estava aparentemente se desenvolvendo. “De janeiro a maio de 1919, com desdobramentos até o alto verão, uma guerra civil sangrenta foi empreendida na Alemanha. . .”5 Um mês depois da reunião de Moscou foi proclamada a República soviética da Bavária.

A outra grande potência da Europa central, o Império austro-húngaro, tinha deixado de existir. Os Estados sucessores se encontravam em graus variados de fermento revolucionário. Na Áustria de língua alemã a única força armada efetiva era o Volkswehr (Exército do Povo), controlado pelos social-democratas. Na Hungria, a República soviética foi proclamada no dia 21 de março de 1919. Todos os Estados, os novos ou reconstituídos - Tchecoslováquia, Iugoslávia, e mesmo a Polônia - viviam uma situação altamente instável.

O papel das direções socialistas era crucial. A maioria apoiou a contra-revolução, agora em nome da “democracia”. A maioria deles reivindicava ser, na realidade haviam sido, marxistas e internacionalistas. Em 1914 eles capitularam diante das “suas” classes dominantes. Passaram a ser, naqueles momentos críticos, o suporte principal do capitalismo, usando frases socialistas e o crédito conquistado por anos de oposição aos antigos regimes antes de 1914, para impedir o estabelecimento do poder operário. A sua tentativa para reconstituir a II Internacional numa reunião em Berne (Suíça) foi vista como uma razão adicional e urgente para se proclamar a Terceira Internacional. Já em 1914 Lenin tinha escrito: “A II Internacional está morta, subjugada pelo oportunismo… Viva a Terceira Internacional!”6 Dezoito meses depois da revolução de outubro, ela se tornaria realidade.

Qual foi a sua base política essencial? Ela se apoiava em duas plataformas fundamentais:o internacionalismo revolucionário e o sistema de soviets como o meio a ser usado pelos trabalhadores para governar a sociedade.

A resolução principal do Congresso de 1919 declarava:

“A democracia assumiu formas diferentes e foi aplicada em diferentes graus nas antigas repúblicas gregas, nas cidades medievais e nos países capitalistas avançados. Seria pura tolice pensar que a mais profunda revolução da história - na qual pela primeira vez em todo mundo o poder é transferido da minoria exploradora à maioria explorada -, poderia ser realizada dentro dos moldes desgastados da democracia parlamentar burguesa, sem mudanças drásticas, sem a criação de formas novas de democracia, de novas instituições que encarnam as novas condições de aplicação da democracia.” 7

Soviets ou parlamento? Após a revolução de outubro o Partido Comunista russo dissolvera a Assembléia Constituinte recentemente eleita, na qual a partido camponês Social-revolucionário havia conquistado uma maioria, em favor do poder dos soviets. Depois da revolução de novembro o Partido Social-democrata alemão havia dissolvido os conselhos de trabalhadores e de soldados, nos quais tinha uma maioria, em favor da Assembléia Nacional na qual não era maioria.

Em ambos os casos a questão das formas constitucionais era, na realidade, uma questão do poder de classe. O efeito da ação do PC russo foi a criação de um Estado operário. O efeito da ação de SPD foi a criação de um Estado burguês, a República de Weimar.

Marx, após a Comuna de Paris, escrevera que na transição do capitalismo para o socialismo, a forma do Estado só “pode ser a ditadura revolucionária do proletariado”.

Os social-democratas rejeitaram, na prática, a essência da teoria marxista do Estado, segundo a qual todos os Estados são Estados de classe e nenhum Estado é “neutro”. Eles rejeitaram a sua própria posição anterior, sobre a inevitabilidade da revolução, em favor de vias parlamentares “pacíficas” para o socialismo. Entretanto a República de Weimar foi, tanto quanto a república soviética russa, um produto da subversão violenta do Estado anterior. Soldados amotinados e trabalhadores armados, e não eleitores, derrubaram o Império alemão. O mesmo era verdadeiro para os Estados sucessores do Império austro-húngaro. Mas a transformação mais importante, a destruição de capitalismo, seria alcançada pelos mecanismos ordinários da democracia burguesa!

Na realidade isto significava o abandono do socialismo enquanto objetivo.

A comintern, na sua “plataforma” de 1919, reafirmou a posição marxista: “A vitória da classe operária reside na destruição da organização do poder inimigo e na organização do poder dos trabalhadores. Consiste na destruição da máquina estatal burguesa e a construção da máquina estatal proletária.”8 Conquistar o socialismo através do parlamento era algo fora de questão… Lenin, em 1917, citara, em sinal de aprovação, a afirmação de Engels de que voto universal é “um indicador da maturidade da classe operária. Ele não pode e nunca será mais do que isso em um Estado moderno”.9 “Nenhuma república burguesa, por mais democrática que seja”, escreveu Lenin logo após a conferência de Moscou, “jamais foi ou poderia ser algo mais do que uma máquina para a repressão dos trabalhadores pelo capital, um instrumento da ditadura da burguesia, da dominação política do capital”. 10

A república dos trabalhadores, baseada nos conselhos operários, era verdadeiramente democrática.

“A essência do poder soviético reside nisso, no fato de que o alicerce permanente e exclusivo de todo o poder do Estado, de todo o aparelho estatal, é a organização de massas, exatamente daquelas classes que eram oprimidas pelos capitalistas, os trabalhadores e semi-trabalhadores (camponeses que não exploram trabalho).11

Isto era uma idealização, até mesmo para a Rússia de 1919, mas os “desvios” existentes eram explicados pelo atraso do país, a guerra civil e a intervenção estrangeira.

Trotski, na época, e até os seus últimos dias, apoiava todas estas idéias sem qualquer reserva. Ele concordava com Lenin nas questões relacionadas à democracia burguesa e ao reformismo em 1919, e nunca mudou de opinião a respeito.

A reunião dos delegados em Moscou fundara a nova Internacional sobre a base de um internacionalismo incondicional, um rompimento decisivo e final com os traidores de 1914, a defesa do poder operário, dos conselhos de trabalhadores, da República soviética e da perspectiva de revolução, num futuro próximo, na Europa Central e Ocidental. O problema agora era criar os partidos de massa que pudessem transformar tudo isso em realidade.

Centrismo e ultra-esquerdismo

“Partidos e grupos até recentemente estavam filiadas à II Internacional estão, com cada vez mais freqüência, solicitando sua participação na III Internacional, embora na realidade não tenham se tornado comunistas. . A Internacional Comunista está, de certa forma, virando moda… Em certas circunstâncias, a Internacional Comunista correrá o risco de diluição pela afluência de grupos vacilantes e indecisos que ainda não romperam com a sua ideologia da II Internacional.”12

Assim escreveu Lenin em julho de 1920. A suposição do Congresso de 1919 da Comintern, de que um verdadeiro movimento de massas revolucionário existia na Europa, provou estar correto no ano seguinte.

Em setembro de 1919 o Congresso de Bolonha do Partido Socialista Italiano votou, por esmagadora maioria e sob a recomendação da sua executiva, pela filiação à III Internacional. O Partido Trabalhista norueguês (NAP) confirmou a sua filiação e os partidos búlgaro, iugoslavo (ex-sérvio) e romeno também se filiaram. Os primeiro três eram organizações importantes. O NAP que, tal como o Partido Trabalhista britânico, tinha sua base nos sindicatos, dominava completamente a esquerda norueguesa, e o PC búlgaro tinha desde o princípio o apoio de praticamente toda a classe trabalhadora da Bulgária. O PC iugoslavo elegeu 54 deputados na primeira (e única) eleição livre realizada no novo estado.

Na França, o Partido Socialista, SFI0, que havia dobrado seu número de membros - de 90,000 a 200,000 entre 1918 e 1920 - havia realizado uma guinada para a esquerda, e estava flertando com Moscou. O mesmo acontecia com os dirigentes do Partido Social-democrata Independente alemão (USPD), uma organização que estava ganhando terreno rapidamente às custas do Partido Social-democrata (SPD). Os social-democratas de esquerda da Suécia, a esquerda checa e partidos menores em outros países (incluindo o Independent Labour Party britânico) tinham essencialmente a mesma linha. A pressão que vinha das suas fileiras forçava-os a assumir (em palavras) a defesa da revolução de outubro e negociar a admissão à III Internacional.

“O desejo de certos grupos de “centro” de aderirem à Terceira Internacional, escreveu Lenin, “fornece a confirmação indireta de que (a III I.C.) conquistou a simpatia da vasta maioria dos trabalhadores conscientes ao redor do mundo, e está se tornando a cada dia numa força mais poderosa.” 13

Mas esses partidos não eram organizações comunistas revolucionárias. As suas tradições eram as da social-democracia antes da guerra - revolucionários nas palavras, passivos na prática. E eles foram conduzidos por homens que tentariam qualquer manobra para manter o controle e impedir a adoção de uma estratégia e tática genuinamente revolucionárias.

Sem o grosso da militância desses partidos a nova Internacional não poderia vir a exercer uma influência decisiva na Europa a curto prazo. Sem uma ruptura com as direções centristas não poderia vir a exercer uma influência revolucionária.A situação não era muito diferente com os partidos de massa que já estavam dentro da Internacional. O Partido Socialista italiano, por exemplo, tinha centristas até mesmo alguns reformistas declarados em sua direção.

A luta contra o centrismo era complicada por outro fator. Correntes de extrema-esquerda fortes existiam dentro de muitos das organizações comunistas. E fora delas estavam algumas organizações sindicais importantes que haviam se aproximado da Terceira Internacional mas ainda rejeitavam a necessidade de um partido comunista. Ganhar e integrar essas grandes forças era uma operação difícil e complexa. Exigia uma luta em várias frentes diferentes.

As decisões do Segundo Congresso da III Internacional foram de importância fundamental. De certo modo este foi o verdadeiro congresso de fundação. Aconteceu durante o auge da guerra com a Polônia, quando o Exército Vermelho estava se aproximando de Varsóvia. Na Alemanha uma tentativa para instalar uma ditadura militar, o putsch de Kapp, há pouco tinha sido derrotada pela ação de massa da classe operária. Na Itália as ocupações de fábrica estavam a ponto de começar. O clima de otimismo revolucionário era mais forte do que nunca. Zinoviev, Presidente da Internacional, declarou: “Eu estou profundamente convencido que o Segundo Congresso Mundial da IC é o precursor de outro congresso mundial, o Congresso mundial das Repúblicas soviéticas.”14 Tudo o que era necessário eram verdadeiros partidos comunistas de massa para conduzir o movimento à vitória. Uma das intervenções principais de Trotski no congresso se preocupou com a natureza de tais partidos.

“Camaradas, pode parecer bastante estranho que, três quartos de século depois do aparecimento do Manifesto Comunista, ainda se discuta em um congresso comunista internacional se um partido é necessário ou não… É evidente que se nós estivéssemos lidando aqui com os senhores Scheidemann, Kautsky ou os seus co-pensadores ingleses, é claro, não seria necessário convencer estes cavalheiros de que um partido é indispensável para a classe operária. Eles criaram um partido para a classe operária e o entregaram ao serviço da burguesia e da sociedade capitalista… Exatamente porque eu sei que o partido é indispensável, e porque estou ciente do valor do partido, e exatamente porque eu vejo Scheidemann de um lado e, do outro, os sindicalistas americanos ou espanhóis ou franceses que não só desejam lutar contra a burguesia mas que, ao contrário de Scheidemann, realmente querem arrancar-lhe a cabeça fora - por essa razão eu digo que prefiro discutir com os camaradas americanos, espanhóis e franceses para provar-lhes que o partido é indispensável para o cumprimento da sua missão, a destruição da burguesia… Camaradas, os sindicalistas franceses estão realizando um trabalho revolucionário dentro dos sindicatos. Quando eu discuto hoje, por exemplo, com o camarada Rosmer, nós temos uma base comum de concordância. Os sindicalistas franceses disseram, em desafio às tradições da democracia e seus enganos: “Nós não queremos nenhum partido, somos por sindicatos proletários e pela minoria revolucionária que, dentro deles, aplica a ação direta.” O que significa essa minoria para os nossos amigos? Ela é a seção escolhida da classe operária francesa, uma seção com um programa claro e organização própria, uma organização onde se discutem todas as questões, e não só se discute mas também se decide, e onde eles estão ligados por uma certa disciplina.”15

Essa era a raiz do problema segundo Trotski. Os sindicalistas revolucionários eram muito mais propensos a construir um partido comunista do que os centristas, os quais aceitavam a idéia de um partido. A posição sindicalista não era completamente adequada - algo havia de ser adicionado: “um inventário… que concentre toda a experiência acumulada pela classe operária. É assim que nós concebemos nosso partido. É assim que concebemos nossa Internacional.”16

Não poderia ser uma organização fundamentalmente de propaganda. Falando ao Executivo de Comintern (ECCI) contra o ultra-esquerdista holandês Gorter, que havia acusado a Comintern de “correr atrás das massas”, Trotski declarou:

“O que propõe o camarada Gorter? O que quer ele? Propaganda! Esta é a essência de todo o seu método. A revolução, diz o camarada Gorter, não depende nem de privações nem de condições econômicas, mas da consciência das massas, enquanto a consciência das massas, por sua vez, é moldada através de propaganda. A propaganda é tomada aqui de uma maneira puramente idealista, muito semelhante ao conceito da escola iluminista e racionalista do século 18… O que você quer fazer é essencialmente substituir o desenvolvimento dinâmico da Internacional por métodos de recrutamento individual de trabalhadores através da propaganda. Você quer uma espécie de Internacional “pura” dos eleitos e seletos…” 17

O ultra-esquerdismo passivo, de tipo propagandístico, não era a única variedade presente nos primeiros anos da Comintern. Em 1921 uma tendência putschista desenvolveu-se na direção do partido alemão. Em março daquele ano, na ausência de uma situação revolucionária em escala nacional (em certos locais da Alemanha central havia algo próximo a uma situação revolucionária), a direção de partido tentou forçar o passo, tentou usar os militantes do partido como substitutos de um autêntico movimento de massas. O resultado do que ficou conhecido como a “Ação de março” foi uma séria derrota - o número de membros do partido despencou de aproximadamente 350.000 para cerca de 150.000 membros. Uma “teoria da ofensiva” foi usada para justificar as táticas de KPD.

“Eis aí a chamada teoria da ofensiva. Qual é a essência desta teoria? Sua essência é que nós entramos na época da decomposição da sociedade capitalista, em outras palavras, a época em que a burguesia deve ser derrubada. Como? Pela ofensiva da classe trabalhadora. Nesta forma puramente abstrata ela é inquestionavelmente correta. Mas certos indivíduos tentaram converter este capital teórico em moeda equivalente de denominações menores, e eles declararam que esta ofensiva consiste em um número sucessivo de ofensivas menores…”, observou Trotski em um discurso no verão de 1921. E prosseguiu:

“Camaradas, a analogia entre a luta política da classe operária e as operações militares tem sido abusada. Mas até um certo ponto podemos falar aqui de semelhanças… Em termos militares, nós também tivemos nossos dias de março (…) e os nossos dias de setembro (a referência é ao fracasso do Partido Socialista Italiano em explorar a crise revolucionária de setembro de 1920)(…) O que acontece depois de uma derrota parcial? Ocorre um certo deslocamento do aparelho militar, surge uma certa necessidade de um intervalo para se tomar fôlego, uma necessidade de reorientação e de uma estimativa mais precisa das forças recíprocas… Às vezes isso só se torna possível através de uma retirada estratégica…

Mas para entender isto corretamente, para se discernir em um movimento de recuo, em uma retirada, uma parte componente de um plano estratégico unificado - para isso uma certa experiência é necessária. Mas se uma pessoa raciocina de forma puramente abstrata e teima em avançar sempre (…) na suposição de que tudo pode ser substituído por uma extensão adicional de vontade revolucionária, o que é que obtém como resultado? Tomemos como exemplo os acontecimentos de setembro na Itália ou os de março na Alemanha. Nos é dito que a situação nestes países só pode ser remediada por uma nova ofensiva… Desta forma nós sofreríamos uma derrota ainda maior e muito mais perigosa (…) Não, camaradas, depois de uma tal derrota temos de recuar.”18

A frente única

De fato, já no verão de 1921, a direção da Comintern havia decidido que era necessária uma retirada estratégica de maneira geral. Trotski escreveu no Pravda em junho:

“No ano mais crítico para a burguesia, o ano de 1919, o proletariado europeu poderia, sem sombra de dúvida, ter conquistado o poder estatal com um mínimo de sacrifícios, caso tivesse à cabeça uma autêntica organização revolucionária, que estabelecesse metas claras e fosse capaz de persegui-las, isto é, um Partido Comunista forte. Mas não havia nenhum… Durante os últimos três anos os trabalhadores lutaram muito e sofreram muitos sacrifícios. Mas não conquistaram o poder. Como resultado as massas trabalhadoras se tornaram mais cautelosas do que eram em 1919-20.”19

O mesmo pensamento foi expresso nas Teses sobre a situação mundial de autoria de Trotski, adotadas no Terceiro Congresso da Comintern em julho de 1921:

“Durante o ano decorrido entre o segundo e o terceiro congressos da Internacional Comunista, uma série de levantes e lutas da classe operária terminaram em derrota parcial (o avanço do Exército Vermelho em Varsóvia em agosto de 1920, o movimento do proletariado italiano de setembro de 1920, o levante dos trabalhadores alemães em março de 1921). O primeiro período do movimento revolucionário do após-guerra, que se distinguiu pelo caráter espontâneo de suas agressões, pela imprecisão de suas metas e métodos, e pelo pânico extremo que despertou entre as classes dominantes, parece, no essencial, ter terminado. A auto-confiança da burguesia enquanto classe, e a estabilidade externa dos seus órgãos estatais, se fortaleceram inegavelmente(…) Os líderes da burguesia estão até mesmo jactando-se do poder das suas máquinas estatais e partiram para uma ofensiva contra os trabalhadores em todos os países tanto na frente política quanto econômica.”20

Em seguida ao congresso, a executiva da comintern (ECCI) começou a pressionar os partidos a mudar a ênfase dos seus trabalhos para a frente única. A essência desta tática foi formulada por Trotski de forma muito clara em 1922:

“A tarefa do Partido Comunista é conduzir a revolução proletária… para cumpri-la o Partido Comunista tem de se apoiar na maioria esmagadora da classe operária… O partido só pode alcançar isto permanecendo uma organização absolutamente independente com um programa claro e uma estrita disciplina interna. É por isso que o partido teve que romper ideologicamente com os reformistas e centristas… Depois de assegurar uma completa independência e homogeneidade ideológica de suas fileiras, o Partido comunista luta pela junto à maioria da classe operária. Mas é óbvio que a vida de classe do proletariado não é suspensa durante este período preparatório para a revolução. Choques com os industriais, com a burguesia, com o poder estatal, por iniciativa de um lado ou de outro, seguem seu curso costumeiro.

Nestes choques - tanto quanto envolvam os interesses vitais de toda a classe operária, ou da sua maioria, ou desta ou aquela seção - as massas trabalhadoras sentem a necessidade de unidade de ação, de unidade para resistir aos ataques do capitalismo ou de unidade para tomar a ofensiva contra o capitalismo. Qualquer partido que se contraponha mecanicamente a esta necessidade, de unidade na ação, da classe operária será fatalmente condenado nas mentes dos trabalhadores.

Por conseguinte a questão da frente única não é de maneira alguma, nem na sua origem e nem na sua substância, uma questão das relações recíprocas entre a fração parlamentar comunista e a dos socialistas, ou entre os Comitês Centrais dos dois partidos (…) O problema da frente única - apesar do fato de que, nesta época, uma divisão entre as várias organizações políticas que se baseiam na classe operária é inevitável - emerge da necessidade urgente de assegurar à classe operária a possibilidade de uma frente unificada na luta contra o capitalismo.

Para os que não entendem esta tarefa, o partido é só uma sociedade de propaganda e não uma organização para a ação de massas…

Unidade de frente pressupõe, conseqüentemente, a nossa prontidão para, dentro de certos limites e em assuntos específicos, correlacionar na prática as nossas ações com as das organizações reformistas, na medida em que elas, ainda hoje, expressam a vontade de importantes setores do proletariado em luta.

Mas, afinal de contas, nós não rompemos com os reformistas? Sim, porque nós discordamos deles em questões fundamentais do movimento operário.

E ainda assim buscamos acordo com eles? Sim, em todos os casos em que as massas que os seguem estejam prontas a se engajarem numa luta comum junto com as massas que nos seguem, e quando eles, os reformistas, sejam compelidos, em maior ou menor grau, a se tornarem um instrumento desta luta.

Uma política voltada para assegurar a frente única não contém, é óbvio, garantias automáticas de que realmente se consiga a unidade na ação em todas as instâncias. Pelo contrário, em muitos casos e talvez até mesmo na maioria de casos, acordos organizacionais só serão cumpridos pela metade ou talvez nem sejam cumpridos. Mas é necessário que as massas em luta sempre tenham a oportunidade de se convencer que a não realização da unidade na ação não se deve à nossa irreconciliabilidade formal mas à falta de uma verdadeira vontade para a luta por parte dos reformistas.”21

O quarto Congresso de Comintern (1922), que se ocupou em grande parte com a questão da frente única, foi o último do qual Lenin tomou parte, e o último cujas decisões foram consideradas essencialmente corretas por Trotski. Uma década depois, em uma declaração de princípios fundamentais, ele resumiu a sua atitude para com a experiência da Comintern na sua fase inicial:

“A Oposição de Esquerda internacional fundamenta-se nos primeiros quatro congressos da Comintern. Isto não significa que ela se curva diante de cada letra de suas decisões, muitas das quais tiveram um caráter puramente conjuntural e foram contestadas por eventos posteriores. Mas todos os princípios essenciais (em relação ao imperialismo e o Estado burguês, à democracia e o reformismo; problemas da insurreição; a ditadura do proletariado; sobre as relações com o campesinato e as nações oprimidas; o trabalho nos sindicatos; parlamentarismo; a política da frente única) permanecem, ainda hoje, a expressão mais elevada da estratégia proletária na época da crise geral do capitalismo. A Oposição de Esquerda rejeita as decisões revisionistas do quinto e sexto Congressos Mundiais …(1924 e 1928)”22

O ano de 1923 presenciou o surgimento do triunvirato de Stalin, Zinoviev e Kamenev por um lado, e da Oposição Esquerda do outro. Na Europa testemunhou duas derrotas devastadoras para a Comintern. Em junho o Partido Comunista búlgaro, um partido de massas que desfrutava o apoio de praticamente toda a classe operária, adotou uma posição de “neutralidade”, ou melhor dito de passividade total, diante do golpe de direita contra o governo do Partido Camponês. E então, após o regime democrático burguês ter sido destruído, uma ditadura militar ter sido instalada e a massa da população intimidada, lançou (22 setembro) uma insurreição súbita, sem qualquer preparação política séria. A tentativa insurrecional foi esmagada e como resultado se estabeleceu no país um feroz Terror Branco. Na Alemanha ocorreu uma crise econômica, social e política profunda, precipitada pela ocupação francesa do Ruhr e a inflação astronômica que, literalmente, tornou o dinheiro feito sem valor. “No outono de 1923 a situação alemã era mais desesperadora que em qualquer época desde 1919, a miséria maior, as perspectivas aparentemente mais sombrias.”23 Foi planejado um levante para outubro, após o Partido Comunista terem formado um governo de coalizão com social-democratas na Saxônia, mas foi cancelado no último minuto. (Em Hamburgo o comunicado do cancelamento não foi recebido a tempo; aconteceu uma insurreição isolada que foi esmagada depois de dois dias.)

Trotski acreditava que uma oportunidade histórica havia sido perdida. A partir dessa época a política da Comintern ficou cada vez mais determinada, primeiro, pelas exigências da facção de Stalin na luta interna do partido na URSS e depois pelas exigências da política externa do governo de Stalin. Depois de uma breve oscilação de “esquerda” em 1924, a Comintern foi empurrada para a direita até 1928, e então para o ultra-esquerdismo (1928-34) e, finalmente, para bem mais à direita no período da “Frente Popular” (1935-39). Cada uma destas fases foi analisada e criticada por Trotski. É conveniente apresentar a sua crítica usando três exemplos.

O Comitê Sindical Anglo-soviético

Afora a Revolução chinesa de 1925-27, a qual já discutimos, a política (sob a direção da Comintern) do Partido Comunista da Grã Bretanha (PCGB) até (e durante) a greve geral de 1926, foi a acusação mais importante que Trotski fez à Comintern em sua primeira fase direitista.

A greve geral de maio de 1926 foi um ponto decisivo na história britânica - e foi uma derrota absoluta para a classe operária. Trouxe a um fim um longo, embora não ininterrupto, período de combatividade da classe operária inglesa, levou a um prolongado domínio dos sindicatos abertamente conciliadores e de direita, e conduziram ao reforço massivo do reformismo do Partido Trabalhista às expensas do Partido comunista.

Em 1924-25 a maré no movimento sindical estava fluindo para a esquerda. O “Movimento Minoritário”, sob inspiração do Partido comunista, foi fundado em 1924 em torno dos slogans “Parar o Recuo” e “De Volta aos Sindicatos”, estava ganhando influência considerável. Ao mesmo tempo o movimento oficial estava vindo começando a sofrer a influência de um grupo de dirigentes de esquerda. E, a partir da primavera de 1925, a TUC (confederação sindical britânica) passou a colaborar com a Federação Soviética de Sindicatos através do “Comitê Consultivo Sindical Conjunto Anglo-soviético”, um fato que deu para aos “conselheiros gerais” britânicos um certa aura “revolucionária” e uma cobertura contra críticas da esquerda.

A essência da crítica de Trotski era que o PC britânico, por insistência de Moscou, estava criando ilusões nesses burocratas de esquerda (a palavra de ordem central do PC era “Todo o Poder para o “Conselho Geral”!) que certamente iriam trair o movimento em uma fase crítica (como de fato fizeram, é claro), ao invés de lutar para se construir independentemente nas bases, usando qual fosse o disfarce que os “conselheiros de esquerda” recomendassem, mas sem confiar neles ou encorajar os militantes a confiar neles. Pelo contrário, contando com a sua traição, advertindo para esse risco e preparando-se a ela.

Trotski escreveu mais tarde:

“Zinoviev deu entender que ele contava que a revolução achasse seu caminho, não pelo portal estreito do Partido Comunista britânico, mas pelos grandes portões dos sindicatos. A luta pelo Partido Comunista para ganhar as massas organizadas nos sindicatos foi substituída pela esperança de utilizar da forma mais rápida possível os aparelhos sindicais já prontos para os propósitos da revolução. Desta falsa posição nasceu a mais recente política do Comitê Anglo-russo que golpeou a União Soviética, assim como a classe operária britânica; um golpe só ultrapassado pela derrota na China… Como resultado do maior movimento revolucionário na Inglaterra desde os dias do cartismo, o Partido Comunista britânico não cresceu quase nada, enquanto o Conselho Geral se firmou ainda mais do que antes da greve geral. Tais são os resultados desta “manobra estratégica” sem igual.” 24

Ele não argumentou que uma política comunista independente necessariamente levaria a greve à vitória.

“Nenhum revolucionário que pesa as suas palavras afirmaria que uma vitória estaria assegurada através desta política. Mas uma vitória só era possível através desse caminho. Uma derrota nesse caminho seria uma derrota em um caminho que poderia conduzir à vitória mais tarde.”25

Porém, essa estrada a ser seguido de acordo com essa política “parecia muito longa e incerta aos burocratas da Internacional Comunista. Eles consideraram que por meio de influência pessoal sobre Purcell, Hicks, Cook e os demais(…) eles iriam arrastá-los gradual e imperceptivelmente(…) para a Internacional Comunista. Para garantir tal sucesso(…) os queridos amigos (Purcell, Hicks e Cook) não deveriam ser aborrecidos ou irritados(…)tinha-se de recorrer a uma medida radical(…) subordinando na realidade o Partido Comunista ao Movimento Minoritário(…)As massas só conheciam Purcell, Hicks e Cook como os líderes deste movimento, os quais, além disso, tinham a garantia de Moscou. Estes amigos de “esquerda”, em um teste sério, traíram o proletariado vergonhosamente. Os trabalhadores revolucionários foram lançados em confusão, mergulharam na apatia e naturalmente estenderam a sua decepção para o próprio Partido Comunista, o qual tinha sido apenas a parte passiva de todo este mecanismo de traição e perfídia. O Movimento Minoritário foi reduzido a zero; o Partido Comunista voltou a ser uma seita desprezível.”26

Confiança nos oficiais de “esquerda” continua sendo uma das características que distinguem os reformistas dos revolucionários. A crítica de Trotski é altamente pertinente ainda hoje; e não menos na Inglaterra.

A Alemanha no Terceiro Período

O sexto Congresso mundial da Comintern (verão de 1928) iniciou um processo de reação violenta contra a linha de direita de 1924-28. Uma linha esquerdista de um caráter peculiarmente burocrático foi imposto aos Partidos Comunistas de todos lugares, sem se levar em consideração as circunstâncias locais. Um reflexo do lançamento do primeiro plano qüinqüenal e da coletivização forçada na URSS, esta nova linha proclamou um “Terceiro Período”, um período de “crescentes lutas revolucionárias”. Na prática isto significava que, num tempo em que o fascismo era um perigo real e crescente, especialmente na Alemanha, os social-democratas eram considerados como o inimigo principal.

“Nesta situação de contradições imperialistas crescentes e lutas de classe agudas”, declarou o Décimo Pleno da ECCI em 1929, “o fascismo se torna cada vez mais o método dominante de domínio burguês. Em países onde há partidos social-democratas fortes, o fascismo assume a forma particular de fascismo social, o qual crescentemente serve à burguesia como um instrumento para paralisar a atividade das massas na luta contra o regime de ditadura fascista.” 27

Disso seguiu que a política de frente única, tal como era entendida até então, tinha que ser abandonada. Não poderia haver nenhuma possibilidade de se tentar forçar os partidos de massa social-democratas e os sindicatos controlados por eles a participarem de uma frente única contra os fascistas. Eles eram social-fascistas. Na verdade, acrescentou o décimo primeiro pleno da ECCI (1931), a social-democracia “é o fator mais ativo e marca-passo no desenvolvimento do Estado capitalista para o fascismo”.28

Este estimativa grotescamente falsa da natureza de fascismo e da social-democracia conduziu à suposição de que “partidos social-democratas fortes” e “ um regime de ditadura fascista” poderiam coexistir, e de fato coexistiram na Alemanha bem antes de Hitler subir ao poder. “Na Alemanha o governo de Von Papen-Schlcicher, com ajuda do Reichswehr (exército), o Stahlhelm (organização de direita, nacionalista e militarista) e do nazistas, estabeleceu uma forma de ditadura fascista(…)”29, proclamou o décimo segundo pleno da ECCI em 1932.

Trotski escreveu e argumentou contra esta estupidez criminosa com urgência crescente e desespero, de 1929 até a catástrofe de 1933. O brilho e a força lógica dos seus trabalhos sobre a crise alemã raramente foram igualadas, e nunca superadas, por qualquer marxista.

O tema central de todos estes escritos era a necessidade de uma “frente única dos trabalhadores contra o fascismo”, para citar o título de um dos seus escritos mais famosos. Mas havia muito mais que isto. Trotski se forçou a seguir em detalhes os tortuosos argumentos que os acólitos alemães de Stalin usaram em defesa do indefensável. Assim, os seus escritos deste período abordam e refutam uma gama extraordinária de argumentos pseudo-marxistas e, ao mesmo tempo, expunha com clareza excepcional a “expressão mais elevada de estratégia proletária”. Só podemos nos referir a uma parte muito pequena deles.

“A imprensa oficial da Comintern está descrevendo agora os resultados das eleições alemãs (de setembro de 1930) como uma vitória prodigiosa do comunismo que coloca na ordem do dia a bandeira de uma Alemanha soviética. Os otimistas burocráticos não querem refletir sobre o significado da relação de forças revelada pelas estatísticas da eleição. Eles examinam os números dos votos comunistas independentemente das tarefas revolucionárias criadas pela situação e os obstáculos que ela levanta.

O Partido Comunista recebeu cerca de 4.600.000 votos contra 3.300.000 em 1928. Do ponto de vista das máquinas parlamentares “normais”, o lucro de 1.300.000 votos é considerável, até mesmo se nós levarmos em conta o aumento no número total de eleitores. Mas o lucro do partido empalidece completamente ao lado do salto do fascismo de 800,000 a 6,400,000 votos. De significado não menos importante é o fato de que a social-democracia, apesar de perdas significativas, reteve suas estruturas básicas e ainda recebeu um número de votos operários consideravelmente maior do que o Partido Comunista.

Entretanto, se nós perguntássemos que combinação de circunstâncias internacionais e domésticas seriam capazes de fazer a classe operária voltar-se para o comunismo com maior velocidade, não poderíamos encontrar um exemplo de circunstâncias mais favoráveis do que a situação da Alemanha no presente momento:(…)a crise econômica, a desintegração dos governantes, a crise do parlamentarismo, a tremenda auto-exposição da social-democracia no poder. Do ponto de vista destas circunstâncias históricas concretas, o peso específico do Partido Comunista alemão na vida social do país, apesar do lucro de 1,300,000 votos, permanece proporcionalmente pequeno(…)

Ao mesmo tempo, a primeira característica de um verdadeiro partido revolucionário é ser capaz de olhar a realidade na face(…)

Para que a crise social traga a revolução proletária é necessário , além de outras condições, que as classes pequeno-burguesas dêem uma volta decisiva em direção ao proletariado. Isto dará uma chance ao proletariado de se colocar como líder à frente da nação.

A última eleição revelou - e este é seu significado sintomático mais importante - uma volta na direção oposta. Sob o impacto da crise, a pequena burguesia tendeu, não na direção da revolução proletária, mas na direção da reação imperialista mais extrema, puxando consigo setores consideráveis do proletariado.

O crescimento gigantesco do Nacional Socialismo é a expressão de dois fatores: uma crise social profunda que tiram as massas pequeno-burguesas do equilíbrio, e a falta de um partido revolucionário que seria visto e considerado pelas massas populares como o líder revolucionário reconhecido. Se o Partido Comunista é o partido da esperança revolucionária, então o fascismo, como um movimento de massas, é o partido do desespero contra-revolucionário. Quando a esperança revolucionária toma conta das massas proletárias, atrai inevitavelmente consideráveis e crescentes setores da pequena burguesia. Justamente nesta esfera, a eleição revelou o quadro oposto: o desespero contra-revolucionário tomou conta da massa pequeno-burguesa com tal força que arrastou atrás de si muitos setores do proletariado.

O fascismo na Alemanha se tornou um perigo real, como uma expressão aguda da posição impotente do regime burguês, o papel conservador da social-democracia no regime, e da falta de poder acumulada do Partido Comunista para aboli-lo. Quem nega isto ou é cego ou um fanfarrão.”30

Para reparar a situação, argumentou Trotski, era em primeiro lugar necessário sacudir o Partido Comunista e livrá-lo fora seu ultra-radicalismo estéril. A política do “ultimatismo burocrático” (“uma tentativa de violar a classe operária, tendo-se fracassado em convencê-la”) deve ser substituída por uma manobra ativo fundamentada na política da frente única.

“É uma tarefa difícil despertar de uma vez a maioria da classe operária alemã para uma ofensiva. Como conseqüência das derrotas de 1919, 1921 e 1923 e das aventuras do “terceiro período”, os trabalhadores alemães, que além do mais estão atados por poderosas organizações conservadoras, desenvolveram fortes centros de inibição. Mas, por outro lado, a solidariedade organizativa dos trabalhadores alemães, que até hoje tem conseguido impedir quase completamente a penetração do fascismo nas suas fileiras, abre maiores possibilidades para lutas defensivas. Deve-se ter em mente que a política da frente única é, em geral, muito mais efetiva para a defesa do que para a ofensiva. Os estratos mais conservadores ou atrasados são mais facilmente arrastadas para lutar pelo que eles têm do que para realizar novas conquistas. “31

Todos os tipos de sofismas foram empregadas pelos stalinistas para obscurecer a questão e para apontar como “trotskismo contra-revolucionário” a política que outrora havia sido a política da Comintern. A frente única, argumentavam, só poderia ser “a partir de baixo”. Com isso ficavam excluídos quaisquer acordos com os social-democratas, mas social-democratas individuais poderiam tomar parte em uma “frente única vermelha” - contanto que aceitassem a direção do Partido comunista!

E de modo crescente se alimentava a ilusão fatal resumida no slogan “Depois de Hitler é a nossa vez”. Uma perspectiva de passividade e impotência mascarada por retórica radical, como Trotski frisou em inúmeras ocasiões. Repetidas vezes ele retornou ao tema central da frente única, expondo os sofismas, ignorando calúnias e levando a discussão de volta ao ponto essencial, como neste exemplo brilhante:

“Uma vez um negociante de gado entregou alguns bois para o açougueiro. E então o açougueiro se aproximou deles com a sua faca afiada.

“Vamos nos juntar e rasgar este executor com os nossos chifres”, sugestionou um dos bois.

“Você acha que o açougueiro é pior do que o negociante que nos trouxe até aqui?” disseram os bois que tinham recebido a sua educação política no instituto de Manuilsky.

“Mas poderemos cuidar do negociante depois!”

“Nada feito”, responderam os touros, firmes nos seus princípios, para o conselheiro. “Você está tentando proteger nossos inimigos da esquerda. Você também é um social-açougueiro. “

E eles se recusaram a juntar-se.”

- das Fábulas de Esopo32

O Partido comunista permaneceu firme no seu curso fatal. Hitler tomou o poder e o movimento dos trabalhadores foi destruído.

A frente popular e a revolução espanhola

A vitória de Hitler levou os governantes da URSS a buscar “segurança” através de uma aliança militar com as ainda dominantes potências ocidentais da França e Inglaterra. Como um auxiliar da diplomacia de Stalin - é nisso que tinha se tornado agora - a Comintern foi fortemente empurrada para a direita. O sétimo (e último) Congresso foi convocado em 1935 como uma demonstração pública de que a revolução definitivamente não estava mais na ordem do dia. O congresso chamou pela “frente única do povo na luta pela paz e contra os instigadores da guerra. Todos os interessados na preservação da paz deveriam ser atraídos para essa frente.” 33

Entre os interessados na preservação da paz incluíam-se os vencedores de 1918, as classes dominantes francesa e britânica, na realidade os objetos da nova linha.

“Hoje a situação não é a mesma de 1914”, declarou a ECCI em maio de 1936:

“Agora não é só a classe operária, o campesinato e todos os trabalhadores que estão decididos a manter a paz, mas também os países oprimidos e as nações fracas cuja independência é ameaçada pela guerra(…) Na fase presente existem vários Estados capitalistas também interessados em manter a paz. E conseqüentemente existe a possibilidade de se criar uma ampla frente da classe operária, de todos os trabalhadores e de nações inteiras contra o perigo de uma guerra imperialista.”34

Tal um “frente” era, é claro, necessariamente uma defesa do status quo imperialista. Uma retórica reformista teve que ser empregada para esconder este fato, e teve grande êxito - durante um tempo.

Na primeira fase o entusiasmo popular pela unidade trouxe ganhos enormes para os Partidos Comunistas - o Partido Francês cresceu de 30.000 em 1934 a 150.000 ao final de 1936, mais 100,000 na Juventude Comunista; o Partido espanhol cresceu de menos de mil ao final do “Terceiro Período” (1934) para 35.000 em fevereiro de 1936 e 117.000 em julho de 1937. Os recrutas eram “vacinados” contra críticas da esquerda pela convicção que o trotskistas eram literalmente agentes fascistas.

Em maio de 1935 foi assinado o pacto Franco-soviético. Em julho o PC e o Partido Socialista francês (SFI0) fizeram um acordo com o Partido Radical, a coluna vertebral da democracia burguesa francesa, e em abril de 1936 a Front Populaire destas três partidos ganhou uma eleição geral com uma plataforma de “ segurança coletiva” e reforma. O PC conquistou 72 cadeiras fazendo campanha “Por uma França forte, livre e feliz” e se tornou uma parte essencial da maioria parlamentar de Leon Blum, o líder da SFI0 e primeiro-ministro do governo da Frente Popular. Maurice Thorez, o secretário-geral do PCF, pôde afirmar: “Nós privamos corajosamente os nossos inimigos daquilo que nos foi roubado e pisoteado. Nós retomamos a Marselhesa e a Tricolor.”35

Quando a vitória eleitoral da esquerda foi seguida por uma onda massiva de greves e manifestações - nas quais seis milhões de trabalhadores estiveram envolvidos em junho de 1936 - os ex-campeões das “lutas revolucionárias em ascensão” esforçaram-se para conter o movimento dentro de limites estreitos. O movimentou terminou com as concessões do “Acordo de Matignon (jornada de 40 horas semanais e férias pagas). Ao final do ano o Partido Comunista, agora à direita de seus aliados social-democratas, propôs a extensão do “Frente Popular”, transformando-a numa “Frente Francesa”, pela incorporação de alguns conservadores de direita que eram, por razões nacionalistas, fortemente anti-germânicos.

O partido francês foi pioneiro nesta política, porque a aliança francesa era central à política externa de Stalin. Mas essa política logo foi rapidamente adotado por toda a Comintern. Quando a revolução espanhola estourou em julho de 1936, em resposta à tentativa de Franco de tomar o poder, o PC espanhol, o qual era parte da Frente Popular espanhola que havia ganho as eleições de fevereiro, fez o máximo que podia para manter o movimento dentro dos limites da “democracia”. Com a ajuda da diplomacia russa, e é claro dos social-democratas, teve sucesso. “É absolutamente falso”, declarou Jesus Hernandez, editor do diário do partido,

“que o presente movimento dos trabalhadores tem como seu objetivo o estabelecimento da ditadura proletária depois de terminada a guerra(…) Nós os comunistas somos os primeiros a repudiar esta suposição. Nós somos motivados exclusivamente pelo desejo de defender a república democrática.”36

No encalço dessa linha o Partido Comunista espanhol e seus aliados empurraram cada vez mais a política do governo republicano para a direita. No curso da prolongada guerra civil, primeiro eliminou do governo o POUM (Partido Operário Unificado Marxista), um partido à esquerda do PC, criticado duramente por Trotski por haver entrado na Frente Popular e se desarmado politicamente, provendo uma cobertura de “esquerda” para o Partido Comunista. E depois do POUM foi a vez dos líderes da esquerda do Partido Socialista espanhol.

“A defesa da ordem republicana e a simultânea defesa da propriedade”37 conduziu a um reinado de terror na Espanha Republicana contra a esquerda. E isto, como assinalou Trotski, pavimentou o caminho para a vitória de Franco.

“O proletariado espanhol manifestou excelentes qualidades militares”, escreveu Trotsky em dezembro de 1937,

“Em seu peso específico na vida econômica do país, no seu nível político e cultural, o proletariado espanhol se situava, desde o primeiro dia da revolução, não abaixo, mas acima do proletariado russo do início de 1917. No caminho para a sua vitória, seus principais obstáculos foram as suas próprias organizações. A camarilha stalinista dirigente, conforme a sua função contra-revolucionária, consistia de mercenários, carreiristas, elementos desclassificados e, em geral, todos os tipos de refugo social. Os representantes das outras organizações operárias - os reformistas incuráveis, anarquistas charlatões, centristas impotentes do POUM - murmuraram, gemeram, vacilaram, manobraram, mas no fim eles se adaptaram aos stalinistas. Como resultado da sua atividade conjunta, o campo da revolução social - os trabalhadores e camponeses - provou estar subordinado à burguesia, ou mais corretamente, à sua sombra. Foi sangrado até a última gota e o seu caráter foi destruído.

Não houve falta de heroísmo por parte das massas ou de coragem por parte dos revolucionários individuais. Mas as massas foram abandonadas aos seus próprios recursos, enquanto os revolucionários permaneceram desunidos, sem um programa, sem um plano de ação. Os comandos militares “republicanos” se preocuparam mais em esmagar a revolução social do que em alcançar vitórias militares. Os soldados perderam a confiança nos seus comandantes, as massas no governo. Os camponeses abandonaram a batalha, os trabalhadores se tornaram exaustos. Derrotas atrás de derrotas, e a desmoralização cresceu rapidamente. Tudo isso não era difícil de prever desde o princípio da guerra civil. Colocando-se a tarefa de salvar o regime capitalista, a Frente Popular se condenou à derrota militar. Virando o bolchevismo de cabeça para baixo, Stalin cumpriu com total sucesso o papel de coveiro da revolução.”38

Quase ninguém hoje em dia (com exceção de um punhado de seitas maoístas insignificantes) defende a linha stalinista do “Terceiro Período”. Em relação à Frente Popular o caso é completamente diferente. Deixando-se de lado todas as diferenças de espaço e de tempo, que outra coisa é, em essência, o “eurocomunismo” e o chamado “compromisso histórico”? Além disso, alguns mais à esquerda (em termos políticos formais) da tendência eurocomunista reproduzem a substância dos mesmos erros que Trotski combateu sob o título de “Comitê Sindical Anglo-soviético”.

Estas questões, portanto, não são de interesse meramente histórico, mas também de interesse prático. Os escritos de Trotski sobre estratégia e tática, em relação a estas grandes questões, constituem um verdadeiro tesouro. Pode-se dizer, sem qualquer exagero, que ninguém desde 1923 produziu um trabalho que se aproxime de sua profundidade e brilho. Eles são, literalmente, indispensáveis para os revolucionários nos dias de hoje.

Notas

1.   Trotsky, “Manifesto of the Communist International to the workers of the world”, The First Five Years of the Communist International, New York: Pioneer 1945 Vol.2, pp.29-30.

2.   J. Degas The Communist International 1919-43, London: Cass 1971, Vol.1, p 26.

3.   Ibid. p 6.

4.   Lenin, Collected Works, Moscow: Foreign Languages Publishing House 1960, Vol 28 p 455.

5.   S.Haffner, Failure of a Revolution: Germany 1918-19, London: Andre Deutsch 1973 p 152.

6.   Lenin, op. cit., Vol 21 p.40.

7.   J. Degras op. cit., cit Vol I, pp.12-13.

8.   J. Degras op cit p 19.

9.   Lenin, op cit., Vol 25 p.393.

10. Ibid., Vol 29 p.311.

11. J. Degras, op cit p 13.

12. Lenin, op.cit. Vol.31, pp.206-07.

13. Ibid. p.206.

14. J. Degras, op.cit. p.109.

15. Trotsky, “Speech on Comrade Zinnviev’s report on the role of the party”, The First Five Years of the Communist Intemational, op.cit. Vol.1, pp.97-99.

16. Ibid. p.101.

17. Ibid. p.141.

18. Ibid. pp.303-O5.

19. Ibid. pp.294-95.

20. J. Degras, op.cit. Vol.1, p.230.

21. Trotsky, The First Five Years of the Communist International, op.cit. Vol.2, pp.91-95.

22. Trotsky. Writings of Leon Trotsky 1932-33, New York: Pathfinder Press 1972, pp.51-55.

23. E.H. Carr, The Interregnum 1923-1924, Harmondsworth: Penguin 1965, p.221.

24. Trotsky, “Lessons of the General Strike”, Trotsky’s Writings on Britain, London:New Park 1974, Vol.2, pp.241, 245.

25. Ibid. p.244. Ênfase no original.

26. Ibid. pp.252-53.

27. J. Degras, The Communist International: Documents, London: Cass VoIII, p.44.

28. Ibid. p.159.

29. Ihid. p.224.

30. Trotsky, “The turn in the Communist International”, The. Struggle Against Fascism in Germany, New York: Pathfinder Press 1971, pp.57-60. Ênfase no original.

31. Trotsky, “What next?”, The Struggle Against Fascism in Germany, op.cit. p.248.

32. Ibid. p.254

33. J. Degras, op.cit. Vol.III, p.375.

34. Ibid. p.390.

35. Ibid. p.384.

36. See F. Morrow, Revolution and Counter-Revolution in Spain, New York: Pioneer 1938, p.34.

37. Ibid. p.35.

38. Trotsky, “The lessons of Spain: the last warning”, The Spanish Revolution (1931-39), New York: Pathfinder Press 1973, pp.322-23.

4. Partido e Classe

Marx afirmou que a emancipação da classe operária deve ser o ato da própria classe operária. Mas ele também afirmou que as classes dominantes controlam o “meios de produção mental” e que as “idéias dominantes em qualquer época são as idéias das classes dominantes”.

Desta contradição surge a necessidade de um partido socialista revolucionário. A natureza do partido e, sobretudo, a natureza da sua relação com a classe trabalhadora foi, desde o princípio, central aos movimentos socialistas. Nunca foi somente uma questão “técnica” de organização. Em cada fase as disputas sobre a relação partido e classe - e portanto sobre a natureza do partido - também foram disputas sobre os objetivos do movimento. Os debates sobre os meios sempre foram, em parte, debates sobre os fins, e não poderia ser de outra forma. Assim, os próprios conflitos de Marx com Proudhon, com Schapper, com Blanqui, com Bakunin e muitos outros sobre este tema estavam indissoluvelmente entrelaçados com as diferenças sobre a natureza do socialismo e os meios através dos quais seria alcançado.

Depois da morte de Marx em 1883, e a morte de Engels doze anos depois, houve um crescimento massivo dos partidos socialistas. Na Rússia logo emergiu um conflito que iria se tornar fundamental, sobre o tipo de partido a ser construído.

A primeira visão de Trotski sobre a natureza do partido revolucionário era essencialmente a que se tornou conhecida como visão “leninista”. De fato, de acordo com Isaac Deutscher1, ele discutiu este ponto de vista independentemente de Lenin quando estava exilado na Sibéria em 1901. De qualquer modo ele se tornou um partidário do Iskra no Congresso de 1903 do POSDR, e argumentou fortemente por uma organização altamente centralizada: “Nossas regras… representam a desconfiança organizada do Partido em relação a todas as suas seções, quer dizer, o controle sobre todas as organizações locais, distritais, nacionais e outras” 2

Ele recuou violentamente desta posição após permanecer com os mencheviques na divisão da tendência do Iskra ao congresso. No período de um ano Trotski tinha se tornado o crítico por excelência do centralismo bolchevique. Os métodos de Lenin, escreveu em 1904, “conduzem a isto: o partido é substituído pela organização do partido, a organização do partido é substituído pelo Comitê Central, e finalmente o Comitê Central é substituído por um “ditador” (…)” 3

Como Rosa Luxemburgo, Trotski suspeitava do “conservadorismo do partido” em geral e depositava grande confiança na ação espontânea da classe operária:

“Os partidos socialistas europeus - e, em primeiro lugar, o mais poderoso deles, o alemão - desenvolveram um conservadorismo que cresce cada vez mais em proporção ao tamanho das massas envolvidas, a eficiência da organização e a disciplina partidária. Portanto, é possível que a social-democracia social possa se tornar um obstáculo no caminho de qualquer choque aberto entre os trabalhadores e o burguesia.”4

Para superar este conservadorismo, Trotski se apoiava no impacto da ação espontânea da revolução, a qual, tal como escreveu sob o impacto da revolução de 1905, “mata a rotina do partido, destrói o conservadorismo do partido”.5 Assim, o papel do partido é essencialmente reduzido à propaganda. Não é a vanguarda da classe operária.

Havia, é claro, motivos consideráveis que justificavam seus temores. Na Rússia até mesmo o partido bolchevique demonstrou ser conservador em 1905-07 e novamente em 1917 6. No Ocidente, onde o conservadorismo tinha uma base material incomparavelmente maior nos privilégios das burocracias operárias, os partidos social-democratas desempenharam um papel contra-revolucionário decisivo em 1918-19.

A experiência de 1905, na qual Trotski teve um papel extraordinário enquanto indivíduo, sem sérias ligações partidárias (na ocasião ele era formalmente um menchevique, mas essencialmente um freelancer), sem dúvida fortaleceu a sua convicção na suficiência da ação espontânea de massa.

No período da reação depois de 1906, e até mesmo no ascenso do movimento operário russo a partir de 1912, ele continuou criticando o “substitucionismo” bolchevique e pregando uma “unidade” de todas as tendências, voltada essencialmente contra os bolcheviques. Novamente, isto pode ter contribuído à sua lentidão em reconhecer os perigos do verdadeiro substitucionismo após 1920.

A posição de Trotski no período 1904-17 mostrou-se claramente insustentável pelo curso dos acontecimentos. Sem Lenin, escreveu Trotski depois, não teria havido nenhuma revolução de outubro. Mas simplesmente não foi uma questão da chegada de Lenin à Estação Finlândia em abril de 1917. Era uma questão do partido que Lenin e os seus colaboradores dele haviam construído durante os anos anteriores. O conservadorismo de muitos dos dirigentes daquele partido (reforçado, deve ser dito, pelo esquema teórico da “ditadura democrática” que Lenin havia defendido por tanto tempo) teria, muito provavelmente, impedido a tomada do poder, não fosse a autoridade de Lenin e a sua determinação. Mas sem o partido, com todos os seus defeitos, a questão não poderia sequer ser levantada. Ações de massa “espontâneas” podem derrubar um regime autoritário. Foi assim na Rússia em fevereiro de 1917, na Alemanha e na Áustria-Hungria em 1918, e em muitas ocasiões desde então, mais recentemente no Irã.

Em 1917 Trotski adotou a visão de que para os trabalhadores tomarem e assegurarem o poder, um partido do tipo leninista era indispensável. Desde então ele nunca mais retrocedeu desta posição. Na realidade, conferiu-lhe uma expressão caracteristicamente aguda. Em 1932 criticando o argumento de que “os interesses da classe vêm antes dos interesses do partido”, ele escreveu:

“A classe, por si só, é apenas material para a exploração. O proletariado só assume um papel independente no momento em que de uma classe social em si se torna uma classe política para si. Isto não pode ocorrer a não ser por intermédio de um partido. O partido é o órgão histórico por meio do qual a classe se torna classe consciente. Dizer que “a classe está acima do partido” é afirmar que a classe em estado bruto está acima da classe a caminho consciência de classe. Isso não é só incorreto: é reacionário.”7

Esta concepção apresenta algumas dificuldades muito óbvias. Em particular, a experiência havia mostrado que o “órgão” histórico pelo qual uma classe operária particular alcança a consciência poderia degenerar. De que forma, então, a organização do partido pode ser defendida?

O Instrumento Historicamente Condicionado

Trotski estava consciente deste problema. Ele havia testemunhado a desintegração da Internacional em 1914, o papel diretamente contra-revolucionário da social-democracia em 1918-19 e, é claro, a ascensão do stalinismo.

A passagem citada acima continua:

“O progresso de uma classe para a consciência de classe, quer dizer, a construção de um partido revolucionário que dirige o proletariado, é um processo complexo e contraditório. A própria classe não é homogênea. Suas seções diferentes chegam à consciência de classe através de caminhos diferentes e em momentos diferentes. A burguesia participa ativamente neste processo. Cria suas próprias instituições no interior da classe operária, ou utiliza as já existentes para opor certos estratos de trabalhadores contra outros. No proletariado vários partidos estão ativos ao mesmo tempo. Portanto, durante a maior parte de sua jornada política, permanece dividido politicamente. O problema da frente única -que surge de forma mais aguda em determinados períodos - origina-se daí. Os interesses históricos do proletariado encontram a sua expressão no Partido Comunista - quando a sua política está correta. A tarefa do Partido Comunista consiste em lucros em conquistar a maioria do proletariado, e só assim a revolução socialista se torna possível. O Partido Comunista não pode cumprir sua missão a não ser preservando, completa e incondicionalmente, sua independência política e organizativa em relação a todos os demais partidos e organizações, dentro e fora da classe operária. Transgredir este princípio básico da política marxista é cometer o mais odioso dos crimes contra os interesses do proletariado enquanto classe(…) Mas o proletariado se move para a consciência revolucionária não pelos degraus da escola, mas através da luta de classes, a qual detesta interrupções. Para lutar, o proletariado deve ter unidade em suas fileiras. Isto é verdadeiro tanto para conflitos econômicos parciais dentro dos limites de uma única fábrica, quanto para batalhas políticas “nacionais”, como a luta para repelir o fascismo. Por conseguinte, a tática da frente única não é algo acidental e artificial - uma manobra astuciosa - nada disso. Origina-se total e completamente das condições objetivas que governam o desenvolvimento do proletariado.”8

É claro que esta análise notavelmente clara, coerente e realista não era uma generalização sociológico atemporal. Estava arraigada no desenvolvimento histórico real. Os partidos da Segunda Internacional haviam, na sua época, ajudado criar esses:

“baluartes da democracia operária (as organizações operárias, especialmente os sindicatos) dentro do estado burguês(…) (os quais) são absolutamente essenciais para tomar o caminho revolucionário. A obra da Segunda Internacional consistiu em criar tais baluartes durante a época em que ainda estava cumprindo seu trabalho histórico progressivo.”9

Os partidos daquela Internacional foram, com o tempo, corrompidos a partir de dentro através da adaptação às sociedades nas quais eles operavam. Esse desenvolvimento teve, é claro, uma base material e não somente ideológica. Diante do teste de 4 de agosto de 1914, eles capitularam à “sua própria burguesia” (com certas exceções: os bolcheviques, os búlgaros, o sérvios), ou adotaram um posicionamento “centrista” (os italianos, os escandinavos, os norte-americanos e várias minorias em outros lugares). A Internacional Comunista, “a continuação direta do esforço heróico e do martírio de uma longa linhagem de gerações revolucionárias, de Babeuf a Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo” 10, surgiu daquela capitulação, dos conseqüentes conflitos internos e divisões partidárias, da maré ascendente de oposição operária à guerra a partir de 1916, e as revoluções de 1917 e 1918.

Este era agora o “órgão histórico por meio do qual a classe se torna consciente de si”. Os partidos da Internacional Comunista cometeram, especialmente a partir de 1923, uma série de erros (Trotski, decerto, tinha clareza de seus erros iniciais), e cada vez mais seguiram políticas oportunistas ou sectárias sob a direção de Stalin e o seu círculo dirigente na URSS. Não obstante, com todos os seus defeitos era uma realidade, não uma hipótese. Uma realidade que conquistou o apoio ou simpatia de milhões ao redor do mundo. De fato, paradoxalmente, seus próprios defeitos indicaram, de uma forma distorcida, que a IC era verdadeiramente uma organização de massas. Pois Trotski não se rendeu à visão simplista de que os grandes partidos da Comintern eram simplesmente instrumentos da burocracia stalinista na Rússia. O problema era corrigir o seu curso. “Todos os olhos no Partido comunista. Nós temos que explicar-lhe. Nós temos que convencê-lo.”11

Enquanto questão de necessidade política, o regime interno do partido deve ser democrático:

“As lutas internas educam o partido e desobstruem o seu caminho. Nesta luta todos os membros do partido ganham uma profunda confiança na justeza da política do partido e na seriedade revolucionária da direção. Somente uma tal convicção na militância bolchevique, conquistada pela experiência e a luta ideológica, possibilita à direção a chance para dirigir todo o partido à batalha no momento necessário. E somente uma profunda confiança do próprio partido na justeza de sua política inspira as massas trabalhadoras a confiarem no partido. Divisões artificiais forçadas a partir de fora, a ausência de uma luta ideológica livre e honrada(…) - isto é o que paralisa agora o Partido Comunista espanhol(…)”12

Trotski escreveu essas linhas em 1931. O argumento se aplicava generalizadamente. Porém, não era tão simples. Em seguida à sua expulsão da URSS em 1929, Trotski esboçou o que ele considerou ser as questões básicas para os partidários da Oposição de Esquerda na Europa (atitudes para com o Comitê Sindical Anglo-russo, a Revolução chinesa e o “socialismo em um só país”).

“Alguns camaradas podem estar surpresos pela omissão à questão do regime partidário(…)”, continuou,

“Eu não a omito por descuido, mas deliberadamente. Um regime partidário não tem nenhum significado independente, auto-suficiente. Em relação à política do partido é uma magnitude derivada. Os elementos mais heterogêneos simpatizam com a luta contra burocratismo stalinista(…) Para um marxista, a democracia dentro de um partido ou dentro de um país não é uma abstração. A democracia está sempre condicionada pela luta das forças vivas. Por burocratismo, os elementos oportunistas(…) entendem o centralismo revolucionário. Obviamente, eles não podem ser nossos co-pensadores.”13

É possível repassar pelos escritos de Trotski após 1917, e até mesmo os seus escritos depois de 1929 ou 1934, e coletarmos uma série de declarações, algumas exaltando as virtudes da democracia interna do partido e condenando medidas “administrativas” contra os críticos, outras que discutem a necessidade de expurgos e expulsões. Nem é um caso de citações deslocadas de seu contexto. Para Trotski, a relação entre centralismo e democracia interna do partido não era uma constante. Dependia do conteúdo político em cada uma das circunstâncias específicas, mas variáveis. Trotski escreveu no final de 1932:

“O princípio da democracia partidária não é de nenhuma maneira idêntico com o princípio da porta aberta. A Oposição de Esquerda nunca exigiu dos stalinistas que eles transformassem o partido em uma soma mecânica de facções, grupos, seitas e indivíduos. Nós acusamos a burocracia centrista de continuar uma política essencialmente falsa, que a cada passo a coloca em contradição com a flor do proletariado, e de procurar a saída destas contradições pelo estrangulamento da democracia partidária.”14

Isto pode parecer um equívoco. Realmente, em condições puramente formais é um equívoco. A solução para a contradição será encontrada na dinâmica do desenvolvimento do partido. O partido, Trotski acreditava, não pode crescer, em termos de real influência de massas e não simplesmente em números, exceto por uma relação recíproca, um processo de interação, com camadas cada vez mais amplas de trabalhadores. Para isto a democracia interna do partido é indispensável. Provê os meios de um retorno da experiência da classe para dentro do partido. Tal desenvolvimento nem sempre é possível. Freqüentemente, as circunstâncias objetivas impedem tal crescimento. Mas o partido deve estar sempre atento à possibilidade. Caso contrário não poderá agarrar as chances que acontecem de tempos em tempos.

Portanto, o regime partidário deve estar a todos os momentos tão aberto e flexível quanto possível, consoante com a preservação da integridade revolucionária do partido. Esta qualificação é importante. Porque as circunstâncias desfavoráveis debilitam os laços entre o partido e as camadas de trabalhadores avançados, e assim aumentam o problema de “facções, grupos e seitas” que podem se tornar um obstáculo ao crescimento da democracia interna do partido tal como Trotski a entendia, essencialmente um mecanismo pelo qual o partido se relaciona a seções mais amplas da classe trabalhadora, aprende com ela e, ao mesmo tempo, conquista o direito de dirigi-la.

O argumento é, talvez, muito abstrato. Para concretizá-lo, consideremos esta passagem da História da revolução russa de Trotski, onde ele discute o isolamento de Lenin na direção do partido logo após a revolução de fevereiro.

“Contra os velhos bolcheviques (em abril de 1917) Lenin encontrou apoio em outra camada do partido, já temperada, mas mais fresca e mais unida às massas. Na revolução de fevereiro, como nós sabemos, os operários bolcheviques cumpriram o papel decisivo. Eles pensavam que era algo evidente que a classe que havia conquistado a vitória deveria tomar o poder (…) Em quase todos os lugares havia bolcheviques de esquerda sendo acusados de maximalismo, até mesmo de anarquismo. A esses operários revolucionários só lhe faltavam os recursos teóricos para defenderem a sua posição. Mas eles estavam prontos par responder ao primeiro chamado claro. Era sobre este estrato de operários, os quais haviam se erguido decisivamente durante os anos de ascenso de 1912-14, que Lenin estava se apoiando agora.”15

Este modelo aparece repetidas vezes nos escritos de Trotski. Um partido de massas, distinto de uma seita, é necessariamente fustigado por forças imensamente poderosas, especialmente em circunstâncias revolucionárias. Estas forças, inevitavelmente, encontram expressão também dentro do partido. Para manter o partido em curso (na prática, para corrigir continuamente o seu curso em uma situação variável), a complexa relação entre a direção, as várias camadas de quadros e de trabalhadores sobre os quais exerce influência e pelos quais é influenciado, expressa-se e deve expressar-se em luta política dentro do partido. Se essa luta é sufocada artificialmente através de meios administrativos, o partido se perderá.

Uma função indispensável da direção, ela própria formada através da seleção das lutas anteriores, é compreender quando deve fechar as fileiras para preservar o núcleo da organização do risco de desintegração através de pressões externas desfavoráveis - enfatizar o centralismo - e quando abrir a organização e utilizar as camadas de trabalhadores avançados de dentro e de fora do partido para superar o conservadorismo partidário entre os quadros e a direção - enfatizar a democracia - para mudar o curso rapidamente.

Tudo isto implica em uma concepção bastante exaltada do papel da direção, o que certamente estava presente no Trotski pós-1917. Ele iria afirmar em 1938 que “A crise histórica da humanidade está reduzida à crise da direção revolucionária”. Era uma concepção, porém, do crescimento orgânico dos quadros dirigentes em relação às experiências do partido na luta de classes real. É claro que um quadro dirigente tinha que encarnar uma tradição e a experiência do passado (de Babeuf a Karl Liebknecht), um conhecimento das estratégias e táticas que haviam sido testadas em muitos países e em diferentes momentos durante muitos anos. Este conhecimento era necessariamente, na sua maior parte, teórico, e Trotski, menos que todos, era inclinado a subestimá-lo. Era uma condição necessária para uma direção próspera, mas não suficiente. A experiência do partido na ação e a sua relação - em constante mudança - com as várias seções do proletariado era o fator adicional, insubstituível, que só poderia ser desenvolvido na prática.

Uma Anomalia

No tempo de Trotski somente um Partido Comunista, o da URSS, detinha o poder estatal em suas mãos (fora as áreas controladas pelo Partido Comunista chinês nos ano trinta).

Trotski classificava todos os PCs como organizações “burocráticas e centristas”, ou seja, organizações operárias que vacilavam entre a política revolucionária e a política reformista. Após 1935, com a linha da “Frente Popular”, ele chegou à conclusão de que eles haviam se tornado organizações social-patrióticas: “agentes amarelos do capitalismo em decomposição”. 16

Mas estes termos se referem a organizações operárias, partidos que são obrigados a disputar, com outros,o apoio nos seus movimentos operários. Nesse sentido o PCUS (Partido Comunista da União Soviética), pelo menos a partir de 1929 (se não antes), já não era mais um partido. Era um aparato burocrático, o instrumento de um despotismo totalitário. Trotski reconheceu isto em parte: “O partido (o PCUS), enquanto partido, já não existe mais. O aparato centrista o estrangulou” 17, escreveu em 1930. Mas ele concluiu que o PCUS era um partido de uma espécie fundamentalmente diferente dos partidos operários fora da URSS.

Mesmo depois de Trotsky ter perdido as esperanças (em outubro de 1933) em uma reforma pacífica do regime na URSS, a confusão permaneceu. Certamente esta confusão estava associada com a convicção de que embora uma reforma fosse impossível, a URSS permanecia sendo um Estado operário degenerado.

Essa questão tornou-se relevante alguns anos depois da morte de Trotski, quando uma série de novos Estados stalinistas surgiu, sem revoluções proletárias e com uma série de “Partidos Comunistas” que não eram, de modo algum, os partidos operários nos termos da concepção de Trotski. Esta contradição já fazia parte da sua posição após 1933.

O fio da meada está cortado

Nós vimos que a concepção madura de Trotski sobre a relação entre partido e classe não era nem abstrata nem arbitrária, mas estava enraizada na experiência do bolchevismo na Rússia e no desenvolvimento histórico atual concreto que havia possibilitado a formação de Partidos Comunistas em vários países importantes.

Mas e se todo este desenvolvimento fosse por água abaixo? E se o “ instrumento historicamente condicionado” falasse no teste? Trotski contemplou essa possibilidade, apenas para rejeitá-la firmemente. Em 1931 ele escreveu:

“Tomemos um outro exemplo, mais remoto, para a clarificação de nossas idéias. Hugo Urbahns que se considera um “comunista de esquerda”, declara que o partido alemão está falido, completamente acabado, e propõe a criação de um novo partido. Se Urbahns estivesse correto, significaria que a vitória do fascismo é certa. Pois,para criar um partido novo são necessários anos (e não há nada que prove que o partido de Urbahns seria, em qualquer sentido, melhor que o partido de Thaelmann: quando Urbahns estava à frente do partido, de modo algum foram cometidos menos erros). Sim, se os fascistas conquistassem o poder, isto significaria não só a destruição física do Partido Comunista, mas a sua verdadeira bancarrota política(…) A tomada do poder pelo fascistas significaria, mais provavelmente, desta forma a necessidade de se criar um partido revolucionário novo e, com toda a probabilidade, também uma nova Internacional. Isso seria uma terrível catástrofe histórica. Mas assumir hoje que tudo isso é inevitável, só pode ser obra de genuínos liquidacionistas, daqueles que, sob o manto de frases vazias, só estão com pressa para capitularem como covardes diante da luta e sem uma luta(…) Nós estamos firmemente convencidos de que a vitória sobre os fascistas é possível - não após a sua subida ao poder, não depois de cinco, dez ou vinte anos de sua dominação, mas agora, sob as condições vigentes, nos próximos meses e semanas.”18

Mas Hitler subiu ao poder. Apesar do brilho e da força lógica dos argumentos de Trotski o Partido Comunista alemão, com seu um quarto de milhão de membros e seus seis milhões de votos (em 1932), prosseguiu firme o seu curso fatal. foi esmagado, sem resistência, junto com os “social-fascistas”, os sindicatos e todas e quaisquer outras organizações políticas, culturais e sociais criadas pela classe trabalhadora alemã nos sessenta anos anteriores.

Em 1931 Trotski havia descrito a Alemanha como “a chave para a situação internacional(…) Do desenvolvimento da solução da crise alemã dependerá não só o destino da própria Alemanha (e isso já é muito), mas o destino de Europa, o destino do mundo inteiro, por muitos anos futuros.”19

Era uma previsão precisa. A derrota da classe operária alemã transformou a política mundial. O fracasso do Partido Comunista, até mesmo em tentar resistir, foi um golpe tão duro quanto a capitulação da social-democracia em 1914. Foi o “4 de agosto” da Internacional Comunista.

O que permaneceu então do “órgão histórico através do qual a classe se torna consciente de si”? De 1933 até a sua morte em agosto de 1940, Trotski lutou para solucionar um dilema que havia provado ser insolúvel, naquele momento e por muito tempo depois. Em junho de 1932 ele havia escrito:

“Os stalinistas, através da perseguição, gostariam de nos forçar a fundar um segundo partido e uma quarta Internacional. Eles sabem que um erro fatal deste tipo por parte da Oposição atrapalharia o seu crescimento durante anos, se é que não invalidaria completamente todas as suas conquistas.” 20

Mas menos de um ano depois ele foi forçado a reconhecer, primeiro, que o partido alemão estava acabado. E um pouco depois (após a executiva da Comintern ter declarado em abril de 1933 que sua política na Alemanha fora “completamente correta”), que todos os Partidos Comunistas estavam liquidados enquanto organizações revolucionárias, e que eram necessários “novos Partidos Comunistas e uma nova Internacional” (título de um artigo de julho de 1933).

O elo entre a teoria e a prática havia sido cortado. Antes de 1917 Trotski havia confiado na ação espontânea da classe operária como meio para superar o conservadorismo do partido. Depois das 1917 ele reconheceu o partido operário revolucionário como o instrumento indispensável da revolução socialista. A falta de tais partidos enraizados na classe operária, com quadros maduros e experientes, havia produzido a tragédia de 1918-19, quando os movimentos revolucionários de massa na Alemanha, Áustria e Hungria e as lutas espontâneas de massa em outros lugares, foram conduzidos à derrota.

Os meios de superação desse problema - os partidos da Internacional Comunista - haviam degenerado a tal ponto que eles próprios haviam se tornado obstáculos à solução revolucionária das novas e profundas crises sociais.

Era necessário começar de novo. Mas o que havia restado para um novo começo? Essencialmente, não havia nada mais que pequenos (freqüentemente minúsculos) grupos cujas características comuns incluíam o isolamento em relação aos movimento operário real e a falta de envolvimento direto nas sua lutas. As aparentes exceções parciais a esta generalização (aqueles que contavam com centenas ou milhares de membros) - os Archiomarxistas gregos, o RSAP holandês e, um pouco depois, o POUM espanhol - mostraram ser problemáticas: mais centristas do que revolucionários, mais obstáculos do que aliados.

Foi contando com tal força que Trotski começou a reconstruir. Ele não tinha escolha, a não ser que se retraísse numa total passividade ou numa passividade disfarçada como aquela que, mais tarde, seria chamada de “marxismo ocidental”. Mas meios e fins estão inextricavelmente entrelaçados. Sem vínculos com o movimento operário concreto, o “trotskismo”, mesmo quando Trotski ainda vivia, começou a acomodar-se ao seu ambiente (pequenas seções radicalizadas dos estratos intelectuais da pequena burguesia). Como nós veremos, o próprio Trotski lutou contra esta acomodação. Ao mesmo tempo, as cruéis necessidades da situação o levaram a adotar posições que, apesar da sua vontade e compreensão, acabaram por reforçar a acomodação.

A nova Internacional

“Mesmo que a esquerda comunista no mundo inteiro só consistisse de cinco indivíduos, eles teriam sido obrigados a construir uma organização internacional simultaneamente à construção de uma ou mais organizações nacionais. É errado ver uma organização nacional como a fundação e a Internacional como um telhado. A inter-relação aqui é de um tipo completamente diferente. Marx e Engels começaram o movimento comunista com um documento internacional em 1847 e com a criação de um movimento internacional. A mesma coisa foi repetida na criação da Primeira Internacional. O mesmo caminho foi seguido pela esquerda de Zimmerwald na preparação da Terceira Internacional. Hoje este caminho é muito mais imperioso do que nos dias de Marx. Claro que é possível, na época do imperialismo, que uma tendência proletária revolucionária surja em um ou outro país, mas não pode prosperar e se desenvolver em um país isoladamente. No primeiro dia após a sua formação, ela deve procurar ou criar ligações internacionais, uma plataforma internacional, pois a garantia da justeza da política nacional só pode ser encontrada ao longo deste caminho. Uma tendência que permanece fechada nacionalmente durante determinado período de anos se condena irrevogavelmente à degeneração.”21

Trotski escreveu essas palavras numa polêmica com a seita ultra-esquerdista do italiano Bordiga, quando ele (Trotski) ainda defendia a uma política de reforma dos Partidos Comunistas existentes. Ele estava argumentando a favor de uma facção internacional orientada em uma Internacional existente. A lógica desta posição, ao contrário dos argumentos usados para sustentá-la, parecia irrefutável.

Os argumentos em si não resistem a um exame crítico. Marx e Engels não começaram com a “criação de um movimento internacional”. O Manifesto comunista foi escrito para uma Liga Comunista já existente (embora de idéias comunistas muito primitivas), a qual só era internacional no sentido de que existia em vários países. Era essencialmente uma organização alemã e consistia de emigrados alemães artesãos e intelectuais em Paris, Bruxelas e outros lugares, como também grupos no Rhineland (região do Reno) e na Suíça alemã.

A Primeira Internacional começou como uma aliança entre organizações sindicais britânicas existentes sob influência liberal, e organizações sindicais francesas sob influência proudhonista, e mais tarde acolheu outros agrupamentos de caráter e nacionalidade diversas. Longe de “repetir” a experiência da Liga Comunista, ela foi desenvolvida exatamente em linhas opostas - sem uma base programática inicial e sem uma organização centralizada. O mesmo é verdade, em menor grau, com relação à Segunda Internacional, a qual Trotski não menciona.

Nem é correta a referência à esquerda de Zimmerwald. A esquerda de Zimmerwald (ao contrário da corrente como um todo) consistia no Partido Bolchevique, um partido nacional de massas, mais indivíduos isolados (“um lituano, o polonês Karl Radek, dois delegados suecos e Julian Borchard, o delegado de um grupo minúsculo, os “Socialistas Internacionais alemães”“)22

Falando em termos práticos, Trotski não teve opção. Naquele momento ele não dispunha de nenhuma tinha base no movimento operário. Todo o contato com os seus partidários na URSS havia cessado a partir da primavera de 1933 23. Era uma questão de reunir tudo o que poderia ser reunido, onde quer existisse, para criar uma corrente política. Além disso, o argumento de que uma plataforma internacional era necessária - ou uma análise comum dos problemas do movimento operário - era irrefutável. Trotski a forneceu. Mas havia sido introduzida uma confusão entre idéias e organização, entre tendência política e partido internacional. Em alguns anos, Trotski abandonou tacitamente a sua concepção de partido revolucionário como o “órgão histórico através do qual a classe se torna consciente de si” e lançou uma “Internacional” sem uma base significativa em qualquer movimento operário.

Mas primeiro Trotski tentou encontrar novas forças. Os grupos trotskistas eram minúsculos. A força dos stalinistas os havia forçado a um gueto político. Este, além disso, tinha uma localização social definida em uma seção da intelligentsia pequeno-burguesa.

Onde estava a saída? Como “proletarizar” o trotskismo e atrair um números significativo de trabalhadores para os novos partidos comunistas?

Haviam obstáculos enormes no caminho. Um efeito principal duradouro da derrota na Alemanha foi a criação de um sentimento extremamente forte sobre a necessidade de unidade entre os militantes da classe operária. Um chamado por novos partidos e uma nova Internacional, em outras palavras, por uma nova divisão, não poderia haver encontrado terreno mais estéril. Trotski havia sido pioneiro na chamada por uma frente única dos trabalhadores contra o fascismo, mas quando esta chamada começou a ganhar terreno nos partidos socialistas a partir de 1933 (e, brevemente, também nos partidos comunistas) os seguidores de Trotski foram apresentados como divisionistas. Agora defendiam a criação de novos partidos e uma nova Internacional. O seu isolamento foi reforçado.

Depois de algumas tentativas iniciais de “reagrupamento” com vários grupos centrista e reformistas de esquerda (por exemplo, o ILP britânico) terem fracassado (produzindo uma rica safra de polêmicas contra o centrismo, por parte de Trotski), Trotski propôs o drástico passo de entrada nos partidos social-democratas. A rigor, essa tática foi discutida para casos específicos - primeiramente para a França (daí o termo “giro francês”) - mas depois foi generalizada na prática. Os argumentos eram de que os social-democratas estavam caminhando para a esquerda, criando clima mais favorável para o trabalho revolucionário, além de estarem atraindo camadas novas de trabalhadores e apresentarem um ambiente incomparavelmente mais proletário do que os isolados grupos de propaganda habitados pelo trotskismo.

A tática foi concebida como uma operação de curto prazo: uma luta aguda e dura com os reformistas e centristas, depois uma divisão e a fundação do partido. “Entrar em um partido reformista ou de centrista exclui uma perspectiva a longo prazo. É apenas uma fase que, sob certas condições, pode ser limitada a um episódio.”24

No evento, a operação falhou em seu objetivo estratégico. Fracassou em mudar a relação de forças ou melhorar a composição social dos grupos trotskistas. As razões fundamentais para o fracasso foram as conseqüências da derrota na Alemanha, as reviravoltas da Internacional Comunista - primeiro para a Frente Única (1934) e depois para a Frente Popular (1935)-, e o grande impacto causado por estas mudanças e a conseqüente guinada para a direita do movimento operário. Além disso, as campanhas de Stalin contra Trotski logo atingiram a ele e os seus seguidores, denunciados como agentes fascistas.

As circunstâncias que haviam possibilitado a conquista de partidos centristas de massa para a Internacional Comunista(como no caso do USPD alemão e da maioria dos socialistas franceses) em 1919-21, simplesmente não existia em 1934-35. Sejam quais forem os equívocos cometidos por Trotski ou seus seguidores no curso do “giro francês”, eles só podem ter tido efeitos triviais em comparação aos efeitos da situação profundamente desfavorável.

Alguns dos ganhos reivindicados para a tática entrista foram reais. Ela envolveu uma ruptura com muitos a quem Trotski chamou de “sectários conservadores”, isto é, aqueles que não puderam se adequar a uma política ativa ao invés de propagandismo de pequenos círculos no ambiente intelectual.

No final de 1933 Trotski escreveu:

“Uma organização revolucionária não pode desenvolver sem se depurar, especialmente sob condições de trabalho legal, quando não tão raramente, elementos estrangeiros e degenerados se juntam sob a bandeira da revolução(…) Nós estamos dando um giro revolucionário importante. Em tais momentos, crises internas ou divisões são absolutamente inevitáveis. Temê-los, é substituir a política revolucionária por sentimentalismo pequeno-burguês e por intrigas pessoais. A Liga (o grupo trotskista francês) está atravessando uma primeira crise sob a bandeira de critérios revolucionários grandes e claros(…) Nestas condições o afastamento de uma parte da Liga será um grande passo adiante. Rejeitará tudo aquilo que é enfermo, inútil e incapaz; dará uma lição aos elementos irresolutos e vacilantes; endurecerá as melhores seções da juventude; melhorará a atmosfera interna; abrirá para a Liga novas e grandes possibilidades.”25

Não há dúvida que tudo isso estava correto a princípio e, de fato, algumas forças novas foram recrutadas das organizações socialistas juvenis, para substituir aquelas que haviam sido eliminadas (ou que, como foi na maioria dos casos, simplesmente haviam saído). Não obstante, o equilíbrio de forças - a fraqueza patética da esquerda revolucionária - permanecia basicamente inalterada. E então?

Trotski tinha pressa em fundar a Quarta Internacional. Depois de declarar repetidas vezes que não podia ser uma perspectiva imediata, pois as forças para tanto ainda não eram disponíveis - em 1935 ele tinha denunciado como “uma fofoca estúpida” a idéia de que “os trotskistas querem proclamar a Quarta Internacional na próxima quinta-feira” - ele propôs, dentro de um ano, justamente isso: a proclamação da nova Internacional. Na ocasião ele não conseguiu persuadir os seus seguidores. Em 1938 ele os havia ganho para a proposta.

As forças que aderiram à Quarta Internacional em 1938 eram mais débeis, não mais fortes, do que as que existiam em 1934. (O SWP da EUA era a única exceção séria). A revolução espanhola havia sido estrangulada nesse meio tempo. Trotski justificou a sua decisão por meio de um recuo parcial e não reconhecido à semi-espontaneidade que ele havia defendido antes de 1917, e também através de uma analogia com a posição de Lenin em 1914.

“A discrepância entre as nossas forças e as tarefas de amanhã é percebida muito mais claramente por nós do que pelos nossos críticos”, escreveu Trotski no final de 1938, “mas a severa e trágica dialética de nossa época está trabalhando a nosso favor. As massas, trazidas à extrema exasperação e indignação, não acharão nenhuma outra direção a não ser a que oferece a Quarta Internacional.”27

Mas as experiências de 1917 (positivamente), de 1918-19 (negativamente) e, sobretudo, da Espanha em 1936, haviam demonstrado a necessidade indispensável de partidos enraizados nas suas classes trabalhadoras nacionais por um longo período de luta por demandas parciais. Trotski reconhecia isto mais claramente do que a maioria. Mas desde que tais partidos não existiam, e a sua necessidade era extraordinariamente urgente, ele se refugiou em um Weltgeist (Espírito do Mundo) da revolução que os criaria de alguma maneira da “exasperação e indignação” espontânea contanto que “uma bandeira imaculada” fosse tremulada no alto. A excitação espontânea iria, no curso da guerra ou em seguida, erguer as “direções”, isoladas e inexperientes, das seções da Quarta Internacional à condição de direções de partidos de massas.

A analogia com Lenin em 1914 era duplamente imprópria. Quando Lenin escreveu em 1914: “A Segunda Internacional está morto: Viva a Terceira Internacional!”, ele já era o dirigente mais influente de um verdadeiro partido de massas em um país importante. Não obstante, ele não pensou em chamar pela fundação da Terceira Internacional até um e ano e meio depois da revolução de outubro e numa época em que, ele acreditava, existia na Europa um movimento revolucionário de massas em ascensão. Que Trotski ignorasse tudo isso era um tributo à sua vontade revolucionária. Mas, politicamente, isto “descarrilharia” e desorientaria os seus seguidores quando, após a sua morte, uma real explosão passou por eles - o que era inevitável dado o seu isolamento - e lhes tornaria muito mais difícil desenvolverem uma orientação revolucionária realista.

Havia um elemento de quase-messianismo nas concepções de Trotski neste momento. Em uma situação desesperadamente difícil, com o fascismo em ascensão, derrotas sucessivas do movimento operário e uma nova guerra mundial iminente, a bandeira da revolução tinha que ser levantada, o programa do comunismo reafirmada, até que a própria revolução transformasse a situação.

Talvez teria sido impossível unir os seus seguidores sem algo desta perspectiva que, nesse caso, seria então um desvio necessário da sua visão madura. Mas o preço a ser pago posteriormente foi real.

Notas

1.   I. Deutscher, The Prophet Armed (O Profeta Armado), London : Oxford University Press 1954, p45.

2.   1903: Second Congress of the Russian Social-Democratic Labour Party, London New Park p.204.

3.   Trotsky, “Our political tasks”, in R.V. Daniels (ed.), A Documentary History of Communism, New York: Vintage 1962, Vol. I, p.31.

4.   Ver Schurer, “The Permanent Rcvolution”, in Labedz (ed.) Revisionism, London: Allen & Unwin 1962, p.73. Minha ênfase.

5.   Ibid. p.74.

6.   Ver T. Cliff, Lenin, London : Pluto Press 1976, Vol.1, pp.168-179, Vol.2, pp.97-139.

7.   Trotsky, “What next?”, The Struggle Against Fascism in Germany, New York Pathfinder Press 1971, p.163, Ênfase no original.

8.   Ibid. pp.163-64.

9.   Ibid. p. 159.

10. Trotsky, “Manifesto of the Communist International to the workers of the world”, The First Five Years of the Communist International, New York:  Pioneer Vol. 1 p 29.

11. Trotsky, “What next?” op. cit p.254.

12. Trotsky, “The Spanish revolution and the danger threatening it” The Spanish Revolution (1931-39) New York: Pathfinder Press 1973, p.133.

13. Trotsky “The groupings in the communist opposition”, Writings of Leon Trotsky 1929, New York Pathfinder Press 1975, p.81.

14. Trotsky, “The international left opposition its tasks and methods”, Writings of Leon Trotsky 1932-33, New York Pathfinder Press 1972, p.56.

15. Trotsky, History of the Russian Revolution, London : Sphere 1977, Vol.1, p306.

16. Trotsky, “The evolution of the Comintern”, Documents of the Fourth International, New York: Pathfinder Press 1973, Vol.1, p.128.

17. Trotsky, “Thermidor and Bonapartism”, Writings of Leon Trotsky 1930-31, New York Pathfinder Press 1973, p 75.

18. Trotsky, “For a workers” united front against fascism”, Ihe Struggle Against Fascism in Germany, op cit. p.134. Ênfase no original.

19. Trotsky, “Germany: key to the international situation”, The Struggle Against Fascism in Germany, op cit. pp.121-22.

20. Trotsky, “The Stalin bureaucracy in straits”, Writings of Leon Trotsky 1932, New York, Pathfinder Press 1973, p.125.

21. Trotsky, “To the editorial board of Prometeo”, Writings of Leon Trotsky 1930, New York Pathfinder Press 1975, pp 285-286.

22. T. Cliff, Lenin, London: Pluto Press 1976, Vol.2, p.12.

23. J. van Heijenoort, With Trotsky in exile, Boston: Harvard University Press 1978 p 38.

24. Trotsky, “Lessons of the SFIO entry”, Writings of Leon Trotsky 1935-36, New York Pathfinder Press 1970, p.31.

25. Trotsky, “It is time to stop”, Writings of Leon Trotsky 1933-34, New York: Pathfinder Press 1972, pp.90-91.

26. Trotsky, “Centrist alchemy or marxism”, Writings of Leon Trotsky 1934-35, New York: Pathfinder Press 1971, p.274.

27. Trotsky, “A great achievement”, Writings Qf Leon Trotsky 1937-38, New York: Pathfinder Press 1976, p.439.

5. O Legado

A essência da tragédia, Trotski escreveu uma vez, é o contraste entre grandes objetivos e meios insignificantes. Independente do que possa ser dito sobre esta generalização, ela certamente resume a própria situação de Trotski durante os seus últimos anos de vida. O homem que organizara a insurreição de outubro, dirigido as operações do Exército Vermelho, que havia lidado - como amigo ou adversário - com partidos operários de massa (revolucionários e reformistas) pela Comintern, estava reduzido à luta para manter unido um punhado de grupos minúsculos espalhados por toda parte, praticamente todos eles impotentes para afetar o curso dos acontecimentos, mesmo que marginalmente.

Ele foi forçado a intervir repetidas vezes em centenas de disputas insignificantes entre meia dúzia de pequenos grupos. Algumas das disputas envolviam, é claro, assuntos sérios de princípio político, mas até mesmo estes, como o próprio Trotski viu claramente, estavam arraigados no isolamento dos grupos em relação ao movimento operário real e a influência do ambiente pequeno-burguês - porque esse era o ambiente ao qual eles haviam sido forçados e ao qual tantos deles se adaptaram.

Não obstante, ele lutou até o fim. Inevitavelmente, o seu isolamento forçado e o impedimento de uma participação efetiva no movimento operário, no qual ele havia desempenhado um papel tão importante, afetou até certo ponto a sua compreensão do curso da luta de classes em constante mudança. Nem mesmo a sua vasta experiência e seus magníficos reflexos táticos poderiam substituir completamente a falta de um feedback dos militantes empenhados nas lutas do dia a dia, o que só é possível em um verdadeiro partido comunista. À medida em que o período de isolamento se prolongava, isto ficou mais aparente. Compare-se o seu “Programa de Transição” de 1938 com o seu protótipo, o “Programa de Ação” para a França (1934). Em matéria de frescor, relevância, especificidade e concreticidade em relação a uma luta real, o “Programa” de 1934 é claramente superior.

Certamente isto não se deve a qualquer “falha” intelectual. Alguns dos últimos escritos inacabados de Trotski, como o Sindicatos na época de decadência imperialista, são contribuições marcantes ao pensamento marxista. Deve-se mais à falta de um contato íntimo com um número significativo de militantes ocupados na luta de classes real.

Entretanto, quando Trotski foi assassinado em agosto de 1940 pelo agente de Stalin, Jacson-Mercader, ele deixou um movimento. Sejam quais forem as debilidades e defeitos daquele movimento, e eram muitos, era uma enorme realização. O crescimento do stalinismo e o triunfo do fascismo na maior parte da Europa, quase obliteraram a tradição comunista autêntica no movimento operário. A ação destrutiva do fascismo foi direta: esmagou as organizações dos trabalhadores aonde quer que tenha ascendido ao poder. Dentro da URSS o stalinismo fez a mesma coisa, através de métodos diferentes. Fora da URSS o stalinismo corrompeu e depois efetivamente estrangulou a tradição revolucionária enquanto movimento de massas.

É difícil hoje ter noção da força de que dispunha a torrente de calúnias e difamações à qual Trotski e seus seguidores foram submetidos nos ano trinta. Todos os recursos de propaganda da URSS e dos partidos da Comintern estiveram dedicados a denunciar os “trotskistas” como agentes de Hitler, do Imperador japonês e de toda a espécie de reação. O assassinato dos velhos quadros bolcheviques na URSS (alguns após “processos-show” espetaculares, a maioria por assassinato sem qualquer julgamento) foi representado como um triunfo para as forças de “socialismo e da paz”, como dizia o slogan stalinista daquele tempo.

“Todos os traidores fracos, corruptos ou ambiciosos do socialismo dentro da União Soviética foram contratados para fazer o trabalho sujo do capitalismo e do fascismo”, declarou o Relatório do CC ao 15º Congresso do Partido Comunista de Grã-Bretanha em 1938.

“À frente de toda destruição, sabotagem e assassinatos, está o agente fascista Trotski. Mas as defesas do povo soviético são fortes. Sob a liderança do nosso camarada bolchevique Yezhov, os espiões e destruidores estiveram expostos diante do mundo e trazidos a julgamento.”1

Yezhov, que subira ao poder no assassinato judicial de seu predecessor Yagoda, foi o chefe da polícia que presidiu o massacre dos comunistas e de muitos, muitos outros na URSS entre 1937-38, na plenitude do terror stalinista.

A linha oficial, pronunciada pelo próprio Stalin, era que “trotskismo é a ponta-de-lança da burguesia contra-revolucionária em guerra contra o comunismo”.2 Essa campanha massiva de mentiras, ajudada por numerosos “liberais” e “companheiros de viagem” social-democratas que foram atraídos aos PCs depois de 1935, foi mantida por mais de vinte anos. Serviu para inocular os militantes dos PCs contra as críticas marxistas do stalinismo. De igual importância para as pequenas organizações revolucionárias daquele tempo, foi a desmoralização generalizada causada pelo colapso das Frentes Populares e a aproximação da Segunda Guerra Mundial.

Trotski expressou esse fato vividamente em uma discussão na primavera de 1939:

“Nós não estamos progredindo politicamente. Sim, isto é um fato, o qual é uma expressão da decadência geral do movimento operário nos últimos quinze anos. Esta é a causa mais importante. Quando o movimento revolucionário em geral está em declínio, quando uma derrota se segue a outra, quando o fascismo está se disseminado pelo mundo, quando o “marxismo” oficial é a mais poderosa organização para enganar os trabalhadores, e assim por diante, é inevitável uma situação na qual os elementos revolucionários se vêem obrigados a trabalhar contra a corrente histórica geral. Mesmo que as nossas idéias, nossas explicações, sejam tão exatas e sábias quanto se possa esperar. Mas as massas não são educadas por prognósticos, mas pela experiência geral de suas vidas. Esta é a explicação mais geral - a situação como um todo está contra nós.” 3

O pequeno movimento da Quarta Internacional, que sobreviveu a estas condições glaciais sob inspiração e direção de Trotski, estava mais atemorizado politicamente pela experiência do que a aparência imediata. Sofreu, subseqüentemente, mutações adicionais. Não obstante, era a única corrente autenticamente comunista de alguma importância a sobreviver essa idade glacial.

Perspectiva mundial 1938-40

No centro da visão de Trotski sobre o mundo, nos seus últimos anos de vida, estava a convicção que o sistema capitalista estava próximo ao seu último suspiro .

“A condição econômica necessária para a revolução proletária já alcançou, no geral, o mais alto grau de matura”“cão possível sob o capitalismo. As forças produtivas da humanidade deixaram de crescer. As novas invenções e os novos progressos já não conduzem a um crescimento da riqueza material”, escreveu no seu Programa de 1938.

“Sob as condições da crise social de todo o sistema capitalista, as crises conjunturais sobrecarregam as massas com privações e sofrimentos cada vez maiores. O crescimento do desemprego aprofunda, por sua vez, a crise financeira do Estado e enfraquece os sistemas monetários instáveis. Os governos, tanto democráticos quanto fascistas, vão de uma bancarrota a outra.”4

De fato, esta seria uma boa descrição do estado em que a maior parte da economia mundial se encontrava naquela ocasião. Como foi dito, Trotski estava profundamente impressionado pelo contraste entre esta estagnação e o crescimento industrial rápido da URSS (havia outras exceções importantes também, os quais Trotski não considerou: a produção industrial no Japão dobrou entre 1927 e 1936 e continuou a crescer, e na Alemanha de Hitler o desemprego praticamente desapareceu no esforço para o rearmamento).

Mas Trotski estava ocupado com algo mais do que uma descrição da conjuntura mundial. Ele acreditava que a situação para o capitalismo era irreparável. “A desintegração do capitalismo alcançou limites extremos, e da mesma forma a desintegração da velha classe dominante. A existência prolongada deste sistema é impossível”,5 escreveu Trotski em 1939.

Sendo assim, os partidos operários reformistas não podiam conquistar ganhos aos seus partidários:

“Quando não há mais lugar para reformas sociais sistemáticas nem para a elevação do nível de vida das massas; quando cada reivindicação séria do proletariado, e até mesmo cada reivindicação séria da pequena burguesia, conduzem, inevitavelmente, para além dos limites da propriedade capitalista e do Estado burguês” 6, como expôs o Programa de 1938.

Mas isso não significava que os partidos de massa reformistas desapareceriam automaticamente - a inércia histórica e a falta de uma alternativa óbvia os preservariam por algum tempo. Mas eles já não tinham nenhuma base relativamente segura. Haviam sido desestabilizados. O choque da guerra e o da crise pós-guerra os destruiria.

Estas partidos, pensava Trotski, incluíam os Partidos Comunistas.

“A passagem definitiva da Comintern para o lado da ordem burguesa, o seu papel cinicamente contra-revolucionário pelo mundo afora, particularmente na Espanha, França, nos Estados Unidos e outros “países democráticos”, criou dificuldades suplementares excepcionais para o proletariado mundial. Sob a bandeira da Revolução de outubro, as políticas conciliatórias praticadas pela “Frente Popular” condenam a classe operária à impotência.”7

Ele havia sustentado desde 1935 que “já nada mais distingue os comunistas dos social-democratas, exceto a fraseologia tradicional, a qual não é difícil desaprender”8.

A realidade, entretanto, se mostraria mais complexa, um fato que acabou por precipitar o movimento da Quarta Internacional numa crise fundamental. Trotski apontava uma tendência real, mas a escala de tempo do seu desenvolvimento era muito mais longa do que ele pensava. Após o pacto Hitler-Stalin (agosto de 1939), os partidos da Comintern permaneceram leais a Moscou e durante a “Guerra Fria”, de 1948 em diante, eles não capitularam simplesmente “às suas burguesias”. As suas políticas não eram revolucionárias, mas nem eram simplesmente reformistas, no sentido mais ordinário. Eles retiveram, durante quase vinte anos, uma orientação de “esquerda” em relação ao Estado burguês (consolidada pela sua exclusão sistemática do poder na França, Itália e em outras partes depois de 1947), o que tornou extremamente difícil a criação de uma alternativa revolucionária, mesmo que outros fatores tivessem sido mais favoráveis.

E num caso importante, a China, e em outros menos importantes (entre eles a Albânia, Iugoslávia e Vietnã do Norte), os partidos stalinistas na verdade até mesmo destruíram Estados burgueses fracos e os substituíram por regimes moldados no padrão russo. Particularmente, a revolução chinesa de 1948-49 pôs em questão a análise trotskista clássica do papel dos partidos stalinistas, e especificamente, nos países atrasados. Pois se fosse considerada uma revolução proletária, a base da existência da Quarta Internacional - a natureza essencialmente contra-revolucionária do stalinismo - teria sido destruída. Por outro lado, se fosse, em alguma sentido, uma revolução burguesa - uma “Nova Democracia” como Mao Tse-Tung reivindicou na ocasião - a teoria de Revolução Permanente estaria posta em questão. Estes aspectos serão considerados mais adiante. O que é pertinente aqui é que a ocorrência da revolução, qualquer que seja a visão acerca de sua natureza, renovou a imagem revolucionária do stalinismo por muito tempo.

Mas o equívoco mais importante de Trotski naquele momento foi considerar que não havia saída econômica para o capitalismo, mesmo se a revolução proletária fosse evitada. Que esta era sua convicção, é algo inquestionável.

“Se, entretanto, admitirmos”, escreveu no final de 1939, “que a guerra atual provocará não a revolução, mas sim um declínio do proletariado, então resta uma outra alternativa: o avanço da decadência do capitalismo monopolista, sua maior fusão com o Estado e a substituição da democracia, onde quer que ainda permanecesse, por um regime totalitário. A incapacidade do proletariado em tomar em suas mãos a direção da sociedade poderia conduzir, de fato, sob estas condições, ao crescimento de uma nova classe exploradora a partir da burocracia bonapartista fascista. Isto seria, de acordo com todas as indicações, um regime de declínio, sinalizando a eclipse da civilização.”9

Talvez, se pressionado, Trotski admitisse que um certo renascimento econômico temporário fosse possível numa base cíclica. Ele havia percebido rapidamente a recuperação limitada do capitalismo europeu em 1920-21 (e extraiu conclusões políticas desse fato) e também havia apontado uma certa recuperação do abismo de 1929-31 no começo dos anos trinta. Mas ele excluiu completamente a possibilidade de uma recuperação econômica prolongada, como a que havia trazido à luz o reformismo enquanto força de massas nas décadas anteriores à Primeira Guerra Mundial.

Sua visão era comum a toda a esquerda naquele momento. Entretanto, já existia a evidência de que a produção de armas em larga escala podia produzir um crescimento econômico global - crescimento que não se limitava ao setor de armas da economia. Claro que esta evidência se relacionava diretamente com os preparativos para a Segunda Guerra Mundial. Mas suponhamos que os preparativos para a guerra pudessem se tornar permanentes ou semi-permanentes?

De fato, após a Segunda guerra mundial, O capitalismo experimentou um renascimento massivo. Longe de contração econômica e declínio dominantes, houve uma expansão econômica até maior do que a verificada durante a “fase imperialista clássica” antes de 1914. Como Michael Kidron afirmou em 1968, “o sistema como um todo nunca cresceu tão rapidamente e por um período tão longo como depois da Guerra - duas vezes mais rápido entre 1950 e 1964 do que entre 1913 e 1950, e quase a metade da velocidade verificada na geração anterior.”10

O reformismo recebeu um novo sopro de vida nos países capitalistas desenvolvidos, à base de um padrão de vida ascendente para a massa da classe trabalhadora. O fato de que a massiva recuperação econômica, o longo boom dos anos 50 e 60, se devia principalmente aos gastos estatais, aumentados em larga escala (em particular os gastos armamentistas), tem sido questionado, mesmo de modo implausível, tanto por analistas reformistas quanto marxistas. O que não pode ser questionado é o fato de que o prognóstico de Trotski estava bastante equivocado. Pois as conseqüências políticas do boom negaram a previsão de que as alternativas imediatas eram ou a revolução proletária ou uma ditadura bonapartista fascista presidindo sobre a “eclipse da civilização”. Pelo contrário, a democracia burguesa e o predomínio reformista no movimento operário se tornaram novamente a norma na maioria dos países desenvolvidos.

Uma condição indispensável para este desenvolvimento foi a sobrevivência de regimes burgueses nas grandes revoltas de 1944-45, quando os Estados fascistas estavam sendo desmantelados pela combinação do poder militar aliado e uma maré ascendente de revolta popular. Na maioria dos países europeus os partidos social-democratas e comunistas cresceram rapidamente nesta fase crítica, para desempenharem um papel contra-revolucionário (tanto na Europa oriental quanto ocidental) e um papel decisivamente contra-revolucionário na França e Itália.

Trotski havia dado como certos, tanto o renascimento, nas primeiras fases de revolta, dos partidos operários estabelecidos (os seus escritos sobre a revolução russa bastam para colocar isto fora de dúvida), quanto a sua política contra-revolucionária. Mas porque a sua perspectiva reconhecia a catástrofe econômica, a pauperização em massa e o surgimento de regimes estatais totalitários, como sendo as únicas alternativas para a revolução proletária a curto prazo, ele acreditava que esse renascimento do reformismo duraria muito pouco tempo - uma espécie de intervalo, como o foi o governo de Kerensky.

É por isto que ele escreveu com tanta confiança, no final de 1938:

“Nos próximos dez anos o Programa da Quarta Internacional se tornará o guia de milhões, e estes milhões de revolucionários saberão tomar de assalto terra e céus.”11

Esse tom de expectativa messiânica, induzido por tais afirmações, fez com que os seguidores de Trotski tivessem extrema dificuldade em realizar avaliações sóbrias e realistas das mudanças reais na consciência da classe trabalhadora, das alterações na correlação de forças entre as classes e, assim, extrair o máximo proveito dessas situações através de táticas adequadas (a essência da prática política leninista).

Aqui deve ser mencionada a ênfase dada por Trotski à importância das “reivindicações transitórias”, às quais se deve o seu nome popular, “Programa de Transição”, como ficou conhecido o Programa de 1938.

“É necessário”, escreveu Trotski, “no processo das lutas cotidianas, ajudar as massas a encontrarem a ponte entre suas reivindicações atuais e o programa socialista da revolução. Esta ponte deve incluir um sistema de reivindicações transitórias, que parta das condições atuais e da consciência atual de largas camadas da classe operária e conduza, invariavelmente, a uma só e mesma conclusão: a conquista de poder pelo proletariado.”12

Se é ou não possível encontrar “palavras de ordem” ou reivindicações que preencham estas especificações exatas, vai depender obviamente das circunstâncias. Se em um determinado momento “a consciência atual de largas camadas” decididamente não é revolucionária, então ela não será transformada através de “palavras de ordem”. São necessárias mudanças nas condições reais. O problema é, a cada estágio, encontrar e levar adiante bandeiras que não só encontrem eco em pelo menos algumas seções da classe trabalhadora (o ideal, é claro, seria em toda a classe), mas que também sejam capazes de conduzir classe trabalhadora à ação. Freqüentemente eles não serão transitórias, nos termos da definição restrita de Trotski.

É claro que Trotski não pode ser considerado responsável pela tendência, na maior parte dos seus seguidores, de transformar em fetiche não só a noção de reivindicações transitórias, mas até mesmo as reivindicações específicas do Programa de 1938 - principalmente a “escala móvel de salários”. A ênfase dada por ele a esta matéria foi, porém, excessiva e encorajou a convicção de que as “reivindicações” tenham valor independentemente da organização revolucionária da classe trabalhadora.

A URSS, o stalinismo, a guerra e as conseqüências

A Segunda Guerra Mundial começou com o ataque alemão à Polônia, o que foi rapidamente seguido pela divisão dos territórios do Estado polonês entre Hitler e Stalin. Durante quase dois anos (do verão de 1939 ao verão de 1941) Hitler e Stalin foram aliados, e nesse período, o regime de Stalin foi capaz de anexar os estados Bálticos, a Bessarábia e Bukovina, assim como a Ucrânia Ocidental e a Bielorússia Ocidental.

De 1935 até então, a política externa de Stalin havia sido dirigida no sentido de alcançar uma aliança militar com a França e Inglaterra contra Hitler. A política da Frente Popular da Comintern era o seu complemento. Com o pacto Hitler-Stalin, os Partidos Comunistas adotaram uma posição “anti-guerra”, cujo conteúdo real era tudo menos revolucionário, até o ataque de Hitler à URSS (o que os levou a se tornaram superpatrióticos nos “países aliados”).

O pacto Hitler-Stalin e a partição da Polônia produziram uma repulsa contra a URSS nos círculos de esquerda situados fora dos Partidos Comunistas (e um bom número de deserções também), e teve impacto também nos agrupamentos trotskistas. No maior deles, o Socialist Workers’Party (SWP) norte-americano, uma oposição começou a questionar o slogan de Trotski de “defesa incondicional da URSS contra o imperialismo”, o qual era conseqüência de sua definição da URSS enquanto um “Estado Operário degenerado”. Logo, o questionamento se estenderia também a esta definição.

No curso do debate que se seguiu, Trotski a sua análise do stalinismo cedeu a URSS seu desenvolvimento final e considerou - para rejeitar - posições alternativas. Ele escreveu em setembro de 1939:

“Comecemos por colocar o problema da natureza do Estado soviético, não em um nível sociológico abstrato, mas no plano das tarefas políticas concretas. Admitamos por um momento que a burocracia é uma nova “classe”, e que o regime atual na URSS é um sistema especial de exploração de classe. Que conclusões políticas novas podemos extrair dessas definições? A Quarta Internacional há muito tempo reconheceu a necessidade de derrubar a burocracia através de uma insurreição revolucionária dos trabalhadores. Nada mais é proposto ou pode ser proposto por esses que proclamam que a burocracia é uma “classe” exploradora. A meta a ser atingida pela derrubada da burocracia é o restabelecimento do domínio dos soviets, expulsando deles a burocracia atual. Nada diferente é proposto ou pode ser proposto pelos críticos de esquerda. É a tarefa dos soviets regenerados colaborar com a revolução mundial e a construção de uma sociedade socialista. A derrubada da burocracia, portanto, pressupõe a preservação da propriedade estatal e da economia planificada(…) Na medida em que a questão da derrubada da oligarquia parasitária ainda permanece ligada com a preservação propriedade nacionalizada (estatal), nós chamamos a revolução futura de revolução política. Alguns dos nossos críticos (Ciliga, Bruno e outros) querem, a qualquer preço, chamá-la de revolução social. Admitamos esta definição. O que altera em essência? Isto não modifica em nada as tarefas da revolução que nós estamos discutindo. 13

À primeira vista, este é um argumento muito forte. Mas e a respeito da defesa da URSS?

“A defesa da URSS coincide para nós com a preparação de revolução mundial. Somente são admissíveis aqueles métodos que não entrem em conflito com os interesses da revolução. A defesa da URSS está relacionada à revolução socialista mundial, assim como uma tarefa tática está relacionada a uma estratégia. Uma tática está subordinada a um fim estratégico e de forma nenhuma pode estar em contradição com este último.”14

Mas se as exigências da operação tática entrarem, de fato, em conflito com o objetivo estratégico (como acreditavam os críticos de esquerda de Trotski), então a tática - a defesa da URSS - deve ser sacrificada. Nesta base, aparentemente, os críticos de Trotski (isto é, aqueles que se consideravam revolucionários) poderiam facilmente concordar em divergir de sua terminologia. Por quê dividir por causa de simples palavras?

Na realidade, acreditava Trotski, havia muito mais em jogo. Se a burocracia realmente constituísse uma classe e a URSS uma nova forma de sociedade exploradora, então, não se poderia considerar que a Rússia stalinista era o produto altamente excepcional de circunstâncias únicas, nem poderia se afirmar que ela estaria condenada a desaparecer em breve, tal como ele acreditava.

Tampouco se podia abandonar esta questão neste ponto. Trotski chamou a atenção para uma visão que estava “no ar”, por assim dizer, no final dos anos trinta, a de que a “burocratização” e a “estatização” estavam crescendo em todos lugares, e indicavam a forma da sociedade vindoura - o “estatismo” totalitário, o qual ele próprio esperava que se desenvolvesse, a menos que a revolução proletária se seguisse à guerra. O romance “1984” de Orwell (publicado em 1944) expressava esse temor. Assim, esta questão foi confundida com “a perspectiva histórica mundial para as próximas décadas, se não séculos: Nós entramos na época de revolução social e da sociedade socialista ou, ao contrário, na época da sociedade decadente de burocracia totalitária?”15

As alternativas foram colocadas de modo falso. As previsões de A Burocratização do Mundo (o título do livro de Bruno Rizzi citado por Trotski) eram impressionistas, não o produto de uma análise. Tampouco se podia concluir que se a URSS realmente fosse uma sociedade exploradora no sentido marxista (e era a respeito disso que tratavam os argumentos aparentemente escolásticos de se a burocracia era uma “classe” ou uma “casta” - termo de Trotski), ela seria uma sociedade exploradora de tipo fundamentalmente novo.

Mas, supondo que fosse uma forma de capitalismo. Nesse caso, todos os argumentos sobre a “perspectiva histórica mundial” caem por terra. Trotski, é claro, era familiarizado com o conceito de capitalismo de Estado. Na Revolução Traída ele escreveu:

“Teoricamente é possível conceber uma situação na qual a burguesia como um todo se constitui numa sociedade anônima que, por meio de seu estado, administra toda a economia nacional. As leis econômicas de um tal regime não apresentariam nenhum mistério. Um único capitalista, como é bem conhecido, recebe na forma de lucro, não aquela parte da mais-valia que é criada pelos trabalhadores da sua própria empresa, mas uma parte da mais-valia combinada criada em todo o país, proporcional ao tamanho de seu próprio capital. Sob um “capitalismo de Estado” integral, essa lei da taxa de lucro igual seria percebida, não através de rotas desviadas - isto é, pela competição entre capitais diferentes - mas imediata e diretamente através da contabilidade estatal. Tal regime, porém, nunca existiu e, por causa das profundas contradições entre os seus proprietários, nunca existirá - ainda mais porque, em sua qualidade de depositário universal da propriedade capitalista, o Estado seria um objeto por demais tentador à revolução social.”16

Embora Trotski pensasse que um sistema de capitalismo de Estado “integral” (quer dizer, total) fosse teoricamente possível, tal sistema não viria a existir. Mas suponha uma burguesia que tenha sido destruída por uma revolução e o proletariado - devido a sua fraqueza numérica e cultural - falha em tomar o poder, ou depois de o ter tomado, falha em mantê-lo. Uma burocracia, que emerge como uma camada privilegiada (como Trotski havia descrito graficamente o caso da burocracia de Stalin na URSS), torna-se o senhor do Estado e da economia. Qual seria, na realidade, o seu papel econômico? Não seria uma classe capitalista “substituta”? Não se pode argumentar que ela não é capitalista porque controla toda a economia nacional. Trotski havia admitido que, a princípio, uma burguesia estatal poderia ocupar tal posição. A única objeção séria que poderia ser apresentada, na análise de Trotski, é a de que “a burocracia não possui nem ações nem títulos de obrigação”.

Dois pontos têm que ser discutidos nesta conexão: primeiro, de menor importância, deve ser dito que simplesmente isso não é verdade - qualquer um pode comprar vários tipos de títulos estatais na URSS, os quais rendem juros e podem ser herdados mediante o pagamento de um modesto imposto de herança (muito abaixo que os impostos correspondentes no Ocidente, do mesmo modo que também os mais altos impostos de renda são muito mais baixos na URSS do que nos países capitalistas do Ocidente). Segundo, este mais importante, de um ponto de vista marxista, o consumo do capitalista individual é, como o próprio Marx afirmava, um “roubo perpetrado contra a acumulação”. Isto quer dizer, é um dreno de recursos que poderiam, caso contrário, ter ido para acumulação, e isto ainda não é certamente a consideração principal. A consideração principal é saber quem controla o processo de acumulação.

Retornando à questão em 1939, Trotski escreveu:

“Rejeitamos, e seguimos rejeitando este termo (capitalismo de Estado) o qual, enquanto caracteriza corretamente certos traços do Estado soviético, no entanto ignora a sua diferença fundamental em relação aos Estados capitalistas, isto é, a ausência de uma burguesia enquanto uma classe de proprietários, a existência da forma estatal de propriedade dos meios de produção mais importantes e, finalmente, a economia planificada tornada possível pela revolução de outubro.”17

Constantemente Trotski analisou a sociedade stalinista do ponto de vista da forma de propriedade, e não das relações sociais de produção concretas - embora ele tenha usado freqüentemente este termo e, na realidade, os tenha tratado como idênticos. Mas eles não são idênticos.

Numa crítica a Proudhon, Marx explicara:

“Desta forma, definir a propriedade burguesa não é nada menos que realizar uma exposição da totalidade das relações sociais da produção burguesa. Tentar definir a propriedade como se fosse uma relação independente, uma categoria separada - ou seja, uma idéia eterna e abstrata - não é nada mais do que uma ilusão da metafísica ou jurisprudência.” 18

E desta mesma forma se deve analisar a URSS. A forma de propriedade (neste caso propriedade estatal) não pode ser considerada independentemente das relações sociais de produção. A relação de produção predominante na URSS (especialmente após a industrialização) era (e é ainda) a relação trabalho assalariado/capital, característica do capitalismo. O trabalhador na URSS vende uma mercadoria, força de trabalho, da mesma maneira que um trabalhador nos EUA. Ele não é pago com rações, como um escravo, tampouco com uma parte do sobreproduto, como se fosse um servo, mas em dinheiro, o qual é gasto em mercadorias, bens produzidos para a venda.

Trabalho assalariado implica capital. Não há nenhuma burguesia na URSS. Mas há certamente capital - tal como foi definido por Marx. Capital, é quase desnecessário dizer, não consiste, para um marxista, em maquinaria, matérias-primas, créditos e assim por diante. Capital é “uma força social independente, isto é, força de uma parte da sociedade, através de sua troca pela força de trabalho imediata, viva. A existência de uma classe que possui apenas sua capacidade de trabalho é uma condição preliminar necessária ao capital. É exclusivamente o domínio, vivo, que transforma o trabalho acumulado em capital.”19 Tal situação não existe certamente na URSS.

Para Marx, a burguesia era a “personificação do capital”. Na URSS a burocracia cumpre esta função. Este último ponto foi negado diretamente por Trotski. Para ele, a burocracia era simplesmente “um gendarme” no processo de distribuição, determinando quem recebe o que e quando. Mas isto é inseparável da direção do processo de acumulação de capital. A sugestão, de que a burocracia não dirige o processo de acumulação, isso é, que não age como a “personificação” do capital, não resiste a qualquer exame. Se não é a burocracia, então quem dirige? Certamente não a classe operária.

O último ponto ilustra exatamente a distinção essencial entre uma sociedade transitória genuína (o Estado operário, ditadura do proletariado), na qual o trabalhador assalariado inevitavelmente persistirá por algum tempo, e qualquer forma de capitalismo. O controle coletivo da classe trabalhadora sobre a economia modifica (e eventualmente elimina) a relação trabalho assalariado/capital. Tire-se esse controle e, numa sociedade industrial, o poder do capital é restabelecido. O conceito de Estado operário é sem sentido sem algum grau de controle dos trabalhadores sobre a sociedade.

Claro que se a sociedade da URSS for descrita como uma forma de capitalismo de Estado, deve se admitir que é uma sociedade capitalista altamente peculiar - embora seja incomparavelmente mais próxima das normas capitalistas do que de um Estado operário, degenerado ou não. Uma discussão das peculiaridades e da dinâmica da URSS não cabe aqui. Sem dúvida, a melhor análise será encontrada na obra de Tony Cliff, O Capitalismo de Estado na Rússia Stalinista.20 O que é relevante é a falha de Trotski em examinar as relações de produção concretas na URSS e suas conseqüências. A sua visão final era:

“Um regime totalitário, seja do tipo stalinista ou fascista, por sua própria essência, só pode ser um regime transitório, temporário. Na história, a ditadura pura geralmente foi produto e o sinal de uma crise social especialmente séria, e de forma alguma, de um regime estável. As crises agudas não podem ser uma condição permanente da sociedade. Um Estado totalitário é capaz de suprimir as contradições sociais durante um certo período, mas é incapaz de se perpetuar. As purgas monstruosas na URSS são testemunho muito convincente de que a sociedade soviética tende, organicamente, a recusar a burocracia(…) Sintoma da proximidade de sua agonia de mortal, pela extensão e fraudulência monstruosa de suas purgas, Stalin não nos testemunha outra coisa a não ser a incapacidade da burocracia para se transformar em uma classe dirigente estável. Não ficaremos em uma posição ridícula se justamente alguns anos antes ou alguns meses antes da queda desonrosa da oligarquia bonapartista, lhe dermos a denominação de nova classe dirigente?”21

Essa queda, recordemos, era esperada ou porque a burocracia, “se tornará mais e mais num órgão da burguesia mundial(…) e destruirá as novas formas de propriedade”, ou através de uma revolução proletária (ou, é claro, através de uma invasão estrangeira). E ela tinha de ser esperada no futuro próximo - em “alguns anos ou até mesmo alguns meses”.

Esta era a avaliação legada por Trotski aos seus seguidores e, da mesma forma que a sua perspectiva para o capitalismo ocidental, iria desorientá-los. Mas a existência de uma ala da burocracia desejosa de restaurar o capitalismo provou ser um mito, pelo menos em qualquer espaço de tempo relevante. (Esta convicção de Trotski estava em flagrante contradição com a sua própria visão da possibilidade de um estatismo totalitário nos países capitalistas desenvolvidos.)

A URSS emergiu da guerra mais forte do que antes (em relação a outras potências), com a burocracia firme no comando, sobre a base da indústria nacionalizada. Além disso, ela impôs regimes nas linhas do modelo russo na Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária, Alemanha Oriental e Coréia do norte. Como já foi dito, regimes stalinistas “nativos” subiram ao poder na Albânia, Iugoslávia e, um pouco mais tarde, na China e no Vietnã do Norte, sem uma intervenção direta significativa do exército russo. O stalinismo, evidentemente, não estava em sua “agonia mortal”, mas era, na ausência da revolução proletária, um meios alternativo de acumulação de capital ao capitalismo monopolista estatal “clássico”.

Revolução Permanente Desviada

A classe operária industrial não desempenhou nenhum papel na conquista do poder pelo Partido Comunista da China (PCCh) em 148-49. Os trabalhadores industriais tampouco desempenharam qualquer papel dentro do PCCh.

Tomemos primeiramente este último ponto. Ao passo que, em fins de 1925, os trabalhadores compunham mais de 66 por cento do PCCh (os camponeses formavam 5,0 por cento, o resto era composto por vários setores da pequena burguesia urbana, entre os quais os intelectuais eram proeminentes), em setembro de 1930 a proporção de trabalhadores, pelo próprios dados do PCCh, havia caído para 1,6 por cento. 22

A partir de então o número de operários no partido foi efetivamente zero, até depois das forças de Mao Tse-Tung terem conquistado a China.

Após a derrota da “Comuna de Cantão” ao término de 1927, o que restou do PCCh recuou para o campo e recorreu à guerra de guerrilhas. O camponês A “ República soviética de Kiangsi” foi estabelecida, com território flutuante na China central e, quando foi finalmente invadida pelas forças de Chiang Kai-Shek em 1934, o Exército Vermelho empreendeu a “longa marcha” para Shensi, no extremo noroeste. Esta operação heróica, levada a cabo numa situação extremamente adversa, levou o partido-exército (entre os quais ficava cada vez mais difícil distinguir) a uma área totalmente distante da vida urbana, da indústria moderna e da classe operária chinesa. Chu Teh, então o principal chefe militar, admitiu que “As regiões sob a direção dos comunistas são as mais atrasadas economicamente em todo o país(…)” 23 E esse país era a China, um dos países mais atrasados do mundo de então.

Foi aí que, por mais de dez anos, as forças de PCCh continuaram a sua luta pela sobrevivência contra os exércitos de Chiang Kai-Shek (embora fossem nominalmente aliados desde 1935) e os invasores japoneses. Uma máquina estatal foi construída nesse país camponês, nas linhas hierárquicas e autoritárias usuais, consistindo de intelectuais urbanos no topo e camponeses na base. O exército japonês controlaram todas as áreas com desenvolvimento industrial significativo de 1937 a 1945, a Manchúria (onde havia crescimento industrial) e as cidades litorâneas onde a indústria (e o proletariado) foi reduzida.

Com a rendição japonesa em 1945, as forças do Kuomintang (KMT) reocuparam a maioria da China com a ajuda dos EUA, mas o regime extremamente corrupto do KMT estava então já em um estado avançado de desintegração. Depois de tentativas de formar um governo nacional de coalizão KMT-PCCh terem fracassado, o PCCh derrotou o seu oponente desmoralizado e fragmentado através de meios puramente militares. O apoio e as massivas ajudas materiais e militares dos EUA ao KMT não alteraram o resultado. Unidades e divisões, e até corpos inteiros do exército, desertaram - freqüentemente até completos, com os seus generais.

A estratégia de Mao era encorajar essas transferências de lealdade e abafar qualquer ação independente por parte dos camponeses ou dos trabalhadores, mas especialmente destes últimos. O Partido Comunista estava completamente divorciado da classe operária. Antes da queda de Pequim, Lin Piao, o comandante do exército do PCCh na área, e mais tarde o herdeiro de Mao até cair em desgraça e morrer em 1971, emitiu uma proclamação apelando aos trabalhadores a não se revoltarem, mas para “manter a ordem e continuar nas suas ocupações atuais. Os funcionários do Kuomintang e o pessoal da polícia da cidade, município ou outro nível de instituição governamental(…) devem permanecer nos seus postos.” 24 Em janeiro de 1949 o general do KMT, a cargo da guarnição de Pequim, se rendeu. A “ordem” foi preservada. Um governador militar sucedeu ao outro.

O mesmo aconteceu quando as forças do PCCh se aproximaram o Rio de Yang-Tse e as grandes cidades da China central como Xangai e Hankow, que haviam sido os epicentros da revolução de 1925-26. Uma proclamação especial, emitida com as assinaturas de Mao Tse-Tung (chefe do governo) e Chu Teh (o comandante em chefe do exército), declarava que:

“os trabalhadores e empregados em todos os comércios continuarão a trabalhar, e todos os negócios continuarão funcionando normalmente(…) oficiais do Kuomintang(…) de diversos níveis. . . (e) o pessoal da polícia têm de permanecer nos seus postos e obedecer as ordens do Exército de Libertação do Povo e do Governo Popular.”25

Estranha revolução, com os “negócios funcionando normalmente”! E assim foi até o fim, a proclamação da “República Popular” em outubro de 1949. Por estas razões, muitos dos seguidores de Trotski, inclusive os líderes do SWP americano, negaram,por muitos anos após 1949, que qualquer mudança real tivesse acontecido.

Isto provou estar errado. Uma verdadeira transformação tinha acontecido. Mas de que tipo? Central à teoria da revolução permanente era a convicção de que a burguesia nos países atrasados era incapaz de conduzir uma revolução burguesa. Isso fora mais uma vez confirmado. Igualmente central era a convicção de que só a classe operária pudesse conduzir a massa de camponeses e a pequena burguesia urbana na revolução democrática, a qual se fundiria com a revolução socialista. Isso se provou falso. A classe operária chinesa, na ausência de qualquer movimento operário revolucionário de massas em qualquer outra parte do mundo, permaneceu passiva. Tampouco o campesinato chinês refutou a visão de Marx da sua incapacidade em desempenhar um papel político independente. 1949 não foi um movimento camponês.

Não obstante, uma revolução aconteceu. A China foi unificada. As potências imperialistas foram excluídas do solo chinês. A questão agrária, se não foi “solucionada”, foi, de qualquer forma, resolvida tanto quanto possível pela liquidação da propriedade dos senhores. Todos os traços essenciais, característicos da revolução burguesa (ou democrático), como o próprio Trotski os entendia, foram realizados, exceto a conquista de liberdade política, na qual o movimento operário poderia se desenvolver.

Essas mudanças foram feitas sob a direção de intelectuais que, em circunstâncias de um colapso social geral, haviam construído um exército camponês e conquistado através de meios militares um regime podre ao ponto de dissolução. Mais de 2.000 anos antes, a dinastia Han havia sido fundada em circunstâncias semelhantes, sob a liderança do fundador da dinastia que, como Mao, veio de uma família camponesa rica. Mas no meio do século 20, a sobrevivência do novo regime dependia da industrialização. O stalinismo chinês teve suas raízes nesta necessidade. Foi um desenvolvimento não previsto por Trotski. Em si, isto não é nem surpreendente nem importante. Mas, tomado em conjunto com os outros resultados inesperados, iria ter um efeito significativo no futuro do movimento trotskista.

Aqui só o consideramos o caso chinês - por causa de sua importância enorme - mas, pouco antes, a Iugoslávia e a Albânia e, depois, Vietnã do Norte e Cuba, mostraram certo traços semelhantes. O termo “revolução permanente desviada” foi introduzido por Tony Cliff para descrever o fenômeno26, tão diferente da teoria da revolução permanente tal como Trotski a compreendia.

Trotskismo depois de Trotski

Os dilemas políticos enfrentados pelos seguidores de Trotski nos anos seguintes à sua da morte são relevantes aqui por duas razões: primeiro, porque o próprio Trotski acreditava na importância suprema da Quarta Internacional, segundo, por terem lançado luz na vitalidade e nas debilidades das suas idéias.

O internacionalismo revolucionário intransigente de Trotski encorajou seus seguidores a resistirem a uma acomodação com o imperialismo “democrático” do campo aliado durante o Segunda Guerra Mundial, a despeito da enorme pressão (inclusive a pressão da massa esmagadora da classe operária, e da maioria de seus melhores e mais combativos elementos). Eles realmente nadaram “contra a correnteza” e emergiram altivos, apesar das perseguições, prisões (nos EUA e na Inglaterra, para não mencionar os países ocupados pelos nazi-fascistas) e execuções que eliminaram um número significativo de ativistas trotskistas na Europa.

Eles preservaram a tradição, apesar de todas as adversidades, conquistaram novos membros e, em alguns casos pelo menos, assumiram uma composição mais operária (isto se aplica principalmente aos americanos e britânicos). Eles foram inspirados e fortalecidos pela visão de uma revolução proletária num futuro próximo. Assim, o principal grupo britânico publicou um folheto em 1944, (o seu documento de 1942 sobre as futuras perspectivas) com o título “Preparando-se para o Poder”! Nessa época não havia mais do que duzentos ou trezentos deles… Essa magnífica indiferença pelas dificuldades imediatas e aparentemente insuperáveis, combinada a uma fé inabalável no futuro, foram diretamente inspiradas pelas idéias de Trotski. Era típico dos seguidores de Trotski em toda parte.

Infelizmente, havia o outro lado da moeda: uma crença ao pé da letra na exatidão detalhada da perspectiva mundial apresentada por Trotski em 1938-40, e das suas previsões. Dois elementos distintos haviam sido fundidos: o internacionalismo revolucionário com fé no triunfo último do socialismo, e as avaliações específicas das perspectivas do capitalismo e do stalinismo. Conseqüentemente, a atenção às realidades em constante mudança se tornou, aos olhos de alguns dos seguidores mais “ortodoxos” de Trotski, quase sinônimo de “revisionismo”. Por vários anos após 1945 o movimento ficou preso, em sua maioria, no “entalhe de 1938”.

Quando adveio a crise do movimento trotskista, várias correntes diferentes emergiram, algumas preservando bem mais elementos da autêntica tradição comunista, outras bem menos. A sua maior debilidade foi a incapacidade da maioria de resistir completamente à atração gravitacional do stalinismo e, um pouco depois, nos anos 50 e 60, do terceiro-mundismo. Isto, por seu lado, os afastou de se concentrarem de forma sustentada e aplicada na recriação de uma corrente revolucionária na classe operária. Sendo assim, o seu caráter predominantemente pequeno-burguês foi reforçado, e um círculo vicioso foi perpetuado.

Tendo sido dito tudo isso, permanece verdade que o legado da luta de toda a vida de Trotski, cujos últimos anos foram levados sob condições inacreditavelmente difíceis, é imensamente valioso. Para todos os marxistas, para quem o marxismo é uma síntese da teoria e da pratica, (e no somente uma interpretação mais o menos acadêmica do mundo,) o legado de Trotski é uma contribuição indispensável a essa síntese nos dias de hoje.

Notas

1.   Ver The Moscow Trials: An Anthology, London: New Park 1967, p.12.

2.   Ver I. Deutscher, The Prophet Outcast (O Profeta Banido), New York: Vintage 1964, p.171.

3.   Trotsky, “Fighting against the stream”, Writings of Leon Trotsky 1938-39, N.York: Pathfinder Press 1974, p.251-52.

4.   Trotsky, “The death agony of capitalism and the tasks of the Fourth International” (Programa de Transição), Documents of the Fourth International, New York: Pathfinder Press 1973, p.180.

5.   Trotsky, “The USSR in war”, In Defence of Marxism (Em defesa do Marxismo), London: New Park 1971, p.9.

6.   Trotsky, “The death agony…”, op.cit. p.183.

7.   Ibid. p.182.

8.   Trotsky, “The Comintern’s liquidation congress”, Writings of Leon Trotsky 1935-36, New York: Pathfinder Press 1970, p.11.

9.   Trotsky, “The USSR in war”, op.cit. p.10.

10. M. Kidron, Western Capitalism Since the War, Harmondsworth: Penguin 1967 p 11.

11. Trotsky, “The founding of the Fourth International”, Writings of Leon Trotsky 1938-39, op. cit. p.87.

12. Trotsky, “The death agony…”, op. cit. p.183.

13. Trotsky “The USSR in war”, op. cit. pp.4-5.

14. Ibid p.21.

15. Ibid. p.18.

16. Trotsky, The Revolution Betrayed (A Revolução Traída), London: New Park 1967, pp.245-46.

17. Trotsky, “Ten years”, Writings of Leon Trotsky 1938-39, op.cit. p.341.

18. Marx, Poverty of Philosophy (A Miséria da Filosofia), London: Lawrence&Wishart 1937, pp.129-30.

19. Marx, “Wage labour and capital” (Trabalho Assalariado e Capital), Selected Works of Marx and Engels,London:         Lawrence & Wishart 1934, pp.265-66.

20. T. Cliff, State Capitalism in Russia, London: Pluto Press 1974, p.276.

21. Trotsky. “The USSR in war”, op.cit. pp.16-17.

22. Isaacs, The Tragedy of the Chinese Revolution, Lottdon: Secker & Warburg 1938, p.394.

23. Ver T. Cliff, “Permanent Revolution”, International Socialism, 1962, No.12, p.17.

24. Ibid. p.18.

25. Ibid.

26. Ibid.


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