Cheguei até aqui

José Saramago

Artigo do escritor português e prêmio Nobel de literatura, José Saramago, sobre a perseguição e execução de dissidentes cubanos. O artigo foi publicado no jornal espanhol "El Pais" no dia 14 de abril de 2003 e traduzido ao português por um voluntário do CMI.

Cheguei até aqui. De agora em diante, Cuba seguirá seu caminho e eu fico. Divergir é um direito que se encontra e se encontrará inscrito com tinta invisível em todas as declarações de direitos humanos passadas, presentes e futuras. Divergir é um ato irrenunciável de consciência. Pode ser que divergir conduza a traição, mas isso sempre tem que ser demonstrado com provas irrefutáveis. Não acredito que se tenha agido sem deixar margem à duvidas no julgamento recente de onde saíram condenados a penas desproporcionais os cubanos dissidentes. E não se entende, se houve conspiração, porque não foi expulso o encarregado da Seção de Interesses dos EUA em Havana, a outra parte da conspiração.

Agora chegam os fuzilamentos. Seqüestrar um barco ou um avião é um crime severamente punível em qualquer país do mundo, mas não se condena a morte os seqüestradores, principalmente tendo em conta que não houve vítimas. Cuba não ganhou nenhuma batalha heróica fuzilando esses três homens, mas perdeu minha confiança, quebrou minhas esperanças, traiu meus sonhos. Cheguei até aqui.


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