Comuna
de Paris: última revolução plebéia ou primeira revolução proletária?{1}
Daniel
Aarão Reis Filho
1. Paris, cidade-luz, cidade-trevas
Para
começar, o palco, onde se verificaram
os acontecimentos. Ao longo do século
XIX, a cidade de Paris manteve o ritmo de crescimento que já a tornara, há
muito, a primeira cidade de França e uma grande metrópole mundial. No primeiro
terço do século a população praticamente duplicou: de 500 mil, em 1800, para
cerca de um milhão, em 1836. Em 1872, quase uma outra duplicação: 1.800 mil
habitantes. Aspirando para si praticamente todo o crescimento demográfico
francês , 2/3 de sua população ativa ganham a vida como assalariados, metade
vive do trabalho manufatureiro.
O
vertiginoso crescimento, no entanto, não subverteu as estruturas sociais,
industriais e urbanas tradicionais. As atividades econômicas principais, a
importância relativa das pequenas empresas e dos pequenos patrões, a composição
da população, a relação entre patrões e assalariados, aspectos que reiteram mas
do que alteram as realidades do início do século. Neste sentido, do ano II da
Grande Revolução Francesa a 1871, Paris
est resté Paris{2}. Dados
sobre suas estruturas sociais o atestam de forma eloqüente: em 1848, 346 mil
assalariados e 58.500 patrões. Em 1872,
454 mil assalariados, cerca de 80 mil patrões. Mantida, portanto, uma
proporção entre patrões e empregados oscilando de 1 para 5 a 1 para 6.
As
condições de organização e exploração da força de trabalho reproduzem padrões
da assim chamada primeira revolução industrial: jornadas de trabalho extensas,
alcançando, às vezes, 15 a 16 horas por dia, recurso indiscriminado ao trabalho
feminino e infantil, quase nenhuma proteção institucionalizada, insalubridade
na habitação e no lugar de trabalho, surtos de desemprego, fome e miséria,
apartheid social e geográfico, intensamente acelerado pelos grandes trabalhos
de Haussmann, que modificaram a paisagem da cidade deixando intocadas as
estruturas sociais, expulsando a plebe urbana para o sul e para o norte de
aglomeração parisiense. Em suma, Paris já é cidade-luz, mas conserva sombras
pesadas, cidade-trevas, semelhantes às
pintadas por Hugo, Dickens e Engels{3}:
os trabalhadores como cidadãos de segunda classe, uma gente não-gente,
sem direitos, marginalizada, sufocada.
Dilacerada
pelas contradições internas, a cidade ergue-se, com suas tradições
revolucionárias, de 1789, 1792, 1830 e 1848, no contexto de uma França
basicamente rural e conservadora{4},
de 36 milhões de habitantes, onde 70% da população vivem no campo ou em cidades
de menos de dois mil habitantes.
2. A guerra franco-prussiana: estopim de
uma revolução involuntária
A década anterior à eclosão da Comuna assistiu, entre os mitos e a
demagogia próprias do reinado de Napoleão III, a uma real, embora limitada,
abertura para os trabalhadores franceses. Expressão maior desta tendência foi a
aprovação de uma lei de greve, de 1864, permitindo-se, com restrições, os
movimentos de paralisação do trabalho (era formalmente proibido o recurso aos piquetes,
associados ao uso da violência, severamente coibida e sancionada). Lembre-se
ainda a ida de uma delegação francesa, oficialmente autorizada, ao encontro internacional realizado em
Londres, em 1864, que resultou na formação da Associação Internacional dos
Trabalhadores, AIT.
Paris
(re)organiza-se. Um autor conseguiu relacionar cerca de quatrocentas sociedades
cooperativas de consumo, mais de cem sociedades cooperativas de produção,
duzentas sociedades de poupança e crédito mútuo, cerca de sessenta sociedades
de resistência e solidariedade, outras sessenta câmaras sindicais operárias e
muitos outros grupamentos, bibliotecas populares, círculos educativos, etc....{5}.
Um mundo não tão visível dos bulevares, mas agitado, em efervescência. E que
investe na recuperação da memória. Para
esta atmosfera de reatamento de laços perdidos, contribuirá a popularização de
toda uma literatura política, sobretudo uma notável redescoberta do passado revolucionário, concretizada na edição de
biografias de lideranças, sem contar obras sobre correntes políticas, aspectos
particulares da Grande Revolução e a reedição dos Classiques de la Révolution ( Robespierre, Marat, Danton,
Vergniaud, etc.), em 1867-1868{6}
.
É a este caldeirão que chegaram as notícias
desmoralizantes das derrotas de Wissemburg (04 de agosto) e de Forbach (06 de
agosto), seguidas, menos de um mês depois, pelas do desastre de Sedan (01-02 de
setembro de 1870). A guerra franco-prussiana, urdida por ambições e causas
imediatas amplamente ignoradas, ou mal dominadas, subitamente deflagrada, provocara, no entanto, como sempre,
quando o inimigo é o prussiano, um
surto nacionalista. A sucessão de derrotas desencadeou movimentos de indignação
e protesto. Por outro lado, afluíam
também as notícias das primeiras demonstrações de descontentamento,
iniciadas na província: manifestações
em Creusot e tentativa de proclamação de uma Comuna em Marselha (08 de agosto),
proclamação de uma Comuna em Lyon (13 de agosto){7}.
A
proclamação da República, em 04 de setembro, configura a recusa à capitulação
e a decisão de resistir{8}.
A França parece não se querer vencida, desvencilha-se do Império e do
Imperador, como que atribuindo a
derrota ao regime e ao seu supremo chefe. Forma-se então um governo de Defesa
Nacional, sugerindo-se o início de uma segunda etapa na guerra, ou de uma
segunda guerra.
Entretanto,
depois de alguns sucessos na região do rio Loire, desmoronaram os exércitos
franceses. O armistício de 28 de janeiro de 1871 suspende as operações
militares e autoriza o desfile dos prussianos em Paris. Com uma ressalva, e de
capital importância, a Guarda Nacional, formada pelos cidadãos mobilizados de
Paris, mantém-se intacta, e armada, com
o controle dos seus canhões .
Enquanto
os exércitos alemães acampam nas cercanias de Paris (leste e norte), abrem-se as conversações para a assinatura
de um tratado de paz.
Do
lado das elites, amparadas nas eleições legislativas de 08 de fevereiro de
1871, das quais resultaram uma Assembléia terrivelmente conservadora, e mesmo inclinada
à restauração da monarquia, há o medo, a perspectiva da fuga (transferência da
sede da Assembléia para Bordeaux), o capitulacionismo. As medidas do governo
falam por si mesmas: rejeição das pressões no sentido de uma preparação eficaz
de Paris para resistir aos prussianos, suspensão dos soldos da Guarda Nacional,
visando sua desmobilização, normalização das cobranças das dívidas,
suspensas desde o início da guerra.
Paris
observa desconfiada o governo republicano provisório, mais inclinado a conciliar com as elites rurais
conservadoras e a liquidar a guerra a qualquer custo do que a liderar as massas
urbanas numa resistência desesperada, baseada na levée en masse{9},
como em 1792. O governo provisório responde na mesma moeda: também desconfia
das Comunas urbanas turbulentas e de Paris
em particular: massas fora do controle, perigosas.
É
nesta atmosfera carregada que o governo resolve assumir o controle dos canhões
da Guarda Nacional. Uma decisão delicada. Com efeito, estava ali em jogo uma
questão militar: eram 227 canhões,
tinham um razoável poder de fogo e, no caso de uma reabertura
desesperada do conflito com os prussianos, desempenhariam certamente um papel.
Mas pesava sobretudo o simbolismo de terem sido adquiridos numa subscrição
popular amplamente participada. Não eram quaisquer canhões. Pertenciam à cidade
e assim eram considerados por ela.
À ordem de transferi-los para o governo, a
cidade respondeu com a insubordinação. Frustrou a tentativa. E fuzilou os
chefes que pretendiam concretizá-la. A surpresa. O governo retrucou com a fuga
para Versalhes, suscitando velhos fantasmas. Desgovernada, a cidade
amotinada deslizou para a revolução,
quase involuntariamente{10}.
A
três dias do início da primavera, aos
dezoito dias do mês de março de 1871
tinha início a trágica experiência da
Comuna de Paris.
3. A
constituição da Comuna: medidas e programa
As medidas sociais tomadas pela Comuna foram tímidas, aquém mesmo dos
programas socialistas da época{11}.
Entre as principais, sempre referidas nos relatos e trabalhos sobre o assunto,
figuraram a suspensão das cobranças das dívidas e dos aluguéis, a abolição do
trabalho noturno e a das agências de
emprego{12},
a suspensão da venda de objetos penhorados.
A
Comissão do Trabalho, verdadeiro ministério
do trabalho da Comuna, controlada pelos Internacionais sob a direção de
Frankel, chegou a formular, em 16 de abril,
um dispositivo revolucionário, autorizando os trabalhadores a assumirem
as empresas de patrões fujões, colocando-as em funcionamento. Teve pouco
efeito prático: quando do esmagamento da Comuna, apenas uma empresa confiscada
estava em funcionamento...{13}
Os
trabalhadores também conseguiram da Comuna reserva do trabalho estatal
disponível para as associações operárias de produção. Além de um esboço de
legislação favorável à proteção do trabalho feminino e infantil.
Na
época assumiram grande impacto, pelo seu valor simbólico, as medidas que estabeleceram a laicização do
Estado: o fim dos subsídios às religiões (leia-se: à religião católica), o
ensino laico e a separação radical entre o Estado e a religião. A explosão de
tendências anti-clericais, tradicionais entre os trabalhadores franceses, dado
o comprometimento frequente e ostensivo dos padres com a ordem dominante, levou
ao saque de alguns conventos e igrejas, à prisão de algumas dezenas de padres e
à de alguns dignitários, como, por exemplo, a de Monseigneur Darboy. Alguns
seriam fuzilados nos últimos estertores da Comuna. Tudo isto foi muito bem explorado pela propaganda anti-Comuna,
criando-se uma associação - falsa - entre a Comuna e o sectarismo
anti-religioso. Na verdade, quase todas as igrejas de Paris permaneceram
abertas e em funcionamento{14}.
O que não desmerece o fato de que a descristianização do Estado representou
a retomada marcante da proposta de uma
república laica.
Foi
no campo político, entretanto, que a obra da Comuna, seguramente, adquiriu
maior relevância histórica. Em questão, o princípio, já enunciado desde
1789-1792, da soberania popular. As
modalidades de sua aplicação projetaram-se como lições para o futuro, e seriam,
mais tarde, nos embates que haveriam de vir, assumidas pelas alas mais radicais dos partidos e organizações
operárias e revolucionárias: elegibilidade de todos os cargos (administrativos,
judiciais e educacionais), através do sufrágio universal; revocabilidade
imediata de todos os eleitos pelos eleitores;
remuneração dos mesmos, segundo referências comuns aos trabalhadores;
mandatos imperativos; supressão do serviço militar obrigatório e do exército
permanente.
Assim
como, na esfera da produção, o repúdio à intermediação havia levado à extinção
das agências de contratação de mão de obra, no campo político, repudiava-se o
conceito de representação em proveito
das formas e procedimentos próprios da
democracia direta. O representante
era substituído pelo mandatário. Daí a revocabilidade a qualquer momento, os
padrões de remuneração, o mandato
flexível e imperativo. Nesta lógica, a
soberania popular não fica a mercê de nenhuma agência específica (exército
permanente e polícia), mas é garantida pelo povo
em armas.
Mas
Paris fizera uma revolução parisiense, conscientemente
auto-limitada. A esperança de que
seria possível formar uma federação de comunas (formulação prudhoniana),
frustrada com a derrota das tentativas revolucionárias em Marselha, Lyon,
Narbonne, Limoges e Toulon, entre outras, fez desta auto-limitação um alçapão.
Nele
Paris ficou enredada. À espera do massacre.
4. A
Comuna sob cerco
Em começos de abril, os communards
fizeram suas primeiras, e últimas, tentativas sérias para testar a
consistência das malhas da rede em que se encontravam. Perderam homens e chefes
preciosos (Duval e Flourens). O cerco fechara-se. A oeste e sudoeste, as tropas
do exército do governo de Versalhes. A leste e a norte, os prussianos. Por
sobre as diferenças nacionais, o acordo internacional das elites para
exterminar a revolução que vinha de baixo, colocando em questão a ordem social
e a proposta de capitulação, configurada no
tratado de paz que se preparava.
Progressivamente,
na medida das concessões do governo versalhês, os prussianos autorizaram a
libertação de soldados e chefes prisioneiros. Graças a eles, pode o cerco
reforçar-se, de 30 mil para 80 mil, depois, para 130 mil soldados. Assim, os
derrotados na guerra nacional contra o estrangeiro poderiam dedicar-se à guerra social contra seus próprios
compatriotas.
Do
lado dos revoltosos, e dos que simpatizavam com sua causa, também surgiram tentativas de
internacionalização do conflito. Como exemplos, entre outros, o trabalho incansável da Associação
Internacional dos Trabalhadores (AIT) e as denúncias do jovem partido
social-democrata alemão, recém-formado, contra as políticas anexionistas e
imperialistas do Estado germânico. A seu favor, no entanto, tinham apenas
palavras. Resistência simbólica. Fixação de
referências para o futuro.
Em
embrião, um confronto internacional, onde os aspectos sociais prevaleceriam
sobre os nacionais. No episódio da Comuna, sem dúvida, prevaleceram. O partido
prussiano da ordem, vencedor, deu as mãos ao partido francês da ordem,
perdedor, para, em conjunto, arrasarem e silenciarem o questionamento dos que
recusavam os termos e a sorte da guerra que vinha de terminar. Era a desordem,
e precisava ser vencida.
Nesta
nova guerra, um novo tipo de guerra, os
communards não eram adversários, e nem mesmo inimigos. Como
encarnação da desordem, seriam tratados
como bandidos.
6. A
caça ao homem e a semana sangrenta
Hana Arendt, em suas reflexões sobre o nazismo, chegou à idéia de que o
Holocausto e a banalização do Mal tinham precedentes no extermínio dos povos
colonizados{15}. Com
efeito, desde que fosse possível considerar o outro como sub-raça ou/e não-pessoa,
tornar-se-ia possível e viável
racionalizar a matança indiscriminada. Os europeus o fizeram na África e na Ásia, antes dos nazistas empregarem o
mesmo procedimento contra os judeus. Foi o que o partido da ordem francês fez
contra a Paris insurreta.
As
tropas do governo mataram entre 20 a 35 mil pessoas. Não se está falando de vítimas de guerra, tombadas em enfrentamentos, ou alcançadas por
balas perdidas, inevitáveis em conflitos armados, mas em fuzilamentos sumários,
matança mesmo. O correspondente de um jornal inglês diria que “mesmo para os
autores das execuções seria verdadeiramente impossível saber quantos eles
mataram”{16}.
Em
três ondas sucessivas, 150 mil soldados lançaram-se sobre a cidade. A firmeza
que faltara no confronto com os prussianos, na guerra de caráter nacional,
haveriam agora de mostrar no confronto
contra os revoltosos, na guerra de caráter social. Morreram dez vezes mais
pessoas do que em 1848, cinco vezes mais do que no Terror da Grande Revolução.
Morreram à moda colonial, sobretudo no curso da última semana de resistência, a
semana sangrenta, entre 21 e 28 de
maio. Depois cairiam mais cerca de 7 mil, à moda jurídica, depois de presos,
executados pelos conselhos de guerra, em nome da Lei.
Em
agosto de 1871, quase três meses após o fim da revolução, ainda havia, segundo
os relatórios oficiais, 36.309 presos, entre os quais 1.054 mulheres e 615
crianças menores de 16 anos. A Comuna, enquanto durou, prendeu 3.632 pessoas,
ou seja, comparando-se com seus inimigos, a proporção de presos é de um para
dez. Na análise das vítimas fatais, amplia-se a desproporção. A Comuna executou
cerca de uma centena de presos. Pelos cálculos mais restritivos, Versalhes
executou 20 mil. A proporção salta de um para duzentos.
O
contraste. O ódio social. A vontade de exterminar a canalha, que ousara desafiar a Ordem.
No
final, a população de Paris reagiu com a energia dos que estão à beira do fim.
No cemitério de Père Lachaise foram 36 horas de combates encarniçados e
sangrentos. E a última falange de desesperados resolveu então queimar a cidade,
incendiou-se a cidade-luz. Durante
muitos anos, a literatura branca mal
falaria deste fogo, acusando de vandalismo
os communards, propagando
sintomaticamente o mito nunca verificado das petroleiras, mulheres desesperadas, de vida fácil, irresponsáveis,
intratáveis, que, desprezando o patrimônio da nação, atearam fogo em riquezas
históricas.
Mas
os monumentos nunca foram inocentes. As
chamas nas Tulherias, no Ministério das
Finanças, na Biblioteca do Louvre, no Quai d’Orsay, no Conselho de Estado, no Palácio da Legião de Honra, na Caixa de
Depósitos, na casa de Thiers, chefe do governo e carrasco em chefe, na coluna
da praça Vendôme, na Capela Expiatória de Luis XVI, entre muitos e muitos
outros edifícios, representaram o fogo
da despedida. A demolição da Paris-espetáculo,
num horrendo espetáculo, luz sobre luz,
iluminando e denunciando a carnificina, soava como o epitáfio de um povo
expulso e massacrado, como se quisesse deixar uma palavra antes de sair de
cena: o povo não haveria de ter Paris,
mas Paris, aquela Paris, não seria
de mais ninguém...
Fim
de uma luta, de uma tradição, de um povo, de uma época...
7. Reflexões
sobre uma derrota ou a atualidade da Comuna
O estudo minucioso da experiência dos communards parisienses, comparando-a
inclusive com os precedentes movimentos revolucionários do longo século XIX,
evidencia a Comuna de 1871 como herdeira direta das tradições da Grande
Revolução Francesa e das insurreições urbanas de 1830 e 1848. Aspectos
programáticos, formas de luta, referências ilustres e legitimadoras, canções,
símbolos, um fio condutor - vermelho - percorre toda esta trajetória que vai
dos sans-culottes do Ano II aos communards de 1871{17}.
Neste
sentido a Comuna de Paris é a culminância de um ciclo, a forma mais acabada de
um projeto de resistência à Ordem, a última revolução de uma plebe urbana,
fator de constante instabilidade, pesadelo e má consciência, turbulência e
perigo para os homens bons. Nas
décadas seguintes, estes plebeus cederiam lugar, como núcleo da insatisfação e
da mobilização populares, aos operários da grande indústria, cérebros e
músculos de uma nova proposta de organização e ação: os sindicatos e os
partidos socialistas nacionais.
O
que fez perder a Comuna de Paris?
1. A
auto-limitação parisiense.
Daí a não perseguição ao governo
fujão, quando do episódio da luta pelo controle dos canhões da Guarda Nacional.
Um tribuno da plebe na época diria mesmo que o povo, por estar cansado da
opressão, recusava-se a impor suas formas específicas de revolta ao resto do
país.
A
esperança, fundada nas notícias que davam conta de tentativas em outras comunas
do país, era a de que o processo revolucionário contagiaria. Se a hipótese se
confirmasse, seria possível formar uma federação de comunas, um poder
descentralizado, radicalmente distinto do tradicional centralismo parisiense,
caro à ordem vigente.
A
proposta de auto-limitação, comum a todas as revoltas locais daquele momento,
deu fôlego ao governo de Versalhes. Centralizado, e com o precioso apoio
prussiano, pode agrupar suas forças e derrotar, uma a uma, todas as comunas
entrincheiradas em seus muros particulares.
A
auto-limitação, no entanto, não pode ser concebida como um erro acidental. Foi parte integrante da proposta de um poder
alternativo federado, descentralizado.
2. O
anti-militarismo dos revolucionários.
A
dissolução do exército permanente exprimia uma desconfiança histórica. Agravada
pelo ressentimento face à catástrofe diante dos prussianos. Além de ociosos e
parasitas, os militares eram incompetentes. A gota d’água final veio com a
tentativa de tomada dos canhões. O povo em armas substituiria o exército.
A
contrapartida desta proposta foi um certo relaxamento do ponto de vista da
constituição de uma força armada alternativa, disciplinada, coesa, eficaz. Teria
sido possível aos communards
construí-la, eles que vinham exatamente
de demolir um exército?
3. A
inexistência de um programa revolucionário e as divisões da Comuna
Com
efeito, a Comuna não tinha previamente elaborado um programa. Mais uma
insuficiência. Como exigi-lo de um movimento involuntário? Que começou como
insubordinação, transformou-se
em motim, e virou revolta, antes de se apresentar como revolução?
Por
outro lado, a Comuna, uma vez eleita, pareceria muitas vezes uma torre de
babel. Muitos quiseram ver em seus mandatários um grupo de bavards{18}. Uma
assembléia dividida em tendências disparatadas: blanquistas, jacobinos,
internacionalistas, por sua vez, também fragmentados em proudhonianos,
bakuninistas, centralistas, etc. Abstraindo-se o anelo, implícito nesta
crítica, de um partido único e unificado, é de se perguntar como poderia
enfrentar a Comuna, nestas condições, um governo centralizado, dotado de uma
vontade única, ditatorial?
Todas
estas observações críticas fizeram parte da avaliação formulada por K. Marx em
seu ensaio já referido: A Guerra Civil na França. Trata-se de uma releitura da
Comuna de Paris. As insuficiências
caracterizadas, integrantes da experiência da Comuna, passaram a se apresentar como
erros, a serem reconsiderados, e corrigidos, em próximos embates.
Esta
linha de interpretação foi consagrada pela Internacional Socialista, de 1889,
retomada pela Internacional Comunista, a partir de sua fundação, em 1919, e
estudada com atenção pelos bolcheviks e pelas alas mais radicais do movimento
socialista. Para todos estes, a narração de K. Marx tomou o lugar do processo
histórico realmente existente. E, assim,
a última revolução plebéia
transfigurou-se em primeira revolução
proletária.
Quando
chegou a sua vez, os bolcheviks imaginaram
ter aprendido a lição. O fantasma da Comuna muito os perseguiu,
sobretudo nos primeiros momentos posteriores à
revolução Outubro. Mais
tarde, trataram de apresentar uma
leitura dos acontecimentos de 1917 onde se destacaram a perseguição implacável
dos inimigos, explorando-se com conseqüência os primeiros triunfos; a formação
de um exército vermelho para derrotar
os exércitos brancos inimigos; e de
um centro revolucionário, onde os bavards
não tiveram vez, capaz e eficiente na destruição do inimigo
contra-revolucionário. Foram vitoriosos. O balanço da experiência vitoriosa
foge aos limites deste artigo, mas se
encontra até hoje sob escrutínio.
A
partir dos anos 80, com a desagregação do socialismo soviético, a revolução
parece ter passado de moda. Definitivamente, segundo os ditames do capitalismo
triunfante.
Entretanto,
a euforia pela liquidação dos inimigos, a desregulamentação
selvagem que vem se seguindo, a radicalização das desigualdades em cada
país, e em todo o mundo, a arrogância com que se retomam padrões de exploração
e opressão que pareciam abandonados no quadro do Estado do Bem-Estar, talvez
autorizem a hipótese, num prazo mais curto do que longo, da reatualização de
propostas revolucionárias.
Para
os partidários da Ordem e para os mais timoratos, a Comuna de Paris só trouxe
desgraças e mortes. Deveria ser esquecida, relegada à História, no pior sentido
da expressão, ou seja, enterrada no passado, no museu das coisas que não
voltarão a se repetir.
Mas
a Comuna de Paris, em suas versões plebéia
e proletária, exprimiu também a esperança de construir uma
alternativa de vida. Além disso, apesar de derrotada, teve notável eficácia
histórica, já que parece impossível refletir sobre todos os avanços sociais
posteriores, sem levar em conta a sombra
do espectro da Comuna.
Hoje,
quando estes avanços estão ameaçados, ou já em franca reversão, não valerá a
pena repensar a experiência da Comuna e sua impressionante lição de dignidade e
de destemor?
Se
mantiveremos esta perspectiva, nestes tempos sombrios de mesmice e conformismo,
já estaremos honrando a memória dos communards,
como se não tivessem lutado em vão, como se fosse, sempre, possível aprender
com sua experiência.
Daniel
Aarão Reis Filho
Palestra
apresentada em outubro de 1996
Artigo
concluído em abril de 1997
{1}O presente artigo, com ligeiras modificações, reproduz palestra efetuada na Universidade Estadual de Londrina (UEL), em 18 de outubro de 1996, na Semana comemorativa do 125º aniversário da Comuna de Paris, promovida pela Associação de Docentes da UEL.
{2}Paris continuou a mesma. A frase e os dados são de Jacques Rougerie: Mil huit cent soixante et onze. In Le Mouvement Social, nº 79, avril-juin 1972, Les Editions Ouvrières, Paris, 1972, pp. 60 e segs. Este número de Mouvement Social foi integralmente dedicado ao Colóquio Universitário organizado por ocasião do centenário da Comuna de Paris, em 21-23 de maio de 1971.
{3}Victor Hugo: Os Miseráveis. Ch. Dickens: David Copperfield. Fr. Engels: A situação da classe trabalhadora na Inglaterra.
{4}Nesta “França profunda” é preciso, porém, registrar a existência de alguns núcleos urbanos importantes, onde também são fortes as contradições e os movimentos sociais. Como se verá, em alguns deles, como por exemplo, em Marseille, em Lyon, em Grenoble, entre outros, paralelamente à Comuna de Paris, haverá também a eclosão de “Comunas” revolucionárias. Cf. Jeanne Gaillard: Communes de province, commune de Paris, 1870-1871, Flammarion, Paris, 1971. Ou seja, é problemática a idéia de uma antinomia muita rígida entre uma Paris revolucionária e uma França reacionária.
{5}Denis Poulot, Le Sublime, Paris, 1872, p. 294, citado por J. Rougerie, op. cit., p. 72.
{6}J. Rougerie, op. cit., p. 66
{7}Os dados e acontecimentos na província foram extraídos, fundamentalmente, da obra de Jeanne Gaillard, já referida na nota 4.
{8}É interessante notar que J. Gaillard enfatiza um fato não tão conhecido: as cidades de Marselha e de Lyon proclamaram a república antes de Paris.
{9}Mobilização/conscrição de todos os cidadãos numa perspectiva de salvação nacional.
{10}Karl Marx, em seu ensaio sobre a Comuna, A Guerra Civil na França, apontaria o fato de os communards não terem perseguido imediatamente o governo provisório em seu reduto de Versalhes como um erro fatal, na medida em que permitiu aos inimigos da Comuna recuperarem o fôlego, reagruparem forças e passarem ao ataque. Entretanto, a decisão de explorar a vitória pressupunha um projeto revolucionário que, na verdade, não havia. Foi mais uma insuficiência do que um erro. Em qualquer caso, fatal, e aí Marx teve razão. Lenin e os bolcheviks não esqueceriam a lição...
{11}No colóquio do centenário da Comuna, cuja publicação é referida na nota 2, este ponto de vista é defendido com muita veemência, entre outros, por M.E. Labrousse, p. 79 e segs.,in Le Mouvement Social, nº 79, op. cit.
{12}Tais empresas desempenhavam um papel de intermediárias entre patrões e empregados, exacerbando os padrões de exploração. Eram detestadas pelos trabalhadores.
{13}J. Rougerie, op. cit., p. 72
{14}J. Chastenet: La semaine sanglante, La Commune, in Historia, nº 235, p. 102, Paris, 1971
{15}H. Arendt: O totalitarismo
{16}Referências a respeito do morticínio estão em A. Lanoux: Que voulait la Commune? in Historia, nº 294, p. 86-94, Paris,
{17}Este parece ser o consenso entre os principais participantes do Colóquio do centenário da Comuna, organizado em 1971 (cf. nota 2).
{18}Literalmente: conversas-fiada, jogadores de conversa -fora, termo utilizado já na época por Vaillant, um dos chefes do movimento (então blanquista) e retomado por J. Rougerie e M.E. Labrousse no debate por ocasião do Colóquio sobre o centenário da Comuna de Paris, op. cit., p. 87