Sobre o Primeiro de Maio

Por Emilio Gennari

Texto que ajuda a resgatar a história e o sentido do 1º de Maio.

Nádia, a coruja, fala do 1º de Maio.


Tarde de domingo. A preguiça tenta desesperadamente atrasar o passar das horas que leva a mais uma semana de trabalho. O gostinho de liberdade da sexta-feira começa a ser acorrentado pela perspectiva do reencontro com a rotina de sempre. Em busca de alívio, os olhos correm as folhas do calendário enquanto o coração comemora os dias marcados como feriado. Afinal, toda folga significa lazer, descanso, uma corrida ao shopping e um tempo maior longe do serviço.
A minha cabeça viaja nas asas destes pensamentos quando seu vôo é bruscamente interrompido por um grito estranho.

- “Eu não acredito! Vocês, humanos, só pensam nisso. Parece que o calendário é feito apenas para marcar os dias de folga e os feriados!”, me diz uma voz desconhecida que vem detrás de uma pilha de livros mal-amontoados num canto da estante.

- “Por que? Não é assim?”, indago enquanto tento descobrir a quem pertence a estranha sombra que procura espaço para sair da escuridão. O breve silêncio deixado pelas minhas palavras é quebrado por um seco “Não mesmo!” que chega a machucar o ouvido.

- “E você, quem é?”, pergunto sem cerimônias.

- “Sou Nádia, a coruja que se aninhou na sua estante para ler os livros que você deixa aqui pegando poeira”, me responde com ar de reprovação.

- “Era só o que me faltava! Não bastassem as dificuldades do dia-a-dia, agora devo aturar a impertinência de um bicho qualquer que, além de invadir o meu espaço, se dá ao direito de atrapalhar este gostoso fim de tarde!”, retruco na tentativa de voltar ao meu sossego.
- “Huuum! Além de não saber das coisas fica roncando grosso para me intimidar”, murmura Nádia num vôo rápido que a faz pousar na mesa à qual estou sentado.

- “Vai me dizer que o calendário esconde coisas que eu não sei?”, pergunto em tom de desafio. A coruja recolhe as asas e com um olhar maroto retoma a conversa.

- “Por exemplo, você sabe me dizer o que aconteceu no 1º de Maio para ele ser feriado?”.

- “Bom, ...eu sei que foi nesse dia que Ayrton Senna morreu... Lembro que foi num acidente, durante uma corrida de ...”, respondo enquanto tento vasculhar as poucas lembranças guardadas num canto esquecido do cérebro. Sem esperar que eu termine a frase, Nádia deixa escapar uma sonora gargalhada que me cobre de vergonha. Passo a passo, se aproxima, põe a asa esquerda no meu ombro e com uma expressão severa espeta meu ar de superioridade.

- “Já vi que sua memória é curta, que seus olhos só enxergam o que todos vêem e que sua boca repete o que é por demais conhecido. Desse jeito, você não vai conseguir entender o porquê das coisas. Quem olha o calendário só para procurar os feriados não vê que ele é feito de momentos de luta e de resistência que os poderosos procuram apagar. Resgatar estes momentos é uma das ações necessárias para que a vida não seja um eterno conformar-se diante da exploração e nem a busca desesperada de algo que nos ajude a esquecer o sofrimento do dia-a-dia. É com a história nas mãos que a dignidade abre caminhos rumo a um mundo onde há, finalmente, um lugar para todos e não só para um punhado de privilegiados”.

- “Como assim? Você quer me dizer que o feriado de 1º de Maio esconde coisas que eu não sei?”, pergunto como quem não quer se dar por vencido.

- “Muitas!”, responde a coruja piscando os olhos e encostando a asa na pilha de revistas e papéis que está sobre a mesa. E acrescenta: “É uma história que todos deveriam conhecer para poder refletir sobre o seu presente e não se deixar enganar com as ilusões que os poderosos chacoalham diante de seus olhos”.

Entre a vergonha e a curiosidade, me armo de papel e caneta para não perder as passagens desta história. Nádia espera pacientemente que eu esteja pronto. Olha para o alto, coça a cabeça, suspira e, com voz pausada, começa o seu relato: “Bem. Vejamos. Não sei se você já percebeu, mas toda a riqueza que existe ao nosso redor é o resultado do trabalho de milhões de trabalhadores e trabalhadoras que se esfolam de segunda a segunda em troca de um salário com o qual mal chegam ao fim do mês. Isso acontece porque a mixaria que recebem representa só uma pequena parte do que produzem ao longo de uma jornada de oito horas. Trata-se de algo que, no máximo, corresponde a uns cinqüenta minutos de trabalho, enquanto o valor das mais de sete horas restantes fica de graça para o patrão”.

- “Mas, Nádia, o dono da firma onde eu trabalho me paga direitinho e eu recebo por todas as horas trabalhadas. Você tem certeza do que está dizendo?”, pergunto cortando o seu relato.

- “Veja bem, o que você recebe como pagamento de um dia de trabalho corresponde ao que vai produzir das 6.00 horas da manhã até, no máximo, 50 minutos depois. Você tem a impressão de que todo o seu trabalho é pago porque o valor que saiu do seu suor neste curto espaço de tempo é dividido pelas oito horas passadas na fábrica. Por isso, à primeira vista, parece que todo o seu trabalho foi pago, quando, na verdade, a parte maior da riqueza que nasceu dele ficou com o dono da empresa. Sabendo disso, vai entender logo outra coisa importante: quanto mais horas você fica se esfolando, maior é o lucro que o seu patrão vai ter. Certo?”

- “Eu entendi isso, só não consigo perceber o que é que esta questão tem a ver com o 1º de Maio”, insisto com uma certa dose de impaciência.

- “É só você ouvir atentamente que eu vou contar tudo direitinho!”, retruca a coruja batendo repetidamente a pata direita na mesa e colocando a ponta das asas na cintura. E continua: “Você precisa saber que, nas primeiras indústrias, a jornada de trabalho dos operários varia entre 14 e 16 horas diárias. Se isso não bastasse, as fábricas são abafadas, mal-iluminadas e sem nenhuma higiene. Os baixos salários obrigam famílias inteiras a vender sua força de trabalho e nem as crianças de 7 anos são poupadas deste sacrifício. A fome tem um lugar privilegiado em seus lares acompanhada de perto pelas doenças contagiosas que se espalham rapidamente graças às péssimas condições de vida. A morte ronda as famílias operárias e ser levado por ela após os 40 anos é um privilégio para poucos.

É nesta realidade que trabalhadores e trabalhadoras descobrem na solidariedade a primeira forma de diminuir seus sofrimentos e de reagir. É assim que, pouco a pouco, nascem outras idéias e valores que ajudam a entender a situação em que vivem e a dar vida às primeiras ações de resistência. Entre os enfrentamentos mais duros e difíceis está, sem dúvida, a luta pela redução da jornada de trabalho.

Em 1819, por exemplo, os operários da cidade de Manchester, na Inglaterra, realizam uma manifestação contra as injustiças a que estavam submetidos. O chefe do governo não titubeia: manda apontar os canhões contra eles e atira provocando um massacre. Apesar deste desfecho terrível, o movimento consegue a aprovação de uma lei que limita a 10 horas diárias o trabalho das crianças entre 9 e 16 anos. Algum tempo depois, em 1824, os primeiros sindicatos da Inglaterra organizam greves em várias cidades exigindo a jornada de 8 horas e, após vários enfrentamentos, conseguem fazer com que as crianças trabalhem apenas nove horas. Diante desta conquista, os patrões fecham as fábricas e ameaçam não reabri-las caso a jornada não venha a ser fixada em, pelo menos, dez horas. O governo atende à reivindicação dos empresários, mas não consegue deter as greves e os protestos que, em 1847, levarão à conquista da jornada de dez horas para todos os adultos. Coincidência ou não, a nova lei passa a vigorar na Inglaterra a partir de 1º de maio de 1848.

Na França, o início das lutas é um pouco diferente, apesar das condições de vida e de trabalho serem muito parecidas com as da classe trabalhadora inglesa. Em junho de 1830, várias categorias manifestam o desejo de reduzir a jornada para onze horas diárias. Longe de ocupar as ruas e as praças com seus protestos, os trabalhadores e as trabalhadoras optam por apresentar suas reivindicações através de um abaixo-assinado no qual apelam aos representantes da nação para que compreendam que suas necessidades são quotidianas, assim como o é o seu trabalho. A resposta do governo a este movimento pacífico é dada por um decreto que trata as reuniões operárias como uma incitação à desordem e apresenta uma longa lista de punições para quem insistir em realizá-las.

Cortado o caminho do diálogo e destruída toda ilusão na boa vontade dos patrões, a luta se torna mais dura. No dia 1º de maio de 1831, na cidade de Bordeaux, os serradores destroem as novas serras mecânicas e em diversos municípios os protestos terminam em quebra-quebra. Mas a classe trabalhadora francesa terá que lutar por mais de uma década para reduzir a jornada para 10 horas diárias. Esta conquista será novamente derrotada em fevereiro de 1848 quando o governo de Paris põe fim aos protestos operários fuzilando 3 mil manifestantes e deportando outros 4 mil. Retomado o controle da situação, a elite aumenta a jornada de trabalho para 11 horas na capital e para 12 nas demais províncias. Serão necessários longos enfrentamentos para que as oito horas se tornem realidade também na França.

- “Mas, Nádia, uma vez ouvi dizer que o 1º de Maio começou a ser comemorado a partir do que aconteceu nos Estados Unidos?”, pergunto com um ar de indagação.

A coruja me lança o olhar típico de quem não gostou da interrupção. Depois respira fundo, cruza as pernas e limpa a garganta com um sonoro “Hem! Hem!” que sinaliza a retomada do relato.

“Passando agora aos Estados Unidos, não vou perder tempo descrevendo a situação de seus trabalhadores, pois ela não é muito diferente daquela que encontramos na Inglaterra e na França. Sob o peso da miséria e da exploração, em 1827, começam a aparecer vários movimentos pela redução da jornada de trabalho. As lutas prosseguem nos anos seguintes e, em agosto de 1866, o Congresso Operário de Baltimore define a conquista das oito horas como a primeira grande necessidade do presente para libertar o trabalho da escravidão capitalista.

No dia 25 de junho de 1868, diante dos protestos que surgem em várias regiões, o parlamento estadunidense aprova a Lei Ingersoll que fixa a jornada de trabalho em oito horas. Mas ao mesmo tempo em que dita a regra, esta norma abre brechas para as necessidades particulares dos empresários em nome das quais a duração dos turnos acaba sendo invariavelmente superior ao que é por ela estabelecido. Para as organizações operárias este é um sinal claro de que a simples existência da lei não garante a aplicação dos seus direitos. Para isso, se faz necessária uma ampla e constante mobilização que, em nome da Defesa da Ordem, será duramente reprimida nos anos seguintes.
Em abril de 1886, os enfrentamentos explodem em diversas cidades. Vários empresários cedem e aceitam assinar contratos que reduzem a jornada de trabalho para oito horas diárias. Os protestos se alastram pelo país e em Chicago, sede da vanguarda do empresariado americano da época, os patrões preparam o terreno para reprimir as passeatas marcadas para o início de maio. O Chicago Times, um dos jornais que não usa meias palavras para expressar o desejo da elite, escreve: o único jeito de curar os trabalhadores do orgulho é reduzi-los a máquinas humanas, e o melhor alimento que os grevistas podem ter é o chumbo! Mais claro do que isso, impossível.
No dia 1º de maio, a cidade amanhece completamente parada. Milhares de pessoas aderem ao chamado das organizações sindicais cujo lema é: A partir de hoje, nenhum operário deve trabalhar mais de oito horas por dia. Oito horas de Trabalho! Oito horas de repouso! Oito horas de educação!

Como você pode ver, os operários e operárias da época não querem trabalhar menos só para reduzir seus sofrimentos e ter mais tempo para o lazer, mas apresentam a necessidade de estudar como um dos caminhos para aprender a dirigir os passos da vida em sociedade. De fato, para acabar com a exploração não basta trabalhar menos. Para isso devem ser destruídos os mecanismos que fazem girar suas engrenagens ao redor do lucro e, em seu lugar, é preciso construir novas relações que coloquem o ser humano no centro das preocupações de toda a sociedade”, me diz Nádia enquanto usa a ponta da asa para cutucar o meu ombro esquerdo.
Sem esperar as minhas reações, a coruja se recompõe e retoma o seu relato: “Bom. Vejamos. Estava dizendo que, no dia 1º de maio, em Chicago está tudo parado e que a única coisa que se mexe mesmo é uma passeata de milhares de trabalhadores que se dissolve pacificamente após um comício.

Contrariada pelo grau de adesão ao movimento e pelo tranqüilo desenrolar dos protestos, a elite planeja uma série de provocações e agressões às manifestações previstas para a segunda-feira, dia 3 de maio. A polícia se encarrega de viabilizar a estratégia traçada pelos patrões. No início da manhã atira num grupo de operários que protestam diante da fábrica Mc Cornick Harvester. Resultado: dois mortos, cinqüenta feridos e centenas de presos. Diante desses fatos, os líderes do movimento conclamam os manifestantes à calma e convocam um novo ato para o dia seguinte.
Os trabalhadores e suas famílias atendem ao chamado. Quando a manifestação começa a se dispersar, cerca de 180 policiais agridem e espancam quantos encontram pelo caminho. Neste instante, uma bomba vinda não se sabe de onde explode no meio dos guardas. É o sinal da carnificina. Em poucos minutos, reforços policiais chegam de toda parte atirando e matando inúmeros manifestantes. As autoridades decretam o estado de sítio. Milhares de trabalhadores e trabalhadoras lotam as prisões. A imprensa concentra seus ataques nos líderes do movimento.
A justiça age rapidamente e leva diante dos tribunais August Spies, Sam Fielden, Oscar Neeb, Adolph Ficher, Michel Schwab, Louis Lingg e Georg Engel. O julgamento começa no dia 21 de junho de 1886. Logo na abertura, Albert Parsons, que havia conseguido escapar da prisão, entra no tribunal e declara: Excelência, vim para ser processado com os meus companheiros inocentes. O processo corre rápido com provas e testemunhas inventadas. As palavras de um jurado revelam o sentido desta farsa: Que sejam enforcados. São homens desenvolvidos demais, inteligentes demais, perigosos demais para os nossos privilégios. A sentença condena a morte Parsons, Engel, Fischer, Lingg e Spies; Field e Schwabb à prisão perpétua e Neeb a quinze anos de cárcere.

Na sala lotada e silenciosa, Spies é um dos que comentam o desfecho do julgamento: Se com o nosso enforcamento vocês pensam em destruir o movimento operário – este movimento do qual milhões de seres humanos humilhados, que sofrem na pobreza e na miséria, esperam a redenção – se esta é sua opinião enforquem-nos. Aqui terão apagado uma faísca, mas lá e acolá, atrás e na frente de vocês, por toda parte, as chamas crescerão. É um fogo subterrâneo e vocês não podem apagá-lo.
No dia 11 de novembro, os condenados à morte são executados. Em Chicago, os patrões respiram aliviados. Apesar do impressionante aparato policial, seis mil trabalhadores carregam com carinho os restos mortais de seus líderes. Em 1892, pressionado pela persistente onda de protestos contra a iniqüidade do processo, o governador do estado anula a sentença, liberta os presos e acusa de infâmia o juiz, os jurados e as falsas testemunhas.

A semente plantada no sangue daqueles dias se torna símbolo de luta no mundo inteiro. Em dezembro de 1888, a Federação Americana do Trabalho aprova a proposta de realizar uma nova greve geral no dia 1º de maio de 1890 para estender a jornada de oito horas a todo o território dos Estados Unidos. Esta decisão acaba tendo repercussão no Congresso Socialista que em julho do ano seguinte reúne em Paris 391 delegados de 20 países. Entre suas decisões, o 1º de maio de 1890 é escolhido como o dia de uma grande manifestação internacional para impor aos poderes públicos a redução legal da jornada de trabalho para oito horas diárias. As dúvidas sobre as possibilidades reais de um enfrentamento destas proporções se somam às divisões do movimento, à repressão das forças policiais e às dificuldades criadas pelas diferentes situações das organizações operárias em cada país. O que os delegados não esperavam é que aquela deliberação para o ano de 1890 acabaria se tornando um marco nas lutas operárias que estavam por vir”.

Nádia pára de falar. Pede uma água para refrescar a garganta. Eu aproveito para dar dois minutos de descanso à mão direita que está escrevendo garranchos piores dos que costumam sair dela. Depois de alguns goles, a coruja dá uma longa espreguiçada e fica me olhando de rabo de olho como quem espera uma pergunta óbvia. Estimulado por este convite silencioso, me aventuro na esperança de acertar o alvo.

- “Olha, Nádia, você falou da Inglaterra, da França e dos Estados Unidos, mas como é que o 1º de Maio foi se desenvolvendo aqui no Brasil?”

Com um sorriso doce e malicioso ao mesmo tempo, a coruja abre as asas como quem se alegra em ver que o meu interesse em conhecer a história desta data ainda não acabou.
- “Eu sabia que você iria me perguntar isso! O sexto sentido de uma coruja não falha! Pois bem, preste muita atenção ao que vou dizer. Em primeiro lugar, vale a pena lembrar que enquanto o Congresso Socialista de Paris delibera sobre o 1º de maio de 1890, o Brasil acaba de aprovar a Lei Áurea com a qual pretende abolir oficialmente a escravidão. A economia da época se baseia, sobretudo, na agricultura e o processo de industrialização é muito lento. A classe operária é ainda pequena e, em 1900, não reúne mais de 55 mil pessoas.

As condições de vida e de trabalho são tão duras quanto as que encontramos nos demais países.

O jornal operário O Combate relata alguns abusos dos patrões que nos ajudam a visualizar melhor esta realidade: Entre eles podemos citar nominalmente o Sr. Crespi porque assistimos ontem à entrada de cerca de 60 pequenos, às 7 horas da noite em sua fábrica da Mooca. Essas crianças, entrando naquela hora, saem às 6 horas da manhã. Trabalham, pois, 11 horas a fio em serviço noturno, apenas com um descanso de 20 minutos, à meia noite! O pior é que elas se queixam de que são espancadas pelo mestre de fiação Silvio dos Remos. Muitas mostram-nos equimoses nos braços e nas costas. Algumas apresentam mesmo ferimentos produzidos com uma manivela. Há uma com as orelhas feridas por continuados e violentos puxões. (...) Trata-se de crianças de 12, 13 e 14 anos.

Apesar desses complicadores, entre 1887 e 1900, encontramos grupos de trabalhadoras e trabalhadores obrigados pela repressão a comemorar o 1º de maio em lugar fechado através de palestras e reuniões. Há também associações sindicais que publicam seus primeiros informativos resgatando os acontecimentos que deram origem a esta data. Outras encenam peças de teatro que retratam a vida operária e a necessidade de somar forças pela redução da jornada de trabalho.
Sentindo o cheiro do perigo, parte da elite brasileira começa a tomar medidas que vão além da simples repressão. Alguns empresários dão início a uma política de esvaziamento do sentido das comemorações do 1º de maio ao torná-las um momento de confraternização com seus funcionários. Para ter uma idéia deste processo, basta ler um pequeno trecho do jornal O Amigo do Povo que fala das celebrações de 1904: os operários da fábrica Globo fizeram manifestações de apreço aos patrões, por estes não terem aderido ao Centro Industrial dos Fabricantes de Calçados, oferecendo-lhes uma cesta de flores, retribuída com um almoço de confraternização.

Sem esperar que esta data se fixe entre os trabalhadores como um momento de luta, os empresários começam a deitar raízes que se fortalecerão nas décadas seguintes.

Dois anos mais tarde, se reúne no Rio de Janeiro o 1º Congresso Operário Brasileiro que sublinha a importância de conquistar a jornada de oito horas. Em suas conclusões, os delegados condenam as festas promovidas pelos empresários, incitam os operários a protestar contra a repressão e a fazer do 1º de maio de 1907 o momento em que o operariado do Brasil impõe a redução da jornada de trabalho.

Marcada a data, as forças vivas do movimento preparam seus protestos e manifestações nas principais cidades do país. No estado de São Paulo, o 1º de maio de 1907 transcorre num clima de tensão e enfrentamentos. Diante dos passos das organizações dos trabalhadores, as autoridades proíbem a concentração marcada pelos sindicatos na Praça da Sé, enquanto soldados e policiais ocupam as ruas do centro. A Federação Operária de São Paulo convoca, então, uma reunião na sua sede para discutir os rumos a serem tomados. Três dias depois, os metalúrgicos da capital entram em greve e várias outras categorias seguem o seu exemplo. A paralisação do trabalho atinge Campinas, Itu, São Bernardo e Santos. O poder reage com a repressão. Muitos manifestantes são presos e espancados e mais de cem emigrantes estrangeiros são expulsos do país.
A amplitude da greve assusta os patrões e não são poucas as empresas que começam a adotar a jornada de oito horas. Mas, no ano seguinte, a crise econômica e o desemprego ameaçam as conquistas já alcançadas e enfraquecem o sindicalismo combativo.

Em agosto de 1914, o início da Primeira Guerra Mundial marca o aumento dos sofrimentos da classe trabalhadora. O conflito transforma nossas exportações aos países europeus num verdadeiro negócio da China para os patrões. Para você ter uma idéia, só em 1917, o Brasil vende à Europa 22 mil toneladas de arroz, 50 mil toneladas de feijão e 30 mil toneladas de carne congelada. No país, os poucos artigos de primeira necessidade que se encontram nos mercados são vendidos a um preço até dez vezes maior. Some esta realidade ao arrocho salarial e às extenuantes jornadas de trabalho e não terá nenhuma dificuldade em perceber que enquanto a guerra enche os bolsos dos capitalistas a fome toma conta dos estômagos das famílias operárias. Com o passar dos meses a situação se torna cada vez mais explosiva e o governo prepara a polícia e o exército para reprimir qualquer revolta popular.

Nos primeiros meses de 1917, várias greves estouram em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os operários têxteis do Rio que faltam ao trabalho para participar das comemorações do 1º de maio são punidos e decidem paralisar a produção. Pouco a pouco, o movimento atinge Petrópolis, Juiz de Fora e se espalha até o Rio Grande do Sul. O seu ponto mais alto é na cidade de São Paulo, em julho do mesmo ano quando, apesar da repressão, o comando de greve chega a controlar a distribuição dos gêneros de primeira necessidade. Os patrões se vêem forçados a atender várias reivindicações, mas se opõem com todas as forças à redução da jornada de trabalho.

A luta vai prosseguir nos anos seguintes com altos e baixos que dependem do grau de organização dos sindicatos e do peso da repressão policial.

No vaivém dos enfrentamentos, a elite procura fazer do 1º de maio um momento que reafirma sua visão da relação entre patrões e trabalhadores. Em 26 de setembro de 1924, um decreto do Presidente da República, Artur Bernardes, transforma esta data em feriado nacional. Ao falar do decreto, a mensagem presidencial enviada ao parlamento no ano seguinte diz: A significação que esta data passou a ter, nos últimos tempos, consagrando-se não mais a protestos subversivos, mas à glorificação do trabalho ordeiro e útil, justifica plenamente o nosso voto.

Não sei se você percebe o que isso significa – me diz Nádia balançando a cabeça -, mas os poderosos criam o feriado de 1º de maio quando ainda não há uma lei que determina a jornada de trabalho de oito horas, motivo das manifestações que deram origem a esta data. Na verdade, a elite brasileira procura se apropriar dela justamente para esvaziá-la do espírito de luta depositado pela classe trabalhadora. Ao tentar substituir os protestos subversivos pela glorificação do trabalho ordeiro e útil, os patrões tratam de alimentar o clima de paz social capaz de garantir a continuidade da exploração.

O 1º de maio como feriado nacional é apenas mais um passo rumo às transformações que são implementadas por Getúlio Vargas entre 1930 e 1945. Alternando boas doses de repressão a algumas migalhas, Vargas consegue derrotar as organizações operárias que criticam o sistema e implementar um sindicalismo dócil aos interesses do estado e dos patrões. É neste cenário que, durante o seu governo, o 1º de maio começa a ser celebrado no estádio do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, onde os operários desfilam homenageando as autoridades presentes”.
- “Mas, Nádia, desse jeito as lutas dos trabalhadores devem ter acabado de vez!”, pergunto coçando a cabeça à procura de respostas para as inquietações que começam a povoar os meus pensamentos.
- “Não”, responde a coruja, “não só elas não acabaram, como se mantêm vivas nas ações de todos aqueles que fazem ecoar novamente o grito de revolta dos primeiros. A rebeldia, a dignidade e a solidariedade são o combustível que alimenta o fogo subterrâneo do qual falava Spies após ouvir a sentença. Os patrões fazem de tudo para apagar as faíscas, mas o fogo faz brotar outras onde eles menos esperam. Veja só esta manchete de primeira página do jornal A Plebe de 1948: Primeiro de Maio é um dia de protesto. Não é a “festa” do trabalho, como afirmam os mistificadores. O trabalho vive escravizado e os escravos não costumam festejar a sua escravidão.

E tem mais. Se você lembrar de alguns passos da história recente, vai perceber que nem a ditadura militar que se instala no Brasil em 1964 consegue apagar este fogo. Você lembra, por exemplo, do 1º de maio de 1980?”, pergunta Nádia sem conseguir esconder o sorriso que invade o seu rosto.

- “Bom... para ser sincero... não. A memória não é o meu forte”.

- “Pois saiba que já no final de março daquele ano os metalúrgicos do ABC paulista dão início a uma longa greve. Em resposta aos protestos, em 17 de abril, o Ministério do Trabalho fecha os sindicatos e cassa suas diretorias. Dois dias depois, a polícia prende arbitrariamente os líderes do movimento, mas nem isso amedronta os trabalhadores e as trabalhadoras que resistem nas fábricas.
Diante dos acontecimentos, uma multidão de homens e mulheres responde às medidas repressivas do governo alimentando a solidariedade com os grevistas. Integrantes dos movimentos populares, das comunidades de base, dos sindicatos, das mais variadas associações e correntes políticas se organizam em todo o país para angariar os fundos que ajudarão a sustentar as famílias dos grevistas.

No dia 1º de maio daquele ano, oito mil policiais armados até os dentes cercam São Bernardo do Campo. O governo ameaça punir as manifestações e interdita o estádio de Vila Euclides, o Paço Municipal e a Praça da Matriz. Mas a participação no ato convocado pelas forças vivas do movimento supera todas as expectativas. Mais de 120 mil pessoas furam o bloqueio da polícia e ocupam os espaços que haviam sido proibidos fazendo tremer as bases da ditadura militar”.

- “Tudo bem, Nádia, mas as coisas não são mais assim. Parece que ninguém se importa com nada. Aliás, a moda agora é o tal do showmício, com direito a bingo e festas organizados até mesmo pelos sindicatos que eram referências de luta...”, digo sacudindo a cabeça como quem acha impossível voltar a ver algo que se pareça com as manifestações do passado.

A coruja me ouve calada. Depois põe as asas atrás das costas e andando de um lado a outro da mesa, me devolve em resposta uma chuva de perguntas. “Por acaso, a exploração acabou? Os trabalhadores e as trabalhadoras estão tão bem assim que hoje já não precisam reagir aos desmandos dos patrões? Você já percebeu que os tapinhas nas costas e os sorrisos que os empresários distribuem nas melhores empresas são retribuídos com o aumento do ritmo de trabalho, da produção e com uma progressiva diminuição do número de funcionários? A classe trabalhadora não reage porque todos os seus membros viraram cordeiros que vão alegres para o matadouro? Ou é porque ainda não conseguiram transformar sua revolta em ação? Até quando vão agüentar calados a retirada dos poucos direitos que lhe restam? Pois, saiba que a dignidade e a rebeldia continuam vivas mesmo quando não conseguem vir à luz em manifestações que sacodem a história. Não são poucas as pessoas que debaixo da terra guardam, protegem e alimentam o fogo do qual falava Spies. O fato dos patrões estarem ganhando não significa que estamos perdidos. O jogo apenas começou, e eles sabem disso.

O que precisamos mesmo é dar forma e cor à esperança, devemos torná-la concreta e coletiva para contagiar mais pessoas e fazer com que não se conformem com o sofrimento. Só assim vão começar a perceber que um novo amanhã depende da nossa capacidade de mudar os rumos da história e não da boa vontade deste ou daquele sujeito. Por isso, comemorar o 1º de maio não é apenas lembrar do passado. É, sobretudo, renovar o compromisso de lutarmos contra toda forma de injustiça e exploração que condenam à fome e ao esquecimento milhões de seres humanos no mundo inteiro”.

Em silêncio, vou escrevendo as últimas linhas desta longa conversa. A cabeça ainda mistura perguntas, relatos, angústias, anseios e não poucas razões de sofrimento. Os olhos não saem do papel ainda que a mão tenha parado de escrever.

Por cima dos óculos vejo Nádia pegar a régua que sai do meio de uma revista. Disfarçando seus gestos encosta uma de suas extremidades na mesa como quem segura um cajado antes de uma longa caminhada. Alguns instantes depois, ela se aproxima e pede para dar uma olhada com um “Anotou tudo direitinho?”, ao qual respondo entregando silenciosamente as folhas. Não sei se ela consegue ler meus garranchos, mas vejo seus olhos correrem rapidamente as linhas do texto.
- “Nada mal. Até que você merece”, murmura com ar satisfeito.

- “Mereço... o que?”, pergunto perplexo enquanto ajeito ao papeis que estão sobre a mesa. Mal consigo acabar de falar que, num gesto rápido, Nádia pega a régua e a bate três vezes na minha cabeça e nos meus ombros dizendo solenemente: “Eu Nádia, nomeio você secretário da ordem das corujas”.

- “E se eu não quiser?”, indago para ter uma noção do futuro que me espera.

- “Tarde demais! Já está feito!”, responde Nádia empinando o bico e olhando disfarçadamente para o alto. “De hoje em diante vai escrever para ajudar grandes e pequenos a refletirem sobre a realidade que os cerca. Mas, agora, vamos fechar logo este texto antes que nossos leitores e leitoras se cansem. Ah! Não esqueça de enviar um abraço e de dizer a todos e a todas que não se assustem com os modernos extintores e os canhões de água dos poderosos. Por muito que tentem, não vão conseguir apagar o fogo que a dignidade, a solidariedade e a rebeldia alimentam.

Assinado: Nádia. A coruja”.


P.S. Passados alguns minutos, consegui convencer a “hospede” da minha estante a me dizer quais foram os livros que andou lendo para contar esta história que eu não conhecia. Aí vão eles:


· ACO, História da classe operária no Brasil, Vol. 1 a 5, Edição da Ação Católica Operária, Rio de Janeiro.

· Edgard Carone, Movimento Operário no Brasil – (1877-1944), Ed. Difel, São Paulo, 1984.
· John W. Dulles, Anarquistas e Comunistas no Brasil – (1900-1935), Ed. Nova Fronteira, 2ª Edição, Rio de Janeiro 1977.

· José Luiz Del Roio, 1º de Maio – Cem anos de luta (1886-1896), Ed. Global/Oboré, São Paulo 1986.

Pelo jeito, vêm mais coisas.

Até breve. Emílio Gennari.

Brasil, abril de 2002.

Email: emiliogennari@osite.com.br